Matthew Henry

Oseias 7

Argumento

Neste capítulo temos: I. Uma acusação geral formulada contra Israel pelos graves crimes e delitos com que havia obstruído o curso dos favores de Deus para com ele, v. 1, 2. II. Uma acusação específica:

  1. Contra a corte — o rei, os príncipes e os juízes, vv. 3-7. 2. Contra o país. Efraim é acusado de se conformar às nações (v. 8), de insensibilidade e estupidez sob os juízos de Deus (vv. 9-11), de ingratidão a Deus por suas misericórdias (v. 13), de não se deixar corrigir sob seus juízos (v. 14), de desprezo por Deus (v. 15) e de hipocrisia ao alegar que voltaria para ele, v. 16.

Também são ameaçados de um castigo severo, que os humilhará (v. 12), e, se isso não surtir efeito, de destruição completa (v. 13), especialmente os príncipes, v. 16.

Acusação Formulada contra Israel; Os Crimes dos Príncipes. (a.C. 750.)

Versículos 1 a 7

Alguns retiram as últimas palavras do capítulo anterior para iniciar este: “Quando eu trouxe de volta, ou teria trazido de volta, os cativos do meu povo; quando eu estava prestes a vir a eles com misericórdia, quando eu queria curar Israel, então se revelou a iniquidade de Efraim”, o país e o povo comum, “e a maldade de Samaria”, a corte e a cidade principal. Nestes versículos podemos observar:

I. Uma ideia geral da situação em que Israel se encontrava, vv. 1-2. Vejamos como estavam as coisas entre eles:

  1. Deus, em sua graça, pretendia fazer-lhes bem: “Eu queria curar Israel”. Israel estava doente e ferido; sua enfermidade era perigosa, maligna e provavelmente fatal, Isaías 1:6. Deus, porém, ofereceu-se como médico para empreender a cura. Havia bálsamo suficiente em Gileade para restituir a saúde à filha de seu povo.

A situação deles era grave, mas não desesperadora; ao contrário, havia esperança quando Deus queria curar Israel:

(1.) Ele queria reformá-los, separá-los de seus pecados e, por meio de suas leis e de seus profetas, purificá-los da corrupção que havia entre eles.

(2.) Queria livrá-los das tribulações e devolver-lhes a paz e a prosperidade. Fizeram-se diversas tentativas de cura, e a condição decadente do povo às vezes parecia dar esperança de recuperação. A própria insensatez deles, porém, os fazia regredir.

Repare: se almas pecadoras e miseráveis não são curadas nem socorridas, mas perecem em seu pecado e sua miséria, não podem culpar a Deus. Ele podia e queria curá-las; ofereceu-se para assumir a tarefa de reparar sua ruína.

Há ocasiões especiais em que Deus manifesta sua disposição de curar uma igreja ou nação enferma. De tempos em tempos surge uma crise promissora que, se observada com cuidado e aproveitada, pode, mesmo em situação muito grave, inclinar a balança para a vida e a saúde.

  1. Eles próprios se opuseram a seus interesses e puseram uma tranca na própria porta. Quando Deus queria curá-los, quando pareciam próximos da reforma e da paz, revelou-se a iniquidade e a maldade deles. Isso interrompeu o curso dos favores divinos e desfez tudo novamente.

(1.) Quando sua situação foi examinada e investigada para que fossem curados, descobriu-se a maldade que havia sido escondida e disfarçada. Não que alguma vez estivesse oculta a Deus; ele fala à maneira dos homens.

Quando um cirurgião sonda uma ferida para curá-la e descobre que ela atinge órgãos vitais e é incurável, não prossegue na tentativa. Assim também, quando Deus desceu para ver a situação de Israel, como diz a expressão de Gênesis 18:21, com intenções bondosas, encontrou tamanha maldade entre eles.

Estavam tão endurecidos nela, tão descarados e impenitentes, que ele não podia, sem comprometer sua honra, conceder-lhes o favor que lhes destinara. Repare: os pecadores não são curados porque não quiseram ser curados. Cristo quis reuni-los, mas eles não quiseram.

(2.) Quando se fizeram esforços para reformá-los e trazê-los de volta, irrompeu a maldade que estava contida e reprimida. Dos passos que Deus dava para curá-los, aproveitaram a ocasião para provocá-lo ainda mais.

Quando se procurava reformá-los, o vício se tornava mais impetuoso e desmedido e subia ainda mais, como uma corrente represada. Quando começaram a prosperar, tornaram-se mais orgulhosos, dissolutos e seguros de si. Assim impediram o progresso da cura.

Repare: é o pecado que afasta de nós as coisas boas quando elas se aproximam. A insensatez e a ruína de multidões consiste em que, quando Deus quer lhes fazer bem, elas fazem mal a si mesmas.

Que foi que lhes causou esse dano? Em uma palavra, praticam falsidade. Adoram ídolos, segundo alguns; defraudam uns aos outros, segundo outros. Ou, mais provavelmente, fingem diante de Deus ao professar arrependimento e consideração por ele.

Dizem desejar que Deus os cure e, para isso, estar dispostos a ser governados por ele; mas mentem para ele com a boca e o lisonjeiam com a língua.

  1. Na raiz de toda a sua maldade estava a descrença, na prática, da onisciência e do governo de Deus (v. 2): “Não consideram em seu coração”, nunca dizem ao próprio coração nem pensam nisto: “Eu me lembro de toda a sua maldade”.

Agem como se Deus não a pudesse ver, embora seja todo olhos; ou não lhe desse atenção, embora seu nome seja Zeloso; ou a tivesse esquecido, embora sua mente eterna jamais esqueça; ou não lhes pedisse contas dela, embora seja o Juiz do céu e da terra.

Esse é o ateísmo do pecador. Dizer que Deus é ignorante ou esquecido é quase o mesmo que dizer que não há Deus; dizer que ele não se lembra daquilo sobre que deve julgar é quase o mesmo que dizer que ninguém julga na terra.

Assim o afrontam gravemente e enganam a si mesmos para sua condenação. Dizem: “O Senhor não verá”, Salmos 94:7. Não podem deixar de saber que Deus se lembra de todas as suas obras; já lhes disseram isso muitas vezes. Se lhes perguntarem, terão de admiti-lo.

Mesmo assim, não consideram esse fato quando deveriam e não o aplicam a si e às próprias obras. Se o fizessem, não agiriam, nem ousariam agir, como agem. Virá, porém, o tempo em que os que assim se enganam deixarão de ser enganados:

“Agora suas próprias obras os cercam”, isto é, sua maldade chegou a tal ponto que os pecados aparecem por todos os lados. Todos os vizinhos veem quão maus são; podem pensar que Deus não vê?

Ou, mais provavelmente, “o castigo de suas obras os cerca”: as tribulações os rodeiam e embaraçam, de modo que não conseguem sair. Isso mostra que os pecados pelos quais sofrem estão diante de minha face: eu não apenas os vi, mas estou descontente com eles.

Até que Deus, ao perdoar nossos pecados, os lance para trás de suas costas, eles continuam diante de sua face. Repare: cedo ou tarde, Deus convencerá os que agora não levam isso em conta de que se lembra de todas as suas obras.

  1. Deus já começara a contender com eles por meio de juízos, como sinal do que ainda viria: “O ladrão entra, e a tropa de salteadores saqueia lá fora”. Alguns entendem isso como exemplo da maldade deles: roubavam e saqueavam uns aos outros. Nec hospes ab hospite tutus — o anfitrião e o hóspede temem um ao outro.

Parece, antes, castigo pelo pecado. Eram afligidos por ladrões ocultos no próprio meio, que roubavam casas e lojas e batiam carteiras, e por bandos de salteadores, invasores estrangeiros que saqueavam abertamente com violência.

Longe de ser curado, Israel recebia diariamente feridas novas de ladrões e saqueadores. Tudo isso era efeito do pecado e castigo por roubarem a Deus, Isaías 42:24; Malaquias 3:8, 11.

II. Um relato específico dos pecados da corte, do rei, dos príncipes e de quem os cercava, e dos sinais do desagrado de Deus que recaíam sobre eles por esses pecados.

  1. O rei e os príncipes se agradavam da maldade e da impiedade de seus súditos, que por isso se encorajavam a ser ainda mais perversos (v. 3): “Alegram o rei e os príncipes com sua maldade”. Agradava-lhes ver o povo seguir suas leis e seus exemplos perversos no culto aos ídolos e em outras formas de impiedade e imoralidade.

Também lhes agradava ouvir o povo lisonjeá-los e aplaudi-los em seus caminhos perversos. Quando Herodes viu que sua maldade agradava ao povo, avançou ainda mais nela; quanto mais o fará o povo ao ver que sua maldade agrada ao príncipe, Atos 12:3.

Em particular, alegravam os governantes com mentiras: louvores falsos com que exaltavam os favoritos do príncipe e calúnias e censuras falsas com que difamavam aqueles de quem sabiam que os príncipes não gostavam.

Quem demonstra prazer em calúnias e histórias maldosas sempre terá por perto pessoas que lhe encherão os ouvidos delas. Provérbios 29:12 diz: “Se um governante dá ouvidos a mentiras, todos os seus servos são perversos”; eles o alegrarão com suas mentiras.

  1. A embriaguez e a farra eram abundantes na corte, v. 5. “O dia do nosso rei” era um dia de festa para eles: seu aniversário ou o dia da coroação, que provavelmente celebravam todos os anos; talvez fosse algum feriado estabelecido por ele, por isso chamado seu dia.

Nesse dia os príncipes se reuniam para brindar à saúde do rei. Levavam-no a festejar com eles e o deixavam doente com garrafas de vinho. Parece que o rei não costumava beber em excesso, mas num dia festivo os artifícios dos príncipes o levaram a isso.

Foi atraído pela qualidade do vinho, pela alegria da companhia ou pelos brindes que lhe insistiam em fazer. Tão pouco acostumado estava a beber assim que adoeceu. Isso é justamente imputado como crime, como crimen læsæ majestatis — traição —, aos que assim abusaram dele e o fizeram adoecer.

Não lhes servia de desculpa ser o dia do rei; agravava o crime, pois, fingindo honrá-lo, o desonraram ao máximo. Se embriagar uma pessoa comum é grave afronta e injúria, e há um ai para quem o faz (Habacuque 2:15), quanto mais o é embriagar um rei coroado! Quanto maior a dignidade de um homem, maior a desonra que a embriaguez lhe traz.

“Não é próprio dos reis, ó Lemuel, não é próprio dos reis beber vinho”, Provérbios 31:4, 5. Vejam quanto a embriaguez prejudica um homem, até um rei:

(1.) Na saúde: deixou-o doente. É uma violência contra a natureza. É estranho que encantos possam atrair homens, de resto bastante racionais, àquilo que, além de ofender a Deus e prejudicar seu bem-estar espiritual e eterno, causa desordem e doença imediatas ao próprio corpo.

(2.) Na honra: quando se embriagou, “estendeu a mão aos escarnecedores”. Aquele a quem se confiara o governo de um reino perdeu o governo de si mesmo e esqueceu:

[1.] A dignidade de rei, pois se familiarizou com atores e bufões e com pessoas cuja companhia era escandalosa.

[2.] O dever de rei, pois se aliou a ateus e a escarnecedores profanos da religião, a quem deveria ter feito calar e envergonhado. Assentou-se com os escarnecedores, que haviam chegado ao auge da impiedade. Juntou-se a eles, falou e agiu como eles e exerceu seu poder e estendeu a mão de seu governo em acordo com eles.

A bondade e as pessoas boas muitas vezes se tornam canção dos bêbados (Salmos 69:12; 35:16). Ai de você, ó terra, quando seu rei é criança a ponto de estender a mão aos que fazem deles motivo de canção, Eclesiastes 10:16.

  1. O adultério e a impureza predominavam entre as pessoas da corte. Disso tratam os versículos 4, 6 e 7, e a acusação de embriaguez aparece no meio desta seção, pois o vinho é óleo para o fogo da concupiscência, Provérbios 23:33.

Os que se inflamam de desejos carnais, os adúlteros (v. 4), são comparados repetidamente a um forno aquecido pelo padeiro: “Prepararam o coração como um forno” (v. 6); “todos eles estão quentes como um forno”, v. 7. Repare:

(1.) O coração impuro é como forno aquecido, e suas concupiscências e paixões impuras são o combustível que o aquece. É fogo interior, que guarda em si o calor. Assim adúlteros e fornicadores ardem secretamente em desejo, como diz Romanos 1:27.

O calor de um forno é intenso, especialmente como se descreve aqui. Quem o aquece atiça o fogo e não para de aumentá-lo até que o pão esteja pronto para entrar, amassado e levedado. Tudo isso indica que eles são como forno em seu ponto mais quente.

Ou melhor, o forno está quente demais para o padeiro, segundo o erudito dr. Pocock. Está mais quente do que ele gostaria; por isso, aquele que atiça o fogo para enquanto a massa amassada fermenta, para que o calor diminua um pouco. Assim ardem os desejos de um coração impuro.

(2.) Os impuros esperam uma oportunidade de satisfazer seus desejos perversos. Tendo preparado o coração como um forno, ficam à espreita de sua presa. “O olho do adúltero espera o crepúsculo”, Jó 24:15.

“Seu padeiro dorme a noite toda; pela manhã o forno arde como fogo flamejante.” O padeiro acende o fogo no forno, coloca combustível suficiente e vai dormir. Pela manhã encontra o forno bem aquecido e pronto para o que pretende fazer.

Assim também essas pessoas perversas: depois de urdir alguma trama e conceber o desígnio de satisfazer desejos cobiçosos, ambiciosos, vingativos ou impuros, têm o coração tão decidido a fazer o mal que, ainda que contenham os desejos por algum tempo, o fogo das paixões corrompidas continua a arder por dentro.

Assim que surge uma oportunidade, os planos que conceberam e imaginaram se manifestam em atos, como o fogo irrompe em chamas quando encontra saída. Por isso, todos são quentes como um forno. Repare: a concupiscência no coração é como fogo no forno, que o aquece.

Virá, porém, o dia em que os que assim fazem de si próprios um forno ardente com suas paixões vis, se esse fogo não for apagado pela graça divina, serão feitos como forno ardente pela cólera de Deus (Salmos 21:9), quando vier o dia que arderá como forno, Malaquias 4:1.

  1. Resistem aos meios apropriados de reforma e reparação: “Devoraram seus juízes”, os poucos bons juízes que havia entre eles e que teriam apagado os fogos que os inflamavam. Voltaram-se contra eles e não lhes permitiram fazer justiça. Estavam prontos para apedrejá-los e talvez o tenham feito.

Ou, segundo alguns, provocaram a Deus a tirar-lhes a bênção da magistratura e a deixar tudo em confusão: “Todos os seus reis caíram”, um após outro, e suas famílias com eles. Isso só podia lançar o reino no tumulto, fragmentá-lo em partidos rivais e causar muito derramamento de sangue.

Há ressentimentos ardentes entre eles; são quentes como um forno de cólera e malícia uns contra os outros. Isso leva à destruição de seus juízes e à queda de seus reis. “Pelas transgressões de uma terra, muitos são os seus príncipes”, Provérbios 28:2.

Mas, em meio a toda essa tribulação e desordem, ninguém entre eles clama a Deus, vê sua mão estendida contra eles nesses juízos e lhe pede que afaste seus golpes. Ninguém, ou quase ninguém, se esforça por apegar-se a Deus, Isaías 64:7.

Repare: não apenas se inflamam pelo pecado, mas também se endurecem nele os que continuam a viver sem oração mesmo em meio à tribulação e à aflição.

Os Crimes do Povo; A Insensatez de Efraim; A Rebelião Obstinada de Efraim; A Hipocrisia de Efraim. (a.C. 750.)

Versículos 8 a 16

Depois de ver quão viciosa e corrompida era a corte, examinemos agora o país. Descobrimos que não era melhor; não surpreende que a enfermidade que tomou a cabeça afete o corpo inteiro, de modo que nada nele seja são. Revelam-se tanto a iniquidade de Efraim quanto o pecado de Samaria, tanto os do povo quanto os dos príncipes. Aqui estão diversos exemplos:

I. Não eram separados para Deus nem inteiramente dele, como deveriam ser, v. 8:

  1. Não se distinguiam dos pagãos como Deus os distinguira: “Efraim se misturou com os povos”. Associou-se a eles e se conformou a eles; de certo modo, confundiu-se com eles e perdeu entre eles sua identidade.

Deus dissera que “o povo habitará só”; eles, porém, se misturaram aos pagãos e aprenderam suas obras, Salmos 106:35. Andavam entre as nações para pedir ajuda de uma contra outra, segundo alguns. Se tivessem permanecido junto de Deus, não precisariam do auxílio de nenhuma delas.

  1. Não se dedicavam inteiramente a Deus: “Efraim é um bolo não virado”, queimado de um lado e cru do outro, inútil de ambos os lados. Como no tempo de Acabe, vacilavam entre Deus e Baal. Às vezes pareciam zelosos por Deus; em outras, igualmente fervorosos por Baal.

Repare: é triste pensar quantos, embora professem a religião de certa maneira, são uma mistura de opostos e incoerências, como um bolo não virado: contradizem a si mesmos continuamente e estão sempre num extremo ou no outro.

II. Eram estranhamente insensíveis aos juízos de Deus sob os quais viviam e que ameaçavam arruiná-los, v. 9. Observe:

  1. A condição em que se encontravam. Deus lhes era, em seus juízos, como traça e podridão. Aproximavam-se silenciosa e lentamente da ruína de seu Estado, em parte pela invasão gradual de estrangeiros: “Estranhos lhe devoraram a força”; consumiram-no. Gastaram sua riqueza e seus tesouros, reduziram sua população e consumiram os frutos da terra.

Alguns os devoraram em guerras abertas, como em 2 Reis 13:7, quando o rei da Síria os fez como pó da debulha. Outros fingiram tratados de paz e amizade para extorquir-lhes grandes riquezas. Israel pagou caro por algo que não lhe serviu de nada e pelo qual depois pagaria ainda mais caro, como em 2 Reis 16:9.

Foi isso que Efraim ganhou ao misturar-se com os pagãos e permitir que eles se misturassem com ele: devoraram aquilo em que se apoiava e com que se sustentava. Repare: quem não faz de Deus sua força (Salmos 52:7) faz sua força de algo que os estrangeiros logo devorarão.

Também decaíam por causa de sua própria má administração: “Cãs lhe estão espalhadas aqui e ali”, isto é, os tristes sinais de um Estado em declínio, que envelhece e está prestes a desaparecer, e os efeitos da tribulação e da aflição. Cura facit canos — a preocupação faz embranquecer os cabelos.

A amendoeira ainda não floresce, mas começa a mudar de cor, anunciando claramente que vêm os dias maus e os anos dos quais se dirá: “Não tenho prazer neles”, Eclesiastes 12:1, 5.

  1. O descaso por esses avisos: “Ele não o sabe”. Não percebe que a mão de Deus se ergueu contra ele. A mão está levantada, mas ele não a quer ver, Isaías 26:11. Não sabe quão perto está sua ruína e não toma providência alguma para evitá-la. Repare: a insensibilidade sob juízos menores pressagia outros maiores.

III. Persistiam obstinadamente em seus caminhos perversos e não eram trazidos de volta pelas repreensões que recebiam (v. 10): “A soberba de Israel testemunha contra ele”, como antes (Oseias 5:5). Sob providências humilhantes, seu coração continuava sem humilhar-se e seus desejos pecaminosos, sem mortificar-se.

Pela soberba de seu rosto não buscam a Deus (Salmos 10:4). Não voltam ao Senhor, seu Deus, com arrependimento e reforma, nem o buscam com fé e oração, apesar de tudo isso. Embora sofram por se afastarem dele, embora nunca possam ficar bem até voltar e embora tenham procurado em vão alívio junto a outros, não pensam em recorrer a Deus.

IV. Agiam de maneira insensata em seus conselhos e recorriam a meios muito errados em suas aflições (vv. 11-12): “Efraim é como uma pomba tola, sem coração”. Ser inofensivo como pomba, sem fel e sem ferir os outros, é louvável. Ser, porém, tolo como pomba, sem entendimento para defender-se e cuidar da própria segurança, é vergonhoso.

  1. A insensatez dessa pomba consiste em que:

(1.) Não lamenta a perda dos filhotes que lhe são tirados, mas volta a fazer o ninho no mesmo lugar. Assim, veem seu povo levado pelo inimigo e não se abalam; continuam a tratar com os que os tratam cruelmente.

(2.) É facilmente atraída pela isca para a rede e não tem coração nem entendimento para discernir o perigo, como têm muitas outras aves, Provérbios 1:17. Corre para a armadilha sem saber que sua vida está em risco (Provérbios 7:23). Assim foram atraídos a alianças com nações vizinhas que os arruinaram.

(3.) Quando se assusta, não tem coragem de permanecer no pombal, onde está segura sob a proteção cuidadosa de seu dono. Esvoaça em busca de abrigo, primeiro num lugar, depois em outro, expondo-se ainda mais.

Assim também esse povo: quando estava em aflição, não buscava a Deus nem voava como as pombas para suas janelas, onde estaria protegido das aves de rapina. Lançava-se para fora da proteção divina, clamava ao Egito por ajuda e corria à Assíria.

Em vão buscava longe um socorro que, por arrependimento e oração, poderia encontrar mais perto, em seu Deus. Repare: é tolice e insensatez confiar nas criaturas para obter refúgio e alívio que só se encontram em Deus, quando se tem um Deus no céu. Quem age assim é povo sem entendimento, sem coração.

  1. Vejam o que acontece com essa pomba tola (v. 12): quando forem ao Egito e à Assíria, “estenderei sobre eles minha rede”. Repare: quem não permanece junto da misericórdia de Deus deve esperar ser perseguido pela justiça dele. Aqui:

(1.) São apanhados: “Estenderei sobre eles minha rede”; eu os porei em aperto para que percebam sua insensatez e pensem em voltar. Repare: é comum que os que se afastam de Deus encontrem armadilhas onde esperavam abrigo.

(2.) São humilhados. Elevam-se, orgulhosos de suas alianças estrangeiras e confiantes nelas. “Eu os farei descer”, por mais alto que voem, como aves do céu atingidas em pleno voo. Repare: Deus pode e há de rebaixar os que se exaltam como a águia, Obadias 1:3-4.

(3.) Sofrem por sua insensatez: “Eu os castigarei”. Repare: as decepções que encontramos nas criaturas ao depositar nelas nossa confiança são castigo ou disciplina necessários para aprendermos a ser mais sábios da próxima vez.

(4.) Em tudo isso se cumpre a Escritura. É “como ouviu sua congregação”. Nas reuniões religiosas, ouviram muitas vezes pela palavra de Deus, lida, pregada e cantada: “Vão é o socorro humano; no filho do homem não há ajuda”.

Ouviram da lei e dos profetas quais juízos Deus traria sobre eles por sua maldade. Agora verão e sentirão aquilo que ouviram. Repare: devemos prestar atenção à palavra de Deus que ouvimos repetidamente na congregação e deixar-nos governar por ela, pois em breve seremos julgados por ela.

Os avisos públicos, claros e repetidos justificarão Deus ao condenar os pecadores e tornarão a condenação mais grave para eles; contudo, não quiseram ouvi-los. “Filho, lembre-se de que lhe disseram o que aconteceria. Agora vê que não eram palavras vãs.” Veja Zacarias 1:6.

V. Revoltaram-se contra Deus e se rebelaram contra ele, apesar dos diversos meios que empregou para conservá-los fiéis, vv. 13-15. Observe:

  1. Quão bondosa e ternamente Deus os tratara, como soberano gracioso para com um povo que lhe era querido e cuja prosperidade muito lhe importava. Ele os resgatara (v. 13), tirando-os primeiro do Egito e livrando-os depois de muitas aflições.

“Atou e fortaleceu seus braços”, v. 15. Quando sua força enfraquecia como braço quebrado ou deslocado, Deus o recolocava no lugar e o enfaixava, como o cirurgião faz com um osso quebrado para que se una. Deus dera a Israel vitórias sobre os sírios (2 Reis 13:16-17) e restaurara suas fronteiras (2 Reis 14:25-26). Revestira-os de força para a batalha.

“Embora eu os tenha castigado”, conforme a leitura à margem, “ora os corrigindo e ensinando por suas faltas, ora fortalecendo seus braços e aliviando-os, embora tenha empregado meios brandos e severos, tudo foi inútil. Não reagiram nem à misericórdia nem ao juízo.”

  1. Quão descarada fora, apesar disso, sua conduta para com ele! Ela é descrita aqui para convencer e humilhar todos os que persistem em algum caminho perverso, para que vejam quão pecaminoso e grave é seu pecado, como o Deus do céu o interpreta e quanto se desagrada dele:

(1.) Deus os chamara a si com amor e os recebera em aliança consigo; eles, porém, fugiram dele como se fosse inimigo perigoso, quando sempre se mostrara amigo fiel.

Vagueavam longe de Deus como a pomba ingênua longe do ninho. Quem o abandona não encontra descanso nem estabilidade nas criaturas, mas vagueia sem fim. Fugiram dele ao abandonar seu culto e seu serviço e romper a fidelidade que lhe deviam.

(2.) Deus lhes dera suas leis, todas santas, justas e boas, para mantê-los no caminho certo. Eles, porém, transgrediram contra ele; pecaram deliberada e presunçosamente, de mão levantada e pescoço rígido, conforme o sentido da expressão.

Romperam a cerca da lei divina e, desse modo, contrariaram o desígnio do amor divino.

(3.) Deus lhes revelara suas verdades e lhes dera todas as provas possíveis da sinceridade de sua boa vontade. Mesmo assim, falaram mentiras contra ele. Puseram falsos deuses em competição com ele e negaram sua providência e seu poder. Assim desmentiram o Senhor, Jeremias 5:12.

Rejeitaram as mensagens que lhes enviava pelos profetas e disseram que teriam paz, embora continuassem no pecado, contrariando diretamente o que ele dissera. Mentiam ao Senhor em suas profissões hipócritas de religião, demonstrações de devoção e promessas de emenda; ele as considerava mentiras contra si.

(4.) Deus era seu legítimo Senhor e Rei e sempre governara Jacó com equidade e para o bem público. Eles, porém, rebelaram-se contra ele, v. 14. Não apenas se afastaram: pegaram em armas contra ele; se pudessem, o teriam deposto e posto outro em seu lugar.

(5.) Deus tinha bons desígnios para eles; eles, porém, maquinaram o mal contra ele, v. 15. O pecado é coisa nociva, um mal contra Deus, pois é traição contra sua coroa e dignidade. Isso não significa que os pecadores possam fazer algo para ferir o Criador, como observa um dos antigos acerca dessas palavras; contudo, fazem o que podem.

É ainda pior quando não agem por surpresa ou descuido, mas de propósito e com planejamento. Os judeus têm um ditado que o dr. Pocock cita aqui: “Os pensamentos de transgressão são piores que a transgressão”. Para Deus, maquinar o mal é cometê-lo.

Segundo nossa lei, planejar e imaginar a morte do rei é traição. Os que imaginam uma coisa má, ainda que se mostre vã (Salmos 2:1), prestarão contas pelo pensamento.

  1. Como serão punidos por isso (v. 13): “Ai deles, porque fugiram de mim!” Repare: os ais perseguem quem foge de Deus, e essas pessoas se encontram, sem dúvida, em situação terrível. A cólera de Deus se revela do céu contra elas; a palavra divina diz: “Ai deles!”

Observem o que vem imediatamente depois: “Destruição sobre eles!” Repare: os ais da palavra de Deus têm efeitos reais; a destruição lhes dá cumprimento. Os juízos de sua mão confirmarão os de sua boca. Aqueles a quem ele amaldiçoa e declara desgraçados são, de fato, amaldiçoados e desgraçados.

VI. Suas demonstrações de devoção e reforma eram só aparência; com elas, apenas zombavam de Deus.

  1. Fingiam devoção, mas não eram sinceros, v. 14. Quando a mão de Deus se levantava contra eles, faziam algum apelo a ele. Quando ele os matava, buscavam-no; “Senhor, na tribulação te visitaram”. Tudo, porém, era hipocrisia:

(1.) Quando sofriam tribulações pessoais e invocavam a Deus em segredo, não eram sinceros: “Não clamaram a mim de coração quando uivavam em seus leitos”. Castigados com dores na cama, com muitos ossos doloridos, talvez enfermos por feridas recebidas na guerra, clamavam, gemiam e se queixavam sob formas de devoção.

Talvez empregassem muitas palavras boas e adequadas à situação: “Deus, ajuda-nos”; “Senhor, olha para nós”. Mas não clamavam de coração; por isso, Deus não considerava aquilo um clamor dirigido a ele. Diz-se que Moisés clamou a Deus sem pronunciar palavra, porque apenas seu coração orava com fé e fervor, Êxodo 14:15.

Eles faziam muito barulho e diziam muitas coisas, mas não clamavam a Deus, pois seu coração não era reto diante dele: não se submetia à sua vontade, não se dedicava à sua honra nem se aplicava a seu serviço.

Orar é elevar a alma a Deus; essa é a essência da oração. Sem isso, por melhores que sejam as palavras escolhidas, elas são apenas vento. Com isso, a oração é aceita mesmo quando os gemidos não podem ser expressos. Repare: quem não ora em espírito não ora a Deus de modo algum.

Deus está tão longe de aprovar e receber essa oração que a chama de uivo. Alguns entendem que isso indica o ruído de suas orações: clamavam a Deus como costumavam clamar a Baal, pensando que precisavam acordá-lo. Ou indica as paixões violentas e animalescas que exprimiam ao orar: rosnavam para a pedra e uivavam sob o açoite, sem considerar a mão que o aplicava.

Ou indica que suas orações hipócritas, longe de agradar a Deus, o ofendiam. Ele se irava com elas. “Os cânticos do templo serão uivos”, Amós 8:3. Deus não terá pena dos que tantas vezes riram de sua autoridade; com justiça, rirá de sua calamidade.

(2.) Quando passavam por tribulações públicas e se reuniam para pedir o favor de Deus, também eram hipócritas. Reuniam-se por formalidade, porque era costume convocar assembleia solene em tempos de luto geral, Sofonias 2:1.

Reuniam-se apenas para pedir cereal e vinho, aquilo de que precisavam e que temiam perder pela falta de chuva, o juízo sob o qual então sofriam. Não pediam o favor nem a graça de Deus, que ele lhes concedesse arrependimento, perdoasse seus pecados e afastasse sua cólera. Pediam apenas que não lhes tirasse o cereal e o vinho.

Repare: ao orar a Deus, os corações carnais cobiçam apenas misericórdias temporais e só temem e procuram evitar juízos temporais, pois não percebem nenhum outro tipo.

  1. Fingiam reforma, mas também nisso não eram sinceros, v. 16. Aqui temos:

(1.) O pecado de Israel: “Eles voltam”, isto é, fazem como se quisessem voltar. Fingem arrepender-se e corrigir sua conduta, mas não levam isso a cabo. Não retornam a Deus nem à fidelidade que lhe devem, embora ele diga (Jeremias 4:1): “Se você voltar, ó Israel, volte para mim”. Não apenas se voltem em minha direção, mas voltem para mim.

Essa dissimulação os torna semelhantes a um arco enganoso, que parece adequado ao uso e é envergado e armado, mas, quando se aplica força a ele, ou o arco ou a corda se rompe, e a flecha, em vez de atingir o alvo, cai aos pés do arqueiro. Assim eram suas tentativas de arrependimento e reforma.

(2.) O pecado dos príncipes de Israel: a fúria de sua língua. Tinham desavenças com Deus, com sua providência e com todos ao redor quando contrariados. Os príncipes pensam que podem dizer o que quiserem e que sua prerrogativa é falar com arrogância, esbravejar, amaldiçoar, insultar e chamar os outros pelos nomes que bem entendam.

Saibam, porém, que há um Deus acima deles que lhes pedirá contas da fúria de sua língua e fará que a própria língua se volte contra eles.

(3.) A punição de Israel e de seus príncipes pelo pecado: os príncipes cairão à espada de seus inimigos ou de seu próprio povo, uns de um modo, outros de outro. “Este será seu escárnio”: por isso serão ridicularizados na terra do Egito, quando fugirem para lá em busca de socorro, v. 11.

Seu pecado e sua punição os tornarão motivo de riso para todos ao redor. Repare: quem é traiçoeiro e enganoso ao tratar com Deus, e irascível e desmedido na conduta para com os homens, será justamente ridicularizado pelos vizinhos, pois se torna ridículo.


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