Matthew Henry

Oseias 3

Argumento

Deus continua, por meio do profeta, a inculcar a mesma coisa nesse povo descuidado, quase da mesma maneira que antes: por uma figura ou sinal, o modo como um marido trata a esposa adúltera. Neste capítulo temos: I. O mau caráter que o povo de Israel tinha então; estava, como se diz dos atenienses (Atos 17:16), “inteiramente entregue à idolatria”, v. 1.

II. A condição rebaixada a que seria reduzido pelo cativeiro e pelas outras manifestações da contenda de Deus com ele, vv. 2-4. III. A bendita reforma que por fim seria operada no povo nos últimos dias, v. 5.

A Idolatria de Israel; As Repreensões do Profeta; Promessas aos Penitentes. (a.C. 760.)

Versículos 1 a 5

Alguns pensam que este capítulo se refere a Judá, as duas tribos, assim como a adúltera com quem o profeta se casou (Oseias 1:3) representava as dez tribos. Judá não seria repudiado, como foram as dez tribos, mas ficaria desolado por muito tempo e depois voltaria, como aconteceu com as duas tribos.

Entretanto, essas pessoas são chamadas filhos de Israel, nome que designava as dez tribos. Por isso, é mais provável que esta parábola, assim como a anterior, se refira a elas. “Vai e repete”, diz Deus ao profeta; “vai outra vez”.

Repare: para convencer os pecadores e trazê-los de volta, é necessário preceito sobre preceito e linha sobre linha. Se não crerem em um sinal, tente-se outro, Êxodo 4:8, 9. Pois bem:

I. Nesta parábola podemos observar:

  1. A bondade de Deus e a maldade de Israel servindo, de maneira surpreendente, de contraste uma para a outra, v. 1. Israel é como uma mulher amada por seu amigo, seja pelo homem que se casou com ela, seja por aquele que apenas a corteja, mas que ainda assim é adúltera. Essa é a situação entre Deus e Israel.

Costumamos dizer, de pessoas cujo afeto é mútuo, que nenhum amor se perde entre elas. Aqui, porém, vemos muito do amor do próprio Deus desperdiçado e lançado fora sobre um povo indigno e ingrato. O Deus de Israel conserva um amor muito grande pelos filhos de Israel; ainda assim, são uma geração má e adúltera. Espantem-se com isso, ó céus, e admira-te, ó terra!

(1.) Que a bondade de Deus não tenha posto fim à maldade deles. O Senhor os ama, tem bondade para com eles e lhes demonstra continuamente bondade. Eles sabem disso e não podem negar que ele lhes tem sido amigo e Pai; contudo, voltam os olhos para outros deuses, deuses que podem ver e para cujo amor são atraídos pela vista.

Olham para eles com olhar de adoração, oferecendo-lhes todos os seus serviços, e com olhar de dependência, esperando deles todo o seu consolo. Mesmo quando impedidos de dobrar os joelhos diante dos ídolos, ainda lhes lançavam olhares amorosos e tinham olhos cheios desse adultério espiritual.

Amavam também os cântaros de vinho. Juntavam-se aos idólatras porque estes viviam em festa e bebiam muito. Tinham afeição por outros deuses por causa da abundância de bom vinho que às vezes lhes era oferecido nos templos deles.

A idolatria e a sensualidade costumam andar juntas. Os que fazem do ventre seu deus, como os bêbados, facilmente acabarão fazendo deus de qualquer outra coisa. Os sacerdotes de Deus não deviam beber vinho quando entravam para ministrar, e seus nazireus não deviam beber vinho algum. Já os adoradores de outros deuses bebiam vinho em taças; ou melhor, nada menos que cântaros de vinho os satisfazia.

(2.) Que a maldade deles não tenha interrompido a corrente de favores de Deus. É de fato um prodígio de misericórdia que ela seja tão amada por seu amigo apesar de ser adúltera. Assim é o amor do Senhor pelos filhos de Israel.

“Vai”, diz Deus, “e ama uma mulher assim; vê se consegues encontrar em teu coração disposição para isso. Não, não conseguirás: o coração de homem algum acolheria tal amor. Contudo, assim é meu amor pelos filhos de Israel: amor por quem não ama, por quem não é amável, por quem mil vezes perdeu o direito a ele.”

Repare: na boa vontade de Deus para com os pobres pecadores, seus pensamentos e caminhos estão infinitamente acima dos nossos; seu amor tem mais condescendência e compaixão do que o nosso tem ou pode ter. Nisso, tanto quanto em qualquer outra coisa, ele é Deus, e não homem, Oseias 11:9.

  1. O meio encontrado para reconciliar um Deus tão bom com um povo tão mau. Esse é o objetivo, e Deus realizará aquilo que pretende. Para nossa grande surpresa, vemos uma ruptura tão vasta quanto o mar ser eficazmente reparada: os milagres não cessam enquanto a misericórdia divina não cessa. Observe aqui:

(1.) O caminho que Deus segue para humilhá-los e fazê-los conhecer a si mesmos (v. 2): comprei-a para mim por quinze peças de prata e por um hômer e meio de cevada. Isso significa: procurei reconciliá-la comigo, para que abandonasse seus maus caminhos e voltasse ao primeiro marido, como em Oseias 2:14: atraí-a e falei-lhe ao coração.

Foi como o levita que foi atrás da concubina que lhe fora infiel e fugira com outro homem; ele lhe falou amigavelmente, Juízes 19:3. Observa-se aqui, porém, que o presente levado pelo profeta para conquistar o favor dela era muito pequeno.

Era tudo o que se destinava ao sustento dela enquanto estivesse separada; assim, passou a receber uma porção escassa e, como castigo por seu orgulho, foi obrigada a parecer muito pobre.

Quando Sansão foi reconciliar-se com a mulher que o havia ofendido, levou-lhe um cabrito (Juízes 15:1), um presente de certa distinção. Aqui, porém, o profeta visitou sua mulher com quinze peças de prata, quantia pequena com a qual ela teria de se contentar por muito tempo, até que o marido julgasse apropriado restaurá-la à condição anterior.

Também receberia um hômer e meio de cevada para fazer pão. Isso era tudo o que podia esperar até ser suficientemente humilhada e, após um tempo adequado de prova, dar demonstração satisfatória de que de fato se reformara.

Que ela perceba que o marido não a corteja por mérito dela: ele a avalia por um preço bem baixo. O preço de um servo era trinta siclos, Êxodo 21:32. O que ele pagou foi apenas a metade; mesmo assim, que ela saiba que é mais do que vale.

Deus já dera o Egito como resgate por Israel; tão precioso e honrado era o povo aos seus olhos naquele tempo, Isaías 43:3, 4. Agora, porém, que se prostituíram e se afastaram dele, ele dará apenas quinze peças de prata por eles. Tanto perderam de valor por causa da iniquidade.

Repare: Deus primeiro faz reconhecer a própria indignidade aqueles a quem pretende dar honra e consolo. Leva-os a admitir, como o filho pródigo: “Já não sou digno de ser chamado teu filho”.

Houve tempo em que Israel era alimentado com o melhor trigo. Mas o povo se tornou dissoluto e passou a amar os cântaros de vinho. Por isso, para ser humilhado e trazido de volta, teria de comer pão de cevada na terra do cativeiro e agradecer por consegui-lo. Teria ainda de comer esse pão por peso e medida, embora não estivesse acostumado a porções limitadas.

Repare: a pobreza e a desonra às vezes se mostram meios felizes de transformar grandes pecadores em verdadeiros penitentes.

(2.) As novas condições sob as quais Deus está disposto a reconciliar-se com eles (v. 3): “Permanecerás para mim muitos dias e não serás de outro; assim também eu serei teu”. Ele poderia, com toda a justiça, ter-lhes dado carta de divórcio e resolvido não ter mais nada com eles. Mas está disposto a mostrar-lhes bondade e a chegar a um acordo.

Não os trata com justiça estrita, segundo o rigor da lei, mas segundo a abundância de suas misericórdias. Isso representa o modo bondoso como Deus trata a raça humana apóstata, que se prostituiu e se afastou dele. De fato, comprou-a por preço inestimável, não para honra dela, mas para honra de sua própria justiça.

Agora lhes apresenta esta proposta, a aliança da graça em que está disposto a entrar com eles: devem ser seu povo, e ele será seu Deus. É a mesma proposta feita aqui a Israel.

[1.] Devem assumir a vergonha de sua apostasia, submeter-se ao castigo da iniquidade e aceitá-lo: “Permanecerás para mim muitos dias”, em solidão e silêncio, como viúva desolada e aflita. Devem deixar de lado seus adornos e esperar, com paciência e submissão, para saber o que Deus fará com eles.

Também devem esperar para saber se ele terá por bem receber de novo em seu favor pessoas tão indignas, como fizeram em Êxodo 33:4-5. Seu Pai e Marido lhes cuspiu no rosto, como Deus disse a respeito de Miriã, e lhes impôs sinais de seu desagrado.

Portanto, como ela, devem envergonhar-se por sete dias e ficar fora do acampamento (Números 12:14), até que seu coração incircunciso seja humilhado, Levítico 26:41.

Que se sentem a sós e guardem silêncio, esperando a salvação do Senhor; nesse meio-tempo, carreguem o jugo, Lamentações 3:26-28. Não esperem que Deus volte depressa a eles com misericórdia. Não: que sintam a falta dela e a esperem por muitos dias, durante todo o cativeiro, considerando um milagre de misericórdia, pelo qual vale a pena esperar, se por fim ela vier.

Repare: Deus primeiro leva a humilhar-se e a dar grande apreço a seus favores aqueles a quem pretende conceder misericórdia.

[2.] Nunca devem voltar à insensatez. Essa, e nenhuma outra, é a condição sob a qual Deus anunciará paz ao seu povo e aos seus santos (Salmos 85:8). “Não te prostituirás; não adorarás ídolos na terra do cativeiro, enquanto estiveres ali separada por tua impureza.”

Repare: não basta envergonhar-nos dos pecados que cometemos e reconhecer a justiça de Deus ao nos corrigir por eles. Devemos também resolver, pela força de sua graça, não voltar a ofendê-lo nem a nos prostituir, afastando-nos dele atrás do mundo e da carne.

Bendito seja Deus: embora faça parte da lei da aliança, não é sua condição que nunca erremos em coisa alguma. “Mas não te prostituirás; não servirás a outros deuses, não serás de outro homem.”

Na terra do cativeiro, seriam convidados a adorar os ídolos do país. Isso seria uma prova longa, de muitos dias. “Mas, se te mantiveres firme e conservares tua integridade, se, mesmo quando tudo isso te acontecer, não estenderes a mão a um deus estranho, estarás preparada para a volta do favor de Deus.”

Repare: quando a graça de Deus nos guarda de ser vencidos pelas tentações de uma condição aflitiva, é sinal certo de que nossas aflições nos fazem muito bem e são garantia de bem ainda maior.

[3.] Sob essas condições, seu Criador voltará a ser seu marido: “Assim também eu serei teu”. Esta é a aliança entre Deus e os pecadores que voltam para ele: se forem dele para servi-lo, ele será deles para salvá-los.

Que renunciem e abandonem todos os rivais de Deus pelo trono do coração e se dediquem inteiramente a ele, e só a ele; então ele lhes será Deus todo-suficiente. Se formos fiéis e constantes a Deus no caminho do dever e nunca o deixarmos nem abandonarmos, ele o será para conosco no caminho da misericórdia e nunca nos deixará nem abandonará. Proposta mais justa não poderia ter sido feita.

II. Nos dois últimos versículos temos a interpretação da parábola e sua aplicação a Israel.

  1. Por muito tempo, o povo ficará como viúva, despojado de todas as suas alegrias e honras, Lamentações 4:1, 2. Permanecerá muitos dias sem rei e sem príncipe; uma nação nessas condições pode muito bem ser chamada de viúva. Faltar-lhe-á a bênção:

(1.) Do governo civil: ficará sem rei e sem príncipe que lhe pertençam. Haverá reis e príncipes sobre os israelitas para oprimi-los e governá-los com rigor, mas não terão rei nem príncipe que os proteja, lute suas batalhas por eles, lhes administre justiça e cuide de sua segurança e bem-estar comuns.

Repare: a magistratura é grande bênção para um povo, e ser privado dela é um juízo triste e severo.

(2.) Do culto público: ficarão sem sacrifício e sem imagem — ou estátua ou coluna; a palavra é usada para as colunas que Jacó levantou, Gênesis 28:18; 31:45; 35:20 —, e sem éfode e terafins.

Como os terafins aparecem aqui ligados estreitamente ao éfode, alguns pensam que a palavra se refere ao Urim e Tumim no peitoral do sumo sacerdote. Isso significa que, no cativeiro, não teriam nem a aparência de nação nem a de igreja. Como diz um expositor erudito, não teriam liberdade de professar nem praticar publicamente religião alguma, verdadeira ou falsa, conforme sua escolha.

Não teriam sacrifício nem altar — assim diz a Septuaginta — e, portanto, nenhum sacrifício, porque não haveria altar. Não teriam éfode nem terafins, nem sacerdócio estabelecido pela lei, nem meios de conhecer a vontade de Deus, nem oráculo a consultar em casos duvidosos. Ficariam inteiramente no escuro.

Repare: é muito triste a situação dos que são privados de todas as oportunidades de adorar a Deus em público. Era esse o caso dos judeus no cativeiro e, até certo ponto, continua a ser o dos judeus dispersos hoje: embora tenham sinagogas, não têm o culto do templo.

Verdadeiramente desolada é a condição dos que estão excluídos da comunhão com Deus: não têm oportunidade de dirigir-lhe súplicas por meio do sacrifício e do altar nem de receber instrução dele por meio do éfode e dos terafins.

  1. Por fim, serão recebidos outra vez como esposa (v. 5). Depois, com o passar do tempo, quando tiverem atravessado essa disciplina, voltarão: arrepender-se-ão de suas idolatrias e as abandonarão; buscarão a Deus e se apegarão a ele. Assim, serão aceitos por ele.

Duas coisas são prometidas como manifestações de seu retorno e passos rumo à aceitação por Deus:

(1.) A busca que farão por Deus: “Buscarão o Senhor, seu Deus, e Davi, seu rei”. Repare: os que desejam encontrar Deus e seu favor devem buscá-lo, perguntar por ele, desejar conhecê-lo, querer reconciliar-se com ele, dedicar-lhe seu amor e empenhar-se em ser aceitos por ele.

Essa busca implica que o haviam perdido, lamentavam essa perda e estavam ansiosos por recuperar o que perderam. Buscarão a Deus como seu Deus, pois não deveria um povo buscar o seu Deus?

Buscarão também Davi, seu Rei, que não pode ser outro senão o Messias, nosso Senhor Jesus Cristo: Filho de Davi, raiz e descendência de Davi, a quem o próprio Davi chamou Senhor (Salmos 110:1) e a quem Deus deu o trono de Davi, seu pai, Lucas 1:32.

O texto caldeu diz: “Buscarão o serviço do Senhor, seu Deus, e obedecerão ao Messias, Filho de Davi, seu rei”. Compare Jeremias 30:9; Ezequiel 34:23; 37:25.

Repare: os que buscam o Senhor para encontrá-lo devem recorrer a Jesus Cristo, buscá-lo como seu Rei, tornar-se seu povo disposto a servi-lo e fazer-lhe juramento de fidelidade e lealdade.

(2.) A reverência que terão por Deus: “Temerão o Senhor e sua bondade”. Alguns entendem que a bondade dele é o templo, para o qual olharão ao adorar a Deus.

Os judeus dizem: “Houve três coisas que Israel rejeitou nos dias de Roboão: o reino dos céus, a família de Davi e a casa do santuário. Nada lhes irá bem até que voltem e busquem as três”, como se promete aqui. Buscarão o reino dos céus no Senhor, seu Deus; a família real em Davi, seu Rei; e o templo na bondade do Senhor.

Outros entendem que a bondade dele é Cristo, o mesmo que Davi, seu Rei. É mais adequado, porém, entendê-la como aquele atributo de Deus que ele mostrou como sua glória e pelo qual proclamou seu nome.

Repare: não devemos temer apenas o Senhor e sua grandeza, mas também o Senhor e sua bondade; não apenas sua majestade, mas também sua misericórdia. Fugirão por temor para o Senhor e sua bondade, segundo outra interpretação; fugirão para ela como para sua cidade de refúgio.

Devemos temer a bondade de Deus, isto é, admirá-la e ficar maravilhados diante dela; adorá-la e prostrar-nos como Moisés fez quando esse nome foi proclamado, Êxodo 34:6. Devemos recear ofender sua bondade, retribuí-la com ingratidão e, assim, perdê-la.

Há perdão junto de Deus, para que ele seja temido, Salmos 130:4. Devemos alegrar-nos com tremor diante da bondade de Deus; não ser presunçosos, mas temer.

Essa promessa se cumpriu quando, pelo evangelho de Cristo, grandes multidões de judeus e gentios foram trazidas de volta a Deus e incorporadas à igreja do Novo Testamento. Serviram a Deus em Cristo com temor filial diante da graça divina e foram aceitas por Deus como seu Israel.

Alguns pensam que a promessa ainda se cumprirá de forma mais ampla na conversão à fé em Cristo dos judeus que permanecem na incredulidade. Buscarão seu Messias como Davi, seu Rei, e por meio dele todo Israel será salvo, quando a plenitude dos gentios tiver entrado.

Houve tempo em que o buscavam para matá-lo, dizendo: “Não temos rei senão César”. Mas virá o dia em que o buscarão para constituí-lo seu chefe e sujeitar o pescoço ao seu jugo.

Aquele que prometeu aqui que o farão os capacitará a fazê-lo e realizará essa grande obra a seu modo e no tempo que determinar, nos últimos dias dos últimos tempos, os tempos do Messias. Mas, ai! Quem viverá quando Deus fizer isso? Não sei até que ponto devemos esperar uma conversão geral dessa nação; sei, porém, que devemos orar para que os judeus se convertam.


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