Matthew Henry

Provérbios 4

Argumento

Quando se ensinam as coisas de Deus, é preciso dar preceito sobre preceito e linha sobre linha. Não só porque essas coisas têm grande valor e importância, mas também porque, mesmo nas melhores condições, a mente humana é pouco propensa a recebê-las e costuma ser preconceituosa contra elas.

Por isso, neste capítulo, Salomão inculca, com grande variedade de expressões e um fluxo agradável e poderoso de eloquência divina, as mesmas coisas que nos havia recomendado nos capítulos anteriores.

Aqui temos: I. Uma exortação fervorosa ao estudo da sabedoria, isto é, da verdadeira religião e piedade, tomada das boas instruções que seu pai lhe deu e reforçada com muitos argumentos importantes, vv. 1-13.

II. Uma advertência necessária contra as más companhias e toda comunhão com as obras infrutíferas das trevas, vv. 14-19. III. Orientações específicas para alcançar e preservar a sabedoria e produzir seus frutos, vv. 20-27. O caso nos é apresentado com tanta clareza e insistência que seremos para sempre indesculpáveis se perecermos em nossa insensatez.

Versículos 1 a 13

Instruções dos Pais.

Aqui temos:

I. O convite que Salomão faz aos seus filhos para virem receber sua instrução (v. 1, 2): “Ouvi, filhos, a instrução de um pai”. Isto é: 1. “Que meus próprios filhos, antes de tudo, recebam e prestem muita atenção às instruções que registro também para uso de outros.”

Repare: magistrados e ministros, a quem se confia a direção de comunidades maiores, devem ter zelo acima do comum com a boa instrução da própria família. Seu trabalho público de maneira alguma os dispensa desse dever. Essa caridade deve começar em casa, embora não deva terminar ali.

Pois, se alguém não mantém os filhos sob sujeição com toda dignidade nem se empenha em sua boa educação, como cumprirá devidamente seu dever para com a igreja de Deus? 1 Timóteo 3:4, 5. Os filhos dos que se destacam pela sabedoria e utilidade pública devem crescer em conhecimento e graça na proporção das vantagens recebidas por terem pais assim.

Pode-se observar, porém, para preservar tanto a reputação como o consolo dos pais cujos filhos não correspondem às esperanças suscitadas por sua educação, que Roboão, filho de Salomão, estava longe de ser um dos mais sábios ou dos melhores. Temos motivos para pensar que milhares tiraram mais proveito dos provérbios de Salomão do que seu próprio filho, a quem eles parecem ter sido dedicados.

  1. Que todos os jovens, nos dias da infância e da juventude, se esforcem para adquirir conhecimento e graça, pois essa é a idade de aprender, quando sua mente é formada e moldada. Ele não diz “meus filhos”, mas “vocês, filhos”. Lemos que Salomão teve apenas um filho; mesmo assim, por incrível que pareça, ele se dispõe a ser mestre-escola e a ensinar os filhos dos outros!

Pois nessa idade há mais esperança de êxito; o ramo se dobra facilmente quando é novo e tenro. 3. Que todos os que desejam receber instrução venham com a disposição de filhos, ainda que sejam adultos.

Deixem de lado todo preconceito e tenham a mente como papel em branco. Sejam obedientes, dóceis e desconfiados de si mesmos; recebam a palavra como palavra de pai, transmitida tanto com autoridade como com afeição.

Devemos vê-la vindo de Deus, nosso Pai celestial, a quem oramos e de quem esperamos bênçãos: o Pai de nossos espíritos, a quem devemos sujeitar-nos para viver. Devemos considerar nossos mestres como pais que nos amam e buscam nosso bem. Por isso, embora a instrução inclua censura e correção, como significa o termo, ainda assim devemos acolhê-la.

Ora, (1.) para recomendá-la a nós, somos informados de que ela não é apenas instrução de pai, mas entendimento, devendo, portanto, ser bem-vinda às criaturas inteligentes. A religião tem a razão ao seu lado e nos é ensinada por raciocínios justos.

Ela é de fato uma lei (v. 2), mas essa lei se funda em doutrina, em princípios incontestáveis da verdade, em boa doutrina, não apenas fiel, mas digna de toda aceitação.

Se admitirmos a doutrina, não poderemos deixar de nos submeter à lei. (2.) Para fixá-la em nós, somos orientados a recebê-la como dádiva, a atentar para ela com toda diligência e de modo a conhecê-la — pois de outro modo não poderemos praticá-la —, e a não abandoná-la, rejeitando a doutrina ou desobedecendo à lei.

II. As instruções que ele lhes dá. Observe:

  1. Como recebeu essas instruções: vieram de seus pais, e ele ensina aos filhos o mesmo que lhe ensinaram, v. 3, 4. Observe: (1.) Seus pais o amavam e, por isso, o instruíam: “Eu era filho de meu pai”. Davi teve muitos filhos, mas Salomão era de fato seu filho, assim como Isaque é chamado (Gênesis 17:19), e pelo mesmo motivo: sobre ele recaiu a herança da aliança.

Era o filho predileto de seu pai, acima de todos os outros. Deus tinha especial afeição por Salomão — o profeta o chamou Jedidias, porque o Senhor o amava, 2 Samuel 12:25. Por esse motivo Davi também lhe tinha especial afeição, pois era homem segundo o coração de Deus. Se alguma vez os pais podem amar um filho mais do que outro, não deve ser antes de ficar claro que Deus assim o faz.

Ele era tenro e o único amado aos olhos da mãe. Certamente havia um motivo manifesto para tal distinção, já que ambos os pais a faziam. Agora vemos como demonstravam seu amor: catequizavam-no, mantinham-no aplicado aos livros e submetiam-no a disciplina rigorosa.

Embora fosse príncipe e herdeiro direto da coroa, ainda assim não lhe permitiam uma vida sem limites; ou melhor: justamente por isso o educavam assim.

Talvez Davi tenha sido mais rigoroso na educação de Salomão porque vira os efeitos ruins da indulgência excessiva para com Adonias, a quem nunca contrariara em coisa alguma (1 Reis 1:6), e também para com Absalão.

(2.) O que seus pais lhe ensinaram, ele ensina aos outros. Observe: [1.] Depois de adulto, Salomão não apenas se lembrava das boas lições que seus pais lhe ensinaram na infância, mas tinha prazer em repeti-las. Não as esqueceu, tão profundas foram as impressões que deixaram nele. Não se envergonhava delas, tanto as valorizava.

Tampouco as considerava coisas infantis e inferiores, que deveria abandonar quando se tornasse homem e rei, como se o diminuíssem. Muito menos as repetia, como fizeram alguns filhos perversos, para ridicularizá-las e divertir seus companheiros com elas, orgulhando-se de ter-se livrado de lições sérias e restrições.

[2.] Embora o próprio Salomão fosse sábio e divinamente inspirado, ainda assim, quando foi ensinar sabedoria, não considerou indigno citar o pai e usar suas palavras. Quem deseja aprender e ensinar bem a religião não deve afetar ideias recém-descobertas e expressões recém-inventadas, a ponto de desprezar o conhecimento e a linguagem dos antecessores.

Se devemos permanecer no bom caminho antigo, por que desprezaríamos as boas palavras antigas? Jeremias 6:16.

[3.] Tendo sido bem educado pelos pais, Salomão considerou-se obrigado a dar aos filhos a mesma boa educação que recebera. Esse é um modo de recompensarmos os pais pelo esforço que tiveram conosco: demonstrar piedade em casa, 1 Timóteo 5:4. Eles nos ensinaram o bom conhecimento de Deus não só para que nós mesmos aprendêssemos, mas para que ensinássemos nossos filhos, Salmos 78:6.

Somos infiéis ao que nos foi confiado se não fizermos isso, pois o depósito sagrado da doutrina e da lei religiosas foi posto em nossas mãos com a incumbência de transmiti-lo puro e inteiro aos que virão depois de nós, 2 Timóteo 2:2.

[4.] Salomão reforça suas exortações com a autoridade do pai, Davi, homem célebre em sua geração sob todos os aspectos. Para honra da religião, repare-se que os homens mais sábios e melhores de todas as épocas foram os mais zelosos não só em praticá-la, mas também em propagá-la aos outros. Devemos, portanto, continuar nas coisas que aprendemos, sabendo de quem as aprendemos, 2 Timóteo 3:14.

  1. Quais eram essas instruções, vv. 4-13.

(1.) Por meio de preceitos e exortações. Ao ensinar o filho, Davi, embora o filho fosse uma criança de grande capacidade e rápida compreensão, ainda assim expressou-se com muito fervor e insistência. Fez isso para mostrar que falava com seriedade e para causar nele maior impressão com o que dizia, repetindo a mesma coisa muitas vezes. Assim se deve ensinar às crianças.

Deuteronômio 6:7: Você as inculcará diligentemente a seus filhos. Embora ocupado com negócios públicos e provido de tutores para o filho, Davi empenhou-se pessoalmente em ensiná-lo desse modo.

[1.] Como meios, ele lhe recomenda sua Bíblia e seu catecismo: as palavras do pai (v. 4), as palavras de sua boca (v. 5), suas declarações (v. 10), todas as boas lições que lhe ensinara.

Talvez tenha em mente, especialmente, o livro dos Salmos, muitos dos quais eram masquils — salmos de instrução —, e dois deles dizem expressamente que são para Salomão. Salomão deve manter os olhos nessas palavras e em todas as demais do pai.

Primeiro, deve ouvi-las e recebê-las (v. 10), prestar-lhes diligente atenção e absorvê-las, como a terra bebe a chuva que frequentemente cai sobre ela, Hebreus 6:7. Assim Deus solicita nossa atenção à sua palavra: “Ouve, meu filho, e recebe as minhas palavras”.

Segundo, deve conservar o modelo das sãs palavras que o pai lhe deu (v. 4): “Que teu coração retenha as minhas palavras”. Se a palavra não estiver escondida no coração e alojada na vontade e nos afetos, não será conservada.

Terceiro, deve governar-se por elas: “Guarda os meus mandamentos”; deve obedecer-lhes, e esse é o caminho para crescer no conhecimento deles, João 7:17. Quarto, deve apegar-se a elas e permanecer nelas: “Não te desvies das palavras da minha boca (v. 5), temendo que te imponham uma restrição excessiva; antes, apega-te firmemente à instrução (v. 13), decidido a mantê-la e nunca soltá-la”.

Os que receberam boa educação, ainda que tentem livrar-se dela, verão que ela os acompanha por muito tempo; se isso não acontecer, seu estado é muito triste.

[2.] Ele lhe recomenda a sabedoria e o entendimento como objetivo a alcançar mediante esses meios: aquela sabedoria que é a principal, essa se deve adquirir. Quod caput est sapientia eam acquire sapientiam — Não deixe de atentar para o ramo da sabedoria que é o principal, e esse é o temor de Deus, Provérbios 1:7. Assim dizem Junius e Tremellius.

Um princípio de religião no coração é a única coisa necessária. Portanto, primeiro: Adquira essa sabedoria, adquira esse entendimento, v. 5. E novamente: “Adquire sabedoria e, com tudo o que adquirires, adquire entendimento, v. 7. Ora por ela, esforça-te por ela e emprega diligentemente todos os meios designados para alcançá-la. Espera à porta da sabedoria, Provérbios 8:34.”

“Domina tuas corrupções, que são tuas insensatezes; adquire princípios sábios e hábitos de sabedoria. Adquire sabedoria pela experiência; adquire-a acima de tudo quanto puderes adquirir. Cuida e trabalha mais para obtê-la do que para ganhar as riquezas deste mundo. Esqueças o que esqueceres, adquire isto; considera-o grande conquista e busca-o de acordo com seu valor.”

A verdadeira sabedoria é dádiva de Deus; ainda assim, recebemos aqui a ordem de adquiri-la, porque Deus a dá aos que trabalham por ela. Depois de tudo, porém, não devemos dizer que nossa força e o poder da nossa mão nos conseguiram essa riqueza.

Segundo: Não a esqueça (v. 5), “não a abandones” (v. 6), não a solte (v. 13), mas guarde-a. Os que obtiveram essa sabedoria devem tomar cuidado para não perdê-la novamente, retornando à insensatez. Ela é, de fato, a boa parte que não nos será tirada.

Contudo, devemos tomar cuidado para não a lançarmos fora, como fazem os que primeiro a esquecem e deixam escapar da mente e, depois, a abandonam e se desviam de seus bons caminhos.

Devemos guardar essa boa coisa que nos foi confiada, sem deixá-la cair por negligência, sem permitir que nos seja arrancada à força ou que sejamos persuadidos com astúcia a entregá-la. Nunca soltemos joia tão preciosa.

Terceiro, “Ama-a” (v. 6) e “abraça-a” (v. 8), assim como os homens mundanos amam suas riquezas e nelas põem o coração. A religião deve ser-nos muito querida, mais querida do que qualquer coisa neste mundo. Se não pudermos tornar-nos grandes mestres da sabedoria, ainda assim sejamos seus verdadeiros amantes. A graça que temos, abracemo-la com afeição sincera, como os que admiram sua beleza.

Quarto, “Exalta-a, v. 8. Conserva sempre uma elevada estima pela religião e faz tudo que puderes para torná-la respeitada e manter sua boa reputação entre os homens. Coopera com Deus no propósito de engrandecer a lei e torná-la honrosa, e faz o que puderes para servir a esse propósito”.

Que os filhos da Sabedoria não apenas a justifiquem, mas também a engrandeçam e a prefiram ao que lhes é mais caro neste mundo. Ao honrar os que temem o Senhor, ainda que ocupem posição humilde no mundo, e ao estimar um sábio pobre, exaltamos a sabedoria.

(2.) Como motivos e incentivos para trabalhar pela sabedoria e submeter-nos à sua direção, consideremos: [1.] Ela é o assunto principal, que deve ser o zelo maior e contínuo de cada pessoa nesta vida (v. 7): “A sabedoria é a coisa principal.” As demais coisas que tanto nos preocupamos em adquirir e guardar nada são diante dela. Ela é o dever integral do homem, Eclesiastes 12:13.

É ela que nos recomenda a Deus, embeleza a alma, capacita-nos a cumprir a finalidade de nossa criação, a viver com bom propósito no mundo e, por fim, a chegar ao céu. Por isso é a coisa principal.

[2.] Ela tem a razão e a equidade ao seu lado (v. 11): “Ensinei-te no caminho da sabedoria, e assim isso se revelará no fim. Conduzi-te não pelos caminhos tortuosos da sagacidade carnal, que pratica o mal sob a aparência da sabedoria, mas por veredas retas, de acordo com as regras e razões eternas do bem e do mal”. A retidão da natureza divina aparece na retidão de todas as leis divinas.

Observe: Davi não só ensinou o filho com boas instruções, mas também o guiou com bom exemplo e aplicando instruções gerais a casos particulares. Assim, da parte de Davi, nada faltou para torná-lo sábio.

[3.] A sabedoria lhe traria grande benefício pessoal: “Se fores sábio e bom, o serás para teu próprio bem”. Primeiro: “Ela será tua vida, teu consolo, tua felicidade; é aquilo sem o qual não podes viver”: “Guarda os meus mandamentos e vive”, v. 4.

A palavra de nosso Salvador concorda com isso: “Se queres entrar na vida, guarda os mandamentos”, Mateus 19:17.

É sob pena de morte, morte eterna, e com a perspectiva da vida, vida eterna, que somos chamados à religião. “Recebe as palavras da sabedoria, e os anos da tua vida serão muitos (v. 10): neste mundo, tantos quantos a Sabedoria Infinita julgar convenientes; no outro, viverás uma vida cujos anos nunca serão contados.”

“Guarda-a, portanto, custe o que custar, pois ela é tua vida”, v. 13. “Nela encontrarás toda a tua satisfação.” Uma alma sem verdadeira sabedoria e graça é, de fato, uma alma morta.

Segundo: “Ela será tua guarda e guia, tua escolta e condutora em todos os perigos e dificuldades da viagem por este deserto. Ama a sabedoria e apega-te a ela; ela te preservará e te guardará (v. 6) do pecado, o pior dos males e dos inimigos. Impedirá que faças mal a ti mesmo, e então ninguém mais poderá fazer-te mal.”

Como se costuma dizer: “Cuida da tua loja, e tua loja cuidará de ti”; assim também: “Guarda tua sabedoria, e tua sabedoria te guardará”. Ela nos livrará de apertos e tropeços na condução de nós mesmos e de nossos negócios, v. 12.

  1. Que nossos passos não sejam impedidos quando andarmos e não nos coloquemos em apertos como aqueles em que Davi se encontrou, 2 Samuel 24:14. Os que fazem da palavra de Deus sua regra andarão em liberdade e terão paz interior. 2. Que nossos pés não tropecem quando corrermos.

Se homens sábios e bons precisarem tomar decisões repentinas, a regra segura da palavra de Deus que seguem os impedirá, mesmo então, de tropeçar em algo que possa ser-lhes prejudicial. A integridade e a retidão nos preservarão.

Terceiro: “Ela será tua honra e reputação” (v. 8): “Exalta a sabedoria — basta que mostres tua disposição favorável ao seu avanço — e, embora não precise de teu serviço, ela o recompensará abundantemente. Ela te promoverá e te trará honra”.

Salomão seria rei, mas sua sabedoria e virtude o honrariam mais do que a coroa ou a púrpura. Por elas, todos os seus vizinhos o tinham em tão alta consideração.

Sem dúvida, em seu reinado e no de Davi, os homens sábios e bons tinham as melhores perspectivas de receber cargos. De todo modo, cedo ou tarde, a religião honrará todos os que a abraçam de coração: serão aceitos por Deus, respeitados por todos os sábios, reconhecidos no grande dia e herdarão glória eterna.

Ele insiste nisso (v. 9): “Neste mundo ela dará à tua cabeça um ornamento de graça e te recomendará tanto a Deus quanto aos homens.” “No outro, entregará a ti uma coroa de glória, uma coroa que nunca vacilará, uma coroa de glória que nunca murchará.” Essa é a verdadeira honra que acompanha a religião. Nobilitas sola est atque unica virtus — A virtude é a única nobreza!

Depois de Davi recomendar assim a sabedoria ao filho, não admira que, quando Deus lhe disse para pedir o que quisesse, Salomão tenha orado: Senhor, dê-me um coração sábio e entendido. Devemos mostrar em nossas orações quão bem nos foi ensinado.

Versículos 14 a 19

Advertências contra as Más Companhias.

Alguns entendem que as instruções de Davi a Salomão, iniciadas no v. 4, continuam até o fim do capítulo; outros chegam a estendê-las até o fim do capítulo nove. É mais provável, porém, que Salomão volte a falar aqui, se não antes. Nestes versículos, depois de nos exortar a andar nas veredas da sabedoria, ele nos adverte contra o caminho dos perversos.

  1. Devemos tomar cuidado com os caminhos do pecado e evitá-los, bem como tudo que tenha aparência de pecado e conduza a ele. 2. Para isso, devemos ficar fora dos caminhos dos pecadores e não manter comunhão com eles. Para não cairmos em práticas perversas, devemos evitar a companhia dos perversos. Aqui temos:

I. A própria advertência, v. 14, 15. 1. Devemos tomar cuidado para não nos associar ao pecado e aos pecadores: Não entres nas veredas dos perversos. Nosso mestre, como guia fiel, mostrou-nos as veredas certas (v. 11); agora nos adverte dos caminhos secundários pelos quais corremos o risco de ser desviados.

Os que foram bem educados e instruídos no caminho em que devem andar jamais se desviem para aquele em que não devem andar. Nem sequer entrem nele, nem mesmo para experimentá-lo, pois a experiência pode ser perigosa e talvez seja difícil sair em segurança. “Não te aventures na companhia dos infectados pela peste, nem mesmo se te julgares protegido por um antídoto.”

  1. Se em algum momento formos atraídos para um caminho mau, devemos sair dele depressa. “Se, antes de perceberes, entraste pela porta por ser larga, não prossigas pelo caminho dos homens maus.” “Assim que reconheceres teu engano, retira-te imediatamente; não dês mais um passo nem fiques mais um minuto no caminho que certamente conduz à destruição.”

  2. Devemos temer e detestar os caminhos do pecado e dos pecadores e evitá-los com o máximo cuidado imaginável. “O caminho dos homens maus pode parecer agradável e sociável, e o caminho mais curto para alcançar algum objetivo terreno que temos em vista. Mas é um caminho mau e acabará mal. Portanto, se amas a Deus e à tua alma, evita-o e não passes perto dele, para não seres tentado a entrar.”

“Se te achares próximo, desvia-te, passa adiante e afasta-te o máximo possível.” O modo de expressão indica o perigo iminente em que estamos, nossa necessidade dessa advertência e sua grande importância. Indica também que nossos vigias levam, ou devem levar, a sério o dever de nos avisar.

Também mostra quanta distância devemos manter do pecado e dos pecadores. Ele não diz que mantenhamos uma distância adequada, mas uma grande distância: quanto maior, melhor. Nunca pense que já se afastou o suficiente. “Escapa por tua vida; não olhes para trás.”

II. As razões que reforçam essa advertência:

  1. “Considera o caráter dos homens cujo caminho és advertido a evitar.” Eles são homens que causam dano (v. 16, 17). Não apenas desprezam os danos que causam aos que estão em seu caminho: causar dano é sua ocupação e seu prazer, pelo simples gosto de causá-lo.

Estão sempre planejando e tentando levar outros à queda, arruiná-los em corpo e alma. A perversidade e a malícia estão em sua natureza, e a violência, em todos os seus atos.

São maldosos em grau extremo, pois: (1.) Causar dano lhes serve de descanso e sono. O homem avarento se satisfaz quando consegue dinheiro; o ambicioso, quando obtém um cargo; o homem bom, quando faz o bem. Eles se satisfazem igualmente ao dizer ou fazer algo nocivo e cruel. Ficam extremamente inquietos quando não podem saciar a inveja e a vingança.

Assim era Hamã, para quem tudo era desagradável enquanto Mardoqueu não fosse enforcado. Isso também mostra como são inquietos e incansáveis em seus propósitos de causar dano: preferem privar-se do sono a perder o prazer de atormentar outros.

(2.) Causar dano lhes serve de comida e bebida: alimentam-se disso e disso fazem banquete. Comem o pão da perversidade — “devoram meu povo como quem come pão”, Salmos 14:4 — e bebem o vinho da violência (v. 17); sorvem a iniquidade como água, Jó 15:16. Tudo que comem e bebem é obtido pela rapina e opressão.

Será que os perversos consideram perdido o tempo em que não fazem mal? Que os homens bons façam do bem sua ocupação e seu prazer na mesma medida. Amici, diem perdidi — Amigos, perdi um dia. E que todos os sábios que desejam o próprio bem evitem a companhia dos perversos, pois:

[1.] Ela é muito escandalosa. Não há disposição de espírito que desonre mais a natureza humana, seja mais inimiga da sociedade, desafie com mais ousadia a Deus e à consciência, traga mais da imagem do diabo ou sirva melhor aos interesses dele do que o prazer de causar dano, atormentar, ferir e arruinar a todos.

[2.] Ela é muito perigosa. “Evita os que gostam de causar dano, se prezas tua própria segurança.” “Por mais que finjam amizade, cedo ou tarde te causarão dano.” “Arruinarás a ti mesmo se te aliares a eles (Provérbios 1:18), e eles te arruinarão se não te aliares.”

  1. “Considera o caráter do próprio caminho que és advertido a evitar, em comparação com o caminho reto em que és convidado a andar.”

(1.) O caminho da justiça é luz (v. 18). A vereda dos justos, que escolheram e na qual andam, é como a luz: ela brilha sobre seus caminhos (Jó 22:28) e os torna seguros e agradáveis. Cristo é o caminho deles, e ele é a luz. A palavra de Deus os guia e é luz para seus pés. Eles próprios são luz no Senhor e andam na luz, como ele está na luz.

[1.] É luz resplandecente. O caminho deles brilha para eles mesmos pela alegria e pelo consolo que oferece; brilha diante dos outros por seu esplendor e honra. Brilha diante dos homens, que veem suas boas obras, Mateus 5:16.

Prosseguem no caminho com santa segurança e serenidade de espírito, como quem anda na luz. É como a luz da manhã, que irrompe da escuridão (Isaías 58:8, 10) e põe fim às obras das trevas.

[2.] É luz crescente: brilha cada vez mais. Não é como a luz de um meteoro, que logo desaparece, nem como a de uma vela, que enfraquece e se consome, mas como a do sol nascente, que avança brilhando e sobe brilhando. A graça, guia desse caminho, cresce; quem tem mãos limpas se tornará cada vez mais forte.

A alegria que é o prazer desse caminho, a honra que é seu brilho e toda a felicidade que constitui sua luz continuarão aumentando. [3.] Por fim, alcançará o dia perfeito. A luz da alvorada se tornará, afinal, luz do meio-dia, e é para isso que a alma iluminada avança.

Os santos não serão perfeitos antes de chegar ao céu, mas ali eles mesmos brilharão como o sol quando sai em sua força, Mateus 13:43. Todas as suas graças e alegrias serão consumadas. Portanto, é sábio de nossa parte permanecer junto à vereda dos justos.

(2.) O caminho do pecado é como trevas, v. 19. As obras das quais ele nos advertiu a não participar são obras das trevas. Que verdadeiro prazer e satisfação podem ter os que só conhecem o prazer e a satisfação de fazer o mal? Que guia seguro têm os que deixam para trás a palavra de Deus?

O caminho dos perversos é escuro e, portanto, perigoso: tropeçam sem saber em que tropeçaram. Caem no pecado, mas não percebem de onde veio a tentação que os derrubou e, por isso, não sabem evitá-la na próxima vez.

Caem em tribulações, mas nunca perguntam por que Deus contende com eles. Não consideram que fazem o mal nem qual será o fim disso, Salmos 82:5; Jó 18:5, 6. Esse é o caminho que somos orientados a evitar.

Versículos 20 a 27

Instruções dos Pais.

Depois de nos advertir a não fazer o mal, Salomão nos ensina aqui a fazer o bem. Não basta evitar as ocasiões de pecado; devemos estudar os modos de cumprir nosso dever.

I. Devemos ter consideração contínua pela palavra de Deus e procurar mantê-la sempre ao nosso alcance.

  1. As declarações da sabedoria devem ser os princípios pelos quais nos governamos e os conselheiros que nos advertem do dever e do perigo. Portanto: (1.) Devemos recebê-las prontamente: “Inclina a elas teu ouvido (v. 20); submete-te humildemente a elas; escuta-as com diligência”.

Ouvir atentamente a palavra de Deus é bom sinal de que uma obra da graça começou no coração e bom meio de levá-la adiante.

Há esperança de que estejam decididos a cumprir seu dever aqueles que se inclinam a conhecê-lo. (2.) Devemos conservá-las cuidadosamente (v. 21) e tê-las diante de nós como regra: “Não as deixes apartar-se de teus olhos; olha para elas, torna a examiná-las e procura conformar-te a elas em tudo”.

Devemos abrigá-las dentro de nós como princípio que governa, cujas influências se espalham por todo o nosso ser: “Guarda-as no meio do teu coração, como coisas preciosas que temes perder”. Que a palavra de Deus seja escrita no coração; o que ali estiver escrito permanecerá.

  1. Devemos dar tamanho valor às palavras da sabedoria porque serão para nós tanto alimento quanto remédio, como a árvore da vida, Apocalipse 22:2; Ezequiel 47:12. Os que as buscam e encontram, as encontram e guardam, acharão nelas: (1.) Alimento, pois são vida para os que as encontram, v. 22.

Assim como a vida espiritual começou por meio da palavra, seu instrumento, pela mesma palavra ela continua sendo nutrida e sustentada. Não poderíamos viver sem ela; pela fé, podemos viver dela. (2.) Remédio. Elas são saúde para toda a carne dos que as encontram, para o ser humano inteiro, corpo e alma; ajudam a conservar ambos em boas condições.

São saúde para toda carne, assim lê a Septuaginta. Há nelas o suficiente para curar todas as doenças deste mundo enfermo. São remédio para toda a sua carne (assim diz a palavra), para todas as suas corrupções, também chamadas carne, e para todos os seus sofrimentos, que são como espinhos na carne. Na palavra de Deus há remédio apropriado para todas as nossas enfermidades espirituais.

II. Devemos manter o olhar vigilante e a mão firme sobre todos os movimentos do nosso ser interior, v. 23. Aqui temos: 1. Um grande dever exigido pelas leis da sabedoria, necessário para obtê-la e preservá-la: “Guarda teu coração com toda diligência”.

Deus, que nos deu a alma, entregou-nos também uma ordem rigorosa a respeito dela: homem, mulher, guarde seu coração; cuide do seu espírito, Deuteronômio 4:9.

Devemos manter santa desconfiança de nós mesmos e, por isso, guardar rigorosamente todas as entradas da alma. Guardemos nosso coração de causar dano e de sofrê-lo, de ser contaminado pelo pecado e perturbado pela tribulação.

Guardemo-lo como joia e como vinha; mantenhamos a consciência sem ofensa, afastemos os pensamentos maus e cultivemos os bons. Voltemos os afetos para os objetos certos e conservemo-los dentro dos limites devidos.

Guardemos o coração com todas as formas de guarda (assim diz a palavra). Há muitos modos de guardar algo: pelo cuidado, pela força, buscando ajuda. Devemos usar todos eles para guardar o coração, e ainda será pouco, tão enganoso ele é, Jeremias 17:9. Ou: acima de todas as guardas; devemos guardar o coração com mais cuidado e diligência do que qualquer outra coisa.

Devemos guardar os olhos (Jó 31:1), a língua (Salmos 34:13) e os pés (Eclesiastes 5:1), mas, acima de tudo, o coração. 2. Uma boa razão para tanto cuidado: dele procedem as fontes da vida. De um coração bem guardado fluirão correntes vivas e bons frutos, para a glória de Deus e a edificação de outros.

Ou, em termos gerais, todas as ações da vida procedem do coração. Guardá-lo é, portanto, tornar boa a árvore e curar as fontes. Nossa vida será ordenada ou desordenada, agradável ou penosa, conforme guardemos ou negligenciemos o coração.

III. Devemos pôr sentinela à porta dos lábios, para não pecarmos com a língua (v. 24): “Afasta de ti a boca rebelde e os lábios perversos”. Como nosso coração é naturalmente corrupto, dele tende a sair muita conversa corrupta. Devemos, por isso, ter grande temor e aversão a toda palavra má: maldição, juramento profano, mentira, calúnia, briga, obscenidade e conversa tola.

Tudo isso procede da boca rebelde e dos lábios perversos, que não se deixam governar nem pela razão nem pela religião, mas contradizem ambas. Diante de Deus, são tão feios e deformes quanto uma boca torta e contorcida parece aos homens.

Devemos afastar de nós, afastar para longe, toda espécie de pecado da língua, com vigilância constante e firme resolução, abstendo-nos de palavras com aparência de mal e temendo até aprendê-las.

IV. Devemos fazer uma aliança com nossos olhos: “Que olhem diretamente para a frente, bem diante de ti”, v. 25. Que o olhar fique fixo, sem vaguear atrás de tudo que se apresenta; do contrário, será desviado do bem e enredado no mal.

“Que se desvie de contemplar a vaidade; que teu olhar seja simples, não dividido; que tuas intenções sejam sinceras e constantes, sem olhares de lado para fins secundários.”

Devemos manter os olhos em nosso Mestre e cuidar de ser aprovados por ele; manter os olhos em nossa regra e conformar-nos a ela; manter os olhos em nosso alvo, o prêmio da soberana vocação, e para ele dirigir tudo. Oculum in metam — O olho no alvo.

V. Devemos agir com ponderação em tudo que fazemos (v. 26): “Pondera a vereda de teus pés”; pesa-a (assim diz a palavra). “Põe a palavra de Deus num prato da balança e, no outro, o que fizeste ou estás prestes a fazer; vê se estão de acordo.” “Examina com minúcia e rigor se teu caminho é bom diante do Senhor e se terá bom fim.”

Devemos considerar os caminhos passados e examinar o que fizemos; também os atuais, o que fazemos e para onde vamos, cuidando de andar prudentemente. Convém considerar os deveres e as dificuldades, as vantagens e os perigos do nosso caminho para agirmos de acordo. “Não faças nada precipitadamente.”

VI. Devemos agir com firmeza, cautela e coerência (v. 26): “Que todos os teus caminhos sejam firmes, e não sejas neles instável como o homem de ânimo dividido.”

“Não fiques indeciso entre dois caminhos; prossegue, porém, numa obediência uniforme e constante.” “Não te desvies para a direita nem para a esquerda, pois há erros de ambos os lados, e Satanás alcança seu objetivo se conseguir afastar-nos por qualquer deles.”

“Tem muito cuidado de afastar o pé do mal. Evita os extremos, pois neles há mal, e mantém os olhos voltados diretamente para a frente, para conservares o justo meio-termo.” Os que desejam mostrar-se sábios devem estar sempre vigilantes.


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