Provérbios 3
Argumento
Este capítulo é um dos mais excelentes de todo este livro, tanto pelas razões para nos persuadir a ser religiosos quanto pelas orientações a esse respeito.
I. Devemos ser constantes no nosso dever, porque esse é o caminho para sermos felizes, vv. 1-4. II. Devemos viver uma vida de dependência de Deus, porque esse é o caminho para estarmos seguros, v. 5. III. Devemos conservar o temor de Deus, porque esse é o caminho para termos saúde, v. 7, 8.
IV. Devemos servir a Deus com os nossos bens, porque esse é o caminho para sermos ricos, v. 9, 10. V. Devemos suportar bem as aflições, porque esse é o caminho para obtermos proveito delas, v. 11, 12.
VI. Devemos nos empenhar para obter sabedoria, porque esse é o caminho para alcançá-la e para ganhar por meio dela, vv. 13-20. VII. Devemos sempre nos governar pelas regras da sabedoria, da reta razão e da religião, porque esse é o caminho para vivermos sempre tranquilos, vv. 21-26.
VIII. Devemos fazer todo o bem que pudermos, e nenhum mal, aos nossos vizinhos, porque, conforme os homens sejam justos ou injustos, caridosos ou sem caridade, humildes ou altivos, assim receberão de Deus, vv. 27-35. De tudo isso se vê a tendência da religião de tornar os homens tanto abençoados quanto bênçãos.
Versículos 1 a 6
Comunhão Conferida pela Sabedoria.
Aqui nos é ensinado a viver uma vida de comunhão com Deus. E, sem controvérsia, grande é esse mistério da piedade, de grande importância para nós e, como aqui se mostra, trará vantagem indizível.
I. Devemos ter contínua consideração pelos preceitos de Deus, v. 1, 2:
- Devemos: (1.) Fixar a lei de Deus e os seus mandamentos como nossa regra, pela qual seremos governados em tudo e à qual prestaremos obediência. (2.) Familiarizar-nos com eles, pois não se pode dizer que esquecemos o que nunca conhecemos. (3.) Lembrar-nos deles, para que estejam à nossa disposição sempre que precisarmos usá-los.
(4.) Nossa vontade e nossos afetos devem sujeitar-se a eles e conformar-se a eles em tudo. Não apenas a nossa cabeça, mas também o nosso coração, deve guardar os mandamentos de Deus. Nele, como na arca do testemunho, devem ser depositadas ambas as tábuas da lei.
- Para nos animar a nos submetermos a todas as restrições e ordens da lei divina, recebemos a garantia (v. 2) de que esse é o caminho certo para uma vida longa e próspera. (1.) É o caminho para viver muito. Os mandamentos de Deus prolongarão os nossos dias; a uma vida boa e útil na terra, acrescentarão uma vida eterna no céu, “longura de dias para todo o sempre”, Salmos 21:4.
Deus será a nossa vida e a duração dos nossos dias, e isso será, de fato, vida longa, com um acréscimo. Mas, porque uma vida longa pode se tornar um fardo e uma perturbação, promete-se: (2.) Que esse será também o caminho para viver em tranquilidade, de modo que nem os dias da velhice serão dias maus, mas dias em que você terá prazer: Eles continuamente lhe acrescentarão paz.
À medida que a graça aumenta, a paz aumentará. E do aumento do governo e da paz de Cristo, tanto no coração quanto no mundo, não haverá fim. Grande e crescente paz têm os que amam a lei.
II. Devemos ter contínua consideração pelas promessas de Deus, que acompanham os seus preceitos e devem ser recebidas e guardadas com eles (v. 3): “Não deixes que a misericórdia e a verdade te abandonem, a misericórdia de Deus ao prometer e a sua verdade ao cumprir.”
“Não percas essas coisas, mas vive à altura delas e conserva o teu interesse nelas; não te esqueças delas, mas vive delas e desfruta do consolo que oferecem. Ata-as ao teu pescoço, como o mais belo ornamento.” A maior honra que podemos alcançar neste mundo é ter interesse na misericórdia e na verdade de Deus.
“Escreve-as na tábua do teu coração, como coisas queridas para ti, tua porção e tua ocupação mais prazerosa; tem prazer em aplicá-las e em meditar nelas.” Ou isso pode se referir à misericórdia e à verdade que são nosso dever: piedade e sinceridade, caridade para com os homens e fidelidade a Deus. Que esses sejam princípios firmes e dominantes em você.
Para nos animar a fazer isso, recebemos a garantia (v. 4) de que esse é o caminho para nos recomendar tanto ao nosso Criador quanto às criaturas semelhantes a nós: “Assim acharás favor e bom entendimento.”
- O homem bom busca em primeiro lugar o favor de Deus e aspira à honra de ser aceito pelo Senhor. Ele achará esse favor e, com ele, bom entendimento. Deus fará a melhor avaliação dele e interpretará favoravelmente o que ele disser e fizer.
Será reconhecido como um dos filhos da Sabedoria e receberá louvor de Deus, como alguém que possui o bom entendimento atribuído a todos os que cumprem os seus mandamentos.
- Ele deseja também obter favor junto aos homens, como Cristo obteve, Lucas 2:52, e ser “aceito pela multidão de seus irmãos”, Ester 10:3. Ele terá esse favor; os homens o compreenderão corretamente e, ao lidar com eles, ele demonstrará prudência, agindo com inteligência e discernimento. Ele terá bom êxito, como alguns traduzem, o efeito comum do bom entendimento.
III. Devemos ter contínua consideração pela providência de Deus, reconhecê-la e depender dela em todos os nossos assuntos, tanto pela fé quanto pela oração:
- Pela fé. Devemos depositar inteira confiança na sabedoria, no poder e na bondade de Deus, certos de que a sua providência se estende a todas as criaturas e a todas as suas ações. Portanto, devemos confiar no Senhor de todo o coração (v. 5).
Devemos crer que ele é capaz de fazer o que quiser, sábio para fazer o que é melhor e bom para fazer, conforme a sua promessa, o que é melhor para nós, se o amarmos e servirmos a ele. Com inteira submissão e satisfação, devemos depender dele para realizar todas as coisas em nosso favor, e não nos apoiar no nosso próprio entendimento.
Não devemos agir como se pudéssemos, por alguma previsão nossa e sem Deus, ajudar a nós mesmos e levar nossos assuntos a um bom desfecho. Quem conhece a si mesmo não pode deixar de perceber que o seu próprio entendimento é uma cana quebrada, que certamente falhará se nele se apoiar.
Em toda a nossa conduta, devemos desconfiar do nosso próprio julgamento e confiar na sabedoria, no poder e na bondade de Deus. Por isso, devemos seguir a Providência, sem forçá-la. Muitas vezes, aquilo em que tivemos menos participação acaba sendo o melhor.
- Pela oração (v. 6): Reconheça Deus em todos os seus caminhos. Não devemos apenas crer, em nosso juízo, que existe a mão soberana de Deus governando e dispondo de nós e de todos os nossos assuntos. Devemos reconhecê-la solenemente e dirigir-nos a ele de acordo com isso.
Devemos pedir-lhe permissão e não planejar nada cuja legitimidade não conheçamos com certeza. Devemos pedir-lhe conselho e implorar sua orientação, não só quando a situação for difícil — quando não sabemos o que fazer, não há mérito nosso em erguer os olhos a ele —, mas em todas as situações, por mais simples que sejam.
Devemos pedir-lhe êxito, como pessoas que sabem que a corrida não é dos velozes. Devemos entregar-nos a ele como àquele de quem procede o nosso julgamento e aguardar a sua decisão com paciência e santa indiferença.
Em todos os caminhos que se mostrarem diretos, bons e agradáveis, nos quais alcançarmos o nosso objetivo para nossa satisfação, devemos reconhecer a Deus com gratidão. Em todos os caminhos que se mostrarem contrários e desconfortáveis, cercados de espinhos, devemos reconhecer a Deus com submissão.
Nossos olhos devem estar sempre voltados para Deus. Em tudo, devemos tornar-lhe conhecidos os nossos pedidos, assim como Jefté declarou todas as suas palavras diante do Senhor em Mispa, Juízes 11:11. Para nosso ânimo ao agir assim, há a promessa: “Ele endireitará as tuas veredas, de modo que o teu caminho será seguro e bom, e o desfecho, feliz no final.”
Repare: aqueles que se colocam sob a orientação divina sempre colherão seus benefícios. Deus lhes dará a sabedoria proveitosa para orientá-los, de modo que não se desviarão para as trilhas laterais do pecado. Então ele mesmo ordenará o desfecho com tanta sabedoria que este corresponderá ao desejo deles ou, o que é equivalente, será para o bem deles.
Os que seguem fielmente a coluna de nuvem e de fogo descobrirão que, embora ela possa conduzi-los por um caminho longo, ainda assim os conduz pelo caminho certo e, por fim, os levará a Canaã.
Versículos 7 a 12
Consagração a Deus.
Temos aqui diante de nós três exortações, cada qual reforçada por um bom motivo:
I. Devemos viver em humilde e obediente sujeição a Deus e ao seu governo (v. 7): “Teme ao Senhor, como teu soberano Senhor e Mestre; deixa que a tua religião te governe em tudo e sujeita-te à vontade divina.” Isso deve ser:
Uma sujeição humilde: “Não sejas sábio aos teus próprios olhos.” Repare: não existe inimigo maior do poder da religião e do temor de Deus no coração do que a presunção acerca da nossa própria sabedoria. Os que têm uma opinião elevada da própria capacidade acham indigno de si, e depreciativo para si, orientar-se pelas regras da religião, muito menos sujeitar-se às restrições delas.
Uma sujeição obediente: “Teme ao Senhor e afasta-te do mal.” Tome cuidado para não fazer nada que o ofenda e lhe faça perder o zelo dele. Temer ao Senhor de modo a se afastar do mal é a verdadeira sabedoria e o verdadeiro entendimento, Jó 28:28. Aqueles que os possuem são na verdade sábios, mas com renúncia de si mesmos, e não sábios aos próprios olhos.
Para nosso ânimo em viver assim no temor de Deus, promete-se aqui (v. 8) que isso será tão útil até mesmo para o homem exterior quanto o alimento necessário. Será nutritivo: “Será saúde para o teu umbigo.” Será fortalecedor: Será medula para os seus ossos.
A prudência, a temperança e a sobriedade, a calma e a serenidade de espírito e o bom governo dos apetites e paixões que a religião ensina contribuem muito não só para a saúde da alma, mas também para uma boa constituição do corpo. Isso é muito desejável; sem ela, nossos outros prazeres neste mundo perdem o sabor.
A inveja é a podridão dos ossos; a tristeza do mundo os resseca; mas a esperança e a alegria em Deus são medula para eles.
II. Devemos fazer bom uso dos nossos bens, e esse é o caminho para aumentá-los, v. 9, 10. Aqui está:
- Um preceito que faz do serviço a Deus com os nossos bens um dever: “Honra ao Senhor com os teus recursos.” O propósito da nossa criação e redenção é honrar a Deus, ser para ele motivo de renome e louvor. Não somos capazes de servi-lo de outra maneira senão promovendo a sua honra. Devemos manifestar a honra dele e a honra que temos por ele.
Devemos honrá-lo não apenas com nosso corpo e espírito, que são dele, mas também com nossos bens, pois também eles lhe pertencem. Nós e tudo o que possuímos devemos ser dedicados à sua glória. A riqueza deste mundo é um recurso pobre; ainda assim, tal como é, devemos honrar a Deus com ela, e então, se alguma vez isso acontece, ela se torna substancial.
Devemos honrar a Deus: (1.) Com o nosso aumento. Quando as riquezas aumentam, somos tentados a honrar a nós mesmos, Deuteronômio 8:17, e a colocar o coração no mundo, Salmos 62:10. Contudo, quanto mais Deus nos dá, tanto mais devemos procurar honrá-lo. Trata-se do aumento que vem da terra, pois vivemos de produtos anuais, para nos manter em constante dependência de Deus.
(2.) Com todo o nosso aumento. Assim como Deus nos fez prosperar em tudo, devemos honrá-lo. Nossa lei admite uma prescrição de modus decimandi, um modo de dar o dízimo, mas não de de non decimando, uma isenção do pagamento dos dízimos.
(3.) Com as primícias de tudo, como Abel, Gênesis 4:4. Essa era a lei, Êxodo 23:19, e a mensagem dos profetas, Malaquias 3:10. Deus, que é o primeiro e o melhor, deve receber o primeiro e o melhor de todas as coisas. Seu direito precede todos os outros; por isso, ele deve ser servido primeiro.
Repare: é nosso dever pôr os bens deste mundo a serviço da nossa religião, empregando-os, e a influência que obtemos por meio deles, para promover a religião. Devemos fazer o bem aos pobres com o que temos e abundar em todas as obras de piedade e caridade, planejando ações generosas.
- Uma promessa que torna do nosso interesse servir a Deus com os nossos bens. Esse é o caminho para fazer do pouco muito, e do muito, ainda mais; é o método mais certo e seguro para prosperar: “Assim os teus celeiros se encherão de abundância.” Ele não diz que as suas bolsas, mas que os seus celeiros se encherão; não que o seu guarda-roupa será abastecido, mas as suas cubas.
“Deus te abençoará com o aumento daquilo que serve para o uso, e não para a aparência ou o ornamento; para gastar e empregar, e não para acumular e guardar.” Os que fazem o bem com o que têm terão mais para fazer mais bem.
Repare: se colocarmos nossos bens deste mundo a serviço da nossa religião, descobriremos que nossa religião é muito útil à prosperidade dos nossos assuntos terrenos. A piedade tem a promessa da vida presente e da maior parte dos seus confortos. Enganamo-nos se pensamos que dar nos arruinará e empobrecerá.
Não: dar para a honra de Deus nos tornará ricos, Ageu 2:19. Aquilo que demos, nós temos.
III. Devemos nos conduzir corretamente em nossas aflições, v. 11, 12. O apóstolo cita essa passagem, Hebreus 12:5, e a chama de exortação que nos fala como a filhos, com a autoridade e o afeto de um pai. Estamos aqui em um mundo de perturbações. Agora observe:
- Qual deve ser o nosso zelo quando estamos em aflição. Não devemos nem desprezá-la nem nos cansar dela. A exortação anterior se dirigia aos ricos e prósperos; esta se dirige aos pobres e aos que estão na adversidade.
(1.) Não devemos desprezar uma aflição, por mais leve e breve que seja, como se não valesse a pena reparar nela ou como se não tivesse sido enviada com uma incumbência e, portanto, não exigisse resposta. Não devemos ser como troncos, pedras ou estoicos sob as nossas aflições, insensíveis a elas, endurecendo-nos sob elas e concluindo que podemos atravessá-las facilmente sem Deus.
(2.) Não devemos nos cansar de uma aflição, por mais pesada e longa que seja, nem desfalecer sob ela, como traduz o apóstolo. Não devemos ficar desalentados, perder o domínio da própria alma, ser levados ao desespero ou recorrer a meios indiretos para obter alívio e remediar nossas queixas.
Não devemos pensar que a aflição nos oprime mais do que convém ou dura além do que convém, nem concluir que o livramento jamais virá só porque não chega tão cedo quanto esperamos.
- Qual será o nosso consolo quando estamos em aflição. (1.) Que ela é uma correção divina; é a disciplina do Senhor. Assim como isso é motivo para nos submetermos a ela, pois é insensatez contender com um Deus de soberania incontestável e poder irresistível, assim é motivo para estarmos satisfeitos nela.
Podemos ter certeza de que um Deus de pureza imaculada não nos faz injustiça e de que um Deus de bondade infinita não pretende nos causar prejuízo. A aflição vem de Deus e, portanto, não deve ser desprezada, pois um menosprezo dirigido ao mensageiro é uma afronta a quem o enviou.
Ela vem de Deus e, portanto, não devemos nos cansar dela, pois ele conhece a nossa constituição, tanto o que precisamos quanto o que podemos suportar.
(2.) Que ela é uma correção paterna. Ela não procede da sua justiça vingadora como Juiz, mas do seu sábio afeto como Pai. O pai corrige o filho a quem ama; ou melhor: corrige-o porque o ama e deseja que ele seja sábio e bom.
Ele se deleita naquilo que é amável e agradável no seu filho e, por isso, corrige-o para prevenir e curar o que o desfiguraria e diminuiria seu prazer nele. Assim Deus disse: “A tantos quantos amo, repreendo e disciplino”, Apocalipse 3:19.
Isso é um grande consolo para os filhos de Deus sob suas aflições: [1.] Que elas não apenas são compatíveis com o amor da aliança, mas procedem dele. [2.] Que estão tão longe de lhes causar qualquer prejuízo real que, pela graça de Deus que opera junto com elas, produzem muito bem e são meios felizes de lhes trazer satisfação.
Versículos 13 a 20
A Excelência da Sabedoria; Felicidade dos Que Encontram Sabedoria.
Salomão nos havia instado com fervor a buscar diligentemente a sabedoria, Provérbios 2:1, etc., e nos assegurado de que teríamos êxito em nossa busca sincera e constante. Mas a pergunta é: o que ganharemos com ela quando a encontrarmos?
A perspectiva de vantagem é a origem e o estímulo da diligência. Por isso, ele nos mostra quanto ela nos será proveitosa, estabelecendo como verdade incontestável: “Feliz é o homem que encontra sabedoria”, a verdadeira sabedoria, que consiste no conhecimento e no amor de Deus e na plena conformidade com todas as intenções das suas verdades, providências e leis. Agora observe:
I. O que significa encontrar sabedoria de modo a ser feliz por meio dela:
- Devemos obtê-la. Feliz é o homem que, tendo-a encontrado, faz dela algo seu, obtém tanto uma participação nela quanto a sua posse, que extrai entendimento, como diz a palavra. Isto é:
(1.) Quem o recebe de Deus. Não o tendo em si mesmo, retira-o com o balde da oração da fonte de toda a sabedoria, que dá liberalmente.
(2.) Quem se empenha por ele, como faz aquele que extrai minério de uma mina. Se não vier facilmente, devemos empregar mais força para extraí-lo.
(3.) Quem progride nele. Tendo algum entendimento, extrai mais dele ao crescer em conhecimento e transformar cinco talentos em dez.
(4.) Quem faz o bem com ele. Retira do estoque que possui, como se tira vinho de um recipiente, e comunica a outros, para instruí-los, coisas novas e antigas. É bem adquirido, e para bom propósito, aquilo que assim se usa para um bom propósito.
- Devemos negociar por ela. Lemos aqui sobre o comércio da sabedoria, o que indica: (1.) Que devemos fazer dela a nossa ocupação principal, e não uma atividade secundária, assim como o comerciante dedica a maior parte dos seus pensamentos e do seu tempo ao seu comércio.
(2.) Que devemos arriscar tudo nela, como capital investido em um negócio, e estar dispostos a abrir mão de tudo por ela. Essa é a pérola de grande valor que, quando a encontrarmos, devemos de boa vontade vender tudo para adquirir, Mateus 13:45, 46.
“Compra a verdade”, Provérbios 23:23. Ele não diz a que preço, porque devemos comprá-la a qualquer preço, em vez de perdê-la.
Devemos agarrar-nos a ela como nos agarramos a um bom negócio quando nos é oferecido, e com tanto mais cuidado se houver o perigo de que nos seja tirado das mãos. Devemos apreendê-la com todas as nossas forças e empregar o máximo vigor em sua busca, aproveitar todas as ocasiões para progredir nela e acolher até mesmo a menor das suas orientações.
Devemos retê-la. Não basta agarrar-nos à sabedoria; devemos conservar nossa firmeza, segurá-la bem, resolvidos a jamais deixá-la escapar, mas a perseverar nos caminhos da sabedoria até o fim.
Devemos sustentá-la, como alguns leem, abraçá-la com todas as nossas forças, como fazemos com aquilo que desejamos sustentar. Devemos fazer tudo que pudermos para apoiar os interesses enfraquecidos da religião nos lugares onde vivemos.
II. Em que consiste a felicidade daqueles que a encontram:
- É uma felicidade superior, maior do que se pode encontrar nas riquezas deste mundo, por mais que as possuamos, v. 14, 15. Negociar pela sabedoria, por Cristo, pela graça e pelas bênçãos espirituais é um comércio não só mais seguro, mas também mais lucrativo do que negociar por prata, ouro e rubis.
Suponha que um homem tenha obtido essas coisas em abundância; ou melhor: que possua tudo o que pode desejar deste mundo — e quem já possuiu? Ainda assim: (1.) Tudo isso não compraria a sabedoria celestial. Não: seria inteiramente desprezado. “Ela não pode ser obtida por ouro”, Jó 28:15, etc.
(2.) Tudo isso não compensaria a falta da sabedoria celestial, nem serviria de resgate para uma alma perdida por sua própria insensatez.
(3.) Tudo isso não tornaria um homem nem metade tão feliz, não, nem mesmo neste mundo, quanto são aqueles que têm a verdadeira sabedoria, ainda que não possuam nenhuma dessas coisas.
(4.) A sabedoria celestial nos obterá e assegurará aquilo que a prata, o ouro e os rubis não podem comprar.
- É uma felicidade verdadeira, pois inclui todas as coisas que supostamente tornam os homens felizes e equivale a elas, v. 16, 17. A sabedoria é apresentada aqui como uma rainha radiante e generosa, estendendo presentes aos seus súditos fiéis e afetuosos e oferecendo-os a todos os que se sujeitarem ao seu governo.
(1.) Uma vida longa é uma bênção? Sim: a mais valiosa. A vida inclui todos os bens; por isso, ela a oferece em sua mão direita. A religião nos põe nos melhores caminhos para prolongar a vida e nos dá direito às promessas relacionadas a ela.
Embora nossos dias na terra não sejam mais numerosos que os dos nossos vizinhos, ainda assim ela nos assegurará vida eterna em um mundo melhor.
(2.) As riquezas e a honra são consideradas bênçãos? São, e ela as estende com a mão esquerda. Pois, assim como está pronta a abraçar com ambos os braços os que se sujeitam a ela, assim está pronta a lhes dar com ambas as mãos.
Eles terão as riquezas deste mundo na medida em que a Sabedoria Infinita as julgar boas para eles, ao passo que lhes são asseguradas as verdadeiras riquezas, pelas quais os homens são ricos para com Deus.
Não existe tampouco honra, por nascimento ou cargo, comparável àquela que acompanha a religião. Ela torna o justo mais excelente do que o seu vizinho, recomenda os homens a Deus e conquista o respeito e a veneração de toda a parte sensata da humanidade.
No outro mundo, ela fará aqueles que hoje estão sepultados na obscuridade brilhar como o sol.
(3.) O prazer é buscado tanto quanto qualquer outra coisa? É, e é certo que a verdadeira piedade contém o maior prazer verdadeiro. “Seus caminhos são caminhos agradáveis.” Nos caminhos pelos quais ela nos orientou a andar, encontraremos abundância de deleite e satisfação.
Todos os prazeres e entretenimentos dos sentidos não se comparam ao prazer que as almas agraciadas encontram na comunhão com Deus e na prática do bem.
Devemos andar no único caminho certo que nos leva ao fim da jornada, faça bom ou mau tempo, seja ele agradável ou desagradável. Mas o caminho da religião, assim como é o caminho certo, assim é agradável. É plano e limpo, coberto de rosas: “Todas as suas veredas são paz.”
Há paz não só no fim, mas também ao longo do caminho; não só no caminho da religião em geral, mas em cada uma das suas veredas, em todos os seus diversos atos, exemplos e deveres. Um não amarga o que outro adoça, como acontece com as misturas deste mundo. Todos são paz: não apenas doces, mas seguros.
Os santos entram em paz deste lado do céu e desfrutam desde agora de um descanso sabático.
- É a felicidade do paraíso (v. 18): “Ela é uma árvore da vida.” A verdadeira graça é para a alma aquilo que a árvore da vida teria sido, da qual nossos primeiros pais foram excluídos por terem comido da árvore proibida. É uma semente de imortalidade, uma fonte de águas vivas que brota para a vida eterna.
É um penhor da Nova Jerusalém, no meio da qual está a árvore da vida, Apocalipse 22:2; 2:7. Aqueles que se alimentam e se banqueteiam com essa sabedoria celestial não só serão curados por ela de toda doença fatal, mas encontrarão um antídoto contra a velhice e a morte. Comerão e viverão para sempre.
- É uma participação na felicidade do próprio Deus, pois a sabedoria é a sua glória e bem-aventurança eternas, v. 19, 20. O fato de que o Senhor fundou a terra pela sabedoria deve nos fazer amar a sabedoria e o entendimento que ele concede.
Assim, a terra não pode ser removida, nem pode deixar de cumprir todos os propósitos da sua criação, para os quais foi ajustada de modo admirável e irrepreensível. Pelo entendimento, ele também estabeleceu os céus e dirigiu da melhor maneira todos os seus movimentos.
Os corpos celestes são imensos, mas não há defeito neles; numerosos, mas não há desordem entre eles; seu movimento é rápido, mas não há desgaste nem deterioração. As profundezas do mar se abrem, e delas vêm as águas debaixo do firmamento; as nuvens destilam o orvalho, as águas acima do firmamento.
Tudo isso acontece pela sabedoria e pelo conhecimento divinos. Portanto, feliz é o homem que encontra sabedoria, pois, por meio dela, será inteiramente preparado para toda boa palavra e obra.
Cristo é essa Sabedoria, por meio de quem os mundos foram criados e ainda subsistem. Portanto, felizes são aqueles para quem ele foi feito sabedoria da parte de Deus. Ele dispõe dos meios para cumprir todas as promessas anteriores de vida longa, riquezas e honra, pois toda a riqueza dos céus, da terra e dos mares lhe pertence.
Versículos 21 a 26
A Excelência da Sabedoria.
Depois de declarar felizes os que não apenas se agarram à sabedoria, mas também a retêm, Salomão nos exorta aqui, portanto, a retê-la, assegurando-nos de que nós mesmos teremos o consolo de fazê-lo.
I. A exortação é manter sempre à vista e no coração as regras da religião, v. 21:
- Mantê-las sempre à vista: “Meu filho, não as deixes afastar-se dos teus olhos; não deixes jamais que teus olhos se afastem delas para vaguear atrás da vaidade. Tem-nas sempre em mente e não te esqueças delas; pensa nelas repetidas vezes e convive com elas.”
“Jamais imagines que já as contemplaste por tempo suficiente e que agora chegou a hora de deixá-las de lado. Mas, enquanto viveres, conserva e cultiva a familiaridade com elas.” Quem aprende a escrever precisa ter sempre os olhos no modelo, sem perdê-lo de vista. Do mesmo modo, aqueles que desejam andar com cautela precisam ter constante consideração pelas palavras da sabedoria.
- Mantê-las sempre no coração. É nesse tesouro, o homem interior do coração, que devemos guardar a sã sabedoria e o discernimento, conservar seus princípios e permanecer em seus caminhos. Essa é uma riqueza que merece ser guardada.
II. A razão que reforça essa exortação vem da vantagem indizível que a sabedoria, assim guardada, nos trará:
Com respeito à força e à satisfação: “Ela será vida para a tua alma (v. 22); ela te despertará para o teu dever quando começares a ficar preguiçoso e negligente e te reanimará sob as tuas perturbações quando começares a desfalecer e perder a esperança. Será a tua vida espiritual, um penhor da vida eterna.” Vida para a alma é vida de fato.
Com respeito à honra e à reputação: Será graça para o seu pescoço, como uma corrente de ouro ou uma joia. Graça para as suas mandíbulas, como diz a palavra; algo agradável ao seu gosto e paladar, segundo alguns. Outros entendem que infundirá graça em tudo o que você disser, dando-lhe palavras agradáveis que lhe trarão boa reputação.
Com respeito à proteção e à segurança. Ele insiste nisso ao longo de quatro versículos, cujo propósito é mostrar que o efeito da justiça — que aqui é a mesma coisa que a sabedoria — é tranquilidade e segurança para sempre, Isaías 32:17.
As pessoas boas são acolhidas sob a proteção especial de Deus e nela podem ter plena satisfação. Estão seguras e podem viver tranquilas:
(1.) Em seus movimentos durante o dia, v. 23. Se a nossa religião for nossa companheira, será também nossa escolta: “Então andarás seguro pelo teu caminho. A vida natural e tudo o que lhe pertence estarão sob a proteção da providência de Deus; a vida espiritual e todos os seus interesses estão sob a proteção da sua graça.”
“Assim, serás guardado de cair no pecado ou na perturbação.” A sabedoria nos dirigirá a um caminho seguro e nos conservará nele, tão longe da tentação quanto possível, e nos capacitará a andar nele com santa segurança. O caminho do dever é o caminho da segurança.
“Corremos o risco de cair, mas a sabedoria te guardará, para que teu pé não tropece nas coisas que fazem muitos se ofenderem e caírem, mas que tu saberás como superar.”
(2.) Em seu descanso durante a noite, v. 24. Quando nos recolhemos, ficamos expostos e mais sujeitos aos sustos. “Mas conserva a comunhão com Deus e a boa consciência. Então, ao te deitares, não terás medo do fogo, dos ladrões, dos espectros ou de qualquer terror das trevas.”
“Saberás que, quando nós e todos os nossos amigos dormimos, ainda assim aquele que guarda Israel e cada verdadeiro israelita não cochila nem dorme. Tu te entregaste a ele e te abrigaste à sombra das suas asas.”
“Tu te deitarás e não precisarás ficar acordado de guarda. Depois de deitado, dormirás, sem que o cuidado e o medo mantenham teus olhos abertos. Teu sono será doce e revigorante, sem ser perturbado por alarmes de fora ou de dentro”, Salmos 4:8; 116:7.
O caminho para uma boa noite é manter uma boa consciência. Assim como o sono do trabalhador, assim o sono do homem sábio e piedoso é doce.
(3.) Em suas maiores dificuldades e perigos. A integridade e a retidão nos preservarão, de modo que não precisaremos temer o pavor repentino, v. 25. Os prejuízos que nos surpreendem sem aviso, sem nos dar tempo para nos prepararmos por meio da reflexão, são os que mais provavelmente nos confundem.
Mas que o homem sábio e bom não se esqueça de si mesmo. Assim, não dará lugar a nenhum medo que traz tormento, por mais repentino que seja o alarme.
Que ele não tema a desolação dos ímpios quando ela vier. Isto é: [1.] A desolação que os ímpios causam à religião e aos religiosos. Embora ela venha e pareça estar bem à porta, ainda assim não a tema. Pois, embora Deus possa usar os ímpios como instrumentos de correção do seu povo, ainda assim jamais permitirá que sejam os autores da desolação desse povo.
Ou, antes: [2.] A desolação à qual os homens ímpios serão reduzidos num instante. Ela virá, e os santos temerosos podem recear ser envolvidos nela. Mas que tenham este consolo: ainda que os julgamentos devastem amplamente, ou pelo menos sem distinção, ainda assim Deus sabe quem são os seus e como separar o precioso do vil.
Portanto, não tema aquilo que parece mais temível, pois (v. 26) “o Senhor será não apenas teu protetor, para te manter a salvo, mas também tua confiança, para te manter seguro, de modo que teu pé não seja apanhado pelos teus inimigos nem enredado pelos teus próprios temores.” Deus se comprometeu a guardar os pés dos seus santos.
Versículos 27 a 35
Recomendação da Justiça e da Bondade; Advertência contra a Inveja.
A verdadeira sabedoria consiste no cumprimento devido do nosso dever para com os homens, assim como para com Deus, na honestidade, assim como na piedade. Por isso, temos aqui diversos excelentes preceitos de sabedoria que dizem respeito ao nosso próximo.
I. Devemos dar a todos o que lhes é devido, tanto por justiça quanto por caridade, e não demorar a fazê-lo (v. 27, 28): “Não retenhas o bem daqueles a quem é devido — seja por falta de amor por eles, seja por amor excessivo ao teu dinheiro — quando estiver no poder da tua mão fazê-lo. Se não estiver, não se pode esperar isso de ti.”
“Mas foi grande culpa tua se, por teus excessos, te incapacitaste de agir com justiça e mostrar misericórdia. E, se Deus te incapacitou, isso deveria ser motivo da tua maior dor, não tanto por estares limitado em teus próprios confortos e conveniências, mas por não teres com que dar àqueles a quem é devido.”
Não o retenha. Isso indica que o bem é pedido e esperado, mas a mão se fecha e as entranhas da compaixão se cerram. Não devemos impedir os outros de fazê-lo nem ser relutantes nós mesmos.
“Se hoje tens esse bem contigo, se está no poder da tua mão, não digas ao teu próximo: Vai por agora e volta em ocasião mais conveniente; então verei o que será feito. Amanhã te darei. Afinal, não sabes se viverás até amanhã nem se amanhã ainda o terás contigo.”
“Não sejas tão relutante em abrir mão do teu dinheiro por uma boa causa. Não inventes desculpas para adiar um dever que precisa ser cumprido, nem te agrades de manter teu próximo em sofrimento e incerteza, nem de exibir a autoridade que o doador tem sobre o pedinte.”
“Dá, porém, de modo pronto e alegre, movido pela consciência diante de Deus, o bem àqueles a quem é devido”, aos seus senhores e donos, como diz a palavra, aos que têm direito a ele por qualquer motivo. Isso exige de nós:
Pagar nossas dívidas justas sem fraude, ardil ou demora. 2. Pagar o salário daqueles que o ganharam. 3. Sustentar nossos parentes e os que dependem de nós, pois isso lhes é devido. 4. Dar o que é devido tanto à igreja quanto ao Estado, aos magistrados e aos ministros.
Estar prontos para todos os atos de amizade e humanidade e, em tudo, agir como bons próximos. Essas são coisas devidas segundo a lei de tratar os outros como gostaríamos de ser tratados. 6. Ser caridosos com os pobres e necessitados.
Se outros carecem do sustento necessário à vida e temos com que suprir suas necessidades, devemos considerar que isso lhes é devido e não retê-lo. As esmolas são chamadas de justiça porque são uma dívida para com os pobres, uma dívida cujo pagamento não devemos adiar. Bis dat, qui cito dat: dá duas vezes quem dá prontamente.
II. Jamais devemos planejar qualquer dano ou prejuízo contra alguém (v. 29): “Não planejes o mal contra o teu próximo. Não maquines como prejudicá-lo sem ser descoberto, causando-lhe dano no corpo, nos bens ou no bom nome, ainda mais porque ele habita seguro perto de ti.”
“Ele não te deu motivo de provocação e não alimenta ciúme ou suspeita a teu respeito; por isso, está desprevenido.” Fazer mal a alguém sem dar-lhe aviso contraria tanto as leis da honra quanto as da amizade. Maldito seja aquele que fere secretamente o seu próximo.
É uma ingratidão muito vil tirar proveito da boa opinião que nossos vizinhos têm de nós — a de que não lhes faremos prejuízo — para lhes aplicar embustes e causar injúria.
III. Não devemos ser dados a desavenças e litígios (v. 30): “Não contendas com um homem sem motivo. Não disputes por aquilo a que não tens direito. Não consideres provocação aquilo que talvez tenha sido apenas um descuido.”
“Jamais perturbes teu próximo com queixas e acusações frívolas ou ações judiciais incômodas quando nenhum prejuízo te foi feito, ou nenhum digno de menção, ou quando poderias resolver a questão amigavelmente.”
A lei deve ser o último recurso. Pois viver em paz com todos os homens, na medida do que depende de nós, é não só nosso dever, mas também do nosso interesse. Quando se fizerem as contas, descobrir-se-á que pouco se ganha contendendo.
IV. Não devemos invejar a prosperidade dos malfeitores, v. 31. Essa advertência é a mesma em que tanto se insiste em Salmos 37: “Não invejes o opressor. Embora ele seja rico e importante, embora viva no conforto e no prazer e faça todos à sua volta temê-lo, ainda assim não o consideres um homem feliz nem desejes estar em sua condição.”
“Não escolhas nenhum dos seus caminhos. Não o imites nem adotes os métodos que emprega para enriquecer. Jamais penses em fazer o que ele faz, mesmo que tivesses certeza de obter com isso tudo o que ele possui, pois isso seria comprado por um preço muito alto.”
Agora, para mostrar quão pouco motivo os santos têm para invejar os pecadores, Salomão compara, nos últimos quatro versículos do capítulo, a condição de uns e outros, como seu pai Davi havia feito em Salmos 37. Ele coloca uma diante da outra para que vejamos como os santos são felizes, embora oprimidos, e como os ímpios são miseráveis, embora opressores.
Os homens devem ser julgados pela posição que ocupam diante de Deus e pelo juízo que ele faz deles, e não pela posição que ocupam nos registros do mundo. Estão certos aqueles que pensam como Deus.
Se pensarmos como ele, veremos que, qualquer que seja a alegação de um pecador para invejar outro, os santos são tão felizes que não têm motivo algum para invejar nenhum pecador, por mais próspera que seja a condição deste. Pois:
- Os pecadores são odiados por Deus, mas os santos são amados, v. 32. Os pecadores perversos, que continuamente se afastam dele e cuja vida contradiz de modo perverso a sua vontade, são abominação ao Senhor. Aquele que não odeia nada do que fez, contudo, detesta os que assim se deformaram. Eles não são apenas abomináveis aos seus olhos, mas uma abominação.
Os justos, portanto, não têm motivo para invejá-los, pois têm consigo o segredo de Deus. São seus favorecidos. Deus mantém com eles uma comunhão que é segredo para o mundo e na qual desfrutam uma alegria da qual o estranho não participa. Comunica-lhes os sinais secretos do seu amor; a sua aliança está com eles.
Eles conhecem o pensamento de Deus e os significados e propósitos da sua providência melhor do que os outros podem conhecer. “Ocultarei de Abraão o que estou fazendo?”
- Os pecadores estão sob a maldição de Deus, eles e suas casas; os santos estão sob a sua bênção, eles e suas moradas, v. 33. O ímpio possui uma casa, talvez uma habitação sólida e imponente, mas a maldição do Senhor está sobre ela e dentro dela. Embora os assuntos da família possam prosperar, ainda assim as próprias bênçãos são maldições, Malaquias 2:2.
A alma fica debilitada quando o corpo recebe alimento em abundância, Salmos 106:15. A maldição pode agir silenciosa e lentamente, mas é como uma lepra corrosiva: consumirá a madeira e as pedras da casa, Zacarias 5:4; Habacuque 2:11.
Os justos têm uma morada, um casebre pobre — a palavra é usada para abrigos de ovelhas —, uma habitação muito humilde. Mas Deus a abençoa; ele a abençoa continuamente, do começo ao fim do ano.
A maldição ou a bênção de Deus repousa sobre a casa conforme seus habitantes sejam ímpios ou piedosos. É certo que uma família abençoada, ainda que pobre, não tem motivo para invejar uma família amaldiçoada, ainda que rica.
- Deus trata os pecadores com desprezo, mas demonstra respeito pelos santos, v. 34. (1.) Aqueles que se exaltam certamente serão humilhados: “Certamente ele escarnece dos escarnecedores.”
Os que desdenham sujeitar-se à disciplina da religião, tomar sobre si o jugo de Deus e depender da sua graça, que zombam da piedade e das pessoas piedosas e têm prazer em ridicularizá-las e expô-las, serão escarnecidos por Deus, que os exporá ao escárnio diante do mundo inteiro.
Ele despreza a malícia impotente deles, assenta-se no céu e ri deles, Salmos 2:4. Ele lhes retribui na mesma moeda, Salmos 18:26. Ele resiste aos orgulhosos.
(2.) Aqueles que se humilham serão exaltados, pois ele dá graça aos humildes. Ele produz neles aquilo que os honra e pelo qual são aceitos por Deus e aprovados pelos homens. Os que suportam com paciência o desprezo dos escarnecedores receberão respeito de Deus e de todos os homens bons. Assim, não têm motivo para invejar os escarnecedores nem para escolher seus caminhos.
- O fim dos pecadores será vergonha eterna; o fim dos santos, honra sem fim, v. 35. (1.) Os santos são homens sábios e agem sabiamente em favor de si mesmos. Embora a religião agora os envolva em obscuridade e os exponha ao descrédito, ainda assim eles certamente herdarão a glória no fim, o peso de glória muito mais excelente e eterno.
Eles a terão, e a terão por herança, a posse mais doce e mais segura. Deus lhes dá graça (v. 34) e, portanto, herdarão a glória, pois a graça é glória, 2 Coríntios 3:18. É a glória começada, seu penhor, Salmos 84:11.
(2.) Os pecadores são insensatos, pois não só preparam a própria desonra, mas ao mesmo tempo se iludem com a perspectiva de honra, como se fossem os únicos a seguir o caminho da grandeza. Seu fim manifestará a sua insensatez: A vergonha será a sua promoção.
Isso será um castigo tanto maior por vir no lugar da promoção. Será toda a promoção que poderão esperar: Deus será glorificado na confusão eterna deles.