Matthew Henry

Romanos 4

Argumento

A grande doutrina do evangelho da justificação pela fé sem as obras da lei era tão profundamente contrária às ideias que os judeus haviam aprendido daqueles que ocupavam a cadeira de Moisés que dificilmente a aceitariam. Por isso, o apóstolo insiste nela amplamente e se esforça muito para confirmá-la e explicá-la.

Ele já a demonstrara pela razão e por razões; agora, neste capítulo, demonstra-a pelo exemplo, que em certos casos serve para confirmar assim como para explicar. O exemplo que escolhe é Abraão, porque os judeus se gloriavam muito de sua relação com ele, punham no primeiro lugar de seus privilégios externos o fato de ser descendentes de Abraão e, na verdade, tinham Abraão por pai.

Por isso, esse exemplo provavelmente seria mais atraente e convincente para os judeus que qualquer outro. Sua razão é a seguinte: “Todos os salvos são justificados do mesmo modo que Abraão foi; Abraão, porém, foi justificado pela fé, não pelas obras; portanto, todos os salvos são justificados assim”; pois seria facilmente reconhecido que Abraão era o pai dos fiéis.

Ora, essa razão não é apenas à pari, a partir de um caso equivalente, como se diz, mas à fortiori, a partir de um caso mais forte.

Se Abraão, homem tão famoso por suas obras, tão eminente em santidade e obediência, foi, ainda assim, justificado somente pela fé, e não por tais obras, quanto menos poderia qualquer outro, especialmente algum dos que descendem dele e ficam tão aquém dele em obras, alegar a justificação por suas próprias obras?

E isso prova igualmente, ex abundanti, de maneira ainda mais abundante, como observam alguns, que não somos justificados, não, nem mesmo pelas boas obras que fluem da fé como matéria de nossa justiça; pois eram assim as obras de Abraão, e somos nós melhores que ele?

Todo o capítulo é ocupado por seu discurso sobre esse exemplo. E há nele um ponto que se refere particularmente ao fim do capítulo anterior, onde o apóstolo afirmou que, quanto à justificação, judeus e gentios estão no mesmo nível. Agora, neste capítulo, com razões muito convincentes:

I. Ele demonstra que Abraão não foi justificado pelas obras, mas pela fé, vv. 1-8. II. Observa quando e por que ele foi assim justificado, vv. 9-17. III. Descreve e recomenda sua fé, vv. 17-22. IV. Aplica tudo isso a nós, vv. 22-25. E, se estivesse então na escola de Tirano, não poderia ter debatido de modo mais argumentativo.

Versículos 1 a 8

O Caso de Abraão. (d.C. 58.)

Aqui o apóstolo demonstra que Abraão não foi justificado pelas obras, mas pela fé. Entre todos, os que mais vigorosamente defendiam uma participação na justiça pelos privilégios de que desfrutavam e pelas obras que praticavam eram os judeus. Por isso, ele recorre ao caso de Abraão, pai deles, e inclui seu próprio nome nessa relação, sendo hebreu de hebreus: “Abraão, nosso pai”.

Certamente, a prerrogativa de Abraão precisava ser tão grande quanto a dos que a reivindicavam por serem seus descendentes segundo a carne. Ora, o que ele encontrou? Todo o mundo está buscando; mas, enquanto a maioria se esgota em busca de mera vaidade, só se pode considerar que encontraram algo os que são justificados diante de Deus.

Assim Abraão, como um mercador sábio que procurava pérolas preciosas, encontrou aquela pérola única de grande valor. O que encontrou kata sarka, segundo a carne, isto é, pela circuncisão e por seus privilégios e feitos externos? O apóstolo chama essas coisas de carne, Filipenses 3:3.

Ora, o que ele ganhou por elas? Foi justificado por elas? Foi o mérito de suas obras que o recomendou à aceitação de Deus? Não: de modo algum, como o apóstolo demonstra por diversas razões.

I. Se tivesse sido justificado pelas obras, haveria lugar para a vanglória, que deve ser excluída para sempre. Se assim fosse, “teria de que se gloriar” (v. 2), e isso não se pode admitir. “Mas”, poderiam dizer os judeus, “seu nome não se tornou grande (Gênesis 12:2)? Então não poderia ele gloriar-se?”

Sim: mas não diante de Deus. Ele poderia merecer a estima dos homens, mas nunca poderia adquirir mérito diante de Deus. O próprio Paulo tinha de que se gloriar diante dos homens, e às vezes o vemos gloriar-se nisso, embora com humildade; mas nada tinha de que se gloriar diante de Deus, 1 Coríntios 4:4; Filipenses 3:8, 9. O mesmo vale para Abraão.

Observe: ele toma por certo que o homem não deve alegar ter de que se gloriar de coisa alguma diante de Deus; não, nem mesmo Abraão, homem tão grande e tão bom como era. Por isso, tira daí uma razão: seria absurdo que aquele que se gloria se gloriasse em alguém que não o Senhor.

II. Diz-se expressamente que a fé de Abraão lhe foi contada como justiça. “Que diz a Escritura?”, v. 3. Em todas as controvérsias religiosas, essa deve ser nossa pergunta: “Que diz a Escritura?” Não é o que dizem este homem importante e aquele outro homem bom, mas: “Que diz a Escritura?” Consultem Abel a esse respeito e assim encerrem a questão, 2 Samuel 20:18.

“À lei e ao testemunho” (Isaías 8:20): esse é o último recurso. Ora, a Escritura diz que Abraão creu, e isso lhe foi contado como justiça (Gênesis 15:6). Portanto, ele não tinha de que se gloriar diante de Deus, pois foi inteiramente pela graça gratuita que isso lhe foi imputado.

A fé não possui em si mesma qualquer natureza formal de justiça, a não ser pelo fato de Deus, em sua graça, ter tido por bem contá-la como tal. Isso é mencionado em Gênesis por ocasião de um ato de fé muito marcante e notável referente à descendência prometida.

É ainda mais digno de atenção porque veio depois de um penoso conflito que Abraão tivera com a incredulidade: sua fé agora era uma fé vitoriosa, recém-chegada da batalha.

Não é a fé perfeita que se exige para a justificação (pode haver fé aceitável mesmo onde restam vestígios de incredulidade), mas a fé que prevalece, a fé que vence a incredulidade.

III. Se ele tivesse sido justificado pelas obras, a recompensa seria dívida, não graça, o que não se pode imaginar. Essa é sua razão (v. 4, 5): a recompensa de Abraão era o próprio Deus, como lhe dissera pouco antes (Gênesis 15:1): “Eu sou tua recompensa extraordinariamente grande.”

Ora, se Abraão a tivesse merecido pela perfeição de sua obediência, isso não teria sido um ato de graça de Deus; mas Abraão poderia tê-la exigido com tanta confiança quanto qualquer trabalhador da vinha exigiu a moeda que ganhara. Mas isso não pode ser; é impossível ao homem, muito mais ao homem culpado, tornar Deus seu devedor, Romanos 11:35.

Não: Deus quer que a graça gratuita receba toda a glória, graça por amor à graça, João 1:16.

Por isso, “àquele que não trabalha”, que não pode alegar tal mérito nem mostrar em sua obra merecimento ou valor algum correspondente a tamanha recompensa, mas que renuncia a toda alegação desse tipo e se entrega inteiramente à graça gratuita de Deus em Cristo por uma fé viva, ativa e obediente, a esse a fé é contada como justiça.

Sua fé é aceita por Deus como a condição exigida de todos os que serão perdoados e salvos. “Àquele que justifica o ímpio”, isto é, aquele que antes era ímpio. Sua antiga impiedade não impediu sua justificação quando passou a crer. Ton asebe, aquele ímpio, isto é, Abraão, que, antes de sua conversão, ao que parece, foi levado pela corrente da idolatria caldeia, Josué 24:2.

Portanto, não há lugar para o desespero. Embora Deus não absolva o culpado impenitente, ainda assim, por meio de Cristo ele justifica o ímpio.

IV. Ele ilustra isso ulteriormente com uma passagem dos Salmos, em que Davi fala da remissão dos pecados, o ramo principal da justificação, como aquilo que constitui a felicidade e a bem-aventurança do homem.

Davi declara bem-aventurado não o homem que não tem pecado, nem aquele que não tem pecado digno de morte (pois, sendo o homem tão pecador e Deus tão justo, onde estaria tal homem bem-aventurado?), mas aquele a quem o Senhor não imputa o pecado. Esse homem, embora não possa alegar “não culpado”, alega o ato de anistia, e sua alegação é aceita.

A passagem é citada de Salmos 32:1, 2. Observe: 1. A natureza do perdão. É a remissão de uma dívida ou de um crime; é a cobertura do pecado como algo imundo, como a nudez e a vergonha da alma. Diz-se que Deus lança o pecado para trás de si e esconde dele o rosto.

Essas e outras expressões semelhantes indicam que o fundamento de nossa bem-aventurança não é nossa inocência nem o fato de não termos pecado. Algo continua existindo e continua imundo embora encoberto; a justificação não faz com que o pecado deixe de ter existido nem com que deixe de ter sido pecado.

O fundamento é Deus não o colocar em nossa conta, como se diz em seguida: é Deus não imputar o pecado (v. 8). Isso o torna inteiramente um ato gracioso de Deus, que não nos trata segundo a justiça estrita, como merecemos, não entra em juízo conosco e não registra as iniquidades.

Como tudo isso são atos puramente graciosos, não se pode esperar a aceitação e a recompensa como dívidas. Por isso, Paulo conclui (v. 6) que se trata da imputação da justiça sem obras.

  1. Sua bem-aventurança: “Bem-aventurados são eles.” Quando se diz “Bem-aventurados são os que andam sem mancha pelo caminho”, ou “Bem-aventurado é o homem que não anda segundo o conselho dos ímpios”, etc., o desígnio é mostrar as características dos bem-aventurados.

Mas, quando se diz “Bem-aventurados são aqueles cujas iniquidades são perdoadas”, o desígnio é mostrar o que é essa bem-aventurança e qual é seu fundamento e alicerce. As pessoas perdoadas são as únicas pessoas bem-aventuradas.

O mundo pensa: felizes são os que possuem bens livres de ônus e nada devem aos homens. A palavra, porém, declara: felizes são os que tiveram suas dívidas para com Deus canceladas. Ó, quanto nos interessa, portanto, ter certeza de que nossos pecados foram perdoados! Pois esse é o fundamento de todos os outros benefícios. Farei isto e aquilo por eles, “pois serei misericordioso”, Hebreus 8:12.

Versículos 9 a 16

O Caso de Abraão. (d.C. 58.)

Neste trecho, São Paulo observa quando e por que Abraão foi assim justificado, pois tem diversas coisas a destacar a esse respeito. Foi antes de sua circuncisão e antes de a lei ser dada; e havia um motivo para ambas as circunstâncias.

I. Foi antes de sua circuncisão, v. 10. Sua fé lhe foi contada como justiça enquanto ainda era incircunciso. Isso lhe foi imputado, Gênesis 15:6, e ele só foi circuncidado em Gênesis 17. Diz-se expressamente que Abraão foi justificado pela fé catorze anos, segundo alguns vinte e cinco anos, antes de ser circuncidado.

O apóstolo repara nisso ao responder à pergunta (v. 9): “Vem, pois, esta bem-aventurança somente sobre a circuncisão, ou também sobre a incircuncisão?” Abraão foi perdoado e aceito ainda incircunciso.

Essa circunstância podia tanto acalmar os receios dos pobres gentios incircuncisos quanto abater o orgulho e a presunção dos judeus, que se gloriavam de sua circuncisão como se tivessem o monopólio de toda felicidade.

Há dois motivos para Abraão ter sido justificado pela fé enquanto incircunciso:

  1. Para que a circuncisão pudesse ser selo da justiça da fé, v. 11. O teor das alianças precisa ser estabelecido antes de se acrescentar o selo. Selar pressupõe um trato anterior, que é confirmado e ratificado por essa cerimônia.

Depois de a justificação de Abraão pela fé ter permanecido por diversos anos apenas como uma concessão verbal, Deus teve por bem designar uma ordenança que servisse de selo para confirmar a fé de Abraão, e ele a recebeu. Embora fosse uma ordenança sangrenta, ainda assim se submeteu a ela e até a recebeu como favor especial: “o sinal da circuncisão”, etc.

Podemos observar daí (1.) a natureza dos sacramentos em geral: são sinais e selos, sinais para representar e instruir, selos para ratificar e confirmar. São sinais de graça e favor absolutos; são selos das promessas condicionais. Ou melhor, são selos mútuos: nos sacramentos, Deus sela para nós que será nosso Deus, e nós lhe selamos que seremos seu povo.

(2.) A natureza da circuncisão em particular: era o sacramento de iniciação do Antigo Testamento, e aqui se diz que ela era [1.] Um sinal: sinal da corrupção original com que todos nascemos e que é removida pela circuncisão espiritual; sinal comemorativo da aliança de Deus com Abraão; sinal distintivo entre judeus e gentios; sinal de admissão na igreja visível.

Era também sinal que prefigurava o batismo, que ocupa o lugar da circuncisão agora sob o evangelho, quando (tendo sido derramado o sangue de Cristo) todas as ordenanças sangrentas foram abolidas. Era um sinal exterior e palpável de uma graça interior e espiritual por ele significada.

[2.] Um selo da justiça da fé. Em geral, era selo da aliança da graça; em particular, da justificação pela fé. A aliança da graça é chamada de justiça que provém da fé (Romanos 10:6), e isso remete a uma promessa do Antigo Testamento, Deuteronômio 30:12.

Ora, se as crianças eram então capazes de receber um selo da aliança da graça, o que prova que estavam dentro de seus limites, aqueles que não apenas rejeitam, mas anulam e desacreditam o batismo dos filhos dos crentes precisam demonstrar como elas passaram a ser excluídas da aliança e incapazes de receber o selo, e por que sentença severa foram assim rejeitadas e incapacitadas.

  1. Para que fosse pai de todos os que creem. Não que não houvesse pessoas justificadas pela fé antes de Abraão, mas é dele que isso se registra de maneira especial pela primeira vez. Nele começou uma dispensação da aliança da graça muito mais clara e plena do que qualquer outra até então existente.

E ali ele é chamado pai de todos os que creem: era um crente tão eminente e foi tão notavelmente justificado pela fé, assim como Jabal era pai dos pastores e Jubal, dos músicos, Gênesis 4:20, 21.

Pai de todos os que creem, isto é, modelo permanente de fé, assim como os pais são exemplo para os filhos; e precedente permanente de justificação pela fé, assim como as liberdades, os privilégios, as honras e os bens dos pais passam para os filhos. Abraão era o pai dos crentes porque foi a ele, em particular, que a magna charta foi renovada.

(1.) Pai dos gentios crentes, embora não sejam circuncidados. Zaqueu, um publicano, se crer, é considerado filho de Abraão, Lucas 19:9. Como o próprio Abraão era incircunciso quando foi justificado pela fé, a incircuncisão jamais pode ser impedimento.

Assim, as dúvidas e os receios dos pobres gentios foram antecipados, e não restou motivo para questionar que a justiça também lhes pudesse ser imputada, Colossenses 3:11; Gálatas 5:6.

(2.) Pai dos judeus crentes, não apenas porque são circuncidados e descendem de Abraão segundo a carne, mas porque creem. Eles não são somente da circuncisão, isto é, não são apenas circuncidados, mas andam nos passos daquela fé: não têm apenas o sinal, mas também aquilo que ele significa; não pertencem apenas à família de Abraão, mas seguem o exemplo de sua fé.

Veja aqui quem são os verdadeiros filhos e legítimos sucessores daqueles que foram os pais da igreja: não os que se sentam em suas cadeiras e levam seus nomes, mas os que seguem seus passos. Essa é a linha de sucessão que permanece, apesar das interrupções.

Parece, então, que os mais barulhentos e afoitos em chamar Abraão de pai eram os que menos direito tinham às honras e aos privilégios de seus filhos. Assim, os que têm mais motivo para chamar Cristo de Pai não são os que levam seu nome por professar ser cristãos, mas os que seguem seus passos.

II. Foi antes da entrega da lei, vv. 13-16. A observação anterior se dirige contra os que restringiam a justificação à circuncisão; esta, contra os que esperavam obtê-la pela lei. A promessa foi feita a Abraão muito antes da lei. Compare Gálatas 3:17, 18. Agora observe:

  1. Qual era a promessa: que ele seria herdeiro do mundo, isto é, da terra de Canaã, o pedaço de terra mais precioso do mundo; ou pai de muitas nações do mundo que dele nasceram, além dos israelitas; ou herdeiro dos consolos da vida presente. Diz-se que os mansos herdarão a terra, e o mundo lhes pertence.

Embora Abraão possuísse tão pouco deste mundo, ainda assim era herdeiro de tudo. Ou melhor, isso aponta para Cristo, a descendência aqui mencionada; compare Gálatas 3:16: “À tua descendência, que é Cristo.”

Ora, Cristo é o herdeiro do mundo, os confins da terra são sua possessão, e é nele que Abraão também o era. Isso remete à promessa (Gênesis 12:3): “Em ti serão benditas todas as famílias da terra.”

  1. Como a promessa lhe foi feita: não pela lei, mas pela justiça da fé. Não pela lei, pois esta ainda não fora dada; foi, porém, em razão daquela fé que lhe foi contada como justiça, da confiança que depositou em Deus quando deixou sua própria terra quando Deus lhe ordenou, Hebreus 11:8.

Ora, sendo pela fé, não podia ser pela lei. Ele demonstra isso pela oposição entre ambas (v. 14, 15): “Se os que são da lei forem herdeiros”, isto é, somente eles, e por força da lei (os judeus se gloriavam, e ainda se gloriam, de ser os legítimos herdeiros do mundo porque a lei lhes foi dada), então a fé é tornada inútil.

Pois, se uma participação na promessa exigisse o cumprimento perfeito de toda a lei, a promessa nunca poderia se realizar, nem faria sentido depender dela. O caminho para a vida pela obediência perfeita à lei e pela inocência sem mácula nem pecado está inteiramente bloqueado, e a lei, por si só, não abre outro caminho. Ele demonstra isso no v. 15.

“A lei produz cólera”: cólera em nós contra Deus, pois irrita e provoca aquela mente carnal que é inimiga de Deus, assim como represar um riacho faz subir seu nível; e cólera em Deus contra nós. Ela a produz, isto é, revela-a, ou nossa transgressão da lei a produz.

É certo que jamais podemos esperar a herança por uma lei que produz cólera. Como a lei produz cólera, ele mostra de modo muito conciso na última parte do versículo: “Onde não há lei, não há transgressão”, máxima reconhecida que implica que, onde há lei, há transgressão, e essa transgressão provoca Deus; assim a lei produz cólera.

  1. Por que a promessa lhe foi feita pela fé: por três motivos, v. 16. (1.) Para que fosse pela graça e esta recebesse a honra; pela graça, não pela lei; pela graça, não como dívida nem por mérito. Assim, seria possível proclamar “Graça, graça” a cada pedra, especialmente à pedra principal, nessa construção.

A fé tem relação particular com a graça que concede, assim como a graça se relaciona com a fé que recebe. “Pela graça” e, portanto, “mediante a fé”, Efésios 2:8. Pois Deus quer que toda coroa seja lançada aos pés da graça, da graça gratuita, e que todos os cânticos no céu sejam cantados nessa melodia: Não a nós, ó Senhor, não a nós, mas ao seu nome seja dado o louvor.

(2.) Para que a promessa fosse segura. A primeira aliança, sendo uma aliança de obras, não era segura: mas, por causa da falha humana, os benefícios nela visados foram perdidos.

Por isso, para tornar mais eficazmente certa e segura a concessão da nova aliança, encontrou-se outro caminho, não pelas obras (pois, nesse caso, a promessa não seria segura, dada a contínua fragilidade e fraqueza da carne), mas pela fé.

A fé recebe tudo de Cristo e age em contínua dependência dele, como o grande depositário de nossa salvação, sob cuja guarda ela está segura. Assim, a aliança é segura porque está tão bem ordenada em todas as coisas, 2 Samuel 23:5.

(3.) Para que ela fosse segura para toda a descendência. Se fosse pela lei, ficaria restrita aos judeus, a quem pertenciam a glória, as alianças e a entrega da lei (Romanos 9:4). Foi, portanto, pela fé para que os gentios assim como os judeus tivessem parte nela, a descendência espiritual assim como a natural do fiel Abraão.

Deus quis maquinar a promessa de modo a torná-la o mais ampla possível, incluindo todos os verdadeiros crentes, para que circuncisão e incircuncisão não criassem embaraço. Por isso (v. 17), ele nos remete a Gênesis 17:5, onde se dá o motivo da mudança de nome de Abrão, um pai elevado, para Abraão, o pai elevado de uma multidão: “Pois eu te fiz pai de muitas nações.”

Isto é, todos os crentes, tanto antes quanto depois da vinda de Cristo em carne, tomariam Abraão por modelo e o chamariam de pai. Os judeus dizem que Abraão era o pai de todos os prosélitos à religião judaica. “Eis que ele é o pai de todo o mundo, que é reunido sob as asas da Majestade Divina.” Maimonides.

O Caso de Abraão. (d.C. 58.)

17b: “Diante daquele em quem creu, a saber, Deus, que vivifica os mortos e chama as coisas que não são como se fossem.”

18: “Ele, contra a esperança, creu em esperança, para que se tornasse pai de muitas nações, conforme o que fora dito: Assim será a tua descendência.”

19: “E, não sendo fraco na fé, não considerou seu próprio corpo já morto, tendo cerca de cem anos, nem o estado de morte do ventre de Sara.”

20: “Não vacilou diante da promessa de Deus por incredulidade; antes, foi forte na fé, dando glória a Deus.”

21: “E estando plenamente convencido de que o que ele prometera era também capaz de cumprir.”

22: “E por isso lhe foi imputado como justiça.”

Tendo observado quando Abraão foi justificado pela fé e por que, o apóstolo aqui descreve e recomenda a fé de Abraão, para a honra de Abraão e para exemplo nosso, que o chamamos de pai. Observe:

I. Em quem ele creu: Deus, que vivifica. É no próprio Deus que a fé se firma; ninguém pode lançar outro fundamento. Observe agora o que, em Deus, a fé de Abraão tinha em vista: certamente aquilo que mais poderia confirmar sua fé acerca do que lhe fora prometido:

  1. Deus, que vivifica os mortos. Foi-lhe prometido que seria pai de muitas nações quando ele e sua mulher já estavam como mortos (Hebreus 11:11, 12). Por isso, ele olha para Deus como um Deus que podia soprar vida em ossos secos.

Aquele que vivifica os mortos pode fazer qualquer coisa: pode dar um filho a Abraão em sua velhice e levar os gentios, mortos em delitos e pecados, a uma vida divina e espiritual, Efésios 2:1. Compare Efésios 1:19, 20.

  1. Aquele que chama as coisas que não são como se fossem, isto é, cria todas as coisas pela palavra de seu poder, como no princípio, Gênesis 1:3; 2 Coríntios 4:6. A justificação e salvação dos pecadores e o desposar dos gentios, que não eram um povo, eram uma chamada graciosa das coisas que não são como se fossem, dando existência ao que não existia.

Isso expressa a soberania de Deus e seu poder e domínio absolutos, um poderoso apoio para a fé quando todos os demais sustentáculos cedem e vacilam. É sabedoria e sagacidade santas da fé firmar-se especialmente naquilo em Deus que corresponde às dificuldades com que ela precisa lutar e que responderá com mais eficácia às objeções.

É fé de fato apoiar-se na suficiência plena de Deus para realizar aquilo que é impossível a qualquer coisa que não seja essa suficiência plena.

Assim, Abraão tornou-se pai de muitas nações “diante daquele em quem creu”, isto é, aos olhos e no conceito de Deus; ou semelhante àquele em quem creu: assim como Deus era Pai comum, assim também Abraão o era. É pela fé em Deus que nos tornamos aceitos por ele e semelhantes a ele.

II. Como ele creu. Aqui o apóstolo exalta grandemente a força da fé de Abraão em diversas expressões. 1. “Contra a esperança, creu em esperança”, v. 18. Havia uma esperança contrária a ele: a esperança natural.

Todas as razões dos sentidos, da razão e da experiência que normalmente geram e sustentam a esperança em casos assim se opunham a ele; nenhuma causa secundária lhe sorria nem favorecia minimamente sua esperança.

Mas, contra todos esses motivos em contrário, ele creu; pois havia uma esperança em seu favor: “Creu em esperança”, que nasceu, assim como sua fé, da consideração da suficiência plena de Deus. “Para que se tornasse pai de muitas nações.” Portanto, Deus, por sua graça onipotente, o capacitou a crer contra a esperança, para que servisse de modelo de fé grande e forte a todas as gerações.

Era apropriado que aquele que seria o pai dos fiéis tivesse algo extraordinário em sua fé: que nele a fé fosse elevada ao mais alto grau, orientando, erguendo e animando assim os esforços de todos os crentes que viessem depois.

Ou isso é mencionado como o conteúdo da promessa em que creu; o apóstolo remete a Gênesis 15:5: “Assim será a tua descendência”, como as estrelas do céu, tão inumerável e tão ilustre.

Foi nisso que ele creu quando sua fé lhe foi contada como justiça, Gênesis 15:6. É digno de nota que esse ato particular de sua fé foi contra a esperança, contra as suspeitas e sugestões de sua incredulidade.

Pouco antes, ele acabara de concluir com pesar que partiria sem filhos e que alguém nascido em sua casa era seu herdeiro (Gênesis 15:2, 3); essa incredulidade serviu de contraste para sua fé e mostra que ele creu contra a esperança.

  1. “Não sendo fraco na fé, não considerou seu próprio corpo”, v. 19. Observe: seu próprio corpo estava então morto, tornando-se totalmente improvável que gerasse um filho, embora a vida e o vigor renovados que Deus lhe concedeu continuassem depois da morte de Sara, como atestam seus filhos com Quetura.

Quando Deus pretende conceder alguma bênção especial, algum filho da promessa, para seu povo, costuma proferir uma sentença de morte sobre a própria bênção e sobre todos os caminhos que levam a ela. José precisa ser escravizado e encarcerado antes de ser elevado. Mas Abraão não considerou isso, ou katenoese: não fixou aí seus pensamentos.

De fato, ele disse: “Nascerá um filho a um homem de cem anos?”, Gênesis 17:17. Mas essa era a linguagem de sua admiração e do desejo de receber mais esclarecimentos, não de dúvida e desconfiança. Sua fé passou por cima dessa consideração e pensou somente na fidelidade da promessa; contemplá-la o absorveu e sustentou sua fé.

“Não sendo fraco na fé, não considerou.” É mera fraqueza da fé que leva alguém a ficar examinando as dificuldades e aparentes impossibilidades no caminho de uma promessa. Embora sondar a fundo todas as dificuldades levantadas contra a promessa possa parecer sabedoria e sagacidade da razão carnal, ainda assim é fraqueza da fé.

  1. “Não vacilou diante da promessa de Deus por incredulidade” (v. 20). Não vacilou porque não considerou os sinais desfavoráveis e os desânimos das causas secundárias. Ou diekrithe: não disputou, não iniciou uma deliberação consigo mesmo a respeito, não tomou tempo para decidir se aceitaria ou não a promessa, não hesitou nem tropeçou nela.

Antes, por um ato resoluto e decidido da alma, com santa ousadia, arriscou tudo sobre a promessa. Não a tratou como questão que admitisse razões ou debate, mas a resolveu imediatamente como caso já decidido, sem ficar minimamente em suspenso: não vacilou por incredulidade.

A incredulidade está na raiz de todas as nossas vacilações diante das promessas de Deus. Quando vacilamos, não é a promessa que falha, mas nossa fé. 4. “Foi forte na fé, dando glória a Deus”, enedynamothe: foi fortalecido na fé. Sua fé ganhou terreno pelo exercício, crescit eundo.

Embora a fé fraca não vá ser rejeitada, a cana ferida não vá ser quebrada e o pavio que fumega não vá ser apagado, ainda assim a fé forte será recomendada e honrada. A força da fé de Abraão apareceu na vitória que alcançou sobre seus temores.

Assim ele deu glória a Deus, pois, assim como a incredulidade o desonra ao fazê-lo mentiroso (1 João 5:10), a fé o honra ao selar que ele é verdadeiro, João 3:33. A fé de Abraão deu a Deus a glória de sua sabedoria, poder, santidade, bondade e, especialmente, fidelidade, apoiando-se na palavra que ele dissera.

Entre os homens dizemos: “Quem confia em outro lhe dá crédito e o honra ao aceitar sua palavra”; assim Abraão deu glória a Deus por confiar nele. Nunca ouvimos nosso Senhor Jesus elogiar algo tanto quanto a grande fé (Mateus 8:10; 15:28). Por isso, Deus honra a fé, a grande fé, porque a fé, a grande fé, honra a Deus.

  1. Estava plenamente convencido de que o que Deus prometera ele era capaz de cumprir, plerophoretheis: avançou com a maior confiança e segurança. A metáfora vem dos navios que entram no porto com as velas todas abertas.

Abraão viu que tempestades de dúvidas, temores e tentações provavelmente se levantariam contra a promessa; muitos, diante delas, teriam recuado, ficado à espera de dias melhores e aguardado ventos favoráveis dos sentidos e da razão. Mas Abraão tomou Deus como piloto e a promessa como carta náutica e bússola.

Resolveu enfrentar a travessia e, como aventureiro ousado, abriu todas as velas, atravessou todas as dificuldades, não se importou com ventos nem nuvens, mas confiou na solidez de seu casco e na sabedoria e fidelidade de seu piloto. Avançou corajosamente para o porto e chegou a casa com um ganho inexprimível.

Assim era seu pleno convencimento, fundado na onipotência de Deus: “Ele era capaz.” Nossas vacilações surgem principalmente da desconfiança do poder divino. Portanto, para nos firmarmos, precisamos crer não apenas que aquele que prometeu é fiel, mas que é capaz.

“E por isso lhe foi imputado como justiça”, v. 22. Como ele confiou tudo com tamanha segurança à promessa divina, Deus, em sua graça, o aceitou e não só atendeu, mas superou sua expectativa.

Essa maneira de glorificar a Deus pela confiança firme somente em sua promessa correspondia tão plenamente ao desígnio de Deus e era tão favorável à sua honra que Deus, em sua graça, a aceitou como justiça e justificou Abraão.

Isso ocorreu embora o ato em si não tivesse o que era necessário para merecer tal aceitação. Mostra por que a fé foi escolhida como a condição principal de nossa justificação: é uma graça que, entre todas as outras, dá glória a Deus.

Versículos 23 a 25

O Caso de Abraão. (d.C. 58.)

No fim do capítulo, ele aplica tudo a nós. E, tendo demonstrado amplamente que Abraão foi justificado pela fé, conclui aqui que a justificação dele deveria ser o padrão ou modelo da nossa: “Não foi escrito somente por causa dele.”

O propósito não era apenas elogiar Abraão numa narrativa histórica nem relatar algo exclusivo dele (como alguns antipedobatistas insistem em entender que a circuncisão era selo da justiça da fé, v. 11, apenas para Abraão, e para mais ninguém). Não: a Escritura não pretendia descrever aqui um caminho singular de justificação que pertencesse a Abraão como privilégio seu.

Os relatos que temos dos santos do Antigo Testamento não foram escritos apenas como histórias, meramente para nos informar e entreter, mas como precedentes para nos orientar, como exemplos (1 Coríntios 10:11) para nosso aprendizado, Romanos 15:4.

E esse relato específico sobre Abraão também foi escrito por nossa causa, para nos assegurar qual é a justiça que Deus exige e aceita para nossa salvação. Por nossa causa, nós que somos insignificantes e vis, que ficamos tão aquém de Abraão em privilégios e obras; por nós, gentios, assim como pelos judeus, pois a bênção de Abraão chega aos gentios por meio de Cristo.

Por nós, sobre quem chegaram os fins do mundo, assim como pelos patriarcas; pois a graça de Deus é a mesma ontem, hoje e para sempre. A aplicação que o apóstolo faz é breve. Podemos apenas observar:

I. Nosso privilégio comum: “Isso nos será imputado”, isto é, a justiça nos será imputada. O caminho evangélico da justificação é pela justiça imputada, mellei logizesthai, “será imputado”. Ele usa um verbo no futuro para indicar a continuidade dessa misericórdia na igreja.

Assim como ela é a mesma agora, também continuará enquanto Deus tiver uma igreja no mundo e houver filhos dos homens a justificar; pois foi aberta uma fonte inesgotável.

II. Nosso dever comum, a condição desse privilégio, é crer. O objeto próprio dessa fé é uma revelação divina. A revelação dada a Abraão dizia respeito a um Cristo que viria; a revelação dada a nós diz respeito a um Cristo que já veio, diferença que não altera a questão.

Abraão creu no poder de Deus para fazer surgir Isaque do ventre morto de Sara; nós devemos crer no mesmo poder exercido num caso ainda maior, a ressurreição de Cristo dentre os mortos. A ressurreição de Isaque foi figurada (Hebreus 11:19); a de Cristo, real.

Ora, devemos crer naquele que ressuscitou Cristo, não apenas crer em seu poder, que podia fazê-lo, mas depender de sua graça ao ressuscitar Cristo como nosso fiador. Assim o apóstolo explica no v. 25, onde temos uma breve exposição do sentido da morte e da ressurreição de Cristo, que são as duas principais dobradiças em que gira a porta da salvação.

  1. Ele foi entregue por nossas ofensas. Deus Pai o entregou, e ele próprio se entregou como sacrifício pelo pecado. De fato, morreu como malfeitor porque morreu pelo pecado, mas não por seu próprio pecado, e sim pelos pecados do povo. Morreu para fazer expiação por nossos pecados, expiar nossa culpa e satisfazer a justiça divina.

  2. Ele foi ressuscitado para nossa justificação, para aperfeiçoá-la e completá-la. Pelo mérito de sua morte, pagou nossa dívida; em sua ressurreição, obteve nossa quitação. Quando foi sepultado, permaneceu preso enquanto se executava a cobrança de nossa dívida, que se comprometera a pagar como fiador.

No terceiro dia, um anjo foi enviado para remover a pedra e, assim, libertar o prisioneiro. Essa era a maior garantia possível de que a justiça divina fora satisfeita e a dívida, paga; de outro modo, ele jamais teria libertado o prisioneiro. Por isso, o apóstolo dá ênfase especial à ressurreição de Cristo: É Cristo quem morreu, sim, e ainda, antes quem ressuscitou, Romanos 8:34.

Portanto, de tudo isso fica muito claro que não somos justificados pelo mérito de nossas próprias obras, mas por uma dependência confiante e obediente de Jesus Cristo e de sua justiça.

Essa dependência é, de nossa parte, a condição de nosso direito à impunidade e à salvação: a verdade que Paulo vinha estabelecendo neste capítulo e no anterior como a grande fonte e o fundamento de todo o nosso conforto.


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