Provérbios 12
Versículo 1
Vantagens dos Justos.
Aqui nos é ensinado a verificar se temos graça ou não, examinando nossa atitude diante dos meios da graça. 1. Os que têm graça e a amam terão prazer em todas as instruções recebidas como conselho, advertência ou censura, pela palavra ou pela providência de Deus.
Darão valor a uma boa educação e considerarão felicidade, não agrura, estar sob disciplina rigorosa e prudente. Os que amam um ministério fiel, dão-lhe valor e o ouvem com prazer demonstram que amam o conhecimento.
- Mostram-se desprovidos não só de graça, mas de bom senso, os que consideram ofensa ouvir falar de suas faltas e restrição de sua liberdade serem lembrados de seu dever. Quem odeia a censura não é apenas insensato, mas grosseiro, como o cavalo e a mula sem entendimento ou o boi que dá coices contra o aguilhão.
São esses os grosseiros de que se fala aqui: os que desejam viver em famílias e comunidades sem disciplina, onde não sejam refreados, sufocam as convicções da própria consciência e consideram seus inimigos aqueles que lhes dizem a verdade.
Versículo 2
Repare: 1. Somos, na realidade, aquilo que somos diante de Deus. Felizes, verdadeiramente felizes e felizes para sempre são os que obtêm o favor do Senhor, ainda que o mundo os olhe com desaprovação e encontrem pouco favor entre os homens. No favor de Deus está a vida, fonte de todo bem.
Em contrapartida, são miseráveis aqueles que ele condena, por mais que os homens os aplaudam e exaltem. Aos que condena, ele condena à segunda morte.
- Somos diante de Deus aquilo que somos diante dos homens, conforme nossa conduta neste mundo. Nosso Pai julga seus filhos em grande medida pela maneira como tratam uns aos outros. Por isso, o homem bom, misericordioso e caridoso, que faz o bem, alcança o favor do Senhor por meio de suas orações.
O homem malicioso, porém, que maquina perversidade contra seus vizinhos, será condenado por Deus como indigno de um lugar em seu reino.
Versículo 3
Repare: 1. Embora os homens possam elevar-se por meios pecaminosos, não conseguem por esses meios estabelecer-se nem assegurar sua posição. Ainda que adquiram grandes propriedades, não conseguem obter as que permanecerão: “O homem não será estabelecido pela perversidade”. Ela pode colocá-lo em lugares altos, mas são lugares escorregadios, Salmos 73:18.
A prosperidade edificada pelo pecado está construída sobre a areia, e assim logo ficará evidente.
- Embora os homens bons possam ter apenas poucos bens neste mundo, ainda assim esse pouco durará, e o que se ganha honestamente resiste ao tempo: “A raiz dos justos não será removida”, embora seus ramos possam ser sacudidos.
Os que pela fé estão enraizados em Cristo estão firmemente estabelecidos. Nele, seu consolo e sua felicidade têm raízes tão profundas que nunca serão arrancadas.
Versículo 4
Repare: 1. O homem abençoado com uma boa esposa é tão feliz quanto se estivesse no trono, pois ela é nada menos que uma coroa para ele. A mulher virtuosa é piedosa e prudente, hábil e trabalhadora, ativa em favor da família e atenta aos caminhos de sua casa. Cumpre conscienciosamente seu dever em cada relação.
É mulher de ânimo, capaz de suportar adversidades sem se perturbar. Reconhece o marido como seu cabeça; por isso, é coroa para ele. Não só lhe dá reputação e honra, como a coroa serve de ornamento, mas sustenta e mantém sua autoridade na família, como a coroa é insígnia de poder. É submissa e fiel a ele e, por seu exemplo, ensina os filhos e servos dele a ser assim também.
- O homem afligido por uma esposa má é tão miserável quanto se estivesse sobre um monte de esterco. Ela não é melhor que podridão em seus ossos, doença incurável, além de causar-lhe vergonha. A esposa tola e preguiçosa, esbanjadora e dissoluta, irritadiça e maldizente arruína tanto a reputação quanto o consolo de seu marido.
Quando sai de casa, ele anda de cabeça baixa, pois as faltas da esposa lhe trazem descrédito. Quando se recolhe em si mesmo, seu coração se abate. Está continuamente inquieto; é uma aflição que lhe consome muito as forças interiores.
Versículo 5
Repare: 1. A palavra de Deus discerne e julga os pensamentos e as intenções do coração. Erramos ao imaginar que os pensamentos são livres. Não: estão sob o conhecimento de Deus e, portanto, sob seus mandamentos.
- Devemos observar os pensamentos e as intenções do nosso próprio coração e julgar-nos por eles. São os primogênitos da alma e trazem sua imagem menos disfarçada. Os pensamentos retos são as melhores provas de que alguém é justo, assim como nada demonstra com maior certeza a perversidade de um homem do que suas maquinações e seus desígnios maus.
O homem bom pode ter sugestões ruins na mente, mas não as alimenta nem abriga até amadurecerem em projetos e resoluções malignos.
- É honroso ter intenções honestas e pensamentos retos, ainda que uma palavra ou ação esteja fora de lugar, ocorra fora de hora ou, pelo menos, seja mal interpretada. É vergonhoso, porém, estar sempre à espreita de uma oportunidade, agir com engano, artimanha e desígnio, buscando não apenas alcançar longe, mas passar alguém para trás.
Versículo 6
No versículo anterior foram comparados os pensamentos dos perversos e dos justos; aqui se comparam suas palavras, que revelam a abundância do coração.
Os perversos falam para causar dano aos seus vizinhos. São de fato perversos aqueles cujas palavras armam emboscada para derramar sangue. Sua língua é espada contra os que estão em seu caminho, contra os homens bons a quem odeiam e perseguem. Veja um exemplo em Lucas 20:20, 21.
Os homens bons falam para ajudar os seus vizinhos. A boca dos retos está pronta a abrir-se em favor dos oprimidos (Provérbios 31:8), para defendê-los, testemunhar em seu favor e, assim, libertá-los, especialmente aqueles contra os quais os perversos armam emboscadas. Às vezes, uma única boa palavra permite realizar uma obra muito boa.
Versículo 7
Aqui aprendemos, como antes (v. 3; Provérbios 10:25, 30): 1. Que o triunfo dos perversos é breve. Podem ser elevados por algum tempo, mas logo são derrubados e deixam de existir. Sua aflição acaba por derrubá-los; os que faziam grande ostentação desaparecem, e seu lugar não os conhece mais.
Derrubem os perversos, e eles já não existem. Estão em lugar tão escorregadio que o menor toque da aflição os derruba, como as maçãs de Sodoma: parecem belas, mas, ao tocá-las, desfazem-se em pó.
- Que a prosperidade dos justos tem fundamento sólido e durará. A morte os levará, mas sua casa permanecerá de pé, suas famílias serão preservadas e a geração dos retos será abençoada.
Versículo 8
Aqui somos informados de onde esperar um bom nome. A maioria das pessoas preza muito a reputação e a considera de grande importância. Ora, é certo que:
A melhor reputação acompanha a virtude, a piedade sincera e a conduta prudente. Um homem será elogiado por todos os sábios e bons, de acordo com o juízo do próprio Deus, que sabemos ser verdadeiro. Isso não ocorre por causa de suas riquezas ou cargos, astúcia ou sutileza, mas segundo sua sabedoria, a honestidade de seus desígnios e a escolha prudente dos meios para realizá-los.
O pior descrédito é o que acompanha a perversidade e a oposição ao bem. O homem de coração perverso, que se desvia por caminhos tortuosos e neles segue obstinadamente, será desprezado. A Providência o levará à pobreza e ao desprezo; todos os que têm verdadeiro senso de honra o desprezarão como indigno de trato e incapaz de merecer confiança, uma mancha e vergonha para a humanidade.
Versículo 9
Repare: 1. É insensatez de alguns ambicionar grande destaque fora de casa, assumir precedência e ostentar importância como pessoas de posição, enquanto lhes faltam em casa as coisas necessárias. Se pagassem as dívidas, não lhes restaria sequer um pedaço de pão. Ou melhor, talvez passem fome para vestir-se com luxo e parecer muito elegantes, porque belas penas fazem belas aves.
- A condição e o caráter daqueles que se contentam com posição mais modesta são melhores em todos os aspectos. São desprezados pela simplicidade das roupas e pela humildade do cargo, mas conseguem prover em casa não apenas o necessário, como também certas comodidades: não só pão, mas um servo que os atenda e lhes alivie parte do trabalho.
Os que maquinam viver com abundância e conforto em casa devem ser preferidos aos que desejam acima de tudo parecer esplêndidos em público, embora não tenham recursos para sustentar essa aparência e seu coração permaneça orgulhoso mesmo quando sua condição é humilde.
Versículo 10
Veja aqui: 1. Até que ponto vai a misericórdia de um homem bom. Ele se compadece não só da natureza humana em sua maior humilhação, mas se importa até com a vida de seu animal. Faz isso não apenas porque o animal o serve, mas porque é criatura de Deus, em conformidade com a Providência que preserva homens e animais.
Os animais sob nosso zelo devem ser providos do necessário e receber alimento adequado e descanso; em nenhum caso devemos maltratá-los ou tratá-los com tirania. Balaão foi censurado por bater em sua jumenta. A lei cuidava dos bois.
São injustos, portanto, os homens que não tratam com justiça as criaturas irracionais. Os que se mostram violentos e bárbaros com elas revelam e reforçam em si mesmos o hábito da barbaridade, além de contribuírem para que a criação gema, Romanos 8:22.
- Até que ponto vai a falta de misericórdia de um homem perverso. Até suas ternas misericórdias são cruéis. A compaixão natural que possui como ser humano se perde e, pela força da corrupção, transforma-se em dureza de coração.
Até aquilo que querem fazer passar por compaixão é, na realidade, cruel, como a decisão de Pilatos acerca do Cristo inocente: “Eu o castigarei e o soltarei”. Suas bondades alegadas não passa de cobertura para crueldades deliberadas.
Versículo 11
Repare: 1. É sábio cuidar dos próprios negócios e exercer uma ocupação honesta, pois esse é o caminho para obter sustento com a bênção de Deus. Quem cultiva sua terra, seja o dono dela ou seu ocupante, persevera no trabalho e se dispõe a se esforçar.
Mesmo que não acumule uma fortuna com isso — e que necessidade há de fazê-lo? —, ainda assim terá pão suficiente e alimento adequado para si e para sua família, o bastante para arcar confortavelmente com as despesas da vida.
Até a sentença de cólera contém essa misericórdia: “Comerás pão”, embora seja “com o suor do teu rosto”. A Caim isso foi negado, Gênesis 4:12. Mantenha-se ocupado: esse é o verdadeiro caminho para viver com tranquilidade. Cuide da sua loja, e ela cuidará de você. “Comerás do trabalho das tuas mãos.”
- É insensatez negligenciar os próprios negócios. Os que agem assim são desprovidos de entendimento, pois passam a conviver com companheiros ociosos e a acompanhá-los em suas práticas más. Acabam sem pão, pelo menos sem pão ganho por si mesmos, e se tornam um peso para os outros, tirando-lhes o alimento da boca.
Versículo 12
Veja aqui: 1. O interesse e o objetivo do homem perverso: ele quer causar dano. Deseja a rede dos homens maus. “Quem me dera ser tão astuto quanto aquele homem para lucrar às custas daqueles com quem negocio! Quem me dera ter sua arte de enganar e poder vingar-me de alguém a quem odeio com a mesma eficácia que ele!”
Deseja o reduto, ou fortaleza, dos homens maus (segundo outra leitura), para agir com segurança enquanto causa dano, sem que este se volte contra ele.
- O interesse e o objetivo do homem bom: sua raiz produz fruto, dá-lhe força e estabilidade, e é isso que ele deseja. Quer fazer o bem e permanecer firme e constante nessa prática. O perverso deseja apenas uma rede com a qual pescar para si; o justo deseja produzir fruto para o benefício de outros e para a glória de Deus, Romanos 14:6.
Versículo 13
A Verdade e a Falsidade.
Veja aqui: 1. Os perversos se enredam em dificuldades por sua insensatez quando Deus, em sua justiça, os entrega a si mesmos. Muitas vezes são apanhados pela transgressão de seus lábios, e a própria língua lhes corta a garganta.
Ao falar mal das autoridades, expõem-se à justiça pública. Ao empregar linguagem ofensiva, ficam sujeitos a ressentimentos particulares, são processados por difamação e enfrentam ações judiciais pelas palavras que disseram.
Muitos homens pagaram caro neste mundo pela transgressão de seus lábios e sentiram o açoite nas costas por não terem posto freio na língua, Salmos 64:8.
- Os justos conseguem livrar-se das dificuldades por sua própria sabedoria quando Deus, em sua misericórdia, vem socorrê-los. O justo sairá das dificuldades nas quais os perversos se lançam precipitadamente. Isso indica que os justos talvez enfrentem dificuldades; mas, ainda que caiam, não serão lançados abaixo por completo, Salmos 37:24.
Versículo 14
Para nos animar a toda boa palavra e obra, recebemos aqui a garantia: 1. Que até as boas palavras trarão bom retorno (v. 14). “Um homem será satisfeito com o bem” — isto é, obterá consolo presente, o prazer interior que na verdade satisfaz — “pelo fruto de sua boca”, pelo bem que faz com suas conversas piedosas e seus conselhos prudentes.
Enquanto ensinamos outros, nós mesmos podemos aprender e alimentar-nos do pão da vida que repartimos com eles.
- Que as boas obras, ainda mais, serão abundantemente recompensadas. O pagamento das mãos de um homem por toda a sua obra e pelo trabalho do seu amor, tudo o que fez para a glória de Deus e o bem de sua geração, lhe será devolvido; ele colherá o que semeou. Ou pode-se entender a regra geral de justiça: Deus retribuirá a cada um segundo sua obra, Romanos 2:6.
Versículo 15
Veja aqui: 1. O que impede o insensato de tornar-se sábio: seu caminho é reto aos próprios olhos. Ele julga estar certo em tudo que faz e, por isso, não pede conselho, pois não acredita precisar dele. Confia que conhece o caminho e que não pode errá-lo; por isso, nunca pergunta qual é o caminho.
Sua regra é fazer o que parece certo aos seus próprios olhos e andar no caminho de seu coração. Quicquid libet, licet — Ele faz de sua vontade sua lei. É insensato quem se guia por seu olho, não pela consciência.
- O que impede o sábio de tornar-se insensato: ele se dispõe a ouvir conselhos, deseja recebê-los e lhes dá atenção, desconfiando de seu próprio juízo e valorizando a orientação de pessoas sábias e boas. É sábio — isso mostra que é e provavelmente continuará a ser — aquele cujos ouvidos estão sempre abertos a bons conselhos.
Versículo 16
Repare: 1. A paixão é insensatez: o insensato é conhecido por sua ira (segundo algumas leituras). Não que o sábio não possa ficar irado quando há motivo justo; nesse caso, porém, ele mantém a ira sob controle e direção. É senhor da própria ira, ao passo que a ira do insensato é senhora dele.
Quem, ao ser provocado, explode em expressões indecorosas, por palavras ou gestos, cuja paixão altera a fisionomia, torna-o descontrolado e o leva a esquecer-se de si mesmo, certamente se chama Nabal, e a insensatez está com ele.
A indignação do insensato é conhecida no dia; ele a proclama abertamente em qualquer companhia. Ou se torna conhecida no dia em que é provocado: ele não consegue adiar a manifestação de seus ressentimentos. Os que se iram facilmente e logo se inflamam com a menor centelha não exercem sobre seu espírito o domínio que deveriam exercer.
- A mansidão é sabedoria: “O prudente encobre a vergonha”. (1.) Encobre a paixão que há em seu próprio peito. Quando seu espírito se agita e seu coração se aquece, ele mantém a boca como que sob freio e reprime seus ressentimentos, abafando-os e sufocando-os.
A ira é vergonha. Embora o sábio não esteja inteiramente livre dela, ainda assim envergonha-se dela, repreende-a e não permite que o espírito mau fale.
(2.) Ele encobre a provocação que recebeu e a indignidade sofrida; fecha os olhos para ela e a oculta de si mesmo quanto possível, para não levar longe demais seus ressentimentos. É bondade para conosco e contribui para o repouso da nossa própria mente atenuar e desculpar as injúrias e afrontas que recebemos, em vez de agravá-las e interpretá-las do pior modo, como costumamos fazer.
Versículo 17
Aqui temos: 1. O elogio da testemunha fiel como pessoa honesta. Quem faz questão de consciência de falar a verdade e apresentar tudo com justiça, segundo o melhor de seu conhecimento, seja em juízo ou numa conversa comum, sob juramento ou não, manifesta a justiça. Demonstra que é guiado e movido pelos princípios e pelas leis da justiça e a promove honrando-a e ajudando em sua administração.
- A condenação da testemunha falsa como embusteira. Ela manifesta engano: mostra não só quão pouco se importa em enganar aqueles com quem trata, mas quanto prazer sente nisso e que está possuída por um espírito mentiroso, Jeremias 9:3-5.
Todos devemos cultivar o temor e a aversão ao pecado da mentira (Salmos 119:163) e deixar que o princípio da honestidade governe nossa vida.
Versículo 18
A língua traz morte ou vida, veneno ou remédio, conforme seu uso.
- Há palavras que cortam e matam, semelhantes a golpes de espada. Palavras ofensivas entristecem o espírito daqueles a quem são dirigidas e os ferem no coração. Calúnias, como espada, ferem a reputação daqueles de quem se fala, talvez sem possibilidade de cura.
Sussurros e suspeitas malignas, como espada, dividem e rompem os laços do amor e da amizade e separam pessoas que eram muito queridas umas às outras.
- Há palavras que curam e restauram: “A língua dos sábios é saúde”. Fecha as feridas abertas pela língua maldizente, recompõe tudo, restaura a paz, resolve questões em disputa e persuade à reconciliação. A sabedoria encontrará remédios adequados para os danos causados pela difamação e pelas palavras maldosas.
Versículo 19
Observe-se, para honra da verdade, essa coisa sagrada: 1. Que, se a verdade for dita, permanecerá firme. Mesmo que alguém se sinta contrariado e se irrite com ela, ainda assim ela manterá sua posição. Grande é a verdade, e prevalecerá. O que é verdadeiro sempre o será; podemos permanecer com a verdade, sem recear ser refutados e envergonhados.
- Que, se a verdade for negada, ainda assim com o tempo virá à tona. A língua mentirosa, que dá falsa aparência às coisas, dura apenas um momento. A mentira será desmentida. Quando interrogado, o mentiroso será apanhado contando versões diferentes e contradizendo a si mesmo, ao contrário de quem fala a verdade.
Quando se descobrir sua mentira, ele não conseguirá seu intento nem receberá crédito depois disso. A verdade pode ser encoberta, mas virá à luz. Portanto, aqueles que fazem da mentira seu refúgio descobrirão que é um refúgio de mentiras.
Versículo 20
Sentenças de Peso.
Repare: 1. Os que planejam causar dano maquinam como iludir os outros para realizar esse plano; no fim, porém, descobrirão que enganaram a si mesmos. Os que imaginam o mal sob a aparência de amizade enchem o coração com as vantagens e satisfações que esperam obter, umas e outras; tudo, porém, é embuste. Por mais habilmente que o imaginem, os enganadores serão enganados.
- Os que olham pelo bem dos seus vizinhos, estudam o que favorece a paz e dão conselhos pacíficos, promovem iniciativas de cura e planejam métodos para curar. Conforme o alcance de sua atuação, contribuem para o bem público e receberão não só o reconhecimento, mas também o consolo disso. Terão alegria e êxito, talvez além do que esperavam. Bem-aventurados os pacificadores.
Versículo 21
Repare: 1. A piedade é proteção segura. Se os homens forem sinceramente justos, o Deus justo se comprometeu a não permitir que lhes aconteça nenhum mal. Pelo poder de sua graça neles, princípio de justiça, ele os guardará do mal do pecado. Embora sejam tentados, ainda assim não serão vencidos pela tentação.
Embora possam cair em dificuldades, até em muitas, ainda assim estas não conterão mal para eles, por mais que o contenham para outros (Salmos 91:10), pois Deus se sobreporá a elas para que contribuam para seu bem.
- A perversidade traz destruição igualmente certa. Os que vivem desprezando a Deus e aos homens e estão decididos a causar dano ficarão cheios de dano. Tornar-se-ão mais danosos, cheios de toda injustiça, Romanos 1:29. Ou se tornarão miseráveis pelos danos que lhes sobrevierem. Os que se deleitam em causar dano terão dele o bastante.
Alguns leem o versículo inteiro assim: Nenhum mal acontecerá ao justo, ainda que os perversos estejam cheios de dano e rancor contra eles. Estarão seguros sob a proteção do Céu, ainda que o próprio inferno se solte contra eles.
Versículo 22
Aqui nos é ensinado: 1. A odiar a mentira e manter-nos o mais longe possível dela, pois é abominação para o Senhor e torna abomináveis aos olhos dele os que se permitem praticá-la. Isso ocorre não só porque ela viola sua lei, mas porque destrói a convivência humana.
- A tratar a verdade como dever de consciência, não só nas palavras, mas em todas as ações. Aqueles que procedem verdadeira e sinceramente em tudo que fazem são o prazer de Deus, e ele se agrada deles. Temos prazer em conviver com pessoas honestas e valer-nos delas em quem podemos confiar; sejamos assim, portanto, para conquistar o favor tanto de Deus quanto dos homens.
Versículo 23
Repare: 1. O sábio não procura proclamar sua sabedoria; é honra para ele não fazê-lo. Comunica seu conhecimento quando isso pode edificar outros, mas o mantém reservado quando exibi-lo serviria apenas ao próprio elogio.
Os homens de conhecimento, se forem prudentes, evitarão cuidadosamente tudo que tenha aparência de ostentação. Não aproveitarão toda oportunidade para mostrar o que aprenderam e leram, mas apenas para usá-lo para bons fins e então deixarão que as próprias obras os louvem. Ars est celare artem — A perfeição da arte está em ocultá-la.
- O insensato não consegue evitar proclamar sua insensatez; é vergonha para ele não conseguir. O coração dos insensatos proclama a insensatez por meio das suas palavras e ações insensatas. Ou não desejam ocultá-la, tão pouco discernem o bem do mal e a honra da desonra, ou não sabem fazê-lo, tão pouca prudência demonstram ao governar-se, Eclesiastes 10:3.
Versículo 24
Repare: 1. A diligência é o caminho para os cargos. Salomão promoveu Jeroboão porque viu que era jovem trabalhador e cuidava dos próprios negócios, 1 Reis 11:28. Os que se esforçam no estudo e na prestação de ajuda conquistam, por isso, influência e reputação capazes de lhes dar autoridade sobre todos ao redor; foi assim que muitos ascenderam de modo surpreendente.
Quem foi fiel em poucas coisas será posto sobre muitas. Os presbíteros que trabalham na palavra e no ensino são dignos de honra dobrada. Os diligentes na juventude conseguirão o que lhes permitirá governar e, assim, descansar na velhice.
- A trapaça é o caminho para a servidão. Os preguiçosos e negligentes, ou antes os enganadores — pois é isso que a palavra significa —, ficarão sujeitos a tributo. Os que não querem esforçar-se numa ocupação honesta e vivem de expedientes e artimanhas desonestas tornam-se miseráveis e indigentes e permanecerão em posição inferior.
Os aprendizes diligentes e honestos chegarão a ser mestres; os que agem de outro modo são insensatos que precisarão, por toda a vida, servir aos sábios de coração.
Versículo 25
Aqui temos: 1. A causa e a consequência da melancolia. É o peso no coração, carga de preocupações, medo e tristeza sobre o espírito, que o abate e o impede de agir com vigor no que precisa fazer ou com coragem no que precisa suportar. Faz a pessoa curvar-se, prostra-a e afunda-a.
Os assim oprimidos não conseguem cumprir os deveres nem receber o consolo de nenhuma relação, condição ou convivência. Os inclinados a esse estado devem, portanto, vigiar e orar contra ele.
- Sua cura: uma boa palavra de Deus, recebida pela fé, alegra o coração. Assim é esta palavra — diz um dos rabinos —: “Lança teu fardo sobre o Senhor, e ele te sustentará”. A boa palavra de Deus, em especial o evangelho, destina-se a alegrar os corações cansados e sobrecarregados, Mateus 11:28. Os ministros devem ser auxiliares dessa alegria.
Versículo 26
Veja aqui: 1. Que os homens bons fazem bem a si mesmos. Têm em si um caráter excelente e asseguram para si uma porção excelente; tanto num aspecto quanto no outro, superam os outros: “O justo é mais abundante que seu vizinho” (assim diz a margem). É mais rico, embora não em bens deste mundo, ainda assim nas graças e nos consolos do Espírito, que são as verdadeiras riquezas.
Há verdadeira excelência na religião: ela enobrece os homens, inspira-lhes princípios generosos e lhes dá solidez. É excelência de grande valor aos olhos de Deus, o verdadeiro Juiz da excelência. O vizinho do justo pode ter maior destaque no mundo e receber mais aplausos, mas o justo possui valor intrínseco.
- Que os homens perversos fazem mal a si mesmos: andam por um caminho que os seduz. Ele lhes parece não apenas agradável, mas correto. Agrada tanto à carne e ao sangue que se convencem de que não pode ser mau. Contudo, não alcançarão o objetivo que buscam nem desfrutarão o bem que esperam.
Tudo é embuste; por isso, o justo é mais sábio e mais feliz que seu vizinho, embora este o despreze e pise nele.
Versículo 27
Aqui temos: 1. O que pode levar-nos a odiar a preguiça e o engano, pois a palavra aqui, como antes, significa ambos. O homem preguiçoso e enganador tem carne assada, mas não assa aquilo que ele próprio capturou na caça. Não: trata-se do que outros se esforçaram para capturar, e ele vive do fruto do trabalho deles, como os zangões na colmeia.
Ou, se os preguiçosos e enganadores chegam a capturar alguma coisa na caça — pois caçadores por esporte raramente cuidam dos negócios —, ainda assim não a assam depois da captura. Não encontram consolo ao desfrutar dela; talvez Deus, em sua providência, os prive dela.
- O que pode fazer-nos amar a diligência e a honestidade: os bens de um homem diligente, embora talvez não sejam muitos, ainda assim são preciosos. Procedem da bênção de Deus; ele encontra neles consolo, e trazem benefício a ele e à família. São seu próprio pão cotidiano, não pão tirado da boca de outros. Por isso, ele percebe que Deus lhe dá esses bens em resposta à sua oração.
Versículo 28
O caminho da religião nos é recomendado aqui: 1. Como caminho reto, plano e fácil: é o caminho da justiça. Os mandamentos de Deus, regra pela qual devemos andar, são todos santos, justos e bons. A religião tem a reta razão e a equidade ao seu lado.
É uma vereda, um caminho que Deus preparou para nós (Isaías 35:8), é uma estrada, a estrada do rei, a estrada do Rei dos reis, caminho já marcado diante de nós por todos os santos, o bom caminho antigo, cheio das pegadas do rebanho.
- Como caminho seguro, agradável e cheio de consolo. (1.) Há vida não apenas no fim, mas também no próprio caminho: todo verdadeiro consolo e satisfação, o favor de Deus, melhor que a vida, e o Espírito, que é vida.
(2.) Nele não há apenas vida: nele também não há morte, nada da tristeza do mundo que produz morte e diminui nossa alegria e vida presentes. A vida que há no caminho da justiça não tem fim. Aqui há vida, mas também morte. No caminho da justiça há vida sem morte, vida e imortalidade.