Matthew Henry

Romanos 15

Argumento

Neste capítulo, o apóstolo continua o discurso do anterior sobre a tolerância mútua em questões indiferentes; assim, aproxima-se da conclusão da epístola. Quando há entre cristãos diferenças de entendimento e, consequentemente, distanciamento nos afetos, é preciso preceito sobre preceito, linha sobre linha, para abrandar o ardor e produzir uma disposição melhor.

O apóstolo, desejoso de cravar o prego até o fim, como prego em lugar firme, prossegue com seus golpes. Não quer deixar o assunto antes de ter alguma esperança de conseguir seu intento. Para isso, ordena a causa diante deles e enche a boca das razões mais prementes. Podemos observar neste capítulo:

I. Seus preceitos a eles.

II. Suas orações por eles.

III. Sua justificativa por lhes escrever.

IV. Seu relato sobre si mesmo e seus próprios assuntos.

V. Sua declaração do propósito de ir vê-los.

VI. Seu desejo de participar das orações deles.

Versículos 1 a 4

Condescendência e Abnegação; Ternura e Generosidade. (d.C. 58.)

O apóstolo estabelece aqui dois preceitos, acompanhados de razões que os reforçam, mostrando o dever do cristão forte de levar em conta até o mais fraco e de se acomodar a ele.

I. Devemos suportar as debilidades dos fracos, v. 1. Todos temos nossas debilidades, mas os fracos estão mais sujeitos a elas que os demais: os fracos no conhecimento ou na graça, a cana esmagada e o pavio que fumega. Devemos levá-los em conta, não pisoteá-los, mas animá-los e suportar suas debilidades.

Se, por fraqueza, eles nos julgarem, censurarem e falarem mal de nós, devemos suportá-los, compadecer-nos deles e não deixar que nosso afeto se afaste deles. Infelizmente, é a fraqueza deles; não conseguem evitá-la. Assim Cristo suportou seus discípulos fracos e os defendeu.

Mas há mais: também devemos suportar suas debilidades tendo solidariedade com eles, interessando-nos por eles e comunicando-lhes força quando houver ocasião. Isso é levar as cargas uns dos outros.

II. Não devemos agradar a nós mesmos, mas ao próximo, v. 1, 2. Devemos negar nosso próprio temperamento em consideração à fraqueza e à debilidade de nossos irmãos.

  1. Os cristãos não devem agradar a si mesmos. Não devemos fazer de nossa ocupação satisfazer todos os pequenos apetites e desejos do próprio coração. Às vezes, faz-nos bem contrariar a nós mesmos; assim suportaremos melhor quando outros nos contrariarem.

Se nossos caprichos forem sempre atendidos, seremos mimados, como Adonias. A primeira lição que devemos aprender é negar a nós mesmos, Mateus 16:24.

  1. Os cristãos devem agradar a seus irmãos. O desígnio do cristianismo é abrandar e tornar manso o espírito, ensinar-nos a arte da atenção ao próximo e da verdadeira cortesia. Não devemos servir às paixões de ninguém, mas às necessidades e debilidades de nossos irmãos; devemos acomodar-nos a todas as pessoas com quem lidamos até onde a boa consciência permitir.

Os cristãos devem procurar ser agradáveis. Assim como não devemos agradar a nós mesmos no uso da liberdade cristã, que nos foi concedida não para nosso prazer, mas para a glória de Deus e o proveito e a edificação de outros, também devemos agradar ao próximo.

Como seria amável e reconfortante o convívio na igreja de Cristo se os cristãos procurassem agradar uns aos outros! Em vez disso, vemos que costumam empenhar-se em contrariar-se, opor-se e contradizer-se mutuamente.

Agradar ao próximo não significa agradá-lo em tudo; essa regra não é ilimitada. Devemos fazê-lo para o bem dele, especialmente para o bem de sua alma: não satisfazendo suas vontades perversas, cedendo-lhe em um caminho pecaminoso, anuindo às suas seduções ou permitindo que permaneça no pecado.

Esse modo vil de agradar ao próximo arruína sua alma. Se assim agradamos aos homens, não somos servos de Cristo.

Devemos agradá-lo para seu bem, não para nosso proveito terreno nem para explorá-lo, mas para seu bem espiritual. Para edificação, isto é, não apenas para o proveito dele, mas para o de outros: edificar o corpo de Cristo procurando ser atenciosos uns com os outros. Quanto mais próximas estão as pedras e quanto melhor foram talhadas para se ajustarem entre si, mais firme é a construção.

Observe o motivo pelo qual os cristãos devem agradar uns aos outros: pois nem Cristo agradou a si mesmo. A abnegação de nosso Senhor Jesus é a melhor razão contra o egoísmo dos cristãos. Observe:

(1.) Cristo não agradou a si mesmo. Ele não olhou por seu prestígio, conforto, segurança ou prazer neste mundo. Não tinha onde reclinar a cabeça, vivia de esmolas, não quis ser feito rei, e nenhuma proposta lhe causou mais repulsa do que: “Mestre, poupa a ti mesmo.”

Ele não buscou a própria vontade (João 5:30), lavou os pés dos discípulos, suportou a oposição de pecadores contra si, perturbou-se (João 11:33), não olhou por sua própria honra e, em suma, esvaziou-se e fez-se sem reputação.

Tudo isso por nossa causa, para nos obter justiça e nos dar exemplo. Toda a sua vida foi de abnegação e renúncia ao próprio agrado. Ele suportou as debilidades dos fracos, Hebreus 4:15.

(2.) Nisso se cumpriu a escritura: como está escrito, “As afrontas dos que te afrontavam caíram sobre mim”. A citação vem de Salmos 69:9. A primeira parte desse versículo é aplicada a Cristo (João 2:17): “O zelo da tua casa me consumiu”; e a segunda parte é aplicada aqui. Davi era um tipo de Cristo, e seus sofrimentos, um tipo dos sofrimentos de Cristo.

A citação mostra que Cristo esteve tão longe de agradar a si mesmo que se contrariou no mais alto grau.

Não que sua missão, considerada como um todo, lhe fosse uma tarefa e um pesar: ele a assumiu de boa vontade e com alegria. Mas, em sua humilhação, o contentamento e a satisfação das inclinações naturais foram inteiramente contrariados e negados. Ele preferiu nosso benefício ao próprio conforto e prazer.

O apóstolo escolhe expressar isso com as palavras da escritura. Afinal, como falar das coisas do Espírito de Deus melhor do que com as palavras do próprio Espírito? Ele apresenta esta passagem: “As afrontas dos que te afrontavam caíram sobre mim.”

[1.] A vergonha dessas afrontas, que Cristo suportou. Toda desonra feita a Deus afligia o Senhor Jesus. Ele se entristecia com a dureza do coração das pessoas e contemplou um lugar pecaminoso com tristeza e lágrimas.

Quando os santos eram perseguidos, Cristo renunciava ao próprio agrado a ponto de considerar o que era feito a eles como feito contra si: “Saulo, Saulo, por que me persegues?” O próprio Cristo também suportou as maiores indignidades; houve muita afronta em seus sofrimentos.

[2.] O pecado dessas afrontas, pelo qual Cristo se comprometeu a satisfazer; assim muitos entendem a passagem. Todo pecado é uma espécie de afronta a Deus, sobretudo o pecado cometido com presunção. A culpa desses pecados caiu sobre Cristo quando ele foi feito pecado, isto é, sacrifício, oferta pelo pecado em nosso favor.

Quando o Senhor pôs sobre ele as iniquidades de todos nós, e ele levou nossos pecados em seu próprio corpo sobre o madeiro, elas caíram sobre ele como sobre nosso fiador. “Sobre mim recaia a maldição.” Essa foi a maior renúncia possível ao próprio agrado.

Considerando sua pureza e santidade infinitas e sem mancha, o amor infinito do Pai por ele e seu interesse eterno na glória do Pai, nada lhe poderia ser mais contrário ou mais adverso do que ser feito pecado e maldição por nós e receber as afrontas dirigidas a Deus. Sobretudo quando consideramos por quem renunciou a si mesmo: estranhos, inimigos e traidores; o justo pelos injustos, 1 Pedro 3:18.

Isso parece ser apresentado como razão para suportarmos as debilidades dos fracos. Não devemos agradar a nós mesmos, pois Cristo não agradou a si mesmo; devemos suportar as debilidades dos fracos, pois Cristo suportou as afrontas daqueles que afrontaram a Deus.

Ele suportou a culpa do pecado e a maldição por ele; nós somos chamados a suportar apenas um pouco de seus transtornos. Ele suportou os pecados presunçosos dos ímpios; nós somos chamados a suportar somente as debilidades dos fracos. Nem mesmo Cristo: kai gar ho Christos.

Nem mesmo aquele que era infinitamente feliz em si mesmo e não precisava de nós nem de nossos serviços; nem mesmo aquele que não considerou usurpação ser igual a Deus, que tinha motivos de sobra para agradar a si mesmo e nenhum para se preocupar conosco, muito menos para se contrariar por nossa causa. Nem mesmo ele agradou a si mesmo; ele suportou nossos pecados.

Não deveríamos, então, ser humildes, negar a nós mesmos e estar prontos a levar uns aos outros em consideração, sendo membros uns dos outros?

(3.) Portanto, devemos ir e agir da mesma maneira: “Tudo o que antes foi escrito foi escrito para nosso ensino”.

[1.] O que está escrito sobre Cristo, sua abnegação e seus sofrimentos, foi escrito para nosso ensino. Ele nos deixou um exemplo. Se Cristo negou a si mesmo, certamente devemos negar a nós mesmos, por um princípio de franqueza e gratidão e, sobretudo, para nos conformarmos à sua imagem. O exemplo do que Cristo fez e disse foi registrado para que o imitemos.

[2.] O que está escrito nas escrituras do Antigo Testamento em geral foi escrito para nosso ensino. Paulo acabara de aplicar a Cristo o que Davi dissera a respeito de si mesmo.

Para que isso não pareça uma interpretação forçada da escritura, ele apresenta esta excelente regra geral: todas as escrituras do Antigo Testamento, e ainda mais as do Novo, foram escritas para nosso ensino e não devem ser consideradas de interpretação particular.

O que aconteceu aos santos do Antigo Testamento aconteceu-lhes para servir de exemplo, e as escrituras do Antigo Testamento têm muitos cumprimentos. Foram-nos deixadas como regra permanente: foram escritas para permanecerem em nosso uso e benefício.

Primeiro, para nosso ensino. Há muitas coisas a aprender das escrituras, e o melhor ensino é o que se extrai dessas fontes. Os mais instruídos são os que têm maior domínio das escrituras. Por isso, devemos nos esforçar não apenas para compreender o sentido literal da escritura, mas também para aprender dela o que nos fará bem.

Para isso, precisamos de ajuda não só para remover a pedra, mas também para tirar a água, pois em muitos lugares o poço é fundo. As observações práticas são mais necessárias do que as exposições críticas.

Segundo, para que, pela paciência e consolação das escrituras, tenhamos esperança. A esperança cujo objeto é a vida eterna é aqui apresentada como o fim do aprendizado das escrituras. Elas foram escritas para que soubéssemos o que esperar de Deus, com que fundamento e por qual caminho. Isso deve recomendá-las a nós como amigas especiais da esperança cristã.

O caminho para alcançar essa esperança passa pela paciência e consolação das escrituras. Paciência e consolo pressupõem dificuldade e tristeza; essa é a sorte dos santos neste mundo. Se assim não fosse, não precisaríamos de paciência nem de consolo. Ambos, porém, favorecem a esperança que é a vida de nossa alma.

A paciência produz experiência, e a experiência, esperança que não envergonha, Romanos 5:3-5. Quanto mais exercemos a paciência em meio às dificuldades, mais esperançosamente podemos olhar através delas. Nada é mais destrutivo para a esperança do que a impaciência.

O consolo das escrituras, aquele que procede da palavra de Deus e é o mais seguro e doce, também é grande apoio à esperança, pois é uma garantia presente do bem esperado. O Espírito, como Consolador, é a garantia de nossa herança.

Versículos 5 a 6

Unidade Cristã. (d.C. 58.)

Depois de apresentar duas exortações, o apóstolo, antes de prosseguir, intercala uma oração pelo êxito do que disse. Os ministros fiéis regam a pregação com suas orações, pois, seja quem for que semeia, é Deus quem dá o crescimento. Nós só podemos falar aos ouvidos; falar ao coração é prerrogativa de Deus. Observe:

I. O título que ele dá a Deus: o Deus da paciência e da consolação. Deus é o autor e o fundamento de toda a paciência e consolação dos santos: dele elas procedem e sobre ele se apoiam. Ele concede a graça da paciência e, como Deus da consolação, a confirma e sustenta. Os consolos do Espírito Santo ajudam a amparar os crentes e a sustentá-los com coragem e alegria em todas as aflições.

Ao pedir o derramamento do espírito de amor e unidade, ele se dirige a Deus como o Deus da paciência e da consolação. Isso significa:

  1. Como Deus que nos suporta e consola. Ele não é rigoroso em assinalar nossas faltas, mas está pronto a consolar os abatidos. Assim nos ensina a demonstrar amor aos irmãos e, por esses meios, preservar e manter a unidade, sendo pacientes uns com os outros e oferecendo consolo uns aos outros.

Ou, 2. Como Deus que nos dá paciência e consolo. Ele falara (v. 4) da paciência e do consolo das escrituras; aqui, porém, olha para Deus como o Deus da paciência e da consolação. Essas graças chegam pelas escrituras como por um canal, mas procedem de Deus como da fonte.

Quanto mais paciência e consolo recebemos dele, melhor dispostos ficamos para amar uns aos outros. Nada rompe mais a paz do que uma disposição melancólica impaciente, irritadiça e rabugenta.

II. A misericórdia que ele pede a Deus: “Conceda-lhes ter o mesmo modo de pensar uns para com os outros, segundo Cristo Jesus”:

  1. O fundamento do amor e da paz cristãos está nesse modo concorde de pensar: acordo de juízo até onde vocês chegaram, ou pelo menos harmonia e acordo nos afetos. To auto phronein, “pensar a mesma coisa”: removidas todas as ocasiões de divergência e deixadas de lado todas as desavenças.

  2. Esse modo concorde de pensar deve ser segundo Cristo Jesus: segundo o preceito de Cristo, a lei régia do amor, e segundo o modelo e exemplo de Cristo que ele propôs à imitação deles, v. 3. Ou: “Que Cristo Jesus seja o centro da unidade de vocês. Concordem na verdade, não em qualquer erro.”

Maldita foi a concordância e harmonia daqueles que tiveram a mesma intenção de entregar seu poder e sua força à besta (Apocalipse 17:13). Aquilo não era pensar concordemente segundo Cristo, mas contra Cristo, como os construtores de Babel, unidos em sua rebelião, Gênesis 11:6.

Em nossas orações, devemos pedir primeiro a verdade e depois a paz, pois essa é a ordem da sabedoria do alto: primeiro pura, depois pacífica. Isso é ter o mesmo modo de pensar segundo Cristo Jesus.

  1. O modo concorde de pensar entre os cristãos, segundo Cristo Jesus, é dom de Deus, e um dom precioso, que devemos buscar dele com fervor. Ele é o Pai dos espíritos e forma de maneira semelhante o coração dos homens (Salmos 33:15). Abre o entendimento, abranda o coração, adoça os afetos e concede a graça do amor e o Espírito como Espírito de amor àqueles que lhe pedem.

É-nos ensinado a orar para que a vontade de Deus seja feita na terra como no céu. Lá ela é feita unanimemente entre os anjos, unidos em seus louvores e serviços. Devemos desejar que assim também seja entre os santos na terra.

III. O fim que ele deseja: que Deus seja glorificado, v. 6. É o apelo que apresenta a Deus na oração e também uma razão que oferece aos leitores para buscarem isso. Devemos ter a glória de Deus em vista em toda oração; por isso, nossa primeira petição, fundamento de todas as demais, deve ser: “Santificado seja o teu nome.”

O modo concorde de pensar entre os cristãos visa à glorificação de Deus:

  1. Com um só pensamento e uma só boca. É desejável que os cristãos concordem em tudo para que também concordem nisto: louvar a Deus juntos. Isso contribui muito para a glória de Deus, que é um só e cujo nome é um só.

Não basta haver uma só boca; deve haver um só pensamento, pois Deus olha para o coração. Ou melhor, dificilmente haverá uma só boca onde não houver um só pensamento; Deus mal será glorificado sem a agradável união de ambos.

Uma só boca na confissão das verdades de Deus e no louvor de seu nome; uma só boca no convívio comum, sem discordar, morder nem devorar uns aos outros; uma só boca na assembleia solene, na qual um fala, mas todos participam.

  1. Como Pai de nosso Senhor Jesus Cristo. Essa é sua designação no Novo Testamento. Deus deve ser glorificado conforme agora se revelou na face de Jesus Cristo, segundo as regras do evangelho e tendo em vista Cristo, em quem ele é nosso Pai.

A unidade dos cristãos glorifica Deus como Pai de nosso Senhor Jesus Cristo porque é uma espécie de contraparte ou representação da união entre o Pai e o Filho. João 17:21 nos autoriza a falar assim dessa unidade e, tendo-a em vista, a desejá-la e a pedir por ela: “Que todos sejam um, assim como tu, Pai, estás em mim, e eu em ti”. É uma expressão elevada da honra e da doçura da unidade dos santos.

E segue-se: “Para que o mundo creia que tu me enviaste”. Assim Deus pode ser glorificado como Pai de nosso Senhor Jesus Cristo.

Versículos 7 a 12

Unidade Cristã. (d.C. 58.)

O apóstolo retoma aqui sua exortação aos cristãos. O que diz (v. 7) tem o mesmo sentido do que disse antes, mas a repetição mostra o quanto esse assunto lhe ocupava o coração. “Recebam uns aos outros em seu afeto, em sua comunhão e em seu convívio habitual, conforme houver ocasião.”

Ele exortara os fortes a receber os fracos (Romanos 14:1); aqui diz: Recebam uns aos outros. Às vezes os preconceitos do cristão fraco o afastam do forte tanto quanto o orgulho do forte o afasta do fraco. Nenhuma dessas atitudes é correta. Que haja acolhimento mútuo entre os cristãos. Quem recebeu Cristo pela fé deve receber todos os cristãos com amor fraternal.

Ainda que sejam pobres neste mundo, perseguidos e desprezados; ainda que recebê-los lhes traga descrédito e perigo; ainda que entendam de modo diferente questões menos importantes da lei; ainda que tenham surgido ressentimentos particulares, deixem de lado essas e outras considerações semelhantes e recebam uns aos outros.

A razão para os cristãos se receberem mutuamente vem, como antes, do amor condescendente de Cristo por nós: como também Cristo nos recebeu, para a glória de Deus. Pode haver razão mais convincente? Cristo foi tão bondoso conosco; seremos nós tão pouco bondosos para com os que lhe pertencem? Ele nos acolheu prontamente; relutaremos em acolher nossos irmãos?

Cristo nos recebeu nas relações mais próximas e preciosas consigo mesmo: em seu rebanho, em sua família, na adoção como filhos, numa aliança de amizade e até numa aliança matrimonial consigo. Ele nos recebeu em convívio e comunhão consigo, embora fôssemos estranhos e inimigos e tivéssemos agido como o filho pródigo.

As palavras “para a glória de Deus” podem referir-se tanto ao fato de Cristo nos receber, que é nosso modelo, quanto ao fato de recebermos uns aos outros, nossa prática segundo esse modelo.

I. Cristo nos recebeu para a glória de Deus. O fim de nosso acolhimento por Cristo é glorificar a Deus neste mundo e ser glorificados com ele no mundo futuro. Foi a glória de Deus, e nossa glória em desfrutá-lo, que Cristo teve em vista ao condescender em nos receber. Somos chamados à glória eterna por Cristo Jesus, João 17:24.

Veja a que ele nos recebeu: a uma felicidade que supera toda compreensão. Veja para que nos recebeu: para a glória de seu Pai. Esse fim esteve diante dele em todas as manifestações de seu favor por nós.

II. Devemos receber uns aos outros para a glória de Deus. Esse deve ser o grande fim de todas as nossas ações: que Deus seja glorificado. Nada contribui mais para isso do que o amor e a bondade mútuos daqueles que professam a religião. Compare o v. 6: para que, com um só pensamento e uma só boca, glorifiquem a Deus.

O motivo de disputa entre eles era a diferença de entendimento sobre comidas e bebidas, decorrente da distinção entre judeus e gentios. Para prevenir e resolver essa diferença, ele mostra como Jesus Cristo recebeu tanto os judeus quanto os gentios. Nele ambos são um só, um novo homem, Efésios 2:14-16.

Há uma regra: Quæ conveniunt in aliquo tertio, inter se conveniunt, “as coisas que concordam com uma terceira concordam entre si”. Quem concorda em Cristo, o Alfa e o Ômega, o primeiro e o último, o grande centro da unidade, pode certamente concordar também entre si.

A união dos judeus e gentios em Cristo e no cristianismo enchia e comovia tanto Paulo que ele não conseguia mencioná-la sem ampliá-la e ilustrá-la.

  1. Ele recebeu os judeus, v. 8. Portanto, ninguém deve pensar mal nem olhar com desprezo para os que eram judeus de origem e ainda conservam, por fraqueza, algum traço do antigo judaísmo. Pois:

(1.) Jesus Cristo foi ministro da circuncisão. O fato de ter sido ministro, diakonos, “servo”, mostra sua grande e exemplar condescendência e confere honra ao ministério.

O fato de ter sido ministro da circuncisão, de ter sido circuncidado e posto sob a lei, e de ter pregado pessoalmente o evangelho aos judeus, que eram da circuncisão, dá à nação judaica uma importância maior do que de outro modo pareceria ter.

Cristo conviveu com os judeus, abençoou-os, considerou-se enviado primeiramente às ovelhas perdidas da casa de Israel, tomou para si a descendência de Abraão (Hebreus 2:16, nota marginal) e, por meio deles, por assim dizer, alcançou toda a humanidade. Seu ministério pessoal se dirigiu particularmente a eles, embora a comissão dos apóstolos tenha sido ampliada.

(2.) Ele o fez pela verdade de Deus. Aquilo que lhes pregou era a verdade, pois veio ao mundo para dar testemunho da verdade, João 18:37. E ele próprio é a verdade, João 14:6. Ou “pela verdade de Deus” significa cumprir as promessas feitas aos patriarcas sobre a misericórdia especial que Deus reservava para sua descendência.

Eles foram distinguidos desse modo não pelo mérito dos judeus, mas pela verdade de Deus: para que Deus se mostrasse fiel à palavra que havia dito. Para confirmar as promessas feitas aos pais. A melhor confirmação das promessas é seu cumprimento.

Foi prometido que todas as nações da terra seriam abençoadas na descendência de Abraão; que Siló viria de entre os pés de Judá; que de Israel procederia aquele que dominaria; que de Sião sairia a lei; e muitas outras coisas semelhantes.

Houve muitas intervenções da providência que pareciam enfraquecer essas promessas e ameaçavam a ruína definitiva daquele povo. Mas, quando o Messias, o Príncipe, apareceu na plenitude do tempo como ministro da circuncisão, todas foram confirmadas, e sua verdade se tornou evidente. Pois todas as promessas de Deus, tanto as do Antigo quanto as do Novo Testamento, são Sim em Cristo e, nele, Amém.

Se entendermos as promessas feitas aos pais como toda a aliança da graça, administrada de modo menos claro sob o Antigo Testamento e trazida agora a uma luz mais clara pelo evangelho, a grande missão de Cristo foi confirmar essa aliança, Daniel 9:27. Ele a confirmou derramando o sangue da aliança.

  1. Ele recebeu também os gentios. É o que demonstra nos vv. 9-12.

(1.) Observe o favor de Cristo para com os gentios ao recebê-los para louvar a Deus: essa é a obra da igreja na terra e a recompensa dela no céu. Um desígnio de Cristo era que os gentios também fossem convertidos, para serem um só com os judeus no corpo místico de Cristo.

Essa é uma boa razão para ninguém considerar inferior um cristão por ter sido gentio antes, pois Cristo o recebeu. Ele convida os gentios e lhes dá boas-vindas. Observe como sua conversão é expressa aqui: para que os gentios glorifiquem a Deus por sua misericórdia. É uma descrição indireta da conversão.

[1.] Eles terão motivo de louvor: a misericórdia de Deus. Considerando a condição miserável e deplorável do mundo gentio, recebê-los parece um ato de misericórdia ainda mais evidente do que receber os judeus. Aqueles que eram Lo-ammi, “não povo”, eram Lo-ruhama, “não alcançando misericórdia”, Oseias 1:6, 9; 2:23.

A maior misericórdia de Deus para com um povo é recebê-lo em aliança consigo. É bom reparar na misericórdia de Deus ao nos receber.

[2.] Eles terão coração para louvar: glorificarão a Deus por sua misericórdia. Os pecadores não convertidos nada fazem para glorificar a Deus. A graça que converte, porém, produz na alma a disposição de falar e agir em tudo para a glória de Deus. Deus pretendia colher uma safra de glória entre os gentios, que por tanto tempo haviam transformado sua glória em vergonha.

(2.) O cumprimento das escrituras nisso. O favor de Deus para com os gentios não era apenas misericórdia, mas também verdade. Embora não lhes tivessem sido dadas promessas diretamente, como aos pais dos judeus, havia muitas profecias a seu respeito, relativas a seu chamado e à sua incorporação à igreja. Ele menciona algumas porque os judeus dificilmente se deixavam convencer disso.

Ao remetê-los ao Antigo Testamento, ele procura abrandar a aversão deles aos gentios e, assim, reconciliar os grupos em desacordo.

[1.] Foi anunciado que o evangelho seria pregado aos gentios: “Eu te confessarei entre os gentios” (v. 9). Isto é: teu nome será conhecido e reconhecido no mundo gentio, e ali a graça e o amor do evangelho serão celebrados. A citação vem de Salmos 18:49: “Eu te darei graças, ó Senhor, entre os pagãos.”

Explicar e recordar o nome de Deus com gratidão é excelente meio de levar outros a conhecer e louvar a Deus. Cristo confessou a Deus entre os gentios por meio de seus apóstolos e ministros, enviados para fazer discípulos de todas as nações. A exaltação de Cristo, assim como a conversão dos pecadores, é apresentada pelo louvor a Deus.

Declarar o nome de Deus a seus irmãos é chamado de louvar a Deus no meio da congregação, Salmos 22:22. Se tomarmos essas palavras como ditas por Davi, ele as pronunciou quando estava velho e prestes a morrer; era improvável que confessasse a Deus entre os gentios.

Mas, quando os salmos de Davi são lidos e cantados entre os gentios para o louvor e a glória de Deus, pode-se dizer que Davi confessa a Deus entre eles e canta ao seu nome. Ele foi o doce salmista dos gentios. A graça que converte faz as pessoas amarem profundamente os salmos de Davi.

Se as palavras forem tomadas como ditas por Cristo, o Filho de Davi, podemos entendê-las de sua habitação espiritual, pela fé, no coração de todos os santos que louvam. Se alguém confessa a Deus entre os gentios e canta ao seu nome, não é propriamente essa pessoa, mas Cristo e sua graça nela. “Vivo, mas já não eu; Cristo vive em mim.” Assim também: “Louvo, mas já não eu; é Cristo em mim.”

[2.] Foi anunciado que os gentios se alegrariam com o povo dele, v. 10. A citação vem daquele cântico de Moisés, Deuteronômio 32:43. Observe: diz-se que aqueles que foram incorporados ao povo de Deus se alegram com esse povo. Nenhuma alegria maior pode chegar a um povo do que a chegada do evangelho entre ele com poder.

Os judeus que mantêm preconceito contra os gentios não os admitiriam de modo algum em suas celebrações alegres, pois dizem: “O estranho não se intromete na alegria”, Provérbios 14:10. Mas, derrubada a parede de separação, os gentios são bem-vindos para se alegrar com o povo de Deus.

Ao serem trazidos para a igreja, participam de seus sofrimentos e são companheiros na paciência e na tribulação. Em compensação, participam também de sua alegria.

[3.] Foi anunciado que louvariam a Deus (v. 11): “Louvai ao Senhor, todos vós, gentios”. A citação vem daquele salmo breve, Salmos 117:1. A graça que converte leva as pessoas a louvar a Deus, fornece-lhes os mais ricos motivos de louvor e dá-lhes coração para isso.

Durante muitos séculos, os gentios haviam louvado seus ídolos de madeira e pedra; agora são levados a louvar ao Senhor. É disso que Davi fala no espírito. Ao convocar todas as nações a louvá-lo, sugere-se que chegarão a conhecê-lo.

[4.] Foi anunciado que creriam em Cristo (v. 12), numa citação de Isaías 11:10. Observe aí, primeiro, a revelação de Cristo como rei dos gentios. Ele é chamado aqui de raiz de Jessé, isto é, um ramo da família de Davi que constitui a própria vida e força da família; compare Isaías 11:1.

Cristo era Senhor de Davi e, ainda assim, era Filho de Davi (Mateus 22:45), pois era “a raiz e a descendência de Davi”, Apocalipse 22:16. Como Deus, Cristo era a raiz de Davi; como homem, sua descendência.

“E aquele que se levantará para reinar sobre os gentios.” Isso explica a linguagem figurada do profeta: ele se erguerá como estandarte dos povos. Quando Cristo ressuscitou dos mortos e ascendeu às alturas, foi para reinar sobre os gentios.

Segundo, a busca dos gentios por ele: “Nele os gentios confiarão.” A fé é a confiança da alma em Cristo e sua dependência dele. O profeta diz: “A ele os gentios buscarão.” O caminho da fé consiste primeiro em buscar a Cristo como o Salvador apresentado a nós e, ao descobri-lo capaz e disposto a salvar, confiar nele. Os que o conhecem confiarão nele.

Ou a busca por ele é fruto da confiança nele: buscá-lo pela oração e pelos esforços correspondentes. Nunca buscaremos a Cristo até confiarmos nele. A confiança é a mãe; a diligência no uso dos meios, a filha. Judeus e gentios, assim unidos no amor de Cristo, por que não se uniriam no amor mútuo?

Versículo 13

O Deus da Esperança. (d.C. 58.)

Aqui há outra oração dirigida a Deus como o Deus da esperança. Como a anterior (v. 5, 6), ela pede bênçãos espirituais: são as bênçãos mais benditas, pelas quais devemos orar primeiro e principalmente.

I. Observe como ele se dirige a Deus: como o Deus da esperança. Na oração, é bom apegar-se aos nomes, títulos e atributos de Deus mais adequados ao assunto que nos leva a ele e que melhor podem animar nossa fé a esse respeito. Cada palavra da oração deve ser um apelo. Assim devemos ordenar habilmente nossa causa e encher a boca de razões.

Deus é o Deus da esperança. Ele é o fundamento sobre o qual nossa esperança se edifica e o construtor que a ergue ele próprio: tanto o objeto quanto o autor de nossa esperança. É mera fantasia, e nos enganará, a esperança que não se apoia em Deus (como o bem esperado e a verdade em que se espera) e que não é obra dele em nós.

Temos as duas coisas juntas em Salmos 119:49: “Tua palavra” — aí está Deus como objeto; “na qual me fizeste esperar” — aí está Deus como autor de nossa esperança, 1 Pedro 1:3.

II. O que ele pede a Deus, não para si, mas para eles:

  1. Que fossem cheios de toda alegria e paz ao crer. Alegria e paz são duas das coisas em que consiste o reino de Deus, Romanos 14:17. Alegria em Deus e paz de consciência, ambas nascidas da certeza de nossa justificação; veja Romanos 5:1, 2. Alegria e paz em nosso coração promoveriam uma unidade alegre e a unanimidade com nossos irmãos. Observe:

(1.) Como são desejáveis essa alegria e essa paz: elas preenchem a alma. A alegria carnal a incha, mas não consegue preenchê-la; por isso, mesmo no riso o coração está triste. A alegria verdadeira, celestial e espiritual preenche a alma; traz satisfação à altura dos vastos e justos anseios dela. É assim que Deus sacia e restaura a alma cansada.

Quem possui essa alegria não deseja algo além dela, mas uma medida maior dela, até sua perfeição na glória, Salmos 4:6, 7; 36:8; 63:5; 65:4.

(2.) Como pode ser alcançada. [1.] Pela oração. Devemos buscá-la em Deus; ele quer que lhe peçamos isso. A oração traz alegria e paz espirituais. [2.] Pela fé; esse é o meio a empregar. A alegria produzida pela imaginação é vazia, superficial e passageira; a alegria verdadeira e sólida é fruto da fé. Crendo, vocês se alegram com alegria indescritível, 1 Pedro 1:8.

É por causa da fraqueza de nossa fé que nos faltam tanta alegria e paz. Creiam apenas; creiam na bondade de Cristo, no amor de Cristo, nas promessas da aliança e nas alegrias e glórias do céu. Seja a fé a substância e a prova dessas coisas, e o resultado necessariamente será alegria e paz.

Observe: trata-se de toda alegria e paz, de todas as formas da verdadeira alegria e paz. Quando nos aproximamos de Deus em oração, devemos ampliar nossos desejos. Nele não somos limitados; por que nos limitaríamos a nós mesmos? Peçam toda alegria; abram bem a boca, e ele a encherá.

  1. Que abundassem em esperança pelo poder do Espírito Santo. A alegria e a paz dos crentes brotam principalmente da esperança. O que recebem agora é muito pouco comparado com o que lhes está reservado; por isso, quanto maior a esperança, maiores a alegria e a paz.

Abundamos em esperança quando esperamos grandes coisas de Deus e somos firmemente estabelecidos e confirmados nessa esperança. Os cristãos devem desejar e buscar esperança abundante, uma esperança que não envergonhe.

Isso acontece pelo poder do Espírito Santo. O mesmo poder onipotente que produz a graça gera e fortalece essa esperança. Nosso próprio poder nunca chegará a tanto; portanto, onde ela existe e abunda, toda a glória deve ser dada ao bendito Espírito.

Versículos 14 a 16

Paulo Elogia os Irmãos. (d.C. 58.)

Aqui, I. Ele elogia esses cristãos com os mais elevados qualificativos possíveis. Começou a epístola com louvores a eles (Romanos 1:8): “Fala-se da fé de vocês em todo o mundo”, abrindo assim caminho para seu discurso.

Como às vezes os havia censurado severamente, conclui agora com elogio semelhante, para abrandá-los e despedir-se deles como amigo. Faz isso como um orador.

Não era bajulação nem cortesia vazia, mas devido reconhecimento do valor deles e da graça de Deus neles. Devemos estar prontos a observar e elogiar nos outros o que é excelente e digno de louvor. Isso faz parte da recompensa presente da virtude e da utilidade, e servirá para estimular outros a uma santa emulação.

Era grande honra para os romanos receberem a recomendação de Paulo, homem de tamanho discernimento e integridade, experiente demais para ser enganado e honesto demais para bajular. Paulo não conhecia pessoalmente esses cristãos. Ainda assim, diz estar convencido das qualidades deles, embora os conhecesse apenas por ouvir falar.

Por um lado, não devemos ser tão ingênuos a ponto de crer em toda palavra; por outro, não devemos ser tão céticos a ponto de não crer em nada. Devemos, sobretudo, estar prontos a acreditar no bem a respeito dos outros. Nesse caso, a caridade tudo espera e tudo crê; se as probabilidades forem suficientemente fortes, como aqui, ela se convence. É mais seguro errar para esse lado.

Observe agora por que ele os elogia: 1. Que eram cheios de bondade. Por isso, era mais provável que recebessem bem o que ele havia escrito e o considerassem um favor. Mais que isso, era provável que lhe obedecessem e o pusessem em prática, especialmente no que se referia à união entre eles e à cura de suas diferenças. Bom entendimento e boa vontade mútuos logo poriam fim à contenda.

  1. Cheios de todo o conhecimento. Bondade e conhecimento juntos! Conjunção muito rara e excelente: a cabeça e o coração do novo homem. Todo o conhecimento: todo o conhecimento necessário, de tudo aquilo que diz respeito à paz eterna deles.

  2. Capazes de advertir uns aos outros. Para isso é necessário outro dom: o de falar. Aqueles que possuem bondade e conhecimento devem comunicar o que têm para uso e benefício dos demais. “Vocês, tão excelentes em bons dons, talvez pensem que não precisam de nenhuma instrução minha.”

É consolo para ministros fiéis ver que os dons e graças de seu povo dispensam seu próprio trabalho. Com que alegria deixariam os ministros o trabalho de advertir, se as pessoas fossem capazes e estivessem dispostas a advertir umas às outras! Quisera Deus que todo o povo do Senhor fosse profeta. Mas o trabalho que pertence a todos acaba não sendo feito por ninguém. Por isso:

II. Ele se livra da suspeita de intrometer-se desnecessariamente em assunto que não lhe pertencia, v. 15. Observe o afeto com que lhes fala: “Meus irmãos” (v. 14) e, de novo, “irmãos” (v. 15). Ele próprio conhecia, e ensinava a outros, a arte de ser atencioso. Chama a todos de irmãos para ensinar-lhes o amor fraternal entre si.

Provavelmente lhes escreveu com maior cortesia porque, sendo cidadãos romanos que viviam perto da corte, eram mais refinados e tinham maior projeção. Assim, Paulo, que se fazia tudo para todos, estava disposto a agradar-lhes para o bem deles por meio do respeito de seu estilo.

Reconhece que lhes escreveu com certa ousadia, tolmeroteron apo merous, de um modo que parecia ousado e presunçoso, pelo qual alguns talvez o acusassem de tomar liberdade excessiva. Mas considere:

  1. Fez isso apenas para lhes recordar: “Como para lhes trazer à memória”. Paulo tinha opinião tão humilde de si mesmo, apesar de se destacar em conhecimento, que não alegaria dizer-lhes algo que desconhecessem; queria apenas lembrá-los do que outros lhes haviam ensinado antes. Pedro fez o mesmo, 2 Pedro 1:12; 3:1.

As pessoas costumam desculpar-se de ouvir a palavra dizendo que o ministro não lhes pode dizer nada que já não saibam. Mesmo que seja assim, não precisam conhecê-lo melhor e ser lembradas dele?

  1. Fez isso como apóstolo dos gentios. Agia no exercício de seu ofício: “Por causa da graça”, isto é, do apostolado (Romanos 1:5), “que Deus me deu para ser ministro de Jesus Cristo entre os gentios”, v. 16. Paulo considerava grande favor e honra recebidos de Deus o fato de ter sido colocado nesse ofício, Romanos 1:13.

Por causa dessa graça recebida, dedicou-se desse modo aos gentios, para não a receber em vão. Cristo recebeu para dar; Paulo também. Nós igualmente recebemos talentos, que não devem ser enterrados. Posições e ofícios precisam ser preenchidos com deveres. Convém aos ministros lembrar com frequência a graça que Deus lhes concedeu.

Minister verbi es, hoc age: “Você é ministro da palavra; dedique-se inteiramente a ela”, era o lema do sr. Perkins. Paulo era ministro. Observe aqui: (1.) De quem era ministro: de Jesus Cristo, 1 Coríntios 4:1. Cristo é nosso Senhor; pertencemos a ele e a ele servimos.

(2.) A quem ministrava: aos gentios. Deus o havia designado para isso, Atos 22:21. Assim Pedro e ele haviam concordado, Gálatas 2:7-9. Os romanos eram gentios. “Ora”, diz ele, “não me imponho a vocês nem busco domínio sobre vocês. Fui designado para isso. Se me julgam rude e ousado, minha comissão é minha autorização e me sustenta.”

(3.) O que ministrava: o evangelho de Deus; hierourgounta to euangelion, ministrando como quem trata de coisas santas, conforme o sentido da palavra. Exercia o ofício de sacerdote cristão, mais espiritual e, portanto, mais excelente que o sacerdócio levítico.

(4.) Com que finalidade: para que a oferta, ou sacrifício, dos gentios fosse aceitável; para que Deus recebesse a glória que adviria ao seu nome pela conversão dos gentios. Paulo assim se dedicava para produzir algo aceitável a Deus.

Observe como a conversão dos gentios é expressa: é a oferta dos gentios, prosphora ton ethnon, a oblação dos gentios. Nela os gentios são considerados de duas maneiras:

[1.] Como sacerdotes que oferecem a oblação de oração e louvor, além de outros atos de religião. Por muito tempo os judeus haviam sido a nação santa, o reino de sacerdotes; agora os gentios, ao se converterem à fé cristã, são feitos sacerdotes para Deus (Apocalipse 5:10), consagrados ao seu serviço.

Cumpre-se assim a escritura: “Em todo lugar se oferecerá incenso e uma oferta pura”, Malaquias 1:11.

Diz-se que os gentios convertidos foram aproximados (Efésios 2:13), expressão que descreve sacerdotes. Ou:

[2.] Os próprios gentios são o sacrifício que Paulo oferece a Deus em nome de Cristo: sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, Romanos 12:1. A alma santificada é oferecida a Deus nas chamas do amor, sobre o altar que é Cristo.

Paulo reunia almas por sua pregação, não para guardá-las para si, mas para oferecê-las a Deus: “Eis-me aqui, com os filhos que Deus me deu”. É oferta aceitável porque é santificada pelo Espírito Santo.

Paulo lhes pregava e tratava com eles; mas o que os tornava sacrifícios a Deus era sua santificação. Esta não era obra dele, mas do Espírito Santo. Só os santificados são oferecidos a Deus de modo aceitável; coisas não santificadas jamais podem agradar ao Deus santo.

Versículos 17 a 21

Os Trabalhos do Apóstolo. (d.C. 58.)

O apóstolo conta aqui algo sobre si mesmo e seus assuntos. Tendo mencionado seu ministério e apostolado, passa a engrandecer seu ofício pela eficácia dele e a relatar, para a glória de Deus, o grande êxito de seu ministério e as maravilhas que Deus havia feito por seu intermédio.

Isso animaria a igreja cristã de Roma: ela não estava sozinha na profissão do cristianismo. Embora fosse pequeno rebanho em comparação com a multidão de vizinhos idólatras, havia, por várias regiões, muitos companheiros seus no reino e na paciência de Jesus Cristo.

Também confirmava fortemente a verdade da doutrina cristã o fato de ela alcançar êxito tão extraordinário e espalhar-se tão longe por meios tão fracos e improváveis: tamanhas multidões levadas à obediência de Cristo pela loucura da pregação.

Por isso Paulo lhes dá esse relato, que se torna motivo de sua glória. Não glória vã, mas santo e gracioso motivo de gloriar-se, como mostram as restrições que apresenta: é por meio de Jesus Cristo. Assim, ele concentra em Cristo toda a sua glória e nos ensina a fazer o mesmo, 1 Coríntios 1:31. “Não a nós”, Salmos 115:1.

Ele se gloria das coisas referentes a Deus. A conversão de almas é uma delas e, portanto, motivo para Paulo gloriar-se; não as coisas da carne. “Do que posso gloriar-me”, echo oun kauchesin en Christo Iesou ta pros Theon.

Eu preferiria ler: “Portanto, tenho motivo de alegria em Cristo Jesus”, a respeito das coisas de Deus, ou das coisas oferecidas a Deus: os sacrifícios vivos dos gentios, v. 16.

É a mesma palavra usada em 2 Coríntios 1:12 e Filipenses 3:3, onde é característica da circuncisão que se alegrem, kauchomenoi, em Cristo Jesus. Paulo quer que eles se alegrem com ele pela extensão e eficácia de seu ministério.

Fala dele com a maior deferência possível ao poder de Cristo e à operação eficaz do Espírito, reconhecendo que são tudo em todos. Além disso, atesta a verdade do que diz (v. 18): “Não ousarei falar de coisa alguma que Cristo não tenha realizado por meu intermédio”.

Não se gloriaria de coisas fora dos limites de seu trabalho nem tomaria para si o louvor pelo trabalho alheio, como poderia fazer ao escrever a desconhecidos distantes que talvez não o contradissessem. Mas, diz ele: “Não ouso fazê-lo”. O homem fiel não ousa mentir, por mais que seja tentado; ousa ser verdadeiro, por mais que seja ameaçado. Nesse relato sobre si, podemos observar:

I. Sua diligência e dedicação incansáveis no trabalho. Ele trabalhou mais abundantemente que todos os outros.

  1. Pregou em muitos lugares: desde Jerusalém, de onde a lei saiu como lâmpada resplandecente, pelas regiões em volta até a Ilíria, a muitas centenas de milhas de Jerusalém. O livro de Atos relata as viagens de Paulo.

Ali o encontramos, depois de enviado para pregar aos gentios (Atos 13), trabalhando nessa bendita obra em Selêucia, Chipre, Panfília, Pisídia e Licaônia (Atos 13; 14). Depois viajou pela Síria e Cilícia, Frígia, Galácia, Mísia e Trôade; de lá foi chamado à Macedônia e, assim, à Europa, Atos 15; 16.

Em seguida, nós o vemos muito ocupado em Tessalônica, Bereia, Atenas, Corinto, Éfeso e regiões próximas. Quem conhece a extensão desses lugares e as distâncias entre eles concluirá que Paulo era homem ativo, que se alegrava como um homem forte ao correr uma carreira.

A Ilíria é o país hoje chamado Eslavônia, junto à Hungria. Alguns a consideram o mesmo que a Bulgária; outros, a Panônia inferior. Seja como for, ficava muito longe de Jerusalém.

Poder-se-ia suspeitar que, se Paulo assumiu tanto trabalho, certamente o fez pela metade. “Não”, diz ele, “preguei plenamente o evangelho de Cristo”: expus-lhes por completo a verdade e os termos do evangelho, não deixei de declarar todo o conselho de Deus (Atos 20:27) nem retive coisa alguma que lhes fosse necessário saber.

“Enchi o evangelho”, é o sentido da palavra peplerokenai to euangelion: encheu-o como se enche de peixes uma rede numa grande pesca; ou encheu o evangelho, isto é, encheu-os com o evangelho. Tamanha mudança ele produz que, ao chegar com poder a algum lugar, enche o lugar. Outro conhecimento é como ar e deixa as almas vazias; o conhecimento do evangelho, porém, enche.

  1. Pregou em lugares que antes não tinham ouvido o evangelho, v. 20, 21. Lavrou o solo inculto, lançou a primeira pedra em muitos lugares e introduziu o cristianismo onde, por muitos séculos, só haviam reinado a idolatria, a feitiçaria e todo tipo de prática diabólica.

Paulo quebrou o gelo e, por isso, tinha de enfrentar mais dificuldades e desânimo no trabalho. Os que pregavam na Judeia tinham, nesse aspecto, tarefa bem mais fácil que a de Paulo, apóstolo dos gentios; pois entravam nos trabalhos de outros, João 4:38.

Paulo, homem resistente, foi chamado à tarefa mais árdua. Havia muitos instrutores, mas Paulo foi o grande pai; muitos regavam, mas Paulo foi o grande plantador. Era um homem ousado quem primeiro atacou o palácio do valente armado no mundo gentio e investiu contra o domínio de Satanás ali.

Paulo foi quem se arriscou ao primeiro ataque em muitos lugares e muito sofreu por isso. Menciona esse fato como prova de seu apostolado, pois o ofício dos apóstolos consistia especialmente em trazer para dentro os de fora e lançar os alicerces da nova Jerusalém; veja Apocalipse 21:14.

Isso não quer dizer que Paulo deixasse de pregar em muitos lugares onde outros já haviam trabalhado. Contudo, dedicava-se principalmente ao bem dos que estavam sentados nas trevas. Cuidava de não construir sobre alicerce de outro, para que isso não pusesse em dúvida seu apostolado nem desse ocasião aos que procuravam pretexto para criticá-lo.

Para isso cita Isaías 52:15: “Aqueles a quem não se falou dele verão”. O profeta diz: “Aquilo que não lhes fora contado, verão”, de sentido muito semelhante. Isso tornou mais notável o êxito da pregação de Paulo.

A passagem das trevas para a luz é mais perceptível que o crescimento posterior dessa luz. Em geral, o evangelho tem maior êxito ao chegar pela primeira vez a um lugar; depois, as pessoas se tornam imunes aos sermões.

II. O grande e admirável êxito que obteve no trabalho: ele foi eficaz para tornar os gentios obedientes. O desígnio do evangelho é levar as pessoas à obediência. Não é apenas verdade em que se deve crer, mas lei a que se deve obedecer.

Esse era o alvo de Paulo em todas as viagens: não sua própria riqueza nem sua honra, pois, se o fossem, teria errado lamentavelmente o alvo, mas a conversão e salvação de almas. Nisso estava seu coração; por isso, tornou a sofrer dores de parto. Como se realizou essa grande obra?

  1. Cristo foi o agente principal. Paulo não diz “aquilo que eu realizei”, mas “aquilo que Cristo realizou por meu intermédio”, v. 18. Qualquer bem que façamos, não somos nós que o fazemos, mas Cristo por nosso intermédio. A obra é dele, dele é a força.

Ele é tudo em todos e realiza todas as nossas obras, Filipenses 2:13; Isaías 26:12. Paulo aproveita toda ocasião para reconhecer isso e transferir a Cristo todo o louvor.

  1. Paulo foi instrumento muito ativo: “Por palavras e obras”, isto é, pela pregação e pelos milagres que realizou para confirmar sua doutrina, ou por sua pregação e sua vida.

Os ministros que pregam por palavras e obras, mostrando em sua conduta o poder das verdades que anunciam, têm maior probabilidade de ganhar almas. Seguem o exemplo de Cristo, que começou a fazer e a ensinar, Atos 1:1.

“Por meio de poderosos sinais e maravilhas”, en dynamei semeion: pelo poder ou pela força de sinais e maravilhas. Estes tornaram tão eficaz a pregação da palavra, pois eram os meios designados para convencer e o selo divino aposto à carta do evangelho, Marcos 16:17, 18.

  1. O poder do Espírito de Deus tornou tudo eficaz e coroou o trabalho com o êxito desejado, v. 19. (1.) O poder do Espírito em Paulo, como nos demais apóstolos, para operar aqueles milagres. Os milagres eram realizados pelo poder do Espírito Santo (Atos 1:8); por isso, a difamação dos milagres é chamada blasfêmia contra o Espírito Santo. Ou:

(2.) O poder do Espírito no coração daqueles a quem a palavra era pregada e que viam os milagres, tornando esses meios eficazes para alguns e não para outros. É a ação do Espírito que faz a diferença.

O próprio Paulo, grande pregador que era, com todos os seus poderosos sinais e maravilhas, não podia tornar obediente uma única alma além do que o poder do Espírito de Deus acompanhava seus trabalhos. Foi o Espírito do Senhor dos Exércitos que aplainou grandes montanhas diante desse Zorobabel.

Isso anima os ministros fiéis que trabalham sentindo grande fraqueza e debilidade: para o bendito Espírito tanto faz agir por meio de muitos quanto por meio dos que não têm poder. O mesmo Espírito onipotente que agiu com Paulo muitas vezes aperfeiçoa a força na fraqueza e suscita louvor da boca de criancinhas e lactentes.

Paulo se alegra aqui pelo êxito que teve na pregação, pois as nações convertidas eram sua alegria e coroa de regozijo. Conta isso aos romanos não apenas para que se alegrem com ele, mas também para que estejam mais dispostos a receber as verdades que lhes escreveu e a reconhecer aquele a quem Cristo havia reconhecido de modo tão especial.

Os Trabalhos do Apóstolo; O Desejo de Paulo de Ver os Romanos; As Contribuições para os Santos Pobres. (d.C. 58.)

Versículos 22 a 29

Aqui Paulo declara seu propósito de visitar os cristãos em Roma. O assunto em si é comum e corriqueiro: marcar uma visita aos amigos.

Mas sua maneira de se expressar é cheia de graça e sabor espiritual, muito instrutiva e digna de imitação. Devemos aprender com ele a falar de nossos assuntos comuns na linguagem de Canaã.

Até nossa conversa habitual deve ter um ar de graça; assim se mostrará a que pátria pertencemos. Parece que a companhia de Paulo era muito desejada em Roma.

Ele era um homem que tinha tantos amigos e tantos inimigos quanto poucos tiveram: passou pela má fama e pela boa fama. Sem dúvida, em Roma tinham ouvido muito a respeito dele e ansiavam por vê-lo.

Seria o apóstolo dos gentios um estranho em Roma, a capital do mundo gentio? Quanto a isso, ele explica por que ainda não havia ido, promete visitá-los em breve e apresenta uma boa razão pela qual não podia ir naquele momento.

I. Ele explica por que ainda não tinha ido. Observe o cuidado de Paulo em preservar a amizade com eles e prevenir ou antecipar qualquer objeção contra si, sem agir como quem domina a herança de Deus.

  1. Ele lhes assegura que desejava muito vê-los. Não queria ver Roma, embora estivesse então no auge de sua pompa e esplendor, nem a corte do imperador, nem conversar com os filósofos e eruditos que ali viviam, ainda que essa conversa certamente fosse muito desejável para um estudioso tão notável quanto Paulo.

Queria, porém, ir até vocês (v. 23), um grupo de santos pobres e desprezados em Roma, odiados pelo mundo, mas que amavam a Deus e eram amados por ele.

Eram essas as pessoas cuja amizade Paulo ambicionava em Roma: os excelentes em quem se comprazia, Salmos 16:3. Desejava vê-los especialmente por causa da grande reputação de fé e santidade que tinham em todas as igrejas.

Destacavam-se na virtude, e por isso Paulo tanto ansiava por encontrá-los. Tinha esse desejo havia muitos anos e, contudo, nunca conseguira realizá-lo.

A providência de Deus se sobrepõe sabiamente aos propósitos e desejos humanos. Nem mesmo seus servos mais queridos recebem sempre tudo o que querem. Ainda assim, todos os que se deleitam em Deus têm realizado o desejo de seu coração (Salmos 37:4), embora nem todos os desejos que há nele sejam atendidos.

  1. Ele lhes diz que não pôde visitá-los porque tinha muito trabalho em outros lugares. Por esse motivo, isto é, por causa dos trabalhos em outros países, foi tantas vezes impedido. Deus lhe havia aberto ampla porta em outros lugares e, assim, o desviou de Roma. Observe nisso:

(1.) A providência graciosa de Deus, que cuida de modo especial de seus ministros e determina seu destino segundo o próprio propósito, não segundo os planos deles.

Os planos de Paulo foram contrariados várias vezes: às vezes Satanás o impedia (como em 1 Tessalonicenses 2:18), às vezes o Espírito o proibia (Atos 16:7), e aqui outros trabalhos o desviavam.

O homem propõe, mas Deus dispõe, Provérbios 16:9; 19:21; Jeremias 10:23. Os ministros fazem planos e seus amigos também os fazem para eles, mas Deus se sobrepõe a uns e outros e ordena as viagens, mudanças e permanências de seus ministros fiéis como lhe apraz.

As estrelas estão na mão direita de Cristo, para brilhar onde ele as coloca. O evangelho não chega por acaso a lugar algum, mas pela vontade e pelo conselho de Deus.

(2.) A prudência graciosa de Paulo ao dedicar tempo e esforço aos lugares onde havia maior necessidade. Se Paulo tivesse olhado pelo próprio conforto, riqueza e honra, a grandeza do trabalho nunca o teria impedido de visitar Roma; antes, o teria atraído para lá, onde poderia obter cargo mais elevado com menos esforço.

Mas Paulo buscava os interesses de Cristo mais do que os seus e, por isso, não queria abandonar o trabalho de fundar igrejas, nem por algum tempo, para ir ver Roma. Os romanos estavam saudáveis e não precisavam do médico como os outros lugares pobres, doentes e moribundos.

Enquanto homens e mulheres entravam todos os dias na eternidade, e suas preciosas almas pereciam por falta de revelação, não era hora de Paulo perder tempo.

Soprava um vento favorável de oportunidade, e os campos estavam brancos para a colheita. Uma ocasião perdida assim talvez nunca fosse recuperada. As necessidades das pobres almas eram urgentes e clamavam em alta voz; por isso, Paulo precisava manter-se ocupado. Cabe a todos nós fazer primeiro o que é mais necessário.

A verdadeira graça nos ensina a preferir o necessário ao desnecessário, Lucas 10:41, 42. A prudência cristã nos ensina a preferir o mais necessário ao menos necessário. Paulo apresenta isso como razão suficiente e satisfatória.

Não devemos nos ofender se nossos amigos preferirem um trabalho necessário, que agrada a Deus, a visitas e cortesias desnecessárias, que podem agradar a nós. Nisso, como em outras coisas, devemos negar a nós mesmos.

II. Ele prometeu visitá-los em breve, v. 23, 24, 29. Já não havia lugar para ele naquelas regiões, isto é, na Grécia, onde então estava. Todo aquele país estava, em maior ou menor grau, fermentado pelo sabor do evangelho.

Havia igrejas estabelecidas nas cidades mais importantes e pastores designados para continuar o trabalho que Paulo começara; pouco lhe restava fazer ali.

Ele havia levado a carruagem do evangelho até a costa e, tendo assim conquistado a Grécia, estava pronto a desejar que houvesse outra Grécia para conquistar.

Paulo levava seu trabalho até o fim; contudo, não pensava em descansar, mas se punha a planejar novas tarefas e a conceber empreendimentos generosos. Eis um trabalhador que não precisava envergonhar-se. Observe:

  1. Como planejou a visita que pretendia fazer. Seu projeto era vê-los a caminho da Espanha. Por isso se vê que Paulo pretendia viajar à Espanha para ali estabelecer o cristianismo.

A dificuldade e o perigo do trabalho, a distância, os riscos da viagem e as outras boas obras que poderia realizar em outros lugares, embora as considerasse menos necessárias, não apagaram a chama de seu santo zelo pela propagação do evangelho. Esse zelo o consumia e o fazia esquecer de si mesmo.

Não se sabe, porém, se alguma vez realizou seu propósito e foi à Espanha. Muitos dos melhores comentaristas pensam que não e que foi impedido nisso como em outros planos. De fato, chegou a Roma, mas como prisioneiro, e ali ficou detido por dois anos.

Não se sabe ao certo para onde foi depois; várias das epístolas que escreveu na prisão indicam que pretendia ir para o Oriente, não para a Espanha.

Ainda assim, Paulo, visto que estava em seu coração levar a luz do evangelho à Espanha, você fez bem por tê-lo no coração; assim Deus disse a Davi, 2 Crônicas 6:8.

A graça de Deus muitas vezes aceita com favor a intenção sincera, quando sua providência, em sabedoria, impede sua realização. Não servimos, então, a um bom Senhor? 2 Coríntios 8:12.

Ora, a caminho da Espanha, Paulo pretendia visitá-los. Observe sua prudência: é sábio organizar nossos assuntos de modo a realizar o máximo trabalho no mínimo tempo. Observe como fala com cautela: Espero ver vocês. Não diz “Estou decidido a ir”, mas “Espero conseguir ir”.

Devemos fazer todos os planos e promessas com semelhante submissão à providência divina, sem nos vangloriar do amanhã, pois não sabemos o que um dia trará, Provérbios 27:1; Tiago 4:13-15.

  1. O que esperava de sua visita. (1.) O que esperava deles: que o ajudassem a seguir viagem rumo à Espanha. Paulo não esperava um séquito pomposo, como o dos príncipes, mas o acompanhamento afetuoso que os amigos oferecem.

Naquela época, a Espanha era uma província do império, bem conhecida dos romanos, que mantinham muitas relações com ela; por isso, poderiam ajudar Paulo na viagem. Ele não contava apenas com a companhia deles por parte do caminho, mas com sua colaboração para levar adiante a missão.

Isso não seria apenas por consideração a Paulo, mas pelas almas dos pobres espanhóis a quem ele iria pregar.

Espera-se, com razão, que todos os cristãos se dediquem a promover e apoiar toda boa obra, especialmente a bendita obra da conversão de almas. Devem procurar torná-la tão fácil quanto possível para seus ministros e tão frutífera quanto possível para essas pobres almas.

(2.) O que esperava entre eles: ficar um pouco satisfeito com sua companhia. Paulo desejava a presença e a conversa deles. A boa companhia dos santos é muito desejável e agradável.

Ele mesmo havia alcançado muito em conhecimento e graça, superando outros cristãos nessas coisas como alguém mais alto de cabeça e ombros; contudo, veja como se alegrava ao pensar na boa companhia deles. Assim como o ferro afia o ferro, uma pessoa aguça o semblante de seu amigo.

Ele sugere que pretendia passar algum tempo com eles, pois queria ficar satisfeito com sua companhia, não apenas vê-los de passagem. Ainda assim, julgava a convivência tão agradável que nunca teria o bastante: ficaria apenas um pouco satisfeito e partiria desejando mais da companhia deles.

O convívio cristão, quando bem cultivado e aproveitada, é um céu na terra, uma garantia consoladora de nossa reunião com Cristo no grande dia. Observe, porém: ele ficaria apenas um pouco satisfeito, apo merous, em parte.

A satisfação que temos na comunhão com os santos neste mundo é apenas parcial; ficamos satisfeitos só em parte.

É parcial em comparação com nossa comunhão com Cristo, pois só ela nos satisfará plenamente e encherá a alma. É parcial também em comparação com a comunhão que esperamos ter com os santos no outro mundo.

Quando nos assentarmos com Abraão, Isaque e Jacó, com todos os santos e somente santos, santos aperfeiçoados, teremos bastante desse convívio e ficaremos inteiramente satisfeitos com essa companhia.

(3.) O que esperava receber de Deus entre eles, v. 29: chegar na plenitude da bênção do evangelho de Cristo. Observe: ao falar do que esperava deles, expressa-se com cautela: Espero ser ajudado a seguir viagem e ficar satisfeito com sua companhia. Paulo aprendera a não confiar excessivamente nem mesmo nos melhores.

Esses mesmos homens mais tarde o abandonaram quando precisou deles (2 Timóteo 4:16): Em minha primeira defesa, ninguém me assistiu; nenhum dos cristãos de Roma. Que o Senhor nos ensine a deixar de confiar no homem.

Mas, ao falar do que esperava de Deus, Paulo se expressa com confiança. Era incerto se iria ou não; mas tinha certeza de que, ao chegar, viria na plenitude da bênção. Não podemos esperar pouco demais do homem nem demais de Deus.

Paulo esperava que Deus o levasse até eles carregado de bênçãos, de modo que fosse instrumento para fazer muito bem entre eles e enchê-los das bênçãos do evangelho. Compare Romanos 1:11: Para repartir com vocês algum dom espiritual. A bênção do evangelho de Cristo é a melhor e mais desejável de todas.

Quando Paulo quis despertar neles a expectativa de algo grande e bom com sua chegada, orientou-os a esperar as bênçãos do evangelho: bênçãos espirituais, conhecimento, graça e consolo.

O encontro entre povo e ministros é feliz quando ambos estão sob a plenitude dessa bênção. A bênção do evangelho é o tesouro que temos em vasos de barro.

Quando os ministros estão plenamente preparados para transmiti-la e o povo plenamente preparado para recebê-la, ambos são felizes. Muitos têm o evangelho sem ter a bênção do evangelho e, assim, o recebem em vão.

O evangelho não nos aproveitará se Deus não o abençoar para nós; e é nosso dever esperar dele essa bênção e sua plenitude.

III. Ele apresenta uma boa razão pela qual não podia visitá-los naquele momento: tinha outros assuntos que exigiam sua presença e, por isso, precisava primeiro viajar a Jerusalém, vv. 25-28. Dá-lhes um relato específico para mostrar que a justificativa era verdadeira.

Ia a Jerusalém como mensageiro da oferta da igreja aos santos pobres daquela cidade. Observe o que diz:

  1. Sobre a própria oferta. É provável que fale dela nessa ocasião para estimular os cristãos de Roma a fazer o mesmo, segundo suas possibilidades. Os exemplos movem as pessoas, e Paulo era muito hábil em pedir ajuda, não para si, mas para os outros. Observe:

(1.) A quem se destinava: aos santos pobres de Jerusalém, v. 26. Não é estranho que santos sejam pobres. Aqueles a quem Deus favorece muitas vezes são desprezados pelo mundo; portanto, as riquezas não são o maior bem, nem a pobreza é uma maldição.

Parece que os santos de Jerusalém eram mais pobres que os de outros lugares. Talvez isso ocorresse porque a prosperidade daquele povo em geral já declinava, à medida que se aproximava sua ruína completa. E, certamente, se alguém tivesse de continuar pobre, seriam os santos.

Ou talvez fosse porque a fome que atingiu o mundo inteiro nos dias de Cláudio César se fez sentir de modo especial na Judeia, uma região seca; como Deus havia chamado os pobres deste mundo, os cristãos sofreram mais com ela. Essa foi a ocasião da contribuição mencionada em Atos 11:28-30.

Ou ainda porque os santos de Jerusalém sofreram mais com a perseguição: dentre todos os povos, os judeus incrédulos eram os mais obstinados em seu furor e malícia contra os cristãos, tendo a cólera chegado até o extremo sobre eles, 1 Tessalonicenses 2:16.

Observa-se também, especialmente, que os cristãos hebreus tiveram seus bens saqueados (Hebreus 10:34); por isso, fez-se essa contribuição em favor deles. Embora os santos de Jerusalém estivessem muito distantes, esses cristãos estenderam até lá sua generosidade.

Isso nos ensina a estender a mão caridosa, conforme nossas possibilidades e oportunidades, a todos os da família da fé, ainda que morem longe. Nos casos pessoais de pobreza, cada igreja deve cuidar de seus próprios necessitados, pois sempre os temos conosco.

Mas, às vezes, quando necessidades mais amplas se apresentam à nossa caridade, devemos estender nossa generosidade mesmo a grande distância, como o sol estende seus raios. À semelhança da mulher virtuosa, devemos abrir a mão aos pobres e estendê-la aos necessitados, Provérbios 31:20.

(2.) Quem a arrecadou: os da Macedônia, sobretudo os filipenses, e os da Acaia, sobretudo os coríntios. Eram duas igrejas florescentes, embora ainda na infância, recém-convertidas ao cristianismo.

Eu gostaria que não fosse verdade que as pessoas em geral são mais generosas ao conhecer o evangelho do que depois. Essa generosidade, assim como outras manifestações do primeiro amor e do amor do noivado, tende a esfriar e diminuir com o tempo.

Parece que os da Macedônia e da Acaia eram ricos, enquanto os de Jerusalém eram pobres e necessitados. A Sabedoria infinita dispôs que alguns tivessem o que faltava a outros, para que os cristãos mantivessem sua dependência mútua.

Isso lhes agradou. A expressão mostra sua prontidão: não foram pressionados nem obrigados, mas deram por iniciativa própria. Mostra também sua alegria: tinham prazer em fazer o bem, e Deus ama quem dá com alegria.

Fizeram uma contribuição, koinonian tina, uma comunicação, sinal da comunhão dos santos e de sua condição de membros uns dos outros.

Assim como no corpo natural um membro socorre, ajuda e preserva outro quando necessário, tudo o que circula entre cristãos deve demonstrar e exemplificar a união comum que têm em Jesus Cristo.

Houve um tempo em que os santos de Jerusalém eram os doadores, e muito generosos: punham seus bens aos pés dos apóstolos para fins de caridade e cuidavam especialmente para que as viúvas helenistas não fossem esquecidas na distribuição diária, Atos 6:1 etc.

Agora que a providência de Deus havia invertido a situação e os tornara necessitados, receberam bondade dos gregos, pois os misericordiosos alcançarão misericórdia. Devemos dar uma porção a sete e até a oito, porque não sabemos que mal poderá vir sobre a terra e fazer-nos precisar da ajuda de outros.

(3.) Qual era a razão para a oferta (v. 27): “E são devedores deles.” As esmolas são chamadas de justiça, Salmos 112:9. Somos apenas administradores daquilo que possuímos e devemos distribuí-lo onde nosso grande Senhor nos manda, pelos chamados da providência em harmonia com os preceitos da palavra.

Aqui, porém, havia uma dívida especial: os gentios deviam muito aos judeus e, por gratidão, estavam obrigados a tratá-los com grande bondade.

Da linhagem de Israel veio o próprio Cristo segundo a carne, luz para iluminar os gentios. Da mesma linhagem vieram os profetas, os apóstolos e os primeiros pregadores do evangelho.

Como lhes foram confiados os oráculos vivos, os judeus foram os guardiões da biblioteca dos cristãos: de Sião saiu a lei, e a palavra do Senhor, de Jerusalém.

Sua organização política e religiosa foi dissolvida, e eles foram cortados, para que os gentios fossem admitidos. Assim os gentios participaram de seus bens espirituais e receberam dos judeus, por assim dizer, em segunda mão, o evangelho da salvação.

Portanto, por gratidão, têm o dever de servi-los com bens materiais; é o mínimo que podem fazer. Leitourgesai significa servir como quem presta a Deus um serviço em coisas santas.

A consideração conscienciosa por Deus nas obras de caridade e na distribuição de esmolas as torna serviço e sacrifício agradáveis a ele, fruto que se acumula em boa conta.

É provável que Paulo mencione essa razão porque a usou para persuadi-los a contribuir; ela tem a mesma força para outras igrejas gentias.

  1. Sobre o papel de Paulo nesse assunto. Ele próprio nada podia contribuir: não tinha prata nem ouro, mas vivia da bondade dos amigos. Ainda assim, servia aos santos (v. 25), estimulando outros, recebendo o que se arrecadava e levando a oferta a Jerusalém.

Muitas boas obras desse tipo ficam paradas por falta de alguém ativo que as lidere e ponha as rodas a girar. O empenho de Paulo nessa obra não deve ser interpretado como negligência da pregação. Ele não deixou a palavra de Deus para servir às mesas.

Além disso, Paulo tinha outros objetivos nessa viagem: visitar e fortalecer as igrejas. A entrega da oferta era uma tarefa acrescentada ao percurso. Essa obra fazia parte da responsabilidade que lhe fora confiada e na qual devia mostrar-se fiel (Gálatas 2:10): “Eles queriam que nos lembrássemos dos pobres.”

Paulo se dedicava a fazer o bem de todas as formas, como seu Mestre, atendendo tanto ao corpo quanto à alma das pessoas. Servir aos santos é uma boa obra e não está abaixo da dignidade dos maiores apóstolos.

Paulo assumira essa tarefa e, por isso, decidiu concluí-la antes de iniciar outro trabalho (v. 28): “Quando eu lhes tiver selado esse fruto.” Chama a oferta de fruto porque ela é um dos frutos da justiça: brota de uma raiz de graça nos doadores e resulta em benefício e consolo para os que a recebem.

O ato de selá-lo indica o grande cuidado de Paulo para que tudo o que fosse dado chegasse inteiro, sem desvio, e fosse distribuído segundo o desígnio dos doadores.

Paulo era muito cuidadoso em mostrar-se fiel na administração desse assunto. É um excelente modelo a ser seguido pelos ministros, para que em nada o ministério seja censurado.

Versículos 30 a 33

O Desejo de Paulo pelas Orações da Igreja. (d.C. 58.)

Aqui temos, I. O desejo muito ardente de Paulo de participar das orações dos romanos por ele, vv. 30-32. Embora fosse grande apóstolo, pedia as orações até dos cristãos mais humildes, não apenas aqui, mas em várias outras epístolas. Havia orado muito por eles e desejava esse retorno por sua bondade. A troca de orações é excelente sinal da troca de amor.

Paulo fala como alguém que conhecia a si mesmo e assim nos ensina a valorizar a oração eficaz e fervorosa dos justos. Quanto cuidado devemos ter para não fazer nada que nos prive do amor e das orações do povo de Deus que ora!

  1. Observe por que deviam orar por ele. Paulo lhes pede isso com a maior insistência. Talvez suspeitasse que se esqueceriam dele nas orações, pois não o conheciam pessoalmente. Por isso insiste de modo tão próximo e pede com os apelos mais afetuosos, por tudo o que é sagrado e valioso: “Rogo-lhes”:

(1.) “Por amor do Senhor Jesus Cristo. Ele é meu Mestre, trabalho em sua obra, e sua glória está ligada ao êxito dela. Se vocês têm alguma consideração por Jesus Cristo e por sua causa e seu reino, orem por mim. Vocês amam e reconhecem a Cristo; por amor a ele, então, façam-me esse favor.”

(2.) “Pelo amor do Espírito. Como prova e expressão do amor que o Espírito produz no coração dos crentes uns pelos outros, orem por mim. Façam isso como fruto da comunhão que temos uns com os outros pelo Espírito, embora nunca nos tenhamos visto. Se já experimentaram o amor do Espírito por vocês e desejam retribuir-lhe amor, não deixem de cumprir esse dever de bondade.”

  1. Como deviam orar por ele: “Contendam junto comigo”. (1.) Contendam na oração. Devemos aplicar tudo o que há em nós nesse dever: orar com firmeza, fé e fervor; lutar com Deus, como Jacó; orar ao orar, como Elias (Tiago 5:17); e despertar a nós mesmos para nos apegarmos a Deus (Isaías 64:7).

Isso vale não apenas quando oramos por nós mesmos, mas também pelos amigos. O verdadeiro amor pelos irmãos deve tornar-nos tão diligentes em favor deles quanto a consciência de nossa necessidade nos torna diligentes em favor de nós mesmos.

(2.) Contendam juntamente com ele. Ao pedir que orassem por ele, Paulo não pretendia dispensar-se de orar por si mesmo. Não; diz: “Contendam junto comigo, que luto diariamente com Deus em meu próprio favor e no de meus amigos”. Queria que empunhassem o mesmo remo.

Paulo e os romanos estavam distantes uns dos outros, e provavelmente continuariam assim; ainda assim, podiam unir-se em oração. Aqueles que a providência de Deus colocou longe uns dos outros ainda podem encontrar-se junto ao trono da graça. Quem pede as orações dos demais não deve deixar de orar por si mesmo.

  1. O que deviam pedir a Deus por ele. Menciona questões específicas, pois convém ser específico ao orar tanto por nós mesmos quanto pelos amigos. “Que queres que eu te faça?”, diz Cristo ao estender o cetro de ouro. Embora conheça perfeitamente nossa situação e nossas carências, quer ouvi-las de nós. Paulo recomenda-se às orações deles com respeito a três coisas:

(1.) Os perigos a que estava exposto: “Para que eu seja livrado dos incrédulos da Judeia”. Os judeus incrédulos eram os inimigos mais violentos de Paulo e os mais enfurecidos contra ele. Ele previa algum problema vindo deles nessa viagem; por isso, os romanos deviam orar para que Deus o livrasse. Podemos e devemos orar contra a perseguição.

Essa oração foi atendida em vários livramentos notáveis de Paulo, registrados em Atos 21, 22, 23 e 24.

(2.) Seu serviço: “Orem para que o serviço que tenho para Jerusalém seja aceito pelos santos”. Havia risco de não ser aceito? O dinheiro não seria bem-vindo aos pobres? Sim, havia algum motivo de suspeita nesse caso. Paulo era apóstolo dos gentios. Os judeus incrédulos o viam com hostilidade, por sua maldade; os crentes, por sua vez, desconfiavam dele por esse motivo, por sua fraqueza.

Ele não diz: “Que decidam se querem aceitá-lo ou não; se não quiserem, será mais bem empregado em outro lugar”. Diz: “Orem para que seja aceito”. Devemos buscar a Deus tanto para conter a má vontade dos inimigos como para preservar e aumentar a boa vontade dos amigos; o coração de ambos está nas mãos dele.

(3.) Sua viagem até eles. Para envolvê-los nas orações por ele, inclui-os em seus interesses (v. 32): “Para que eu possa ir até vocês com alegria”. Se a viagem presente a Jerusalém não tivesse êxito, a viagem planejada a Roma seria penosa.

Se não pudesse fazer o bem e prosperar numa visita, julgava que teria pouca alegria na seguinte: “possa ir com alegria, pela vontade de Deus”. Toda a nossa alegria depende da vontade de Deus. Em tudo, o consolo da criatura depende do dispor do Criador.

II. Aqui está outra oração do apóstolo por eles (v. 33): “E o Deus de paz esteja com todos vocês. Amém”. O Senhor dos Exércitos, o Deus da batalha, é o Deus de paz, autor e amante da paz. Descreve Deus aqui com esse título por causa das divisões entre os romanos, para recomendar-lhes a paz. Se Deus é o Deus de paz, sejamos pessoas de paz.

A bênção do Antigo Testamento era: “A paz esteja com vocês”; agora é: “O Deus de paz esteja com vocês”. Quem possui a fonte não pode carecer de nenhuma de suas correntes. “Com todos vocês”: fracos e fortes. Para dispô-los a uma união mais estreita, Paulo os reúne nessa oração. Aqueles que estão unidos na bênção de Deus devem estar unidos em afeto uns aos outros.


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