Matthew Henry

Provérbios 15

Versículo 1

O Uso Correto da Língua.

Salomão, como guardião da paz pública, nos diz aqui: 1. Como se pode conservar a paz, para que saibamos conservá-la onde estamos: por palavras brandas. Se a cólera se ergueu como nuvem ameaçadora, carregada de tempestade e trovões, uma resposta branda a dissipará e a afastará.

Quando as pessoas estiverem irritadas, falem-lhes com mansidão e dirijam-lhes boas palavras; elas se acalmarão, como os efraimitas diante da brandura de Gideão (Juízes 8:1-3). Em ocasião semelhante, a aspereza de Jefté os enfureceu, e as consequências foram ruins, Juízes 12:1-3.

A razão será exposta melhor, e uma causa justa defendida melhor, com mansidão do que com paixão; razões fortes funcionam melhor com palavras suaves.

  1. Como a paz será rompida, para que, de nossa parte, nada façamos para rompê-la. Nada suscita tanto a ira e semeia tanta discórdia quanto palavras ofensivas: chamar alguém de nomes injuriosos, como Raca e “Tolo!”, repreender as pessoas por suas fraquezas e infortúnios, sua linhagem ou educação, ou por qualquer coisa que as diminua e humilhe.

Comentários de desprezo e malícia, com os quais alguns procuram exibir sua inteligência e sua maldade, despertam a ira dos outros, o que apenas aumenta e inflama a sua própria ira. Há quem prefira perder um amigo e fazer um inimigo a deixar de contar uma piada.

Versículo 2

Repare: 1. Um bom coração se torna muito útil por meio da língua. Quem possui conhecimento não deve apenas desfrutá-lo para o próprio entretenimento, mas empregá-lo, empregá-lo corretamente na edificação dos outros.

É a língua que deve usá-lo em conversa piedosa e proveitosa, dando instruções, conselhos e consolos apropriados e oportunos, com toda expressão possível de humildade e amor. Assim o conhecimento é bem empregado, e a quem tem e usa dessa forma aquilo que possui mais será dado.

  1. Um coração perverso se torna muito nocivo por meio da língua. A boca dos insensatos despeja insensatez, algo muito ofensivo. A conversa corrompida que procede do tesouro mau do interior, a indecência, as palavras tolas e as zombarias, corrompe os bons costumes de alguns e os perverte, e causa dor ao bom coração de outros e o perturba.

Versículo 3

O Contraste entre os Justos e os Ímpios.

As grandes verdades da teologia são muito úteis para reforçar os preceitos da moralidade, e nenhuma mais que esta: os olhos de Deus estão sempre sobre os filhos dos homens.

  1. São olhos que discernem tudo; não só nada pode ser escondido deles, como tudo é de fato examinado por eles, sem que coisa alguma seja esquecida ou observada superficialmente. Os olhos do Senhor estão em todo lugar, pois ele não apenas vê tudo do alto (Salmos 33:13), mas está presente em toda parte.

Os anjos são cheios de olhos (Apocalipse 4:8), mas Deus é todo olhar. Isso indica não só sua onisciência, pela qual vê tudo, mas também sua providência universal, pela qual sustenta e governa tudo. Pecados, serviços e tristezas ocultos estão diante de seus olhos.

  1. São olhos que distinguem tanto pessoas quanto ações. Ele contempla os maus e os bons, desaprova o mal e aprova o bem, e julgará os homens segundo o que seus olhos veem, Salmos 1:6; 11:4. Os ímpios não ficarão impunes, nem os justos sem recompensa, pois Deus tem os olhos sobre ambos e conhece seu verdadeiro caráter. Isso traz aos santos tanto consolo quanto terror aos pecadores.

Versículo 4

Repare: 1. A boa língua traz cura: às consciências feridas, consolando-as; às almas enfermas pelo pecado, convencendo-as; e à paz e ao amor, quando se rompem, resolvendo divergências, conciliando assuntos em disputa e reconciliando as partes.

Essa é a cura produzida pela língua, que é árvore da vida cujas folhas têm poder de curar, Apocalipse 22:2. Quem sabe conversar fará do lugar onde vive um paraíso.

  1. A língua má causa feridas. A perversidade, a paixão, a falsidade e a impureza nela são uma ruptura no espírito. Ela fere a consciência de quem fala mal e causa ou culpa ou dor aos ouvintes; ambas devem ser consideradas feridas no espírito. Palavras duras não quebram ossos, de fato, mas muitos corações foram quebrados por elas.

Versículo 5

Daí: 1. Os superiores sejam advertidos a instruir e censurar os que estão sob seus cuidados, pois disso prestarão contas no dia do juízo. Devem instruir não só com a luz do conhecimento, mas também censurar com o ardor do zelo. Ambas as coisas precisam ser feitas com a autoridade e a afeição de um pai e mantidas mesmo que o efeito desejado não apareça de imediato.

Se a instrução for desprezada, deem censura e repreendam com firmeza. De fato, para os homens de bom temperamento, é contra sua inclinação apontar faltas e causar desconforto aos que os cercam; mas isso é melhor que deixá-los avançar sem perturbação pelo caminho da ruína.

  1. Os subordinados sejam advertidos não só a submeter-se à instrução e à censura, pois até às agruras é preciso submeter-se, mas também a valorizá-las como favores, sem desprezá-las. Devem usá-las como direção e tê-las sempre em consideração.

Isso provará que são sábios e será um meio de torná-los sábios. Quem despreza a boa educação é insensato e provavelmente viverá e morrerá assim.

Versículo 6

Repare: 1. Onde há justiça há riquezas e o consolo delas: na casa do justo há muito tesouro. A religião ensina os homens a ser diligentes, moderados e justos, e, por esses meios, normalmente os bens aumentam. Mas isso não é tudo: Deus abençoa a morada dos justos, e sua bênção enriquece sem trazer perturbação.

Ou, se não houver muitos bens deste mundo, ainda assim, onde há graça, há verdadeiro tesouro. Os que têm pouco, se estiverem dispostos a se contentar e desfrutar o consolo desse pouco, têm o bastante; para eles, é toda uma riqueza.

Talvez os próprios justos não enriqueçam, mas há tesouro em sua casa, uma bênção reservada da qual seus filhos poderão se beneficiar depois deles. O homem mundano e ímpio só quer encher o ventre desses tesouros e satisfazer o próprio apetite sensual (Salmos 17:14).

O justo, porém, tem seu primeiro zelo por sua alma e depois por sua descendência: quer ter tesouro no coração e então na casa, para o benefício de seus familiares e dos que o cercam.

  1. Onde há maldade, mesmo que haja riquezas, elas vêm acompanhadas de aflição de espírito. Nos rendimentos dos ímpios, os grandes rendimentos que possuem, há perturbação, pois há culpa e maldição, orgulho e paixão, inveja e disputa. Esses desejos turbulentos lhes roubam a alegria dos rendimentos e os tornam perturbadores para os seus vizinhos.

Versículo 7

Este versículo tem o mesmo sentido do v. 2 e mostra que bênção o sábio é para os que o cercam e que peso é o insensato. Só observe aqui, além disso:

  1. Usamos corretamente o conhecimento quando o espalhamos, sem reservá-lo a uns poucos amigos íntimos e negá-lo a outros que fariam tão bom uso dele. Devemos dar uma porção dessa esmola espiritual a sete e também a oito, não apenas compartilhando esse bem, mas difundindo-o com humildade e prudência.

Precisamos nos esforçar para espalhar e propagar o conhecimento útil, ensinando alguns para que ensinem outros. É assim que ele se difunde.

  1. Não apenas é errado despejar insensatez; também é vergonhoso deixar de espalhar conhecimento, ou pelo menos de oferecer uma ou outra palavra sábia. O coração do insensato não faz isso: não tem nada de bom para transmitir ou, se tivesse, não possui habilidade nem vontade de usá-lo para o bem. Por isso vale pouco.

Versículo 8

Repare: 1. Deus odeia de tal modo os ímpios, cujo coração é malicioso e cuja vida causa danos, que até seus sacrifícios lhe são abomináveis. Mesmo homens perversos lhe apresentam sacrifícios para calar a consciência e conservar a reputação no mundo.

Agem como criminosos que procuram refúgio num santuário, não por ser lugar santo, mas porque os abriga da justiça. Contudo, seus sacrifícios, por mais custosos que sejam, não são aceitos por Deus: não são oferecidos com sinceridade nem procedem de um bom princípio.

Eles dissimulam diante de Deus e, em sua conduta, desmentem suas devoções. Por isso seus sacrifícios lhe são abomináveis, pois servem de capa para o pecado, Provérbios 7:14. Veja Isaías 1:11.

  1. Deus ama tanto as pessoas boas e íntegras que, mesmo sem elas arcarem com o custo de um sacrifício, pois ele próprio o providenciou, sua oração lhe dá prazer. As graças que as levam a orar são dom dele e obra de seu próprio Espírito nelas, na qual muito se agrada. Ele não apenas responde às orações, mas se deleita quando se dirigem a ele e em lhes fazer o bem.

Versículo 9

Este é um motivo para o que foi dito no versículo anterior.

  1. Os sacrifícios dos ímpios são abominação para Deus, não por lhes faltarem alguns pormenores cerimoniais esmerados, mas porque seu caminho, todo o curso e teor de sua conduta, é perverso e, por conseguinte, abominável para ele. Os sacrifícios pelo pecado não eram aceitos quando oferecidos por quem estava decidido a continuar pecando.

Tornavam-se abomináveis no mais alto grau se fossem apresentados para obter tolerância ao pecado e permissão para persistir nele.

  1. Portanto, a oração dos íntegros lhe dá prazer, porque o íntegro é amigo de Deus. Ele ama aquele que, embora ainda não tenha alcançado a justiça, a segue, busca e para ela avança, como São Paulo, Filipenses 3:13.

Versículo 10

Isto mostra que os que não suportam ser corrigidos devem esperar a destruição. 1. É comum que aqueles que conheceram o caminho da justiça, mas o abandonaram, considerem grande afronta receber censura e advertência. A censura os incomoda muito: não conseguem nem querem suportá-la.

Ou melhor, por odiarem ser reformados, odeiam ser censurados e odeiam os que os tratam com fidelidade e bondade. De todos os pecadores, os apóstatas são os que mais se ofendem com as censuras.

  1. É certo que os que não aceitam ser censurados serão arruinados. Quem odeia a censura e endurece o coração contra ela está unido aos ídolos; deixem-no em paz. Morrerá e perecerá para sempre em seus pecados, pois não quis se separar deles.

Em 2 Crônicas 25:16, o profeta declara: Sei que Deus determinou destruir você, porque você não suportou ser censurado. Veja também Provérbios 29:1.

Versículo 11

Isso confirma o que foi dito no v. 3 a respeito da onipresença de Deus, pela qual julga o mal e o bem.

  1. Deus conhece todas as coisas, mesmo as ocultas aos olhos de todos os viventes. O inferno e a destruição estão diante do Senhor: não apenas o centro da terra e suas cavernas subterrâneas, mas a sepultura e todos os corpos ali enterrados fora da nossa vista. Todos estão diante do Senhor e sob seus olhos.

Assim, nenhum deles se perderá ou precisará ser procurado quando chegar a hora da ressurreição. Ele sabe onde cada pessoa foi sepultada, até Moisés e os enterrados no maior anonimato. Não precisa de monumento com a inscrição Hic jacet, “Aqui jaz”, para encontrá-los.

O lugar dos condenados em particular, com todos os seus tormentos indescritíveis, bem como a condição das almas separadas do corpo em geral, com todas as suas circunstâncias, estão sob os olhos de Deus.

A palavra aqui usada para destruição é Abadom, um dos nomes do diabo, Apocalipse 9:11. Esse destruidor, embora nos engane, não consegue fugir nem escapar do conhecimento divino. Deus lhe pergunta de onde vem (Jó 1:7) e vê através de todos os seus disfarces, por mais ardiloso, sutil e rápido que seja, Jó 26:6.

  1. Deus conhece em particular o coração dos filhos dos homens. Se vê até as profundezas e os ardis do próprio Satanás, com muito mais razão pode sondar o coração humano, por mais enganoso que seja, pois os homens aprenderam com Satanás todas as artes fraudulentas. Deus é maior que nosso coração e o conhece melhor do que nós; por isso é Juiz infalível do caráter de cada pessoa, Hebreus 4:13.

Versículo 12

O escarnecedor não apenas zomba de Deus e da religião; também desafia os meios empregados para convencê-lo e reformá-lo. Como prova disso:

  1. Não suporta as censuras da própria consciência nem permite que ela lhe fale com franqueza. Ele não gosta que ela o censure, segundo outra leitura. Não suporta recolher-se ao próprio coração e conversar seriamente com ele. Não admite refletir livremente nem raciocinar com justiça sobre si mesmo, e impede, se puder, que o coração o acuse.

Triste é a condição de quem teme conhecer a si mesmo e argumentar consigo.

  1. Não suporta o conselho nem as advertências de seus amigos. Não vai até os sábios, receoso de que lhe deem conselhos sábios. Não devemos apenas receber bem os sábios quando nos procuram, mas ir até eles como mendigos à porta de um rico em busca de esmola. O escarnecedor não faz isso, por medo de ouvir suas faltas e ser persuadido a corrigir-se.

Versículo 13

Aqui: 1. A alegria inocente nos é recomendada, pois contribui para a saúde do corpo, tornando os homens animados e aptos ao trabalho, e para a agradável convivência, fazendo brilhar o rosto e tornando-nos agradáveis uns aos outros.

Um espírito alegre, governado pela sabedoria e pela graça, é grande ornamento da religião. Acrescenta brilho à beleza da santidade e torna as pessoas mais capazes de fazer o bem.

  1. Somos advertidos contra a melancolia nociva, grande inimiga tanto de nossa devoção quanto de nossa conduta. Pela tristeza do coração, quando ela assume o domínio e se torna tirana, como tende a acontecer se for alimentada por algum tempo, o espírito é quebrantado e abatido, tornando-se impróprio para o serviço de Deus.

A tristeza do mundo produz morte. Portanto, choremos como se não chorássemos, por justiça para conosco assim como em conformidade com Deus e sua providência.

Versículo 14

Sabedoria e Insensatez.

Há aqui duas coisas surpreendentes: 1. O sábio não se satisfaz com sua sabedoria e continuamente busca aumentá-la; quanto mais possui, mais deseja. O coração de quem tem entendimento se alegra tanto com o conhecimento já alcançado que continuamente deseja mais e continuamente se esforça para obtê-lo pelos meios disponíveis, crescendo na graça e no conhecimento de Cristo.

Si dixisti, Sufficit, periisti: se disser “Tenho o bastante”, estará arruinado.

  1. O insensato se satisfaz plenamente com a própria insensatez e não procura curá-la. Enquanto o homem bom anseia pelas satisfações sólidas da graça, a mente carnal se banqueteia com a satisfação dos apetites e fantasias. Sua alegria está na diversão vazia e nos prazeres sensuais; contenta-se com eles e lisonjeia a si mesma nesses caminhos tolos.

Versículo 15

Veja a grande diferença entre a condição e a disposição de diferentes pessoas. 1. Algumas sofrem muito e têm espírito triste; todos os seus dias são maus, como os dias da velhice, dias dos quais dizem não sentir prazer. Comem em trevas (Eclesiastes 5:17) e nunca comem com prazer, Jó 21:25. Quantas são as aflições dos aflitos neste mundo!

Essas pessoas não devem ser censuradas nem desprezadas, mas tratadas com compaixão, oração, auxílio e consolo. Esse poderia ter sido nosso destino, ou ainda poderá ser, por mais alegres que estejamos agora.

  1. Outras desfrutam de grande prosperidade e têm espírito alegre; não apenas vivem dias bons, mas têm um banquete contínuo.

Se, em meio à abundância, servem a Deus com alegria de coração, e essa alegria lubrifica as rodas de sua obediência, recebem tudo isso e ainda o céu; servem, portanto, a um bom Senhor. Mas que não festejem sem temor: uma mudança repentina pode vir. Alegrem-se, portanto, com tremor.

Versículos 16 a 17

No versículo anterior, Salomão disse que quem não tem grande patrimônio nem renda alta, mas possui espírito alegre, tem um banquete contínuo. O contentamento cristão e a alegria em Deus tornam a vida fácil e agradável. Agora ele nos diz o que é necessário para essa alegria de espírito, que oferece ao homem um banquete contínuo mesmo que possua pouco neste mundo: santidade e amor.

I. Santidade. O pouco que temos, se o administramos e desfrutamos no temor do Senhor, conservamos boa consciência, prosseguimos no caminho do dever e servimos fielmente a Deus com ele, trará mais consolo e melhor resultado que grande tesouro acompanhado de perturbação.

Observe: 1. Muitas vezes, a sorte dos que temem a Deus é ter pouco dos bens deste mundo. Os pobres recebem o evangelho e continuam pobres, Tiago 2:5.

  1. Os que possuem grandes tesouros muitas vezes têm também grandes perturbações. A riqueza, longe de lhes dar tranquilidade, aumenta sua preocupação e sua agitação. A abundância do rico não o deixa dormir.

  2. Se um grande tesouro traz perturbação, é por faltar o temor de Deus. Se os que possuem grandes propriedades cumprissem seus deveres quanto a elas e então confiassem a Deus sua guarda, os tesouros não lhes trariam tanta perturbação.

  3. É, por isso, muito melhor e mais desejável ter pouco neste mundo, mas com boa consciência, conservar a comunhão com Deus, desfrutar sua presença no pouco que se possui e viver pela fé, do que ter a maior abundância e viver sem Deus no mundo.

II. Amor. Depois do temor de Deus, a paz com todas as pessoas é necessária ao conforto desta vida.

  1. Se os irmãos moram juntos em união, com amizade, cordialidade e agrado, tanto nas refeições diárias quanto em ocasiões mais solenes, até um jantar de verduras será um banquete suficiente. Embora a comida seja grosseira e o patrimônio seja tão pequeno que não possam oferecer coisa melhor, ainda assim o amor a adoçará, e eles poderão alegrar-se tanto quanto se tivessem todas as iguarias.

  2. Se houver inimizade e contenda mútuas, ainda que sirvam um boi inteiro e gordo no jantar, não haverá nele consolo algum. O fermento da malícia, do odiar e ser odiado, basta para azedar tudo.

Alguns aplicam isso ao anfitrião: é melhor receber um jantar modesto e uma acolhida cordial do que uma mesa farta acompanhada de um olhar relutante e hostil.

Cum torvo vultu mihi conula nulla placebit,
Cum placido vultu conula ulla placet.

O mais suntuoso banquete, servido com semblante carrancudo,
me desagradaria; já a refeição mais simples, servida com bondade,
me daria prazer.

Versículo 18

Aqui estão: 1. A paixão, grande causadora de conflitos. Dela procedem guerras e brigas. A ira acende o fogo que incendeia cidades e igrejas. O homem colérico, com seus comentários irritados e apaixonados, provoca contendas e põe uns contra os outros.

Dá aos demais ocasião para desavenças e aproveita a ocasião que eles lhe dão, por mais insignificante que seja. Quando as pessoas levam longe demais seus ressentimentos, uma desavença continuamente produz outra.

  1. A mansidão, grande promotora da paz. Quem tarda em irar-se não só impede que a contenda se acenda, como a apazigua se já estiver acesa. Leva água às chamas, reúne os que se desentenderam e, por meios brandos, conduz ambos a concessões mútuas em favor da paz.

Versículo 19

Veja aqui: 1. De onde vêm as dificuldades que os homens alegam encontrar no caminho do dever e julgam insuperáveis. Não surgem da natureza do dever, mas da preguiça de quem, na realidade, não deseja cumpri-lo.

Os que não têm coração para seu trabalho alegam que seu caminho está cercado de espinhos e que não conseguem trabalhar de modo algum, como se Deus fosse Senhor severo que colhe onde não semeou. Ou alegam ao menos que o caminho está coberto de espinhos, de modo que não podem cumprir o trabalho sem muitas agruras e muito perigo.

Por isso o fazem com a mesma relutância de quem tivesse de atravessar descalço uma cerca de espinhos.

  1. Como vencer essas dificuldades imaginárias. O desejo sincero e o esforço para cumprir nosso dever, pela graça de Deus, o tornarão fácil, e encontraremos o caminho coberto de rosas. O caminho dos justos é aplainado: fácil de percorrer, sem aspereza; fácil de encontrar, sem complexidade.

Versículo 20

Observe aqui: 1. Para louvor dos bons filhos, eles são a alegria dos pais, que devem alegrar-se neles depois de tanto zelo e esforço em seu favor. Aos filhos bons traz muito mais satisfação ter motivo para pensar que foram consolo para os pais nos anos de declínio, quando chegam os dias difíceis.

  1. Para vergonha dos filhos perversos, por sua maldade desprezam os pais, menosprezam sua autoridade e retribuem mal a bondade recebida. O filho insensato despreza a mãe, que foi quem mais sofreu com ele e talvez o tenha mimado em excesso. Isso torna mais grave o pecado de desprezá-la e mais profunda a tristeza dela.

Versículo 21

Repare: 1. O homem perverso tem como característica sentir prazer no pecado. Apetece-lhe a isca, que engole avidamente, sem temer o anzol nem sentir algo por causa dele depois de engoli-la. A insensatez é alegria para ele: a dos outros e, ainda mais, a própria.

Peca não só sem remorso, mas com prazer; não apenas deixa de se arrepender, como se gloria do pecado. É sinal certo de alguém sem graça.

  1. O homem sábio e bom tem como característica cumprir conscienciosamente seu dever. O insensato vive sem freios, anda ao acaso, sem regra, sem sinceridade nem constância. Mas o homem de entendimento, cujos olhos do entendimento foram iluminados pelo Espírito, anda retamente.

Pois os que não têm bom entendimento não têm entendimento algum. Ele vive de maneira sóbria, ordenada e regular, procurando em tudo conformar-se à vontade de Deus. Isso lhe traz prazer e alegria constantes. Se ainda permanece nele alguma insensatez, ou se por vezes ela se manifesta, isso lhe causa dor e ele se envergonha dela. Por essas características podemos examinar a nós mesmos.

Versículo 22

Veja aqui: 1. Quanto mal resulta da precipitação e da imprudência, de agir sem conselho. Os propósitos dos homens fracassam, suas medidas são desfeitas e não alcançam o objetivo porque não pediram orientação sobre o caminho.

Se as pessoas não dedicam tempo nem esforço para refletir por si mesmas, ou confiam tanto no próprio julgamento que desdenham consultar outras, dificilmente realizarão algo importante. Circunstâncias que poderiam ter sido previstas e evitadas com alguma conversa as frustram.

É boa regra, nos assuntos públicos e de família, nada fazer precipitadamente nem por conta própria. Plus vident oculi quam oculus: muitos olhos veem mais que um. Muitas vezes resulta melhor aquilo que menos foi obra nossa.

  1. Quanto nos beneficia pedir conselho aos amigos. Na multidão de conselheiros, desde que sejam prudentes e honestos e não deem conselhos por espírito de contradição, os propósitos se firmam.

O filho de Salomão não fez bom uso deste provérbio: rejeitou o conselho dos anciãos e, querendo uma multidão de conselheiros, deu mais valor ao número do que ao peso dos conselhos e consultou os jovens.

Versículo 23

Repare: 1. Falamos com sabedoria quando falamos na hora certa. A resposta da boca será nossa honra e alegria quando for pertinente e apropriada, dada no momento devido, quando houver necessidade dela e ela for recebida, quando, como se diz, acertar no ponto certo.

Muitas palavras boas deixam de produzir todo o bem que poderiam por não terem sido ditas no momento oportuno. Nada torna a conversa mais bela do que ter uma resposta adequada e pronta justamente quando a ocasião exige e ela se encaixa bem.

  1. Se falamos com sabedoria e retidão, isso trará consolo para nós e benefício para os outros. O homem se alegra com a resposta de sua boca: pode sentir prazer, mas de modo algum orgulho, por ter falado tão bem e de maneira tão agradável que os ouvintes o admirem e digam: “Como isso é bom e quanto bem faz!”

Versículo 24

O caminho da sabedoria e da santidade nos é recomendado aqui: 1. Como muito seguro e consolador. É o caminho da vida, que conduz à vida eterna, no qual encontraremos a alegria e a satisfação que dão vida à alma e em cujo fim encontraremos a perfeição da bem-aventurança. Seja sábio e viva.

É o caminho para escapar da miséria à qual não podemos deixar de reconhecer que estamos expostos e em perigo. É afastar-se do inferno que está embaixo: de suas armadilhas, das tentações de Satanás e de todos os seus ardis; de suas penas, da destruição eterna que nossos pecados mereceram.

  1. Como muito elevado e honroso. Esse caminho está acima. O homem bom põe seus afetos nas coisas do alto e delas se ocupa. Sua conduta está no céu, e o caminho que segue conduz diretamente para lá. Ali, acima do alcance dos inimigos e das mudanças deste mundo inferior, está seu tesouro.

O homem bom é na verdade nobre e grande. Seus desejos e desígnios são elevados, e ele vive acima do nível comum dos demais homens. Esse caminho está além da capacidade e fora da vista dos insensatos.

Versículo 25

O Contraste entre os Justos e os Ímpios.

Repare: 1. Deus se agrada em abater os que se elevam, e costuma fazê-lo pelo curso de sua providência. Os soberbos, que se engrandecem, desafiam o Deus que está acima deles e pisam todos ao redor, são aqueles a quem Deus resiste e destruirá.

Destruirá não só a eles, mas também suas casas, das quais se orgulham e cuja permanência e perpetuidade julgam certas. A soberba arruína multidões.

  1. Deus se agrada em sustentar os abatidos e muitas vezes o faz de modo notável. Estabelecerá os limites da pobre viúva, que homens orgulhosos e injustos invadem e que ela própria não consegue defender nem conservar. É honra para Deus proteger os fracos e defender os oprimidos.

Versículo 26

A primeira parte do versículo fala de pensamentos; a segunda, de palavras, mas ambas significam a mesma coisa. Para Deus, pensamentos são palavras, e as palavras são julgadas pelos pensamentos de onde procedem. Portanto:

  1. Os pensamentos e as palavras dos ímpios, perversos como eles próprios, voltados para o dano e com alguma inclinação para o mal, são abominação para o Senhor. Ele se desagrada deles e lhes pedirá contas.

Em sua maioria, os pensamentos dos perversos são coisas que Deus odeia e que o ofendem. Ele não apenas conhece o coração e tudo o que nele se passa repetidamente, mas exige ocupar o lugar mais íntimo e elevado nele.

  1. Os pensamentos e as palavras dos puros, puros como eles próprios, limpos, honestos e sinceros, são palavras e pensamentos agradáveis ao Deus santo, que se deleita na pureza.

Isso pode referir-se tanto à sua devoção a Deus, pois as palavras da boca e as meditações do coração em oração e louvor lhe são aceitáveis, Salmos 19:14; 69:13, como às conversas com os homens destinadas à edificação. Ambas são agradáveis quando procedem de coração puro e purificado.

Versículo 27

Repare: 1. Os cobiçosos transmitem perturbação à família. Quem é ávido de lucro e, por isso, se escraviza ao mundo, levanta-se cedo, deita-se tarde e come o pão da ansiedade para obtê-lo. Vive apressado e sobrecarrega a si e a todos ao redor nos negócios, irrita-se e se aflige com cada perda e decepção e tem desavenças com todos os que atrapalham seu lucro.

Assim perturba a própria casa e se torna peso e aborrecimento para os filhos e servos. Quem, por cobiça de lucro, aceita subornos e usa meios ilícitos de obter dinheiro deixa, junto com o que ganhou, uma maldição aos que vêm depois. Mais cedo ou mais tarde, ela trará perturbação à casa, Habacuque 2:9-10.

  1. Os que são generosos assim como justos transmitem bênção à família. Quem odeia presentes e sacode as mãos para não segurar os subornos que lhe oferecem a fim de perverter a justiça, e abomina todos os meios pecaminosos e indiretos de ganhar dinheiro, viverá.

Odeia ser mesquinho e mercenário e está disposto, quando houver ocasião, a fazer o bem gratuitamente. Terá o consolo da vida, viverá em prosperidade e boa reputação, e seu nome e sua família viverão e permanecerão.

Versículo 28

Aqui temos: 1. Uma prova de que o homem bom é sábio: governa bem a língua. Quem faz isso é homem perfeito, Tiago 3:2.

Faz parte do caráter do justo saber que prestará contas de suas palavras e de sua influência boa e má sobre os outros. Por isso, ele se empenha em falar a verdade: é o coração que responde, isto é, fala o que pensa e não ousa agir de outra maneira; fala a verdade no coração, Salmos 15:2.

Também se empenha em falar de maneira pertinente e proveitosa; por isso, estuda a resposta, para que sua fala seja cheia de graça, Neemias 2:4; 5:7.

  1. Uma prova de que o perverso é insensato: nunca atenta ao que diz, mas sua boca despeja coisas más, para desonra de Deus e da religião, para seu próprio descrédito e para prejuízo dos outros. Sem dúvida é mau o coração que assim transborda de maldade.

Versículo 29

Repare: 1. Deus se mantém distante dos que o desafiam. Os ímpios dizem ao Todo-Poderoso: “Afasta-te de nós”, e ele, em consequência, fica longe deles. Não se manifesta a eles, não tem comunhão com eles, não os ouve nem os ajuda, nem mesmo em tempos de necessidade.

Serão banidos para sempre de sua presença, e ele os contemplará de longe. “Apartai-vos de mim, malditos.”

  1. Deus se aproxima em misericórdia dos que se aproximam dele por dever. Ouve a oração dos justos, aceita-a, agrada-se dela e lhe concederá uma resposta de paz. É a oração do justo que muito pode, Tiago 5:16. Ele lhes está perto, auxílio presente, em tudo aquilo por que o invocam.

Versículo 30

Duas coisas são aqui declaradas agradáveis: 1. É agradável ter uma boa vista, ver a luz do sol (Eclesiastes 11:7) e, por ela, contemplar as maravilhosas obras de Deus que embelezam e enriquecem este mundo inferior.

Quem não possui essa bênção sabe valorizá-la; quanto a luz dos olhos lhe alegraria o coração! Pensar nisso deve tornar-nos gratos pela visão.

  1. É ainda mais agradável ter bom nome, reputação de boas obras diante de Deus e das pessoas boas. Isso é como unguento precioso, Eclesiastes 7:1. Engorda os ossos: proporciona prazer íntimo que também fortalece.

É também muito consolador ouvir, como alguns entendem o versículo, boas notícias a respeito de outros. O homem bom não tem alegria maior que ouvir que seus amigos andam na verdade.

Versículo 31

Repare: 1. O sábio se dispõe de bom grado a receber censura. Por isso escolhe ter comunhão com pessoas que, tanto por palavras quanto pelo exemplo, lhe mostrem o que há de errado nele. O ouvido capaz de acolher a censura amará quem a oferece.

As censuras fiéis de um amigo são chamadas aqui de censuras da vida. Não só devem ser dadas com vivacidade e zelo prudente, e devemos censurar com a vida tanto quanto com a doutrina, mas, quando bem recebidas, são meios de vida espiritual e conduzem à vida eterna.

Segundo alguns, esse nome também as distingue das repreensões e do descrédito sofridos por fazer o bem, que são antes censuras de morte, às quais não devemos dar atenção nem permitir que nos influenciem.

  1. Os que são sábios a ponto de aceitar bem a censura se tornarão ainda mais sábios, Provérbios 9:9. Por fim, poderão ser contados entre os sábios de sua época e terão capacidade e autoridade para censurar e instruir os outros. Os que aprendem e obedecem bem provavelmente ensinarão e governarão bem no futuro.

Versículo 32

Veja aqui: 1. A insensatez daqueles que não querem que lhes ensinem. Recusam a instrução e não lhe dão atenção, voltando-lhe as costas, ou não a querem ouvir, voltando o coração contra ela. Recusam a correção, segundo a margem; não a aceitam, não, nem mesmo do próprio Deus, mas dão coices contra o aguilhão.

Esses desprezam a própria alma. Mostram que a julgam de pouco valor e têm pouco zelo e interesse por ela, considerada racional e imortal, pois a instrução se destina a cultivar a razão e a preparar para a condição imortal.

O erro fundamental dos pecadores é menosprezar a própria alma. Por isso negligenciam prover para ela, abusam dela, expõem-na ao perigo, preferem o corpo a ela e a prejudicam para agradar ao corpo.

  1. A sabedoria dos que se dispõem não só a aprender, mas também a receber censura. Quem ouve a censura e corrige as faltas pelas quais é censurado adquire entendimento, pelo qual sua alma é protegida dos maus caminhos e guiada pelos bons. Assim, tanto mostra o valor que dá à própria alma quanto lhe confere verdadeira honra.

Versículo 33

Veja quanto é de nosso interesse, assim como de nosso dever: 1. Submeter-nos ao nosso Deus e conservar a reverência por ele. Assim como o temor do Senhor é o princípio da sabedoria, também é a instrução e correção que dela vêm. Os princípios da religião, seguidos de perto, aperfeiçoarão nosso conhecimento, corrigirão nossos erros e serão o melhor e mais seguro guia para nosso caminho.

O temor reverente de Deus em nosso espírito nos levará aos conselhos mais sábios e nos corrigirá quando falarmos ou agirmos sem sabedoria.

  1. Humilhar-nos diante de nossos irmãos e conservar o respeito por eles. Onde há humildade existe um feliz prenúncio da honra e uma preparação para ela. Os que se humilham serão exaltados aqui e no porvir.

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