Matthew Henry

Oseias 9

Argumento

Neste capítulo:

I. Deus ameaça privar essa descendência degenerada de Israel de todos os bens terrenos, pois pelo pecado perderam o direito a eles. Assim, não terão consolo nem ao recebê-los para si nem ao oferecê-los a Deus, vv. 1-5.

II. Ele os condena à ruína completa por seus próprios pecados e pelos pecados de seus profetas, vv. 6-8.

III. Ele os censura pela maldade de seus pais, cujos passos seguiram, v. 9, 10.

IV. Ele ameaça destruir-lhes os filhos e extirpar sua descendência, vv. 11-17.

Versículos 1 a 6

Ameaças de Juízo. (a.C. 740.)

Aqui:

I. O povo de Israel é acusado de adultério espiritual: “Ó Israel! Você se prostituiu, afastando-se de seu Deus”, v. 1. Sua aliança com Deus era matrimonial: por ela estavam unidos a ele como seu Deus e renunciavam a todos os outros.

Ao erguer e adorar ídolos, buscar socorro nas criaturas e depositar nelas a confiança, prostituíram-se e se afastaram de Deus. Deram a pretendentes e rivais o afeto, a adoração e a confiança devidos somente a ele. Outros povos também eram idólatras, mas neles a idolatria não era prostituição contra Deus como em Israel, que se havia unido a ele em casamento.

Repare: os pecados de quem professa a religião e uma relação com Deus o provocam mais que os pecados dos demais. Como prova de sua prostituição espiritual, acusa-se Israel de amar “a recompensa em toda eira”.

  1. Amavam dar recompensas aos ídolos nas ofertas e primícias que lhes apresentavam de cada eira. Tinham um prazer estranho em servir aos ídolos com aquilo que teriam relutado em consagrar a Deus e empregar em seu serviço. Repare: quem economiza nas despesas da religião muitas vezes esbanja para satisfazer seus desejos.

Ou, 2. amavam receber recompensas de seus ídolos; consideravam os frutos da terra uma dessas recompensas: “Estas são minhas recompensas, que meus amantes me deram”, Oseias 2:12. Repare: inclinam-se à idolatria espiritual aqueles que preferem a recompensa da eira ao favor de Deus e à vida eterna.

II. São proibidos de alegrar-se como os outros povos: “Não te alegres, ó Israel, com júbilo. Não esperes alegrar-te. Que paz, que alegria, que tens a ver com qualquer uma delas, enquanto são tantas tuas prostituições e feitiçarias?”, 2 Reis 9:19-22.

Não estejam dispostos a alegrar-se, pois isso não lhes convém; melhor seria afligir-se, lamentar e chorar, Tiago 4:9. Judá, que permanece junto do Deus verdadeiro, e mesmo outros povos, que nunca o conheceram nem poderiam ser acusados de revolta contra ele, podem alegrar-se. Não têm tantos motivos de vergonha quanto Israel, que se prostituiu e se afastou de Deus.

Alguns pensam que Israel tinha então motivos específicos de alegria: talvez perdas recuperadas, vantagens obtidas ou um pacto com aliado poderoso. Celebravam publicamente, como fazem os outros povos em ocasiões semelhantes. Deus, porém, lhes manda que não se alegrem. Repare: a alegria é fruto proibido para os perversos.

Não devem alegrar-se, porque se prostituíram e se afastaram de seu Deus. Por isso:

  1. Aquilo que lhes causava alegria não lhes daria segurança nem vantagem enquanto permanecessem distantes de Deus e em guerra com ele. Repare: pouca alegria teremos com os confortos terrenos se Deus não for nossa maior alegria.

  2. A consciência do pecado e o temor da cólera divina deveriam abater-lhes a alegria e amargar todos os seus consolos. Repare: os que, ao se afastarem de Deus, passaram a precisar arrepender-se estragaram assim a própria alegria, até que voltem e façam as pazes com ele.

III. São ameaçados com juízos destrutivos por suas prostituições espirituais, conforme se dissera muito antes: “Destruíste todos os que se prostituem e se afastam de ti”, Salmos 73:27. Eis as ameaças:

  1. A terra deixará de produzir como de costume. Canaã, terra fértil, se tornará estéril por causa da maldade de seus habitantes. Eles amam a recompensa da eira e estão tão tomados pela alegria da colheita que não têm disposição alguma de lamentar seus pecados.

Para humilhá-los de modo eficaz, Deus lhes tirará não só os prazeres e as iguarias, mas até o alimento necessário (v. 2): “A eira e o lagar não os alimentarão”, muito menos lhes proporcionarão banquetes. Ou serão destruídos pela mão de Deus, ou saqueados pela mão dos homens. O vinho novo, com o qual costumavam festejar, lhes faltará.

Repare: quando fazemos do mundo e de seus bens nossos ídolos e nossa herança, além do propósito para o qual foram dados, é justo que Deus nos negue até o sustento para o qual foram feitos. Assim nos mostra nossa loucura e nos corrige. Falte alimento na eira aos que nela procuram sua recompensa. Perdemos o direito aos bens deste mundo se os amamos como os melhores bens.

  1. A terra não só deixará de alimentá-los, mas também de abrigá-los e servir-lhes de morada. Ela os vomitará, como fizera com os cananeus antes deles (v. 3): “Não habitarão mais na terra do Senhor”.

Canaã era de modo especial a terra do Senhor: a terra da Shechiná, segundo a paráfrase caldeia; a terra do Senhor do mundo, segundo a versão árabe. Aquele a quem toda a terra pertence (Salmos 24:1) tomou Canaã como seu domínio particular. “A terra é minha”, diz Deus, Levítico 25:23.

Eles a usaram, ou melhor, abusaram dela como se fosse sua. Não pagaram o aluguel nem prestaram os serviços devidos a Deus, seu proprietário. Por isso ele entra nela com justiça e toma posse, pois perderam o direito de arrendá-la.

“É minha terra”, diz Deus, “e o mostrarei: serão despejados como maus arrendatários. Saberão que, embora se julgassem proprietários definitivos, eram apenas arrendatários cuja permanência dependia de minha vontade.”

Repare: para a honra da justiça e santidade de Deus, os que dele se afastam pela prostituição não devem continuar a morar em sua terra. Por isso, cedo ou tarde, os perversos serão expulsos do mundo.

Ou chama-se “terra do Senhor” porque era a terra santa, a terra de Emanuel, que recebia sinais especiais do favor e da presença de Deus. Ali Deus era conhecido e seu nome, grande; ali estavam seus profetas e oráculos. Era como uma cópia do paraíso terrestre e um símbolo do celestial. Ter parte numa terra assim era grande privilégio.

Pecar ali contra Deus e dele se afastar era grande loucura e pecado: significava agir injustamente na terra da retidão, Isaías 26:10. Ser expulso de tal terra era juízo triste e severo, semelhante à expulsão dos primeiros pais do Éden e quase igual à exclusão da Canaã celestial.

Repare: não podem esperar morar na terra do Senhor os que se recusam a obedecer às suas leis e a deixar-se influenciar por seu amor. Perderam os privilégios da igreja os que não seguem suas regras.

  1. Expulsos da terra do Senhor, não terão descanso nem satisfação em nenhuma outra. Quando Caim foi afastado da presença do Senhor, tornou-se fugitivo e errante para sempre e habitou uma terra de tremor. Assim acontecerá com Israel.

Alguns voltarão ao Egito, a antiga casa da escravidão. Fugirão para lá dos assírios (Oseias 8:13) e se perderão e arruinarão no lugar onde esperavam esconder-se e obter ajuda. Outros serão levados cativos para a Assíria, onde serão obrigados a comer coisas impuras:

(1.) Coisas impróprias para seres humanos, podres e estragadas. Isso indica pobreza extrema, como a do filho pródigo, que desejava encher o ventre de alfarrobas.

Ou, (2.) coisas impróprias para judeus, proibidas por sua lei. É provável que, em sua terra, embora desobedientes em outros pontos, ainda preservassem a distinção dos alimentos e disso se orgulhassem. Mas, como não obedeciam à lei de Deus nas outras coisas, não lhes seria permitido obedecer-lhe nessa. Era justa punição pelo pecado de comer alimentos oferecidos aos ídolos.

Repare: quando sofremos privações na alimentação e somos obrigados, por necessidade ou saúde, a comer ou beber algo desagradável, devemos reconhecer a justiça de Deus. Pecamos em relação à comida, entregando-nos demais ao que nos agradava.

  1. Na terra dos inimigos para a qual serão levados, não poderão honrar a Deus nem alcançar seu favor oferecendo-lhe sacrifício aceitável. Não terão condições de manter sequer a aparência da religião.

“Assim”, como explica o dr. Pocock, “ficarão como que privados de toda expressão de sua relação com Deus, de todos os sinais da graça e dos meios de reconciliação com ele. Isso lhes mostrará que foram rejeitados e afastados de Deus e que ele já não os reconhece como seu povo”.

(1.) Não terão sacrifícios para oferecer, nem altar ou sacerdotes para oferecê-los. Não apresentarão ao Senhor sequer ofertas de bebida, muito menos os demais sacrifícios.

(2.) Mesmo que os apresentassem, nem eles nem seus sacrifícios agradariam a Deus, pois não podem fazer ofertas conforme a lei nem têm o coração humilhado.

(3.) Em lugar de sacrifícios de alegria e louvor, comerão “o pão dos enlutados”. Viverão desolados e desconsolados, lamentando a morte dos parentes e a própria miséria. Mesmo que tivessem oportunidade de sacrificar, nunca estariam preparados para isso: a lei lhes proibia comer das coisas santas durante o luto, Deuteronômio 26:14.

Todos os que comem o pão dos enlutados ficam impuros e impedidos de participar do altar.

(4.) “Seu pão para sua alma”, o pão que precisarão comer para não morrer de fome, o sustento de sua vida, “não entrará na casa do Senhor”. Não terão casa do Senhor aonde levá-lo. Ou, se a tivessem, o pão não seria apropriado para essa oferta e eles não estariam dispostos a apresentá-lo como deviam.

(5.) O retorno dos dias de suas festas sagradas e solenes lhes traria tristeza e desconforto (v. 5): “Que farão no dia solene?” Que farão no sábado, dia solene de cada semana; nas luas novas, dias solenes de cada mês; e no retorno da Páscoa, de Pentecostes e da festa dos Tabernáculos, os dias solenes de cada ano, as festas do Senhor?

Repare: as festas do Senhor são dias solenes. Ao sermos convidados a elas, devemos considerar seriamente o que faremos. Mas aqui a pergunta é dirigida àqueles que perderão o benefício e o consolo dessas festas: “Que farão então?”

“Passarão em tristeza e lamentação os dias que, se não fosse por sua culpa, poderiam passar em alegria e louvor. Pela falta, aprenderão o valor das misericórdias e, ao sentir a fome do pão espiritual, aprenderão a apreciá-lo.”

Repare: enquanto desfrutamos dos meios da graça, devemos considerar o que faremos se um dia nos faltarem, quer nos sejam tirados, quer fiquemos impedidos de participar deles.

  1. Perecerão na terra da dispersão (v. 6): “Pois eis que saíram” da terra do Senhor, onde poderiam passar em paz tanto os sábados como os outros dias. Saíram por causa da destruição de sua terra pelos assírios e foram para o Egito.

Lisonjeiam-se com a esperança de voltar quando a tempestade passar, mas também essa esperança fracassará. Descobrirão que há sepulturas no Egito, como disseram seus antepassados murmuradores (Êxodo 14:11), sepulturas para eles próprios. O Egito os recolherá como se recolhem os mortos para levá-los à sepultura, e Mênfis, uma das principais cidades egípcias, os enterrará.

Recolher e sepultar aparecem juntos em Jeremias 8:2 e Jó 27:19. Repare: quem pensa fugir presunçosamente dos juízos de Deus bem pode encontrar a morte no lugar onde esperava salvar a vida.

  1. A terra que deixaram e à qual esperavam voltar ficará desolada. Seus antigos tabernáculos, onde moravam e guardavam as reservas, “os lugares agradáveis de sua prata”, serão demolidos e reduzidos a ruínas, cobertos de urtigas.

Mesmo que sobrevivam à tribulação e voltem à sua terra, não a encontrarão fértil nem habitável. Ela não lhes dará alimento nem abrigo.

Repare: quem faz do dinheiro seu deus considera agradáveis os lugares onde guarda a prata. Quem faz do Senhor seu Deus, por sua vez, considera amáveis seus tabernáculos e agradáveis suas ordenanças, Isaías 64:11.

Os prazeres da comunhão com Deus não dependem do acaso nem das mudanças. Já os lugares agradáveis dos homens, comprados com prata, usados para guardá-la ou enfeitados com ela, podem acabar em ruínas cobertas de urtigas. Com eles desaparece todo o prazer que davam.

Versículos 7 a 10

Ameaças de Juízo. (a.C. 740.)

Para despertá-los ainda mais, aqui se ameaça:

I. A destruição anunciada virá depressa. Não terão motivo para esperar uma longa suspensão da pena, pois o juízo não dorme; está à porta (v. 7). “Chegaram os dias da visitação”, sem mais demora. Chegaram os dias da recompensa, sobre os quais foram advertidos tantas vezes. Os profetas lhes disseram que a destruição viria; agora ela chegou, e terminou o tempo da paciência divina. Repare:

  1. O dia dos juízos de Deus é dia de visitação, no qual se investigam e revelam os pecados dos homens, e dia de recompensa, no qual se profere a sentença e se dá a cada um segundo suas obras. A visitação rigorosa serve à retribuição justa.

  2. Esse dia de visitação e recompensa se aproxima rapidamente. É certo e está perto, como se já houvesse chegado.

II. Por esse juízo, serão envergonhados de suas opiniões sobre os profetas. Quando chegar o dia da visitação, Israel saberá, pela triste experiência, aquilo que não quis aprender pelo ensino. Saberá como é má e amarga a separação de Deus e como é terrível cair em suas mãos. Quando a mão divina se ergue, eles não querem ver, mas acabarão vendo.

Israel aprenderá a distinguir os profetas verdadeiros dos falsos.

  1. Saberão então que os que se diziam profetas, mas os lisonjeavam no pecado, embalavam sua falsa segurança e prometiam paz enquanto persistissem nele, eram tolos e loucos, não profetas verdadeiros. Assim era, ainda que alegassem ser homens espirituais, como fizeram os profetas de Acabe, 1 Reis 22:24. Enganavam a si mesmos e àqueles a quem profetizavam.

Por que Deus permitiria que seu povo Israel fosse enganado por esses falsos profetas? Ele responde: “Por causa da multidão de tuas iniquidades, nas quais persististe desprezando a lei divina, e do teu grande ódio aos profetas verdadeiros, que te repreendiam por isso em meu nome”.

Repare: os homens não recebem o amor à verdade. Ao contrário, concebem ódio por ela e, com seus muitos pecados, a desafiam. Por isso Deus lhes envia fortes ilusões para que creiam na mentira. Serão tão fortes que só no dia da visitação e da recompensa perceberão o engano.

Esse dia lhes mostrará a loucura dos que os seduziram e a própria loucura de se deixarem seduzir.

  1. Saberão então se os profetas verdadeiros, homens de fato espirituais e guiados pelo Espírito de Deus, eram os tolos e loucos que diziam. Reconhecerão que, longe disso, eram os sábios de seu tempo e embaixadores fiéis de Deus enviados a eles.

Quando Israel viu que nenhuma palavra de Samuel caiu por terra, soube que ele havia sido estabelecido como profeta (1 Samuel 3:20). Aqui também Deus cumprirá a palavra de seus mensageiros ao trazer os dias de recompensa que predisseram.

Então, os que desprezavam e ridicularizavam os profetas e julgavam que o hospício de Bedlam era o lugar mais adequado para eles terão vergonha dos muitos pecados que cometeram nesse sentido e do grande ódio que motivou sua rápida destruição. Zombar dos mensageiros do Senhor foi o pecado pelo qual foram castigados e envergonhados.

III. A maldade dos próprios falsos profetas será revelada para sua vergonha (v. 8): “O sentinela de Efraim estava com o meu Deus”. Antes, tinham ministros bons e dignos, que permaneciam perto de Deus e conservavam comunhão com ele. Agora, porém, há uma linhagem de profetas corruptos, maliciosos e perseguidores, líderes de toda maldade.

Ou: “O sentinela de Efraim alega agora ter estado com o meu Deus e inicia suas mentiras dizendo: Assim diz o Senhor. Mas é laço de caçador em todos os seus caminhos. É astuto para arrastar os simples ao pecado e os íntegros à aflição”.

“Está tão cheio de ódio e inimizade contra a bondade e contra os justos que ele próprio se tornou ódio na casa de seu Deus, ou contra a casa de seu Deus.”

Repare: os profetas perversos são os piores homens. Seus pecados contra Deus são os mais graves, e seus planos contra a religião, os mais perigosos. Podem gabar-se de ser sentinelas e observadores; no campo das ideias, podem até estar certos e dizer que estão “com o meu Deus”, com a mente cheia de boas noções.

Mas examine-se sua vida: em todos os caminhos são laço de caçador, buscando vantagem para si e fazendo dos outros suas presas. Examine-se seu coração: são ódio na casa de meu Deus, cheios de maldade e rancor contra bons ministros e pessoas justas.

Ai de você, terra! Ai de você, igreja, que tem sentinelas e profetas assim, capazes de ver, mas não de agir! Corruptio optimi est pessima: quando as melhores coisas se corrompem, tornam-se as piores.

IV. Deus agora lhes pedirá contas dos pecados de seus pais, cujos passos seguiram, v. 9, 10.

  1. Eram tão maus quanto seus pais: “Corromperam-se profundamente”. Estão enraizados e presos ao pecado; foram longe nas profundezas de Satanás (Isaías 31:6), de modo que é quase impossível recuperá-los. A mancha de sua corrupção é profunda e impossível de remover, como escarlate e carmesim ou como as manchas do leopardo.

A culpa é deles próprios: corromperam a si mesmos, contaminaram e endureceram o próprio coração, como nos dias de Gibeá. Naquela época, os homens da cidade abusaram da concubina do levita até a morte, e toda a tribo de Benjamim protegeu os criminosos. Foram dias de profunda corrupção, como os de agora.

A lascívia e a maldade são hoje tão descaradas e ousadas quanto nos dias de Gibeá. Que se pode esperar, então, senão vingança semelhante à que atingiu Gibeá? Cada tribo é agora tão má quanto Benjamim naquele tempo e pode esperar ser rebaixada tanto quanto ela foi.

  1. Por isso lhes serão cobrados os pecados dos pais: Deus “se lembrará de sua iniquidade e castigará seus pecados”, a iniquidade que lhes pertence por natureza e por herança, o pecado que lhes corre no sangue. O pecado do pai será agora cobrado dos filhos.

Daí Deus passa a censurá-los pela degeneração e apostasia dos antepassados, pela traição e vil ingratidão destes, v. 10. Observe:

(1.) A grande honra que Deus conferiu a Israel ao formá-lo como povo: “Encontrei Israel como uvas no deserto”. Deus se alegrou com ele tanto quanto o viajante pobre se alegraria ao encontrar uvas no deserto, onde mais precisava delas e menos esperava encontrá-las.

Ou, quando estavam no deserto, ele os encontrou como uvas: não eram preciosos em si, mas preciosos para ele, agradáveis como as primeiras uvas maduras ao dono da vinha. Eram preciosos e honrados aos seus olhos (Isaías 43:4). Ele os plantou como videira escolhida, semente genuína (Jeremias 2:21). No início, encontrou neles apenas o bem que ele mesmo havia feito: uvas boas.

“Vi-os com prazer, como os primeiros figos maduros da figueira na primeira estação.” Pessoas boas são comparadas aos primeiros frutos maduros, Jeremias 24:2. Um desses frutos vale mais que muitos colhidos depois.

Isso mostra o prazer de Deus em Israel e em fazer-lhe o bem, não por mérito do povo, mas porque amava seus pais. Guardou-o com cuidado, como o homem guarda os frutos primeiros e mais escolhidos de sua vinha.

Depois de receber tanta honra e ter diante de si tão boas perspectivas de elevação, seria de esperar que preservasse sua excelência. Mas:

(2.) Veja a grande vergonha que trouxeram sobre si. Deus os separou para si como povo especial; eles, porém, foram a Baal-Peor e se juntaram aos moabitas para sacrificar àquela divindade imunda e desprezível (Números 25:2, 3). Separaram-se para “aquela vergonha”, o ídolo vergonhoso.

Baal-Peor era especialmente vergonhoso se, como parece, a prostituição que o povo cometeu com as filhas de Moabe fazia parte de seu culto. Repare: aquilo a que se dedicam os que abandonam Deus certamente se tornará vergonha para eles, cedo ou tarde.

Diz-se que suas abominações eram “como aquilo que amavam”: as práticas detestáveis para Deus eram justamente as mais queridas de sua alma. Ou, depois de abandonarem Deus, multiplicaram à vontade as abominações, os ídolos e os cultos idólatras.

Esse foi o caminho de seus pais: Deus lhes fizera o bem, mas eles o trataram com ingratidão. A geração presente corrompeu-se profundamente do mesmo modo.

Versículos 11 a 16

Ameaças de Juízo. (a.C. 740.)

Nos versículos anteriores, vimos o pecado de Israel transmitido pelos pais. Aqui vemos a punição transmitida aos filhos, pois, assim como a morte entrou pelo pecado no início, continua a acompanhá-lo como herança. Podemos observar nestes versículos:

I. O pecado de Efraim, descrito por várias expressões:

  1. Não deram ouvidos a Deus (v. 17). Não prestaram atenção à voz de sua palavra nem à de sua vara. Não creram no que ele dizia nem aceitaram sua direção. Ele lhes expôs o dever, o que lhes convinha e o perigo que corriam, mas não fizeram caso dele. Tudo que lhes disse por suas palavras e por seus profetas lhes pareceu uma história sem importância. Por isso não surpreende ouvirmos:

  2. Da maldade de suas obras (v. 15), da malícia deliberada de seus pecados. Não eram fraquezas, mas transgressões ousadas. Como poderiam agir bem os que não ouvem a palavra de Deus, que os ensinaria e persuadiria a fazer o bem? Também não surpreende haver obras perversas entre eles quando:

  3. Seu culto era corrompido (v. 15): “Toda a maldade deles está em Gilgal”. O lugar era conhecido pela idolatria, como mostram Oseias 4:15; 12:11; Amós 4:4; 5:5.

É provável que os idólatras escolhessem Gilgal como centro de suas atividades porque o lugar fora famoso em tempos anteriores por acontecimentos solenes entre Deus e Israel, como em Josué 5:2, 10; 1 Samuel 10:8; 11:15.

Ali estava a fonte da idolatria, de onde ela se espalhou pelo reino. Por isso se podia dizer que toda a sua maldade estava ali, pois todas as outras maldades se originavam dela. A corrupção do culto abre caminho à corrupção dos costumes. A mãe das prostitutas é mãe de todas as demais abominações, Apocalipse 17:5.

O erudito Grócio supõe que há aqui um sentido místico. Golgota, em siríaco, equivaleria a Gilgal, em hebraico. Por isso, pensa que a passagem poderia referir-se à morte de Cristo no Golgota, o maior pecado da nação judaica, do qual se poderia dizer verdadeiramente: “Toda a sua maldade se resumiu nisso”. Não surpreende que o povo agisse perversamente tanto no culto quanto na conduta quando:

  1. Todos os seus príncipes eram rebeldes. Toda a sucessão dos reis das dez tribos fez o que era mau aos olhos do Senhor. Ou todos os juízes e magistrados daquele tempo eram perversos: desviaram-se para caminhos pecaminosos e persistiram neles.

II. O desagrado de Deus com Efraim por causa do pecado. Ele é expresso de diversas maneiras, mostrando quanto o pecado provoca seus olhos puros e gloriosos e torna o pecador odioso diante dele:

  1. Ele se afasta deles, v. 12. Ao se rebelarem e retirarem-lhe a lealdade, como poderiam esperar que ele não se afastasse, retirando-lhes tanto sua proteção quanto sua generosidade? A ameaça é reforçada e se torna terrível: “Ai deles também quando eu me afastar!”

Repare: estão em situação realmente desgraçada os que Deus abandonou. Nossa felicidade ou desgraça depende de sua presença graciosa. Se ele parte, leva consigo todo o bem e deixa que venham todos os males.

“Deus o abandonou; persigam-no e capturem-no.” Saul sabia disso e deu grande peso a essa parte de sua queixa: “Os filisteus fazem guerra contra mim, e Deus se afastou de mim”. Ele, porém, não apenas se afasta deles:

  1. Também os odeia. “Em Gilgal, onde está toda a maldade deles, ali os odiei.” Onde se cometem as abominações do pecado, Deus abomina os pecadores. Em Gilgal ele dera muitos sinais de favor aos antepassados deles; agora os odeia ali por sua vil ingratidão. Mais ainda: ele não apenas os odeia:

  2. “Não os amarei mais.” Nunca mais os receberá em seu favor. A ruptura entre Deus e Israel é vasta como o mar e não pode ser reparada. Isso concorda com o que dissera em Oseias 1:6, 7: “Não terei mais misericórdia da casa de Israel”, as dez tribos.

  3. Ele os dispensará e não terá mais relação com eles: “Pela maldade de suas obras, eu os expulsarei de minha casa”. Não os reconhecerá mais como seus nem como membros de sua família no mundo. Mandá-los-á embora como arrendatários infiéis que não pagam aluguel ou servos inúteis que não lhe dão honra nem prestam serviço.

Repare: quem profana a casa de Deus só pode esperar ser expulso dela e não ter mais licença para morar ou servir ali. Ele não apenas os expulsará de sua casa:

  1. Mandá-los-á para bem longe (v. 17): “Meu Deus os rejeitará”, não só de sua casa, mas também de sua presença. Abandoná-los-á e os repudiará por completo.

Deus disse que os expulsaria de sua casa, e aqui o profeta confirma a sentença como alguém que conhecia muito bem a vontade do Senhor: “Meu Deus os rejeitará”. Veja com que consolo e alegria ele chama Deus de “meu Deus”.

Repare: quando outros abandonam Deus e são abandonados por ele, é grande satisfação para os justos poder chamá-lo de seu Deus. Podem reconhecê-lo alegremente e saber que ele os reconhece. Embora todos se rebelem e se arruínem, Deus continua sendo meu Deus.

III. O fruto desse desagrado: o fim e o abandono da descendência de Efraim, juízo repetidamente ameaçado aqui. Observe:

  1. Como Efraim parecia destinado a ser numeroso. Seu nome deriva da fecundidade, Gênesis 41:52. José é “ramo frutífero”, Gênesis 49:22. A bênção de Moisés anunciou as dezenas de milhares de Efraim, Deuteronômio 33:17. Essa era sua glória, v. 11.

Para isso parecia tê-lo destinado aquele que fixa os limites da habitação dos homens, pois “Efraim, como vi Tiro, está plantado em lugar agradável” para estimular seu crescimento. Esperar-se-ia que crescesse como árvore plantada junto ao rio. Efraim era tão forte e rico quanto Tiro já fora, e igualmente orgulhoso e seguro.

A paráfrase caldeia dá este sentido: “A congregação de Israel, enquanto observava a lei, era semelhante a Tiro na prosperidade e na segurança”.

  1. Como Efraim se tornará pouco numeroso (v. 11): “Sua glória voará como um pássaro”. Seus filhos lhe serão tirados, e a esperança de suas famílias se acabará. Toda a sua glória voará para o céu como águia, rápida e irrecuperavelmente.

Repare: a glória deste mundo é glória que voará para longe. Mas os que têm Deus como sua glória encontram nele glória eterna que não perde o brilho.

Efraim fora como árvore frutífera. Agora, porém, está ferido e crestado; sua raiz secou, e não dará fruto, v. 16. Quando a raiz seca, naturalmente o ramo murcha. Observe:

(1.) A ameaça divina de destruir seus filhos:

[1.] Morrerão pela ação direta de Deus (v. 11): eles voarão desde o nascimento, do ventre e da concepção. Alguns morrerão ao nascer; o berço logo se tornará caixão. Outros nascerão mortos, ou o ventre lhes servirá de sepultura, e sua morte ali causará também a morte da mãe. Outras mães abortarão pouco depois de conceber, e seus filhos serão como frutos prematuros.

Veja como Deus pode facilmente extirpar toda a raça humana e como, com justiça, poderia fazê-lo. Essa raça degenerada, culpada e exposta à punição poderia ter seu nome apagado de debaixo do céu.

Bastaria fazer com todos o que faz aqui com Efraim: deixá-los sem filhos, fazendo sua glória voar do nascimento, do ventre e da concepção, e secar-lhes a raiz para que não deem fruto. Em poucos anos, tudo estaria acabado.

[2.] Morrerão pela mão dos inimigos, de modo violento (v. 12): “Mesmo que criem os filhos até certa idade, e estes escapem às doenças e mortes da infância e pareçam fora de perigo, eu os privarei deles por um juízo ou outro. Não restará homem algum para dar continuidade às suas famílias e preservar seu nome”.

Outra vez (v. 13): “Efraim levará seus filhos ao assassino”. As mães sofrerão as dores do parto, e depois gastarão grande cuidado, esforço e dinheiro para criá-los. Quando o inimigo cruel vier e passar todos ao fio da espada, jovens e velhos, sem misericórdia, parecerá que foram cordeiros alimentados todo esse tempo para o abate.

Repare: diminui muito o consolo que os pais encontram nos filhos o fato de não saberem para que os trouxeram ao mundo e os criaram. Talvez os estejam criando para o assassino ou, o que é pior, para que se tornem eles próprios o flagelo de sua geração.

A ameaça se repete (v. 16): “Ainda que tenham filhos, matarei até o fruto amado de seu ventre”, os filhos de quem mais gostam. Repare: o amor dos pais não garante a vida dos filhos. Às vezes, a morte recebe a ordem de levar os mais queridos da família e deixar os que lhe são um peso.

Quando se decretou que Israel morreria no deserto, a cólera foi temperada com esta misericórdia: seus filhos, apesar de tudo, entrariam no descanso em que os pais, por incredulidade, não puderam entrar. Aqui, porém, a rejeição é total e definitiva: até os filhos serão eliminados. A terra voltará à coroa, ob defectum sanguinis: perder-se-á por falta de herdeiros.

A paráfrase caldeia e muitos rabinos entendem que os assassinos aos quais os filhos eram destinados eram os que os sacrificavam a Moloque. Esse pecado trazia sua própria punição: mostrava que aos pais faltava compaixão e, com justiça, deixava-os sem bênçãos.

[3.] Os poucos que escaparem e restarem serão dispersos (v. 17): “Serão errantes entre as nações”. Assim ainda estão os remanescentes dos judeus hoje, e não há lugar no mundo onde formem uma nação distinta.

(2.) A oração do profeta a esse respeito (v. 14): “Dá-lhes, ó Senhor! Que lhes darás?” Que poderia ele pedir para um povo condenado à destruição? Como já se decretou que os filhos morrerão no ventre ou nascerão para o assassino, é melhor, dentre as duas possibilidades, que morram antes de nascer.

Melhor que não tenham filhos do que vê-los sofrer. Pela mesma razão, quando a ruína total se aproximava da nação judaica, Cristo disse: “Bem-aventurado o ventre que nunca deu à luz e os seios que nunca amamentaram”, Lucas 23:29.

“Dá-lhes, portanto, um ventre que aborta e seios secos, pois é melhor cair nas mãos do Senhor, cujas misericórdias são grandes, do que nas mãos dos homens.”

Repare: os que não têm filhos podem aceitar a vontade de Deus lembrando-se de que talvez venha um tempo em que, se os tivessem, desejariam não tê-los tido.


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