Oseias 13
Argumento
As mesmas cordas, em geral desagradáveis, são dedilhadas neste capítulo como nos anteriores. As pessoas não gostam que lhes falem de seu pecado nem do perigo que ele traz.
Contudo, é necessário, e para o bem delas, que ouçam falar de ambos. E não poderiam ouvir melhor acerca de nenhum dos dois do que pela palavra de Deus e por seus ministros fiéis, enquanto ainda podem arrepender-se do pecado e evitar o perigo.
Aqui, I. O povo de Israel é repreendido e ameaçado por sua idolatria, vv. 1-4. II. É repreendido e ameaçado por sua vida dissoluta, orgulho, luxo e outros abusos de sua riqueza e prosperidade, vv. 5-8.
III. A ruína que virá sobre ele por esses e todos os seus outros pecados é anunciada como terrível, v. 12, 13, 15, 16. IV. Aqueles dentre o povo que ainda conservam respeito por seu Deus são encorajados a esperar que ele ainda venha em seu socorro, embora seus reis, príncipes e todos os demais apoios e auxílios lhes falhem, vv. 9-11, 14.
Versículos 1 a 4
Repreensões e Ameaças. (a.C. 722.)
A idolatria foi o pecado que mais facilmente envolveu a nação judaica até depois do cativeiro. As dez tribos foram culpadas disso desde o princípio, sobretudo após os dias de Acabe; e esse é o pecado de que são acusadas nestes versículos. Observe:
I. As providências que Deus tomou para impedir que caíssem na idolatria. Encontramos isso no v. 4. Deus fez o que convinha para mantê-las junto de si; que mais poderia ter sido feito?
Ele se deu a conhecer como o Senhor, seu Deus, e as tomou por seu povo de maneira especial. Tanto por sua palavra como por suas obras, desde a terra do Egito, declarou: “Eu sou o Senhor, teu Deus”. Disse-lhes isso do céu, no monte Sinai: ele era o Senhor e o Deus delas, que as tirara da terra do Egito. Continuou a declarar e provar isso por seus profetas e por suas providências.
Deu-lhes uma lei que as proibia de adorar qualquer outro: “Não conhecerás outro Deus senão a mim; não apenas não reconhecerás nem adorarás outro, mas também não te familiarizarás com nenhum outro nem tornarás familiares para ti os ritos e costumes dos gentios”.
Repare: é uma feliz ignorância não conhecer aquilo com que não devemos nos envolver. Vemos serem elogiados os que não conheceram as profundezas de Satanás.
- Deu-lhes uma boa razão para isso: “Não há salvador além de mim”. Seja o que for que tomemos por nosso Deus, esperamos que seja nosso salvador e nos faça felizes aqui e na vida futura. Assim como devemos lealdade a quem nos protege, devemos adoração àquele em quem temos a salvação e a esperança dela.
II. A honra de Efraim enquanto evitou a idolatria (v. 1): ao falar tremendo, ou com tremor (isto é, segundo o dr. Pocock, ao agir diante de Deus como Jacó, seu pai, com choro e súplicas, sem falar com orgulho nem insolência contra Deus e seus profetas, mas mantendo o santo temor de Deus e adorando-o nele), ele se exaltou em Israel; ou seja, foi muito importante entre as tribos e teve destaque.
Jeroboão, que era dessa tribo, exaltou a si mesmo e à sua família. Quando ele falava, havia tremor; isto é, todos à sua volta o temiam. Alguns entendem assim. Repare: aqueles que se humilham, sobretudo diante de Deus, serão exaltados. Quando as pessoas falam com modéstia e desconfiança de si mesmas, duvidando do próprio juízo e respeitando o dos outros, elas se exaltam e conquistam boa reputação.
Mas Efraim logo perdeu a própria posição: quando ofendeu a Deus com Baal, morreu; isto é, perdeu a reputação. Sua honra logo diminuiu, caiu e foi lançada ao pó. Baal representa aqui toda a idolatria. Quando Efraim abandonou Deus e passou a adorar imagens, o Estado recebeu um golpe mortal e nunca mais prestou para coisa alguma. Repare: abandonar Deus é a morte de qualquer pessoa ou povo.
III. O lamentável crescimento da idolatria entre eles (v. 2): “Agora pecam cada vez mais”. Uma vez que Efraim começou a ofender a Deus com Baal, rompeu-se o gelo; tornou-se cada vez pior, cobiçou mais ídolos, apegou-se mais aos que tinha e tornou-se mais ridículo ao adorá-los.
Repare: o caminho da idolatria, como o dos demais pecados, é uma descida, e os homens não conseguem deter-se facilmente. É triste a condição de todos os que abandonaram Deus: pecam cada vez mais. Sigamos os passos de sua apostasia:
Fizeram para si imagens fundidas, orgulhosos de ter deuses que podiam moldar como quisessem. Provavelmente eram bezerros em miniatura, como os santuários de prata de Diana. Talvez os adeptos fervorosos do culto ao bezerro levassem consigo imagens dos deuses que adoravam, feitas expressamente para eles.
Fizeram-nas de sua prata e, assim, não duvidavam de que lhes pertenciam, pois as haviam comprado com o próprio dinheiro ou produzido com seus objetos de prata derretidos para esse fim. Veja quanto gastavam no serviço de seus ídolos: honravam-nos com o melhor que tinham e, por isso, faziam de prata as suas imagens fundidas.
Fizeram-nas segundo seu próprio entendimento, segundo sua fantasia. Consultaram-se sobre a forma que deveriam dar ao ídolo e o fizeram de acordo com o melhor de seu juízo. Ou “segundo sua própria semelhança”, na forma de homem.
Ao fazerem seus ídolos semelhantes a si em forma, tornaram-se, na realidade, como eles: troncos e pedras. Pois os que os fazem são semelhantes a eles, bem como todos os que neles confiam.
Tudo era obra de artífices. Suas imagens não alegavam, como a de Diana, ter caído de Júpiter (Atos 19:35); talvez os artesãos até gravassem nelas o próprio nome, de modo que se soubesse quem fizera cada ídolo. Veja Oseias 8:6; Isaías 44:9, etc.
Embora fossem obra de suas mãos, eram o amor de sua alma; pois diziam a respeito delas: “Que os homens que sacrificam beijem os bezerros”.
Ou os sacerdotes chamavam o povo a prestar-lhes homenagem dessa forma, ou o povo, a quem não se permitia chegar tão perto, pedia aos homens que sacrificavam, os sacerdotes que o serviam, que beijassem os bezerros em seu nome e lugar, já que não podiam alcançá-los.
Tão grande era seu desejo de prestar a máxima reverência a um ídolo que tinham aprendido a venerar! Embora fossem bezerros, ainda assim, se os tinham por deuses, os adoradores lhes prestavam essa honra pessoalmente ou por representantes.
Beijavam os bezerros como sinal de adoração, afeição e lealdade para com eles, como seus deuses. Assim também somos instruídos a beijar o Filho, tomando-o como nosso Senhor e nosso Deus.
IV. Ameaças de cólera por sua idolatria. O Senhor, cujo nome é Zeloso, é um Deus zeloso e não dará sua glória a outro. Por isso, todos os que adoram imagens serão envergonhados, sobretudo se Efraim o fizer, Salmos 97:7. Visto que tanto gostam de beijar seus bezerros, Deus lhes dará provas palpáveis de sua insensatez, v. 3.
Prometem a si mesmos muita segurança e satisfação no culto aos ídolos, e esperam que, por meio deles, sua prosperidade se firme. Mas Deus lhes diz que ficarão decepcionados e serão levados embora em sua perversidade. Isso é ilustrado por quatro comparações:
Serão, 1. Como a nuvem da manhã, que promete chuvas à terra ressequida. 2. Como o orvalho da madrugada, que parece anunciar essas chuvas. Mas ambos passam, e o dia continua tão seco e quente como antes.
Assim, sua profissão de piedade foi passageira e transitória (Oseias 6:4), e eles frustraram a expectativa de Deus a seu respeito. É justo, portanto, que sua prosperidade tenha a mesma duração e que suas expectativas quanto aos ídolos também sejam frustradas; assim acontecerá com todos os que fazem deste mundo um ídolo.
- São como a palha, leve e sem valor; e serão levados como a palha que o redemoinho varre da eira, Salmos 1:4; 35:5; Jó 21:18. Ou melhor, 4. São como a fumaça, desagradável e ofensiva (veja Isaías 65:5); e serão levados como a fumaça que sai das chaminés, que logo se dispersa e desaparece, Salmos 68:2. Repare: não se pode esperar conforto sólido e duradouro em nenhum lugar senão em Deus.
Versículos 5 a 8
A Ingratidão de Israel. (a.C. 722.)
Podemos observar aqui: 1. A abundante provisão que Deus fizera para Israel e os suprimentos oportunos com que o abençoara (v. 5): “Eu te conheci no deserto, tomei conhecimento de tua condição e fiz provisão para ti, até numa terra de grande seca, quando estavas em extrema aflição e não havia como obter socorro pelos meios comuns”.
Veja a descrição desse deserto em Deuteronômio 8:15 e Jeremias 2:6. Então diga: o Deus que ali os conheceu, os reconheceu como seus e os alimentou era realmente um amigo, pois foi amigo na necessidade e amigo todo-suficiente.
Podia alimentar um exército tão vasto quando todos os meios comuns de provisão haviam falhado e quando, se milagres não tivessem sido seu pão de cada dia, todos teriam perecido. Repare: o socorro numa emergência cria obrigações especiais e nunca deve ser esquecido.
- O abuso indigno e ingrato que fizeram do favor de Deus. Ele não apenas cuidou deles no deserto, mas lhes deu a posse de Canaã, uma terra boa, uma pastagem vasta e fértil. E (v. 6), conforme a sua pastagem, assim ficaram fartos. Deus lhes deu tanto abundância como iguarias, e eles não se contiveram. Após tanto tempo limitados ao maná, quando chegaram a Canaã comeram até se saciar.
Isso não era um sinal promissor. Teria sido melhor, e inspirado melhores expectativas, se fossem mais modestos e moderados no uso de sua abundância e tivessem aprendido a negar a si mesmos.
Mas qual foi o resultado? Ficaram fartos, e seu coração se exaltou. Seu luxo e sua sensualidade os tornaram orgulhosos, insolentes e seguros de si. O melhor comentário a respeito disso é o de Moisés, Deuteronômio 32:13-15. “Mas Jesurum engordou e deu coices.”
Quando o corpo se encheu de fartura, a alma se encheu de orgulho. Então começaram a pensar que sua religião estava abaixo deles e não conseguiram convencer-se a se submeter a seus deveres. O perverso, pelo orgulho de seu semblante, não buscará a Deus.
Quando eram pobres e mancos no deserto, achavam necessário manter-se em boas relações com Deus. Mas, depois de satisfeitos e estabelecidos em Canaã, passaram a pensar que não precisavam mais dele: “Seu coração se exaltou; por isso, esqueceram-se de mim”.
Repare: quando a prosperidade terrena alimenta o orgulho dos homens, faz com que se esqueçam de Deus; pois só se lembram dele quando precisam dele.
Quando Israel ficou farto, que mais poderia o Todo-Poderoso fazer por eles? Por isso lhe disseram: “Retira-te de nós”, Jó 22:17. É triste que os favores que deveriam nos fazer lembrar de Deus e pensar no que lhe retribuiremos nos façam esquecer dele e pouco nos importar com o que fazemos contra ele.
Devemos saber que vivemos sustentados por Deus quando dependemos da providência comum, embora não vivamos de milagres como Israel no deserto.
- O justo ressentimento de Deus diante dessa vil ingratidão, v. 7, 8. Os juízos ameaçados no v. 3 indicavam a privação de todo bem. Aqui as ameaças vão além e indicam que todos os males cairão sobre eles. Pois Deus, que tanto os favorecera, agora se torna seu inimigo e luta contra eles. Isso é expresso aqui de modo aterrador: “Serei para eles como um leão e como um leopardo”.
O leão é forte, e ninguém pode resistir-lhe. O leopardo é mencionado aqui por sua astúcia e vigilância: “Como leopardo no caminho, eu os espreitarei”. Assim como essa fera se põe de tocaia à beira da estrada para apanhar e devorar viajantes, Deus, por seus juízos, vigiará para lhes fazer mal, como antes vigiara para lhes fazer bem, Jeremias 44:27.
Nenhuma oportunidade de acelerar ou agravar sua ruína será perdida (Jeremias 5:6): “Um leopardo vigiará sobre as suas cidades”. O lince, ou animal malhado (e o leopardo é assim), é conhecido por ter a visão mais aguda que a de qualquer outra criatura (lynx visu, olhos de lince).
Isso indica que não apenas o poder, mas também a sabedoria de Deus se volta contra aqueles com quem ele tem uma desavença.
Alguns leem a passagem assim (e o original admite essa leitura): “Serei como um leopardo no caminho da Assíria”. Os juízos de Deus os surpreenderão precisamente quando estiverem indo aos assírios em busca de proteção e socorro. Acrescenta-se: “Eu os encontrarei como uma ursa privada dos filhotes”, e por isso enfurecida e ainda mais feroz (2 Samuel 17:8; Provérbios 28:15).
Isso indica o quanto Deus foi provocado e que os fará sentir sua cólera: “Rasgarei a membrana de seu coração”. Observa-se que o leão ataca o coração dos animais de que se alimenta, e assim Deus os devorará como um leão. Enviará sobre eles juízos que lhes consumirão o ânimo e destruirão os órgãos vitais.
Seu coração se exaltara (v. 6), mas Deus tomará medidas eficazes para abatê-lo: “Uma fera os despedaçará”. Deus não apenas será para eles como leão e leopardo; a metáfora se cumprirá literalmente, pois animais ferozes são um dos quatro severos juízos com que Deus destruirá um povo que o provoca, Ezequiel 14:15.
Tudo isso nos ensina: 1. A bondade desprezada se transforma em severidade ainda maior. Os que desprezam e afrontam a Deus quando ele lhes é como pastor cuidadoso e terno descobrirão que até para seu próprio rebanho ele será como as feras.
Aqueles a quem Deus suportou por muito tempo em vão e convidou com muito afeto: neles mostrará sua cólera e fará deles vasos dessa cólera, Romanos 9:22. Patientia læsa fit furor: a paciência desprezada se transforma em furor.
- Os juízos de Deus, quando vêm com a incumbência de atingir pecadores impenitentes, serão irresistíveis e muito terríveis. Rasgarão a membrana do coração, encherão a alma de confusão e a despedaçarão.
Somos tão incapazes de enfrentá-los quanto um cordeiro de defender-se de um leão que ruge. Pois quem conhece o poder da ira de Deus? Conhecendo, portanto, o terror do Senhor, deixemo-nos persuadir a fazer as pazes com ele; pois acaso somos mais fortes que ele?
Versículos 9 a 16
A Insensatez de Israel; Promessas de Misericórdia. (a.C. 722.)
O primeiro desses versículos resume ou contém todos os demais (v. 9). Nele temos: 1. Toda a culpa pela ruína de Israel posta sobre o próprio povo: Ó Israel, sua perdição vem daí; vem de você mesmo.
Ou: “Foi isso que te destruiu, ó Israel!”, isto é, todo aquele pecado e insensatez de que Israel foi acusado antes. “Assim como tua própria maldade muitas vezes te corrigiu, agora, por fim, te destruiu.”
Repare: os que pecam deliberadamente destroem a si mesmos. A impenitência obstinada é a pior forma de suicídio. Os que são destruídos pelo destruidor trazem sobre a própria cabeça a culpa por seu sangue; destruíram a si mesmos.
- Toda a glória pelo socorro de Israel atribuída a Deus: “Mas em mim está teu socorro”. Isto é, (1.) Poderia ter estado: “Eu te teria socorrido e curado, mas não quiseste ser curado nem socorrido; estavas decidido a causar tua própria destruição”.
Isso agravará a condenação dos pecadores: não apenas fizeram o que os levaria à ruína, mas também resistiram às ofertas que Deus lhes fez e aos meios que empregou para impedi-la. Eu os teria reunido, mas eles não quiseram. Poderiam ter sido socorridos com facilidade e eficácia, mas afastaram de si o socorro.
Ou melhor, (2.) Ainda pode estar: “Sua condição é ruim, mas não desesperadora. Você se destruiu; mas venha a mim, e eu lhe darei socorro”. É uma tábua lançada após o naufrágio. Isso exalta grandemente não apenas o poder de Deus, que pode socorrer quando as coisas estão no pior estado e socorrer aqueles que não podem socorrer a si mesmos, mas também a riqueza de sua graça.
Pois ele socorrerá aqueles que destruíram a si mesmos e que, portanto, poderiam com justiça ser deixados a perecer; socorrerá os que há muito recusam seu auxílio.
O dr. Pocock apresenta outra leitura e interpretação desse versículo: “Ó Israel, foi isto que te destruiu: o fato de teu socorro estar em mim. Sua presunção quanto a Deus e seu favor te encorajou nos caminhos perversos que te arruinaram”.
Agora, no restante desses versículos, podemos ver:
I. Como Israel destruiu a si mesmo. Diz-se (v. 16) que se rebelaram contra Deus; romperam sua lealdade a ele, fizeram aliança com seus inimigos e pegaram em armas contra ele. Foi isso que os arruinou, pois nunca alguém endureceu contra Deus e prosperou.
Repare: os que se rebelam contra seu Deus destroem a si mesmos, pois fazem dele seu inimigo, contra quem não têm força para lutar de igual para igual.
- Acumulam cólera para o dia da cólera e, assim, destroem a si mesmos. Fazem todos os dias aquilo que, em outro dia, será lembrado contra eles (v. 12): “A iniquidade de Efraim está atada, e seu pecado, guardado em segredo”. Deus reparou nele, conservou seu registro e, depois, o apresentará contra Efraim e lhe pedirá contas.
Seus pecados anteriores contribuíram para a destruição presente, pois estavam guardados com Deus, Deuteronômio 32:34, 35; Jó 14:17. Seu pecado está guardado em segurança: não será esquecido, nem se perderá a prova contra ele. Mas também está guardado em segredo, oculto, e o próprio pecador não tem consciência disso.
Está atado na onisciência de Deus e na consciência do próprio pecador. Repare: o pecado dos pecadores não é esquecido até ser perdoado; dele se guarda um registro exato, que será aberto no tempo devido.
- Não se apressam a arrepender-se e a buscar o próprio socorro quando estão sob as repreensões divinas. Causam a própria ruína porque não querem fazer o que deveriam em favor de sua salvação, v. 13.
(1.) São levados à aflição e à angústia pelo pecado: “As dores da mulher em trabalho de parto virão sobre ele”. Sofrerão pelo pecado e, assim, sentirão seu peso. Serão lançados em dores e agonias intensas e severas que, no entanto, como as dores de parto, dão esperança, anunciam libertação e visam a ela.
Embora Deus os corrija por meio delas, tem em vista o bem deles. São castigados para que não sejam destruídos.
Mas, (2.) Essas dores não os impulsionam, como deveriam, ao arrependimento e à reforma, que fariam sua tristeza terminar em verdadeira alegria: “Ele é um filho insensato”, pois não deveria permanecer tanto tempo, como faz, no lugar de onde saem as crianças. Tendo chegado a hora de nascer, deveria esforçar-se por sair, para que não acabe sufocado e natimorto.
Se a criança que a mãe está dando à luz pudesse entender sua condição, consideraríamos insensata aquela que escolhesse demorar-se no parto. Pois “o exilado cativo apressa-se a ser solto, para que não morra na cova”, Isaías 51:14. Repare: podem com justiça ser considerados destruidores de si mesmos os que adiam seu arrependimento, o único meio pelo qual poderiam encontrar socorro.
Os que o adiam correm o risco de fracassar em sua conversão, pois não se empenham para apressar a obra e levá-la a termo.
- Portanto, são destruídos porque fizeram o que certamente os arruinaria e negligenciaram o que seria seu único socorro. Temos aqui uma triste descrição da desolação a que estão condenados, v. 15, 16. Toma-se por certo que Efraim é frutífero entre seus filhos; seu nome significa fecundidade.
Ele é frutífero tanto pela abundante produção de seu território como pelo grande número de habitantes. Era uma tribo rica e populosa, como fora predito a seu respeito. Mas o pecado transforma essa tribo fértil em estéril. José era um ramo frutífero, mas o pecado o fez secar.
O instrumento é um vento oriental, que representa o inimigo estrangeiro que a invadirá. É chamado vento do Senhor, não só por ser muito forte, mas porque virá por determinação divina. Procederá do Senhor e fará tudo o que ele ordenar. Veja o efeito que terá sobre essa tribo florescente e a desolação que a guerra causará.
(1.) Era uma tribo rica? O inimigo estrangeiro a deixará bastante pobre. Esse vento do Senhor virá do deserto, frio e destruidor, e secará as fontes e os mananciais que regam essa árvore; esgotará as origens de sua riqueza. O invasor devastará o campo e empobrecerá os lavradores; interromperá o comércio e empobrecerá os mercadores.
E que os grandes, cuja riqueza está em seus móveis valiosos, não pensem que ficarão livres desse juízo, pois ele saqueará o tesouro de todos os vasos preciosos. Veja a insensatez dos que ajuntam tesouros na terra, guardando-os em vasos desejáveis (a palavra significa vasos do desejo), aos quais prendem seu afeto e nos quais põem seu conforto e satisfação.
Esse tesouro pode ser saqueado, e eles podem ser despojados dele; a traça ou a ferrugem podem consumi-lo, e ladrões ou soldados podem roubá-lo e levá-lo embora. Mas sábios e felizes são os que ajuntaram tesouros no céu e nas coisas preciosas daquele mundo, que não podem ser saqueadas e das quais não podem ser despojados. São felizes para sempre e, portanto, verdadeiramente sábios.
(2.) Era uma tribo populosa e numerosa? O inimigo a despovoará e reduzirá o número de seus homens: “Samaria será assolada”, sem habitantes.
[1.] Serão eliminados aqueles que são a defesa e a alegria da geração presente. Os homens que portam armas as portarão em vão, pois cairão à espada. Não restará ninguém para resistir à fúria do conquistador nem para cuidar dos interesses públicos ou das famílias.
[2.] Serão eliminados aqueles que são a descendência e a esperança da próxima geração, destinados a tomar o lugar dos que caíram à espada. Toda a nação terá de ser arrancada pela raiz; por isso, as crianças serão despedaçadas da maneira mais cruel e bárbara e, o que talvez seja ainda mais desumano, as mulheres grávidas terão o ventre aberto.
Assim, a glória de Samaria fugirá desde o nascimento e desde o ventre materno, Oseias 9:11; 10:14. Veja exemplos dessa crueldade em 2 Reis 8:12; 15:16; Amós 1:13.
II. Vejamos agora como Deus era o socorro desse povo que destruía a si mesmo, como ele era seu único socorro (v. 10): “Eu serei teu Rei”, para governá-lo e salvá-lo. Embora tivessem recusado ser seus súditos e se rebelado contra ele, ainda seria seu Rei e não os abandonaria.
A tarefa e o cuidado de um bom rei são proteger seu povo, não só de ser arruinado por inimigos estrangeiros, mas também de arruinar a si mesmo e aos outros.
Assim Deus ainda será Rei de Israel, como o fora antigamente. Repare: nossa condição seria realmente triste se Deus não fosse melhor para nós do que nós somos para conosco.
- Deus será seu Rei quando não tiverem outro. Ele os protegerá e salvará quando já não houver aqueles que deveriam ser seus protetores e salvadores: “Eu serei aquele” (assim se pode ler o v. 10), aquele que te socorrerá.
“Onde está o rei que possa salvar-te em todas as tuas cidades, ir e vir diante de ti e combater tuas batalhas quando tuas cidades forem invadidas por uma potência estrangeira, e pôr fim às desavenças ainda mais perigosas entre os teus próprios cidadãos?” “Onde estão os teus juízes, que deveriam preservar a paz pública administrando a justiça pública?” Pois são a justiça e a paz que se beijam.
“Onde estão os juízes que tanto desejaste e dos quais tanto dependeste, aqueles a respeito de quem disseste: ‘Dá-me um rei e príncipes’?” Isso se refere: (1.) Ao desejo insensato e perverso que toda a nação tinha por um governo monárquico. Haviam-se cansado da teocracia, ou governo divino, sob o qual viveram no tempo dos juízes, pois lhes parecia humilde demais.
Rejeitaram Samuel e, nele, o Senhor, quando disseram: “Dá-nos um rei como as nações”, embora o Senhor fosse seu Rei. (2.) Ao desejo que as dez tribos tinham por um governo monárquico distinto do da casa de Davi. Julgavam que o governo de Davi era absoluto demais e lhes impunha um jugo pesado; esperavam melhorar sua condição estabelecendo Jeroboão.
Esses dois casos são exemplos: [1.] Da falta de previdência dos homens em favor de si mesmos. Quando estão descontentes com sua situação presente, gostam de novidades e pensam que uma mudança os fará melhorar. Mas geralmente se decepcionam e não encontram na alteração a vantagem que esperavam.
[2.] Da impiedade dos homens para com Deus, ao pensarem que podem aperfeiçoar suas disposições e corrigi-las. Deus deu a Israel juízes e profetas para guiá-lo; mas o povo se cansou deles e clamou: “Dá-nos um rei e príncipes”. Deus lhes deu a casa de Davi e a estabeleceu por uma aliança real; mas logo também se cansaram dela e clamaram: “Não temos parte em Davi”.
Destroem a si mesmos os que não se satisfazem com o que Deus faz por eles e pensam poder fazer melhor por conta própria. Pois bem, em ambos os pedidos a Providência cedeu ao desejo deles: deu-lhes primeiro Saul e, depois, Jeroboão. E que vantagem obtiveram com eles?
Saul lhes foi dado em ira (dado entre trovões, 1 Samuel 12:18, 19) e, pouco depois, tirado em cólera, no monte Gilboa. O governo monárquico das dez tribos foi dado em ira, não apenas contra Salomão por sua infidelidade, mas também contra as dez tribos que o desejaram, por seu descontentamento e desafeto à casa de Davi.
Agora Deus estava prestes a tirá-lo em cólera pelo poder do rei da Assíria. Então, “onde está teu rei?” Ele se foi, e permanecerás muitos dias sem rei e sem príncipe (Oseias 3:4), sem ninguém que te salve nem te governe.
Repare: primeiro, Deus muitas vezes nos concede em ira aquilo que desejamos de modo pecaminoso e desordenado. Dá-o com uma maldição e, juntamente com ele, entrega-nos aos desejos do nosso próprio coração. Foi assim que deu codornizes a Israel.
Segundo, em geral nos decepcionamos com aquilo que desejamos desordenadamente; não pode salvar-nos como esperávamos. Terceiro, o que Deus dá em ira ele tira em cólera; o que deu porque não o desejamos da maneira certa, tira porque não o usamos da maneira certa.
A felicidade dos santos está em que, quer Deus lhes dê, quer lhes tire, tudo acontece por amor e lhes fornece motivos para louvá-lo. Para os puros, todas as coisas são puras. A desgraça dos perversos está em que, quer Deus lhes dê, quer lhes tire, tudo acontece em cólera; para eles nada é puro, nada traz conforto.
- Deus fará por eles o que nenhum outro rei poderia fazer, mesmo que tivessem um (v. 14): “Eu os remirei do poder da sepultura”. Embora Israel segundo a carne seja entregue à destruição, Deus reserva misericórdia para seu Israel espiritual, no qual todas as promessas se cumpririam, inclusive esta.
Pois é a eles que o apóstolo a aplica (1 Coríntios 15:55), especialmente à bendita ressurreição dos crentes no grande dia, sem excluir sua ressurreição espiritual da morte do pecado para uma vida santa, celestial, espiritual e divina. Promete-se:
(1.) Que os cativos serão libertados e remidos do poder da sepultura. Sua libertação será por resgate; e sabemos quem pagou o resgate e qual foi o preço, pois foi o Filho do homem que deu sua vida em resgate por muitos, Mateus 20:28. É ele quem assim os redimiu.
Os que, ao se arrependerem e crerem, são absolvidos da culpa do pecado por causa da justiça de Cristo e salvos da morte e do inferno, que são o salário do pecado, são os remidos do Senhor. No grande dia, sairão triunfantes da sepultura; e será tão impossível para as amarras da morte retê-los quanto foi reter seu Mestre.
(2.) Que o conquistador será destruído: “Ó morte, eu serei tuas pragas!” Jesus Cristo foi a praga e a destruição da morte e da sepultura quando, pela morte, destruiu aquele que tinha o poder da morte e, em sua própria ressurreição, triunfou sobre a sepultura.
Mas a destruição completa da morte e da sepultura ocorrerá na ressurreição dos crentes, no grande dia, quando a morte será tragada para sempre pela vitória e destruído o último inimigo. Contudo, a palavra que traduzimos por “eu serei” também pode ser traduzida por Ubi nunc: “Onde estão agora tuas pragas?”.
Foi assim que o apóstolo a entendeu: “Ó morte, onde está tua praga, ou teu aguilhão, com que por tanto tempo afligiste o mundo? Ó sepultura, onde está tua vitória, ou tua destruição, com que destruíste a humanidade?” Cristo aboliu a morte, quebrou seu poder e mudou sua natureza, capacitando-nos assim a triunfar sobre ela.
Ele fez essa promessa, e ela se cumprirá para todos os que lhe pertencem; pois o arrependimento estará oculto de seus olhos. Jamais revogará essa sentença proferida contra a morte e a sepultura, pois não é homem para que se arrependa. Portanto, graças a Deus, que nos dá a vitória.