Provérbios 9
Argumento
Cristo e o pecado disputam a alma humana. Aqui somos informados de como ambos a cortejam para ocupar nela o lugar mais íntimo e mais elevado. O desígnio dessa representação é pôr diante de nós a vida e a morte, o bem e o mal. Basta expor o caso com imparcialidade para decidirmos qual deles escolher e a qual entregar nosso coração.
Ambos são apresentados preparando um banquete para a alma e convidando-a a aceitá-lo. Somos informados também do desfecho de cada um. Posta assim a questão diante de nós, consideremos, busquemos conselho e manifestemos nossa opinião. Devemos, portanto, dar valor à nossa própria alma, pois vemos tamanha disputa por ela.
I. Cristo, sob o nome de Sabedoria, convida-nos a aceitar seu banquete e, assim, a entrar em conhecimento e comunhão com ele, vv. 1-6. Depois de anunciar os diferentes resultados de seu convite (vv. 7-9), mostra, em resumo, o que exige de nós (v. 10) e o desígnio que tem para nós (v. 11). Então deixa à nossa escolha o que faremos, v. 12.
II. O pecado, na figura de uma mulher insensata, corteja-nos para que aceitemos seu banquete (vv. 13-16) e alega que ele é muito encantador, v. 17. Salomão, porém, nos diz qual será a conta a pagar, v. 18. Escolham agora, hoje, com quem se unirão.
Versículos 1 a 12
O Convite da Sabedoria.
A Sabedoria é aqui apresentada como rainha magnífica e generosa, muito grande e muito liberal. A Palavra de Deus é essa Sabedoria, na qual Deus manifesta sua boa vontade para com os homens; Deus, a Palavra, é essa Sabedoria, a quem o Pai confiou todo o juízo.
Aquele que, no capítulo anterior, mostrou sua grandeza e glória como Criador do mundo mostra aqui sua graça e bondade como Redentor dele. A palavra está no plural, Sabedorias, pois em Cristo estão escondidos tesouros de sabedoria, e em sua obra aparece a multiforme sabedoria de Deus em mistério. Observe aqui:
I. A rica provisão que a Sabedoria fez para receber todos os que quiserem ser seus discípulos. Ela é representada pela imagem de um banquete suntuoso, da qual, provavelmente, nosso Salvador tirou as parábolas em que comparou o reino dos céus a uma grande ceia, Mateus 22:2; Lucas 14:16. Assim também foi profetizado, Isaías 25:6.
É um banquete como o que Assuero ofereceu para mostrar as riquezas de seu glorioso reino. A graça do evangelho nos é apresentada desse modo na ordenança da ceia do Senhor. Para acolher seus convidados:
- Há aqui um palácio majestoso preparado, v. 1. Não encontrando casa suficientemente ampla para todos os seus convidados, a Sabedoria construiu uma para esse fim e, tanto para fortalecê-la quanto para embelezá-la, lavrou suas sete colunas, que a tornam muito firme e lhe dão aparência grandiosa.
O Céu é a casa que a Sabedoria construiu para acolher todos os seus convidados chamados à ceia das bodas do Cordeiro. É a casa de seu Pai, onde há muitas moradas e para onde ela foi preparar-nos lugares. Ela suspendeu a terra sobre o nada; nela não temos cidade permanente. O céu, porém, é cidade que tem fundamentos e colunas.
A igreja é a casa da Sabedoria, à qual ela convida seus hóspedes, sustentada pelo poder e pela promessa de Deus como por sete colunas.
É provável que Salomão se refira ao templo que ele próprio havia construído recentemente para o culto religioso e ao qual desejava persuadir o povo a ir, tanto para adorar a Deus quanto para receber as instruções da Sabedoria. Alguns entendem que se trata das escolas dos profetas.
- Há aqui um esplêndido banquete pronto (v. 2): “Ela matou seus animais; ela mesclou seu vinho”. Há abundância de alimento e bebida, tudo da melhor qualidade. Ela matou seu sacrifício (assim diz a palavra): é banquete suntuoso, mas sagrado, um banquete sobre um sacrifício.
Cristo ofereceu a si mesmo como sacrifício por nós, e sua carne é de fato alimento, e seu sangue, de fato bebida. A ceia do Senhor é banquete de reconciliação e alegria, fundado no sacrifício da expiação. O vinho é misturado com algo mais rico do que ele próprio, para lhe dar força e sabor extraordinários.
Ela abasteceu completamente a mesa com tudo que pode satisfazer a alma: justiça e graça, paz e alegria, as garantias do amor de Deus, os consolos do Espírito e todos os penhores e antecipações da vida eterna.
Observe: tudo é obra da própria Sabedoria. Ela matou os animais, mesclou o vinho. Isso revela tanto o amor de Cristo, que prepara a provisão — não a entrega a outros, mas a toma nas próprias mãos —, quanto a excelência do preparo. Aquilo que a própria Sabedoria prepara para seu fim necessariamente atende a esse fim com exatidão.
II. O convite gracioso que ela fez, não a alguns amigos específicos, mas a todos em geral, para que venham participar dessas provisões:
- Ela emprega suas servas para levar o convite por toda a região: enviou suas donzelas, v. 3. Os ministros do evangelho recebem a missão e a ordem de anunciar as provisões que Deus fez, na aliança eterna, para todos os dispostos a aceitar seus termos.
Eles devem, com pureza de donzelas, sem corromper a si mesmos nem a palavra de Deus, e observando exatamente as ordens recebidas, chamar todos que encontrarem, até pelos caminhos e junto às cercas, para virem banquetear-se com a Sabedoria, pois tudo já está pronto, Lucas 14:23.
- Ela própria clama dos lugares mais altos da cidade, desejando ardentemente o bem dos filhos dos homens e entristecida ao vê-los rejeitar a misericórdia destinada a eles por vaidades mentirosas. Nosso Senhor Jesus foi pessoalmente o anunciador de seu evangelho; depois de enviar os discípulos, seguiu-os para confirmar o que diziam.
Mais que isso, a mensagem “começou a ser anunciada pelo Senhor”, Hebreus 2:3. Ele se pôs de pé e clamou: “Vinde a mim”. Vimos quem convidou; observemos agora:
(1.) A quem se dirige o convite: a quem é simples e carece de entendimento, v. 4. Se oferecêssemos um banquete, entre todas as pessoas não desejaríamos, muito menos cortejaríamos, a companhia dessas; preferiríamos a de filósofos e eruditos, para ouvir sua sabedoria e aproveitar a conversa à mesa. “Tenho eu necessidade de loucos?”
A Sabedoria, porém, convida essas pessoas porque oferece justamente aquilo de que mais precisam. É pelo bem delas que ela olha e ao qual visa no preparo e no convite. O simples é convidado para tornar-se sábio, e aquele a quem falta coração (assim diz a palavra) pode vir aqui e receber um.
Seu preparo é mais remédio que alimento, destinado à cura mais valiosa e desejável: a da mente. Seja quem for, o convite é geral e não exclui ninguém que não exclua a si mesmo. Por mais insensatas que sejam as pessoas, ainda assim: [1.] Serão bem-vindas. [2.] Poderão ser ajudadas; não serão desprezadas nem consideradas casos perdidos.
Nosso Salvador veio chamar não os justos, mas os pecadores; não os sábios aos próprios olhos, que dizem enxergar (João 9:41), mas os simples: aqueles que reconhecem sua simplicidade e se envergonham dela, e quem se dispõe a tornar-se insensato para ser sábio, 1 Coríntios 3:18.
(2.) Qual é o convite: [1.] Somos convidados à casa da Sabedoria: “Entra aqui”. Digo que nós somos convidados, pois qual de nós não deve reconhecer que corresponde à descrição dos convidados, simples e carentes de entendimento? As portas da Sabedoria estão abertas a essas pessoas.
Ela deseja conversar com elas e dizer-lhes uma palavra para seu bem; não tem nenhum outro desígnio para elas. [2.] Somos convidados à sua mesa (v. 5): “Vinde, comei do meu pão”, isto é, provem os verdadeiros prazeres encontrados no conhecimento e no temor de Deus.
Exercitando a fé nas promessas do evangelho, aplicando-as a nós mesmos e recebendo seu consolo, alimentamo-nos e banqueteamo-nos com as provisões que Cristo preparou para as pobres almas. Aquilo que comemos e bebemos torna-se nosso, nutre-nos e revigora-nos; a palavra de Deus faz o mesmo por nossa alma. Há nela alimento e bebida para os que têm entendimento.
(3.) O que se exige dos que podem beneficiar-se desse convite, v. 6. [1.] Devem romper com toda má companhia: “Abandonem os insensatos; não convivam com eles, não se conformem aos seus caminhos, não tenham comunhão com as obras das trevas nem com os que as praticam.” O primeiro passo rumo à virtude é evitar o vício e, portanto, os viciosos. “Afastem-se de mim, malfeitores.”
[2.] Devem despertar e levantar-se dentre os mortos; devem viver, não para o prazer — pois os que assim vivem estão mortos enquanto vivem —, mas para servir a Deus. Só os que o servem vivem de fato e com propósito. “Não vivam uma vida meramente animal, como os brutos, mas vivam enfim a vida de seres humanos.”
“Vivam e viverão; vivam espiritualmente e viverão eternamente”, Efésios 5:14. [3.] Devem escolher as veredas da Sabedoria e permanecer nelas: “Andem no caminho do entendimento; daqui em diante, governem-se pelas regras da religião e da reta razão.” Não basta abandonar os insensatos; devemos juntar-nos aos que andam com sabedoria e andar no mesmo espírito e nos mesmos passos.
III. As instruções que a Sabedoria dá às donzelas enviadas com o convite, aos ministros e a outros que, em seu lugar, procuram servir aos interesses e desígnios dela. Ela lhes diz:
Qual deve ser seu trabalho: não apenas falar em geral da provisão feita para as almas e oferecê-la a todos, mas dirigir-se a pessoas específicas, apontar-lhes as faltas, censurá-las e repreendê-las, v. 7, 8. Devem instruí-las sobre como corrigir-se: ensinar, v. 9. A palavra de Deus se destina à censura, à correção e à instrução na justiça; o ministério dessa palavra também.
Que tipos diferentes de pessoas encontrarão, como devem lidar com elas e que resultado podem esperar.
(1.) Encontrarão alguns escarnecedores e perversos que zombarão dos mensageiros do Senhor e os maltratarão; rirão daqueles que os convidam ao banquete do Senhor, como fizeram em 2 Crônicas 30:10, e os tratarão com maldade, Mateus 22:6.
Embora não se proíba convidar esses simples à casa da Sabedoria, aconselha-se que não se insista no convite mediante censuras e repreensões. “Não censures o escarnecedor”; não lance essas pérolas aos porcos, Mateus 7:6. Assim Cristo disse dos fariseus: “Deixai-os”, Mateus 15:14. “Não os censurem.”
[1.] “Por justiça para com eles, pois perderam o direito ao favor de receber meios ulteriores aqueles que desprezam os meios já recebidos. Os que estão imundos continuem imundos; os que se juntaram aos ídolos sejam deixados em paz. Eis que nos voltamos para os gentios.”
[2.] “Por prudência quanto a vocês mesmos, pois, se os censurarem”, primeiro: “Perderão seu trabalho e colherão vergonha pela frustração”. Segundo: “Eles ficarão exasperados. Por mais sábia e delicadamente que os censurem, se o fizerem fielmente, eles os odiarão, cobrirão de descrédito e dirão todo mal que puderem a seu respeito; assim vocês ficarão com uma mancha.”
“Portanto, é melhor não se envolver com eles, pois suas censuras provavelmente causarão mais dano que benefício.”
(2.) Encontrarão outros que são sábios, bons e justos; graças a Deus, nem todos são escarnecedores. Encontramos alguns tão sábios quanto ao próprio bem e tão justos consigo mesmos que estão dispostos a receber ensino e se alegram com isso. Quando os encontrarmos:
[1.] Se houver ocasião, devemos censurá-los. Os sábios não são tão perfeitamente sábios que nada neles precise de censura. Não devemos fechar os olhos para as faltas de alguém por reverência à sua sabedoria, nem deve um sábio pensar que sua sabedoria o isenta de censura quando diz ou faz algo insensato.
Quanto mais sabedoria tiver alguém, mais deverá desejar que lhe apontem as fraquezas, pois um pouco de insensatez mancha muito quem tem reputação de sabedoria e honra. [2.] Junto com nossas censuras, devemos dar-lhes instrução e dar-lhes ensino, v. 9. [3.] Podemos esperar que recebam isso como bondade, Salmos 141:5.
O sábio considerará amigos aqueles que o tratam com franqueza: “Repreenda alguém assim, e ele amará você pela franqueza, agradecerá e desejará que você lhe faça o mesmo favor em outra ocasião, se for necessário.” Receber bem uma censura é prova de sabedoria tão grande quanto saber fazê-la bem.
[4.] Por ser bem recebida, ela fará bem e cumprirá seu propósito. O sábio se tornará mais sábio mediante as censuras e instruções que receber; crescerá em aprendizagem, em conhecimento e, assim, em graça.
Ninguém deve julgar-se sábio demais para aprender nem bom a ponto de não precisar melhorar e, portanto, de não precisar ser ensinado. Devemos continuar avançando e prosseguir em conhecer até chegarmos ao homem perfeito.
Dê ao sábio (assim está no original): dê-lhe conselho, censura e consolo, e ele ficará ainda mais sábio. Dê-lhe ocasião (assim diz a Septuaginta), ocasião para mostrar sua sabedoria, e ele a mostrará; os atos de sabedoria fortalecerão os hábitos dela.
IV. As instruções que ela dá aos convidados e que suas donzelas devem inculcar-lhes:
- Que saibam em que consiste a verdadeira sabedoria e o que lhes será servido à mesa da Sabedoria, v. 10:
(1.) O temor de Deus deve firmar-se como princípio no coração; esse é o começo da sabedoria. A reverência à majestade de Deus e o temor de sua cólera constituem aquele temor a ele que é o princípio, o primeiro passo rumo à verdadeira religião, do qual procedem todas as outras manifestações dela.
Esse temor pode, a princípio, trazer tormento, mas o amor expulsará gradualmente esse tormento. (2.) A cabeça deve encher-se do conhecimento das coisas de Deus. O conhecimento das coisas santas (a palavra está no plural) é entendimento: as coisas relativas ao serviço de Deus, chamadas coisas santas, e as relativas à nossa própria santificação. A censura é chamada de coisa santa, Mateus 7:6.
Ou se trata do conhecimento que os homens santos possuem, ensinado pelos santos profetas, acerca das coisas que homens santos disseram movidos pelo Espírito Santo. Isso é entendimento: o melhor e mais útil, o que mais nos servirá e produzirá o melhor resultado.
- Que saibam quais serão os benefícios dessa sabedoria (v. 11): “Por mim, teus dias serão multiplicados. Ela contribuirá para a saúde do teu corpo e, assim, os anos da tua vida na terra aumentarão, ao passo que a insensatez e a intemperança dos homens encurtam seus dias.”
“Ela te levará ao céu, e ali teus dias serão multiplicados in infinitum — ao infinito, e os anos da tua vida aumentarão sem fim.” Não há verdadeira sabedoria senão no caminho da religião, nem verdadeira vida senão no fim desse caminho.
- Que saibam as consequências de escolher ou rejeitar essa bela oferta, v. 12. Aqui temos: (1.) A felicidade dos que a aceitam: “Se fores sábio, sábio serás para ti mesmo; tu ganharás com isso, não a Sabedoria.” O homem não pode ser útil a Deus. É para nosso próprio bem que somos assim cortejados.
“Não deixarás o ganho para outros” — como fazemos com as riquezas terrenas ao morrer, razão por que são chamadas de bens alheios, Lucas 16:12 —, “mas o levarás contigo para outro mundo”. Os que são sábios no que diz respeito à própria alma são sábios para si mesmos, pois a alma é o homem.
Ninguém olha por seu próprio interesse verdadeiro a não ser os que são, na verdade, religiosos. Isso nos recomenda a Deus e nos resgata da insensatez e da degradação. Ocupa-nos com o que mais nos beneficia neste mundo e nos dá direito ao que é muito mais benéfico no mundo futuro.
(2.) A vergonha e a ruína dos que a desprezam: “Se desprezares a oferta da Sabedoria, tu sozinho sofrerás as consequências.” [1.] “Tu arcarás com a culpa.” Os bons devem agradecer a Deus; os perversos, porém, só podem responsabilizar a si mesmos.
A culpa não é de Deus, pois ele não é autor do pecado. Satanás pode apenas atrair, não forçar; os maus companheiros são apenas instrumentos dele. Toda a culpa, portanto, recai sobre o próprio pecador.
[2.] “Sofrerás a perda daquilo que desprezas. Isso causará tua própria destruição; teu sangue cairá sobre tua própria cabeça, e essa lembrança agravará tua condenação.” “Filho, lembra-te de que essa bela oferta te foi feita e tu não quiseste aceitá-la. Tinhas boas perspectivas de vida, mas preferiste a morte.”
Versículos 13 a 18
O Convite da Insensatez.
Ouvimos o que Cristo diz para atrair nossos afetos a Deus e à piedade. Seria de esperar que o mundo inteiro o seguisse, mas aqui vemos como o tentador se empenha em seduzir almas incautas para os caminhos do pecado. Com a maioria, ele consegue o que quer, e o cortejo da Sabedoria não surte efeito. Observe agora:
I. Quem é o tentador: uma mulher insensata, a própria Insensatez, oposta à Sabedoria. Entendo que essa mulher insensata representa especialmente o prazer carnal e sensual (v. 13), pois ele é o grande inimigo da virtude e a porta de entrada para o vício. Mais que qualquer outra coisa, ele macula e corrompe a mente, entorpece a consciência e apaga as centelhas da convicção.
O tentador é descrito aqui como: 1. Muito ignorante: “Ela é simples e nada sabe”, isto é, não tem nenhuma razão sólida e suficiente a oferecer. Onde ganha domínio sobre uma alma, expulsa todo o conhecimento das coisas santas; elas se perdem e são esquecidas. “A prostituição, o vinho e o vinho novo tiram o coração”; embriagam os homens e os tornam insensatos.
(2.) Muito insistente. Quanto menos tem a oferecer de racional, mais violenta e importuna se torna; muitas vezes prevalece pela força do atrevimento. É clamorosa e barulhenta (v. 13), perseguindo continuamente os jovens com suas seduções. Senta-se à porta da própria casa (v. 14) à espera de uma presa, não como Abraão à porta da tenda, procurando oportunidade de fazer o bem.
Ela se assenta numa cadeira — num trono, segundo o sentido da palavra —, nos lugares altos da cidade. Age como se tivesse autoridade para ditar leis e como se todos fôssemos devedores à carne, obrigados a viver segundo ela; como se tivesse prestígio, recebesse honras e fosse considerada digna dos lugares altos da cidade.
Talvez conquiste muito mais pessoas fingindo estar na moda do que fingindo ser agradável. “Por acaso todas as pessoas de posição e destaque no mundo não se permitem” — diz ela — “liberdade maior do que concedem as leis rigorosas da virtude? Por que então você se humilharia a ponto de se deixar limitar por elas?” Assim o tentador procura parecer tanto bondoso quanto importante.
II. Quem são os tentados: jovens que receberam boa educação; é na ruína deles que ela mais se regozijará. Observe: 1. Qual é seu verdadeiro caráter. São viajantes que seguem diretamente seu caminho (v. 15), educados nas veredas da religião e da virtude, que começaram muito bem e com grandes esperanças, parecendo decididos e destinados ao bem.
Não estão, como o jovem de Provérbios 7:8, indo pelo caminho da casa dela. É contra pessoas assim que ela tem seus desígnios, prepara armadilhas e emprega todos os seus artifícios e todos os seus encantos para pervertê-las. Se seguem em frente sem olhar para ela, a mulher as chama por trás: tão insistentes são essas tentações.
(2.) Como ela os apresenta. Chama-os simples e carentes de entendimento; por isso os corteja para sua escola, onde seriam curados das restrições e formalidades da religião. Esse é o método do teatro — uma exposição fiel demais desta passagem —, em que o jovem sóbrio e educado na virtude é o insensato da peça.
A trama é torná-lo sete vezes mais filho do inferno que seus companheiros profanos, sob o pretexto de lapidá-lo e refiná-lo, fazendo dele um homem espirituoso e elegante. Aquilo que se atribui com justiça ao pecado e à impiedade (v. 4), a insensatez, é aqui lançado injustamente contra os caminhos da virtude. O dia, porém, revelará quem são os insensatos.
III. Qual é a tentação (v. 17): “As águas roubadas são doces”. Ela oferece água e pão, enquanto a Sabedoria convida para os animais que matou e o vinho que mesclou. Ainda assim, pão e água são bastante aceitáveis para os famintos e sedentos. Alega-se que esses são mais doces e agradáveis que os comuns, por serem água roubada e pão comido às escondidas, com receio de serem descobertos.
Os prazeres das paixões proibidas são elogiados como mais saborosos que os do amor prescrito, e o ganho desonesto é preferido ao obtido com justiça. Isso demonstra não só desprezo ousado, mas desafio insolente:
À lei de Deus, pois as águas são mais doces justamente por serem roubadas e obtidas ao romper a cerca do mandamento divino. Nitimur in vetitum — Somos propensos ao que é proibido. Herdamos esse espírito de oposição de nossos primeiros pais, que julgaram a árvore proibida, acima de todas as outras, desejável.
À maldição de Deus. O pão é comido às escondidas por medo da descoberta e da punição. O pecador se orgulha de ter sufocado suas convicções e triunfado sobre elas a tal ponto que, apesar desse medo, ousa cometer o pecado. Consegue convencer-se de que, por ter comido em segredo, o ato jamais será descoberto ou cobrado.
A doçura e o prazer são a isca. Contudo, pela própria descrição do tentador, até isso é tão absurdo e tão atenuado por outros fatores que é espantoso poder influenciar pessoas que alegam usar a razão.
IV. Um antídoto eficaz contra a tentação, em poucas palavras, v. 18. Quem carece de entendimento a ponto de ser desviado por essas seduções é conduzido, sem saber, à própria ruína inevitável. Não sabe, não quer crer nem considera — e o tentador não o deixa saber — que “os mortos estão ali”, que os que vivem para os prazeres estão mortos enquanto vivem, mortos em delitos e pecados.
Tais prazeres são acompanhados de terrores semelhantes aos da própria morte. Os gigantes estão ali: os refains. Foi isso que arruinou os pecadores do mundo antigo, os gigantes que havia na terra naqueles dias.
Os convidados dela, servidos com aquelas águas roubadas, não apenas estão na estrada para o inferno e à sua beira: já estão nas profundezas do inferno, sob o poder do pecado, levados cativos por Satanás conforme sua vontade e repetidamente açoitados pelos terrores da própria consciência, que são um inferno na terra.
As profundezas de Satanás são as do inferno. O pecado sem remorso é ruína sem remédio; já é o abismo sem fundo. Assim Salomão mostra o anzol; os que acreditarem nele não tocarão na isca.