Matthew Henry

Romanos 13

Argumento

Neste capítulo, são-nos ensinadas três boas lições. Ele desenvolve seus preceitos mais amplamente do que no capítulo anterior, pois considera mais necessário insistir neles por completo.

I. Uma lição de sujeição à autoridade legítima (vv. 1-6).

II. Uma lição de justiça e amor aos nossos irmãos (vv. 7-10).

III. Uma lição de sobriedade e piedade em nós mesmos (v. 11 até o fim).

Versículos 1 a 6

A Obediência aos Magistrados Reforçada. (d.C. 58.)

Aqui nos é ensinado como nos conduzir diante dos magistrados e daqueles que exercem autoridade sobre nós. São chamados de “autoridades superiores”, expressão que indica tanto sua autoridade, pois são autoridades, quanto sua dignidade, pois são superiores. Incluem não apenas o rei, como autoridade suprema, mas todos os magistrados inferiores a ele.

Ainda assim, a expressão não se refere às pessoas que exercem o poder, mas ao próprio posto que ocupam. Por mais perversas que sejam, ainda que estejam entre os homens vis que o cidadão de Sião despreza (Salmos 15:4), é preciso sujeitar-se à autoridade legítima que detêm e obedecer a ela.

No capítulo anterior, o apóstolo nos ensinou a não nos vingarmos nem retribuirmos mal por mal. Para que não parecesse que isso anulava entre os cristãos a instituição da magistratura civil, ele aproveita a ocasião para afirmar sua necessidade e a de punir devidamente os malfeitores, ainda que isso possa parecer retribuir mal por mal. Observe:

I. O dever ordenado: “Toda alma esteja sujeita”. Toda alma, isto é, toda pessoa, sem exceção, inclusive os clérigos, que se chamam pessoas espirituais. A igreja de Roma, porém, não apenas os isenta da sujeição às autoridades civis como os coloca acima delas, submetendo ao papa os maiores príncipes. Assim ele se exalta acima de tudo o que se chama Deus.

Toda alma. Isso não significa que devamos sujeitar nossa consciência à vontade de algum homem. Fazer leis que vinculem diretamente a consciência é prerrogativa de Deus, e devemos dar a Deus o que é de Deus. Mas indica que nossa sujeição deve ser livre e voluntária, sincera e de coração.

“Não amaldiçoes o rei, nem mesmo em teu pensamento” (Eclesiastes 10:20). Conceber e planejar a traição é começá-la.

A sujeição da alma exigida aqui inclui honra interior (1 Pedro 2:17) e reverência e respeito exteriores, tanto ao falar com as autoridades como ao falar delas. Inclui obedecer às suas ordens em tudo o que é lícito e honesto e, nas outras coisas, suportar pacientemente a pena sem resistência.

Significa conformar-se em tudo à posição e ao dever de súdito, ajustando a mente à relação e à condição de inferioridade e subordinação. “Elas são autoridades superiores; aceite que o sejam e sujeite-se a elas de acordo com isso.” Havia bons motivos para insistir nesse dever de sujeição aos magistrados civis:

  1. A religião cristã era difamada no mundo como inimiga da paz, da ordem e do governo públicos, como seita que virava o mundo de cabeça para baixo. Seus adeptos eram tidos como inimigos de César, sobretudo porque seus líderes eram galileus. Era uma velha calúnia: Jerusalém fora apresentada como cidade rebelde, nociva a reis e províncias (Esdras 4:15, 16).

Nosso Senhor Jesus foi difamado do mesmo modo, embora lhes dissesse que seu reino não era deste mundo. Não admira, pois, que seus seguidores tenham sido atingidos em todas as épocas por calúnias semelhantes. Chamaram-nos facciosos, sediciosos e turbulentos e os consideraram perturbadores da terra.

Seus inimigos acharam necessário descrevê-los assim para justificar a própria fúria bárbara contra eles. Por isso, para refutar a calúnia e dela inocentar o cristianismo, o apóstolo mostra que obedecer aos magistrados civis é uma das leis de Cristo, cuja religião ajuda a formar bons súditos.

Era muito injusto atribuir ao cristianismo facção e rebelião, tão diretamente contrárias a seus princípios e regras.

  1. Os cristãos estavam sujeitos à tentação de adotar outra atitude diante dos magistrados civis. Alguns eram judeus de origem e, portanto, traziam arraigado o princípio de que não convinha a um descendente de Abraão sujeitar-se a alguém de outra nação: seu rei devia ser um de seus irmãos (Deuteronômio 17:15).

Além disso, Paulo lhes ensinara que não estavam sob a lei e que Cristo os libertara. Para que essa liberdade não se transformasse em libertinagem nem fosse interpretada como apoio à facção e à rebelião, o apóstolo ordena a obediência ao governo civil.

Era ainda mais necessário insistir nisso porque os magistrados eram pagãos e incrédulos, o que, contudo, não lhes retirava o poder e a autoridade civis. Além disso, as autoridades civis perseguiam os cristãos; o conjunto das leis lhes era contrário.

II. Os motivos para reforçar esse dever. Por que devemos estar sujeitos?

  1. Por causa da cólera, isto é, do perigo a que nos expomos ao resistir. Os magistrados trazem a espada, e opor-se a eles é arriscar tudo o que nos é precioso neste mundo, pois é inútil contender com quem traz a espada.

Naqueles tempos de perseguição, os cristãos já estavam expostos à espada dos magistrados por causa de sua religião. Não precisavam expor-se ainda mais por meio da rebelião. A menor aparência de resistência ou sedição num cristão seria logo exagerada e explorada, causando grande prejuízo a toda a comunidade.

Portanto, mais do que os outros, precisavam ser rigorosos em sua sujeição, para que aqueles que tinham tantas acusações contra eles no tocante a seu Deus não achassem outro motivo de acusação. A esse ponto pertence a razão apresentada no v. 2: “Os que resistem receberão sobre si a condenação”; krima lepsontai, serão chamados a prestar contas.

Deus lhes pedirá contas, pois resistir às autoridades é afrontá-lo; os magistrados também lhes pedirão contas.

Cairão sob o rigor da lei e descobrirão que as autoridades superiores são elevadas demais para serem pisadas. Todos os governos civis, com justiça, tratam a traição e a rebelião com rigor e severidade. Por isso se segue, no v. 3: “Os governantes são um terror”. É uma boa razão, embora de ordem inferior para um cristão.

  1. Devemos sujeitar-nos não apenas por causa da cólera, mas também por causa da consciência. O motivo não deve ser tanto formidine poenæ, por medo da punição, como virtutis amore, por amor à virtude.

É isso que torna os deveres civis comuns agradáveis a Deus: cumpri-los por consciência, tendo em vista a Deus, sua providência, que nos colocou nessas relações, e seu preceito, que fez da sujeição um dever correspondente a elas.

A mesma ação, portanto, pode nascer de princípios muito diferentes. Para obrigar a consciência a essa sujeição, Paulo argumenta nos vv. 1-4, 6:

(1.) Com base na instituição da magistratura: “Não há autoridade senão da parte de Deus”. Deus, como regente e governante do mundo, designou a instituição da magistratura. Assim, todo poder civil deriva dele como sua origem, e sua providência confiou a administração desse poder às pessoas que o detêm, sejam elas quem forem. Por ele reinam os reis (Provérbios 8:15).

A usurpação e o abuso do poder não vêm de Deus, pois ele não é autor do pecado; o poder em si, porém, vem dele. Assim como nossas capacidades naturais procedem do poder criador de Deus, embora sejam frequentemente usadas como instrumentos do pecado, os poderes civis procedem de seu poder governante.

Até os príncipes mais injustos e opressores do mundo só possuem o poder que lhes foi dado do alto (João 19:11). A providência divina se ocupa de modo especial das mudanças e revoluções dos governos, que exercem tamanha influência sobre Estados, reinos, inúmeras pessoas e comunidades menores.

Ou a passagem pode referir-se ao governo em geral. É uma demonstração da sabedoria, do poder e da bondade de Deus na condução da humanidade o fato de ter disposto os homens num estado em que se distinguem governantes e governados. Não os deixou como os peixes do mar, entre os quais os maiores devoram os menores. Nisso, olhou pelo benefício de suas criaturas.

“As autoridades existentes”: qualquer que seja a forma e o modo particular de governo, seja monarquia, aristocracia ou democracia, onde quer que esteja o poder de governar, ele é uma instituição de Deus e deve ser recebido e respeitado como tal. Ainda que seja, diretamente, uma instituição humana (1 Pedro 2:13), em sua origem é uma instituição divina.

“Ordenadas por Deus”, tetagmenai: termo militar que significa não apenas a ordenação dos magistrados, mas também a subordinação dos magistrados inferiores ao supremo, como num exército. Entre os magistrados há diversidade de dons, responsabilidades e serviços.

Daí se segue (v. 2) que “quem resiste à autoridade resiste à ordenação de Deus”. Há outras coisas que vêm de Deus e constituem grandes calamidades; a magistratura, porém, vem de Deus como instituição. Isso significa que ela é uma grande lei e uma grande bênção.

Assim, os filhos de Belial, que não suportam o jugo do governo, serão vistos como transgressores de uma lei e desprezadores de uma bênção. Por isso os magistrados são chamados deuses (Salmos 82:6), pois representam a autoridade de Deus. Aqueles que desprezam o poder deles afrontam o próprio Deus.

Isso de modo algum se aplica aos direitos particulares dos reis e dos reinos ou aos elementos de sua constituição. Tampouco se pode extrair daqui uma regra segura para formular os contratos originais entre governantes e governados.

A passagem se destina a orientar as pessoas em sua condição particular a se conduzirem com tranquilidade e paz na esfera em que Deus as colocou. Devem prestar a devida consideração às autoridades civis que, em sua providência, Deus estabeleceu sobre elas (1 Timóteo 2:1, 2).

Os magistrados são repetidamente chamados aqui de ministros de Deus: “É ministro de Deus” (v. 4, 6). São servos de Deus de modo especial; a dignidade que recebem traz consigo deveres. Embora sejam senhores em relação a nós, são servos em relação a Deus: têm trabalho a realizar para ele e contas a lhe prestar.

É ao administrar a justiça pública, resolver desavenças, proteger os inocentes, fazer justiça aos prejudicados, punir os infratores e preservar a paz e a ordem nacionais, para que ninguém faça o que é certo a seus próprios olhos, que os magistrados atuam como ministros de Deus.

Assim como matar um magistrado inferior enquanto cumpre seu dever é considerado traição contra o príncipe, resistir a qualquer magistrado no cumprimento das funções de seu cargo é resistir a uma instituição de Deus.

(2.) Com base no propósito da magistratura: “Os governantes não são terror para as boas obras, mas para as más”, e assim por diante. A magistratura foi estabelecida para ser:

[1.] Um terror para as más obras e para os malfeitores. Os magistrados trazem a espada, não só a espada da guerra, mas também a da justiça. São aqueles de quem vem a restrição que envergonha os infratores; Laís não contava com tais pessoas (Juízes 18:7).

Tão grande é o poder do pecado e da corrupção que muitos não deixam de cometer os piores excessos, os mais prejudiciais à sociedade humana, por respeito à lei de Deus e da natureza ou por temor da cólera futura. Só os detém o medo das punições temporais, que a obstinação e a perversidade da humanidade decaída tornaram necessárias.

Daí se vê que as nações cristãs precisam instituir leis com penas para os transgressores e desobedientes (1 Timóteo 1:9). Tais leis concordam com o evangelho, em vez de contrariá-lo. Quando os homens se tornam feras tão vorazes uns para os outros, é preciso tratá-los de acordo: prendê-los e destruí-los in terrorem, para dissuadir os demais.

Assim é preciso conter o cavalo e a mula com freio e rédeas. Nessa obra, o magistrado é ministro de Deus (v. 4). Age como representante daquele a quem pertence a vingança. Por isso deve tomar cuidado para não introduzir em seus julgamentos ressentimentos pessoais.

“Para executar a cólera contra aquele que pratica o mal.” Nisso, os processos judiciais dos magistrados mais vigilantes e fiéis, embora sejam uma leve semelhança e um prenúncio dos julgamentos do grande dia, ficam muito aquém do julgamento de Deus. Alcançam apenas o ato mau e só podem executar a cólera sobre quem pratica o mal.

O julgamento de Deus, porém, alcança o pensamento mau e discerne as intenções do coração. “Não traz a espada em vão”: não foi sem motivo que Deus colocou tamanho poder nas mãos do magistrado; destinou-o a restringir e reprimir as desordens.

Portanto: “Se você praticar o mal, sujeito ao conhecimento e à censura do magistrado civil, tema, pois as autoridades civis têm olhos atentos e braços longos”. É bom que a punição dos malfeitores seja administrada como instituição de Deus, por ele estabelecida e designada:

Primeiro, como Deus santo que odeia o pecado, contra o qual se presta assim testemunho público quando ele se manifesta e ergue a cabeça.

Segundo, como Rei das nações e Deus da paz e da ordem, que por esse meio são preservadas.

Terceiro, como protetor dos bons, cujas pessoas, famílias, propriedades e reputações são assim resguardadas.

Quarto, como aquele que não deseja a ruína eterna dos pecadores, mas quer, pela punição de alguns, atemorizar os demais e impedir maldades semelhantes, para que outros ouçam, temam e não continuem agindo presunçosamente.

Ou melhor, também se pretende fazer um bem aos punidos: pela destruição da carne, seu espírito pode ser salvo no dia do Senhor Jesus.

[2.] Um motivo de louvor para os que fazem o bem. Quem permanece no caminho do dever receberá a aprovação e a proteção das autoridades civis, para sua honra e consolo.

“Faça o bem” (v. 3) “e você não precisará temer a autoridade. Embora cause temor, ela só alcança aqueles que por seu próprio pecado se expõem a ela; o fogo só queima o que é inflamável. Ou melhor: você receberá louvor dela.”

Esse é o propósito da magistratura. Por isso, por consciência, devemos sujeitar-nos a ela como instituição destinada ao bem público, diante do qual todos os interesses particulares devem ceder.

É lamentável, porém, que tão bondoso propósito seja pervertido e que aqueles que trazem a espada, ao mesmo tempo que apoiam e toleram o pecado, se tornem um terror para quem faz o bem. Isso acontece quando os homens mais vis são exaltados (Salmos 12:1, 8).

Ainda assim, mesmo então, a bênção e o benefício de uma proteção comum, junto com a existência de governo e ordem, são tais que nosso dever é suportar pacientemente a perseguição por fazer o bem, em vez de tentar remediá-la por práticas irregulares e desordenadas.

Nenhum príncipe soberano jamais perverteu os fins do governo como Nero. Ainda assim, Paulo apelou a ele e, sob seu governo, recebeu mais de uma vez a proteção da lei e de magistrados inferiores. Melhor um mau governo que nenhum governo.

(3.) Com base em nosso interesse nele: “Ele é ministro de Deus para o seu bem. Você recebe os benefícios e vantagens do governo; portanto, deve fazer o que puder para preservá-lo e nada para perturbá-lo.” A proteção exige lealdade. Se recebemos proteção do governo, devemos sujeitar-nos a ele; ao sustentá-lo, mantemos a cerca que nos protege.

Também se anui a essa sujeição pelo tributo que pagamos (v. 6): “É por isso que vocês pagam tributo, como testemunho de sua sujeição e reconhecimento de que, em consciência, julgam devido pagá-lo. Ao pagar impostos, vocês contribuem com sua parte para sustentar a autoridade.”

“Se, portanto, não se sujeitam, derrubam com uma mão o que sustentam com a outra. Isso é agir segundo a consciência?”

“Ao pagar tributo, vocês reconhecem não apenas a autoridade do magistrado, mas a bênção que ela representa para vocês. Testemunham essa consciência ao recompensá-lo pelo grande esforço que dedica ao governo, pois a honra é um fardo.”

“Se ele cumpre seu dever, ocupa-se continuamente dessa mesma tarefa, suficiente para consumir todos os pensamentos e todo o tempo de um homem. Em consideração a esse trabalho cansativo, pagamos tributo e devemos estar sujeitos.”

“Pagais tributo”, phorous seleite. Paulo não diz: “Vocês o dão como esmola”, mas: “Vocês o pagam como dívida justa, ou o emprestam para recebê-lo de volta em todas as bênçãos e vantagens do governo público de que se beneficiam”.

Essa é a lição ensinada pelo apóstolo. Convém a todos os cristãos aprendê-la e praticá-la, para que os piedosos na terra sejam reconhecidos, quaisquer que sejam os outros, como pessoas tranquilas e pacíficas.

Versículos 7 a 10

A Justiça e a Caridade. (d.C. 58.)

Aqui nos é ensinada uma lição de justiça e caridade.

I. De justiça (v. 7): “Dai, pois, a todos o que lhes é devido”, especialmente aos magistrados, pois isso se refere ao que veio antes; e também a todos com quem nos relacionamos. Ser justo é dar a cada um o que lhe é devido, dar a todos o que lhes pertence. O que possuímos nos foi confiado para administrar; outros têm direito a uma parte, e devemos dar-lhes o que lhes é devido.

“Dê a Deus, em primeiro lugar, o que lhe é devido; depois, a si mesmo, à sua família, aos seus parentes, à comunidade, à igreja, aos pobres e àqueles com quem negocia, comprando, vendendo, trocando e assim por diante. Dê a todos o que lhes é devido, pronta e alegremente, sem esperar até ser obrigado pela lei.” Paulo especifica:

  1. Os impostos devidos: “Tributo a quem se deve tributo, imposto a quem se deve imposto”. Naquele tempo, a maioria dos países onde o evangelho fora anunciado estava sob o jugo romano e havia se tornado província do império. Paulo escreveu isso aos romanos que, embora ricos, sofriam pesada cobrança de tributos e encargos. O apóstolo aqui insiste em seu pagamento justo e honesto.

Alguns distinguem entre tributo e imposto. Entendem o primeiro como tributos constantes e regulares, e o segundo como cobranças ocasionais. Ambos devem ser pagos fiel e conscienciosamente quando se tornam legalmente devidos. Nosso Senhor nasceu quando sua mãe foi para o recenseamento tributário; e ele ordenou que se pagasse tributo a César.

Muitos que em outras questões parecem justos, contudo, não fazem disso uma questão de consciência. Escusam-se com a máxima falsa e detestável de que praticar um embuste contra o rei não é pecado, o que contradiz diretamente a regra de Paulo: “Tributo a quem se deve tributo”.

  1. O respeito devido: “Temor a quem se deve temor; honra a quem se deve honra”. Isso resume o dever que temos não só para com os magistrados, mas para com todos os nossos superiores: pais, senhores e todos os que presidem sobre nós no Senhor, conforme o quinto mandamento: “Honra teu pai e tua mãe”.

Compare com Levítico 19:3: “Cada um de vós temerá a sua mãe e o seu pai”. Não se trata de um temor de espanto, mas de um temor afetuoso, reverente, respeitoso e obediente. Onde não há esse respeito de coração pelos superiores, nenhum outro dever será cumprido corretamente.

  1. O pagamento das dívidas devidas (v. 8): “A ninguém devais coisa alguma”; isto é, não permaneçam devendo a alguém quando têm condições de pagar, a menos que o credor anua, ao menos tacitamente.

Deem a cada um o que lhe pertence. Não gastem consigo mesmos o que devem aos outros. “O ímpio toma emprestado e não paga” (Salmos 37:21). Muitos sentem intensamente o incômodo das dívidas, mas pouco consideram o pecado de estar endividados.

II. De caridade: “A ninguém devais coisa alguma”; opheilete, “não deveis coisa alguma a ninguém”, conforme a leitura de alguns. “Tudo o que devemos a qualquer pessoa com quem temos algum vínculo ou relação está, de modo especial, resumido e incluído na dívida de amor. Mas amar uns aos outros é uma dívida que devemos pagar continuamente e que nunca deixamos de dever.”

O amor é uma dívida. Assim o determinam a lei de Deus e o interesse da humanidade. Não é matéria deixada à nossa escolha, mas um dever ordenado, princípio e resumo de tudo o que devemos uns aos outros. “O amor é o cumprimento da lei”; não de modo perfeito, mas constitui um bom passo nessa direção.

Abrange todos os deveres da segunda tábua, que Paulo especifica no v. 9 e que pressupõem o amor a Deus. Veja 1 João 4:20. Se o amor é sincero, é aceito como cumprimento da lei. Certamente servimos a um bom senhor, que resumiu todo o nosso dever numa só palavra, curta e doce: amor, a beleza e a harmonia do universo.

Amar e ser amado constitui todo o prazer, a alegria e a felicidade de um ser inteligente. “Deus é amor” (1 João 4:16), e o amor é a imagem dele na alma. Onde o amor está presente, a alma está bem formada, e o coração, preparado para toda boa obra. Para provar que o amor cumpre a lei, Paulo apresenta:

  1. Uma enumeração de preceitos específicos (v. 9). Ele menciona os últimos cinco dos dez mandamentos, todos resumidos, segundo observa, nesta lei régia: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo”. O “como” se refere à qualidade, não à igualdade: “com a mesma sinceridade com que você ama a si mesmo, embora não na mesma medida nem no mesmo grau”.

Quem ama o próximo como a si mesmo deseja o bem do corpo, dos bens e da boa reputação dele, como deseja o próprio bem. Sobre isso se baseia a regra de ouro de fazer aos outros o que queremos que nos façam.

Mesmo sem as restrições das leis humanas nessas questões e sem as punições por sua transgressão, que a maldade da natureza humana tornou necessárias, a lei do amor bastaria para impedir todas essas injustiças e injúrias e preservar entre nós a paz e a boa ordem.

Ao enumerar esses mandamentos, o apóstolo coloca o sétimo antes do sexto e o menciona primeiro: “Não adulterarás”. Embora o adultério costume receber o nome de amor, e é lamentável que palavra tão boa seja assim deturpada, na verdade viola o amor tanto quanto matar e roubar.

Isso mostra que o verdadeiro amor fraternal é, em primeiro lugar, amor pela alma dos nossos irmãos. Quem atrai outros ao pecado e macula a mente e a consciência deles, embora alegue o amor mais apaixonado (Provérbios 7:15, 18), na realidade os odeia, como o diabo, que faz guerra contra a alma.

  1. Uma regra geral sobre a natureza do amor fraternal: “O amor não faz mal” (v. 10). Quem anda em amor, movido e governado por esse princípio, não faz mal. Não pratica nem maquina mal algum contra o próximo ou contra qualquer pessoa com quem tenha relação: ouk ergazetai. Planejar o mal é, na prática, realizá-lo.

Por isso, maquinar a iniquidade é chamado de fazer o mal sobre a cama (Miquéias 2:1). O amor não pretende nem planeja mal algum contra ninguém. Rejeita por completo fazer o que possa causar prejuízo, ofensa ou dor a outra pessoa.

“O amor não faz mal” significa que proíbe praticar qualquer mal. Há mais aqui do que as palavras expressam: além de não fazer mal, o amor faz todo o bem possível e planeja coisas generosas. É pecado não apenas maquinar o mal contra o próximo, mas também reter o bem devido a alguém; ambas as coisas são proibidas juntas (Provérbios 3:27-29).

Isso prova que o amor cumpre a lei e alcança todo o seu objetivo. Afinal, o que é esse objetivo senão impedir-nos de praticar o mal e constranger-nos a fazer o bem? O amor é um princípio vivo e ativo de obediência à lei inteira. Se a lei do amor está no coração, toda a lei está escrita nele.

Versículos 11 a 14

O Guia do Cristão. (d.C. 58.)

Aqui nos é ensinada uma lição de sobriedade e piedade em nós mesmos. Nosso principal zelo deve ser olhar para nós mesmos. Quatro coisas nos são ensinadas como guia do cristão para o trabalho diário: quando despertar, como nos vestir, como andar e que provisões fazer.

I. Quando despertar: “Já é hora de despertar” (v. 11). Despertar do sono do pecado, pois o estado pecaminoso é um estado de sono; do sono da segurança carnal, da preguiça e da negligência; do sono da morte espiritual e da insensibilidade espiritual. Tanto as virgens prudentes quanto as insensatas cochilaram e adormeceram (Mateus 25:5).

Precisamos ser frequentemente despertados e estimulados. A palavra de ordem para todos os discípulos de Cristo é: “Vigiem”. “Desperte: preocupe-se com sua alma e seu destino eterno; tome cuidado com o pecado; esteja pronto para o bem e empenhe-se nele; viva esperando constantemente a vinda de nosso Senhor. Considere:”

  1. “O tempo em que vivemos: ‘Conhecendo o tempo’. Considere que horas são para nós e verá que já é hora de despertar. É o tempo do evangelho, o tempo aceitável, o tempo de trabalhar. É um tempo em que se espera mais de nós do que se esperava nos tempos daquela ignorância que Deus tolerou, quando as pessoas estavam sentadas nas trevas.”

“Já é hora de despertar, pois o sol nasceu há muito tempo e brilha em nosso rosto. Temos essa luz para dormir sob ela? Veja 1 Tessalonicenses 5:5, 6. Já é hora de despertar, pois outros ao nosso redor estão acordados e de pé.”

“Saibam que este é um tempo de intensa atividade. Temos muito trabalho a fazer, e nosso Mestre nos chama repetidamente para ele. Saibam também que é um tempo perigoso: estamos cercados de inimigos e armadilhas. Já é hora de despertar, pois os filisteus estão sobre nós; a casa de nosso vizinho está em chamas, e a nossa corre perigo.”

“É hora de despertar, pois já dormimos o suficiente (1 Pedro 4:3); já passou da hora, pois eis que vem o noivo.”

  1. “A salvação de que estamos próximos: ‘Agora nossa salvação está mais perto do que quando cremos’, isto é, do que quando cremos pela primeira vez e passamos a professar o cristianismo. A felicidade eterna que escolhemos como nossa herança está agora mais perto do que quando nos tornamos cristãos.”

“Prestemos atenção ao caminho e aceleremos o passo, pois estamos mais perto do fim da viagem do que quando tínhamos nosso primeiro amor. Quanto mais perto estamos do centro, mais rápido deve ser nosso movimento.”

“Se só há um passo entre nós e o céu, seremos tão lentos e apáticos em nossa caminhada cristã? Mover-nos-emos com tanto peso? Quanto mais os dias se abreviam e quanto mais a graça aumenta, mais perto está nossa salvação, e mais rápidos e vigorosos devem ser nossos movimentos espirituais.”

II. Como nos vestir. Esse é o cuidado seguinte quando já despertamos e nos levantamos: “A noite está muito avançada, e o dia está próximo; portanto, é hora de nos vestirmos. Em breve serão feitas revelações mais claras da graça do evangelho do que as já feitas, à medida que a luz avança.”

“A noite da fúria e crueldade dos judeus está quase no fim. Seu poder de perseguir está perto do fim, e aproxima-se o dia de nossa libertação deles, aquele dia da redenção prometido por Cristo (Lucas 21:28). O dia de nossa salvação completa, na glória celestial, também está próximo. Observe, então:”

  1. “O que devemos tirar: tiremos nossas roupas de dormir, com as quais seria vergonhoso aparecer em público: ‘Lancemos fora as obras das trevas’.” As obras pecaminosas são obras das trevas: procedem das trevas da ignorância e do erro, desejam as trevas do isolamento e do encobrimento e terminam nas trevas do inferno e da destruição.

“Nós, portanto, que pertencemos ao dia, devemos abandoná-las: não apenas deixar de praticá-las, mas detestá-las e abominá-las, sem jamais voltar a envolver-nos com elas. Já que a eternidade está à porta, tenhamos cuidado para não sermos encontrados fazendo o que então testemunhará contra nós” (2 Pedro 3:11, 14).

  1. “O que devemos vestir.” Devemos cuidar de como nos vestiremos. Com que vestiremos nossa alma? (1.) Vistam a armadura da luz. Os cristãos são soldados cercados de inimigos, e sua vida é uma guerra. Por isso, devem vestir uma armadura que lhes permita defender-se: a armadura de Deus, recomendada em Efésios 6:13 e seguintes.

Um cristão pode considerar-se despido se estiver desarmado. As graças do Espírito são essa armadura, que protege a alma das tentações de Satanás e dos ataques deste presente mundo mau. Ela é chamada armadura da luz; alguns veem aí uma alusão à armadura brilhante que os soldados romanos costumavam usar, ou à armadura que convém usar à luz do dia.

As graças do Espírito são adornos esplêndidos e adequados, de grande valor aos olhos de Deus.

(2.) “Revesti-vos do Senhor Jesus Cristo” (v. 14). Isso se opõe às muitas paixões degradantes mencionadas no v. 13. A orgia e a embriaguez devem ser abandonadas. Poderíamos esperar que se seguisse: “Vistam a sobriedade, a temperança e a castidade”, as virtudes opostas. Mas não: “Vistam a Cristo”, o que abrange tudo.

“Vistam a justiça de Cristo para a justificação. Sejam encontrados nele (Filipenses 3:9), como alguém é encontrado dentro de suas roupas. Vistam as roupas sacerdotais do irmão mais velho, para nelas receberem a bênção.”

“Vistam o espírito e a graça de Cristo para a santificação. Vistam o novo homem (Efésios 4:24); fortaleçam o hábito da graça e avivem seus atos.” Jesus Cristo é a melhor roupa com que os cristãos podem adornar-se e armar-se. Ela é decorosa, distinta, dignifica e protege.

Sem Cristo, estamos nus e desfigurados; todas as outras coisas são trapos imundos, folhas de figueira, um abrigo miserável. Deus nos providenciou túnicas de peles, amplas, fortes, quentes e duráveis. Pelo batismo, professamos ter-nos revestido de Cristo (Gálatas 3:27). Façamo-lo com verdade e sinceridade.

O Senhor Jesus Cristo. “Vistam-no como Senhor para governá-los, como Jesus para salvá-los e, em ambas as coisas, como Cristo, ungido e designado pelo Pai para essa obra de governo e salvação.”

III. Como andar. Depois de levantar e nos vestir, não devemos ficar sentados num isolamento e recolhimento afetados, como monges e eremitas. Para que temos boas roupas, senão para aparecer em público com elas? Andemos.

O cristianismo nos ensina a andar de modo a agradar a Deus, cujos olhos estão sobre nós (1 Tessalonicenses 4:1). “Andemos honestamente, como de dia”. Compare com Efésios 5:8: “Andai como filhos da luz”.

Nossa conduta deve ser digna do evangelho. “Andemos honestamente”; euschemonos, isto é, de modo decente e apropriado, para honrar nossa profissão de fé, adornar a doutrina de Deus, nosso Salvador, e apresentar aos outros a beleza da religião.

Os cristãos devem ter especial cuidado de se conduzir bem naquilo que os homens observam, buscando o que é amável e de boa reputação. Em particular, aqui somos advertidos contra três pares de pecados:

  1. Não devemos andar em orgias e embriaguez. Precisamos evitar todo excesso no comer e no beber. Não devemos dar o menor apoio à devassidão nem satisfazer nosso apetite sensual em excessos privados. Os cristãos não devem sobrecarregar o coração com glutonaria e embriaguez (Lucas 21:34).

Isso não é andar como de dia, pois “os que se embriagam, de noite se embriagam” (1 Tessalonicenses 5:7).

  1. Nem em imoralidade sexual e lascívia, isto é, em nenhuma das paixões da carne, obras das trevas proibidas pelo sétimo mandamento. O adultério e a fornicação propriamente ditos são a imoralidade sexual aqui proibida.

Pensamentos e afetos lascivos, olhares, palavras, livros, canções, gestos, danças e carícias lascivos, que conduzem a essa impureza e representam graus dela, constituem a lascívia aqui proibida. Isso inclui tudo o que transgride a lei pura e sagrada da castidade e da modéstia.

  1. Nem em contenda e inveja. Essas também são obras das trevas. Embora os atos e exemplos de contenda e inveja sejam muito comuns, ninguém quer admitir seus princípios nem reconhecer-se invejoso e contencioso.

Os melhores santos podem ser alvo de inveja e contenda, mas contender e invejar não condizem com os discípulos e seguidores do pacífico e humilde Jesus. Onde há orgia e embriaguez, costuma haver também imoralidade sexual e lascívia, contenda e inveja.

Salomão reúne todas essas coisas em Provérbios 23:29 e seguintes. Aqueles que se demoram junto ao vinho (Provérbios 23:30) têm disputas e feridas sem motivo (Provérbios 23:29), e seus olhos contemplam mulheres estranhas (Provérbios 23:33).

IV. Que provisões fazer (v. 14): “Não façais provisão para a carne. Não vos preocupeis com o corpo.” Nosso grande zelo deve ser prover para a alma. Isso significa que não devemos cuidar de nosso corpo nem suprir suas necessidades? Não. Duas coisas são proibidas aqui:

  1. Afligir-nos com um cuidado desordenado, conforme indicam as palavras pronoian me poieisthe. “Não fiquem ansiosos planejando como cuidar do corpo; não esgotem a inteligência nem deixem a mente em permanente tensão para fazer essa provisão. Não se sobrecarreguem de preocupações”; “Não vos preocupeis” (Mateus 6:31). Proíbe-se um cuidado ansioso e opressivo.

  2. Satisfazer um desejo desregrado. Não somos proibidos de prover para o corpo, pois ele é uma lâmpada que precisa de óleo, mas somos proibidos de satisfazer seus desejos pecaminosos. As necessidades do corpo devem ser consideradas; suas paixões, porém, não devem ser satisfeitas.

Os desejos naturais devem ser atendidos, mas os apetites desenfreados precisam ser contidos e negados. Pedir alimento para nossas necessidades é dever, pois nos é ensinado a orar pelo pão diário. Pedir alimento para nossas paixões, porém, é provocar a Deus (Salmos 78:18). Quem professa andar no espírito não deve satisfazer as paixões da carne (Gálatas 5:16).


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