Romanos 5
Argumento
Depois de estabelecer seu argumento e demonstrar plenamente a justificação pela fé, o apóstolo passa neste capítulo a explicar, ilustrar e aplicar essa verdade. I. Mostra os frutos da justificação, vv. 1-5. II. Mostra a fonte e o fundamento da justificação na morte de Jesus Cristo, assunto que desenvolve amplamente no restante do capítulo.
Versículos 1 a 5
A Justificação e Seus Efeitos. (d.C. 58.)
Os preciosos benefícios e privilégios que decorrem da justificação devem estimular todos nós a nos esforçar para ter certeza de que fomos justificados, a receber o consolo que ela nos oferece e a cumprir o dever que nos impõe. Os frutos dessa árvore da vida são extremamente preciosos.
I. Temos paz com Deus, v. 1. É o pecado que provoca a desavença entre nós e Deus, criando não só afastamento, mas inimizade. O Deus santo e justo não pode, sem comprometer sua honra, estar em paz com um pecador enquanto este permanece sob a culpa do pecado. A justificação remove a culpa e, assim, abre caminho para a paz.
E a bondade e a boa vontade de Deus para com o homem são tais que, assim que esse obstáculo é removido, a paz se estabelece. Pela fé nos agarramos ao braço e à força de Deus e assim ficamos em paz, Isaías 27:4, 5.
Essa paz é mais do que a simples cessação da inimizade: nela há amizade e amor, pois Deus é ou o pior inimigo ou o melhor amigo. Abraão, justificado pela fé, foi chamado “amigo de Deus” (Tiago 2:23). Essa era sua honra, mas não uma honra exclusiva dele: Cristo chamou seus discípulos de amigos, João 15:13-15. Certamente, para ser feliz, um homem não precisa de mais nada além de ter Deus por amigo!
Mas isso acontece por meio de nosso Senhor Jesus Cristo, por meio dele como grande pacificador, Mediador entre Deus e o homem, bendito árbitro que pôs a mão sobre ambos. Em sua inocência, Adão tinha paz com Deus sem mediação; não precisava de tal mediador.
Mas, para o homem culpado e pecador, pensar em Deus fora de Cristo é algo terrível, pois ele é a nossa paz, Efésios 2:14. Ele não apenas produz a paz, mas constitui sua essência e a mantém, Colossenses 1:20.
II. Pela fé temos acesso a esta graça na qual estamos firmes, v. 2. Esse é um privilégio ulterior: não apenas paz, mas graça, isto é, este favor. Observe:
- A feliz condição dos santos. É uma condição de graça, que inclui o amor de Deus por nós e nossa conformidade com ele. Quem possui o amor de Deus e sua semelhança está numa condição de graça.
Ora, a esta graça temos acesso, prosagogen, uma introdução. Isso implica que não nascemos nessa condição. Somos por natureza filhos da cólera, e a mente carnal é inimiga de Deus; mas somos introduzidos nela.
Não poderíamos ter entrado nela por nós mesmos nem vencido os obstáculos do caminho. Temos, porém, uma condução, um guiar pela mão, como são conduzidos os cegos, os coxos ou os fracos. Somos introduzidos como ofensores perdoados.
Somos apresentados por algum favorito da corte para beijar a mão do rei, como estrangeiros que serão recebidos em audiência. Prosagogen eschekamen: tivemos acesso. Ele fala daqueles que já foram tirados da condição natural e introduzidos na condição de graça.
Em sua conversão, Paulo teve esse acesso; então foi aproximado. Barnabé o apresentou aos apóstolos (Atos 9:27), e outras pessoas o conduziram pela mão até Damasco (Atos 9:8), mas foi Cristo quem o introduziu nesta graça e o conduziu pela mão até ela.
Por meio de quem temos acesso pela fé: por Cristo como autor e agente principal, pela fé como meio desse acesso. Isso ocorre por meio de Cristo, não em consideração a qualquer mérito ou merecimento nosso, mas em consideração à nossa dependência confiante dele e à nossa entrega a ele.
- A feliz firmeza deles nessa condição: na qual estamos firmes. Não apenas estamos nela, mas permanecemos firmes, postura que denota nossa absolvição da culpa. Mantemo-nos de pé no juízo (Salmos 1:5), sem sermos rejeitados como criminosos declarados culpados; nossa dignidade e honra estão asseguradas, e não somos lançados ao chão como desprezíveis.
A expressão também indica nosso progresso: enquanto estamos de pé, avançamos. Não devemos nos deitar como se já tivéssemos alcançado o alvo, mas permanecer de pé como quem prossegue adiante, como servos que se aplicam a Cristo, nosso Senhor.
Além disso, a expressão indica nossa perseverança: permanecemos firmes e seguros, sustentados pelo poder de Deus. Ficamos de pé como soldados que mantêm sua posição, sem serem derrubados pelo poder do inimigo. Isso indica não só nossa admissão ao favor de Deus, mas também nossa confirmação nele.
A corte celestial não é como as cortes terrenas, onde os lugares elevados são escorregadios. Permanecemos, porém, na humilde confiança de que aquele que começou a boa obra a concluirá, Filipenses 1:6.
III. Alegramo-nos na esperança da glória de Deus. Além da felicidade que já possuímos, há uma felicidade esperada: a glória de Deus, a glória que Deus concederá aos santos no céu, constituída pela visão e pelo desfrute de Deus.
Aqueles, e somente aqueles, que agora têm acesso pela fé à graça de Deus podem esperar sua glória no futuro. Não há boa esperança de glória que não esteja fundada na graça; a graça é o começo da glória, a garantia e a certeza dela. “Ele dará graça e glória”, Salmos 84:11.
Aqueles que esperam a glória de Deus no futuro já têm motivo suficiente para se alegrar agora. É dever de quem espera o céu alegrar-se nessa esperança.
IV. Também nos gloriamos nas tribulações. Não apenas nos gloriamos apesar das tribulações, pois elas não impedem nossa alegria na esperança da glória de Deus, mas nos gloriamos até mesmo nelas, visto que produzem para nós um peso de glória, 2 Coríntios 4:17.
Observe como a felicidade dos santos cresce e aumenta: não somente isso. Poderíamos pensar que tal paz, tal graça, tal glória e tal alegria na esperança dela já são mais do que criaturas pobres e indignas como nós poderiam alegar. No entanto, não somente isso: há outros aspectos de nossa felicidade, pois também nos gloriamos nas tribulações.
Isso vale especialmente para as tribulações por causa da justiça, que pareciam a maior objeção à felicidade dos santos. Na verdade, a felicidade deles não só é compatível com essas tribulações como também nasce delas. Eles se alegraram por terem sido considerados dignos de sofrer, Atos 5:41.
Por ser esse o ponto mais difícil, Paulo se dedica a mostrar seus fundamentos e razões. Como podemos nos gloriar nas tribulações? Porque as tribulações, por uma cadeia de causas, favorecem muito a esperança. Ele mostra a sequência dessa influência:
- A tribulação produz paciência, não por si mesma, mas pela poderosa graça de Deus que opera nela e com ela. A tribulação prova a paciência e, ao prová-la, a aperfeiçoa, assim como as capacidades e os dons crescem com o exercício. Não é a causa eficiente, mas oferece a ocasião, como o fogo endurece o aço.
Veja como Deus tira comida do devorador e do forte tira doçura. Aquilo que produz paciência é motivo de alegria, pois a paciência nos faz mais bem do que as tribulações podem nos fazer mal. Por si só, a tribulação produz impaciência; mas, quando é santificada para os santos, produz paciência.
- A paciência produz experiência, v. 4. Produz experiência de Deus e dos cânticos que ele concede durante a noite. Os que sofrem com paciência têm a maior experiência das consolações divinas, que aumentam à medida que as aflições aumentam.
Também produz experiência de nós mesmos. É pela tribulação que pomos à prova nossa própria sinceridade; por isso tais tribulações são chamadas de provações. Produz, dokimen, aprovação, como é aprovado quem passou pela prova. Assim, a tribulação de Jó produziu paciência, e essa paciência resultou numa aprovação: “ainda conserva a sua integridade”, Jó 2:3.
- A experiência produz esperança. Quem, depois de ser assim provado, sai como ouro, será por isso animado a esperar. Essa experiência, ou aprovação, não é tanto o fundamento da nossa esperança quanto sua evidência, e a favorece de modo especial.
A experiência de Deus sustenta nossa esperança: aquele que nos livrou nos livra e ainda nos livrará. A experiência de nós mesmos ajuda a demonstrar nossa sinceridade.
- Essa esperança não envergonha, isto é, é uma esperança que não nos enganará. Nada confunde mais do que a decepção. A frustração da expectativa dos ímpios causará vergonha e confusão eternas, mas “a esperança dos justos será alegria”, Provérbios 10:28. Veja Salmos 22:5; 71:1.
Ou, essa esperança não nos faz sentir vergonha dos nossos sofrimentos. Embora sejamos considerados a escória de todas as coisas e pisados como a lama das ruas, contudo, tendo esperança de glória, não nos envergonhamos desses sofrimentos. Sofremos por uma boa causa, por um bom Senhor e com uma boa esperança; por isso não nos envergonhamos.
Jamais consideraremos que sofrimentos com probabilidade de terminar tão bem nos diminuam. Porque o amor de Deus é derramado. Essa esperança não nos decepcionará, pois foi selada pelo Espírito Santo como Espírito de amor.
É obra bondosa do bendito Espírito derramar o amor de Deus no coração de todos os santos. O amor de Deus, isto é, a percepção de seu amor por nós, que desperta em nós o amor por ele. Ou ainda, os grandes efeitos desse amor: (1.) Graça especial; e (2.) o agradável sabor ou percepção dela.
O amor é derramado como um perfume doce que enche a alma de fragrância, como chuva que a rega e a torna frutífera. O fundamento de todo o nosso consolo, da nossa santidade e da perseverança em ambos está no amor de Deus derramado em nosso coração. É esse amor que nos constrange, 2 Coríntios 5:14.
Assim somos atraídos e mantidos pelas amarras do amor. A percepção do amor de Deus por nós impedirá que nos envergonhemos tanto da esperança que depositamos nele quanto dos sofrimentos que suportamos por ele.
O Primeiro e o Segundo Adão; A Influência da Graça. (d.C. 58.)
Versículos 6 a 21
O apóstolo descreve aqui a fonte e o fundamento da justificação, assentados na morte do Senhor Jesus. As correntes são muito doces; mas, se as seguirmos até a nascente, veremos que ela é a morte de Cristo em nosso favor. É na preciosa corrente do sangue de Cristo que todos esses privilégios fluem até nós.
Por isso ele se estende sobre essa demonstração do amor de Deus que foi derramado. Repara em três coisas para explicar e ilustrar essa doutrina: 1. As pessoas por quem Cristo morreu, vv. 6-8. 2. Os frutos preciosos de sua morte, vv. 9-11. 3. O paralelo entre a transmissão do pecado e da morte pelo primeiro Adão e a da justiça e da vida pelo segundo Adão, do v. 12 até o fim.
I. A condição em que estávamos quando Cristo morreu por nós:
- Estávamos sem forças (v. 6), numa condição triste; e, o que é pior, completamente incapazes de sair dela por nós mesmos: perdidos, sem nenhum caminho visível para nossa recuperação, em condição deplorável e, de certo modo, desesperadora. Por isso se diz aqui que nossa salvação vem no devido tempo.
O tempo de Deus para ajudar e salvar é quando aqueles que serão salvos estão sem forças, para que seu próprio poder e sua graça sejam ainda mais engrandecidos, Deuteronômio 32:36. É próprio de Deus ajudar quando todos os recursos se esgotaram.
- Ele morreu pelos ímpios; não apenas criaturas desamparadas e, portanto, propensas a perecer, mas criaturas culpadas e pecadoras e, portanto, merecedoras de perecer. Não apenas insignificantes e sem valor, mas vis e expostas à condenação, indignas de tal favor da parte do Deus santo.
Por serem ímpios, precisavam que alguém morresse por eles, satisfizesse a culpa e trouxesse uma justiça. Ele ilustra isso (v. 7, 8) como demonstração sem paralelo de amor; nisso os pensamentos e os caminhos de Deus estavam acima dos nossos. Compare João 15:13, 14: “Ninguém tem maior amor”.
(1.) Dificilmente alguém morreria por um justo, isto é, um inocente condenado injustamente. Todos teriam pena dele, mas poucos atribuiriam tamanho valor à sua vida que arriscariam a própria em seu lugar, muito menos a entregariam.
(2.) Pode ser que alguém se deixasse persuadir a morrer por um homem bom, isto é, um homem útil, que é mais que simplesmente justo. Muitos são bons, mas fazem pouco bem aos outros. Os que são úteis, porém, costumam conquistar grande afeição e encontrar quem, numa necessidade, arrisque ser seu antipsychoi: empenhar a própria vida por outra, ser sua garantia, corpo por corpo.
Nesse sentido, Paulo era um homem muito bom e muito útil. Encontrou pessoas que, em favor de sua vida, expuseram o próprio pescoço, Romanos 16:4. Observe, porém, como ele qualifica isso: apenas alguns o fariam; e fazê-lo é ato ousado, que exige uma alma disposta a arriscar-se. Depois de tudo, ainda é apenas uma possibilidade.
(3.) Cristo, porém, morreu por pecadores (v. 8), nem justos nem bons. Eram não apenas inúteis, mas culpados e expostos à condenação; não apenas pessoas cuja morte não seria perda alguma, mas pessoas cuja destruição contribuiria muito para a glória da justiça de Deus, por serem malfeitores e criminosos que deveriam morrer.
Alguns pensam que ele alude a uma distinção comum entre os judeus, que dividiam seu povo em ndyqym, justos; hsdym, misericordiosos (compare Isaías 57:1); e rssym, perversos.
Foi nisso que Deus demonstrou seu amor. Não apenas provou ou evidenciou seu amor, pois poderia ter feito isso a custo menor; antes, engrandeceu-o e tornou-o ilustre. Essa circunstância engrandeceu e exaltou muito seu amor: não só o colocou fora de dúvida, mas o tornou objeto da maior admiração e do maior espanto.
“Agora minhas criaturas verão que as amo; darei a elas uma prova disso sem paralelo.” Ele demonstra seu amor como os mercadores apresentam suas mercadorias ao desejarem vendê-las. Essa demonstração visava a que seu amor fosse derramado em nosso coração pelo Espírito Santo.
Ele comprova seu amor da maneira mais capaz de conquistar, tocar e afeiçoar que se possa imaginar. Enquanto ainda éramos pecadores: isso implica que não permaneceríamos pecadores para sempre; uma mudança seria operada. Pois ele morreu para nos salvar, não em nossos pecados, mas de nossos pecados. Ainda éramos pecadores, porém, quando morreu por nós.
(4.) Ou melhor, mais que isso: éramos inimigos (v. 10), não só malfeitores, mas traidores e rebeldes em armas contra o governo, a pior espécie de malfeitores e os mais expostos à condenação entre todos. A mente carnal não é só inimiga de Deus, mas a própria inimizade, Romanos 8:7; Colossenses 1:21.
Essa inimizade é mútua: Deus tem aversão ao pecador, e o pecador tem aversão a Deus, Zacarias 11:8. Que Cristo morra por pessoas assim é mistério, paradoxo e demonstração de amor sem precedentes. Podemos muito bem passar a eternidade adorando e nos maravilhando com isso.
Isso é, de fato, uma demonstração de amor. Com toda a razão, aquele que assim nos amou pôde estabelecer como uma das leis de seu reino que amássemos nossos inimigos.
II. Os frutos preciosos de sua morte:
- A justificação e a reconciliação são os frutos primeiros e principais da morte de Cristo: “Somos justificados por seu sangue” (v. 9), “reconciliados por sua morte”, v. 10. O pecado é perdoado, o pecador é aceito como justo, a desavença é resolvida, a inimizade é abatida, põe-se fim à iniquidade e se introduz uma justiça eterna.
Isso foi feito, isto é, Cristo fez tudo que lhe cabia fazer para que isso acontecesse; e, assim que cremos, somos efetivamente colocados num estado de justificação e reconciliação. Justificados por seu sangue.
Nossa justificação é atribuída ao sangue de Cristo porque, sem sangue, não há remissão, Hebreus 9:22. O sangue é a vida, e ela precisa ser entregue para fazer expiação. Em todos os sacrifícios propiciatórios, a aspersão do sangue era essencial ao sacrifício. Era o sangue que fazia expiação pela alma, Levítico 17:11.
- Disso resulta a salvação da cólera: “Salvos da cólera” (v. 9), “salvos por sua vida”, v. 10. Quando se remove aquilo que impede nossa salvação, a salvação necessariamente vem em seguida. Ou melhor, a razão é muito forte.
Se Deus nos justificou e reconciliou quando éramos inimigos e assumiu tamanho custo para fazê-lo, muito mais nos salvará agora que estamos justificados e reconciliados. Aquele que fez a coisa maior, transformar inimigos em amigos, certamente fará a menor: tratar-nos amigavelmente e mostrar-nos bondade agora que somos amigos.
Por isso o apóstolo fala, mais de uma vez, com a expressão muito mais. Aquele que cavou tão fundo para lançar o fundamento sem dúvida edificará sobre ele. Seremos salvos da cólera, do inferno e da condenação.
É a cólera de Deus que constitui o fogo do inferno; “a cólera vindoura”, como é chamada, 1 Tessalonicenses 1:10. A justificação e absolvição finais dos crentes no grande dia, junto com a adequação e preparação deles para esse dia, são a salvação da cólera de que se fala aqui: o aperfeiçoamento da obra da graça.
Reconciliados por sua morte, salvos por sua vida. A vida aqui mencionada não é sua vida na carne, mas sua vida no céu, a vida que se seguiu à morte. Compare Romanos 14:9. Ele esteve morto e está vivo, Apocalipse 1:18.
Somos reconciliados por Cristo humilhado e salvos por Cristo exaltado. Jesus, ao morrer, lançou o fundamento: satisfez pelo pecado, abateu a inimizade e, assim, tornou possível nossa salvação. Desse modo se derruba a parede divisória, faz-se a expiação e se revoga a condenação judicial.
Mas é Jesus vivo quem aperfeiçoa a obra: ele vive para interceder, Hebreus 7:25. É Cristo, em sua exaltação, quem por sua palavra e seu Espírito nos chama eficazmente, nos transforma, nos reconcilia com Deus e é nosso Advogado junto ao Pai; assim ele completa e consuma nossa salvação. Compare Romanos 4:25; 8:34.
Cristo, ao morrer, foi o testador que nos legou a herança; Cristo vivo é o executor que a entrega. A argumentação agora é muito forte: aquele que assumiu o custo de comprar nossa salvação não recusará o trabalho de aplicá-la.
- Tudo isso produz, como privilégio ulterior, nossa alegria em Deus, v. 11. Deus está agora tão longe de ser motivo de terror para nós que é nossa alegria e nossa esperança no dia do mal, Jeremias 17:17. Estamos reconciliados e salvos da cólera. Bendito seja Deus, a iniquidade não nos arruinará.
E não apenas isso: há mais, uma corrente constante de favores. Não apenas vamos ao céu, mas vamos triunfantes; não só entramos no porto, mas chegamos com todas as velas desfraldadas.
Alegramo-nos em Deus: não apenas somos salvos de sua cólera, mas também nos deleitamos em seu amor. E isso por Jesus Cristo, que é o Alfa e o Ômega, a pedra fundamental e a pedra de remate de todos os nossos consolos e esperanças: não só nossa salvação, mas nossa força e nosso cântico.
Tudo isso ocorre, como ele repete numa nota em que gostava de insistir, em virtude da expiação. Por ele nós, cristãos e crentes, recebemos agora, agora nos tempos do evangelho ou agora nesta vida, a expiação que os sacrifícios sob a lei prefiguravam e que é garantia de nossa felicidade no céu.
Os verdadeiros crentes recebem a expiação por Jesus Cristo. Receber a expiação é nossa reconciliação efetiva com Deus na justificação, fundada na satisfação de Cristo. Receber a expiação é: (1.) Dar nossa anuência a ela, aprovando e aceitando os métodos pelos quais a Sabedoria infinita decidiu salvar um mundo culpado pelo sangue de Jesus crucificado.
É estar disposto e alegre para ser salvo pelo caminho e sob as condições do evangelho. (2.) É receber o consolo da expiação, fonte e fundamento de nossa alegria em Deus. Agora nos alegramos em Deus; agora recebemos de fato a expiação, kauchomenoi, gloriando-nos nela.
Deus recebeu a expiação (Mateus 3:17; 17:5; 28:2). Se ao menos a recebermos, a obra estará feita.
III. O paralelo que o apóstolo traça entre a transmissão do pecado e da morte pelo primeiro Adão e a da justiça e da vida pelo segundo Adão (do v. 12 até o fim). Isso não só ilustra a verdade de que ele trata, como também contribui muito para exaltar o amor de Deus e consolar o coração dos verdadeiros crentes.
Ele mostra uma correspondência entre nossa queda e nossa recuperação e, no segundo Adão, um poder não apenas semelhante, mas muito maior para nos tornar felizes do que havia no primeiro para nos tornar miseráveis. Para esclarecer isso, observe:
- Uma verdade geral estabelecida como fundamento do seu discurso: Adão era um tipo de Cristo (v. 14): “que é a figura daquele que havia de vir”. Cristo é, por isso, chamado “o último Adão”, 1 Coríntios 15:45. Compare 1 Coríntios 15:22.
Nisto Adão era um tipo de Cristo: nas relações de aliança entre Deus e ele e nos desfechos que delas resultaram, Adão era uma pessoa representativa. Deus tratou com Adão, e Adão agiu nessa condição, como pai comum, agente, raiz e representante de toda a sua posteridade e em favor dela.
Assim, pode-se dizer que fizemos nele o que ele fez nessa posição, como nosso agente, e que o que foi feito a ele foi feito a nós nele. Da mesma forma Jesus Cristo, o Mediador, agiu como pessoa representativa, cabeça de todos os eleitos.
Tratou com Deus em favor deles como seu pai, agente, raiz e representante: morreu por eles, ressuscitou por eles, entrou por eles para além do véu e fez tudo por eles. Quando Adão fracassou, fracassamos com ele; quando Cristo cumpriu sua tarefa, fê-lo por nós.
Assim Adão foi typos tou mellontos, “a figura daquele que havia de vir”, vir para reparar a ruptura causada por Adão.
- Uma explicação mais particular do paralelo, na qual se observa:
(1.) Como Adão, enquanto pessoa representativa, transmitiu o pecado e a morte a toda a sua posteridade (v. 12): “por um homem entrou o pecado”. Vemos o mundo sob um dilúvio de pecado e morte, cheio de iniquidades e calamidades.
Vale a pena perguntar qual nascente o alimenta: veremos que é a corrupção geral da natureza. E por qual abertura entrou: veremos que foi o primeiro pecado de Adão. Foi por um homem, o primeiro homem, pois, se alguém existisse antes dele, estaria livre; aquele homem do qual todos procedemos como de uma raiz.
[1.] Por ele entrou o pecado. Quando Deus declarou tudo muito bom (Gênesis 1:31), não havia pecado no mundo. Foi quando Adão comeu o fruto proibido que o pecado entrou. O pecado já havia entrado no mundo dos anjos, quando muitos se revoltaram contra a lealdade devida e abandonaram sua condição original.
Mas nunca havia entrado no mundo dos homens até Adão pecar. Então entrou como inimigo, para matar e destruir; como ladrão, para roubar e despojar. Foi uma entrada terrível. Então vieram a culpa do pecado de Adão imputada à posteridade e uma corrupção e depravação gerais da natureza.
Eph ho: “por isso”, como o lemos; ou melhor, “em quem todos pecaram”. O pecado entrou no mundo por Adão, pois nele todos nós pecamos. Assim como em 1 Coríntios 15:22, “em Adão todos morrem”, aqui também todos pecaram nele.
Pois está de acordo com a lei de todas as nações que os atos de uma pessoa representativa sejam atribuídos àqueles que ela representa. E pode-se dizer que cada membro de um corpo fez aquilo que o corpo inteiro fez.
Adão agiu, portanto, como pessoa representativa, por ordenação e designação soberanas de Deus, embora isso também se fundamentasse numa necessidade natural. Pois Deus, como autor da natureza, estabeleceu como lei natural que o homem gerasse à sua própria semelhança, e o mesmo vale para as outras criaturas.
Em Adão, portanto, como num receptáculo comum, foi depositada toda a natureza humana, para dele fluir por um canal até sua posteridade. Pois toda a humanidade provém de um só sangue (Atos 17:26); assim, conforme o estado dessa natureza quando ele permaneceu firme ou caiu, antes de transmiti-la, ela se propagou a partir dele.
Adão, portanto, ao pecar e cair, tornou essa natureza culpada e corrupta, e assim ela é transmitida. Desse modo, todos pecaram nele.
[2.] A morte veio pelo pecado, pois a morte é o salário do pecado. Quando o pecado se consuma, gera a morte. Quando o pecado chegou, naturalmente a morte veio com ele. A morte representa aqui toda a miséria que é o justo merecimento do pecado: morte temporal, espiritual e eterna.
Se Adão não tivesse pecado, não teria morrido. A ameaça era: “No dia em que comeres, certamente morrerás”, Gênesis 2:17.
[3.] Assim, a morte passou, isto é, proferiu-se uma sentença de morte, como contra um criminoso. Dielthen: passou por todos os homens, como uma doença contagiosa atravessa uma cidade, de modo que ninguém escape dela. É o destino universal, sem exceção: a morte alcança todos.
Há calamidades comuns à vida humana que o provam abundantemente. A morte reinou, v. 14. Ele fala da morte como de um príncipe poderoso, cuja monarquia é a mais absoluta, universal e duradoura.
Ninguém está isento do seu cetro. É uma monarquia que sobreviverá a todos os outros domínios, autoridades e poderes terrenos, pois a morte é o último inimigo, 1 Coríntios 15:26. Os filhos de Belial que não querem se submeter a nenhum outro domínio não conseguem escapar de sua sujeição a este.
Tudo isso devemos a Adão: dele descendem o pecado e a morte. Bem podemos dizer, como aquele bom homem que notou a mudança que uma crise de doença fizera em seu rosto: “Ó Adão! Que fizeste?”
Para esclarecer ainda mais, ele mostra que o pecado não começou com a lei de Moisés, mas já estava no mundo até aquela lei, ou antes dela. Portanto, a lei de Moisés não é a única regra de vida, pois havia uma regra, e essa regra foi transgredida antes de a lei ser dada.
Isso também indica que não podemos ser justificados por nossa obediência à lei de Moisés, assim como não fomos condenados por desobedecer a ela. O pecado estava no mundo antes da lei; testemunham-no o homicídio de Caim, a apostasia do mundo antigo e a perversidade de Sodoma.
Daí ele conclui: portanto, havia uma lei, pois o pecado não é imputado onde não há lei. O pecado original é falta de conformidade à lei de Deus, e o pecado efetivo é transgressão dessa lei; portanto, todos estavam sujeitos a alguma lei.
Sua prova é: “A morte reinou desde Adão até Moisés”, v. 14. É certo que a morte não poderia ter reinado se o pecado não tivesse estabelecido um trono para ela. Isso prova que o pecado estava no mundo antes da lei, inclusive o pecado original.
Pois a morte reinou sobre aqueles que não cometeram nenhum pecado efetivo, que não pecaram à semelhança da transgressão de Adão, nem nunca pecaram pessoalmente como ele. Isso se deve entender dos bebês, que nunca foram culpados de pecado efetivo e, mesmo assim, morreram porque o pecado de Adão lhes foi imputado.
Esse reinado da morte parece referir-se especialmente aos juízos violentos e extraordinários muito anteriores a Moisés, como o dilúvio e a destruição de Sodoma, que atingiram bebês.
É grande prova do pecado original o fato de crianças pequenas, nunca culpadas de transgressão efetiva, estarem sujeitas a doenças, acidentes e mortes terríveis. Isso não poderia de modo algum ser conciliado com a justiça e a retidão de Deus se não lhes fosse atribuída culpa.
(2.) Como, em correspondência a isso, Cristo, enquanto pessoa representativa, transmite a justiça e a vida a todos os verdadeiros crentes, que são sua descendência espiritual. Nisso ele mostra não só em que consiste a semelhança, mas também, ex abundanti, em que a transmissão da graça e do amor por Cristo supera a transmissão da culpa e da cólera por Adão. Observe:
[1.] Em que consiste a semelhança. Isso é exposto com maior clareza nos v. 18, 19.
Primeiro, pela ofensa e desobediência de um só, muitos foram feitos pecadores, e o juízo veio sobre todos os homens para condenação. Observe aqui: 1. Que o pecado de Adão foi desobediência, desobediência a uma ordem clara e expressa; era uma ordem para pô-lo à prova.
O que ele fez era mau porque fora proibido, e não por outro motivo. Isso, porém, abriu a porta para outros pecados, embora parecesse pequeno em si. 2. Que a malignidade e o veneno do pecado têm muita força e se espalham amplamente; de outro modo, a culpa do pecado de Adão não teria chegado tão longe nem formado corrente tão profunda e duradoura.
Quem pensaria que haveria tanto mal no pecado? 3. Que pelo pecado de Adão muitos são feitos pecadores: muitos, isto é, toda a sua posteridade. Diz-se muitos em oposição ao único que cometeu a ofensa. Feitos pecadores, katestathesan.
Isso indica que fomos feitos assim por ato judicial: fomos declarados pecadores pelo devido processo da lei. 4. Que o juízo veio para condenação sobre todos os que foram feitos pecadores pela desobediência de Adão. Tendo sido declarados culpados, fomos condenados.
Toda a raça humana está sob uma sentença, como uma condenação que recai sobre uma família. Há um juízo proferido e registrado contra nós no tribunal do céu; se não for revogado, é provável que sucumbamos sob ele para a eternidade.
Segundo, da mesma forma, pela justiça e obediência de um só, Jesus Cristo, o segundo Adão, muitos são feitos justos, e assim o dom gratuito vem sobre todos. É digno de nota como o apóstolo inculca essa verdade e a repete várias vezes, por ser uma verdade de enorme importância. Observe aqui:
- A natureza da justiça de Cristo e como ela é introduzida: pela sua obediência. A desobediência do primeiro Adão nos arruinou; a obediência do segundo Adão nos salva. Foi sua obediência à lei da mediação, segundo a qual ele devia cumprir toda a justiça e depois oferecer sua alma pelo pecado.
Obedecendo a essa lei, ele produziu uma justiça para nós, satisfez a justiça de Deus e, assim, abriu-nos o caminho para o favor divino. 2. O fruto disso. (1.) Um dom gratuito veio sobre todos os homens, isto é, foi feito e oferecido indistintamente a todos.
A salvação realizada é comum; as propostas são gerais, a oferta é livre. Quem quiser pode vir e tomar das águas da vida. Esse dom gratuito é para todos os crentes quando creem e resulta em justificação para vida. Não é apenas uma justificação que livra da morte, mas uma que dá direito à vida.
(2.) Muitos serão feitos justos: muitos em comparação com um só, ou tantos quantos pertencem à eleição da graça. Embora sejam apenas poucos quando espalhados pelo mundo, ainda assim serão muitos quando estiverem todos reunidos.
Katastathesontai: serão constituídos justos, como por cartas-patentes. O contraste entre esses dois fatos, nossa ruína por Adão e nossa recuperação por Cristo, é bastante evidente.
[2.] Em que a transmissão da graça e do amor por Cristo supera a transmissão da culpa e da cólera por Adão. Ele mostra isso nos vv. 15-17. O desígnio é engrandecer as riquezas do amor de Cristo e consolar e animar os crentes.
Ao considerar a ferida causada pelo pecado de Adão, eles poderiam começar a perder a esperança de um remédio proporcional. Suas expressões são um pouco intrincadas, mas parece ser isto que ele pretende dizer:
Primeiro, se a culpa e a cólera são transmitidas, muito mais o serão a graça e o amor. Pois está de acordo com nossa ideia da bondade divina supor que Deus esteja mais disposto a salvar com base numa justiça imputada do que a condenar com base numa culpa imputada: “Muito mais a graça de Deus e o dom pela graça”.
De todos os seus atributos, a bondade de Deus é de modo especial sua glória. Essa graça é a raiz, seu favor por nós em Cristo, e o dom vem pela graça. Sabemos que Deus é mais inclinado a mostrar misericórdia; castigar é sua obra extraordinária.
Segundo, se havia tanto poder e eficácia, como parece ter havido, no pecado de um homem terreno, feito da terra, para nos condenar, muito mais poder e eficácia há na justiça e na graça de Cristo, que é o Senhor vindo do céu, para nos justificar e salvar.
O único homem que nos salva é Jesus Cristo. Certamente Adão não poderia propagar veneno tão forte que Jesus Cristo não pudesse propagar antídoto igualmente forte, e muito mais forte ainda.
- Só a culpa de uma única ofensa de Adão é posta em nossa conta: o juízo foi ex henos eis katakrima, por um, isto é, por uma ofensa, v. 16, 17, nota à margem. De Jesus Cristo, porém, recebemos e extraímos abundância de graça e do dom da justiça.
A corrente da graça e da justiça é mais profunda e mais larga que a da culpa, pois essa justiça remove não apenas a culpa daquela única ofensa, mas também a de muitas outras, de todas elas. Em Cristo, Deus perdoa todas as transgressões, Colossenses 2:13.
- Pelo pecado de Adão, a morte reinou. Pela justiça de Cristo, porém, não apenas se põe fim ao reinado da morte, mas os crentes são elevados a reinar em vida, v. 17.
Na justiça de Cristo e por ela, temos não só uma carta de perdão, mas também uma patente de honra. Não apenas somos libertos de nossas correntes, mas, como José, somos elevados ao segundo carro e feitos reis e sacerdotes para o nosso Deus; não só perdoados, mas promovidos. Veja isso em Apocalipse 1:5, 6; 5:9, 10.
Por Cristo e por sua justiça, recebemos direito a privilégios maiores e mais numerosos do que os que perdemos pela ofensa de Adão, e somos neles estabelecidos. O curativo é mais largo que a ferida e tem maior poder de curar do que a ferida de matar.
IV. Nos dois últimos versículos, o apóstolo parece antecipar uma objeção expressa em Gálatas 3:19: “Para que, então, serve a lei?” Resposta: 1. A lei entrou para que a ofensa abundasse. Não para fazer o pecado abundar mais em si, exceto na medida em que ele se aproveita do mandamento, mas para revelar como sua pecaminosidade abundava.
O espelho revela as manchas, mas não as causa. Quando o mandamento veio ao mundo, o pecado reviveu, assim como uma luz mais clara que entra num cômodo revela o pó e a sujeira que já estavam lá, mas não se viam. Foi como sondar uma ferida, algo necessário à cura.
A ofensa, to paraptoma, aquela ofensa, o pecado de Adão, a extensão de sua culpa até nós e o efeito da corrupção em nós são a abundância daquela ofensa que se manifestou quando a lei entrou.
- Para que a graça abundasse muito mais: para que os terrores da lei tornassem muito mais doces as consolações do evangelho. O pecado abundava entre os judeus; e, para os que dentre eles se converteram à fé em Cristo, não abundou a graça muito mais, ao perdoar tanta culpa e subjugar tanta corrupção?
Quanto maior a força do inimigo, maior a honra do vencedor. Ele ilustra essa abundância de graça no v. 21. Assim como o reinado de um tirano e opressor serve de contraste para destacar o reinado seguinte de um príncipe justo e bondoso e torná-lo mais ilustre, o reinado do pecado destaca o da graça.
O pecado reinou para a morte; foi um reinado cruel e sangrento. A graça, porém, reina para a vida, a vida eterna, e isso por meio da justiça, imputada a nós para justificação e implantada em nós para santificação. Ambas vêm por Jesus Cristo, nosso Senhor, pelo poder e eficácia de Cristo, o grande profeta, sacerdote e rei de sua igreja.