Matthew Henry

Oseias 4

Argumento

Os profetas eram enviados para repreender: mostrar ao povo suas faltas e adverti-lo dos juízos de Deus aos quais se expunha pelo pecado. É disso que o profeta se ocupa neste capítulo e nos seguintes.

Aqui, como advogado do Rei dos reis, ele apresenta uma acusação contra o povo de Israel e procura convencê-lo de seu pecado, da miséria e do perigo que daí resultam, a fim de levá-lo ao arrependimento e à reforma.

I. Mostra os motivos da contenda de Deus com eles: o predomínio geral do vício e da impiedade (v. 1, 2); a ignorância e o esquecimento de Deus (v. 6, 7); a mentalidade mundana dos sacerdotes (v. 8); a embriaguez e a impureza (v. 11); a prática da adivinhação e da feitiçaria (v. 12); os sacrifícios nos lugares altos (v. 13); as prostituições (v. 14, 18); e os subornos entre os magistrados, v. 18.

II. Mostra as consequências dessa contenda. Deus os castigaria por essas coisas, v. 9. Toda a terra seria devastada (v. 3), todas as classes de pessoas seriam eliminadas (v. 5), perderiam sua honra (v. 7), os bens terrenos não lhes trariam satisfação (v. 10) e eles próprios seriam envergonhados, v. 19.

O juízo mais severo de todos, mencionado várias vezes aqui, seria Deus deixá-los entregues a seus pecados (v. 17). Não se repreenderiam uns aos outros (v. 4), Deus não os castigaria (v. 14); mais ainda, ele os deixaria prosperar, v. 16.

III. Adverte Judá a não seguir os passos de Israel, pois viam que esses passos desciam ao inferno, v. 15.

Versículos 1 a 5

A Pecaminosidade de Israel. (a.C. 758.)

Aqui temos:

I. O tribunal instalado, exigindo a presença e a atenção das partes: “Ouçam a palavra do Senhor, filhos de Israel, pois a vocês se dirige esta palavra de acusação, quer a ouçam, quer se recusem a ouvi-la”. De quem Deus poderia esperar uma audiência justa e atenção ao seu aviso senão dos filhos de Israel, o povo que professa ser seu?

Sim, eles estariam prontos a ouvir quando Deus lhes falasse palavras de consolo. Mas estariam dispostos a ouvir quando ele tivesse uma contenda com eles? Precisam ouvi-lo quando apresenta sua causa contra eles e tem algo de que acusá-los: “O Senhor tem uma contenda com os habitantes da terra”, desta terra, desta terra santa.

Repare: o pecado é o grande causador de conflitos; semeia discórdia entre Deus e Israel. Deus vê pecado em seu próprio povo e tem justa causa contra ele. Há acusações específicas contra seu povo que não são feitas a outros pecadores: violar a aliança, trazer descrédito ao seu nome e retribuir seus favores com ingratidão.

A contenda de Deus será apresentada: primeiro pelos juízos de sua boca, depois pelos juízos de sua mão. Assim ele será justificado em tudo que fizer e mostrará que não deseja a morte dos pecadores. Devemos prestar atenção ao que ele alega, pois, cedo ou tarde, sua causa será ouvida.

II. A acusação lida, que imputa a toda a nação crimes graves pelos quais Deus é grandemente provocado:

  1. São acusados de omitir, como nação, os deveres mais importantes: “Não há verdade nem misericórdia”, nem justiça nem caridade. São os assuntos mais importantes da lei, conforme a avaliação do Salvador (Mateus 23:23): juízo, misericórdia e fé.

A maioria parecia não ter noção alguma do que se chama honestidade. Não cuidavam conscienciosamente do que diziam e faziam, por mais contrário que fosse à verdade e por mais dano que causasse ao próximo. Muito menos reconheciam a misericórdia ou a obrigação de compadecer-se dos pobres e ajudá-los.

Não surpreende que faltem verdade e misericórdia onde não há conhecimento de Deus na terra. Que bem se pode esperar ali? O privilégio daquela terra era que Deus se fizera conhecido em Israel, e grande era seu nome. Isso agravava o pecado deles: não o conheciam, Salmos 76:1.

  1. Daí vêm os pecados mais monstruosos que a nação comete contra ambas as tábuas da lei, pois não respeitavam nenhuma delas. Juramentos, mentiras, homicídios, furtos e adultérios violavam o terceiro, o nono, o sexto, o oitavo e o sétimo mandamentos. Encontravam-se por todos os cantos da terra, entre pessoas de todas as classes e posições, v. 2.

A corrupção era geral. Os justos que havia entre eles ou tinham desaparecido ou estavam escondidos, ou se escondiam por conta própria. Por esses pecados, “rompem os limites”: ultrapassam toda fronteira da razão, da consciência e da lei divina. “Excederam” (Jó 36:9) e foram “perversos em excesso” (Eclesiastes 7:17).

Deixam sua corrupção irromper. Eles próprios transbordam e rompem tudo o que se ergue à sua frente para deter sua carreira pecaminosa, como a água que extravasa das margens. Repare: o pecado é violento e seu poder, desmedido. Quando o coração dos homens está inteiramente decidido a fazer o mal (Eclesiastes 8:11), que poderá detê-los? Gênesis 11:6.

Quando assim rompem os limites, “sangue toca sangue”: muitos homicídios são cometidos por toda a terra, quase numa série e sucessão contínuas. Cædes aliæ aliis sunt contiguæ: homicídios se encostam a homicídios. Uma corrente de sangue corre entre eles, até mesmo sangue real.

Foi por essa época que tanto sangue se derramou na disputa pela coroa. Salum matou Zacarias; Menaém matou Salum; Peca matou Pecaías; e Oseias matou Peca. É provável que outros pretendentes tenham agido com igual violência. A terra ficou contaminada de sangue (Salmos 106:38) e cheia de sangue de uma extremidade à outra, 2 Reis 21:16.

III. A sentença proferida contra essa terra culpada e contaminada, v. 3. Ela será completamente destruída e devastada. Toda a terra está infectada pelo pecado; por isso, toda ela lamentará sob os severos juízos de Deus e se assentará em luto, despojada de toda a riqueza e beleza.

Assim como se diz que os vales gritam de alegria e cantam quando há abundância e paz, aqui se diz que lamentam quando a guerra e a fome os deixam desolados. Toda a terra será enxofre, sal e incêndio, conforme a ameaça da lei em Deuteronômio 29:23. Eles violaram todos os mandamentos de Deus; agora ele ameaça tirar-lhes todos os confortos.

A terra lamenta quando não há capim para os animais nem plantas para o uso humano. Então todos os que nela habitam definharão por falta de alimento agradável para sustentar uma vida que se esvai, e se afligirão por falta dos pratos finos que costumavam desfrutar. Os animais do campo definharão, Jeremias 14:5, 6.

Mais ainda: os frutos da terra serão tão devastados que não restará alimento nem para as aves do céu. Elas sofrerão com os homens, e sua morte ou magreza será punição para aqueles que costumavam encher a mesa de aves de caça. Até os peixes do mar serão retirados ou reunidos em cardumes que partirão para outra costa; assim, a pesca deixará de render.

Nesse aspecto, a desolação será mais geral que a do dilúvio de Noé, pois aquele não atingiu os peixes do mar, mas esta os atingirá. Uma das pragas do Egito matou seus peixes (Salmos 105:29); quando as águas secam, os peixes morrem, Isaías 50:2; Sofonias 1:2, 3.

Repare: quando o homem se torna desobediente a Deus, é justo que as criaturas inferiores deixem de lhe ser úteis. Quanta razão temos para admirar a paciência e a misericórdia de Deus para com nossa terra! Embora haja nela tantos juramentos, mentiras, homicídios, furtos e adultérios, nossas mesas ainda têm carne, peixe e aves em abundância.

IV. Uma ordem do tribunal para que ninguém se empenhe em levar o condenado ao arrependimento, acompanhada da razão dessa ordem. Observe:

  1. A própria ordem (v. 4): “Que ninguém contenda nem repreenda outro”. Nenhum meio deve ser usado para trazê-los de volta e recuperá-los; que os médicos desistam deles como casos desesperados e incuráveis. Isso indica que, enquanto houver esperança, devemos repreender os pecadores por seus pecados.

Dar e receber repreensões é um dever que temos uns para com os outros. Era uma das leis de Moisés (Levítico 19:17): “Certamente repreenderás o teu próximo”. É uma expressão do amor fraternal. Às vezes é preciso repreender severamente, não só censurar, mas contender, tão relutantes são os homens em abandonar seus pecados.

Mas é sinal de que pessoas e povos foram abandonados à ruína quando Deus diz: “Não sejam repreendidos”. Deve-se entender isso como as ordens que Deus por vezes deu aos profetas para não orarem pelo povo, apesar das quais eles oravam. O sentido é que o povo está tão endurecido no pecado e tão maduro para a ruína que pouco adiantará tratar com ele ou tratar com Deus em favor dele.

Repare: é mau sinal para um povo quando os que repreendem são silenciados e aqueles que deveriam testemunhar contra os pecados de seu tempo se recolhem a um canto e desistem da causa. Veja-se 2 Crônicas 25:16.

  1. As razões da ordem. Que não se repreendam uns aos outros, pois:

(1.) Estão decididos a continuar no pecado, e nenhuma repreensão os curará: “Seu povo é como os que contendem com os sacerdotes”. Tornaram-se tão descarados no pecado, tão insolentes e intolerantes à repreensão que enfrentariam até o próprio sacerdote se ele lhes dirigisse a menor censura, sem respeito algum por seu caráter e seu ofício. Como, então, receberiam uma repreensão de alguém sem cargo?

Repare: têm o coração perversamente endurecido os pecadores que brigam com seus ministros por estes tratarem com fidelidade com eles. Quem se rebela contra a repreensão ministerial, ordenança de Deus para sua reforma, perde também o benefício da repreensão fraternal.

Talvez isso se refira à recente maldade de Joás, rei de Judá, e de seu povo. Apedrejaram Zacarias, filho de Joiada, por lhes transmitir uma mensagem de Deus, 2 Crônicas 24:21. Zacarias era sacerdote; com ele contenderam quando ministrava entre o templo e o altar.

O dr. Lightfoot pensa que o profeta tinha esse caso em mente ao falar (v. 2) de sangue tocando sangue: o sangue do sacrificador misturou-se ao do sacrifício. Esse, diz ele, foi o auge da maldade deles; daí se deveria datar sua ruína (Mateus 23:35). Do mesmo modo, o fato de contenderem com o sacerdote é o auge de sua obstinação: por isso, ninguém os repreenda.

(2.) Deus também está decidido a consumar sua ruína (v. 5): “Portanto, porque você não aceita repreensão nem conselho, cairá. É inútil alguém pensar em impedi-lo, pois o decreto já foi promulgado. Você tropeçará e cairá de dia, e o profeta, o falso profeta que o lisonjeou e seduziu, cairá com você à noite”.

“Tanto você como seu profeta cairão de noite e de dia; cairão sem cessar numa calamidade ou noutra. A escuridão da noite não ajudará a escondê-lo da tribulação, nem a luz do dia o ajudará a fugir dela.” Os profetas são guias cegos, e o povo, seguidores cegos. Para os cegos, dia e noite são iguais; assim, de dia ou de noite, ambos cairão juntos na cova.

“Você cairá de dia, quando menos teme a queda e se julga muito seguro; e de dia, quando outros a verão e notarão, para sua maior vergonha. O profeta cairá à noite, quando a queda lhe será mais terrível.” Repare: a ruína daqueles que ajudaram a arruinar outros será especialmente insuportável.

Pensavam os filhos que, em perigo de cair, sua mãe os ajudaria? Esperariam em vão, pois “destruirei sua mãe”: Samaria, a cidade-mãe, todo o Estado ou reino que é como mãe para cada parte. Tudo será silenciado. Repare: quando todos participam da culpa, só se pode esperar que todos participem da ruína.

Motivos da Contenda de Deus com Israel; Os Pecados dos Sacerdotes e do Povo. (a.C. 758.)

Versículos 6 a 11

Deus prossegue aqui em sua contenda tanto com os sacerdotes quanto com o povo. O povo era como os que contendiam com os sacerdotes (v. 4), quando havia sacerdotes que cumpriam seu dever. Mas a maioria destes negligenciava o próprio dever. Há aqui uma palavra para esses sacerdotes e para o povo que gostava de vê-los assim, Jeremias 5:31.

É notável como a punição corresponde ao pecado e como Deus, para justificar sua conduta, coloca um diante do outro.

I. O povo contendia com os sacerdotes que deveriam ensinar-lhe o conhecimento de Deus. Por isso, com justiça, foi destruído por falta de conhecimento, v. 6. Repare: os que se rebelam contra a luz só podem esperar perecer nas trevas.

Ou esta é uma acusação contra os sacerdotes, que deveriam ter continuado a ensinar conhecimento ao povo (Eclesiastes 12:9), mas não o fizeram, ou o fizeram tão mal que foi como se nada tivessem feito. Assim, não havia conhecimento de Deus na terra. Como não havia visão, ou nenhuma de proveito, o povo pereceu, Provérbios 29:18.

Repare: a ignorância está tão longe de ser mãe da devoção que é mãe da destruição. A falta de conhecimento arruína qualquer pessoa ou povo. São “meu povo” os que assim são destruídos.

Sua condição de povo de Deus agrava o pecado de não se esforçarem por conhecer aquele a cujo comando estavam sujeitos e com quem haviam feito aliança. Agrava também o pecado dos que deveriam ensiná-los. Deus entregou-lhes seus filhos para serem instruídos, mas eles não lhes deram atenção nem se esforçaram por eles.

II. Sacerdotes e povo rejeitaram o conhecimento; por isso, com justiça, Deus os rejeitará. O povo não aprendeu, e os sacerdotes não ensinaram, não por falta de luz, mas porque a odiavam. Não lhes faltavam meios de conhecer a Deus e transmitir esse conhecimento; faltava-lhes vontade. Rejeitaram-no.

Não desejavam conhecer os caminhos de Deus. Afastaram de si esse conhecimento e fecharam os olhos à luz. Por isso Deus diz: “Eu também o rejeitarei; recusarei tomar conhecimento de você e reconhecê-lo. Vocês não querem me conhecer e mandam que eu vá embora; portanto, direi: Afastem-se de mim, não os conheço. Você não será meu sacerdote”.

  1. Os sacerdotes não serão mais admitidos aos privilégios do sacerdócio nem empregados em seus serviços. Nunca mais serão recebidos, como se vê em Ezequiel 44:13. Repare: ministros que rejeitam o conhecimento e são grosseiramente ignorantes e escandalosos não devem ser reconhecidos como ministros. Até aquilo que parecem ter deve ser-lhes tirado, Lucas 8:18.

  2. O povo não continuará sendo o que era: um reino de sacerdotes, um sacerdócio real, Êxodo 19:6. Ao rejeitar o conhecimento, o povo de Deus perde sua honra e profana a própria coroa.

III. Esqueceram-se da lei de Deus. Não desejaram nem procuraram guardá-la na memória, tampouco transmitir sua lembrança aos descendentes. Por isso, com justiça, Deus se esquecerá deles e de seus filhos, os filhos do povo. Não os educaram, como deviam, no conhecimento de Deus e de seu dever para com ele; portanto, Deus não os reconhecerá como participantes de sua aliança.

Repare: se os pais não ensinarem os filhos, enquanto jovens, a lembrar-se de seu Criador, não podem esperar que o Criador se lembre deles. Ou a referência pode ser aos filhos dos sacerdotes: não sucederão a seus pais no ofício sacerdotal, mas serão reduzidos à pobreza, como se ameaçou à casa de Eli, 1 Samuel 2:31-36.

IV. Desonraram a Deus com aquilo que lhes servia de honra; por isso, com justiça, Deus os despojará dessa honra, v. 7. Era motivo de honra para eles terem crescido em número, riqueza, poder e dignidade. O começo da nação foi pequeno; com o tempo, porém, ela cresceu muito e se tornou importante. A família dos sacerdotes também se multiplicou admiravelmente.

Mas, à medida que cresciam, pecavam contra Deus. Quanto mais numerosa se tornava a nação, mais pecados cometia e mais ímpia ficava. A riqueza, a honra e o poder apenas os tornavam mais ousados no pecado.

“Portanto”, diz Deus, “transformarei sua glória em vergonha”. Seu número é motivo de glória? Deus os reduzirá e os tornará poucos. Sua riqueza é motivo de glória? Deus os empobrecerá e rebaixará, de modo que terão vergonha daquilo de que se orgulhavam. Seus sacerdotes se tornarão desprezíveis e vis, Malaquias 2:9.

Repare: se desonramos a Deus com aquilo que nos honra, cedo ou tarde essa honra se tornará vergonha para nós. Os que desprezam a Deus serão tidos em pouca conta, 1 Samuel 2:30.

V. Os sacerdotes se alimentavam do pecado do povo de Deus; por isso, comerão sem se fartar:

  1. Abusavam do sustento reservado aos sacerdotes: pela lei de Deus, aos da casa de Arão; por sua própria organização, aos falsos sacerdotes dos bezerros (v. 8). “Alimentam-se do pecado do meu povo”, isto é, das ofertas pelo pecado. Se a referência for aos sacerdotes dos bezerros, mostra que tomavam aquilo a que não tinham direito: usurpavam a renda sacerdotal sem serem sacerdotes.

Se a referência for aos sacerdotes legítimos, mostra sua cobiça pelos ganhos e benefícios do ofício, embora não cuidassem de cumprir seus deveres. Banqueteavam-se com a parte que lhes cabia das ofertas ao Senhor, mas esqueciam o trabalho pelo qual eram tão bem sustentados.

Puseram o coração na iniquidade do povo; elevaram a alma para ela. Isso quer dizer que se alegravam quando o povo pecava, pois assim seria obrigado a trazer ofertas para expiar o pecado, das quais receberiam sua parte. Quanto mais pecados, mais sacrifícios. Não se importavam com quanto o povo pecava.

Os sacrifícios deveriam ajudá-los a advertir o povo contra o pecado, pois a necessidade de expiação mostrava quanto ele ofendia a Deus. Em vez disso, davam-lhe coragem e incentivo para pecar, já que a expiação poderia ser obtida a tão baixo custo. Assim se empanturravam com os pecados do povo e ajudavam a conservar o que deviam combater.

Repare: é grande maldade gostar dos pecados alheios porque, de um modo ou de outro, podem trazer-nos vantagem.

  1. Por isso, Deus retirará a bênção do sustento deles (v. 10): “Comerão, mas não se fartarão”. Embora tenham provisões fartas por causa da abundância de ofertas recebidas, não encontrarão satisfação nelas. Ou a comida não os nutrirá, ou seus apetites ávidos não se satisfarão.

Repare: o ganho ilícito não pode ser desfrutado com tranquilidade, nem aquilo que se cobiçou sem medida. É justo que desejos insaciáveis permaneçam insatisfeitos e que nunca se fartem os que nunca sabem quando têm o bastante. Veja-se Miquéias 6:14; Ageu 1:6.

VI. Quanto mais cresciam, mais pecavam (v. 7). Por isso, ainda que se prostituam e usem os meios mais perversos para multiplicar o povo, não aumentarão. Ainda que tenham muitas esposas e concubinas, como Salomão, suas famílias não se tornarão numerosas por isso, assim como não se tornou a dele.

Repare: os que esperam crescer por meios ilícitos ficarão decepcionados. Deus frustrará todos os seus projetos porque “deixaram de dar atenção ao Senhor”. Houve um tempo em que tinham algum respeito por Deus, por sua autoridade sobre eles e por sua relação com eles. Agora o perderam.

Não dão atenção à sua palavra nem às suas providências; em nenhuma delas dirigem os olhos a ele. Abandonaram-no a ponto de não lhe dar atenção. Afastaram-se tanto que já não têm respeito algum por Deus; vivem completamente sem Deus no mundo. Repare: quem deixa de dar atenção ao Senhor abandona todo o bem e só pode esperar que todo o bem o abandone.

VII. Povo e sacerdotes endureciam uns aos outros no pecado; por isso, com justiça, partilharão a punição (v. 9): “Como o povo, assim será o sacerdote”. Eram iguais em caráter: igualmente ignorantes e ímpios, sem atenção a Deus e ao dever, inclinados à idolatria.

Também terão a mesma condição. Deus lhes trará juízos que destruirão tanto os sacerdotes quanto o povo. A fome que tira a comida do povo tirará dos sacerdotes as ofertas de alimento, Joel 1:9. A descrição da desolação geral diz que será “como com o povo, assim com o sacerdote”, Isaías 24:2. Quando chegam com sua ordem, os juízos de Deus não fazem distinção.

Repare: quem partilha o pecado deve esperar partilhar a ruína. Assim Deus punirá a ambos por seus caminhos e lhes retribuirá segundo suas obras. Deus fará com que suas obras voltem sobre eles, conforme a expressão original. Quando comete o pecado, o pecador pensa que ele passou e que nunca mais ouvirá falar dele. Mas descobrirá que o pecado será trazido de volta, para sua humilhação ou condenação.

VIII. Entregaram-se aos prazeres dos sentidos para sustentar o ânimo, mas descobrirão que esses prazeres lhes tiram o coração (v. 11): “A prostituição, o vinho e o vinho novo tiram o coração”. Alguns ligam isso às palavras anteriores: abandonaram o Senhor para dar atenção à prostituição, ao vinho e ao vinho novo; ou porque essas coisas lhes tiraram o coração.

Ou podemos tomar a frase como uma sentença independente. Ela contém uma grande verdade que a experiência de cada dia confirma: a embriaguez e a impureza embrutecem e entorpecem os homens, enfraquecendo-os. Tiram-lhes tanto o entendimento quanto a coragem.

Os Pecados dos Sacerdotes e do Povo; Advertência a Judá. (a.C. 758.)

Versículos 12 a 19

Nestes versículos temos, como antes:

I. Os pecados imputados ao povo de Israel, pelos quais Deus tinha uma contenda com ele. São eles:

  1. A prostituição espiritual, ou idolatria. Há neles um espírito de prostituições, forte inclinação a esse pecado. O coração deles pende nessa direção; é sua própria iniquidade. São arrastados para ela com uma violência inexplicável, e isso os faz errar.

Repare: os erros do entendimento costumam vir dos afetos corrompidos. Os homens têm boa opinião do pecado porque se inclinam a ele. Como tinham ideias tão erradas dos ídolos e sentimentos tão apaixonados por eles, não admira que, com semelhante mente e coração, tenham “se prostituído, afastando-se de debaixo de seu Deus”, v. 12.

Deviam estar sujeitos a ele como cabeça e marido, sob sua direção e seu comando. Em vez disso, romperam sua lealdade e se puseram sob a direção e proteção de falsos deuses. Assim, Israel “se prostituiu” (v. 15); sua conduta no culto aos ídolos era a de uma prostituta, lasciva e descarada.

E Israel “recua como uma novilha rebelde” (v. 16), novilha não domada, segundo alguns, ou perversa e refratária, segundo outros. Solta, ela corre descontrolada pelo pasto. Se é posta sob o jugo, imagem que parece mais adequada aqui, puxa para trás em vez de seguir adiante e se debate para tirar o pescoço do jugo e os pés do sulco.

Assim era o povo de Israel: indisciplinado, ingovernável, intratável. Começara a puxar o jugo das ordenanças de Deus, mas recuou como os filhos de Belial, que não toleram jugo. Quando os profetas vieram com os aguilhões da repreensão para fazê-lo avançar, o povo deu coices contra eles e correu para trás.

O resumo de tudo está no v. 17: “Efraim está unido aos ídolos”, inteiramente casado com eles. Seu afeto está colado a eles, e neles está seu coração. Duas práticas mostram sua prostituição espiritual. Em ambas, deram aos ídolos a honra devida somente a Deus:

(1.) Consultavam-nos como oráculos e empregavam as artes de adivinhação que haviam aprendido com os sacerdotes idólatras (v. 12): “Meu povo pede conselho ao seu tronco”, aos seus deuses de madeira. Recorrem a eles para obter orientação sobre o que fazer e informação sobre o resultado.

Dizem ao tronco: “Você é meu pai” (Jeremias 2:27). Se fosse de fato um pai, mereceria essa honra. Mas era grave afronta a Deus, que era realmente o Pai deles e em cujo meio possuíam oráculos vivos, que podiam consultar a qualquer momento, pedir conselho a troncos de madeira.

Esperavam ainda que seu bastão lhes declarasse o caminho a seguir e o resultado. Isso provavelmente se refere a métodos perversos de adivinhação usados pelos gentios e aprendidos pelos judeus, com um pedaço de madeira ou um bastão, como Nabucodonosor adivinhava com suas flechas, Ezequiel 21:21.

Repare: os que abandonam os oráculos de Deus para tomar suas decisões segundo o mundo e a carne, na prática, apenas consultam troncos e bastões.

(2.) Ofereciam-lhes sacrifícios como a deuses cujo favor desejavam e cuja ira temiam e procuravam evitar (v. 13). Sacrificavam para fazer expiação e apaziguá-los; queimavam incenso para agradá-los e satisfazê-los; e esperavam, por ambos os atos, obter sua aprovação.

Deus escolhera o lugar onde registraria seu nome. Tendo-o abandonado, eles próprios escolheram, conforme suas fantasias, os lugares de seus ritos irreligiosos. Escolheram:

[1.] Lugares altos, nos cumes das montanhas e sobre os montes, imaginando tolamente que a altitude lhes daria alguma vantagem ao aproximar-se do céu.

[2.] Lugares sombreados, debaixo de carvalhos, choupos e olmos, porque a sombra lhes era agradável, especialmente em países quentes, e por isso pensavam que agradaria também aos seus deuses. Ou imaginavam que a sombra espessa favorecia a contemplação e enchia a mente de certo temor reverente, sendo, portanto, própria para a devoção.

  1. A prostituição do corpo é outro crime de que são acusados: “Prostituem-se continuamente”, v. 18. Faziam da impureza um negócio; não era um ato ocasional, mas prática constante. Assim fazem muitos que têm olhos cheios de adultério e não conseguem cessar desse pecado, 2 Pedro 2:14.

A imundície e a lascívia abomináveis encontradas em Israel são descritas aqui:

(1.) Como companheiras da idolatria. Os falsos deuses os atraíam à impureza, pois o diabo que adoravam, embora seja espírito, é espírito impuro. Os que adoravam ídolos se separavam para estar com prostitutas e com elas sacrificavam.

Não quiseram conservar Deus em seu conhecimento e o desonraram. Por isso, Deus os entregou a paixões vergonhosas; ao ceder a elas, desonraram a si mesmos, Romanos 1:24, 28.

(2.) Como castigo da idolatria. Os homens que adoravam ídolos se separavam para estar com as prostitutas que participavam dos ritos idólatras, como no culto a Baal-Peor, Números 25:1, 2. Para puni-los por isso, Deus entregou suas esposas e filhas às mesmas paixões vergonhosas: elas cometeram prostituição e adultério (v. 13).

Isso só podia causar grande dor e descrédito aos maridos e pais, pois mesmo homens que não são castos desejam que suas esposas e filhas o sejam. Desse modo, podiam ler seu pecado na própria punição, assim como o adultério de Davi foi punido quando seu filho desonrou suas concubinas, 2 Samuel 12:11.

Repare: quando o mesmo pecado que os homens cometeram se torna motivo de dor e aflição para eles por ser cometido por outros, devem reconhecer que o Senhor é justo.

  1. A perversão da justiça, v. 18. Seus governantes, para vergonha deles, amam dizer: “Dê!” Amam subornos e têm continuamente na boca: “Dê, dê!” Entregaram-se ao lucro vergonhoso. Qualquer um que tenha negócio com eles pode esperar a pergunta: “Quanto vai me dar?”

Embora o ofício os obrigue a fazer justiça, ninguém a obtém sem pagar; e, por um pagamento, certamente farão injustiça. Repare: o amor ao dinheiro destrói a equidade e é raiz de toda iniquidade. Entre todos os homens, é especialmente vergonhoso que governantes, que deveriam temer a Deus e odiar a cobiça, amem dizer: “Dê!”

Talvez seja esse o sentido de outra parte da acusação: “Sua bebida azedou”; morreu, estragou-se. A justiça, quando bem administrada, refresca como bebida a quem tem sede. Quando é pervertida e os governantes aceitam presentes para absolver culpados ou condenar inocentes, a bebida azeda. Eles transformam o juízo em absinto, Amós 5:7.

Ou a frase pode referir-se, de modo geral, à corrupção moral de toda a nação. Perderam toda a vida e o vigor e são tão desagradáveis para Deus quanto para nós é uma bebida morta e azeda. Veja-se Deuteronômio 32:32, 33.

II. Os sinais da ira de Deus contra eles por seus pecados:

  1. As esposas e filhas não seriam punidas pelo dano e descrédito causados às famílias (v. 14): “Não castigarei suas filhas”. Sem castigo por seu pecado, continuariam nele. Repare: a impunidade de um pecador às vezes se torna castigo de outro.

Ou: “Não as castigarei como castigarei vocês, pois terão de reconhecer, como Judá reconheceu acerca de sua nora, que elas são mais justas que vocês”, Gênesis 38:26.

  1. Eles próprios prosperariam por algum tempo, mas a prosperidade ajudaria a destruí-los. Ela surge como sinal da ira divina (v. 16): “O Senhor os apascentará como um cordeiro em lugar espaçoso”. Terão pastagem ampla e fértil, onde comerão à vontade o melhor alimento, mas só para serem preparados para o abate, como o cordeiro assim cevado.

Se engordam e dão coices, apenas engordam para o açougueiro. Outros, porém, entendem que se alimentam como um cordeiro em pasto comunal: um lugar espaçoso, de fato, mas com capim ralo e sem proteção. O Pastor de Israel os expulsará tanto de suas pastagens quanto de sua proteção.

  1. Nenhum meio seria empregado para levá-los ao arrependimento (v. 17): “Efraim está unido aos ídolos; ama-os e se dedica a eles. Por isso, deixe-o em paz”, como no v. 4: “Que ninguém o repreenda”. Seja entregue aos desejos do próprio coração e ande segundo seus conselhos. “Queríamos curá-lo, mas não quis ser curado; portanto, abandonem-no.” Veja-se qual será seu fim, Deuteronômio 32:20.

Repare: deixar alguém entregue ao pecado é juízo triste e severo. É Deus dizer a respeito de um pecador: “Está unido aos seus ídolos, o mundo e a carne. É incuravelmente orgulhoso, cobiçoso ou ímpio, um bêbado ou adúltero sem cura. Deixe-o em paz”.

“Consciência, deixe-o em paz. Ministro, deixe-o em paz. Providências, deixem-no em paz. Nada o desperte até que as chamas do inferno o façam.” O pai deixa de corrigir o filho rebelde quando decide deserdá-lo. “Os que não são perturbados em seu pecado serão destruídos por seu pecado.”

  1. Seriam arrastados por uma destruição rápida e vergonhosa (v. 19): “O vento a envolveu em suas asas” para levá-la ao cativeiro de repente, com violência e sem possibilidade de resistência. Ele os levará como por um redemoinho, Salmos 58:9.

Então se envergonharão de seus sacrifícios: do pecado de oferecê-los aos ídolos e da loucura de gastar tanto com deuses incapazes de ajudá-los. Com isso, tornaram seu inimigo o Deus que tem poder absoluto para destruí-los.

Repare: há sacrifícios dos quais os homens um dia se envergonharão. Os que sacrificaram ao mundo e à carne o tempo, as forças, a honra e todos os confortos logo terão vergonha disso. Sim, também se envergonharão os que oferecem a Deus sacrifícios cegos, coxos e sem coração.

III. A advertência a Judá para que não pecasse à semelhança da transgressão de Israel. No fim do v. 14, diz-se: “Os que não entendem cairão”. Certamente caem os que não sabem evitar nem superar os obstáculos que encontram. Portanto, quem pensa estar de pé cuide para não cair.

A advertência se dirige especialmente às duas tribos (v. 15): “Embora você, Israel, se prostitua, que Judá não cometa a mesma ofensa”. Embora Israel se tenha entregue à idolatria, Judá não deve contrair essa infecção.

  1. Essa advertência era muito necessária. Os israelitas eram irmãos e vizinhos próximos dos homens de Judá. Israel era mais numeroso e, naquele momento, próspero. Havia, portanto, o perigo de que Judá aprendesse seus caminhos e apanhasse um laço para a própria alma. Repare: quanto mais perto estamos do contágio do pecado, mais precisamos estar de guarda.

  2. Era uma advertência muito razoável: “Deixe Israel se prostituir, mas que Judá não faça o mesmo. Judá tem mais meios de conhecimento que Israel: tem o templo e o sacerdócio, e um rei da casa de Davi. De Judá virá Siló, e para Judá Deus reservou grandes bênçãos. Portanto, que Judá não peque: espera-se mais dele que de Israel”.

“Se pecar, terá mais pelo que responder, e Deus considerará sua ofensa mais grave. Se Israel se prostituir, que Judá não faça o mesmo, pois então Deus não terá no mundo povo algum que professe seu nome.” Deus fala a Judá como Cristo falou aos doze quando muitos lhe viraram as costas: “Vocês também querem ir embora?”, João 6:67.

Repare: os que até agora conservaram a integridade devem, por isso mesmo, continuar a guardá-la, até em tempos de apostasia geral. Para preservar Judá de cometer a mesma ofensa que Israel, dão-se aqui duas regras:

(1.) Para não cair na idolatria, devem manter distância dos lugares idólatras: “Não venham a Gilgal”, onde estava toda a maldade deles (Oseias 9:15; 12:11). Ali multiplicaram as transgressões (Amós 4:4).

Talvez tenham adquirido veneração por aquele lugar porque ali se disse a Josué que o lugar em que ele estava era terra santa (Josué 5:15). Por isso, são proibidos de entrar em Gilgal, Amós 5:5. Pela mesma razão, não devem subir a Betel, aqui chamada casa da vaidade. Esse é o sentido de Bete-Áven, em vez de “casa de Deus”, sentido de Betel.

Repare: os que querem ser guardados do pecado e não cair nas mãos do diabo devem evitar cuidadosamente as ocasiões de pecar e não pisar no terreno dele.

(2.) Para não cair na idolatria, devem acautelar-se da irreverência e não jurar: “O Senhor vive”. Receberam a ordem de jurar “O Senhor vive” em verdade e justiça (Jeremias 4:2). Por isso, o que aqui se proíbe é fazê-lo sem verdade nem justiça: jurar impensadamente ou sem seriedade, de modo falso e enganoso, ou jurar pelo Senhor e também pelo ídolo, Sofonias 1:5.

Repare: os que desejam permanecer firmes em sua fidelidade a Deus precisam cultivar temor e reverência diante dele e falar sempre dele com solenidade e seriedade. Quem é capaz de fazer troça do Deus verdadeiro fará de qualquer coisa um deus.


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