Matthew Henry

Romanos 2

Argumento

O alcance dos dois primeiros capítulos desta epístola pode ser deduzido de Romanos 3:9: “Já demonstramos que tanto judeus quanto gentios estão todos debaixo do pecado.” Isso demonstramos quanto aos gentios (Romanos 1); agora, neste capítulo, ele o demonstra quanto aos judeus, como se vê pelo v. 17: “Tu és chamado judeu.”

I. Ele demonstra, em geral, que judeus e gentios estão no mesmo nível diante da justiça de Deus, até o v. 11.

II. Mostra mais especificamente de quais pecados os judeus eram culpados, apesar de sua profissão de fé e de suas alegações vãs (v. 17 até o fim).

Versículos 1 a 16

Equidade do Governo Divino. (d.C. 58.)

No capítulo anterior, o apóstolo representara a condição do mundo gentio como tão ruim e sombria quanto os judeus prontamente a declaravam. Agora, querendo mostrar que a condição dos judeus também era muito ruim e que seu pecado era, em muitos aspectos, mais grave, prepara o terreno nesta parte do capítulo.

Ele procura mostrar que Deus procederia segundo os mesmos termos de justiça com judeus e gentios, e não com a parcialidade que os judeus tendiam a pensar que ele usaria em favor deles.

I. Ele os acusa formalmente por sua tendência a censurar e sua presunção (v. 1): “És indesculpável, ó homem, quem quer que sejas que julgas.” Como ele se expressa em termos gerais, a advertência pode alcançar aqueles muitos mestres (Tiago 3:1), de qualquer nação ou profissão, que atribuem a si mesmos o poder de censurar, controlar e condenar os outros.

Mas ele visa especialmente os judeus e aplica a eles em particular essa acusação geral (v. 21): “Tu, que ensinas a outro, não ensinas a ti mesmo?” Em geral, os judeus eram um povo orgulhoso, que olhava com muito desprezo e desdém para os pobres gentios, como se estes não fossem dignos de estar com os cães de seu rebanho.

Enquanto isso, eles próprios eram igualmente maus e imorais: embora não fossem idólatras como os gentios, eram sacrílegos, v. 22. Por isso, “és indesculpável”. Se os gentios, que só tinham a luz da natureza, eram indesculpáveis (Romanos 1:20), muito mais o eram os judeus, que tinham a luz da lei, a vontade revelada de Deus e, portanto, recursos maiores que os gentios.

II. Ele afirma a justiça invariável do governo divino, v. 2, 3. Para firmar o convencimento, mostra aqui quão justo é o Deus com quem temos de lidar e quão justos são seus procedimentos. É comum o apóstolo Paulo, em seus escritos, ao mencionar algum ponto importante, fazer longas digressões a respeito dele, como aqui acerca da justiça de Deus (v. 2).

“Que o juízo de Deus é conforme a verdade”, conforme as regras eternas da justiça e da equidade, conforme o coração e não a aparência exterior (1 Samuel 16:7), conforme as obras e sem acepção de pessoas, é uma doutrina da qual todos temos certeza, pois ele não seria Deus se não fosse justo.

Mas convém que a considerem especialmente aqueles que condenam os outros pelas mesmas coisas de que são culpados. Assim, enquanto praticam o pecado e persistem nessa prática, pensam subornar a justiça divina protestando contra o pecado e denunciando em voz alta outros culpados, como se pregar contra o pecado expiasse a culpa de praticá-lo.

Mas observe como ele a coloca diante da consciência do pecador (v. 3): “Pensas isto, ó homem?” Ó homem, criatura racional, criatura dependente, feita por Deus, sujeita a ele e responsável perante ele. O caso é tão claro que podemos ousar apelar aos pensamentos do próprio pecador.

“Podes pensar que escaparás do juízo de Deus? Pode Deus, que sonda o coração, ser iludido por alegações formais, e o justo Juiz de todos ser assim subornado e despachado?” Os pecadores mais plausíveis e sagazes, que se absolvem diante dos homens com a maior confiança, não podem escapar do juízo de Deus nem evitar ser julgados e condenados.

III. Ele apresenta contra eles uma acusação (v. 4, 5) composta de dois pontos:

  1. Desprezar a bondade de Deus (v. 4), as riquezas de sua bondade. Isso se aplica especialmente aos judeus, que haviam recebido sinais singulares do favor divino. Os meios são misericórdias, e quanto maior a luz contra a qual pecamos, maior o amor contra o qual pecamos. Uma opinião baixa e mesquinha da bondade divina está na raiz de muitos pecados.

Há em todo pecado deliberado um desprezo implícito pela bondade de Deus: é rejeitar sua compaixão, particularmente a bondade de sua paciência, tolerância e longanimidade, tomando disso ocasião para se tornar ainda mais ousado no pecado, Eclesiastes 8:11.

“Não sabendo”, isto é, não considerando, não sabendo de maneira prática e pessoal, “que a bondade de Deus te conduz” (e este é seu desígnio) “ao arrependimento”. Não basta saber que a bondade de Deus conduz ao arrependimento: precisamos saber que ela nos conduz, a você em particular. Veja aqui o método que Deus usa para levar pecadores ao arrependimento.

Ele os conduz, não os impele como animais, mas os conduz como criaturas racionais; ele os atrai (Oseias 2:14). É a bondade que os conduz, com laços de amor, Oseias 11:4. Compare Jeremias 31:3. A consideração da bondade de Deus, de sua bondade comum para com todos (a bondade de sua providência, de sua paciência e de suas ofertas), deveria ser eficaz para levar todos nós ao arrependimento.

O motivo por que tantos continuam sem se arrepender é que não conhecem nem consideram isso.

  1. Provocar a cólera de Deus, v. 5. A origem dessa provocação é um coração endurecido e impenitente; a ruína dos pecadores é andar segundo tal coração, deixando-se conduzir por ele. Pecar é andar no caminho do coração; e, quando ele é endurecido e impenitente (com dureza adquirida pelo longo costume, além da que é natural), quão desesperado deve ser esse percurso!

A provocação é expressa por acumular cólera. Aqueles que persistem num curso de pecado acumulam para si mesmos cólera. Um tesouro indica abundância. É um tesouro que se gastará por toda a eternidade sem jamais se esgotar; e, ainda assim, os pecadores continuam a aumentá-lo como quem aumenta um tesouro.

Cada pecado deliberado acrescenta algo à conta e agravará a cobrança; acrescenta um ramo à cólera deles, como alguns interpretam aquilo em Ezequiel 8:17: põem o ramo junto ao nariz. Um tesouro indica segredo. O tesouro ou depósito da cólera é o próprio coração de Deus, no qual ela está escondida como tesouros selados em algum lugar secreto; veja Deuteronômio 32:34; Jó 14:17.

Mas também indica que ela está reservada para alguma ocasião ulterior, assim como os tesouros de granizo são reservados para o dia da batalha e da guerra, Jó 38:22, 23. Esses tesouros serão abertos como as fontes do grande abismo, Gênesis 7:11. Estão acumulados para o dia da cólera, quando serão distribuídos em grande quantidade, derramados em taças cheias.

Embora o presente seja um dia de paciência e tolerância para com os pecadores, vem um dia de cólera: cólera e nada além de cólera. De fato, cada dia é, para os pecadores, um dia de cólera, pois Deus se ira contra os ímpios todos os dias (Salmos 7:11); mas vem o grande dia da cólera, Apocalipse 6:17.

E esse dia da cólera será o dia da revelação do justo juízo de Deus. A cólera de Deus não é como a nossa, um ardor e uma paixão; não, não há furor nele (Isaías 27:4). É, porém, um justo juízo, sua vontade de punir o pecado porque o odeia como algo contrário à sua natureza.

Esse justo juízo de Deus hoje muitas vezes se oculta na prosperidade e no sucesso dos pecadores; mas logo será manifestado diante do mundo inteiro, essas aparentes desordens serão corrigidas e os céus declararão sua justiça, Salmos 50:6. Portanto, nada julguem antes do tempo.

IV. Ele descreve as medidas segundo as quais Deus procede em seu juízo. Tendo mencionado o justo juízo de Deus no v. 5, aqui ilustra esse juízo e sua justiça, mostrando o que podemos esperar de Deus e segundo que regra ele julgará o mundo.

A equidade da justiça distributiva consiste em dispensar desaprovação e favores conforme os merecimentos e sem acepção de pessoas: assim é o justo juízo de Deus.

  1. Ele retribuirá a cada homem segundo suas obras (v. 6), verdade muitas vezes mencionada nas escrituras para provar que o Juiz de toda a terra age com justiça.

(1.) Ao dispensar seus favores. Isso é mencionado duas vezes aqui, tanto no v. 7 como no v. 10, pois ele se deleita em mostrar misericórdia. Observe:

[1.] Os objetos de seu favor: “Aqueles que, com perseverança paciente”, etc. Por isso podemos examinar se participamos do favor divino e, daí, receber orientação sobre o caminho a seguir para obtê-lo. Aqueles a quem o Deus justo recompensará são, primeiro, os que estabelecem para si o fim correto, buscando glória, honra e imortalidade.

Isto é, a glória e a honra que são imortais: a aceitação diante de Deus aqui e para sempre. Há uma santa ambição na base de toda religião praticada. É buscar o reino de Deus, elevar nossos desejos e alvos até o céu e decidir não nos contentar com nada aquém dele.

Essa busca implica uma perda, a consciência dessa perda, o desejo de recuperar o que se perdeu e buscas e esforços condizentes com tais desejos. Segundo, os que, tendo estabelecido o fim correto, seguem o caminho correto: uma perseverança paciente em fazer o bem.

  1. É preciso fazer o bem, praticar o que é bom, v. 10. Não basta conhecer bem, falar bem, professar bem e prometer bem: precisamos fazer o bem, fazer o que é bom não só quanto ao conteúdo, mas também quanto ao modo. Precisamos fazê-lo bem.

  2. Perseverança em fazer o bem. Não apenas por um ímpeto momentâneo, como a nuvem da manhã e o orvalho que cedo desaparece; precisamos, porém, perseverar até o fim: é a perseverança que conquista a coroa.

  3. Perseverança paciente. Essa paciência diz respeito não apenas à duração do trabalho, mas também às dificuldades, oposições e agruras que nele possamos encontrar. Aqueles que quiserem fazer o bem e perseverar nisso precisarão revestir-se de muita paciência.

[2.] O fruto de seu favor. A esses ele retribuirá com a vida eterna. O céu é vida, vida eterna, e é a recompensa dos que perseveram pacientemente em fazer o bem; e é chamado (v. 10) glória, honra e paz. Aqueles que buscam glória e honra (v. 7) as receberão.

Os que buscam a glória e a honra vãs deste mundo muitas vezes deixam de alcançá-las e ficam decepcionados. Mas os que buscam glória e honra imortais as receberão; e não apenas glória e honra, mas também paz. A glória e a honra mundanas costumam vir acompanhadas de perturbação; a glória e a honra celestiais trazem consigo paz, uma paz eterna e inabalável.

(2.) Ao dispensar sua desaprovação (v. 8, 9). Observe: [1.] Os objetos de sua desaprovação. Em geral, os que praticam o mal; mais especificamente, descritos como os que são contenciosos e não obedecem à verdade. Contenciosos contra Deus.

Todo pecado deliberado é uma desavença com Deus, é contender com nosso Criador (Isaías 45:9), a mais desesperada das disputas. O Espírito de Deus contende com os pecadores (Gênesis 6:3), e os pecadores impenitentes contendem contra o Espírito, rebelam-se contra a luz (Jó 24:13), apegam-se ao engano e contendem para conservar aquele pecado do qual o Espírito contende para separá-los.

Contenciosos e desobedientes à verdade. As verdades da religião não devem apenas ser conhecidas, mas obedecidas: elas orientam, governam e ordenam; são verdades relativas à prática. A desobediência à verdade é interpretada como uma contenda contra ela. Mas obedecem à injustiça: fazem o que a injustiça lhes ordena.

Os que recusam ser servos da verdade logo serão escravos da injustiça. [2.] Os frutos ou manifestações dessa desaprovação: indignação e cólera, tribulação e angústia. Esses são os salários do pecado. A indignação e a cólera são as causas; a tribulação e a angústia, os efeitos necessários e inevitáveis.

E isso recai sobre a alma: as almas são os vasos daquela cólera, os sujeitos daquela tribulação e angústia. O pecado torna a alma apta para essa cólera. A alma é aquilo no homem, ou aquilo que pertence a ele, que é a única capaz de receber diretamente essa indignação e as impressões ou efeitos da angústia decorrente dela.

O inferno é tribulação e angústia eternas, produto da cólera e da indignação. Isso resulta de contender com Deus, de colocar sarças e espinhos diante de um fogo consumidor, Isaías 27:4. Os que não se curvarem diante de seu cetro de ouro certamente serão quebrados por sua vara de ferro. Assim Deus retribuirá a cada homem segundo suas obras.

  1. Para Deus não há acepção de pessoas, v. 11. No que diz respeito à condição espiritual, há uma distinção entre pessoas; mas não quanto à relação ou condição exterior. Judeus e gentios estão no mesmo nível diante de Deus.

Essa foi a observação de Pedro quando o muro de separação começou a ser derrubado (Atos 10:34): Deus não faz acepção de pessoas. Isso é explicado pelas palavras seguintes: em toda nação, aquele que teme a Deus e pratica a justiça é aceito por ele.

Deus não salva os homens por causa de seus privilégios externos nem por seu conhecimento estéril e profissão da verdade, mas segundo o que sua condição e disposição realmente são. Ao dispensar tanto sua desaprovação como seus favores, ele o faz tanto ao judeu quanto ao gentio.

Se o faz primeiro aos judeus, que tinham maiores privilégios e professavam mais, também o faz aos gentios. A falta desses privilégios não os desculpará do castigo por suas más obras nem os excluirá da recompensa por suas boas obras (veja Colossenses 3:11); pois não fará justiça o Juiz de toda a terra?

V. Ele demonstra a equidade de seus procedimentos para com todos, quando de fato vier a julgá-los (vv. 12-16), com base no princípio de que aquilo que serve de regra para a obediência do homem serve de regra para o juízo de Deus. Três graus de luz são revelados aos filhos dos homens:

  1. A luz da natureza. Os gentios a possuem e por ela serão julgados: “Todos quantos pecaram sem lei também sem lei perecerão”. Isto é, os gentios incrédulos, que não tinham outro guia senão a consciência natural nem outro incentivo senão as misericórdias comuns, e não tinham a lei de Moisés nem qualquer revelação sobrenatural, não responderão pela transgressão de uma lei que nunca possuíram.

Também não estarão sujeitos à gravidade acrescida do pecado dos judeus contra a lei escrita nem ao juízo por ela; mas serão julgados pela lei da natureza, contra a qual pecam. Essa lei não é apenas a que está no coração deles, corrompida, desfigurada e aprisionada pela injustiça, mas a que o Juiz conserva consigo em seu original incorrupto.

Para esclarecer mais isso (v. 14, 15), ele demonstra, entre parênteses, que a luz da natureza fazia para os gentios as vezes de uma lei escrita. Dissera (v. 12) que eles pecaram sem lei, o que parece uma contradição; pois, onde não há lei, não há transgressão. Mas, diz ele, embora não tivessem a lei escrita (Salmos 147:20), tinham algo equivalente, não à lei cerimonial, mas à lei moral.

Tinham a obra da lei. Ele não quer dizer a obra que a lei ordena, como se pudessem apresentar obediência perfeita, mas a obra que a lei realiza. A obra da lei é nos orientar quanto ao que fazer e nos examinar quanto ao que fizemos.

Ora, (1.) tinham o que os orientava quanto ao que fazer pela luz da natureza: pela força e tendência de suas noções e ditames naturais, percebiam uma diferença clara e imensa entre o bem e o mal. Faziam por natureza as coisas contidas na lei.

Tinham senso de justiça e equidade, de honra e pureza, de amor e caridade; a luz da natureza ensinava a obediência aos pais, a compaixão pelos aflitos e a preservação da paz e da ordem públicas; proibia o homicídio, o roubo, a mentira, o perjúrio, etc. Assim, eram lei para si mesmos.

(2.) Tinham o que os examinava quanto ao que haviam feito: “Sua consciência também dando testemunho.” Tinham dentro de si aquilo que aprovava e elogiava o que fora bem feito e os censurava pelo que fora mal feito. A consciência é testemunha e, cedo ou tarde, dará testemunho, embora por algum tempo possa ser subornada ou intimidada.

Ela vale por mil testemunhas, testificando acerca do que há de mais secreto; e os pensamentos deles os acusavam ou desculpavam, emitindo um juízo sobre o testemunho da consciência mediante a aplicação da lei ao fato. A consciência é aquela lâmpada do Senhor que não se apagou completamente, nem mesmo no mundo gentio. Os pagãos deram testemunho do conforto de uma boa consciência.

Hic murus ahoncus esto,

Nil conscire sibi.

Seja este teu baluarte de bronze para defesa:

Conserva sempre tua inocência consciente.

Horácio.

E do terror de uma consciência má:

Quos diri consein facti

Mens habet attonitos, et surdo verbere cædit.

Nenhum açoite se ouve; ainda assim, o coração culpado

Sofre a tortura de uma dor que ele próprio infligiu.

Juvenal, Sat. 13.

“Seus pensamentos, enquanto isso”, metaxy allelon, entre si ou uns com os outros. A mesma luz e lei da natureza que testificava contra o pecado neles, e testificava contra ele nos outros, fazia com que se acusassem ou desculpassem uns aos outros.

Vicissim, como alguns leem, por turnos: conforme observavam ou transgrediam essas leis e esses ditames naturais, suas consciências os absolviam ou condenavam. Tudo isso demonstrava que eles tinham algo que lhes servia de lei, pela qual poderiam ter sido guiados e governados e que os condenará, porque não foram guiados e governados por ela.

Assim, os gentios culpados ficam sem desculpa. Deus é justo ao condená-los. Não podem alegar ignorância e, portanto, provavelmente perecerão se não tiverem mais alguma coisa para alegar.

  1. A luz da lei. Os judeus a possuíam e por ela serão julgados (v. 12): “Todos quantos pecaram na lei pela lei serão julgados.” Eles pecaram não apenas possuindo a lei, mas en nomo, na lei, em meio a tanta lei, diante de uma lei tão pura e clara e à sua luz, com orientações tão completas e específicas e sanções tão convincentes e eficazes.

Esses serão julgados pela lei; seu castigo, assim como seu pecado, será muito maior por terem a lei. “Primeiro do judeu”, v. 9. Será mais tolerável para Tiro e Sidom. Assim Moisés os acusou (João 5:45), e eles incorreram nos muitos açoites de quem conhecia a vontade de seu senhor e não a praticou, Lucas 12:47.

Os judeus se orgulhavam muito da lei; mas, para confirmar o que dissera, o apóstolo mostra (v. 13) que possuir, ouvir e conhecer a lei não os justificaria, mas praticá-la, sim. Os mestres judeus sustentavam seus seguidores com a opinião de que todos os judeus, por pior que fosse sua conduta, teriam um lugar no mundo vindouro.

O apóstolo aqui contesta isso: possuir a lei era um grande privilégio, mas não um privilégio salvador, a menos que vivessem conforme a lei que tinham. É certo que os judeus não o faziam e, portanto, precisavam de uma justiça com a qual pudessem comparecer diante de Deus. Podemos aplicar isso ao evangelho: não é ouvir, mas praticar que nos salvará, João 13:17; Tiago 1:22.

  1. A luz do evangelho. Segundo ela serão julgados aqueles que desfrutaram do evangelho (v. 16): “Segundo o meu evangelho”. Isso não significa algum quinto evangelho escrito por Paulo, como alguns imaginam, nem o evangelho escrito por Lucas, seu amanuense (Eusébio, Hist., livro 3, cap. 8), mas o evangelho em geral, chamado de Paulo porque ele o pregava.

Todos os que estão sob essa dispensação serão julgados segundo ela, Marcos 16:16. Alguns relacionam as palavras “segundo o meu evangelho” ao que ele diz sobre o dia do juízo: “Virá um dia de juízo, como lhes disse muitas vezes em minha pregação; e esse será o dia do juízo final tanto dos judeus quanto dos gentios.”

É bom nos familiarizarmos com o que foi revelado sobre esse dia. (1.) Há um dia determinado para um juízo geral. O dia, o grande dia, o dia dele que se aproxima, Salmos 37:13. (2.) O juízo daquele dia será confiado às mãos de Jesus Cristo. Deus julgará por meio de Jesus Cristo, Atos 17:31. Isso fará parte da recompensa por sua humilhação.

Nada traz mais terror aos pecadores ou mais conforto aos santos do que o fato de Cristo ser o Juiz. (3.) Os segredos dos homens serão então julgados. Os serviços secretos serão recompensados; os pecados secretos, punidos; as coisas ocultas virão à luz. Esse será o grande dia da revelação, quando o que agora é feito às escondidas será proclamado a todo o mundo.

As Pretensões dos Judeus; A Depravação dos Judeus. (d.C. 58.)

Versículos 17 a 29

Na parte final do capítulo, o apóstolo dirige seu discurso mais diretamente aos judeus e mostra de quais pecados eram culpados, apesar de sua profissão e de suas alegações vãs. Dissera (v. 13) que não são os ouvintes da lei, mas seus praticantes, que são justificados; e aqui aplica essa grande verdade aos judeus. Observe:

I. Ele reconhece sua profissão (vv. 17-20) e especifica as alegações e os privilégios particulares dos quais se orgulhavam, para que percebessem que não os condenava por desconhecer o que tinham a dizer em defesa própria; não, ele conhecia o melhor de sua causa.

  1. Eram um povo peculiar, separado e distinto de todos os outros por possuir a lei escrita e pela presença especial de Deus entre eles. (1.) “Tu és chamado judeu”: não tanto por ascendência quanto por profissão. Era um título muito honroso. A salvação vinha dos judeus; e eles se orgulhavam muito disso, de ser um povo à parte; ainda assim, muitos que recebiam esse nome eram os mais vis dos homens.

Não é novidade que as piores práticas se escondam sob os melhores nomes: muitos da sinagoga de Satanás dizem ser judeus (Apocalipse 2:9), e uma geração de víboras se gaba de ter Abraão por pai, Mateus 3:7-9.

(2.) “E repousas na lei”: isto é, orgulhavam-se de ter a lei entre eles, em seus livros, lida em suas sinagogas. Esse privilégio os enchia de orgulho, e achavam que bastava para levá-los ao céu, embora não vivessem conforme a lei.

Repousar na lei com satisfação e aquiescência é bom; mas repousar nela com orgulho, preguiça e segurança carnal é a ruína das almas. “O templo do Senhor”, Jeremias 7:4. Betel, sua confiança, Jeremias 48:13. Altivos por causa do santo monte, Sofonias 3:11. É perigoso repousar em privilégios externos e não aproveitá-los.

(3.) “E te glorias em Deus.” Veja como as melhores coisas podem ser pervertidas e mal utilizadas.

Gloriar-se em Deus com fé, humildade e gratidão é a raiz e o resumo de toda religião, Salmos 34:2; Isaías 45:15; 1 Coríntios 1:31. Mas gloriar-se em Deus e na profissão exterior de seu nome com orgulho e vanglória é a raiz e o resumo de toda hipocrisia. De todas as formas de orgulho, o espiritual é o mais perigoso.

  1. Eram um povo instruído (v. 18): “E conheces sua vontade”, to thelema, a vontade. A vontade de Deus é a vontade soberana, absoluta e irresistível. O mundo só estará em ordem quando a vontade de Deus for a única vontade e todas as demais se fundirem nela.

Eles não conheciam apenas a verdade de Deus, mas sua vontade, aquilo que ele queria que fizessem. É possível um hipócrita ter muito conhecimento da vontade de Deus. “E aprovas as coisas mais excelentes”, dokimazeis ta diapheronta. Paulo pede isso para seus amigos como uma grande conquista, Filipenses 1:10: Eis to dokimazein hymas ta diapheronta.

Entenda isso: (1.) Como uma boa compreensão das coisas de Deus, lendo: “Discernes as coisas que diferem”, sabes distinguir o bem do mal, separar o precioso do vil (Jeremias 15:19), fazer diferença entre o impuro e o puro, Levítico 11:47.

Às vezes, o bem e o mal estão tão próximos que não é fácil distingui-los; mas os judeus, tendo à mão a pedra de toque da lei, podiam, ou ao menos pensavam poder, distingui-los e fazer distinções minuciosas em casos duvidosos.

Um homem pode ser bom casuísta e mau cristão: preciso na teoria, mas descuidado e negligente na prática. Ou podemos, com De Dieu, entender as controvérsias por ta diapheronta. Um homem pode ser muito versado nas controvérsias religiosas e, ainda assim, desconhecer o poder da piedade.

(2.) Como uma afeição ardente pelas coisas de Deus, conforme lemos: “Aprovas as coisas excelentes.” Há excelências na religião que um hipócrita pode aprovar: o juízo prático pode concordar que a lei é boa, mas esse assentimento pode ser vencido pelas paixões da carne e da mente:

Video meliora proboque

Deteriora sequor.

Vejo o melhor, mas sigo o pior.

E é comum que os pecadores usem essa aprovação como desculpa, quando ela é, na verdade, uma grande agravante de seu caminho pecaminoso. Adquiriram esse conhecimento do que é bom e essa afeição por ele ao receber instrução da lei, katechoumenos, sendo catequizados. A palavra significa instrução desde cedo, na infância.

É um grande privilégio e vantagem ser bem catequizado desde cedo. Era costume dos judeus se esforçarem muito para ensinar seus filhos quando pequenos, e todas as lições vinham da lei; seria bom que os cristãos fossem tão diligentes em ensinar seus filhos a partir do evangelho.

Ora, isso é chamado (v. 20) de “forma do conhecimento e da verdade na lei”, isto é, sua demonstração e aparência. Aqueles cujo conhecimento se limita a uma noção vazia, sem causar impressão no coração, têm apenas sua forma, como um quadro bem desenhado e de boas cores, mas sem vida.

Uma forma de conhecimento produz apenas uma forma de piedade, 2 Timóteo 3:5. Uma forma de conhecimento pode enganar os homens, mas não pode iludir o olhar penetrante do Deus que sonda os corações. A forma pode ser o veículo do poder; mas quem se contenta apenas com ela é como o bronze que soa ou o címbalo que retine.

  1. Eram um povo que ensinava, ou pelo menos assim pensavam (v. 19, 20): “E confias que tu mesmo és guia dos cegos.” Aplique isso (1.) aos judeus em geral. Consideravam-se guias dos pobres gentios cegos que estavam sentados nas trevas e se orgulhavam muito de que todos os que quisessem conhecer a Deus lhes devessem esse conhecimento.

Todas as outras nações teriam de ir à escola deles para aprender o que é bom e o que o Senhor requer, pois eles possuíam os oráculos vivos. (2.) Aos rabinos, mestres e líderes entre eles, que eram especialmente aqueles que julgavam os outros, v. 1.

Eles se orgulhavam muito de ocupar a cadeira de Moisés e da deferência que o povo comum prestava a suas palavras. O apóstolo expressa isso em vários termos: guia dos cegos, luz dos que estão em trevas, instrutor dos insensatos, mestre das criancinhas, para expor melhor a presunção orgulhosa que tinham de si mesmos e o desprezo que tinham pelos outros.

Era essa a corda que gostavam de tocar repetidamente, acumulando títulos de honra para si mesmos. A melhor obra, quando serve de motivo de orgulho, é inaceitável a Deus. É bom instruir os insensatos e ensinar as criancinhas; mas, considerando nossa própria ignorância, insensatez e incapacidade de tornar esses ensinamentos eficazes sem Deus, não há nisso motivo de orgulho.

II. Ele mostra a gravidade de suas provocações (vv. 21-24) por duas razões:

  1. Pecavam contra seu conhecimento e sua profissão, fazendo eles próprios aquilo que ensinavam os outros a evitar: “Tu, que ensinas a outro, não ensinas a ti mesmo?” Ensinar é parte daquela caridade que começa em casa, embora não deva terminar ali.

Era hipocrisia dos fariseus não praticar o que ensinavam (Mateus 23:3), mas derrubar com a vida o que construíam com a pregação; pois quem acreditará naqueles que não acreditam em si mesmos? Os exemplos governarão mais que as regras.

Os maiores obstáculos ao êxito da palavra são aqueles cuja vida má contradiz a boa doutrina: no púlpito pregam tão bem que é pena vê-los sair, e fora dele vivem tão mal que é pena vê-los entrar. Ele especifica três pecados particulares abundantes entre os judeus:

(1.) Roubo. Isso é imputado a alguns que declaravam os estatutos de Deus (Salmos 50:16, 18): “Quando vias um ladrão, então anuias a ele.” Os fariseus são acusados de devorar as casas das viúvas (Mateus 23:14), e esse é o pior dos roubos.

(2.) Adultério, v. 22. Também é imputado àquele pecador (Salmos 50:18): “Tens sido cúmplice dos adúlteros.” Diz-se que muitos rabinos judeus eram notórios por esse pecado.

(3.) Sacrilégio: roubo de coisas santas, que naquela época eram dedicadas e consagradas a Deus por leis especiais; e isso é imputado aos que professavam abominar os ídolos. Os judeus o faziam de modo notável após seu cativeiro na Babilônia: aquela fornalha os separou para sempre da escória de sua idolatria, mas agiram com muita infidelidade no culto a Deus.

Foi nos últimos dias da igreja do Antigo Testamento que foram acusados de roubar a Deus nos dízimos e nas ofertas (Malaquias 3:8, 9), convertendo ao próprio uso e ao serviço de suas paixões aquilo que fora separado de modo especial para Deus.

Isso é quase equivalente à idolatria, embora esse sacrilégio estivesse encoberto pela aversão aos ídolos. Naquele outro dia, serão chamados a prestar contas rigorosamente os que, enquanto condenam o pecado nos outros, fazem eles mesmos o mesmo, algo tão mau ou algo ainda pior.

  1. Desonravam a Deus por seu pecado, v. 23, 24. Enquanto Deus e sua lei eram uma honra para eles, da qual se gloriavam e orgulhavam, eles eram uma desonra para Deus e sua lei. Davam aos de fora ocasião para depreciar sua religião, como se ela apoiasse tais coisas e consentisse nelas.

Assim como é pecado tirar tais conclusões (pois as faltas dos que professam a fé não devem ser atribuídas à fé professada), também é pecado dar ocasião para tais conclusões, e isso agravará muito seus erros. Essa foi a condenação no caso de Davi: ele dera grande ocasião para os inimigos do Senhor blasfemarem, 2 Samuel 12:14.

O apóstolo aqui se refere à mesma acusação contra seus antepassados: “Como está escrito”, v. 24. Ele não menciona a passagem porque escrevia a pessoas instruídas na lei (ao procurar convencer, há alguma vantagem em lidar com pessoas que têm conhecimento e conhecem as escrituras), mas parece apontar para Isaías 52:5; Ezequiel 36:22, 23; e 2 Samuel 12:14.

É lamentável que aqueles que foram feitos para dar a Deus um nome e um louvor lhe tragam vergonha e desonra. O grande mal dos pecados daqueles que professam a fé é a desonra que sua profissão traz a Deus e à religião.

“Blasfemado por causa de vocês; isto é, vocês dão ocasião para isso: é por sua insensatez e negligência. O descrédito que atraem para si mesmos recai sobre o seu Deus, e a religião é ferida por meio de vocês.” Boa advertência aos que professam a fé para que andem com cautela. Veja 1 Timóteo 6:1.

III. Ele afirma que a profissão deles é inteiramente insuficiente para absolvê-los da culpa dessas provocações (vv. 25-29): “A circuncisão, de fato, aproveita, se guardares a lei”; isto é, os judeus obedientes não perderão a recompensa de sua obediência, mas ganharão, por ser judeus, uma regra de obediência mais clara do que a dos gentios.

Deus não deu a lei nem designou a circuncisão em vão. Isso deve ser entendido quanto à condição dos judeus antes de o sistema cerimonial ser abolido; de outro modo, a circuncisão era proibida para quem professasse fé em Cristo, Gálatas 5:1.

Mas ele está aqui falando aos judeus, cujo judaísmo lhes traria benefício se ao menos vivessem conforme suas regras e leis; caso contrário, “tua circuncisão se torna incircuncisão”, isto é, tua profissão não te fará nenhum bem. Tu não serás mais justificado que os gentios incircuncisos, mas serás mais condenado por pecar contra luz maior.

Nas escrituras, os incircuncisos são marcados como impuros (Isaías 52:1) e excluídos da aliança (Efésios 2:11, 12); os judeus perversos serão tratados como tais. Veja Jeremias 9:25, 26. Para ilustrar isso melhor:

  1. Ele mostra que os gentios incircuncisos, se viverem conforme a luz que possuem, estão no mesmo nível que os judeus: se guardarem a justiça da lei (v. 26), cumprirem a lei (v. 27), isto é, se, sujeitando-se sinceramente à orientação da luz natural, praticarem o conteúdo da lei.

Alguns entendem isso como a hipótese de uma obediência perfeita à lei: “Se os gentios pudessem guardar perfeitamente a lei, seriam justificados por ela tanto quanto os judeus.” Mas parece antes referir-se ao tipo de obediência que alguns gentios de fato alcançaram. O caso de Cornélio esclarecerá isso.

Embora fosse gentio e incircunciso, era homem piedoso e temente a Deus com toda a sua casa (Atos 10:2), e foi aceito, v. 4. Sem dúvida, havia muitos casos semelhantes: eles eram a incircuncisão que guardava a justiça da lei. A respeito deles, ele diz (1.) que eram aceitos por Deus como se tivessem sido circuncidados. Sua incircuncisão era contada como circuncisão.

A circuncisão era, de fato, um dever ordenado aos judeus, mas não era condição necessária para a justificação e a salvação de todo o mundo. (2.) Que sua obediência agravava muito a desobediência dos judeus que tinham a letra da lei, v. 27. “Julgar-te-á”, isto é, ajudará a aumentar tua condenação, “a ti que, com a letra e a circuncisão, transgrides”.

Observe: para os que professam a fé de modo carnal, a lei não passa de letra; eles a leem como mero escrito, mas não se deixam governar por ela como lei. Transgrediam não só apesar da letra e da circuncisão, mas por meio delas, isto é, valendo-se delas para endurecer a si mesmos no pecado. Os privilégios externos, se não nos fazem bem, fazem-nos mal.

A obediência daqueles que dispõem de menos meios e fazem menor profissão ajudará a condenar os que dispõem de mais meios e fazem maior profissão, mas não vivem à altura dela.

  1. Ele descreve a verdadeira circuncisão, v. 28, 29. (1.) Não é a que é exterior, na carne e na letra. Isso não visa nos afastar da observância das instituições exteriores (elas são boas em seu lugar), mas de confiar nelas e repousar nelas como suficientes para nos levar ao céu, contentando-nos com o nome de vivos sem de fato estar vivos.

“Não é judeu” quer dizer que não será aceito por Deus como descendente do crente Abraão nem reconhecido como alguém que cumpriu o propósito da lei. Ser filhos de Abraão é fazer as obras de Abraão, João 8:39, 40.

(2.) É a que é interior, do coração e no espírito. É para o coração que Deus olha; a circuncisão do coração nos torna aceitáveis a ele. Veja Deuteronômio 30:6. Essa é a circuncisão não feita por mãos, Colossenses 2:11, 12: o despojamento do corpo do pecado. Assim, ela é no espírito, no nosso espírito como seu sujeito, e operada pelo Espírito de Deus como seu autor.

(3.) O louvor dessa circuncisão, embora não venha dos homens, que julgam segundo a aparência exterior, vem de Deus; isto é, o próprio Deus reconhecerá, aceitará e coroará essa sinceridade, pois ele não vê como o homem vê.

Belas alegações e uma profissão plausível podem enganar os homens, mas Deus não pode ser assim enganado; ele vê através das aparências até chegar à realidade. Isso vale igualmente para o cristianismo.

Não é cristão quem o é exteriormente, nem é batismo aquele que é exterior na carne; cristão é quem o é interiormente, e o batismo é o do coração, no espírito e não na letra, cujo louvor não vem dos homens, mas de Deus.


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