Matthew Henry

Provérbios 29

Versículo 1

Máximas Diversas.

Aqui: 1. É de lamentar muito a obstinação de tantas pessoas perversas em seus maus caminhos. Muitas vezes são censuradas por pais e amigos, magistrados e ministros, pela providência de Deus e pela própria consciência. Seus pecados foram postos diante delas, e receberam claro aviso das consequências; tudo, porém, em vão: endurecem o próprio pescoço.

Talvez se afastem com desprezo, sem sequer ouvir pacientemente a censura; ou, se a ouvem, ainda assim continuam nos pecados pelos quais foram censuradas. Não querem submeter o pescoço ao jugo; são filhos de Belial. Recusam a censura (Provérbios 10:17), desprezam-na (Provérbios 5:12) e a odeiam, Provérbios 12:1.

  1. Deve-se temer muito o resultado dessa obstinação: os que persistem no pecado apesar das advertências serão destruídos. Quem não aceita ser corrigido deve esperar a ruína. Se as varas não alcançam seu propósito, esperem-se os machados.

Serão destruídos de repente, em meio à sensação de segurança, e sem remédio. Pecaram contra o remédio que poderia tê-los preservado; portanto, não esperem remédio que os restaure. O inferno é destruição sem remédio. Serão destruídos, e não haverá cura: é o que diz a palavra. Se Deus fere, quem pode curar?

Versículo 2

Isto é o que já foi dito em Provérbios 28:12, 28. 1. O povo terá motivo para alegrar-se ou lamentar-se conforme seus governantes sejam justos ou perversos. Quando os justos estão no poder, o pecado é punido e refreado, e a religião e a virtude são apoiadas e conservam sua boa reputação.

Quando, porém, os perversos conquistam o poder, a perversidade se multiplica, a religião e as pessoas religiosas são perseguidas, e os fins do governo são pervertidos.

  1. O povo de fato se alegrará ou se lamentará conforme seus governantes sejam justos ou perversos. Até as pessoas comuns estão tão convencidas da excelência da virtude e da religião que se alegram ao vê-las favorecidas e apoiadas.

Em contrapartida, por mais honra e poder que tenham os homens, se forem perversos e corruptos e usarem mal sua posição, tornar-se-ão desprezíveis e vis aos olhos de todo o povo, como aqueles sacerdotes, Malaquias 2:9. Os súditos se considerarão infelizes sob tal governo.

Versículo 3

As duas partes deste versículo repetem o que já foi dito muitas vezes, mas, quando comparadas, cada uma amplia o sentido da outra.

  1. Observe-se, para honra do jovem virtuoso, que ele ama a sabedoria: é um filósofo, pois a palavra significa amante da sabedoria, e a religião é a melhor filosofia. Evita as más companhias, especialmente a de mulheres devassas.

Com isso, alegra seus pais e tem a satisfação de ser-lhes um consolo. Aumenta também seus bens e provavelmente viverá com conforto.

  1. Observe-se, para descrédito do jovem corrupto, que ele odeia a sabedoria. Anda com mulheres de má reputação, que o arruinarão tanto na alma quanto no corpo. Causa dor a seus pais e, como o filho pródigo, devora seus bens com prostitutas.

Nada empobrece os homens mais depressa que os desejos impuros, e a melhor proteção contra esses desejos arruinadores é a sabedoria.

Versículo 4

Aqui está: 1. A felicidade de um povo sob um bom governo. O cuidado e a tarefa de um príncipe devem ser firmar a terra, manter suas leis fundamentais, tranquilizar o espírito dos súditos e dar-lhes segurança, proteger suas liberdades e propriedades contra ataques, preservá-las para a posteridade e pôr em ordem o que ainda falta.

Deve fazer isso mediante o juízo, os conselhos sábios e a administração constante da justiça, sem fazer acepção de pessoas. São esses os meios que produzirão tais bons resultados.

  1. A infelicidade de um povo sob um mau governo: um homem de ofertas, como diz a margem, arruína a terra. Pode ser alguém sacrílego ou supersticioso, ou que usurpe a função sacerdotal, como Saul e Uzias.

Ou pode ser alguém que só procura ganhar dinheiro e que, por um bom suborno, faz vista grossa até ao mais culpado e, na esperança de recebê-lo, persegue o inocente. Governantes assim arruinarão um país.

Versículo 5

Pode-se dizer que bajulam o próximo aqueles que elogiam e aplaudem nele um bem, seja o que faz, seja o que possui, que na realidade não existe ou não é como o descrevem; também os que declaram ter por ele estima e afeição que de fato não sentem. Esses estendem uma rede diante dos pés:

  1. Dos pés do próximo a quem bajulam. Há nisso um desígnio mau: não o elogiariam dessa maneira se não esperassem tirar proveito dele. Por isso, é sábio suspeitar que os que nos bajulam armam secretamente uma cilada e, em consequência, manter-nos alertas.

Ou a bajulação produz um efeito ruim sobre quem a recebe: enche-o de orgulho, torna-o presunçoso e confiante em si mesmo e, assim, revela-se uma rede que o prende no pecado.

  1. Dos próprios pés; assim alguns entendem. Quem bajula outros na expectativa de que retribuam seus elogios e também o bajulem só se torna ridículo e detestável até para aqueles que bajula.

Versículo 6

Aqui está: 1. O perigo de um caminho pecaminoso. Não há apenas um castigo em seu fim, mas uma armadilha ao longo dele. Um pecado atrai outro, e há tribulações que, como uma armadilha, sobrevêm de repente aos homens maus em meio às suas transgressões.

Ou melhor, sua própria transgressão muitas vezes os envolve em aborrecimentos. Seu pecado é seu castigo, e eles ficam presos nas cordas da própria iniquidade, Provérbios 5:22.

  1. O prazer do caminho da santidade. A armadilha presente na transgressão dos maus estraga toda a alegria deles, mas os justos são preservados dessas armadilhas ou delas libertados. Andam em liberdade e segurança; por isso, cantam e se alegram.

Os que fazem de Deus sua principal alegria têm nele alegria extraordinária. Se não se alegram continuamente, a culpa é deles mesmos. Se existe alguma alegria verdadeira deste lado do céu, sem dúvida a têm aqueles cuja conduta está no céu.

Versículo 7

Seria de desejar que todos os que recorrem à justiça sub formâ pauperis, na condição de pobres, tivessem uma causa honesta. Se não a têm, são particularmente indesculpáveis, pois as Escrituras providenciaram tão bem que sua causa receba uma audiência justa e que o próprio juiz lhes sirva de conselheiro, tanto ao preso quanto ao pobre.

  1. Apresenta-se aqui como característica do juiz justo o fato de considerar a causa dos pobres. É dever de todos considerar os pobres (Salmos 41:1), mas os que julgam devem examinar as causas deles. Devem empenhar-se tanto em descobrir o direito na causa de um pobre quanto na de um rico.

O senso de justiça deve tornar tanto juiz quanto advogado tão cuidadosos e diligentes na causa do pobre como se esperassem obter a maior vantagem.

  1. O perverso, ao contrário, não se importa em conhecer a causa do pobre em sua verdadeira condição, pois nada tem a ganhar com ela. Não lhe importa qual será o resultado, justo ou injusto. Veja Jó 29:16.

Versículo 8

Veja aqui: 1. Quem são os homens perigosos para o público: os escarnecedores. Quando cuidam dos negócios do Estado, agem precipitadamente, pois desprezam a deliberação e não reservam tempo para ponderar e consultar. Praticam atos ilegais e injustificáveis, pois desprezam as limitações impostas por leis e constituições.

Quebram a palavra dada, pois desprezam o compromisso que ela cria, e provocam o povo, pois desprezam a ideia de agradá-lo. Assim, pela má conduta, levam a cidade a uma armadilha ou, como diz a margem, incendeiam-na. Semeiam discórdia entre os cidadãos e os lançam na confusão.

São escarnecedores os que zombam da religião, das obrigações da consciência, do temor do mundo vindouro e de tudo o que é sagrado e sério. São a praga de sua geração: atraem os juízos de Deus sobre a terra, fazem as pessoas brigar e, assim, lançam tudo na confusão.

  1. Quem são os homens que abençoam a terra: os sábios. Promovendo a religião, que é a verdadeira sabedoria, desviam a cólera de Deus; com conselhos prudentes, reconciliam as partes em contenda e impedem as consequências danosas das divisões. Homens orgulhosos e tolos acendem os incêndios que os sábios e bons precisam apagar.

Versículo 9

O sábio é aqui aconselhado a não medir sua inteligência com a de um tolo, nem disputar com ele, pensando que, ao contender, conseguirá ou fazê-lo aceitar a razão ou obter dele justiça. Se um sábio contender com outro sábio, pode esperar ser compreendido e, na medida em que tiver razão e equidade a seu favor, conseguir o que busca.

Pelo menos poderá levar a controvérsia a uma conclusão e resolvê-la amigavelmente. Mas, se contender com um tolo, não terá descanso: não verá o fim da discussão nem encontrará satisfação nela, e deverá esperar contínua inquietação.

  1. Quer o tolo com quem contende se enfureça, quer ria; quer receba com ira, quer com desprezo o que lhe é dito; quer insulte, quer zombe das palavras, fará uma dessas coisas e não haverá descanso.

Seja como for que algo lhe seja dito, ele receberá mal. Até o mais sábio deve esperar ser repreendido ou ridicularizado ao contender com um tolo. Quem briga com um monte de esterco, vença ou perca, certamente será maculado.

  1. Quer o próprio sábio se enfureça, quer ria; quer trate o tolo com seriedade, quer com brincadeira; quer seja severo, quer agradável; quer venha com vara, quer com espírito de mansidão (1 Coríntios 4:21), o resultado será o mesmo: nenhum bem será feito. “Tocamos flauta para vós, e não dançastes; lamentamos diante de vós, e não pranteastes.”

Versículo 10

Repare: 1. Os homens maus odeiam seus melhores amigos. Os sedentos de sangue, toda a descendência da antiga serpente, que foi homicida desde o princípio, todos os que herdaram sua inimizade contra a descendência da mulher, odeiam os íntegros. Procuram arruinar as pessoas de bem porque elas condenam o mundo perverso e testemunham contra ele.

Cristo disse aos discípulos que seriam odiados por todos os homens. Os sanguinários odeiam sobretudo os magistrados íntegros, que os refreariam, corrigiriam e aplicariam as leis contra eles, prestando-lhes, na verdade, um favor.

  1. Os homens bons amam seus piores inimigos. Os justos, a quem os sanguinários odeiam, buscam a alma deles, oram por sua conversão e fariam de bom grado qualquer coisa por sua salvação. Cristo nos ensinou isso: “Pai, perdoa-lhes.”

Os justos buscam a alma do íntegro, a quem os sanguinários odeiam; assim se entende geralmente. Procuram protegê-la da violência e salvá-la das mãos dos sedentos de sangue ou vingá-la deles.

Versículo 11

Repare: 1. É sinal de fraqueza ser aberto demais. Tolo é quem revela tudo o que pensa: conta tudo o que sabe, põe na boca imediatamente o que lhe vem à mente e não consegue guardar segredo. Seja qual for o assunto levantado numa conversa, logo dispara sua opinião.

Quando provocado, diz tudo o que lhe ocorre, não importa sobre quem suas palavras lancem descrédito. Quando precisa falar de algum assunto, diz tudo o que pensa e ainda assim nunca acha que disse o bastante: seja bom ou ruim, trigo ou palha, pertinente ou não, ele despeja tudo.

  1. É sinal de sabedoria ser reservado. O sábio não expõe tudo o que pensa de uma vez, mas reserva tempo para refletir de novo ou guarda o pensamento atual para ocasião mais apropriada, quando será mais pertinente e terá maior chance de alcançar seu objetivo.

Não falará num discurso contínuo nem numa fala afetada, mas fará pausas para ouvir as objeções e responder a elas. Non minus interdum oratorium est tacere quam dicere — A verdadeira oratória exige uma pausa ocasional. Plínio, Epístolas 7.6.

Versículo 12

Repare: 1. É grande pecado para qualquer pessoa, especialmente para governantes, dar ouvidos a mentiras. Com isso, não apenas formam juízos errados sobre pessoas e coisas, conforme as mentiras em que acreditam, mas também animam outros a fornecer informações falsas.

Mentiras serão contadas a quem se dispõe a ouvi-las; nesse caso, porém, quem as recebe é tão culpado quanto o ladrão.

  1. Todos os servos daqueles que procedem assim serão perversos. Parecerão perversos, porque mentiras serão contadas a seu respeito; e serão perversos, porque contarão mentiras aos governantes. Todos os que tiverem acesso aos ouvidos dos governantes os encherão de calúnias, descrições falsas de caráter e relatos enganosos.

Se os príncipes, assim como o povo, quiserem ser enganados, serão enganados. Em vez de transferir a culpa de seus juízos falsos aos servos que os informaram mal, terão de partilhar a culpa deles. Grande parte da censura recairá sobre os príncipes por animarem essas informações falsas e lhes darem atenção e crédito.

Versículo 13

Isto mostra como o grande Deus realiza sabiamente os desígnios de sua providência por meio de pessoas de temperamentos, capacidades e condições muito diferentes no mundo; até mesmo:

  1. Por meio das que são opostas umas às outras. Algumas são pobres e obrigadas a pedir emprestado; outras são ricas, possuem muito do mamom da injustiça, chamado de riquezas enganosas, e são credoras ou agiotas, como diz a margem. Algumas são pobres, honestas e trabalhadoras; outras são ricas, preguiçosas e enganosas.

Encontram-se nos negócios deste mundo e lidam umas com as outras, e o Senhor ilumina os olhos de ambas. Faz o sol brilhar sobre elas e dá a ambas os consolos desta vida. A algumas dos dois grupos concede também sua graça: ilumina os olhos dos pobres dando-lhes paciência, e os dos enganosos dando-lhes arrependimento, como fez com Zaqueu.

  1. Por meio daquelas que julgamos mais dispensáveis. Tendemos a considerar os pobres e os enganosos como manchas na Providência; Deus, porém, usa até eles para mostrar sua beleza.

Tem propósitos sábios não só em deixar os pobres sempre conosco, mas também em permitir tanto o enganado quanto o enganador, pois ambos lhe pertencem (Jó 12:16) e contribuem para seu louvor.

Versículo 14

Aqui está: 1. O dever dos magistrados: julgar fielmente entre uma pessoa e outra e decidir todas as causas que lhes são apresentadas conforme a verdade e a equidade, cuidando especialmente dos pobres. Não devem favorecê-los numa causa injusta por causa da pobreza deles (Êxodo 23:3), mas garantir que ela não os prejudique quando sua causa for justa.

Os ricos cuidarão de si mesmos; o príncipe, porém, deve defender os pobres e necessitados (Salmos 82:3) e apelar em favor deles, Provérbios 31:9.

  1. A felicidade dos magistrados que cumprem seu dever. Seu trono de honra, seu tribunal de julgamento, será estabelecido para sempre. Isso lhes assegurará o favor de Deus e fortalecerá seu lugar no afeto de seu povo. Ambas as coisas firmarão seu poder e ajudarão a transmiti-lo à posteridade e perpetuá-lo na família.

Versículo 15

Disciplina Parental.

Ao educar os filhos, os pais devem considerar: 1. O benefício da correção adequada. Não basta dizer-lhes o que é bom e mau; é preciso altercar com eles e, quando necessário, também corrigi-los, se deixarem de fazer o bem ou praticarem o mal.

Se a censura bastar sem a vara, tanto melhor; mas a vara nunca deve ser usada sem uma censura racional e séria. Então, embora possa causar desconforto momentâneo tanto ao pai quanto ao filho, ainda assim dará sabedoria. Vexatio dat intellectum — A aflição aguça o entendimento. A criança atenderá ao aviso e, assim, adquirirá sabedoria.

  1. O dano da indulgência imprópria: uma criança que não recebe limites nem censura, mas é deixada à própria vontade, como aconteceu com Adonias, talvez se comporte bem se assim quiser. Mas, se seguir maus caminhos, ninguém a impedirá.

É quase certo que se tornará uma vergonha para a família e trará à mãe, que a mimou e cedeu a seus caprichos na licenciosidade, vergonha, pobreza e descrédito. Talvez até a trate de modo ofensivo e lhe dirija palavras duras.

Versículo 16

Repare: 1. Quanto mais pecadores há, mais pecado há. Quando os perversos, favorecidos pelas autoridades, se multiplicam e andam por toda parte, não é de admirar que a transgressão aumente, assim como se diz que uma epidemia cresce num país quando cada vez mais pessoas são infectadas.

A transgressão se torna mais descarada e ousada, mais arrogante e ameaçadora, quando muitos a apoiam. No mundo antigo, quando os homens começaram a multiplicar-se, também começaram a degenerar e a corromper a si mesmos e uns aos outros.

  1. Quanto mais pecado há, mais próxima está a ruína anunciada. Que os justos não permitam que o aumento do pecado e dos pecadores abale sua fé e esperança. Que não digam que lavaram as mãos em vão ou que Deus abandonou a terra, mas esperem com paciência.

Os transgressores cairão; a medida de sua iniquidade se encherá, e então cairão de sua posição e de seu poder, para a vergonha e a destruição.

Os justos terão a satisfação de ver sua queda (Salmos 37:34), talvez neste mundo e certamente no juízo do grande dia, quando a queda dos inimigos implacáveis de Deus será alegria e triunfo para os santos glorificados. Veja Isaías 66:24; Gênesis 19:28.

Versículo 17

Repare: 1. É grande felicidade quando os filhos se tornam um consolo para os pais. Os bons filhos o são: dão-lhes descanso, tranquilizam-nos e os livram das muitas preocupações que tiveram por causa deles. Sim, e ainda, dão prazer à sua alma.

Ver o fruto feliz da boa educação dada aos filhos e ter esperança de que lhes irá bem tanto num mundo quanto no outro é para os pais um prazer que só conhecem os que receberam tal bênção. Esse prazer é proporcional às muitas inquietações do coração que tiveram por eles.

  1. Para que isso aconteça, os filhos devem ser educados sob disciplina rigorosa, sem permissão para fazer tudo o que querem nem para agir mal sem repreensão. A insensatez presa em seu coração precisa ser expulsa pela correção enquanto são jovens; caso contrário, virá à tona quando crescerem, para vergonha deles e dos pais.

Versículo 18

Máximas Diversas.

Veja aqui: I. A miséria do povo que carece de um ministério estabelecido:

Onde não há visão, nem profeta para expor a lei, nem sacerdote ou levita para ensinar o bom conhecimento do Senhor, nem meios de graça, a palavra do Senhor é escassa e não há visão manifesta (1 Samuel 3:1). Nessas condições, o povo perece; a palavra tem vários sentidos, e qualquer deles se aplica aqui:

  1. O povo fica nu: privado de seus adornos, expõe-se à vergonha; privado de sua armadura, expõe-se ao perigo. Como parece desguarnecido um lugar sem Bíblias e ministros! Como se torna presa fácil do inimigo das almas!

  2. O povo se rebela não apenas contra Deus, mas também contra seu príncipe. A boa pregação faria das pessoas bons súditos; sem ela, porém, seus membros se tornam turbulentos e facciosos e desprezam as autoridades, porque não conhecem coisa melhor.

  3. O povo fica ocioso ou brinca, como tendem a fazer os alunos quando o mestre está ausente. Nada faz que tenha bom propósito, mas passa o dia ocioso, divertindo-se na praça, por não receber instrução sobre o que fazer e como fazê-lo.

  4. As pessoas se dispersam como ovelhas sem pastor, pois lhes faltam mestres das assembleias que as convoquem e mantenham reunidas, Marcos 6:34. Afastam-se de Deus e do dever por meio da apostasia, e umas das outras por meio das divisões. Deus é provocado a dispersá-las com seus juízos, 2 Crônicas 15:3, 5.

  5. Perecem, são destruídas por falta de conhecimento, Oseias 4:6. Veja quantas razões temos para agradecer a Deus pela abundância de visão manifesta de que desfrutamos.

II. A felicidade do povo que tem entre si um ministério não só estabelecido, mas também bem-sucedido: o povo que ouve e guarda a lei, entre o qual a religião ocupa o primeiro lugar. Feliz é esse povo, e também cada pessoa que o compõe. Não é possuir a lei, mas obedecer-lhe e viver de acordo com ela que nos dará direito à bem-aventurança.

Versículo 19

Aqui se descreve um servo inútil, preguiçoso e perverso, um escravo que serve não por consciência ou amor, mas apenas por medo. Os que têm servos assim precisam revestir-se de paciência para suportar o incômodo sem perturbar-se. Veja suas características:

  1. Nenhuma palavra racional os influenciará. Nem serão corrigidos e reformados, conduzidos ao trabalho ou curados da ociosidade e preguiça por meios brandos, não, nem mesmo por palavras duras. Até o senhor mais gentil será obrigado a tratá-los com severidade. Nenhuma razão lhes servirá, pois não são razoáveis.

  2. Deles não se obterá palavra racional. São obstinados e carrancudos; embora entendam as perguntas que você lhes faz, não darão resposta. Por mais claramente que você explique o que espera deles, não prometerão corrigir o que está errado nem dedicar-se ao trabalho.

Veja a tolice desses servos cujo silêncio pede açoites. Poderiam ser corrigidos com palavras e poupar-se dos golpes, mas não querem.

Versículo 20

Salomão mostra aqui que há pouca esperança de levar à sabedoria o homem precipitado:

  1. Por precipitação e falta de reflexão. Você vê um homem apressado em seus assuntos, de inteligência leviana e dispersa, que parece compreender algo rapidamente, mas só o entende pela metade? Percorre um livro ou uma ciência a galope, sem reservar tempo para assimilá-los, sem parar para refletir sobre um assunto?

Há mais esperança de formar um estudioso e sábio a partir de alguém de inteligência lenta e pesada, que avança devagar nos estudos, do que de uma pessoa de espírito tão volúvel que não consegue concentrar-se.

  1. Por orgulho e presunção. Você vê um homem que se adianta para falar de todo assunto levantado, faz questão de ser o primeiro a abordá-lo e o último a falar dele, e sobre ele pronuncia juízo como se fosse um oráculo? Há mais esperança para um tolo modesto, consciente de sua própria tolice, do que para uma pessoa tão presunçosa.

Versículo 21

Repare: 1. É imprudente o senhor ser afetuoso demais com um servo, promovê-lo depressa demais e permitir-lhe intimidade excessiva. Também é imprudente deixar que seja exigente e requintado com a comida, a roupa e a moradia e, por ser favorito e agradável, criá-lo no conforto.

É preciso lembrar que ele é servo e que, se receber tamanha indulgência, ficará despreparado para qualquer outro lugar. Os servos precisam suportar agruras.

  1. É ingrato da parte do servo, embora muito comum, agir com insolência porque foi tratado com delicadeza. O filho pródigo, humilhado, julga-se indigno de ser chamado filho e se contenta em ser servo; o escravo mimado julga-se bom demais para ser chamado servo.

Por fim, passará a se portar como filho, viverá à vontade e em liberdade, se porá no mesmo nível do senhor e talvez venha a alegar direito à herança. Que os senhores deem aos servos o que lhes é justo e apropriado, nem mais nem menos.

Isso se aplica bem ao corpo, que é servo da alma. Os que criam o corpo com delicadeza, cedem a seus caprichos e o tratam com cuidado excessivo descobrirão que, por fim, ele esquecerá seu lugar e se tornará filho, senhor e completo tirano.

Versículo 22

Veja aqui o dano que decorre de um temperamento irado, passional e furioso. 1. Faz com que as pessoas provoquem umas às outras: o homem irado atiça a contenda, causa transtorno e vive em desavença na família e na vizinhança. Sopra as brasas e até força a brigar com ele quem desejaria viver a seu lado em paz e sossego.

  1. Faz com que provoquem a Deus: o homem furioso, apegado aos próprios caprichos e paixões, inevitavelmente multiplica suas transgressões. A ira indevida é um pecado que causa muitos outros: além de impedir as pessoas de invocar o nome de Deus, leva-as a jurar, amaldiçoar e profanar esse nome.

Versículo 23

Isto concorda com o que Cristo disse mais de uma vez: 1. Que os que se exaltam serão humilhados.

Aqueles que pensam conquistar respeito colocando-se acima de sua posição, olhando os outros de cima, falando com arrogância, exibindo-se e elogiando a si mesmos, ao contrário, se exporão ao desprezo, perderão a reputação e provocarão Deus a rebaixá-los e humilhá-los mediante providências humilhantes.

  1. Que os que se humilham serão exaltados e permanecerão em sua dignidade: a honra sustentará os humildes de espírito. Sua humildade é sua honra; ela os tornará grandes de verdade e em segurança e os recomendará à estima de todos os sábios e bons.

Versículo 24

Veja aqui em que pecado e ruína se envolvem os que se deixam atrair pela sedução dos pecadores. 1. Acumulam muita culpa. Assim acontece com quem se associa aos que roubam e praticam fraude e lança sua sorte entre eles, Provérbios 1:11, etc.

Quem recebe o produto do roubo é tão culpado quanto o ladrão. Depois de se deixar levar a participar da prática do pecado, não pode escapar de participar também de seu encobrimento, ainda que precise recorrer aos perjúrios e às imprecações mais horríveis. Ouvem a maldição quando juram dizer toda a verdade, mas não confessam.

  1. Apressam-se rumo à ruína completa. Chegam a odiar a própria alma, pois fazem deliberadamente aquilo que inevitavelmente a destruirá. Veja a que absurdos os pecadores se entregam: amam a morte, embora nada seja mais terrível, e odeiam a própria alma, embora nada lhes seja mais precioso.

Versículo 25

Aqui: 1. Somos advertidos a não temer o poder humano, seja o de um príncipe, seja o da multidão. Ambos são bastante temíveis, mas o medo servil de qualquer um deles traz uma armadilha: expõe as pessoas a muitas afrontas, pois alguns se orgulham de aterrorizar os tímidos; ou, sobretudo, expõe-nas a muitas tentações.

Por medo dos homens, Abraão negou sua esposa, Pedro negou seu Mestre, e muitos negaram seu Deus e sua religião. Não devemos recuar diante do dever nem pecar para evitar a cólera humana. Ainda que a vejamos aproximar-se, não devemos ficar perturbados pelo medo, Daniel 3:16; Salmos 118:6.

O próprio homem terá de morrer (Isaías 51:12) e não pode fazer mais que matar nosso corpo, Lucas 12:5.

  1. Somos animados a depender do poder de Deus, que nos livraria de todo medo dos homens acompanhado de tormento ou tentação. Quem confia no Senhor para receber proteção e sustento no caminho do dever será colocado no alto, acima do poder humano e do medo desse poder.

A santa confiança em Deus torna a pessoa tanto grande quanto tranquila, capacitando-a a olhar com piedoso desprezo para os desígnios mais temíveis do inferno e da terra contra ela. Se Deus é minha salvação, confiarei e não terei medo.

Versículo 26

Veja aqui: 1. O caminho que as pessoas costumam seguir para progredir, enriquecer e tornar-se importantes. Procuram o favor do governante e, como se toda decisão a seu respeito dependesse dele, cortejam-no constantemente.

O próprio Salomão era governante e sabia com quanta diligência as pessoas lhe dirigiam pedidos: umas por um motivo, outras por outro, mas todas em busca de seu favor. É costume do mundo cultivar a influência dos poderosos e esperar muito dos sorrisos das causas secundárias, embora sejam incertos e frequentemente frustrem tais expectativas.

Muitos se esforçam bastante para obter o favor do governante e, mesmo assim, não o conseguem. Muitos o obtêm por pouco tempo, mas não conseguem conservá-lo: por alguma pequena mudança, caem em seu desagrado.

Muitos o obtêm e conservam, mas nem assim ele corresponde ao que esperavam: não conseguem tirar dele o proveito que imaginaram. Hamã tinha o favor do governante, mas isso de nada lhe valeu.

  1. O caminho mais sábio para alcançar a felicidade. Que as pessoas olhem para Deus e busquem o favor do Governante dos governantes, pois a decisão a respeito de cada pessoa procede do Senhor. Nossa condição não depende da vontade do governante: seu favor não pode nos fazer felizes, nem sua reprovação, infelizes.

Depende, porém, da vontade de Deus. Cada criatura é para nós aquilo que Deus a faz ser, nada mais, nada diferente. Ele é a Causa primeira, da qual dependem todas as causas secundárias; se ele não ajudar, elas não poderão ajudar, 2 Reis 6:27; Jó 34:29.

Versículo 27

Isto expressa não só a oposição inata entre a virtude e o vício, como entre a luz e as trevas, o fogo e a água, mas também a antiga inimizade que sempre existiu entre a descendência da mulher e a da serpente, Gênesis 3:15.

  1. Todos os santificados têm aversão arraigada à perversidade e às pessoas perversas. Desejam o bem da alma de todos, como Deus deseja, pois ele não quer que ninguém pereça. Mas odeiam os caminhos e as práticas daqueles que são ímpios para com Deus e causam injúrias às pessoas.

Não podem ouvir falar dessas práticas nem mencioná-las sem santa indignação. Repudiam o convívio com os ímpios e injustos e temem a ideia de lhes dar qualquer apoio; fazem, porém, tudo o que podem para pôr fim à perversidade dos perversos.

Assim, o injusto se torna detestável aos justos. Parte de sua vergonha e castigo presentes é que as pessoas de bem não conseguem tolerá-lo.

  1. Todos os não santificados têm aversão igualmente arraigada, à piedade e às pessoas piedosas. Aquele que anda retamente e age com consciência no que diz e faz é abominável aos perversos. Sua perversidade talvez seja refreada e contida ou, pelo menos, envergonhada e condenada pela retidão dos íntegros.

Assim agiu Caim, que era filho de seu pai, o diabo. E não é só perversidade dos maus odiarem os que Deus ama; é também sua infelicidade odiarem aqueles que em breve verão em bem-aventurança e honra eternas e que pela manhã dominarão sobre eles, Salmos 49:14.


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