Matthew Henry

Provérbios 14

Versículo 1

Sabedoria e Insensatez.

Repare: 1. Uma boa esposa é grande bênção para a família. Por meio de uma esposa fecunda, a família se multiplica e se enche de filhos, sendo assim edificada. Mas, por meio de uma esposa prudente, piedosa, diligente e ponderada, os negócios da família prosperam: as dívidas são pagas, juntam-se dotes, fazem-se provisões, e os filhos são bem educados e sustentados.

A família desfruta de conforto dentro de casa e boa reputação fora dela; assim se edifica a casa. Ela a considera sua para zelar por ela, embora saiba que cabe ao marido governá-la, Ester 1:22. 2. Muitas famílias são arruinadas tanto pela má administração da casa quanto pela má administração dos negócios.

Uma mulher insensata, que não teme a Deus nem se ocupa de seus deveres, obstinada, esbanjadora e caprichosa, que se entrega à comodidade e ao apetite e só pensa em passeios, banquetes, jogos de cartas e teatro, ainda que chegue a bens abundantes e a uma família em boa situação financeira, empobrecerá e dissipará tudo.

Ela arruinará sua casa tão certamente como se a derrubasse com as próprias mãos; e o marido, apesar de todo o seu zelo, mal conseguirá impedi-lo.

Versículo 2

Aqui está: 1. A graça e o pecado em suas verdadeiras cores. A graça reinante é reverência a Deus e honra aquele que é infinitamente grande e elevado, a quem toda honra é devida. Que poderia ser mais apropriado ou mais agradável para uma criatura racional? O pecado reinante é nada menos que desprezo por Deus.

Nisto, mais que em qualquer outra coisa, o pecado se mostra excessivamente pecaminoso: despreza a Deus, a quem os anjos adoram. Quem despreza os preceitos de Deus e não quer ser governado por eles, e despreza suas promessas e não quer aceitá-las, despreza o próprio Deus e todos os seus atributos. 2. A graça e o pecado em sua verdadeira luz.

Por isto podemos reconhecer alguém em quem reinam a graça e o temor de Deus: ele anda em sua retidão, age segundo a consciência, é fiel tanto a Deus quanto aos homens, e cada parada que faz, assim como cada passo que dá, segue uma regra. Eis alguém que honra a Deus.

Pelo contrário, quem é perverso em seus caminhos, segue deliberadamente os próprios apetites e paixões, é injusto e desonesto e contradiz sua profissão de fé com sua conduta, por mais que alegue devoção, é ímpio e será tratado como alguém que despreza o próprio Deus.

Versículo 3

Veja aqui: 1. Um insensato orgulhoso que se expõe. Quando há orgulho no coração e nenhuma sabedoria na mente para reprimi-lo, ele geralmente se manifesta nas palavras: na boca há orgulho, vanglória, censura, escárnio, ordens arrogantes e imposição de regras. Esta é a vara, ou ramo, do orgulho; a palavra só aparece aqui e em Isaías 11:1.

Ela brota da raiz de amargura que está no coração; é uma vara que sai desse tronco. É preciso arrancar a raiz, ou não venceremos esse ramo. Ou talvez se refira a uma vara que bate e fere, uma vara de orgulho que golpeia os outros. O orgulhoso distribui golpes à vontade com sua língua, mas, no fim, ela se tornará vara contra ele próprio.

O orgulhoso sofrerá uma correção vergonhosa pelas palavras de sua própria boca: não será ferido como soldado, mas açoitado como servo; assim será espancado com sua própria vara, Salmos 64:8.

  1. Um sábio humilde que se preserva e olha pelo próprio bem: os lábios dos sábios os impedirão de causar aos outros o dano que os orgulhosos causam com a língua e de atrair sobre si o dano em que os escarnecedores arrogantes tantas vezes se envolvem.

Versículo 4

Repare: 1. Negligenciar a lavoura é o caminho para a pobreza: onde não há bois para arar a terra e debulhar o cereal, o estábulo está vazio, está limpo; não há palha para o gado e, consequentemente, não há pão para o sustento das pessoas. A escassez é representada pela limpeza dos dentes, Amós 4:6.

Onde não há bois, nada se faz na terra e, portanto, nada se obtém dela. O estábulo, de fato, fica limpo de esterco, o que agrada aos asseados e exigentes que não suportam a lavoura por envolver tanto trabalho sujo e, por isso, vendem os bois para manter o estábulo limpo. Mas então faltam não apenas o trabalho do boi, mas até seu esterco.

Isso mostra a insensatez dos que se entregam aos prazeres do campo sem cuidar de seus trabalhos; que, como dizemos, mantêm mais cavalos que vacas e mais cães que porcos. Suas famílias inevitavelmente sofrem com isso. 2. Os que se empenham no cultivo da terra provavelmente colherão seu proveito.

Os que mantêm ao redor de si o que serve para o trabalho, e não para ostentação e aparência, mais lavradores que criados de libré, provavelmente prosperarão. Grande colheita vem da força do boi; ele foi feito para nosso serviço e é proveitoso vivo e morto.

Versículo 5

Na administração da justiça, muito depende das testemunhas; por isso, é necessário ao bem comum que elas tenham os princípios devidos. Pois:

  1. Uma testemunha conscienciosa não ousará dar um depoimento minimamente falso nem, por simpatia ou antipatia, apresentará os fatos de outra forma que não a mais fiel ao que sabe, tanto faz a quem isso agrade ou desagrade. Assim, a justiça corre como um rio.

  2. Mas uma testemunha que aceita suborno, influência e intimidação proferirá mentiras, sem hesitar nem se espantar com isso, com tanta prontidão e segurança como se tudo o que dissesse fosse verdade.

Versículo 6

Repare: 1. Algumas pessoas procuram a sabedoria e não a encontram porque não a buscam movidas pelo princípio certo nem da maneira certa. São escarnecedoras e pedem instrução com escárnio, para ridicularizar o que lhes disserem e encontrar nele motivo de objeção. Muitos fizeram perguntas a Cristo para tentá-lo e obter motivo para acusá-lo, mas nunca ficaram mais sábios.

Não surpreende que aqueles que buscam a sabedoria como Simão, o mago, buscou os dons do Espírito Santo, para servir ao próprio orgulho e à cobiça, não a encontrem, pois a buscam de modo errado. Herodes desejou ver um milagre, mas era escarnecedor e, por isso, esse desejo lhe foi negado, Lucas 23:8. Os escarnecedores não têm êxito na oração.

  1. Para os que compreendem corretamente e se afastam do mal, pois nisso consiste o entendimento, o conhecimento de Deus e da sua vontade é fácil. As parábolas que endurecem os escarnecedores em seu escárnio e tornam as coisas divinas mais difíceis para eles iluminam aqueles que querem aprender e lhes tornam as mesmas coisas mais claras, inteligíveis e familiares, Mateus 13:11, 15, 16.

A mesma palavra que para o escarnecedor é cheiro de morte para morte é, para o humilde e sério, cheiro de vida para vida. Quem entende a ponto de se afastar do mal, pois nisso consiste o entendimento, de abandonar seus preconceitos e deixar de lado todas as disposições e afeições corruptas, compreenderá facilmente a instrução e acolherá suas impressões.

Versículo 7

Veja aqui: 1. Como podemos discernir e reconhecer um tolo, um homem perverso, pois ele é insensato. Se não percebemos nele lábios que expressem conhecimento, se não encontramos sabor nem gosto de piedade em sua conversa, se tudo o que comunica é corrupto e corrompe, sem nada de bom ou útil para edificação, podemos concluir que o tesouro é mau.

  1. Como devemos evitar essa pessoa e afastar-nos dela: afaste-se de sua presença, pois você percebe que não há nada de bom a ganhar com sua companhia, mas há o perigo de sofrer dano. Às vezes, a única maneira de censurar uma conversa perversa e testemunhar contra ela é deixar a companhia e sair de onde se pode ouvi-la.

Versículo 8

Veja aqui: 1. A boa conduta de um homem sábio e bom: ele se conduz bem. Não se recomenda aqui a sabedoria dos eruditos, que consiste apenas em especulação, mas a sabedoria dos prudentes, que é prática e serve para dirigir nossos conselhos e ações.

A prudência cristã consiste em compreender corretamente nosso caminho, pois somos viajantes cujo interesse não é contemplar curiosidades, mas avançar rumo ao fim da viagem. É compreender nosso próprio caminho, sem criticar nem nos intrometer nos assuntos dos outros, mas vigiando a nós mesmos e ponderando a vereda de nossos pés.

Devemos compreender as orientações do caminho para segui-las; seus perigos, para evitá-los; suas dificuldades, para superá-las; e suas vantagens, para aproveitá-las. Devemos compreender as regras pelas quais andar e os fins para os quais caminhar, e então proceder de acordo. 2. A má conduta de um homem mau: ele prega um embuste a si mesmo.

Ele não compreende corretamente seu caminho; pensa que sim e, por isso, erra a direção e persiste no engano: a insensatez dos tolos é engano; ela os leva por embuste até levá-los à ruína. A insensatez daquele que construiu sobre a areia era engano.

Versículo 9

Veja aqui: 1. Como os ímpios se endurecem em sua perversidade: zombam do pecado. Fazem dos pecados alheios motivo de riso, divertindo-se com seus companheiros com aquilo que deveria levá-los a lamentar. Também tratam levianamente os próprios pecados, tanto quando são tentados quanto depois de cometê-los.

Chamam o mal de bem e o bem de mal (Isaías 5:20), descartam o assunto com uma piada, precipitam-se no pecado (Jeremias 8:6) e dizem que terão paz enquanto persistem nele. Não se importam com o dano que causam com seus pecados e riem daqueles que lhes falam disso. Defendem o pecado e são hábeis em inventar desculpas para ele.

Os insensatos zombam da oferta pelo pecado (assim interpretam alguns); os que tratam o pecado levianamente tratam Cristo da mesma maneira. São insensatos os que fazem pouco caso do pecado, pois fazem pouco caso de aquilo de que Deus se queixa (Amós 2:13), aquilo que pesou sobre Cristo e aquilo sobre o qual eles próprios, em breve, pensarão de outro modo.

  1. Como os bons são animados em sua bondade: entre os justos há favor; se erram em alguma coisa, imediatamente se arrependem e obtêm o favor de Deus. Também nutrem boa vontade uns para com os outros; em suas comunidades, diante das ofensas, há caridade e compaixão mútuas, sem zombaria.

Versículo 10

Isso concorda com 1 Coríntios 2:11: que pessoa conhece as coisas de outra pessoa e as mudanças de seu ânimo, senão o espírito dessa pessoa? 1. Cada um sente mais intensamente o próprio fardo, sobretudo o que pesa sobre seu espírito, pois este geralmente é ocultado e quem sofre o guarda para si.

Não devemos censurar as dores alheias, pois não sabemos o que os outros sentem; talvez a ferida seja mais profunda do que seu gemido. 2. Muitos desfrutam de um prazer secreto, especialmente nas consolações divinas, do qual os outros não têm conhecimento, muito menos participam.

Assim como as tristezas de quem se arrepende, as alegrias do crente são coisas em que o estranho não toma parte; por isso, ele não é juiz competente delas.

Versículo 11

Repare: 1. O pecado é a ruína das grandes famílias: a casa do ímpio, por mais forte e elevada que seja, será derrubada, reduzida à pobreza e à desonra e, por fim, extinta. Sua esperança de alcançar o céu, a casa em que se apoia, não resistirá; fracassará na tempestade, e o dilúvio que vier a levará embora.

  1. A justiça traz elevação e estabilidade até mesmo às famílias humildes: a tenda dos retos, embora móvel e desprezível como uma barraca, florescerá. Florescerá em prosperidade exterior, se a Sabedoria Infinita julgar bom, e, em qualquer caso, em graças e consolo, que são as verdadeiras riquezas e honras.

Versículo 12

Temos aqui um relato do caminho e do fim de muitas pessoas enganadas por si mesmas. 1. Seu caminho parece bom: parece certo a seus próprios olhos; agradam-se com a fantasia de que são como deveriam ser, de que suas opiniões e práticas são boas e capazes de sustentá-las.

O caminho da ignorância e do descuido, o caminho do mundanismo e da mentalidade terrena, o caminho da sensualidade e da satisfação da carne parecem certos aos que neles andam. Muito mais lhes parece certo o caminho da hipocrisia religiosa, das práticas exteriores, das reformas parciais e do zelo cego.

Imaginam que isso os levará ao céu; lisonjeiam-se aos próprios olhos, pensando que tudo acabará bem. 2. Seu fim é de fato terrível, tanto mais por causa do engano: são caminhos de morte, de morte eterna; sua iniquidade certamente será sua ruína, e perecerão com uma mentira na mão direita. Aqueles que enganam a si mesmos acabarão destruindo a si mesmos.

Versículo 13

Isso mostra a vaidade da alegria carnal e confirma o que Salomão disse do riso, que é loucura. Pois: 1. Há tristeza por trás dele. Às vezes, quando pecadores sentem a convicção de seus pecados ou passam por grande tribulação, disfarçam sua dor com uma alegria forçada e fazem boa cara, pois não querem dar a impressão de ceder: não choram quando Deus os ata.

Ou melhor, quando as pessoas estão realmente alegres, ainda assim há ao mesmo tempo algum amargor misturado à alegria, alguma coisa que a enfraquece e que toda a animação não consegue afastar do coração. A consciência lhes diz que não têm motivo para se alegrar (Oseias 9:1); não conseguem deixar de perceber a vaidade disso.

A alegria espiritual reside na alma; a do hipócrita vai apenas dos dentes para fora. Veja João 16:22; 2 Coríntios 6:10. 2. Depois dela vem algo pior: o fim dessa alegria é a tristeza. Ela logo passa, como o estalo dos espinhos debaixo de uma panela.

Se a consciência estiver desperta, toda alegria pecaminosa e profana será lembrada com amargura; se não estiver, a tristeza será ainda maior quando Deus trouxer o pecador a julgamento por todas essas coisas. As tristezas dos santos terminarão em alegrias eternas (Salmos 126:5), mas o riso dos tolos terminará em choro e pranto sem fim.

Versículo 14

O Justo e o Ímpio em Contraste.

Repare: 1. A miséria dos pecadores será uma saciedade eterna de seus pecados: o desviado de coração, que abandona a Deus e seu dever por medo de sofrer ou pela esperança de lucro ou prazer, se fartará de seus próprios caminhos; Deus lhe dará deles em abundância.

Não quiseram abandonar seus apetites grosseiros e suas paixões e, por isso, permanecerão presos a eles, para seu terror e tormento eternos. Quem é impuro continuará impuro. “Filho, lembra-te” os encherá de seus próprios caminhos e colocará seus pecados diante deles em ordem. O afastamento começa no coração; é o coração mau e incrédulo que se aparta de Deus.

Entre todos os pecadores, os desviados sentirão o maior terror ao refletir sobre seus próprios caminhos, Lucas 11:26. 2. A felicidade dos santos será uma satisfação eterna em suas graças, sinais do favor especial de Deus e qualificações para recebê-lo: o homem bom ficará abundantemente satisfeito consigo mesmo, com o que Deus realizou nele.

Ele tem motivo de alegria somente em si mesmo, Gálatas 6:4. Assim como os pecadores nunca acham que têm pecado suficiente até que ele os leve ao inferno, os santos nunca acham que têm graça suficiente até que ela os leve ao céu.

Versículo 15

Repare: 1. É insensatez ser crédulo: dar atenção a todo boato passageiro, ouvir a história de qualquer pessoa por mais improvável que seja, aceitar as coisas com base apenas na fama comum, confiar na profissão de amizade de qualquer um e dar crédito a todos os que prometem pagar. São simples os que assim acreditam em toda palavra.

Esquecem-se de que todos os seres humanos, em certo sentido, são mentirosos em comparação com Deus, em todas cujas palavras devemos crer sem reservas, pois ele não pode mentir. 2. É sábio ser cauteloso: o prudente examinará antes de confiar; avaliará tanto a credibilidade da testemunha quanto a probabilidade do testemunho.

Então julgará conforme o que se mostrar evidente ou suspenderá o juízo até que fique claro. Examine todas as coisas e não creia em qualquer espírito.

Versículo 16

Repare: 1. O santo temor é uma excelente proteção de tudo o que é santo e contra tudo o que é profano. É sábio afastar-se do mal, do mal do pecado e, assim, de todos os outros males. Por isso, é sábio temer, ou seja, vigiar a nós mesmos com santo zelo, conservar o temor da cólera de Deus e recear chegar perto dos limites do pecado ou brincar com seus primeiros passos.

O sábio, por medo de sofrer prejuízo, mantém-se fora do caminho do prejuízo e recua assustado ao perceber que está entrando em tentação. 2. A presunção é insensatez. Aquele que, ao ser avisado do perigo, se enfurece e se mostra confiante, avança furiosamente, não suporta ser contido e desafia a cólera e a maldição de Deus, é insensato.

Sem temer o perigo, persiste em sua rebelião, toma liberdades com as ocasiões de pecado e brinca à beira do precipício; age contra sua razão e seus interesses, e sua ruína logo provará sua insensatez.

Versículo 17

Repare: 1. É justo que se ria dos homens dominados pelas paixões. Os irritadiços e melindrosos, que se zangam rapidamente à menor provocação, agem de modo insensato; dizem e fazem coisas ridículas e, assim, expõem-se ao desprezo. Eles próprios não podem deixar de sentir vergonha quando o calor da ira passa.

Pensar nisso deve levar especialmente os que são conhecidos pela sabedoria e pela honra a refrear suas paixões com o máximo zelo. 2. É justo que os homens maliciosos sejam temidos e detestados, pois são muito mais perigosos e danosos para todo convívio.

O homem de maquinações perversas, que sufoca o ressentimento até ter ocasião de vingar-se e trama secretamente como prejudicar o próximo e fazer-lhe mal, como Caim para matar Abel, é odiado por toda a humanidade. O temperamento do homem irado desperta pena: surpreendido por uma tentação, ele perturba e envergonha a si mesmo, mas logo passa e ele se arrepende.

Já o homem rancoroso e vingativo é detestável; não há defesa contra ele nem remédio para ele.

Versículo 18

Repare: 1. O pecado é a vergonha dos pecadores: os simples, que amam a simplicidade, nada ganham com isso; herdam a insensatez. Segundo alguns, recebem-na por herança. Essa corrupção da natureza vem dos nossos primeiros pais, e herdamos, por nossa condição natural, todas as calamidades que a acompanham. Foi a herança que transmitiram à descendência degenerada, uma doença hereditária.

Apegam-se a ela como alguém à própria herança, agarram-na firmemente e relutam em abandoná-la. Aquilo de que se orgulham é de fato insensato; e que resultará de sua simplicidade senão insensatez? Lamentarão para sempre sua própria escolha insensata.

  1. A sabedoria é a honra dos sábios: os prudentes coroam a si mesmos com conhecimento, consideram-no seu ornamento mais brilhante e nada ambicionam tanto quanto ele. Prendem-no à cabeça como uma coroa, da qual de modo algum querem abrir mão; avançam em direção ao auge e à perfeição do conhecimento, que coroará seus primeiros esforços e seu progresso.

Receberão louvor por ele; as cabeças sábias serão respeitadas como se fossem cabeças coroadas. Eles coroam o conhecimento (assim interpretam alguns); honram sua profissão. A sabedoria não é apenas justificada, mas também glorificada por todos os seus filhos.

Versículo 19

Isto significa: 1. Os ímpios muitas vezes empobrecem e são humilhados a ponto de serem obrigados a mendigar, pois sua perversidade os reduziu à necessidade. Ao passo que os bons, pela bênção de Deus, enriquecem, podem dar e de fato dão até aos maus; pois, onde Deus concede vida, não devemos negar os meios de subsistência.

  1. Às vezes, Deus arranca até dos maus o reconhecimento da excelência de seu povo. Os maus sempre deveriam curvar-se diante dos bons; às vezes são levados a fazê-lo e a reconhecer que Deus os amou, Apocalipse 3:9. Desejam seu favor (Ester 7:7) e suas orações, 2 Reis 3:12.

  2. Virá o dia em que os retos exercerão domínio (Salmos 49:14), quando as virgens insensatas pedirão azeite às prudentes e baterão em vão à porta do Senhor pela qual os justos entraram.

Versículo 20

Isto mostra não o que deveria ser, mas o que costuma acontecer no mundo: evita-se o pobre e bajula-se o rico. 1. Poucos apoiarão aqueles para quem o mundo olha com desaprovação, ainda que mereçam respeito em outros aspectos. O pobre, que deveria receber compaixão, ânimo e socorro, é odiado, tratado como estranho e mantido à distância.

Até seu vizinho, que antes de sua queda era íntimo dele e alegava ter-lhe afeição, age assim. A maioria dos amigos é como as andorinhas, que partem no inverno. É bom ter Deus como amigo, pois ele não nos abandonará quando formos pobres.

  1. Todos farão a corte aos que recebem os sorrisos do mundo, ainda que não sejam dignos em outros aspectos: os ricos têm muitos amigos, amigos de suas riquezas, na esperança de obter algo deles. Pouca amizade existe no mundo que não seja governada pelo interesse próprio; essa não é amizade verdadeira, nem algo de que o sábio se orgulhe ou em que confie.

Aqueles que fazem do mundo seu deus idolatram os que possuem a maior quantidade de seus bens e buscam seu favor como se fossem de fato os favoritos do Céu.

Versículo 21

Veja aqui como o caráter e a condição das pessoas são avaliados e julgados por sua conduta para com os vizinhos pobres. 1. Aqueles que os olham com desprezo recebem aqui um mau caráter, e sua condição corresponderá a ele.

Quem despreza o próximo por sua posição humilde no mundo, por sua origem modesta, educação rústica e aparência simples, quem julga indigno de si reparar nele, ter comunhão com ele ou importar-se com ele e o põe no mesmo nível dos cães de seu rebanho, é pecador. Comete pecado, está a caminho de coisas piores e será tratado como pecador; infeliz é esse homem.

  1. Aqueles que os olham com compaixão são aqui apresentados em boa condição, de acordo com seu caráter. Feliz é quem tem misericórdia do pobre, dispõe-se a prestar-lhe todos os serviços possíveis e, com isso, o honra.

Faz o que agrada a Deus e do que mais tarde se lembrará com grande satisfação; por isso os lombos dos pobres o bendirão, e ele receberá abundante recompensa na ressurreição dos justos.

Versículo 22

Veja aqui: 1. Como estão terrivelmente enganados os que não apenas praticam o mal, mas o planejam: acaso não erram? Sim, certamente erram; todos sabem disso. Pensam que, pecando com astúcia e maquinação e conduzindo suas intrigas com mais trama e artifício que os outros, tirarão mais proveito dos pecados e escaparão em melhores condições.

Mas estão enganados. Ninguém pode vencer a justiça de Deus em astúcia. Os que planejam o mal contra o próximo erram gravemente, pois esse mal certamente se voltará contra eles e terminará em sua própria ruína: um erro fatal!

  1. Como olham sabiamente por seu próprio interesse os que não apenas fazem o bem, mas o planejam: misericórdia e verdade lhes serão concedidas, não como pagamento de uma dívida, pois reconhecerão que não merecem coisa alguma, mas como recompensa de misericórdia, pura misericórdia, conforme a promessa. É misericórdia e verdade, pelas quais Deus se agrada em tornar-se seu devedor.

Os que são tão generosos que planejam atos generosos, buscam oportunidades de fazer o bem e maquinam maneiras de tornar sua caridade tão ampla e tão bem recebida quanto possível por aqueles que dela precisam, permanecerão de pé por seus atos generosos, Isaías 32:8.

Versículo 23

Repare: 1. Trabalhar, sem ficar falando, enriquecerá as pessoas: todo trabalho, intelectual ou manual, traz proveito; produzirá algum bom resultado. As pessoas diligentes geralmente prosperam, e onde se faz alguma coisa, há algo a obter. A mão ativa ganha seu dinheiro.

Por isso, é bom manter-se ocupado e em atividade, e fazer com todas as forças o que vier às nossas mãos. 2. Falar, sem trabalhar, empobrecerá as pessoas. Os que gostam de alardear seus negócios e fazer barulho a respeito deles, desperdiçando tempo em mexericos, contando e ouvindo novidades, como os atenienses, encaminham-se à pobreza.

Sob o pretexto de aprimorar-se pela conversa, negligenciam o trabalho próprio de sua posição e de cada dia; desperdiçam o que têm, e o caminho que seguem leva à penúria e nela terminará. Isso também é verdade quanto aos assuntos da alma: aqueles que se empenham no serviço de Deus e contendem fervorosamente em oração encontrarão proveito nisso.

Mas, se a religião de alguém se reduz a conversa e barulho, e sua oração é apenas trabalho dos lábios, essa pessoa será espiritualmente pobre e não chegará a nada.

Versículo 24

Observe: 1. Se as pessoas são sábias e boas, a riqueza as torna ainda mais honradas e úteis: a coroa dos sábios são suas riquezas; elas lhes trazem maior respeito e lhes dão mais autoridade e influência sobre os outros. Aqueles que têm riquezas e sabedoria para usá-las terão grande oportunidade de honrar a Deus e fazer o bem no mundo.

A sabedoria é boa sem herança, mas melhor com ela. 2. Se as pessoas são perversas e corruptas, sua riqueza apenas as exporá ainda mais: a insensatez dos tolos, seja qual for sua condição, continua sendo insensatez e acabará por se revelar e envergonhá-los. Se têm riquezas, usam-nas para causar dano e se endurecem ainda mais em suas práticas insensatas.

Versículo 25

Veja aqui: 1. Quanto louvor merece uma testemunha fiel: ela livra as almas dos inocentes falsamente acusados e protege o bom nome deles, que lhes é tão precioso quanto a própria vida. Uma pessoa íntegra se arriscará a desagradar aos mais poderosos para trazer a verdade à luz e socorrer os injuriados pela falsidade.

Um ministro fiel, que, na verdade, dá testemunho de Deus contra o pecado, torna-se, assim, instrumento para livrar almas da morte eterna. 2. Quão pouca consideração se deve ter por uma falsa testemunha: ela fabrica mentiras e as derrama com a maior segurança imaginável para destruir inocentes.

Por isso, é do interesse de uma nação descobrir e punir por todos os meios possíveis o falso testemunho e, sim, também as mentiras nas conversas comuns, pois a verdade é o cimento do convívio.

Versículos 26 a 27

Nestes dois versículos, somos convidados e animados a viver no temor de Deus pelas vantagens que acompanham uma vida religiosa. O temor do Senhor representa aqui todos os princípios da graça que produzem práticas piedosas. 1. Onde ele reina, produz santa segurança e serenidade de espírito.

Nele há forte confiança; capacita a pessoa a conservar continuamente tanto a pureza quanto a paz, aconteça o que acontecer, e lhe dá ousadia diante de Deus e do mundo. “Sei que serei justificado”; “Nenhuma destas coisas me abala”: tal é a linguagem dessa confiança.

  1. Ela deixa uma bênção à posteridade. Os filhos daqueles que, pela fé, fazem de Deus sua confiança serão animados pela promessa de que Deus será o Deus dos crentes e de seus descendentes a recorrer a ele como refúgio, e nele encontrarão abrigo. Os filhos de pais religiosos muitas vezes se beneficiam das instruções e do exemplo deles e vivem melhor por sua fé e suas orações.

“Nossos pais confiaram em ti; por isso, nós também confiaremos.” 3. Ela é uma fonte transbordante e inesgotável de consolo e alegria; uma fonte de vida que proporciona prazer e satisfação constantes à alma. Suas alegrias são puras e renovadas, dão vida à alma, saciam sua sede e nunca se esgotam.

É um poço de água viva que jorra para a vida eterna e é sua garantia antecipada. 4. É antídoto soberano contra o pecado e a tentação. Aqueles que realmente apreciam os prazeres da piedade sincera não se deixarão seduzir pelas iscas do pecado a ponto de engolir seu anzol.

Sabem onde encontrar coisas melhores que tudo o que o pecado possa alegar oferecer; por isso, é fácil para eles afastar-se dos laços da morte e impedir que seus pés sejam apanhados por eles.

Versículo 28

Aqui estão duas máximas políticas cuja verdade é evidente: 1. Que é grande honra para um rei ter um reino populoso; isso mostra que ele governa bem, pois os estrangeiros se sentem convidados a vir estabelecer-se sob sua proteção e seus próprios súditos vivem confortavelmente.

É sinal de que ele e seu reino estão sob a bênção de Deus, cujo efeito é a fecundidade e a multiplicação. O povo é sua força e o torna importante e temível. Feliz o rei, pai de seu país, que tem sua aljava cheia de flechas; não será envergonhado, mas falará com o inimigo à porta, Salmos 127:4-5.

Por isso, é sábio que os príncipes promovam o crescimento do povo mediante um governo brando e gentil, o incentivo ao comércio e à lavoura e a criação de condições de vida favoráveis para todos. Que todos os que desejam o bem do reino de Cristo e sua honra façam, em suas posições, tudo o que puderem para que muitos sejam acrescentados à sua igreja.

  1. Que, quando o povo diminui, o príncipe enfraquece: na falta de povo está a magreza do príncipe (assim interpretam alguns). O comércio fica paralisado, a terra inculta, o exército carece de novos soldados e a marinha, de tripulação, tudo porque faltam braços suficientes.

Veja quanto a honra e a segurança dos reis dependem de seu povo; essa é uma razão para governarem com amor, não com rigor. Os príncipes são corrigidos pelos juízos que reduzem o número de pessoas, como vemos em 2 Samuel 24:13.

Versículo 29

Repare: 1. A mansidão é sabedoria. Compreende corretamente a si mesmo, seu dever e seus interesses, as fraquezas da natureza humana e a constituição da sociedade aquele que demora a irar-se. Ele sabe desculpar as faltas alheias assim como as próprias, adiar o ressentimento e moderá-lo, para que provocação alguma o faça perder o domínio da própria alma.

O homem brando e paciente deve ser considerado verdadeiramente inteligente, alguém que aprende de Cristo, a própria Sabedoria. 2. A paixão desenfreada é insensatez proclamada: quem tem espírito precipitado e coração pronto a inflamar-se com qualquer faísca de provocação, quem é todo fogo e estopa, como dizemos, pensa com isso engrandecer-se e inspirar temor aos que o cercam.

Na verdade, porém, exalta sua própria insensatez, tornando-a conhecida, assim como tudo o que é elevado fica visível para todos, e submete-se a ela como ao governo de alguém exaltado.

Versículo 30

O versículo anterior mostrou quanto nossa reputação depende do bom governo das paixões; este mostra quanto nossa saúde depende disso e de preservar o equilíbrio do espírito. 1. Um espírito que cura, feito de amor e mansidão, uma disposição cordial, amistosa e alegre, é vida para a carne; contribui para uma boa constituição física. As pessoas até ganham corpo com o bom humor.

  1. Um espírito irritadiço, invejoso e descontente é seu próprio castigo: consome a carne, corrói as forças vitais, empalidece o rosto e é podridão para os ossos. Os que veem a prosperidade dos outros e se entristecem, que rangam os dentes e definhem, Salmos 112:10.

Rumpatur, quisquis rumpitur invidia.

Versículo 31

Quem Rebenta de Inveja, Que Rebente.

Deus se agrada em interessar-se pelo tratamento dado aos pobres mais do que imaginaríamos. 1. Considera-se afrontado pelas injúrias feitas contra eles. Quem quer que prejudique um pobre, aproveitando-se do fato de que é pobre e não pode defender-se, saiba que afronta seu Criador.

Deus o fez e lhe deu a existência, o mesmo Deus que é autor da nossa existência; todos temos um só Pai, um só Criador. Veja como Jó considerou isso, Jó 31:15. Deus o fez pobre e designou sua condição; assim, se tratamos alguém duramente por ser pobre, insinuamos que Deus o rebaixou cruelmente para que fosse pisoteado.

  1. Deus considera as bondades feitas aos pobres como honra prestada a si mesmo; recebe-as como se lhe fossem feitas e manifestará seu agrado por elas. Tive fome, e vocês me deram de comer. Portanto, aqueles que realmente honram a Deus demonstrarão isso por sua compaixão pelos pobres, aos quais ele se comprometeu a proteger e amparar de maneira especial.

Versículo 32

Aqui estão: 1. A condição desesperadora do ímpio quando deixa o mundo: ele é expulso em sua perversidade. Apega-se tão firmemente ao mundo que não encontra disposição no coração para deixá-lo, mas dele é expulso; sua alma é exigida, arrancada à força. O pecado também se apega a ele tão firmemente que é inseparável e o acompanha ao outro mundo.

Ele é expulso em sua perversidade, morre em seus pecados, sob a culpa e o poder deles, sem justificação nem santificação. Sua perversidade é a tempestade que o arrebata como palha diante do vento, expulsando-o do mundo.

  1. A condição consoladora do piedoso quando termina sua carreira: ele tem esperança na morte de alcançar felicidade depois dela, coisas melhores no outro mundo do que jamais teve neste.

Os justos, então, têm em si a graça da esperança; embora sintam dor e certo temor da morte, ainda têm esperança. Diante deles está o bem esperado, a bendita esperança prometida por Deus, que não pode mentir.

Versículo 33

Observe: 1. A modéstia é a marca da sabedoria. Quem é, na verdade, sábio esconde seu tesouro para não se vangloriar dele (Mateus 13:44), embora não esconda seu talento a ponto de deixar de empregá-lo. A sabedoria repousa em seu coração; ele assimila o que sabe e o tem sempre à disposição, mas não fala disso fora de hora nem faz alarde.

O coração é a sede das afeições, e ali a sabedoria deve repousar no amor prático por ela, em vez de apenas flutuar na mente. 2. A exibição e a ostentação são sinal de insensatez. Se os insensatos possuem um conhecimento superficial, aproveitam toda ocasião, mesmo quando não vem ao caso, para mostrá-lo e inseri-lo à força na conversa.

Ou a insensatez que está no íntimo dos insensatos se torna conhecida por sua pressa em falar. Muitos insensatos se esforçam mais para exibir sua insensatez do que os sábios julgam valer a pena esforçar-se para exibir sua sabedoria.

Versículo 34

Repare: 1. A justiça, quando reina numa nação, confere-lhe honra. A administração justa do governo, a equidade imparcial entre as pessoas, o apoio público à religião, a prática e a profissão gerais da virtude, a proteção e a preservação dos virtuosos e a caridade e a compaixão para com os estrangeiros (as esmolas às vezes são chamadas de justiça) exaltam uma nação.

Essas coisas sustentam o trono, elevam o espírito do povo e tornam a nação apta a receber o favor de Deus, que a engrandecerá como nação santa, Deuteronômio 26:19. 2. O vício, quando reina numa nação, traz-lhe desonra: o pecado é descrédito para qualquer cidade ou reino e os torna desprezíveis entre os vizinhos.

Os israelitas frequentemente exemplificaram ambos os lados desta observação: eram grandes quando eram bons, mas, quando abandonaram a Deus, todos ao redor os insultaram e pisotearam. Por isso, é do interesse e do dever dos príncipes usar seu poder para reprimir o vício e apoiar a virtude.

Versículo 35

Isto mostra que, numa corte e num governo bem organizados, o apreço e os favores são distribuídos àqueles que ocupam cargos públicos segundo seus méritos; Salomão lhes faz saber que seguirá esta regra: 1. Que aqueles que se conduzirem sabiamente serão respeitados e promovidos, quaisquer que sejam os inimigos que tentem arruiná-los.

Os serviços de ninguém serão ignorados para agradar a uma facção ou a um favorito. 2. Que aqueles que forem egoístas e falsos, que traírem seu país, oprimirem os pobres e semearem discórdia, causando assim vergonha, serão destituídos e banidos da corte, por mais amigos que consigam para interceder por eles.


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