Provérbios 17
Versículo 1
A Falsidade e a Opressão Censuradas.
Estas palavras recomendam o amor e a paz na família, que muito contribuem para o conforto da vida humana. 1. Os que vivem em união e tranquilidade, não apenas livres de ciúmes e animosidades, mas competindo em demonstrações mútuas de afeto e gentileza, vivem com muito conforto, ainda que ocupem posição humilde no mundo, trabalhem duro e se alimentem mal.
Mesmo que cada um tenha apenas um bocado, e ainda por cima seco, podem desfrutar de paz e sossego. Isso é possível mesmo onde não há três refeições por dia, contanto que todos estejam satisfeitos com a providência de Deus e com a prudência uns dos outros. O amor santo pode ser encontrado numa cabana.
- Os que vivem em disputa, sempre discutindo, brigando e censurando uns aos outros, vivem sem conforto, ainda que possuam iguarias em abundância e uma casa cheia de sacrifícios. Não podem esperar a bênção de Deus sobre si e sobre o que possuem, nem apreciar verdadeiramente seus bens, muito menos ter paz na própria consciência.
O amor adoça um bocado seco, mas a contenda azeda e amarga uma casa cheia de sacrifícios. Um pouco do fermento da malícia levedará todos os prazeres.
Versículo 2
Repare: 1. O verdadeiro mérito não se mede pela posição. Todos concordam que o filho da família ocupa posição mais digna que o servo (João 8:35); contudo, às vezes o servo é sábio, uma bênção e um crédito para a família, enquanto o filho é tolo, um peso e uma vergonha para ela.
Eliézer, de Damasco, embora Abrão não suportasse a ideia de tê-lo como herdeiro, foi um esteio para a família ao conseguir uma esposa para Isaque. Já Ismael, embora filho, trouxe vergonha à família quando zombou de Isaque.
- A verdadeira dignidade acompanhará o mérito. Se um servo for sábio e administrar bem as coisas, receberá confiança ulterior e não apenas governará junto com um filho que causa vergonha, mas sobre ele; pois Deus e a natureza têm o desígnio de que o tolo sirva ao sábio de coração.
Ou melhor, um servo prudente talvez conquiste tamanha estima do senhor que seja incluído entre os filhos na divisão dos bens e receba parte da herança com os irmãos.
Versículo 3
Repare: 1. Os corações dos seres humanos estão sujeitos não apenas ao olhar de Deus, mas também ao seu julgamento. Assim como o cadinho serve tanto para provar quanto para aperfeiçoar a prata, o Senhor prova os corações: examina se são genuínos e refina os que são, tornando-os ainda mais puros, Jeremias 17:10.
Deus prova o coração por meio da aflição (Salmos 66:10-11) e muitas vezes escolhe seu povo naquela fornalha (Isaías 48:10), tornando-o seleto. 2. Só Deus prova os corações. As pessoas podem testar sua prata e seu ouro no cadinho e na fornalha, mas não dispõem de instrumento semelhante para provar o coração umas das outras. Só Deus o faz, pois sonda e governa o coração.
Versículo 4
Repare: 1. Os que têm o desígnio de fazer o mal se apoiam na falsidade e na mentira. Quem pratica a maldade escuta com grande prazer os lábios mentirosos que justificam o mal que faz. Os que pretendem causar perturbações públicas acolhem avidamente libelos e histórias falsas que difamam o governo e sua administração.
- Os que tomam a liberdade de mentir têm prazer em ouvir mentiras. O mentiroso presta atenção à língua maliciosa e difamadora, para encontrar algo em que enxertar suas mentiras, dar-lhes aparência de verdade e, assim, sustentá-las.
Os pecadores fortalecerão as mãos uns dos outros; revelam a própria maldade aqueles que procuram a companhia dos maus e precisam da ajuda deles.
Versículo 5
Veja aqui: 1. Quão grande é o pecado dos que pisoteiam os pobres, ridicularizam suas carências e a humildade de sua aparência, repreendem-nos por sua pobreza e se aproveitam de sua fraqueza para tratá-los com abuso e injúria.
Desacreditam seu Criador, desprezando gravemente aquele que determinou a condição dos pobres, os reconhece e zela por eles, e pode, quando quiser, reduzir-nos à mesma condição.
Saibam os que assim desacreditam seu Criador que prestarão contas disso, Mateus 25:40-41; Provérbios 14:31. 2. Quão grande é o perigo de cair em tribulação que correm os que se alegram ao ver e ouvir falar das tribulações alheias.
Quem se alegra com calamidades para erguer-se sobre a ruína dos outros e se deleita nos juízos de Deus quando se espalham saiba que não ficará impune: o cálice será posto em sua mão, Ezequiel 25:6-7.
Versículo 6
Verdades Comuns.
Assim são, isto é, assim deveriam ser; e, se as pessoas se conduzirem dignamente, assim são. 1. É uma honra para os pais idosos deixar filhos e netos em crescimento que sigam suas virtudes e provavelmente mantenham e engrandeçam a reputação da família.
É honra para alguém viver o suficiente para ver os filhos de seus filhos (Salmos 128:6; Gênesis 50:23), ver sua casa edificada neles e ter a perspectiva de que servirão à sua geração conforme a vontade de Deus. Isso coroa e completa seu conforto neste mundo.
- É uma honra para os filhos ter pais sábios e piedosos e conservá-los consigo mesmo depois de crescerem e se estabelecerem no mundo. São desnaturados os filhos que consideram os pais idosos um fardo e julgam que vivem tempo demais.
Pelo contrário, se os filhos forem sábios e bons, é para eles a maior honra possível proporcionar consolo aos pais nos dias difíceis da velhice.
Versículo 7
Duas coisas são apresentadas aqui como muito absurdas: 1. Que pessoas sem reputação se façam ditadoras. Que pode ser mais impróprio do que tolos, reconhecidamente sem muito juízo ou discernimento, pretenderem ocupar uma posição superior à sua, para a qual nunca foram talhados?
Nos provérbios de Salomão, o tolo significa o perverso, a quem não convém um discurso excelente, porque sua conduta desmente seu discurso excelente. Que têm a fazer proclamando os estatutos de Deus aqueles que odeiam a instrução? Salmos 50:16. Cristo não quis permitir que os espíritos impuros dissessem que sabiam ser ele o Filho de Deus. Veja Atos 16:17-18.
- Que pessoas de grande reputação sejam enganadoras. Se é impróprio que um homem desprezível se atreva a falar como filósofo ou político, e ninguém lhe dê atenção por causa do preconceito contra seu caráter, muito mais impróprio é que um príncipe, homem honrado, se aproveite de sua posição e da confiança depositada nele para mentir e dissimular.
É indigno que não tenha escrúpulos em quebrar a própria palavra. Mentir fica mal a qualquer pessoa, mas pior ainda a um príncipe. É corrupta a política moderna que insinua que os príncipes não devem tornar-se escravos da própria palavra além do que lhes convém: Qui nescit dissimulare nescit regnare — quem não sabe dissimular não sabe reinar.
Versículo 8
O desígnio desta observação é mostrar: 1. Que os que têm dinheiro nas mãos pensam que podem fazer qualquer coisa com ele. Os ricos valorizam uma pequena quantia como se fosse uma pedra preciosa e se orgulham dela como se lhes desse não só beleza, mas poder, e como se todos, até a própria justiça, estivessem obrigados a obedecer às suas ordens.
Para onde quer que virem esse diamante cintilante, esperam que ofusque os olhos de todos e os faça agir exatamente como desejam, na esperança de recebê-lo. A bolsa mais funda vencerá a causa. Pague bem, e poderá conseguir o que quiser.
- Que os que têm o olhar fixo no dinheiro e nele põem o coração farão qualquer coisa por ele. O suborno é como pedra preciosa aos olhos de quem o recebe; exerce grande influência sobre essa pessoa, que certamente seguirá o caminho para o qual ele a conduzir, para cá e para lá, mesmo contra a justiça e em contradição consigo mesma.
Versículo 9
Repare: 1. O caminho para conservar a paz entre parentes e vizinhos é interpretar tudo da melhor maneira.
Não devemos contar a outros o que se disse ou fez contra eles quando isso não for necessário à sua segurança, nem reparar no que se disse ou fez contra eles quando isso não for necessário à sua segurança, nem reparar no que se disse ou fez contra nós; antes, devemos desculpar ambos os casos e interpretá-los favoravelmente.
“Foi um descuido; portanto, deixe passar. Foi feito por esquecimento; portanto, esqueça. Talvez a outra pessoa não tenha dado importância a você; não dê importância ao ocorrido.”
- Desenterrar faltas é arrancar o amor. Nada tende mais a separar amigos e colocá-los em conflito que repetir assuntos que já causaram discórdia. Geralmente, esses assuntos nada perdem na repetição; pelo contrário, são agravados, e as paixões que despertaram revivem e se inflamam. A melhor maneira de fazer a paz é por uma anistia, um ato de esquecimento.
Versículo 10
Repare: 1. Para o sábio, uma palavra basta. Uma censura branda penetra não só na mente, mas no coração do sábio, exercendo forte influência sobre ele. Basta dar uma indicação à consciência; deixe-a agir e levar o assunto adiante.
- Para o tolo, nem açoites bastam para fazê-lo reconhecer os próprios erros, arrepender-se deles e ser mais cuidadoso no futuro. O insensato obstinado raramente se beneficia da severidade. Davi se comove com as palavras “Tu és o homem”, mas Faraó permanece endurecido sob todas as pragas do Egito.
Versículo 11
Aqui estão o pecado e o castigo do homem mau. 1. Seu pecado. É de fato mau quem procura toda ocasião de rebelar-se contra Deus e contra o governo que Deus estabeleceu sobre ele, contradizendo e provocando desavenças com os que o cercam. Quærit jurgia — procura desavenças, segundo alguns.
Há pessoas movidas por um espírito de oposição que contradizem apenas pelo prazer de contradizer e persistem perversamente nos maus caminhos, apesar de toda restrição e advertência. O rebelde procura causar dano (segundo outra leitura) e vigia toda oportunidade de perturbar a paz pública.
- Seu castigo. Como não aceita ser corrigido por meios brandos e gentis, será enviado contra ele um mensageiro cruel, algum juízo terrível como mensageiro de Deus. Os anjos, mensageiros de Deus, serão empregados como ministros de sua justiça contra ele, Salmos 78:49.
Satanás, o anjo da morte, será solto contra ele, bem como seus mensageiros. Seu príncipe enviará um oficial para prendê-lo e um carrasco para eliminá-lo. A espada espera aquele que dá coices contra o aguilhão.
Versículo 12
Ditos de Peso.
Repare: 1. O homem dominado pela paixão é um homem grosseiro. Ainda que em outros momentos tenha alguma sabedoria, surpreenda-o quando sua paixão estiver sem controle e ele será um tolo em sua insensatez. São tolos aqueles em cujo peito a ira descansa e em cujo rosto ela se enfurece.
Ele abandonou o que é próprio do homem e tornou-se como uma ursa, uma ursa furiosa, uma ursa privada de seus filhotes. Apega-se à satisfação de seus desejos e paixões como ela aos filhotes, que, embora feios, são seus. Busca-a com o mesmo ímpeto com que a ursa procura os filhotes perdidos e se indigna igualmente quando é impedido.
- Ele é perigoso: ataca qualquer um que esteja no caminho, ainda que seja inocente ou seu amigo, como a ursa privada dos filhotes ataca o primeiro homem que encontra, supondo ser o ladrão. Ira furor brevis est — a ira é uma loucura passageira.
É mais fácil deter uma ursa enfurecida, escapar dela ou defender-se dela do que deter um homem tomado pela fúria, escapar dele ou defender-se dele.
Portanto, vigiemos nossas paixões, para que não ganhem força nem causem danos, olhando assim por nossa honra. Evitemos a companhia dos furiosos e saiamos de seu caminho quando estiverem em sua fúria, olhando assim por nossa segurança. Currenti cede furori — dê lugar à cólera.
Versículo 13
O homem malicioso e danoso é apresentado aqui: 1. Como ingrato para com os amigos. Muitas vezes se mostra tão absurdo e insensível às bondades recebidas que retribui o bem com o mal. Davi encontrou pessoas que se tornaram suas adversárias em troca de seu amor, Salmos 109:4.
Retribuir o mal com o mal é grosseiro, mas retribuir o bem com o mal é diabólico. Tem caráter mau aquele que, resolvido a não retribuir uma bondade, procura vingá-la. 2. Nesse ato, também age sem bondade para com sua família, pois lhe transmite uma maldição.
É um crime tão grave que será castigado não apenas nele, mas também em seus descendentes, para quem assim acumula cólera. A espada não se afastará da casa de Davi porque ele retribuiu com o mal os bons serviços de Urias. Os judeus apedrejaram Cristo por suas boas obras; por isso, seu sangue está sobre eles e sobre seus filhos.
Versículo 14
Aqui estão: 1. O perigo que existe no início da contenda. Uma palavra exaltada, uma observação irritadiça, uma exigência raivosa ou uma contradição maliciosa gera outra, depois uma terceira e assim por diante, até tornar-se como o rompimento de uma represa.
Quando a água encontra uma pequena passagem, ela própria alarga a abertura, derruba tudo à frente e já não pode ser detida nem reconduzida. 2. Daí vem uma boa advertência: atentemos à primeira faísca da disputa e apaguemo-la assim que surgir.
Tema o primeiro rompimento do gelo, pois, uma vez quebrado, ele se romperá ainda mais. Abandone a contenda não apenas quando enxergar suas piores consequências, pois então talvez seja tarde demais, mas logo que perceber seu começo. Obsta principiis — resista à sua primeira manifestação. Deixe-a de lado antes mesmo de envolver-se nela; se possível, antes de começar.
Versículo 15
Isto mostra quanto Deus se ofende: 1. Quando os encarregados de administrar a justiça pública, juízes, jurados, testemunhas, acusadores e advogados, absolvem os culpados ou condenam os inocentes, ou contribuem minimamente para qualquer dessas coisas. Isso frustra o propósito do governo, que é proteger os bons e punir os maus, Romanos 13:3-4.
Justificar o perverso provoca a Deus tanto quanto condenar o justo, ainda que se faça por compaixão, in favorem vitæ — para salvar a vida. 2. Quando particulares defendem o pecado e os pecadores, encobrem e desculpam a perversidade ou argumentam contra a virtude e a piedade, pervertendo assim os caminhos retos do Senhor e confundindo as distinções eternas entre o bem e o mal.
Versículo 16
Duas coisas são aqui mencionadas com espanto: 1. A grande bondade de Deus para com o homem insensato, ao colocar em suas mãos um preço com que obter sabedoria, conhecimento e graça para prepará-lo para este mundo e para o próximo.
Temos almas racionais, meios de graça, os esforços do Espírito, acesso a Deus pela oração; temos tempo e oportunidade. Quem possui muitos bens, segundo outra interpretação, tem com isso vantagens para adquirir sabedoria, pagando por instrução. Bons pais, parentes, ministros e amigos também nos ajudam a adquiri-la.
É, portanto, um preço valioso, um talento. Está na mão, já possuído; a palavra está perto de você. É um preço destinado à aquisição, para nossa própria vantagem: a aquisição de sabedoria, justamente aquilo de que nós, tolos, mais precisamos.
Temos razão para admirar que Deus considere assim nossa necessidade e nos confie tantas vantagens, embora tenha previsto que não as aproveitaríamos corretamente. 2. A grande perversidade do homem: negligencia o favor de Deus e o próprio interesse, o que é absurdo e inexplicável.
Não tem disposição nem para a sabedoria a adquirir nem para empregar o preço com que poderia adquiri-la. Falta-lhe coração, habilidade, vontade e coragem para aproveitar suas vantagens. Pôs o coração em outras coisas e, por isso, não o tem para o dever nem para os grandes interesses da alma. Por que um preço seria desperdiçado e perdido com alguém tão indigno dele?
Versículo 17
A Verdadeira Amizade.
Isto indica a força dos laços que nos unem uns aos outros e dos quais devemos estar conscientes. 1. Os amigos devem ser constantes entre si em todos os momentos. Não é verdadeira a amizade que não persevera; ela perseverará se for sincera e movida por bons princípios.
Os que são caprichosos ou egoístas na amizade só amarão enquanto seu humor estiver satisfeito e seus interesses forem atendidos; por isso, seus afetos mudam com o vento e com o tempo. São amigos como as andorinhas: vêm até você no verão, mas partem no inverno; nada se perde ao perdê-los.
Mas, se a amizade for prudente, generosa e cordial, se amo meu amigo por ser sábio, virtuoso e bom, continuarei a amá-lo enquanto ele assim permanecer, mesmo que caia na pobreza e na desonra. Cristo é um amigo que ama em todo tempo (João 13:1), e assim devemos amá-lo, Romanos 8:35.
- Os parentes devem ter zelo e ternura especiais uns pelos outros na aflição. Um irmão nasce para socorrer o irmão ou a irmã em angústia; está tão intimamente unido a eles pela natureza que sente seus fardos de maneira mais viva e é mais fortemente inclinado e comprometido, como que por instinto, a ajudá-los.
Devemos considerar muitas vezes para que nascemos, não apenas como seres humanos, mas na posição e nas relações que ocupamos. Quem sabe se não viemos a determinada família para um tempo como este? Não cumprimos o propósito de nossas relações se não cumprimos seus deveres.
Alguns entendem assim: o amigo que ama em todo tempo nasce, isto é, torna-se, irmão na adversidade, e por isso deve ser valorizado.
Versículo 18
Embora Salomão tenha elogiado a amizade na adversidade (v. 17), ainda assim ninguém deve, sob o pretexto de ser generoso com os amigos, cometer injustiça contra a família e prejudicá-la. Uma parte de nosso dever precisa harmonizar-se com a outra.
Repare: 1. É sábio evitar dívidas tanto quanto possível e, especialmente, temer o compromisso de ser fiador. Pode haver ocasião justa para alguém empenhar sua palavra por um amigo ausente até que ele venha assumir o compromisso pessoalmente.
Mas ser fiador na presença do amigo, quando ele está ali, pressupõe que sua própria palavra não será aceita, por ser considerado insolvente ou desonesto; quem, então, poderá empenhar a palavra por ele com segurança?
- Os que não têm entendimento costumam cair nessa armadilha, prejudicando suas famílias; por isso, não devem receber confiança excessiva na administração de seus assuntos, mas precisam de orientação.
Versículo 19
Repare: 1. Os briguentos envolvem-se em muita culpa. Quem ama a contenda, gosta de recorrer aos tribunais nos negócios, de controvérsias na religião e de contradizer e brigar nas conversas comuns, quem só se sente bem em meio ao fogo, ama a transgressão. Pois muitos outros pecados acompanham esse pecado, e o caminho dele é uma descida.
Alega defender a verdade, sua honra e seus direitos, mas na realidade ama o pecado que Deus odeia. 2. Os ambiciosos que buscam elevar-se expõem-se a muita tribulação, que frequentemente terminam em ruína.
Quem exalta sua porta, construindo uma casa majestosa ou ao menos uma fachada imponente para superar e ofuscar os vizinhos, busca a própria destruição e se esforça muito para arruinar-se. Faz a porta tão grande que por ela saem sua casa e seus bens.
Versículo 20
Insensatez e Perversidade.
Repare: 1. Formular maus desígnios não nos trará vantagem; nada se ganha com isso. Quem tem coração perverso, semeia discórdia e está cheio de ressentimento não pode esperar um ganho que compense a perda da tranquilidade e da reputação, nem encontrar nisso satisfação racional; não acha o bem.
- Usar uma linguagem má nos causará grande prejuízo. Quem tem língua perversa, maldosa e abusiva, que profere grosserias ou difamações, cai em algum dano: perde os amigos, provoca os inimigos e atrai tribulação sobre a própria cabeça. Muitos pagaram caro por uma língua desenfreada.
Versículo 21
Estas palavras expressam enfaticamente o que muitos homens sábios e bons sentem profundamente: como é grave e aflitivo ter um filho tolo e perverso. Veja aqui: 1. Como são incertos todos os consolos que recebemos das criaturas.
Frequentemente não só nos decepcionamos com eles, mas aquilo em que esperávamos maior satisfação se torna nossa maior aflição. Houve alegria quando nasceu um menino; contudo, se ele se tornar perverso, o próprio pai desejará que nunca tivesse nascido. O nome Absalão significa paz de seu pai, mas ele foi sua maior tribulação.
Saber que os filhos podem tornar-se motivo de dor deve moderar o desejo de tê-los e o prazer que os pais encontram neles. No entanto, isso também deve calar as queixas do pai aflito: se o filho é tolo, é um tolo que ele próprio gerou; deve, pois, fazer o melhor que puder com ele e aceitá-lo como sua cruz, especialmente porque Adão gera um filho à sua semelhança.
- Como somos imprudentes ao permitir que uma aflição, e a de um filho rebelde tanto quanto qualquer outra, abafe a percepção de mil misericórdias. O pai de um tolo sofre tanto por isso que já não encontra alegria em coisa alguma. Quanto a isso, ele só pode responsabilizar a si mesmo; há alegrias suficientes para compensar até essa tristeza.
Versículo 22
Repare: 1. A alegria faz bem à saúde. O Senhor se interessa pelo corpo e providenciou para ele não apenas alimento, mas remédio; aqui nos diz que o melhor remédio é um coração alegre. Não se trata de um coração dado à alegria vã, carnal e sensual. O próprio Salomão disse dessa alegria que ela não é remédio, mas loucura; não é alimento, mas veneno; de que serve?
Ele se refere a um coração que se alegra em Deus e o serve com contentamento, desfrutando então dos bens exteriores e, em particular, do prazer de uma conversa agradável. É grande misericórdia que Deus nos permita e nos dê motivos para estar alegres, especialmente se, por sua graça, nos dá coração capaz de alegrar-se.
Ela faz bem ao remédio (assim interpretam alguns), tornando-o mais eficaz. Ou faz bem como remédio para o corpo, dando-lhe conforto e tornando-o apto ao trabalho. Mas, se a alegria for um remédio, entendida como diversão e recreação, deve ser usada com moderação, apenas quando necessária, sem se transformar em alimento.
Deve ser usada medicinalmente, sub regimine — segundo um regime prescrito e conforme uma regra. 2. As tristezas da mente muitas vezes contribuem muito para as doenças do corpo.
O espírito abatido pelo peso das aflições, especialmente a consciência ferida pela culpa e pelo medo da cólera divina, resseca os ossos, consome a umidade vital, esgota até a medula e reduz o corpo a um esqueleto. Portanto, devemos vigiar e orar contra toda disposição melancólica, pois ela nos conduz tanto à tribulação quanto à tentação.
Versículo 23
Veja aqui: 1. Como o suborno é mau. É perverso quem aceita uma dádiva para se comprometer a prestar falso testemunho, dar veredicto injusto ou proferir sentença falsa. Ao fazê-lo, sente vergonha, pois recebe a dádiva com o maior sigilo possível, tirando-a do seio onde sabe que foi depositada para ele.
O suborno é cuidadosamente ocultado, de modo tão sorrateiro que, se pudesse, ele o esconderia da própria consciência. Uma dádiva é tirada do seio de um homem perverso (assim interpretam alguns); pois tanto o que oferece subornos quanto o que os recebe é mau.
- Como o suborno é poderoso. Tem força suficiente para perverter os caminhos da justiça. O curso da justiça não é apenas obstruído, mas transformado em injustiça; os maiores males são praticados sob a aparência de fazer o que é certo.
Versículo 24
Repare: 1. Deve ser considerado inteligente quem não apenas possui sabedoria, mas a tem à disposição quando precisa dela. Põe sua sabedoria diante de si como mapa e bússola pelos quais se orienta; mantém os olhos nela como quem escreve olha para o modelo. Assim, ela está diante dele, sem que precise procurá-la, sempre à mão.
- Quem tem cabeça leviana e imaginação dispersa e errante jamais estará preparado para qualquer trabalho sério. É tolo e inútil aquele cujos olhos estão nos confins da terra, aqui, ali e em toda parte, menos onde deveriam estar; não consegue fixar os pensamentos num assunto nem perseguir propósito algum com constância.
Quando deveria aplicar a mente aos estudos e ao trabalho, ela está cheia de mil coisas alheias e irrelevantes.
Versículo 25
Observe: 1. Os filhos perversos afligem tanto o pai quanto a mãe. São motivo de ira para o pai, como indica a palavra, porque desprezam sua autoridade, mas de tristeza e amargura para a mãe, porque abusam de sua ternura.
Como ambos os pais sofrem, devem consolar-se mutuamente para suportar a aflição e procurar torná-la tão leve quanto possível: a mãe deve abrandar a ira do pai, e o pai, aliviar a dor da mãe. 2. Que Salomão repete muitas vezes esta observação, talvez porque fosse o seu próprio caso; de qualquer forma, é um caso comum.
Versículo 26
Nas divergências que surgem entre magistrados e súditos, e elas surgem com frequência: 1. Cuidem os magistrados de nunca punir os justos, de jamais ser motivo de terror para as boas obras. Fazer isso é abusar do poder e trair a grande confiança depositada neles. Não é bom, isto é, é muito mau, e terminará mal, qualquer que seja o fim que tenham em vista.
Quando os príncipes se tornam tiranos e perseguidores, seus tronos não serão tranquilos nem firmes. 2. Cuidem os súditos de não censurar o governo por cumprir seu dever. É perverso atacar os príncipes por agirem com equidade, seja difamando sua administração, seja por tentativas secretas de atingi-los.
Assim as dez tribos que se revoltaram censuraram Salomão por impor tributos necessários. Alguns leem: nem golpear o homem franco por agir com equidade. Os magistrados devem tomar cuidado para que ninguém sofra sob seu governo por praticar o bem; e os pais não devem provocar os filhos à cólera com repreensões injustas.
Versículos 27 a 28
Uma pessoa pode demonstrar sabedoria de duas maneiras: 1. Pelo bom temperamento, pela doçura e pela serenidade da mente. Quem tem entendimento possui espírito excelente, espírito precioso, como diz a palavra. Cuida de seu espírito para que seja como deve ser e, assim, mantém-no equilibrado, tranquilo para si e agradável aos outros.
Um espírito cheio de graça é precioso e torna a pessoa amável e mais excelente que o próximo. Ele possui espírito calmo, segundo outra leitura: não se inflama com a paixão nem entra em tumulto ou desordem pelo ímpeto de alguma afeição corrompida, mas permanece equilibrado e firme. Cabeça fria e coração ardente formam admirável combinação.
- Pelo bom governo da língua. (1.) O sábio será de poucas palavras, pois teme falar de modo inadequado. Quem tem conhecimento e procura usá-lo para o bem, quando fala, cuida de dizer o que importa e diz pouco para ter tempo de ponderar. Poupa as palavras, pois é melhor poupá-las do que desperdiçá-las mal.
(2.) Isso costuma ser considerado sinal tão seguro de sabedoria que até o tolo pode ganhar fama de sábio, se tiver apenas juízo suficiente para ficar calado, ouvir, observar e dizer pouco.
Se um tolo se cala, as pessoas benevolentes o considerarão sábio, pois nada aparece em contrário e imaginarão que observa o que os outros dizem, ganha experiência e pondera o que dirá para falar com pertinência. Veja como é fácil conquistar a boa opinião dos homens e iludi-los.
Mas, quando o tolo se cala, Deus conhece seu coração e a insensatez ali presa. Os pensamentos são palavras para Deus; por isso, ele não pode ser enganado ao julgar as pessoas.