Matthew Henry

Romanos 8

Argumento

O apóstolo, tendo explicado por inteiro a doutrina da justificação e insistido na necessidade da santificação, dedica-se neste capítulo à consolação do povo do Senhor.

Os ministros são ajudadores da alegria dos santos. “Consolai, consolai o meu povo”: é assim que reza a nossa comissão, Isaías 40:1.

É vontade de Deus que o seu povo seja um povo consolado.

E temos aqui um esboço tal da carta do evangelho, uma exibição tal dos privilégios indizíveis dos verdadeiros crentes, que podem nos fornecer matéria abundante para alegria e paz no crer.

Assim, por todas essas coisas imutáveis, nas quais é impossível que Deus minta, podemos ter forte consolação.

Muitos do povo de Deus, por isso mesmo, encontraram neste capítulo uma nascente de consolo para suas almas, na vida e na morte.

Mamaram e se saciaram nestes peitos de consolação, e com alegria tiraram água destes poços da salvação.

Há três coisas neste capítulo:

I. Os casos particulares dos privilégios dos cristãos, vv. 1-28.

II. O fundamento deles, posto na predestinação, v. 29, 30.

III. O triunfo do apóstolo nisso, em nome de todos os santos, v. 31 até o fim.

Versículos 1 a 9

Os Privilégios do Crente. (d.C. 58.)

I. O apóstolo começa aqui com um privilégio notável dos verdadeiros cristãos, e descreve o caráter daqueles a quem ele pertence: Portanto, agora nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus, v. 1.

Este é o seu triunfo depois daquela queixa e daquele conflito melancólicos do capítulo anterior: o pecado que permanece, perturba, atormenta, mas, bendito seja Deus, não arruína.

A queixa ele toma para si, mas humildemente transfere o consolo, junto consigo, a todos os verdadeiros crentes, que todos têm parte nele.

  1. É o privilégio e o consolo indizíveis de todos os que estão em Cristo Jesus que portanto agora nenhuma condenação há para eles.

Ele não diz: “Não há acusação contra eles”, porque essa existe; mas a acusação é rejeitada, e a denúncia, anulada.

Ele não diz: “Não há neles nada que mereça condenação”, porque isso existe, e eles veem, reconhecem, choram por isso e se condenam a si mesmos por isso; mas não será a ruína deles.

Ele não diz: “Não há cruz, não há aflição para eles, nem desagrado dentro da aflição”, porque isso pode haver; mas não há condenação. Podem ser castigados pelo Senhor, mas não condenados com o mundo.

Ora, isto vem de eles estarem em Cristo Jesus; é em virtude da união com ele pela fé que estão assim seguros. Estão em Cristo Jesus como na sua cidade de refúgio, e assim ficam protegidos do vingador do sangue. Ele é o advogado deles, e os livra.

Não há, portanto, condenação, porque eles têm parte na satisfação que Cristo, morrendo, fez à lei. Em Cristo, Deus não só não os condena, como está bem satisfeito com eles, Mateus 17:5.

  1. É o caráter indubitável de todos os que estão de tal modo em Cristo Jesus, a ponto de estarem livres de condenação, que eles não andam segundo a carne, mas segundo o Espírito.

Observe: o caráter se define pelo andar deles, não por um ato isolado qualquer, mas pelo seu curso e pelo seu caminho.

E a grande pergunta é: qual é o princípio do andar, a carne ou o espírito, a natureza velha ou a nova, a corrupção ou a graça? Em qual delas pensamos, para qual delas fazemos provisão, por qual delas somos governados, com qual delas tomamos partido?

II. Esta grande verdade, assim assentada, ele ilustra nos versículos seguintes; e mostra como chegamos a este grande privilégio, e como podemos corresponder a este caráter.

  1. Como chegamos a estes privilégios: o privilégio da justificação, que não há condenação para nós; o privilégio da santificação, que andamos segundo o Espírito e não segundo a carne, o que não é menos privilégio nosso do que é dever nosso. Como é que isso acontece?

(1.) A lei não podia fazê-lo, v. 3. Ela não podia justificar nem santificar, não podia nos livrar da culpa nem do poder do pecado, por não ter as promessas nem do perdão nem da graça.

A lei nada aperfeiçoou: era fraca. Alguma tentativa a lei fez na direção desses fins abençoados, mas, ai!, era fraca, não podia realizá-los.

Essa fraqueza, porém, não vinha de nenhum defeito da lei, e sim da carne, da corrupção da natureza humana, pela qual ficamos incapazes tanto de ser justificados quanto de ser santificados pela lei.

Tínhamos ficado incapazes de guardar a lei, e, no caso de falharmos, a lei, como aliança de obras, não fazia nenhuma provisão, e assim nos deixava como nos encontrava.

Ou entenda isso da lei cerimonial: era um emplastro que não dava para a largura da ferida, nunca poderia tirar o pecado, Hebreus 10:4.

(2.) A lei do Espírito de vida em Cristo Jesus é que o faz, v. 2. A aliança da graça, feita conosco em Cristo, é um tesouro de mérito e de graça, e dele recebemos o perdão e uma natureza nova.

Somos libertados da lei do pecado e da morte, isto é, tanto da culpa quanto do poder do pecado; do curso da lei e do domínio da carne.

Estamos debaixo de outra aliança, de outro senhor, de outro marido, debaixo da lei do Espírito, a lei que dá o Espírito, a vida espiritual que nos habilita para a vida eterna.

O fundamento desta liberdade está assentado no compromisso que Cristo assumiu por nós, do qual ele fala em v. 3: “Deus enviando o seu próprio Filho.”

Observe: quando a lei falhou, Deus proveu outro método. Cristo vem fazer aquilo que a lei não podia fazer.

Moisés levou os filhos de Israel até as fronteiras de Canaã, e então morreu, e os deixou ali; mas Josué fez o que Moisés não podia fazer, e os pôs de posse de Canaã. Assim, o que a lei não podia fazer, Cristo fez.

A melhor exposição deste versículo nós a temos em Hebreus 10:1-10.

Para deixar claro o sentido das palavras, que na nossa tradução fica um pouco intrincado, podemos lê-lo assim, com uma pequena transposição:

Deus, enviando o seu próprio Filho em semelhança de carne pecaminosa, e como sacrifício pelo pecado, condenou o pecado na carne, o que a lei não podia fazer, visto que estava enfraquecida pela carne, etc., v. 4.

Observe: [1.] Como Cristo apareceu: em semelhança de carne pecaminosa. Não pecaminosa, porque ele era santo, inocente, sem mácula; mas em semelhança daquela carne que era pecaminosa.

Ele tomou sobre si aquela natureza que era corrupta, ainda que perfeitamente apartado das corrupções dela. O fato de ter sido circuncidado, resgatado e batizado com o batismo de João fala da semelhança de carne pecaminosa.

As mordidas das serpentes de fogo foram curadas por uma serpente de bronze, que tinha a forma, ainda que livre do veneno, das serpentes que os mordiam.

Foi grande condescendência que aquele que era Deus fosse feito em semelhança de carne; mas muito maior que aquele que era santo fosse feito em semelhança de carne pecaminosa.

E pelo pecado: é aqui que as melhores cópias gregas põem a vírgula. Deus o enviou, en homoiomati sarkos hamartias, kai peri hamartias — em semelhança de carne pecaminosa, e como sacrifício pelo pecado.

A LXX chama um sacrifício pelo pecado apenas de peri hamartias, pelo pecado; assim Cristo foi um sacrifício, e foi enviado para sê-lo, Hebreus 9:26.

[2.] O que foi feito por esta aparição dele: o pecado foi condenado, isto é, Deus manifestou nisso, mais do que nunca, o seu ódio ao pecado; e não só isso, mas para todos os que são de Cristo tanto o poder condenatório quanto o poder dominador do pecado estão quebrados e tirados do caminho.

Quem está condenado não pode acusar nem governar; o testemunho dele é nulo, e a autoridade dele é nula.

Assim, por Cristo, o pecado é condenado; embora viva e permaneça, a sua vida nos santos continua sendo apenas como a de um criminoso condenado.

Foi pela condenação do pecado que a morte foi desarmada, e o diabo, que tinha o poder da morte, foi destruído. A condenação do pecado salvou o pecador da condenação.

Cristo foi feito pecado por nós (2 Coríntios 5:21), e, sendo feito assim, quando ele foi condenado o pecado foi condenado na carne de Cristo, condenado na natureza humana.

Assim se fez satisfação à justiça divina, e se abriu caminho para a salvação do pecador.

[3.] O efeito feliz disto sobre nós (v. 4): “Para que a justiça da lei se cumprisse em nós.” Tanto na nossa justificação quanto na nossa santificação, a justiça da lei se cumpre.

Uma justiça de satisfação pela transgressão da lei se cumpre pela imputação da justiça completa e perfeita de Cristo, que responde às exigências máximas da lei, assim como o propiciatório tinha o mesmo comprimento e a mesma largura da arca.

Uma justiça de obediência aos mandamentos da lei se cumpre em nós quando, pelo Espírito, a lei do amor é escrita no coração, e esse amor é o cumprimento da lei, Romanos 13:10.

Embora a justiça da lei não seja cumprida por nós, ainda assim, bendito seja Deus, ela é cumprida em nós; há sobre todos os verdadeiros crentes, e dentro deles, aquilo que responde à intenção da lei.

Nós, que não andamos segundo a carne, mas segundo o Espírito. Esta é a descrição de todos os que têm parte neste privilégio: eles agem a partir de princípios espirituais, e não de princípios carnais.

Quanto aos outros, a justiça da lei se cumprirá sobre eles na ruína deles. Ora:

  1. Observe como podemos corresponder a este caráter, v. 5, etc.

(1.) Olhando para a nossa mente. Como podemos saber se somos segundo a carne ou segundo o Espírito? Examinando aquilo em que pensamos: as coisas da carne ou as coisas do espírito.

O prazer carnal, o lucro e a honra do mundo, as coisas dos sentidos e do tempo são as coisas da carne, nas quais pensam as pessoas não regeneradas.

O favor de Deus, o bem-estar da alma, os interesses da eternidade são as coisas do Espírito, nas quais pensam os que são segundo o Espírito.

O homem é conforme é a sua mente. A mente é a forja dos pensamentos. “Como ele pensa no seu coração, assim ele é”, Provérbios 23:7.

Para que lado se movem os pensamentos com mais prazer? Em que eles se demoram com mais satisfação? A mente é a sede da sabedoria. Para que lado vão os projetos e as maquinações? Somos mais sábios para o mundo ou para a nossa alma?

phronousi ta tes sarkos — eles saboreiam as coisas da carne; é assim que a palavra é traduzida em Mateus 16:23.

É coisa importante saber qual é o nosso paladar: que verdades, que notícias, que consolos nos são mais saborosos e mais agradáveis.

Ora, para nos precaver contra essa mentalidade carnal, ele mostra a grande miséria e malignidade dela, e a compara com a excelência e o consolo indizíveis da mentalidade espiritual.

[1.] É morte, v. 6. É morte espiritual, o caminho certo para a morte eterna. É a morte da alma, porque é o afastamento dela de Deus, em cuja união e comunhão consiste a vida da alma.

Uma alma carnal é uma alma morta, morta tanto quanto uma alma pode estar morta. “A que vive em prazeres está morta” (1 Timóteo 5:6), não só morta diante da lei, como culpada, mas morta no seu estado, como carnal.

A morte inclui toda miséria; almas carnais são almas miseráveis.

Mas ter a mentalidade espiritual, phronema tou pneumatos, um paladar espiritual (a sabedoria que vem do alto, um princípio de graça), é vida e paz; é a felicidade e a ventura da alma.

A vida da alma consiste na sua união com as coisas espirituais pela mente. Uma alma santificada é uma alma viva, e essa vida é paz; é uma vida muito confortadora.

Todas as veredas da sabedoria espiritual são veredas de paz. É vida e paz no outro mundo, assim como neste.

A mentalidade espiritual é a vida e a paz eternas já começadas, e uma garantia que nos assegura a perfeição delas.

[2.] É inimizade contra Deus (v. 7), e isto é pior do que o anterior. O anterior declara que o pecador carnal é um homem morto, o que já é ruim; mas este o declara um demônio de homem.

Não é apenas um inimigo: é a própria inimizade. Não é só o afastamento da alma em relação a Deus, é a oposição da alma contra Deus.

Ela se rebela contra a autoridade dele, contraria o desígnio dele, se opõe ao interesse dele, cospe no rosto dele, espezinha as suas entranhas de misericórdia. Pode haver inimizade maior?

Um inimigo pode ser reconciliado, mas a inimizade não. Como isto deveria nos humilhar por causa da mentalidade carnal, e nos advertir contra ela!

Vamos abrigar e acalentar aquilo que é inimizade contra Deus, nosso criador, dono, governante e benfeitor?

Para provar isto, ele insiste em que ela não está sujeita à lei de Deus, nem de fato pode estar. A santidade da lei de Deus e a impiedade da mente carnal são tão irreconciliáveis quanto a luz e as trevas.

O homem carnal pode, pelo poder da graça divina, ser feito sujeito à lei de Deus, mas a mente carnal nunca pode; esta tem de ser quebrada e expulsa.

Veja como a vontade corrompida do homem está miseravelmente escravizada ao pecado; enquanto prevalece a mente carnal, não há nenhuma inclinação para a lei de Deus.

Por isso, onde quer que se opere uma mudança, ela vem pelo poder da graça de Deus, não pela liberdade da vontade do homem.

Daí ele conclui (v. 8): Os que estão na carne não podem agradar a Deus.

Os que estão num estado carnal e não regenerado, sob o poder reinante do pecado, não podem fazer as coisas que agradam a Deus, faltando-lhes a graça, que é o princípio que agrada, e a participação em Cristo, o Mediador que agrada.

O próprio sacrifício dos ímpios é abominação, Provérbios 15:8.

Agradar a Deus é o nosso fim mais alto, e os que estão na carne não podem senão ficar aquém dele; não podem agradá-lo, ou melhor, não podem senão desagradá-lo. Podemos conhecer o nosso estado e o nosso caráter:

(2.) Perguntando se temos o Espírito de Deus e de Cristo, ou não (v. 9): “Vós não estais na carne, mas no Espírito.”

Isto exprime estados e condições da alma imensamente diferentes. Todos os santos têm carne e espírito dentro de si; mas estar na carne e estar no Espírito são coisas contrárias.

Denota que fomos vencidos e subjugados por um destes princípios. Como dizemos que um homem está apaixonado, ou está embriagado, isto é, dominado por aquilo.

Ora, a grande pergunta é se estamos na carne ou no Espírito; e como podemos chegar a saber? Ora, perguntando se o Espírito de Deus habita em nós.

O Espírito habitando em nós é a melhor evidência de que estamos no Espírito, porque essa habitação é mútua (1 João 4:16): “Habita em Deus, e Deus nele.”

O Espírito visita com os seus impulsos muitos que não são regenerados, e eles resistem e apagam esses impulsos; mas em todos os que são santificados ele habita; ali ele reside e governa.

Ele está ali como um homem na sua própria casa, onde é constante e bem-vindo, e tem o domínio.

Vamos fazer esta pergunta ao nosso próprio coração: quem habita, quem governa, quem cuida da casa aqui? Qual dos interesses tem a supremacia?

A isto ele acrescenta uma regra geral de prova: Se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é dele.

Ser de Cristo (isto é, ser cristão de fato, um dos seus filhos, dos seus servos, dos seus amigos, em união com ele) é um privilégio e uma honra que muitos alegam ter sem ter nisso parte nem sorte.

Nenhum é dele senão os que têm o Espírito dele; isto é, [1.] Que têm o mesmo espírito que ele teve: são mansos, humildes de coração, modestos, pacíficos, pacientes e caridosos, como ele foi.

Não podemos seguir os passos dele se não temos o espírito dele; a estrutura e a disposição da nossa alma têm de ser conformes ao modelo de Cristo.

[2.] Que são movidos e guiados pelo Espírito Santo de Deus, como santificador, mestre e consolador. Ter o Espírito de Cristo é o mesmo que ter o Espírito de Deus habitando em nós.

Mas esses dois dão praticamente no mesmo, porque todos os que são movidos pelo Espírito de Deus como sua regra são conformes ao espírito de Cristo como seu modelo.

Ora, esta descrição do caráter daqueles a quem pertence este primeiro privilégio, o de estarem livres de condenação, deve ser aplicada a todos os outros privilégios que se seguem.

Versículos 10 a 16

Os Privilégios do Crente. (d.C. 58.)

Nestes versículos o apóstolo apresenta mais dois benefícios excelentes, que pertencem aos verdadeiros crentes.

I. Vida. A felicidade não é apenas negativa, a de não ser condenado; ela é positiva, é a elevação a uma vida que será a felicidade indizível do homem (v. 10, 11): “Se Cristo está em vós.”

Observe: se o Espírito está em nós, Cristo está em nós. Ele habita no coração pela fé, Efésios 3:17.

Aqui nos é dito o que acontece com o corpo e com a alma daqueles em quem Cristo está.

  1. Não podemos negar que o corpo está morto. É um corpo frágil, mortal, que morre, e em breve estará morto; é uma casa de barro, cujo fundamento está no pó.

A vida comprada e prometida não torna imortal o corpo no seu estado presente. Ele está morto, isto é, está destinado a morrer, está debaixo de sentença de morte: como dizemos de um condenado que ele é um homem morto.

No meio da vida estamos na morte. Por mais fortes, saudáveis e bonitos que sejam os nossos corpos, eles são como mortos (Hebreus 11:12), e isso por causa do pecado.

É o pecado que mata o corpo. Este é o efeito da primeira ameaça (Gênesis 3:19): “Tu és pó.”

Penso que, se não houvesse outra razão, o amor ao nosso corpo já deveria nos fazer odiar o pecado, porque ele é um inimigo tão grande do nosso corpo.

A morte, mesmo a do corpo dos santos, é um sinal que permanece do desagrado de Deus contra o pecado.

  1. Mas o espírito, a alma preciosa, é vida. Ela agora está espiritualmente viva; ou melhor, ela é vida.

A graça na alma é a nova natureza dela. A vida do santo está na alma, enquanto a vida do pecador não passa do corpo.

Quando o corpo morre e volta ao pó, o espírito é vida: não só vivo e imortal, mas absorvido pela vida.

Para os santos, a morte é apenas a libertação do espírito nascido do céu do estorvo e do peso deste corpo, para que ele fique apto a participar da vida eterna.

Quando Abraão estava morto, Deus ainda era o Deus de Abraão, porque mesmo então o espírito dele era vida, Mateus 22:31, 32. Veja Salmos 49:15.

E isso por causa da justiça. A justiça de Cristo imputada a eles protege da morte a alma, que é a parte melhor.

A justiça de Cristo inerente a eles, a imagem renovada de Deus na alma, preserva essa alma; e, por ordenação de Deus, na morte a eleva, a aperfeiçoa e a torna apta a participar da herança dos santos na luz.

A vida eterna da alma consiste na visão e no gozo de Deus, e ambos a tornam semelhante a ele; e é para isso que a justiça da santificação qualifica a alma.

Remeto a Salmos 17:15: “Contemplarei a tua face em justiça.”

  1. Há também, no fim, uma vida reservada para o pobre corpo: “Ele também vivificará os vossos corpos mortais”, v. 11.

O Senhor é para o corpo. E ainda que na morte ele seja deixado de lado como um vaso quebrado e desprezado, vaso em que não há prazer, mesmo assim Deus terá desejo pela obra das suas mãos (Jó 14:15), se lembrará da sua aliança com o pó e não perderá um grão dele.

O corpo será reunido à alma e revestido de uma glória que lhe convém. Corpos vis serão formados de novo, Filipenses 3:21; 1 Coríntios 15:42.

Duas grandes garantias da ressurreição do corpo são mencionadas:

(1.) A ressurreição de Cristo: “Aquele que ressuscitou a Cristo dentre os mortos também vivificará.” Cristo ressuscitou como cabeça, primícias e precursor de todos os santos, 1 Coríntios 15:20.

O corpo de Cristo esteve na sepultura, debaixo do pecado imputado de todos os eleitos, e rompeu através dele. “Ó sepultura, então, onde está a tua vitória?” É pela virtude da ressurreição de Cristo que ressuscitaremos.

(2.) A habitação do Espírito. O mesmo Espírito que agora ressuscita a alma em breve ressuscitará o corpo: “Pelo seu Espírito que habita em vós.”

Os corpos dos santos são templos do Espírito Santo, 1 Coríntios 3:16; 6:19. E ainda que se permita que esses templos fiquem em ruínas por um tempo, eles serão reconstruídos.

O tabernáculo de Davi, que caiu, será restaurado, por maiores que sejam os montes que estiverem no caminho.

O Espírito, soprando sobre ossos mortos e secos, os fará viver, e os santos verão a Deus na própria carne.

Daí o apóstolo infere, de passagem, o quanto é dever nosso andar não segundo a carne, mas segundo o Espírito, v. 12, 13. Que a nossa vida não siga as vontades e os impulsos da carne.

Ele menciona aqui dois motivos:

[1.] Não somos devedores à carne, nem por parentesco, nem por gratidão, nem por qualquer outro vínculo ou obrigação.

Não devemos obediência nem serviço aos nossos desejos carnais. É verdade que somos obrigados a vestir, alimentar e cuidar do corpo, como servo da alma no serviço de Deus, mas nada além disso.

Não somos devedores dela; a carne nunca nos fez tanto bem a ponto de nos obrigar a servi-la.

Fica implícito que somos devedores a Cristo e ao Espírito. A eles devemos tudo o que temos e tudo o que podemos fazer, por mil vínculos e obrigações.

Libertados de uma morte tão grande por um resgate tão grande, estamos profundamente em dívida com o nosso libertador. Veja 1 Coríntios 6:19, 20.

[2.] Considere as consequências, o que haverá no fim do caminho. Aqui estão postas diante de nós a vida e a morte, a bênção e a maldição.

“Se viverdes segundo a carne, morrereis”; isto é, morrereis eternamente. É o agradar, o servir e o satisfazer da carne que arruínam as almas; isso é a segunda morte.

Morrer de fato é a alma morrer: a morte dos santos é apenas um sono.

Mas, do outro lado, “Vivereis” — viver e ser feliz para a eternidade; essa é a verdadeira vida.

“Se pelo Espírito mortificardes as obras do corpo”: dominar e manter sob controle todos os desejos e afetos carnais, negar a si mesmo no agradar e no mimar o corpo, e isso pelo Espírito.

Não conseguimos fazer isso sem que o Espírito o opere em nós, e o Espírito não fará isso sem que façamos o nosso esforço.

Em uma palavra, somos postos diante deste dilema: ou desagradar o corpo, ou destruir a alma.

II. O Espírito de adoção é outro privilégio que pertence aos que estão em Cristo Jesus, vv. 14-16:

  1. Todos os que são de Cristo são recebidos na relação de filhos para com Deus, v. 14.

Observe: (1.) A marca que têm: são guiados pelo Espírito de Deus, como o aluno é guiado pelo mestre no seu estudo, como o viajante é guiado pelo seu guia na sua jornada, como o soldado é guiado pelo seu capitão nos seus combates.

Não são impelidos como animais, mas conduzidos como criaturas racionais, atraídos com cordas de homem e laços de amor.

É a marca indubitável de todos os verdadeiros crentes que eles são guiados pelo Espírito de Deus.

Tendo se submetido, ao crer, à direção dele, eles seguem essa direção na sua obediência, e são docemente conduzidos a toda verdade e a todo dever.

(2.) O privilégio que têm: são filhos de Deus, recebidos por adoção no número dos filhos de Deus, reconhecidos e amados por ele como seus filhos.

  1. E os que são filhos de Deus têm o Espírito:

(1.) Para operar neles a disposição de filhos.

[1.] “Não recebestes o espírito de escravidão para outra vez temer”, v. 15.

Entenda assim. Primeiro, daquele espírito de escravidão sob o qual estava a igreja do Antigo Testamento, por causa da escuridão e do terror daquela dispensação.

O véu significava escravidão, 2 Coríntios 3:15. Compare com v. 17. O Espírito de adoção não era então derramado com tanta abundância como agora; porque a lei abria a ferida, mas pouco do remédio.

Agora vocês não estão sob aquela dispensação, vocês não receberam aquele espírito.

Segundo, daquele espírito de escravidão sob o qual muitos dos próprios santos estiveram na sua conversão, debaixo das convencimentos de pecado e de cólera aplicadas pelo Espírito; como os de Atos 2:37, o carcereiro (Atos 16:30), Paulo, Atos 9:6.

Então o próprio Espírito era para os santos um espírito de escravidão. “Mas”, diz o apóstolo, “com vocês isso já passou.”

“Deus, como Juiz”, diz o Dr. Manton, “pelo espírito de escravidão, nos envia a Cristo como Mediador; e Cristo, como Mediador, pelo espírito de adoção, nos envia de volta a Deus como Pai.”

Ainda que um filho de Deus possa cair outra vez no medo da escravidão e ficar questionando a sua filiação, o bendito Espírito não volta a ser um espírito de escravidão, porque então ele testemunharia uma mentira.

[2.] “Mas recebestes o Espírito de adoção.” Os homens podem dar uma carta de adoção; mas é prerrogativa de Deus, quando adota, dar um espírito de adoção — a natureza de filhos.

O Espírito de adoção opera nos filhos de Deus um amor filial a Deus como Pai, um deleite nele e uma dependência dele, como Pai.

A alma santificada traz a imagem de Deus, como o filho traz a imagem do pai.

“Pelo qual clamamos: Aba, Pai.” Orar é chamado aqui de clamar, que não é só uma expressão fervorosa, mas natural, do desejo; as crianças que ainda não falam desabafam os seus desejos chorando.

O Espírito nos ensina, na oração, a chegar a Deus como Pai, com uma confiança santa e humilde, dando ânimo à alma nesse dever.

Aba, Pai. Abba é uma palavra siríaca que significa pai ou meu pai; pater é palavra grega. E por que as duas, Aba, Pai?

Porque Cristo assim disse em oração (Marcos 14:36), Aba, Pai; e nós recebemos o Espírito do Filho.

Isso denota uma insistência afetuosa e carinhosa, e um peso de fé colocado sobre a relação. As criancinhas, pedindo aos pais, mal conseguem dizer outra coisa senão Pai, Pai, e isso já é retórica suficiente.

Também denota que a adoção é comum a judeus e gentios: os judeus o chamam de Abba na língua deles, os gregos podem chamá-lo de pater na língua deles; porque em Cristo Jesus não há grego nem judeu.

(2.) Para testemunhar a relação de filhos, v. 16. O primeiro é obra do Espírito como Santificador; este, como Consolador.

“Testifica com o nosso espírito.” Muita gente tem o testemunho do próprio espírito quanto ao bom estado em que está, sem ter o testemunho concordante do Espírito.

Muitos falam paz a si mesmos, e o Deus do céu não fala paz a eles.

Mas os que são santificados têm o Espírito de Deus testificando com o espírito deles. Isso não se deve entender de nenhuma revelação sem mediação e extraordinária, mas de uma obra ordinária do Espírito, nos meios de consolo e por meio deles, falando paz à alma.

Esse testemunho está sempre de acordo com a palavra escrita, e por isso está sempre fundado na santificação; porque o Espírito no coração não pode contradizer o Espírito na palavra.

O Espírito não testemunha os privilégios de filhos a ninguém que não tenha a natureza e a disposição de filhos.

Versículos 17 a 25

Os Privilégios do Crente. (d.C. 58.)

Nestas palavras o apóstolo descreve um quarto ramo ilustre da felicidade dos crentes: o direito à glória futura. Isso se liga bem à nossa condição de filhos; pois assim como a adoção de filhos nos dá direito àquela glória, a disposição de filhos nos torna aptos e nos prepara para ela.

“Se filhos, então herdeiros”, v. 17. Nas heranças terrenas esta regra não vale: só os primogênitos são herdeiros. Mas a igreja é uma igreja de primogênitos, porque todos são herdeiros.

O céu é uma herança da qual todos os santos são herdeiros. Eles não chegam a ela como compradores, por mérito ou esforço próprio, mas como herdeiros, puramente pelo ato de Deus; porque é Deus quem faz herdeiros.

Os santos são herdeiros, ainda que neste mundo sejam herdeiros menores de idade; veja Gálatas 4:1, 2. O estado presente deles é um estado de educação e de preparo para a herança.

Que consolo isso deve ser para todos os filhos de Deus: por menos que tenham em mãos, sendo herdeiros, têm o bastante guardado para receber!

Mas a honra e a felicidade de um herdeiro estão no valor e na importância daquilo de que ele é herdeiro. Lemos a respeito dos que herdam o vento; por isso temos aqui um resumo dos bens.

  1. Herdeiros de Deus. O próprio Senhor é a porção da herança dos santos (Salmos 16:5), uma herança formosa, v. 6. Os santos são sacerdotes espirituais, que têm o Senhor por sua herança, Números 18:20.

A visão de Deus e o gozo de Deus compõem a herança de que os santos são herdeiros. O próprio Deus estará com eles e será o Deus deles, Apocalipse 21:3.

  1. Coerdeiros com Cristo. De Cristo, como Mediador, se diz que é o herdeiro de todas as coisas (Hebreus 1:2); e os verdadeiros crentes, em virtude da união com ele, herdarão todas as coisas, Apocalipse 21:7.

Os que agora participam do Espírito de Cristo, como irmãos dele, vão participar, como irmãos dele, da glória dele (João 17:24), e vão se assentar com ele no seu trono, Apocalipse 3:21. Senhor, que é o homem, para que você assim o engrandeça!

Esta glória futura é descrita ainda como a recompensa dos sofrimentos presentes e como o cumprimento das esperanças presentes.

I. Como a recompensa dos sofrimentos presentes dos santos; e é uma recompensa rica: Se é que sofremos com ele (v. 17), ou visto que sofremos com ele. O estado da igreja neste mundo é sempre, mas era então em especial, um estado de aflição; ser cristão era com certeza ser alguém que sofre.

Para consolá-los quanto a esses sofrimentos, ele lhes diz que sofriam com Cristo — por causa dele, pela honra dele e pelo testemunho de uma boa consciência — e que seriam glorificados com ele.

Os que sofreram com Davi no seu estado de perseguido foram promovidos por ele e com ele quando ele chegou à coroa; veja 2 Timóteo 2:12. Veja o ganho de sofrer por Cristo: ainda que possamos sair perdendo por ele, não sairemos, não podemos sair perdendo com ele, no fim.

O evangelho está cheio de garantias disso. Para que os santos que sofrem tenham apoio firme e consolo nas suas esperanças do céu, ele segura a balança (v. 18), numa comparação entre os dois que merece atenção.

  1. Num prato ele põe os sofrimentos deste tempo presente. Os sofrimentos dos santos são apenas sofrimentos deste tempo presente: não atingem mais fundo que as coisas do tempo, não duram mais que o tempo presente (2 Coríntios 4:17), aflição leve, e só por um momento.

Assim, sobre os sofrimentos ele escreve tekel: pesados na balança e achados leves.

  1. No outro prato ele põe a glória, e a acha um peso, um peso extraordinário e eterno: a glória que há de ser revelada. No nosso estado presente ficamos aquém não só do gozo, mas do conhecimento daquela glória (1 Coríntios 2:9; 1 João 3:2): ela será revelada.

Ela ultrapassa tudo o que já vimos e conhecemos. As concessões presentes são doces e preciosas, muito preciosas, muito doces; mas há algo por vir, algo atrás da cortina, que vai ofuscar tudo.

Será revelada em nós; não só revelada a nós, para ser vista, mas revelada em nós, para ser desfrutada. O reino de Deus está dentro de vocês, e assim será por toda a eternidade.

  1. Ele conclui que os sofrimentos não são dignos de ser comparados com a glória — ouk axia pros ten doxan. Eles não podem merecer aquela glória; e, se sofrer por Cristo não merece, muito menos o fazer.

Eles não devem de modo algum nos deter nem nos assustar na busca diligente e séria daquela glória. Os sofrimentos são pequenos e curtos, e dizem respeito só ao corpo; mas a glória é rica e grande, diz respeito à alma, e é eterna.

É isso que ele calcula. Eu calculo — logizomai. Não é uma decisão precipitada e repentina, mas o fruto de uma consideração muito séria e deliberada.

Ele examinou o caso consigo mesmo, pesou as razões dos dois lados, e assim, por fim, resolve a questão. Como é imensamente diferente a sentença da palavra do sentimento do mundo a respeito dos sofrimentos deste tempo presente!

Eu calculo, como um contador que fecha uma conta. Primeiro ele soma o que foi desembolsado por Cristo nos sofrimentos deste tempo presente, e acha que dá muito pouco.

Depois soma o que Cristo nos garantiu na glória que há de ser revelada, e acha uma soma infinita, que ultrapassa toda ideia: o desembolso coberto com sobra e as perdas compensadas infinitamente.

E quem teria medo, então, de sofrer por Cristo, que assim como se adiantou a nós no sofrer, não vai ficar atrás de nós na recompensa?

Paulo era um juiz desta questão tão competente quanto qualquer simples homem já foi. Ele podia calcular não só pela arte, mas pela experiência; porque conhecia as duas coisas.

Ele sabia o que eram os sofrimentos deste tempo presente; veja 2 Coríntios 11:23-28. Ele sabia o que é a glória do céu; veja 2 Coríntios 12:3, 4. E, à vista das duas, ele dá aqui este veredito.

Não há nada como uma visão de fé da glória que há de ser revelada para sustentar e erguer o espírito debaixo de todos os sofrimentos deste tempo presente. O descrédito de Cristo parece riqueza aos que olham para a recompensa do galardão, Hebreus 11:26.

II. Como o cumprimento das esperanças e expectativas presentes dos santos, v. 19 em diante. Assim como os santos sofrem por ela, também esperam por ela.

O céu, portanto, é certo; porque Deus, pelo seu Espírito, não levantaria e animaria essas esperanças só para frustrá-las e decepcioná-las. Ele confirmará aos seus servos aquela palavra na qual os fez esperar (Salmos 119:49).

E o céu, portanto, é doce; porque, se a esperança adiada faz o coração adoecer, com certeza, quando o desejo chega, ele será árvore de vida, Provérbios 13:12. Ele observa agora uma expectativa desta glória:

  1. Nas criaturas, vv. 19-22. Tem de ser uma glória grande, transcendente, aquela que todas as criaturas esperam e anseiam com tanto ardor.

Esta observação nestes versículos tem certa dificuldade, que deixa os intérpretes um pouco perplexos; e ainda mais porque é um comentário que não aparece em nenhuma outra passagem com a qual pudesse ser comparado.

Por criatura entendemos aqui não, como alguns fazem, o mundo gentio e a sua expectativa de Cristo e do evangelho, exposição muito estranha e forçada, mas toda a armação da natureza, especialmente a deste mundo de baixo.

É a criação inteira, o conjunto travado das criaturas inanimadas e sensíveis, das quais se fala no singular, como a criatura, por causa da sua harmonia e dependência mútua e porque todas constituem e formam um só mundo.

O sentido do apóstolo nestes quatro versículos podemos apanhar nas observações seguintes:

(1.) Que existe uma vaidade presente à qual a criatura, por causa do pecado do homem, foi sujeitada, v. 20. Quando o homem pecou, a terra foi amaldiçoada por causa dele, e com ela todas as criaturas (especialmente as deste mundo de baixo, onde está o nosso convívio) ficaram sujeitas àquela maldição, e se tornaram mutáveis e mortais.

Debaixo da servidão da corrupção, v. 21. Há uma impureza, uma deformidade e uma fraqueza que a criatura contraiu pela queda do homem: a criação está manchada e suja, e boa parte da beleza do mundo se foi.

Há inimizade de uma criatura contra a outra; todas estão sujeitas a alteração contínua e à ruína dos indivíduos, expostas aos golpes dos juízos de Deus sobre o homem.

Quando o mundo foi afogado, e com ele quase todas as criaturas, certamente aí ele ficou sujeito à vaidade de fato. Toda a espécie das criaturas está destinada a uma dissolução total pelo fogo, e corre para ela.

E não é a menor parte da sua vaidade e servidão o fato de serem usadas, ou melhor, abusadas, pelos homens como instrumentos de pecado. As criaturas são muitas vezes abusadas para a desonra do seu Criador, para o dano dos filhos dele, ou para o serviço dos seus inimigos.

Quando as criaturas são feitas alimento e combustível das nossas paixões, ficam sujeitas à vaidade, ficam cativas da lei do pecado. E isso não de boa vontade, não por escolha própria.

Todas as criaturas desejam a sua própria perfeição e consumação; quando são feitas instrumentos de pecado, não é de boa vontade.

Ou então: elas são assim cativadas não por algum pecado próprio, que tivessem cometido, mas pelo pecado do homem: por causa daquele que as sujeitou.

Adão o fez por merecimento: as criaturas lhe tinham sido entregues, e quando ele, pelo pecado, se entregou a si mesmo, entregou-as também à servidão da corrupção.

Deus o fez judicialmente: proferiu uma sentença sobre as criaturas por causa do pecado do homem, e por ela elas ficaram sujeitas. E este jugo (pobres criaturas) elas carregam na esperança de que não será assim para sempre.

Ep elpidi hoti kai, etc. — na esperança de que a própria criatura; é assim que muitas cópias gregas juntam as palavras. Temos motivo para ter pena das pobres criaturas que, pelo nosso pecado, ficaram sujeitas à vaidade.

(2.) Que as criaturas gemem e sofrem juntas dores de parto debaixo desta vaidade e corrupção, v. 22. É uma expressão figurada. O pecado é um peso para a criação inteira; o pecado dos judeus, ao crucificar Cristo, pôs a terra a tremer debaixo deles.

Os ídolos eram um peso para o animal cansado, Isaías 46:1. Há um clamor geral de toda a criação contra o pecado do homem: a pedra clama da parede (Habacuque 2:11), a terra clama, Jó 31:38.

(3.) Que a criatura, agora assim carregada, será, no tempo da restauração de todas as coisas, libertada desta servidão para a liberdade gloriosa dos filhos de Deus (v. 21).

Elas não estarão mais sujeitas à vaidade e à corrupção, nem aos outros frutos da maldição; pelo contrário, este mundo de baixo será renovado: quando houver novos céus, haverá uma nova terra (2 Pedro 3:13; Apocalipse 21:1).

E será conferida a todas as criaturas uma glória que será, na proporção das naturezas delas, uma elevação tão adequada e tão grande quanto a glória dos filhos de Deus será para eles.

O fogo do último dia será um fogo que refina, não um fogo que destrói e aniquila. O que acontece com as almas dos animais, que descem para baixo, ninguém sabe dizer. Mas parece, pela Escritura, que haverá algum tipo de restauração delas.

E se alguém objetar: de que serventia serão para os santos glorificados? Podemos supor que serão de tanta serventia quanto foram para Adão na inocência; e se for apenas para ilustrar a sabedoria, o poder e a bondade do seu Criador, isso já basta.

Compare com isto Salmos 96:10-13; 98:7-9. Alegrem-se os céus diante do Senhor, porque ele vem.

(4.) Que a criatura, portanto, espera com ardor e aguarda a manifestação dos filhos de Deus, v. 19. Observe: na segunda vinda de Cristo haverá uma manifestação dos filhos de Deus.

Agora os santos são os escondidos de Deus, e o trigo parece perdido num monte de palha; mas então serão manifestados. Ainda não se manifestou o que seremos (1 João 3:2), mas então a glória será revelada. Os filhos de Deus aparecerão nas suas próprias cores.

E esta redenção da criatura está reservada para então; porque, assim como foi com o homem e por causa do homem que elas caíram debaixo da maldição, também com o homem e por causa do homem serão libertadas.

Toda a maldição e toda a sujeira que agora grudam na criatura serão removidas quando os que sofreram com Cristo na terra reinarem com ele na terra.

É isso que a criação inteira aguarda e pelo que anseia; e isso pode servir de motivo para que, agora, um homem bom seja compassivo com o seu animal.

  1. Nos santos, que são novas criaturas, vv. 23-25. Observe: (1.) Os fundamentos desta expectativa nos santos.

É o fato de termos recebido as primícias do Espírito, que ao mesmo tempo aviva os nossos desejos e anima as nossas esperanças, e pelos dois caminhos levanta as nossas expectativas.

As primícias santificavam e garantiam a massa inteira. A graça constitui as primícias da glória; é a glória começada. Tendo recebido cachos assim neste deserto, não podemos deixar de ansiar pela vindima completa na Canaã celestial.

Não só elas — não só as criaturas, que não são capazes de uma felicidade como as primícias do Espírito, mas até nós, que temos no presente recebimentos tão ricos, não podemos deixar de ansiar por algo mais e maior.

Tendo as primícias do Espírito temos o que é muito precioso, mas não temos tudo o que desejaríamos ter.

Gememos dentro de nós, o que indica a força e o segredo destes desejos; não fazendo grande barulho, como os hipócritas uivando na cama por trigo e vinho, mas com gemidos silenciosos, que são os que mais depressa furam o céu.

Ou então: gememos entre nós. É o voto unânime, o desejo comum, de toda a igreja; todos concordam nisto: Vem, Senhor Jesus, vem depressa.

O gemido indica um desejo muito ardente e insistente, a alma que sofre com a demora. O que recebemos e o consolo que temos agora convivem com muitos gemidos; não como as dores de quem está morrendo, mas como as dores de uma mulher em trabalho de parto: gemidos que são sintomas de vida, não de morte.

(2.) O objeto desta expectativa. O que é que desejamos e esperamos assim? O que queremos? A adoção, isto é, a redenção do nosso corpo.

Ainda que a alma seja a parte principal do homem, o Senhor se declarou também a favor do corpo, e preparou muita honra e muita felicidade para o corpo.

A ressurreição é chamada aqui de redenção do corpo. Ele será então resgatado do poder da morte e da sepultura, e da servidão da corrupção; e, ainda que seja corpo vil, será refinado e embelezado, e feito semelhante àquele corpo glorioso de Cristo, Filipenses 3:21; 1 Coríntios 15:42.

É isso que se chama a adoção.

[1.] É a adoção manifestada diante de todo o mundo, anjos e homens. Agora somos filhos de Deus, mas isso ainda não se manifestou; a honra está agora encoberta. Mas então Deus reconhecerá publicamente todos os seus filhos.

A escritura de adoção, que agora está redigida, assinada e selada, será então reconhecida, proclamada e publicada. Como Cristo foi, assim os santos serão declarados filhos de Deus com poder, pela ressurreição dos mortos, Romanos 1:4. Aí ficará fora de discussão.

[2.] É a adoção aperfeiçoada e completada. Os filhos de Deus têm corpos além de almas; e, enquanto esses corpos não forem trazidos para a liberdade gloriosa dos filhos de Deus, a adoção não está perfeita.

Mas então estará completa, quando o Capitão da nossa salvação levar muitos filhos à glória, Hebreus 2:10. É isto que esperamos, e na esperança disto a nossa carne repousa, Salmos 16:9, 10.

Todos os dias do nosso tempo determinado ficamos esperando, até que venha esta mudança, quando ele chamar e nós respondermos, e ele desejar a obra das suas mãos, Jó 14:14, 15.

(3.) Como isto combina com o nosso estado presente, v. 24, 25. A nossa felicidade não está em posse presente: “Somos salvos pela esperança”.

Nisto, como em outras coisas, Deus fez do nosso estado presente um estado de prova e experiência: a nossa recompensa está fora de vista. Quem quiser negociar com Deus tem de negociar a crédito.

É reconhecido que uma das principais graças do cristão é a esperança (1 Coríntios 13:13), que necessariamente implica um bem por vir, o qual é o objeto dessa esperança.

A fé olha para a promessa, a esperança para a coisa prometida. A fé é a prova, a esperança é a expectativa, das coisas que não se veem. A fé é a mãe da esperança.

Com paciência esperamos. Ao esperar por esta glória precisamos de paciência, para suportar os sofrimentos que encontramos no caminho até ela e as demoras dela.

O nosso caminho é áspero e longo; mas aquele que há de vir virá, e não tardará; e por isso, ainda que pareça tardar, convém que esperemos por ele.

Versículos 26 a 28

Os Privilégios do Crente. (d.C. 58.)

O apóstolo sugere aqui mais dois privilégios a que os verdadeiros cristãos têm direito:

I. A ajuda do Espírito na oração. Enquanto estamos neste mundo, esperando e aguardando o que não vemos, temos de orar.

A esperança supõe desejo, e esse desejo oferecido a Deus é oração; nós gememos. Agora observe:

  1. A nossa fraqueza na oração: Não sabemos o que devemos pedir como convém.

(1.) Quanto ao conteúdo dos nossos pedidos, não sabemos o que pedir. Não somos juízes competentes da nossa própria condição. Quem sabe o que é bom para o homem nesta vida? Eclesiastes 6:12.

Somos de vista curta, muito inclinados a favor da carne, e propensos a separar o fim do caminho. “Não sabeis o que pedis”, Mateus 20:22.

Somos como crianças tolas, prontas a chorar pelo fruto antes que ele esteja maduro e próprio para elas; veja Lucas 9:54, 55.

(2.) Quanto ao modo, não sabemos como orar como convém. Não basta fazermos o que é bom: temos de fazê-lo bem, buscar na devida ordem.

E aqui muitas vezes ficamos perdidos: as graças são fracas, os afetos frios, os pensamentos dispersos, e nem sempre é fácil achar o coração para orar, 2 Samuel 7:27.

O apóstolo fala disso na primeira pessoa: Não sabemos. Ele se coloca entre os demais. Loucura, fraqueza e distração na oração são a queixa de todos os santos.

Se um santo tão grande como Paulo não sabia o que pedir, que pouca razão temos para sair a cumprir esse dever com a nossa própria força!

  1. As ajudas que o Espírito nos dá nesse dever. Ele socorre as nossas fraquezas, entendidas sobretudo como as fraquezas da oração, as que mais facilmente nos assediam nesse dever, e contra as quais o Espírito ajuda.

O Espírito no mundo ajuda; há na palavra muitas regras e promessas para o nosso socorro.

O Espírito no coração ajuda, habitando em nós, operando em nós, como Espírito de graça e de súplicas, especialmente quanto às fraquezas que sofremos quando estamos em estado de sofrimento, quando a nossa fé está mais sujeita a falhar; foi para esse fim que o Espírito Santo foi derramado.

Socorre, synantilambanetai — ergue conosco, do lado oposto ao nosso, ajuda como ajudamos alguém que quer levantar um fardo, erguendo de frente para ele, na outra ponta — ajuda junto conosco, isto é, conosco fazendo o nosso esforço, empregando a força que temos.

Não devemos ficar parados, esperando que o Espírito faça tudo; quando o Espírito vai à nossa frente, temos de nos mexer. Não podemos sem Deus, e ele não quer sem nós.

Que ajuda? Ora, o próprio Espírito intercede por nós, dita os nossos pedidos, redige as nossas petições, formula o nosso apelo.

Cristo intercede por nós no céu, o Espírito intercede por nós nos nossos corações; com tanta graça Deus proveu o ânimo do remanescente que ora.

O Espírito, como Espírito que ilumina, nos ensina o que pedir; como Espírito que santifica, produz e desperta as graças da oração; como Espírito que consola, silencia os nossos medos e nos ajuda a vencer todos os nossos desânimos.

O Espírito Santo é a nascente de todos os nossos desejos e anseios por Deus. Ora, esta intercessão que o Espírito faz é:

(1.) Com gemidos que não se podem exprimir. Com isso se indica a força e o fervor daqueles desejos que o Espírito Santo produz.

Pode haver oração no Espírito onde não se fala uma palavra, como orou Moisés (Êxodo 14:15), e Ana, 1 Samuel 1:13.

Não é a retórica e a eloquência, mas a fé e o fervor das nossas orações, que o Espírito, como intercessor, produz em nós.

Não se podem exprimir: são tão confusos, a alma está em tal tumulto com tentações e aflições, que não sabemos o que dizer nem como nos exprimir.

Aqui está o Espírito intercedendo com gemidos que não se podem exprimir. Quando tudo o que conseguimos é clamar: Aba, Pai, e nos entregar a ele com uma ousadia santa e humilde, isso é obra do Espírito.

(2.) Segundo a vontade de Deus, v. 27. O Espírito no coração nunca contradiz o Espírito na palavra. Os desejos contrários à vontade de Deus não vêm do Espírito.

O Espírito, intercedendo em nós, sempre derrete a nossa vontade na vontade de Deus. “Não como eu quero, mas como tu queres.”

  1. O êxito certo dessas intercessões: Aquele que sonda o coração sabe qual é a mente do Espírito, v. 27.

Para o hipócrita, cuja religião toda está na língua, nada é mais terrível do que Deus explorar o coração e enxergar através de todos os seus disfarces.

Para o cristão sincero, que faz do seu dever obra do coração, nada é mais consolador do que Deus explorar o coração, pois então ele ouvirá e responderá àqueles desejos para os quais nos faltam palavras.

Ele sabe do que temos necessidade antes de pedirmos, Mateus 6:8. Ele sabe qual é a mente do seu próprio Espírito em nós.

E, assim como sempre ouve o Filho intercedendo por nós, também sempre ouve o Espírito intercedendo em nós, porque a intercessão dele é segundo a vontade de Deus.

O que mais se poderia ter feito para o consolo do povo do Senhor em todas as suas aproximações de Deus?

Cristo tinha dito: “Tudo quanto pedirdes ao Pai segundo a sua vontade, ele vos dará.” Mas como vamos aprender a pedir segundo a vontade dele?

Ora, o Espírito nos ensinará isso. É por isso que a semente de Jacó nunca busca em vão.

II. A concorrência de todas as providências para o bem daqueles que são de Cristo, v. 28.

Pode-se objetar que, apesar de todos esses privilégios, vemos os crentes cercados de muitas aflições; embora o Espírito interceda por eles, as dificuldades deles continuam.

É bem verdade; mas nisto a intercessão do Espírito é sempre eficaz: seja qual for a sorte deles, tudo isso está trabalhando junto para o bem deles. Observe aqui:

  1. O caráter dos santos, que têm parte neste privilégio; eles são descritos aqui por propriedades comuns a todos os que são verdadeiramente santificados:

(1.) Eles amam a Deus. Isso inclui todos os movimentos do afeto da alma em direção a Deus como o bem supremo e o fim mais alto.

É o nosso amor a Deus que torna doce cada providência e, por isso, proveitosa. Quem ama a Deus tira o melhor de tudo o que ele faz e leva tudo a bem.

(2.) Eles são os chamados segundo o propósito dele, eficazmente chamados segundo o propósito eterno. O chamado é eficaz, não segundo algum mérito ou merecimento nosso, mas segundo o propósito gracioso do próprio Deus.

  1. O privilégio dos santos: que todas as coisas trabalham juntas para o bem deles, isto é, todas as providências de Deus que lhes dizem respeito.

Tudo o que Deus realiza, ele realiza por eles, Salmos 57:2. Os pecados deles não são realizados por ele, e portanto não estão em vista aqui, embora o fato de ele tolerar o pecado seja levado a trabalhar para o bem deles, 2 Crônicas 32:31.

Mas todas as providências de Deus são deles: providências de misericórdia, providências de aflição, pessoais, públicas.

Todas são para o bem; talvez para o bem temporal, como as dificuldades de José; ao menos, para o bem espiritual e eterno. É bom para eles aquilo que faz bem às suas almas.

Direta ou indiretamente, toda providência tende ao bem espiritual dos que amam a Deus, arrancando-os do pecado, aproximando-os de Deus, desapegando-os do mundo, preparando-os para o céu.

Trabalham juntas. Elas agem como o remédio age no corpo, de vários modos, conforme a intenção do médico; mas tudo para o bem do paciente.

Trabalham juntas, como vários ingredientes num medicamento concorrem para atender à intenção. Deus pôs uma coisa em oposição à outra (Eclesiastes 7:14).

Synergei, um verbo no singular, com um substantivo no plural, denotando a harmonia da Providência e os seus desígnios uniformes, todas as rodas como uma só roda, Ezequiel 10:13.

Ele trabalha todas as coisas juntas para o bem; é assim que alguns leem.

Isso não vem de nenhuma qualidade específica das providências em si, mas do poder e da graça de Deus operando nelas, com elas e por elas.

E tudo isso nós sabemos — sabemos com certeza, pela palavra de Deus, pela nossa própria experiência e pela experiência de todos os santos.

Versículos 29 a 30

Os Privilégios do Crente. (d.C. 58.)

O apóstolo, depois de enumerar tantos ingredientes da felicidade dos verdadeiros crentes, chega aqui ao fundamento de todos eles, que ele assenta na predestinação.

Estes privilégios preciosos nos são transmitidos pela carta da aliança, mas se fundam no conselho de Deus, que garante infalivelmente o desfecho.

Para que Jesus Cristo, o comprador, não trabalhasse em vão nem gastasse a sua força e a sua vida por nada e em vão, há um remanescente dado a ele, uma semente que ele há de ver, de modo que a boa vontade do Senhor prosperará nas mãos dele.

Para explicar isso, ele põe diante de nós a ordem das causas da nossa salvação, uma corrente de ouro que não se pode quebrar. Ela tem quatro elos:

I. Aos que ele conheceu de antemão, também os predestinou para serem conformes à imagem do seu Filho.

Todos os que Deus destinou à glória e à felicidade como fim, ele decretou à graça e à santidade como caminho. Não é que ele tenha conhecido alguns de antemão como santos e por isso os tenha predestinado a serem santos.

Os conselhos e os decretos de Deus não se curvam à vontade frágil e inconstante dos homens. Não: o conhecimento prévio que Deus tem dos santos é a mesma coisa que aquele amor eterno com que se diz que ele os amou, Jeremias 31:3.

Deus conhecer o seu povo é a mesma coisa que ele reconhecê-lo como seu, Salmos 1:6; João 10:14; 2 Timóteo 2:19. Veja Romanos 11:2.

Palavras de conhecimento muitas vezes, na Escritura, denotam afeição. É assim aqui: “Eleitos segundo o conhecimento prévio de Deus”, 1 Pedro 1:2. E a mesma palavra é traduzida por predeterminado, 1 Pedro 1:20.

Aos que ele conheceu de antemão, isto é, aos que ele destinou para serem seus amigos e favoritos. “Eu te conheço pelo nome”, disse Deus a Moisés, Êxodo 33:12.

Ora, aqueles a quem Deus assim conheceu de antemão, esses ele predestinou para serem conformes a Cristo.

  1. A santidade consiste na nossa conformidade à imagem de Cristo. Isso abrange toda a santificação, da qual Cristo é o grande padrão e o grande modelo.

Ter o espírito que Cristo teve, andar e viver como Cristo andou e viveu, suportar os nossos sofrimentos com paciência como Cristo suportou.

Cristo é a imagem expressa do seu Pai, e os santos são conformados à imagem de Cristo.

É assim, pela mediação e pela interposição de Cristo, que temos o amor de Deus restaurado a nós e a semelhança de Deus renovada em nós; e nestas duas coisas consiste a felicidade do homem.

  1. Todos os que Deus, desde a eternidade, conheceu de antemão com favor, ele predestinou a esta conformidade. Não somos nós que podemos nos conformar a Cristo.

O nosso entregar-nos a Cristo tem origem em Deus nos ter dado a ele; e, ao nos dar a ele, ele nos predestinou a sermos conformes à sua imagem.

É pura implicância, portanto, chamar a doutrina da eleição de doutrina libertina e alegar que ela dá ânimo para o pecado, como se o fim estivesse separado do caminho, e a felicidade, da santidade.

Ninguém pode conhecer a sua eleição senão pela sua conformidade à imagem de Cristo; porque todos os que são escolhidos são escolhidos para a santificação (2 Tessalonicenses 2:13).

E certamente crer que foram predestinados a ser conformes a Cristo não pode ser, para ninguém, tentação para se conformar ao mundo.

  1. O que aqui se pretende principalmente é a honra de Jesus Cristo, para que ele seja o primogênito entre muitos irmãos; isto é, para que Cristo tenha a honra de ser o grande padrão, além do grande príncipe, e nisto, como em outras coisas, tenha a preeminência.

Era no primogênito que todos os filhos eram dedicados a Deus debaixo da lei. O primogênito era a cabeça da família, de quem todos os demais dependiam. Ora, na família dos santos Cristo tem de ter a honra de ser o primogênito.

E bendito seja Deus por haver muitos irmãos. Ainda que pareçam poucos num lugar e num tempo, quando se juntarem todos serão muitíssimos.

Há, portanto, um número certo de predestinados, para que o fim do empreendimento de Cristo ficasse infalivelmente garantido.

Se o desfecho tivesse sido deixado incerto nos conselhos divinos, na dependência da guinada imprevisível da vontade do homem, Cristo poderia ter sido o primogênito entre poucos irmãos, ou entre nenhum: um capitão sem soldados e um príncipe sem súditos.

Para impedir isso e para lhe garantir muitos irmãos, o decreto é absoluto e a coisa está assegurada, para que ele tivesse certeza de ver a sua semente. Há um remanescente predestinado a ser conforme à sua imagem.

Esse decreto certamente terá o seu cumprimento na santidade e na felicidade daquela raça escolhida; e assim, apesar de toda a oposição dos poderes das trevas, Cristo será o primogênito entre muitos, muitíssimos irmãos.

II. Aos que ele predestinou, também os chamou. Não só com o chamado externo (pois muitos são chamados que não foram escolhidos, Mateus 20:16; 22:14), mas com o chamado interno e eficaz.

O primeiro chega apenas ao ouvido; este chega ao coração. A todos os que Deus, desde a eternidade, predestinou para a graça e para a glória, ele chama eficazmente na plenitude do tempo.

O chamado é eficaz quando atendemos ao chamado; e atendemos ao chamado quando o Espírito nos atrai, convence a consciência de culpa e de cólera, ilumina o entendimento, dobra a vontade, nos persuade e nos capacita a abraçar Cristo nas promessas, e nos torna dispostos no dia do seu poder.

É um chamado eficaz de nós mesmos e da terra para Deus, para Cristo e para o céu como nosso fim; do pecado e da vaidade para a graça, a santidade e a seriedade como nosso caminho.

Este é o chamado do evangelho. A esses ele chamou, para que o propósito de Deus, segundo a eleição, permanecesse: somos chamados para aquilo para que fomos escolhidos.

De modo que o único jeito de tornar firme a nossa eleição é tornar firme o nosso chamado, 2 Pedro 1:10.

III. Aos que ele chamou, também os justificou. Todos os que são eficazmente chamados são justificados, absolvidos da culpa e aceitos como justos por meio de Jesus Cristo.

Eles são recti in curia, em ordem perante o tribunal. Nenhum pecado de que já tenham sido culpados virá contra eles para condená-los.

O livro está riscado, a dívida está cancelada, a sentença está anulada, a condenação está revertida; e eles já não são tratados como criminosos, mas reconhecidos e amados como amigos e favoritos.

Bem-aventurado o homem cuja iniquidade é assim perdoada. Ninguém é justificado assim senão os que são eficazmente chamados. Os que resistem ao chamado do evangelho permanecem debaixo da culpa e da cólera.

IV. Aos que ele justificou, também os glorificou.

Quebrado o poder da corrupção no chamado eficaz, e removida a culpa do pecado na justificação, tudo o que estorva é tirado do caminho, e nada pode se meter entre aquela alma e a glória.

Observe: fala-se disso como de coisa já feita, ele os glorificou, por causa da certeza da coisa; ele nos salvou e nos chamou com uma santa vocação.

Na glorificação eterna de todos os eleitos, o desígnio de amor de Deus tem o seu pleno cumprimento. Era isto que ele visava o tempo todo: levá-los ao céu.

Nada menos que aquela glória completaria a plenitude da sua relação de aliança com eles como Deus; e por isso, em tudo o que ele faz por eles e neles, tem isto diante dos olhos.

Foram escolhidos? É para a salvação. Chamados? É para o seu reino e glória. Regenerados? É para uma herança incorruptível. Afligidos? É para produzir para eles este peso de glória, excelente e eterno.

Observe: o autor de todas estas coisas é o mesmo. É o próprio Deus que predestina, chama, justifica e glorifica; assim, só o Senhor o guiou, e não havia com ele deus estranho.

As vontades criadas são tão inconstantes, e os poderes criados tão fracos, que, se alguma destas coisas dependesse da criatura, o todo ficaria abalado.

Mas o próprio Deus se encarregou de fazer tudo isso do princípio ao fim, para que permanecêssemos em constante dependência dele e em sujeição a ele, e atribuíssemos todo o louvor a ele, para que toda coroa seja lançada diante do trono.

Isto é um poderoso ânimo para a nossa fé e a nossa esperança; porque, quanto a Deus, o seu caminho e a sua obra são perfeitos.

Aquele que assentou o fundamento há de edificar sobre ele, e a pedra de remate por fim será trazida com aclamações, e será a nossa obra eterna clamar: Graça, graça a ela!

Versículos 31 a 39

O Triunfo do Crente. (d.C. 58.)

O apóstolo encerra este excelente discurso sobre os privilégios dos crentes com um triunfo santo, em nome de todos os santos.

Depois de expor largamente o mistério do amor de Deus por nós em Cristo, e os privilégios grandíssimos e preciosos que desfrutamos por meio dele, ele conclui como um orador: Que diremos, pois, a estas coisas? Que uso faremos de tudo o que foi dito?

Ele fala como quem está pasmo, engolido pela contemplação e pela admiração disso, maravilhado com a altura e a profundidade, o comprimento e a largura do amor de Cristo, que excede todo conhecimento.

Quanto mais conhecemos as outras coisas, menos nos admiramos delas; mas quanto mais somos levados para dentro do conhecimento dos mistérios do evangelho, mais a admiração deles nos toma.

Se Paulo ficou sem saber o que dizer a estas coisas, não é de espantar que nós fiquemos também. E o que ele diz? Ora, se alguma vez Paulo andou em carro triunfal deste lado do céu, foi aqui.

Com tanta altura santa e bravura de espírito, com tanta fluência e abundância de expressão, ele conforta aqui a si mesmo e a todo o povo de Deus, na consideração destes privilégios.

De modo geral, ele lança aqui um desafio, atira a luva, por assim dizer, provoca todos os inimigos dos santos a fazerem o pior que puderem: Se Deus é por nós, quem será contra nós?

O fundamento do desafio é que Deus é por nós; nisso ele resume todos os nossos privilégios. Está tudo incluído nisto: que Deus é por nós.

Não só reconciliado conosco, e portanto não contra nós, mas em aliança conosco, e portanto comprometido em nosso favor — todos os seus atributos por nós, as suas promessas por nós.

Tudo o que ele é, e tem, e faz, é para o seu povo. Ele realiza todas as coisas por eles. Ele é por eles, mesmo quando parece agir contra eles.

E, se é assim, quem pode ser contra nós, a ponto de prevalecer contra nós, a ponto de impedir a nossa felicidade? Por maiores e mais fortes que sejam, por mais numerosos, por mais poderosos, por mais maldosos, o que podem fazer?

Enquanto Deus é por nós, e nos guardamos no amor dele, podemos com santa ousadia desafiar todos os poderes das trevas.

Que Satanás faça o pior que puder: ele está acorrentado. Que o mundo faça o pior que puder: ele está vencido. Principados e potestades foram despojados, desarmados e vencidos em triunfo na cruz de Cristo.

Quem ousa, então, lutar contra nós, enquanto o próprio Deus luta por nós? E é isto que dizemos a estas coisas, esta é a conclusão que tiramos destas premissas. Mais particularmente.

I. Temos suprimento pronto em todas as nossas necessidades (v. 32): “Aquele que não poupou”, etc. Quem pode ser contra nós, para nos despojar, para nos privar dos nossos consolos? Quem pode cortar os nossos regatos, enquanto temos uma fonte a que ir?

  1. Observe o que Deus fez por nós, sobre o que se edificam as nossas esperanças: ele não poupou o seu próprio Filho. Quando era preciso assumir a nossa salvação, o Pai esteve disposto a se separar dele, não o achou dom precioso demais para conceder pela salvação de almas pobres.

Agora podemos saber que ele nos ama, visto que não reteve de nós o seu Filho, o seu próprio Filho, o seu único Filho, como ele disse de Abraão, Gênesis 22:12.

Se nada menos que isso salvaria o homem, então, antes que o homem pereça, que ele vá, ainda que fosse do seio do Pai.

Assim ele o entregou por todos nós, isto é, por todos os eleitos; por nós todos, não só para o nosso bem, mas em nosso lugar, como sacrifício de expiação, para ser propiciação pelo pecado.

Depois que ele assumiu a obra, o Pai não o poupou. Embora fosse o seu próprio Filho, tendo sido feito pecado por nós, agradou ao Senhor moê-lo.

Ouk epheisato — ele não lhe abateu um centavo daquela dívida enorme, mas cobrou-a até o fim. Desperta, ó espada.

Ele não poupou o seu próprio Filho, que o servia, para poder poupar a nós, que tanto desserviço lhe fizemos.

  1. O que podemos, portanto, esperar que ele fará: com ele nos dará graciosamente todas as coisas.

(1.) Está implícito que ele nos dará Cristo, pois as outras coisas são concedidas junto com ele: não só com ele dado por nós, mas com ele dado a nós.

Aquele que se pôs a tanto custo para fazer a compra por nós certamente não vai hesitar em fazer a aplicação a nós.

(2.) Com ele nos dará graciosamente todas as coisas, todas as coisas que ele vê serem necessárias e indispensáveis para nós, todas as coisas boas, e mais que isso não devemos desejar, Salmos 34:10.

E a Sabedoria Infinita é que vai julgar se aquilo é bom e necessário para nós ou não. Dará graciosamente — graciosamente, sem relutância; ele está pronto a dar, sai ao nosso encontro com os seus favores; e graciosamente, sem retribuição, sem dinheiro e sem preço.

Como não o fará? Dá para imaginar que ele faça o maior e não faça o menor? Que dê por nós um dom tão grande quando éramos inimigos, e nos negue algum bem agora que, por meio dele, somos amigos e filhos?

Assim podemos, pela fé, argumentar contra os nossos medos de passar necessidade. Aquele que preparou uma coroa e um reino para nós certamente nos dará o bastante para custear a viagem até lá.

Aquele que nos destinou à herança de filhos, quando chegarmos à maioridade, não vai nos deixar sem o necessário nesse meio-tempo.

II. Temos resposta pronta para todas as acusações e segurança contra todas as condenações (v. 33, 34): “Quem intentará acusação?” A lei os acusa? A própria consciência deles os acusa?

O diabo, o acusador dos irmãos, está acusando-os diante do nosso Deus dia e noite? Isto basta para responder a todas essas acusações: É Deus quem justifica.

Os homens podem justificar a si mesmos, como os fariseus fizeram, e ainda assim as acusações continuam em pleno vigor contra eles; mas, se Deus justifica, isso responde a tudo.

Ele é o juiz, o rei, a parte ofendida, e o julgamento dele é segundo a verdade, e mais cedo ou mais tarde o mundo inteiro será levado a concordar com ele.

De modo que podemos desafiar todos os nossos acusadores a virem apresentar a sua queixa. Isso derruba todos eles: é Deus, o Deus justo e fiel, que justifica.

Quem é que condena? Ainda que não consigam provar a acusação, estarão prontos a condenar; mas temos uma petição pronta para suspender a sentença, uma petição que não pode ser indeferida.

É Cristo quem morreu, etc. É por força do nosso interesse em Cristo, da nossa relação com ele e da nossa união com ele que estamos assim seguros.

  1. A morte dele: É Cristo quem morreu. Pelo mérito da sua morte ele pagou a nossa dívida; e o pagamento do fiador é boa defesa numa ação de cobrança. É Cristo, um Salvador capaz e todo-suficiente.

  2. A ressurreição dele: Ou, antes, o que também ressuscitou. Isto dá muito mais ânimo, porque é evidência convincente de que a justiça divina foi satisfeita pelo mérito da morte dele.

A ressurreição dele foi a sua quitação, foi uma baixa legal. Por isso o apóstolo a menciona com um ou, antes. Se ele tivesse morrido e não ressuscitado, estaríamos onde estávamos.

  1. O estar sentado à direita de Deus: Ele está mesmo à direita de Deus — uma evidência ulterior de que terminou a sua obra, e dá um ânimo poderoso a nós quanto a todas as acusações, pois temos um amigo, e que amigo, no tribunal.

À direita de Deus, o que indica que ele está pronto ali, sempre à mão; e que ele está governando ali, pois todo poder lhe foi dado. O nosso amigo é ele mesmo o juiz.

  1. A intercessão que ele faz ali. Ele está lá, não despreocupado a nosso respeito, não esquecido de nós, mas intercedendo.

Ele é o nosso agente ali, um advogado nosso, para responder a todas as acusações, para apresentar a nossa petição e conduzi-la com eficácia, para comparecer por nós e apresentar os nossos pedidos.

E não é isto matéria abundante de consolo? Que diremos a estas coisas? É este o modo dos homens, ó Senhor Deus? Que lugar sobra para a dúvida e a inquietação? Por que estás abatida, ó minha alma?

Alguns entendem que a acusação e a condenação de que se fala aqui são as que os santos sofredores encontravam da parte dos homens.

Aos primeiros cristãos se atribuíam muitos crimes negros — heresia, sedição, rebelião, e o que mais? Por isso os poderes governantes os condenavam.

“Mas isso não importa” (diz o apóstolo); “enquanto estamos bem diante do tribunal de Deus, pouco importa como estamos diante do tribunal dos homens.

A todas as censuras duras, às calúnias maliciosas e às sentenças injustas e iníquas dos homens, podemos com consolo opor a nossa justificação diante de Deus por meio de Cristo Jesus, como aquilo que abundantemente as compensa”, 1 Coríntios 4:3, 4.

III. Temos boa garantia da nossa preservação e permanência neste estado abençoado, v. 35, até o fim.

Os medos dos santos, de que possam perder o seu apoio em Cristo, muitas vezes os desanimam e inquietam, e lhes criam grande perturbação; mas aqui está o que pode calar esses medos e acalmar essas tempestades: nada pode separá-los.

Temos aqui, da parte do apóstolo:

  1. Um desafio ousado a todos os inimigos dos santos, para que separem os santos, se puderem, do amor de Cristo. Quem separará? Ninguém separará, vv. 35-37.

Tendo Deus manifestado o seu amor ao dar o seu próprio Filho por nós, e sem hesitar nisso, dá para imaginar que qualquer outra coisa venha a desviar ou dissolver esse amor? Observe aqui:

(1.) As calamidades presentes dos amados de Cristo, aqui supostas: que eles encontram tribulação por todos os lados, estão em angústia, não sabem para onde olhar em busca de socorro e alívio neste mundo, são perseguidos por um mundo irado e malicioso que sempre odiou aqueles a quem Cristo amou.

Estão apertados pela fome e enregelados na nudez, despojados de todo conforto criado, expostos aos maiores perigos, com a espada do magistrado desembainhada contra eles, pronta para se embainhar nas suas entranhas, banhada no seu sangue.

Dá para supor um caso mais negro e mais sombrio? Isso é ilustrado (v. 36) por uma passagem citada de Salmos 44:22: “Por amor de ti somos mortos o dia todo”, o que dá a entender que não devemos estranhar, nem mesmo quanto à prova de fogo e de sangue.

Vemos que os santos do Antigo Testamento tiveram a mesma sorte; assim perseguiram os profetas que foram antes de nós.

Mortos o dia todo, isto é, continuamente expostos ao golpe fatal e à espera dele. Sempre, todo dia e o dia inteiro, há um ou outro do povo de Deus sangrando e morrendo sob a fúria dos inimigos perseguidores.

Considerados como ovelhas para o matadouro; eles não fazem mais caso de matar um cristão do que de abater uma ovelha.

As ovelhas são mortas não porque sejam nocivas enquanto vivem, mas porque são úteis depois de mortas. Eles matam os cristãos para agradar a si mesmos, para servir de alimento à sua malícia. Eles comem o meu povo como quem come pão, Salmos 14:4.

(2.) A incapacidade de todas essas coisas para nos separar do amor de Cristo. Farão isso? Podem fazer isso? Não, de modo nenhum. Nada disso vai cortar o laço de amor e amizade que existe entre Cristo e os verdadeiros crentes.

[1.] Cristo não nos ama menos, nem nos amará menos, por causa de tudo isso. Todas essas tribulações são bem compatíveis com o amor forte e constante do Senhor Jesus. Não são causa nem evidência de que o amor dele tenha esfriado.

Quando Paulo era açoitado, espancado, preso e apedrejado, será que Cristo o amava menos? Os favores dele foram interrompidos? Os seus sorrisos ficaram em suspenso? As suas visitas ficaram mais raras? De modo nenhum: pelo contrário.

Essas coisas nos separam do amor de outros amigos. Quando Paulo foi levado diante de Nero, todos os homens o abandonaram, mas então o Senhor esteve ao lado dele, 2 Timóteo 4:16, 17.

Do que quer que os inimigos perseguidores nos roubem, não podem nos roubar o amor de Cristo, não podem interceptar as suas provas de amor, não podem interromper nem impedir as suas visitas; e por isso, façam eles o pior que puderem, não conseguem tornar infeliz um verdadeiro crente.

[2.] Nós não o amamos menos, nem o amaremos menos, por causa disto; e pela seguinte razão: porque não pensamos que ele nos ame menos.

O amor não pensa mal, não alimenta suspeitas, não tira conclusões duras, não faz interpretações maldosas, leva a bem tudo o que vem do amor.

Um verdadeiro cristão não ama Cristo nem um pouco menos embora sofra por ele, nem pensa nem um pouco pior de Cristo embora perca tudo por ele.

(3.) O triunfo dos crentes nisto (v. 37): “Antes, em todas estas coisas somos mais que vencedores.”

[1.] Somos vencedores: ainda que mortos o dia todo, somos vencedores. É um modo estranho de vencer, mas foi o modo de Cristo; assim ele triunfou sobre principados e potestades na sua cruz.

É um caminho mais seguro e mais nobre de conquista, pela fé e pela paciência, do que pelo fogo e pela espada.

Os inimigos às vezes confessaram que ficaram desconcertados e vencidos pela coragem invencível e pela constância dos mártires, que assim venceram os príncipes mais vitoriosos por não amarem a sua vida até a morte, Apocalipse 12:11.

[2.] Somos mais que vencedores. Ao suportar com paciência estas provas, não somos apenas vencedores, mas mais que vencedores, isto é, triunfadores.

São mais que vencedores os que vencem: Primeiro, com pouca perda. Muitas vitórias custam caro; mas o que perdem os santos que sofrem? Ora, perdem o que o ouro perde na fornalha: nada além da escória. Não é grande perda perder coisas que não são — um corpo que é da terra, terreno.

Segundo, com grande ganho. Os despojos são riquíssimos: glória, honra e paz, uma coroa de justiça que não se desvanece.

Nisso os santos que sofrem triunfaram; não só não foram separados do amor de Cristo, como foram tomados nas carícias e nos abraços mais palpáveis desse amor.

Quanto mais abundam as aflições, muito mais abundam as consolações, 2 Coríntios 1:5. Há quem seja mais que vencedor quando é pressionado além da medida.

Aquele que abraçou a estaca e disse: “Bem-vinda a cruz de Cristo, bem-vinda a vida eterna”. Aquele que datou a sua carta do delicioso pomar da prisão Leonina. Aquele que disse: “Nestas chamas não sinto mais dor do que se estivesse sobre um leito de plumas”.

Aquela que, pouco antes do seu martírio, ao ser perguntada como estava, respondeu: “Bem e alegre, e a caminho do céu”. Aqueles que foram sorrindo para a estaca e ficaram cantando nas chamas — esses foram mais que vencedores.

[3.] É somente por meio de Cristo, que nos amou: o mérito da sua morte tira o ferrão de todas estas tribulações, o Espírito da sua graça nos fortalece e nos capacita a suportá-las com santa coragem e constância, e vem em nosso socorro com consolos e apoios especiais.

Assim somos vencedores, não na nossa própria força, mas na graça que está em Cristo Jesus. Somos vencedores por força do nosso interesse na vitória de Cristo.

Ele venceu o mundo por nós (João 16:33), tanto as coisas boas dele quanto as más; de modo que nada nos resta senão perseguir a vitória e repartir os despojos, e assim somos mais que vencedores.

  1. Uma conclusão direta e positiva de toda a matéria: “Porque estou convencido”, v. 38, 39. Isso indica uma persuasão plena, forte e afetuosa, nascida da experiência da força e da doçura do amor divino.

E aqui ele enumera todas aquelas coisas que se poderia supor capazes de separar Cristo dos crentes, e conclui que isso não se pode fazer.

(1.) Nem a morte nem a vida — nem os terrores da morte de um lado, nem os consolos e prazeres da vida do outro; nem o medo da morte, nem a esperança da vida. Ou: não seremos separados daquele amor, nem na morte nem na vida.

(2.) Nem anjos, nem principados, nem potestades. Tanto os anjos bons quanto os maus são chamados principados e potestades: os bons, Efésios 1:21; Colossenses 1:16; os maus, Efésios 6:12; Colossenses 2:15.

E nem uns nem outros o farão. Os anjos bons não o farão, os maus não o farão; e nenhum deles é capaz de fazê-lo. Os anjos bons são amigos comprometidos, os maus são inimigos contidos.

(3.) Nem as coisas presentes, nem as futuras — nem a sensação das tribulações presentes, nem o medo das tribulações por vir. O tempo não nos separará, a eternidade não nos separará.

As coisas presentes nos separam das coisas futuras, e as coisas futuras nos separam e nos cortam das presentes; mas nem umas nem outras nos separam do amor de Cristo, cujo favor está entrelaçado tanto com as coisas presentes quanto com as futuras.

(4.) Nem a altura, nem a profundidade — nem a altura da prosperidade e da promoção, nem a profundidade da adversidade e da desonra; nada do céu acima, nenhuma tempestade, nenhum temporal; nada da terra abaixo, nenhuma rocha, nenhum mar, nenhuma masmorra.

(5.) Nem qualquer outra criatura — nada que se possa nomear ou pensar. Não nos separará, não pode nos separar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor.

Não pode cortar nem enfraquecer o nosso amor a Deus, nem o de Deus a nós; nada faz isso, nada pode fazer isso, a não ser o pecado.

Observe: o amor que existe entre Deus e os verdadeiros crentes é por meio de Cristo. Ele é o Mediador do nosso amor: é nele e por meio dele que Deus pode nos amar e que nós ousamos amar a Deus.

Este é o fundamento da firmeza desse amor; por isso Deus repousa no seu amor (Sofonias 3:17), porque Jesus Cristo, em quem ele nos ama, é o mesmo ontem, hoje e para sempre.

O sr. Hugh Kennedy, cristão eminente de Ayr, na Escócia, quando estava morrendo, pediu uma Bíblia; mas, percebendo que a vista já lhe faltava, disse: “Abra no oitavo capítulo de Romanos e ponha o meu dedo sobre estas palavras: estou convencido de que nem a morte nem a vida”, etc.

“Agora”, disse ele, “o meu dedo está sobre elas?” E, quando lhe disseram que sim, sem falar mais nada, disse: “Agora, Deus fique com vocês, meus filhos; tomei o café da manhã com vocês, e esta noite cearei com o meu Senhor Jesus Cristo”; e assim partiu.


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