Matthew Henry

Romanos 16

Argumento

Paulo está concluindo esta epístola longa e excelente, e o faz com muito afeto. Se, no corpo principal da carta, mostra-se um homem de grande conhecimento, nestes acréscimos revela-se também muito afetuoso. A combinação de tanto conhecimento e tanto amor é muito rara, mas, quando existe, é excelente e amável. Afinal, o que é o céu senão conhecimento e amor levados à perfeição?

É notável como Paulo muitas vezes parece estar concluindo e, ainda assim, retoma o assunto. Poderíamos pensar que a bênção solene que encerrou o capítulo anterior terminaria a epístola. Contudo, ele recomeça aqui e repete neste capítulo a bênção (v. 20): “A graça de nosso Senhor Jesus Cristo seja com vocês, amém”.

Ainda tem mais a dizer; ou melhor, repete novamente a bênção (v. 24), mas ainda não termina, numa expressão de seu terno amor. Essas bênçãos repetidas, que fazem as vezes de despedidas, mostram quanto Paulo relutava em separar-se deles.

Neste capítulo final, observamos: I. A recomendação de uma amiga aos cristãos romanos e as saudações pessoais a vários deles (vv. 1-16). II. Uma advertência para tomar cuidado com os que causam divisões (vv. 17-20). III. Saudações acrescentadas por alguns que estavam com Paulo (vv. 21-24). IV. A conclusão com uma celebração solene da glória de Deus (vv. 25-27).

Versículos 1 a 16

Saudações Amistosas; Saudações Apostólicas. (d.C. 58.)

Lembranças como estas são comuns nas cartas entre amigos. Ainda assim, pelo sabor espiritual de suas expressões, Paulo santifica essas cortesias habituais.

I. Aqui está a recomendação de uma amiga, por meio de quem, segundo alguns, esta epístola foi enviada: Febe (v. 1, 2). Ao que parece, era uma mulher de posição e recursos que tinha negócios em Roma, onde seria estrangeira. Por isso, Paulo a recomenda aos cristãos de lá, numa expressão de sua verdadeira amizade por ela.

Paulo conhecia tão bem quanto a maioria dos homens a arte de ser atencioso. A verdadeira religião, corretamente recebida, nunca tornou ninguém desumano. Cortesia e cristianismo combinam bem. Não é por mera formalidade, mas com sinceridade, que:

  1. Ele dá dela um testemunho muito favorável. (1.) Como irmã de Paulo: “Febe, nossa irmã”; não por natureza, mas pela graça; não por afinidade ou consanguinidade, mas pelo cristianismo puro. Era irmã dele na fé de Cristo, amava Paulo e era amada por ele com amor puro, casto e espiritual, como irmã. Pois não há homem nem mulher, mas todos são um em Cristo Jesus (Gálatas 3:28).

Tanto Cristo quanto seus apóstolos tiveram algumas de suas melhores amizades entre mulheres piedosas e, por isso mesmo, honradas.

(2.) Como serva da igreja em Cencreia: diakonon, serva por ofício, serva designada, não para pregar a palavra, o que era proibido às mulheres, mas para prestar serviços de caridade e hospitalidade. Alguns pensam que era uma das viúvas que cuidavam dos doentes e eram inscritas no rol da igreja (1 Timóteo 5:9).

Aquelas viúvas, porém, eram idosas e pobres, ao passo que Febe parece ter sido uma pessoa de certa importância. Ainda assim, servir à igreja não a diminuía. Provavelmente os cristãos costumavam reunir-se em sua casa, e ela se encarregava de hospedar os ministros, especialmente os estrangeiros.

Cada um, em sua posição, deve empenhar-se em servir à igreja, pois assim serve a Cristo e um dia receberá boa recompensa. Cencreia era uma pequena cidade portuária próxima de Corinto, a cerca de doze estádios de distância.

Alguns pensam que havia ali uma igreja distinta da de Corinto. Como as duas cidades ficavam tão perto, porém, é muito provável que a igreja de Corinto fosse chamada igreja de Cencreia porque talvez se reunisse ali, devido à forte oposição que enfrentava na cidade (Atos 18:12). De modo semelhante, em Filipos os cristãos se reuniam fora da cidade, à beira do rio (Atos 16:13).

Assim também a igreja reformada de Paris podia ser chamada igreja de Charenton, lugar fora da cidade onde antes se reunia.

(3.) Como auxiliadora de muitos e, em particular, de Paulo (v. 2). Ela socorreu muitas pessoas em necessidade e aflição, um bom exemplo a seguir pelas mulheres que têm recursos. Foi bondosa com os que precisavam de bondade, como indica o socorro que prestou; sua generosidade era ampla, pois ajudou a muitos.

Observe a gratidão de Paulo ao mencionar a bondade especial que ela demonstrou para com ele: “E a mim também”. Reconhecer os favores é a menor retribuição que podemos oferecer. Foi grande honra para ela que Paulo registrasse isso: onde quer que esta epístola seja lida, a bondade de Febe para com ele é contada em sua memória.

  1. Ele a recomenda ao zelo e à bondade deles, como alguém digna de respeito especial. (1.) “Recebam-na no Senhor. Hospedem-na e deem-lhe boas-vindas.” Essa recomendação, escrita pela mão de Paulo, certamente a apresentaria favoravelmente a qualquer igreja cristã.

“Recebam-na no Senhor” significa “por amor ao Senhor; recebam-na como serva e amiga de Cristo”. Recebam-na como convém aos santos que amam a Cristo e, portanto, amam todos os que pertencem a ele por sua causa. Ou recebam-na como convém receber santos, com amor, honra e o mais terno afeto.

Às vezes podemos ter oportunidade de usar nossa influência entre amigos não só em nosso favor, mas também em favor de outros. A influência é um recurso em nossas mãos para fazer o bem.

(2.) “Ajudem-na em qualquer assunto em que precise de vocês.” Não importa se ela tinha negócios comerciais ou jurídicos na corte. Como mulher, estrangeira e cristã, precisava de ajuda, e Paulo os instou a ajudá-la.

Convém aos cristãos ajudarem-se mutuamente em seus assuntos, sobretudo ajudar os estrangeiros. Somos membros uns dos outros e não sabemos que necessidade de auxílio nós mesmos podemos ter. Observe que Paulo pede ajuda para quem havia ajudado a muitos: quem rega também será regado.

II. Aqui estão as expressões de apreço dirigidas a amigos específicos entre os destinatários, mais numerosas que em qualquer outra epístola. Embora o zelo por todas as igrejas recaísse diariamente sobre Paulo, o que bastaria para confundir uma mente comum, ele conservava a lembrança de tantas pessoas.

Seu coração estava tão cheio de amor e afeto que enviou saudações individuais, acompanhadas de descrições e expressões de amor e interesse por cada uma. Saúdem-nos, cumprimentem-nos: a palavra é a mesma, aspasasthe. “Façam-nos saber que me lembro deles, que os amo e lhes desejo o bem.” Há algo digno de nota em várias dessas saudações.

  1. Sobre Áquila e Priscila, casal conhecido pelo qual Paulo tinha especial afeto. Eram originários de Roma, mas foram expulsos de lá pelo decreto de Cláudio (Atos 18:2). Paulo os conheceu em Corinto e trabalhou com eles na fabricação de tendas. Algum tempo depois, quando o rigor do decreto diminuiu, voltaram a Roma, e agora ele lhes envia saudações.

Paulo os chama seus cooperadores em Cristo Jesus. Por meio de ensino particular e comunhão, ajudavam a tornar mais eficaz sua pregação pública. Temos um exemplo disso quando instruíram Apolo (Atos 18:26). São cooperadores dos ministros fiéis os que se dedicam, na família e entre os vizinhos, a fazer bem às almas.

Ou melhor, além de terem feito muito por Paulo, arriscaram muito: “Pela minha vida expuseram o próprio pescoço”. Expuseram-se para protegê-lo, arriscando a vida para preservar a dele, pois julgavam que poderiam ser privados da própria vida com prejuízo menor do que se ele morresse.

Paulo enfrentou grande perigo em Corinto enquanto se hospedava com eles. Eles o abrigaram, embora assim se expusessem às multidões enfurecidas (Atos 18:12, 17). Havia bastante tempo que lhe tinham prestado esse favor; contudo, ele fala com tanta emoção como se tivesse acontecido ontem.

“A eles”, diz, “não apenas eu dou graças, mas também todas as igrejas dos gentios”. Todas deviam gratidão a essas boas pessoas por ajudarem a salvar a vida do apóstolo dos gentios. Paulo menciona isso para incentivar os cristãos de Roma a tratar Áquila e Priscila com ainda mais bondade.

Ele também envia saudações à igreja que se reúne na casa deles (v. 5). Ao que parece, uma igreja numa casa não é tão absurda quanto alguns a consideram. Talvez uma congregação de cristãos costumasse reunir-se ali em horários regulares. Nesse caso, sem dúvida a casa, como a de Obede-Edom, foi abençoada por causa da arca.

Outros pensam que essa igreja não passava de uma família religiosa, piedosa e bem governada, que mantinha o culto a Deus. A religião, quando reina com poder numa família, transforma uma casa em igreja.

Sem dúvida contribuiu para isso a grande dedicação religiosa de Priscila, a boa esposa daquela família. Era tão notável e ativa que muitas vezes seu nome vem primeiro. Uma mulher virtuosa que cuida bem dos caminhos de sua casa pode fazer muito pelo progresso da religião na família.

Quando Priscila e Áquila estavam em Éfeso, embora ali fossem apenas residentes temporários, também tinham uma igreja em casa (1 Coríntios 16:19). Quem é verdadeiramente piedoso cuida de levar a religião consigo para onde quer que vá. Quando Abraão mudava sua tenda, erguia novamente seu altar (Gênesis 13:18).

  1. Sobre Epêneto (v. 5). Paulo o chama de seu muito amado. Onde a lei do amor está no coração, a lei da bondade estará na língua. Expressões afetuosas devem circular entre os cristãos para manifestar o amor e despertá-lo.

Da mesma forma, chama Amplíato de amado no Senhor, com verdadeiro amor cristão por causa de Cristo, e Estáquis de seu amado. Isso mostra que Paulo havia estado no terceiro céu: era feito de tanto amor.

Sobre Epêneto, acrescenta que foi a primícia da Acaia para Cristo. Não era apenas um dos crentes mais notáveis da região, mas um dos primeiros convertidos à fé em Cristo: alguém que Paulo ofereceu a Deus como primícias de seu ministério ali, sinal antecipado de uma grande colheita. Em Corinto, principal cidade da Acaia, Deus tinha muito povo (Atos 18:10).

Devemos demonstrar respeito especial aos que começam cedo e vêm trabalhar na vinha na primeira hora, ao primeiro chamado. Também se diz que a família de Estéfanas constituía as primícias da Acaia (1 Coríntios 16:15).

Talvez Epêneto fizesse parte dessa família ou, ao menos, estivesse entre os três primeiros: não era a única primícia, mas um dos primeiros velos do rebanho cristão que a Acaia produziu.

  1. Sobre Maria e outros cristãos dedicados à prática do bem e ao trabalho diligente: “Maria, que trabalhou muito por nós”. O amor verdadeiro nunca se recusa ao trabalho; antes, tem prazer nele. Onde há muito amor, haverá muito trabalho.

Alguns pensam que Maria esteve em lugares onde Paulo também esteve e, embora agora morasse em Roma, lhe prestara serviços pessoalmente. Outros entendem que Paulo considera o trabalho dela como feito em seu favor porque beneficiou seus amigos e cooperadores; o que lhes fizeram ele recebeu como feito a si mesmo.

Sobre Trifena e Trifosa, duas mulheres úteis em sua posição, Paulo diz que trabalhavam no Senhor (v. 12). Sobre a amada Pérside, outra boa mulher, diz que trabalhou muito no Senhor, mais que os demais, destacando-se na obra do Senhor.

  1. Sobre Andrônico e Júnia (v. 7). Alguns entendem que eram marido e mulher, interpretação que o original admite. Considerando o nome da segunda pessoa, isso é mais provável que serem dois homens, como outros pensam, e irmãos. Observe:

(1.) Eram primos de Paulo, seus parentes; Herodião também o era (v. 11). A religião não elimina nosso respeito pelos parentes, mas o corrige, santifica e aperfeiçoa. Leva-nos a fazer ainda mais pelo bem deles e a nos alegrar ainda mais com eles quando descobrimos que, pela fé, são parentes de Cristo.

(2.) Eram seus companheiros de prisão. A participação no sofrimento às vezes contribui muito para unir as almas e estreitar os afetos. Na narrativa de Atos não encontramos prisão de Paulo anterior à redação desta epístola, exceto a de Filipos (Atos 16:23).

Paulo, porém, esteve preso com maior frequência (2 Coríntios 11:23). Em alguma dessas prisões, ao que parece, encontrou seus amigos Andrônico e Júnia, companheiros de jugo tanto em outras coisas quanto no sofrimento por Cristo e no carregar de seu jugo.

(3.) Eram notáveis entre os apóstolos, talvez não tanto por sua posição e condição social, mas por seu conhecimento, dons e graças. Isso os tornava conhecidos entre os apóstolos, juízes capazes dessas coisas e dotados de discernimento não apenas da sinceridade, mas também da excelência dos cristãos.

(4.) “Também estavam em Cristo antes de mim”, isto é, converteram-se à fé cristã. Quanto ao tempo, precederam Paulo, embora ele tivesse sido convertido no ano seguinte à ascensão de Cristo. Como ele estava pronto a reconhecer qualquer espécie de precedência nos outros!

  1. Sobre Apeles, de quem se diz que era “aprovado em Cristo” (v. 10), um elogio elevado. Era conhecido por sua integridade e sinceridade na religião; havia sido provado. Amigos e inimigos o tinham posto à prova, e ele se mostrou como ouro. Tinha conhecimento e discernimento aprovados, coragem e constância provadas. Era alguém digno de confiança.

  2. Sobre Aristóbulo e Narciso. As pessoas de suas casas são mencionadas em v. 10, 11: as que “estão no Senhor”, como especifica o v. 11, ou seja, os cristãos. Como Paulo se esforçava para não omitir das saudações ninguém que conhecesse!

Alguns pensam que Aristóbulo e Narciso estavam ausentes ou haviam morrido recentemente. Outros, como Pareus, entendem que eram incrédulos e não haviam abraçado o cristianismo. Alguns também identificam Narciso com o homem desse nome frequentemente mencionado na vida de Cláudio: muito rico, com numerosa família, mas perverso e causador de muito dano.

Parece, então, que havia bons servos ou outros dependentes até na casa de um homem perverso, situação comum (1 Timóteo 6:1; compare com v. 2). O servo pobre é chamado, escolhido e fiel, enquanto o senhor rico é deixado para perecer na incredulidade. Assim foi, Pai, porque isso lhe pareceu bom.

  1. Sobre Rufo (v. 13), “escolhido no Senhor”. Era um cristão distinto, cujos dons e graças demonstravam que havia sido escolhido eternamente em Cristo Jesus. Entre mil pessoas, destacava-se pela integridade e santidade.

“E sua mãe e minha”: mãe dele por natureza e de Paulo por amor cristão e afeto espiritual. Do mesmo modo, ele chama Febe de sua irmã e ensina Timóteo a tratar as mulheres idosas como mães (1 Timóteo 5:2). Em alguma ocasião, essa boa mulher cuidara de Paulo e o consolara como uma mãe. Ele o reconhece com gratidão e a chama sua mãe.

  1. Sobre os demais, note-se que ele saúda os irmãos que estão com eles (v. 14) e os santos que estão com eles (v. 15), unidos tanto por relações familiares quanto pelo vínculo da comunhão cristã. É próprio dos santos gostar de estar juntos. Paulo os reúne assim em suas saudações para fortalecer o afeto mútuo.

Para que ninguém se sentisse magoado, como se Paulo o tivesse esquecido, ele encerra lembrando os demais como irmãos e santos, embora não os cite pelo nome. Nas congregações cristãs, deve haver grupos menores ligados pelo amor e pela comunhão, que aproveitem as oportunidades para estar juntos com frequência.

Entre todos aqueles a quem Paulo envia saudações aqui, não há sequer uma palavra sobre Pedro. Isso dá motivo para suspeitar que ele não era bispo de Roma, como afirmam os papistas. Se fosse, seria natural supor que morasse ali; ou como Paulo escreveria uma epístola tão longa aos cristãos de Roma sem mencioná-lo?

Por fim, Paulo os recomenda ao amor e aos abraços mútuos: “Saúdem-se uns aos outros com beijo santo”. As saudações recíprocas expressam amor, aumentam-no, fortalecem-no e aproximam os cristãos. Por isso Paulo anima a praticá-las, apenas determinando que as saudações sejam santas.

É um beijo casto, em oposição ao sensual e lascivo, e sincero, em oposição ao traiçoeiro e fingido, como o de Judas ao trair Cristo. Ele acrescenta no encerramento uma saudação geral a todos, em nome das igrejas de Cristo (v. 16): “As igrejas de Cristo saúdam vocês”.

Isto é: “As igrejas com as quais estou e que costumo visitar pessoalmente, unidas pelas amarras do cristianismo comum, pedem-me que lhes expresse seu afeto e seus bons votos por vocês”. Essa é uma forma de preservar a comunhão dos santos.

Versículos 17 a 20

Saudações Apostólicas. (d.C. 58.)

Depois de procurar uni-los com saudações afetuosas, era apropriado que o apóstolo acrescentasse uma advertência contra aqueles cujos princípios e práticas destruíam o amor cristão. Podemos observar:

I. A advertência em si, feita da maneira mais atenciosa possível: “Rogo-lhes, irmãos”. Paulo não impõe sua vontade nem ordena como quem domina a herança de Deus; por amor, suplica. Quão fervorosas e afetuosas são suas exortações! Ele lhes ensina:

  1. A perceber o perigo: “Atentem para os que causam divisões e escândalos”. Nosso Mestre havia predito que divisões e escândalos viriam, mas anunciara um ai sobre aqueles por meio de quem viessem (Mateus 18:7). É contra essas pessoas que recebemos a advertência.

São os que sobrecarregam a igreja com imposições causadoras de divisões e escândalos; os que sustentam e aplicam tais imposições; os que introduzem e propagam ideias divisivas e escandalosas, errôneas ou justificadamente suspeitas; e os que, por orgulho, ambição, afetação de novidade ou motivo semelhante, se separam sem causa dos irmãos.

Esses últimos, por disputas perversas, censuras e suspeitas maldosas, afastam uns cristãos dos outros. Todos eles causam divisões e escândalos contrários ou diferentes da doutrina que aprendemos, pois esta também é uma implicação de para ten didachen.

Tudo o que se afasta do padrão da sã doutrina que temos nas Escrituras abre a porta às divisões e aos escândalos. Se a verdade for abandonada, a unidade e a paz não durarão muito.

Atentem, portanto, para os que provocam essas divisões, skopein. Observem-nos, no método que adotam e no fim que procuram. Precisamos de olhos atentos e penetrantes para discernir o perigo que corremos por causa dessas pessoas, pois as alegações geralmente parecem plausíveis, embora seus projetos sejam muito nocivos.

Não olhem apenas para as divisões e os escândalos: sigam essas correntes até a nascente e atentem para quem os causa. Atentem sobretudo para aquilo que, nessas pessoas, dá origem às divisões e aos escândalos, os desejos pecaminosos de ambos os lados dos quais procedem essas guerras e contendas. Um perigo descoberto está meio evitado.

  1. A fugir dele: “Evitem essas pessoas. Fujam de toda comunhão e comunicação necessárias com elas, para que não sejam contaminados por seu fermento. Não se associem a interesses que produzam divisões nem adotem princípios ou práticas que destruam o amor e a caridade cristãos ou a verdade que conduz à piedade.”

“A palavra deles corroerá como gangrena.” Alguns pensam que Paulo os adverte especialmente contra os mestres judaizantes. Sob a cobertura do nome cristão, eles preservavam as cerimônias mosaicas e pregavam que eram necessárias. Trabalhavam por toda parte para atrair discípulos e, na maioria das epístolas, Paulo advertia as igrejas a tomar cuidado com eles.

II. Os motivos que reforçam essa advertência:

  1. A estratégia nociva desses sedutores (v. 18). Quanto piores são, maior é nossa necessidade de vigiá-los. Observe como Paulo os descreve em dois aspectos:

(1.) O senhor a quem servem: não é nosso Senhor Jesus Cristo. Embora se chamem cristãos, não servem a Cristo. Não visam à sua glória, não promovem seus interesses nem fazem sua vontade, por mais que o aleguem. Quantos chamam Cristo de Mestre e Senhor, mas estão longe de servi-lo!

Eles servem ao próprio ventre, isto é, a seus interesses carnais, sensuais e mundanos. Procuram satisfazer alguma paixão degradante: orgulho, ambição, cobiça, luxo ou lascívia. São esses os desígnios que realmente levam adiante. “O deus deles é o ventre” (Filipenses 3:19).

Que senhor indigno eles servem! Quão indigno de rivalizar com Cristo é o senhor daqueles que servem ao próprio ventre, fazem do lucro sua piedade e tornam a satisfação do apetite sensual o alvo e a ocupação da vida! A isso todos os demais propósitos e desígnios devem curvar-se e ficar subordinados.

(2.) O método que usam para alcançar seu desígnio: “Com boas palavras e discursos agradáveis enganam o coração dos simples”. Suas palavras e discursos aparentam santidade e zelo por Deus, pois é fácil parecer piedoso da boca para fora.

Também aparentam bondade e amor para com aqueles em quem insinuam doutrinas corrompidas. Dirigem-se a eles com cortesia enquanto lhes preparam o maior dano. Assim, com boas palavras e discursos agradáveis, a serpente seduziu Eva.

Observe: corrompem a mente das pessoas enganando-lhes o coração; pervertem seu juízo insinuando-se astutamente em seus afetos. Por isso, precisamos guardar o coração com toda a diligência, sobretudo quando espíritos sedutores andam por aí.

  1. O perigo que corremos por nossa inclinação a ser atraídos e enredados por eles: “A obediência de vocês tornou-se conhecida entre todos”; vocês são conhecidos em todas as igrejas como pessoas dispostas a ouvir, dóceis e prontas a concordar.

(1.) Justamente por isso, esses mestres sedutores seriam mais propensos a atacá-los. O diabo e seus agentes têm rancor especial contra igrejas e almas florescentes. O navio que se sabe carregado de riquezas é o mais exposto aos corsários. O adversário e inimigo cobiça tal presa; portanto, cuidem de si mesmos (2 João 1:8).

“Os falsos mestres ouvem dizer que vocês são obedientes e, por isso, provavelmente virão até vocês para ver se também lhes obedecerão.” A estratégia comum dos sedutores é atacar aqueles que foram abrandados pelos convencimentos e começam a perguntar o que devem fazer, pois são os que mais facilmente recebem a impressão de suas opiniões.

A triste experiência mostra quantos começaram a perguntar pelo caminho de Sião, com o rosto voltado para lá, mas acabaram naufragando fatalmente nessa rocha. Isso demonstra quanto os ministros devem cuidar, com zelo redobrado, de alimentar os cordeiros do rebanho, lançar um bom fundamento e conduzir suavemente as que têm filhotes.

(2.) Apesar de sua obediência, ainda corriam perigo diante desses sedutores. Paulo o sugere com grande modéstia e ternura, não como alguém desconfiado deles, mas preocupado com eles: “A obediência de vocês tornou-se conhecida entre todos. Reconhecemos isso e nos alegramos: estou feliz por causa de vocês”.

Ele introduz assim o elogio para preparar melhor a advertência. Um zelo santo por nossos amigos pode coexistir perfeitamente com uma santa alegria por eles. “Vocês se consideram um povo muito feliz, e eu também; mas nem por isso devem descuidar-se.”

“Quero que sejam sábios quanto ao bem e simples quanto ao mal. Vocês são pessoas dispostas e de boa índole; contudo, convém tomar cuidado para não serem iludidos por esses sedutores.” Uma disposição maleável é boa quando bem dirigida; de outro modo, pode tornar-se uma armadilha. Por isso Paulo apresenta duas regras gerais:

[1.] Ser sábios quanto ao bem, isto é, hábeis e instruídos nas verdades e nos caminhos de Deus. “Sejam sábios para examinar os espíritos, provar todas as coisas e reter somente o que é bom.” É necessária muita sabedoria para nos apegarmos às verdades, aos deveres e às pessoas boas sem sermos iludidos ou ludibriados em nenhum desses casos.

“Sejam, pois, prudentes como as serpentes” (Mateus 10:16): saibam distinguir o que é realmente bom do que é falsificado, discernir coisas diferentes e aproveitar as oportunidades. Em meio a tantos enganadores, precisamos muito da sabedoria do prudente que entende seu caminho (Provérbios 14:8).

[2.] Ser simples quanto ao mal: sábios o suficiente para não ser enganados e simples o suficiente para não enganar. É santa simplicidade não saber maquinar, disfarçar nem executar qualquer desígnio mau. Akeraious significa inofensivos, sem mistura e incapazes de ofender. “Quanto à malícia, sejam crianças” (1 Coríntios 14:20).

A prudência da serpente convém aos cristãos, mas não a astúcia da antiga serpente. Devemos também ser inofensivos como pombas. É sábio em sua simplicidade quem não sabe fazer coisa alguma contra a verdade.

Paulo cuidava ainda mais para que a igreja romana preservasse sua integridade porque ela era tão conhecida. Era uma cidade sobre um monte, e muitos olhos estavam sobre os cristãos dali. Um erro que prevalecesse ali abriria um mau precedente e exerceria influência nociva sobre outras igrejas.

De fato, foi o que aconteceu depois: a grande apostasia dos últimos dias teve origem naquela capital. Os erros das igrejas dirigentes acabam guiando outros ao erro. Quando o bispo de Roma caiu do céu como uma grande estrela (Apocalipse 8:10), sua cauda arrastou consigo a terça parte das estrelas (Apocalipse 12:4).

  1. A promessa de Deus de que ao final teremos vitória. Ela nos foi dada para vivificar e animar nosso zelo vigilante e nossos esforços vigorosos, não para substituí-los. É uma promessa muito doce (v. 20): “O Deus da paz esmagará Satanás debaixo dos pés de vocês”.

(1.) Os títulos que Paulo dá a Deus: “O Deus da paz”, autor e doador de todo bem. Quando buscamos em Deus vitórias espirituais, devemos vê-lo não apenas como o Senhor dos exércitos, a quem pertence todo o poder, mas como o Deus da paz: Deus em paz conosco, que nos anuncia paz, opera paz em nós e cria paz para nós.

A vitória vem de Deus mais como Deus da paz que como Deus da guerra, pois em todos os nossos conflitos devemos contender pela paz. Como Deus da paz, ele restringirá e vencerá todos os que causam divisões e escândalos e assim rompem e perturbam a paz da igreja.

(2.) A bênção que Paulo espera de Deus: a vitória sobre Satanás. Se com isso ele se refere primeiramente às falsas doutrinas e aos espíritos sedutores de que falou, cujo principal fundador e autor era Satanás, sem dúvida a promessa também abrange todos os outros desígnios e artifícios de Satanás contra as almas, para maculá-las, perturbá-las e destruí-las.

Abrange todas as suas tentativas de impedir que alcancemos a pureza do céu, a paz do céu aqui e a posse do céu no futuro. Satanás tenta e perturba, age como enganador e destruidor; o Deus da paz o esmagará debaixo de nossos pés.

Paulo os havia advertido antes contra a simplicidade. Conscientes de sua grande fraqueza e insensatez, poderiam pensar: “Como evitaremos e escaparemos das armadilhas preparadas para nós? Esses adversários de nossa alma não acabarão sendo fortes demais?”

“Não”, responde Paulo, “não temam. Embora não possam vencer com sua força e sabedoria, o Deus da paz vencerá em favor de vocês. E, por meio daquele que nos amou, seremos mais que vencedores.”

[1.] A vitória será completa: “Ele esmagará Satanás debaixo dos pés de vocês”. Há aqui clara alusão à primeira promessa que o Messias fez no paraíso (Gênesis 3:15): o descendente da mulher esmagaria a cabeça da serpente. Ela se cumpre todos os dias, quando os santos recebem capacidade para resistir às tentações de Satanás e vencê-las.

Será plenamente cumprida quando, apesar de todos os poderes das trevas, todos os que pertencem à eleição da graça forem levados triunfalmente à glória. Depois de conquistar os reis de Canaã, Josué chamou os chefes de Israel para pôr os pés sobre o pescoço desses reis (Josué 10:24).

Da mesma forma, Cristo, nosso Josué, capacitará todos os seus servos e soldados fiéis a pôr os pés no pescoço de Satanás, pisoteando seus inimigos espirituais e triunfando sobre eles. Cristo venceu em nosso favor: desarmou o valente armado e quebrou seu poder. Só precisamos prosseguir com a vitória e repartir os despojos.

Que isso nos anime no conflito espiritual, a combater o bom combate da fé. Enfrentamos um inimigo vencido, e a vitória logo será perfeita.

[2.] A vitória virá depressa: “Ele o fará em breve”. “Ainda um pouco, e aquele que há de vir virá.” Ele disse: “Eis que venho depressa”. Quando Satanás parece ter prevalecido e estamos prestes a considerar tudo perdido, o Deus da paz abreviará sua obra em justiça.

Os soldados se animam quando sabem que a guerra logo terminará com tamanho triunfo. Alguns aplicam essa promessa ao fim feliz das disputas dos romanos, em verdadeiro amor e unidade.

Outros a aplicam ao fim das perseguições contra a igreja pela conversão das autoridades do império ao cristianismo, quando os inimigos sanguinários da igreja foram subjugados e pisoteados por Constantino e pela igreja sob seu governo.

É melhor aplicá-la à vitória que todos os santos terão sobre Satanás ao chegar ao céu, quando estarão para sempre fora de seu alcance, juntamente com as vitórias que já obtêm aqui pela graça, como antecipação daquela.

Perseverem, portanto, fé e paciência, por mais um pouco. Quando atravessarmos o mar Vermelho, veremos nossos inimigos espirituais mortos na praia e cantaremos triunfalmente o cântico de Moisés e o cântico do Cordeiro.

Por isso Paulo acrescenta a bênção: “A graça de nosso Senhor Jesus Cristo seja com vocês”; a boa vontade de Cristo para com vocês e a boa obra de Cristo em vocês. Essa será a melhor proteção contra as armadilhas de hereges, cismáticos e falsos mestres.

Se a graça de Cristo está conosco, quem poderá prevalecer contra nós? Sejam, portanto, fortes na graça que há em Cristo Jesus. Paulo, não só como amigo, mas como ministro e apóstolo que recebera graça por graça, abençoa-os com autoridade e repete essa bênção no v. 24.

Versículos 21 a 24

Saudações Apostólicas. (d.C. 58.)

Antes, o Apóstolo enviara suas próprias saudações a muitos daquela igreja e, a todos, as saudações das igrejas ao seu redor. Aqui acrescenta a lembrança afetuosa de algumas pessoas que estavam com ele. Isso ajudaria a promover o conhecimento e a comunhão entre santos distantes e faria com que a assinatura desses nomes respeitados, conhecidos dos romanos, recomendasse ainda mais a epístola.

Ele menciona: 1. Alguns amigos pessoais, provavelmente conhecidos dos cristãos romanos: “Timóteo, meu cooperador”. Às vezes Paulo chama Timóteo de filho, considerando-o inferior; aqui, porém, trata-o como cooperador, em pé de igualdade, tamanha é a consideração que lhe demonstra.

E Lúcio, provavelmente Lúcio de Cirene, homem conhecido na igreja de Antioquia (Atos 13:1). Assim também Jasom era conhecido em Tessalônica, onde sofreu por hospedar Paulo (Atos 17:5, 6). E Sosípatro, que se supõe ser o mesmo Sópatro de Bereia mencionado em Atos 20:4.

Paulo os chama de parentes. Não apenas em sentido amplo, por serem judeus, mas porque tinham com ele um parentesco próximo, de sangue ou por afinidade. Ao que parece, Paulo vinha de uma boa família, pois encontrava tantos parentes em vários lugares. Ver a santidade e a utilidade dos nossos familiares é grande consolo.

  1. Aquele que serviu de escriba a Paulo (v. 22): “Eu, Tércio, que escrevi esta epístola”. Paulo empregou um escriba não por ostentação nem por preguiça, mas porque sua letra era ruim e difícil de ler. Ele se desculpa por isso ao escrever aos gálatas de próprio punho (Gálatas 6:11): pelikois grammasi, “com que tipo de letras”.

Talvez Tércio fosse o mesmo Silas, pois Silas, segundo alguns, significa “terceiro” em hebraico, assim como Tércio em latim. Ele ou escrevia o que Paulo ditava ou passava a limpo o rascunho de Paulo.

Nenhum serviço, por menor que seja, prestado à igreja e a seus ministros ficará sem lembrança e recompensa. Foi uma honra para Tércio ter participado, ainda que apenas como escriba, da redação desta epístola.

  1. Alguns outros conhecidos entre os cristãos (v. 23): “Gaio, meu hospedeiro”. Não se sabe ao certo se era Gaio de Derbe (Atos 20:4), Gaio da Macedônia (Atos 19:29) ou, mais provavelmente, Gaio de Corinto (1 Coríntios 1:14); nem se algum deles foi o destinatário da terceira epístola de João.

De qualquer modo, Paulo o elogia por sua grande hospitalidade. Não era hospedeiro apenas dele, mas de toda a igreja: recebia a todos quando havia necessidade, abria as portas para as reuniões da igreja e aliviava os demais membros ao acolher prontamente todos os cristãos de fora que chegavam.

Erasto, administrador da cidade, é outro. Paulo se refere a Corinto, de onde esta epístola foi datada. Ao que parece, Erasto ocupava posição honrosa e importante, um cargo público de intendente ou tesoureiro. “Não muitos poderosos, nem muitos nobres” são chamados, mas alguns o são.

Seus bens, honra e ocupação não o afastaram de aplicar-se a Paulo nem de se dedicar ao bem da igreja, aparentemente na obra do ministério. Ele é associado a Timóteo (Atos 19:22) e mencionado em 2 Timóteo 4:20. Não diminuía o administrador da cidade ser pregador do evangelho de Cristo.

Quarto também é mencionado e chamado irmão. Pois, assim como um só é nosso Pai, Cristo, todos nós somos irmãos.

Versículos 25 a 27

A Descrição do Evangelho; A Doxologia do Apóstolo. (d.C. 58.)

Aqui o apóstolo encerra solenemente a epístola com uma magnífica atribuição de glória ao Deus bendito. Ele terminava tudo com louvor e glória a Deus e procurava devolver-lhe todas as coisas, pois tudo é dele e vem dele. É como se, ao louvar a Deus, exalasse a alma diante dos romanos, escolhendo encerrar a epístola com aquilo que fizera ser o objetivo de sua vida. Observe aqui:

I. Uma descrição do evangelho de Deus, inserida entre parênteses. Paulo o menciona como meio pelo qual o poder de Deus firma as almas e como regra dessa firmeza: “Para firmá-los segundo o meu evangelho”. Chama-o seu evangelho porque era seu pregador e porque nele tanto se gloriava.

Alguns pensam que ele se refere especialmente à exposição, explicação e aplicação da doutrina do evangelho que acabara de fazer nesta epístola. É mais provável, porém, que inclua toda a pregação e os escritos dos apóstolos, entre os quais Paulo era um dos principais trabalhadores: “Pela palavra deles” (João 17:20), a palavra que lhes foi confiada.

Os ministros são os embaixadores, e o evangelho é a mensagem que levam. Paulo tinha a mente e o coração tão cheios do evangelho que mal podia mencioná-lo sem fazer uma digressão para expor sua natureza e excelência.

  1. É a pregação de Jesus Cristo. O próprio Cristo foi seu pregador: “Começou a ser anunciado pelo Senhor” (Hebreus 2:3). Cristo tinha tanto prazer na obra que assumiu para nossa salvação que quis ser ele mesmo quem a proclamasse.

Ou Cristo é o assunto do evangelho: seu resumo e sua substância são Jesus Cristo, e este crucificado. “Não pregamos a nós mesmos”, diz Paulo, “mas Cristo Jesus, o Senhor”. O que firma as almas é a pregação clara de Jesus Cristo.

  1. É a revelação do mistério mantido em segredo desde o princípio do mundo e dado a conhecer pelos escritos dos profetas. O assunto do evangelho é um mistério. Nossa redenção e salvação por Jesus Cristo, em seus fundamentos, seu método e seus frutos, são, sem controvérsia, um grande mistério da piedade (1 Timóteo 3:16).

Isso demonstra a honra do evangelho. Ele não é algo comum ou vulgar, elaborado pelo engenho de algum homem, mas produto admirável da sabedoria e do conselho eternos de Deus. Contém uma altura inconcebível e uma profundidade insondável, que ultrapassam o conhecimento. É um mistério em que os anjos desejam olhar e cujo fundo não conseguem alcançar.

Ainda assim, bendito seja Deus, tanto desse mistério foi esclarecido quanto basta para nos conduzir ao céu, se não negligenciarmos deliberadamente tão grande salvação. Agora:

(1.) Esse mistério foi mantido em segredo desde o princípio do mundo: chronois aioniois sesigemenou. Estava envolto em silêncio desde a eternidade, segundo alguns: a temporibus æternis. Não é ideia nova nem invenção recente; surgiu nos dias da eternidade e nos propósitos do amor eterno de Deus.

Antes da fundação do mundo, o mistério estava oculto em Deus (Efésios 3:9). Ou, como traduzimos, estava oculto desde o princípio do mundo. Durante todo o período do Antigo Testamento, ficou relativamente encoberto nos tipos e sombras da lei cerimonial e nas profecias obscuras dos profetas.

Essas coisas apontavam para o mistério, mas de modo que as pessoas não podiam olhar firmemente para seu fim (2 Coríntios 3:13). Assim, permaneceu oculto por eras e gerações, até entre os judeus, quanto mais entre os gentios, que se sentavam nas trevas e dele não tinham notícia alguma.

Até os próprios discípulos de Cristo, antes de sua ressurreição e ascensão, compreendiam muito pouco o mistério da redenção; sua ideia a respeito dele era obscura e confusa. Por tantos séculos permaneceu esse segredo. Mas:

(2.) Agora ele foi manifestado. O véu se rasgou, as sombras da tarde desapareceram, a vida e a imortalidade foram trazidas à luz pelo evangelho, e o Sol da justiça raiou sobre o mundo.

Paulo não alega ser o único a conhecer essa revelação, como se ela lhe pertencesse exclusivamente. Não; foi manifestada também a muitos outros. Mas como isso se deu por meio dos escritos dos profetas? Certamente porque o desfecho forneceu agora a melhor explicação das profecias do Antigo Testamento. Cumpridas, elas são compreendidas.

A pregação dos profetas, na medida em que dizia respeito a esse mistério, era bastante obscura e incompreensível nos tempos em que viveram. Seus escritos, porém, aquilo que deixaram registrado, não só se tornaram claros em si mesmos, como por meio deles o mistério agora é dado a conhecer a todas as nações.

O Antigo Testamento não apenas recebe luz da revelação do Novo, mas também lança luz sobre ela. Se o Novo Testamento explica o Antigo, o Antigo, em retribuição, esclarece muito o Novo. Desse modo, os profetas do Antigo Testamento profetizam novamente, agora que suas profecias se cumpriram, diante de muitos povos, nações e línguas.

Refiro-me a Apocalipse 10:11, que esta passagem explica. Agora se vê que Cristo era o tesouro escondido no campo do Antigo Testamento. Todos os profetas dão testemunho dele. Veja Lucas 24:27.

(3.) Foi manifestado segundo a ordem do Deus eterno: o propósito, o conselho e o decreto de Deus desde a eternidade, bem como a comissão e a designação dadas primeiro a Cristo e depois aos apóstolos na plenitude do tempo. Eles receberam do Pai a ordem de fazer o que fizeram ao pregar o evangelho.

Alguém poderia objetar: “Por que esse mistério foi mantido em segredo por tanto tempo e por que agora foi manifestado?” Paulo atribui tudo à vontade de Deus, soberano absoluto que não presta contas de nenhum de seus atos. A ordem do Deus eterno bastava para sustentar os apóstolos e ministros na pregação do evangelho.

O Deus eterno. Esse atributo da eternidade é dado a Deus aqui de modo enfático. [1.] Ele existe desde sempre. Isso indica que, embora tivesse guardado o mistério desde o princípio do mundo e só recentemente o revelado, já o havia formado e maquinado desde a eternidade, antes que existissem os mundos.

Os juramentos e as alianças da palavra escrita são apenas a cópia do juramento e da aliança firmados entre o Pai e o Filho desde a eternidade: os primeiros são os extratos; estes, o original.

[2.] Ele existirá para sempre, o que indica a continuidade eterna para nós. Nunca devemos esperar outra revelação, mas permanecer nesta, pois está de acordo com a ordem do Deus eterno. Cristo, no evangelho, é o mesmo ontem, hoje e para sempre.

(4.) O mistério é dado a conhecer a todas as nações para a obediência da fé. Paulo muitas vezes observa o alcance dessa revelação. Antes, Deus era conhecido apenas em Judá; agora Cristo é salvação até os confins da terra, para todas as nações.

Seu desígnio também merece atenção: ela é dada para a obediência da fé, para que as pessoas creiam e obedeçam ao evangelho, recebam-no e sejam governadas por ele. O evangelho não foi revelado para servir de assunto de conversa e disputa, mas para que nos sujeitemos a ele.

A obediência da fé é a obediência prestada à palavra da fé (veja essa expressão em Atos 6:7) e produzida pela graça da fé. Veja o que é a fé verdadeira: aquela que se manifesta em obediência. E o que é a obediência verdadeira: a que nasce da fé. Esse é o desígnio do evangelho: levar-nos a ambas.

II. Uma doxologia ao Deus a quem pertence o evangelho. Paulo lhe atribui glória para sempre (v. 27), reconhecendo que ele é um Deus glorioso e adorando-o com os sentimentos mais reverentes. Deseja e anseia por unir-se aos santos anjos nessa obra, que realizaremos eternamente. Isso é louvar a Deus: atribuir-lhe glória para sempre. Observe:

  1. O conteúdo desse louvor. Ao agradecer a Deus, concentramos nossa atenção nos favores que recebemos dele. Ao louvá-lo e adorá-lo, concentramos a atenção em suas perfeições próprias. Dois de seus principais atributos são destacados aqui:

(1.) Seu poder (v. 25): “Àquele que tem poder para firmá-los”. É preciso nada menos que o poder divino para firmar os santos. Considere sua tendência a cair, o esforço dos inimigos espirituais para derrubá-los e os tempos turbulentos em que vivem: só o poder onipotente pode firmá-los.

Esse poder de Deus, empregado para firmar os santos, é e deve ser objeto de nosso louvor, como em Judas 1:24: “Àquele que é capaz de guardá-los de cair”. Ao dar a Deus a glória por seu poder, podemos e devemos receber dele consolo. Sejam quais forem nossas dúvidas, dificuldades e temores, o Deus a quem servimos tem poder para nos firmar. Veja 1 Pedro 1:5; João 10:29.

(2.) Sua sabedoria (v. 27): “Ao único Deus sábio”. Poder para executar sem sabedoria para maquinar e sabedoria para maquinar sem poder para executar são igualmente vãos e inúteis. Juntos e infinitos, porém, esses atributos constituem um ser perfeito.

Só ele é sábio. Não se trata de dizer que somente o Pai é sábio e excluir o Filho, mas que Pai, Filho e Espírito Santo, três pessoas e um só Deus, são o único Deus sábio em comparação com as criaturas. O homem, o mais sábio dos seres do mundo inferior, nasce como cria de jumento selvagem. Ou melhor, até os anjos são acusados de insensatez quando comparados com Deus.

Só Deus possui sabedoria perfeita e infalível. Só ele é sábio originalmente, em si e por si mesmo, pois é a nascente e a fonte de toda a sabedoria das criaturas, o Pai de todas as luzes de sabedoria que qualquer criatura possa alegar possuir (Tiago 1:17). Com ele estão a força e a sabedoria; tanto o enganado quanto o enganador lhe pertencem.

  1. O Mediador desse louvor: “Por Jesus Cristo”. Alguns entendem: “Ao único Deus sábio por Jesus Cristo”. É em Cristo e por meio dele que Deus se revela ao mundo como o único Deus sábio, pois Cristo é a sabedoria e o poder de Deus.

Ou melhor, como lemos: glória por Jesus Cristo. Toda glória oferecida pelo homem caído a Deus, para que seja aceita, deve passar pelas mãos do Senhor Jesus. Só nele nossas pessoas e nossas obras são, ou podem ser, agradáveis a Deus.

Portanto, devemos mencionar a justiça dele, somente a dele. Assim como é o Mediador de todas as nossas orações, é também e, creio eu, será por toda a eternidade, o Mediador de todos os nossos louvores.


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