Oseias 14
Argumento
O tom deste capítulo difere do tom dos anteriores. Aqueles consistiam, em geral, em repreensões pelo pecado e ameaças de cólera; este consiste em exortações ao arrependimento e promessas de misericórdia. O profeta encerra com elas, pois todas as demonstrações de culpa e os terrores anteriores de que falou tinham o propósito de preparar o caminho para estas.
Ele fere para curar. O Espírito convence para consolar.
Este capítulo é uma lição para os penitentes, e alguns havia em Israel naquele tempo, por piores que fossem as coisas. Temos aqui: I. Orientações para o arrependimento, o que fazer e o que dizer, vv. 1-3. II. Incentivos ao arrependimento, extraídos da disposição de Deus para receber os pecadores que voltam (v. 4, 8) e dos confortos que ele lhes reservou, vv. 5-7.
III. Uma recomendação solene dessas coisas à nossa séria reflexão, v. 9.
Versículos 1 a 3
Os Penitentes São Animados. (a.C. 720.)
Temos aqui:
I. Um convite bondoso aos pecadores para que se arrependam, v. 1. Dirige-se a Israel, povo que professa pertencer a Deus. São chamados a voltar. Repare: A conversão deve ser pregada aos que estão dentro da igreja, assim como aos pagãos.
“Você é Israel e, portanto, está ligado a seu Deus pelo dever, pela gratidão e pelo próprio interesse. Sua revolta contra ele é ainda mais grave, e sua volta para ele, ainda mais necessária.” Que Israel veja: 1. Quanto motivo tem para arrepender-se: “Você caiu por causa de sua iniquidade.” Você tropeçou, como leem alguns. Seus ídolos eram suas pedras de tropeço.
“Você caiu, afastando-se de Deus e entrando no pecado; afastou-se de todo o bem e caiu sob o peso da culpa e da maldição.” Repare: O pecado é uma queda, e quem caiu por causa do pecado precisa levantar-se de novo pelo arrependimento.
- Qual é seu dever no arrependimento: “Volte ao Senhor, seu Deus; volte a ele como ao Senhor de quem você depende, como a seu Deus, seu pela aliança, em quem você tem interesse.” Repare: A grande necessidade dos que se revoltaram contra Deus é voltar a ele e, assim, retomar suas primeiras obras.
“Volte àquele de quem você caiu e que, sozinho, é capaz de levantá-lo. Volte até o Senhor, ou volte inteiramente para o Senhor; não se limite a olhar para ele nem a dar alguns passos em sua direção, mas leve a obra até o fim.” Os antigos judeus tinham um dito baseado nisso: O arrependimento é grande coisa, pois leva os homens até o trono da glória.
II. São dadas a eles instruções necessárias sobre como se arrepender. 1. Devem pensar no que dirão a Deus quando vierem a ele: “Levem consigo palavras.” Exige-se que tragam não sacrifícios nem ofertas, mas orações e súplicas penitentes, o fruto de seus lábios; contudo, não somente dos lábios, mas também do coração, pois, de outro modo, as palavras são apenas vento.
Um dos rabinos diz: Devem ser palavras que procedam do que primeiro se diz no íntimo; o coração deve ditá-las à língua. Devemos levar boas palavras conosco, levando bons pensamentos e boas afeições. Verbaque prævisam rem non invita sequentur — os que dominam um assunto raramente ficam sem palavras.
Repare: Quando nos apresentamos a Deus, devemos considerar o que temos a dizer-lhe, pois, se formos sem propósito, provavelmente voltaremos sem resposta. Esdras 9:10: “Que diremos?” Devemos levar conosco palavras das Escrituras, recebê-las do Espírito da graça e da súplica, que nos ensina a clamar: “Aba, Pai”, e intercede em nós.
- Devem pensar no que farão. Não devem apenas levar palavras consigo, mas voltar ao Senhor, interiormente no coração e exteriormente na vida.
III. Para ajudá-los e animá-los nisso, Deus tem por bem pôr palavras em sua boca, ensinando-lhes o que dizer. Certamente podemos esperar bom êxito com Deus quando ele próprio mandou preparar nossa petição e a colocou pronta em nossas mãos, e seu Espírito a redigiu para nós.
Sem dúvida teremos bom êxito se os movimentos da nossa alma corresponderem às palavras aqui recomendadas a nós. Elas são:
- Palavras de súplica. Somos orientados a pedir duas coisas: (1.) Ser absolvidos da culpa. Quando voltamos ao Senhor, devemos dizer-lhe: “Senhor, tira toda a iniquidade.” Eles estavam sofrendo por causa do pecado, sob o peso da aflição, mas são ensinados a orar, não como Faraó: “Tira esta morte”, e sim: “Tira este pecado.”
Repare: Quando estamos aflitos, devemos nos preocupar mais com o perdão dos pecados do que com a remoção das dificuldades. “Tira a iniquidade, ergue-a de nós como um fardo sob o qual estamos prestes a afundar, ou como a pedra de tropeço em que tantas vezes caímos.
Senhor, tira-a, para que não apareça contra nós, para nossa vergonha e condenação. Tira-a toda por uma remissão livre e completa, pois não podemos alegar que consigamos apagar parte alguma dela por uma reparação nossa.” Quando Deus perdoa o pecado, perdoa-o todo, essa grande dívida; e, quando oramos contra o pecado, devemos orar contra ele todo, sem excetuar nenhum.
(2.) Ser aceitos como justos aos olhos de Deus: “Recebe-nos favoravelmente. Dá-nos teu favor e amor, e olha para nós e para nossas ações. Recebe nossa oração favoravelmente; agrada-te do bem que tua graça nos capacita a fazer.” Recebe o bem, como diz a expressão; recebe-o para concedê-lo a nós, como diz a nota marginal: Dá o bem.
Isso se segue ao pedido de remoção da iniquidade, pois, até que ela seja removida, não temos motivo para esperar de Deus nenhum bem. A remoção da iniquidade, porém, abre caminho para a concessão do bem, removendo prohibens — tirando do caminho o que impedia.
“Dá o bem”; não dizem qual bem, mas deixam a escolha a Deus. Não é o bem mostrado pelo mundo (Salmos 4:6), mas o bem dado por Deus. “Dá o bem, aquele bem que perdemos por nossa culpa, que tu prometeste e de que nossa situação necessita.”
Repare: A aceitação graciosa de Deus, e os frutos e sinais benditos dessa aceitação, devem ser desejados e pedidos com fervor por nós ao voltarmos a ele. “Dá o bem, aquele bem que nos tornará bons e nos impedirá de voltar à iniquidade.”
- Palavras de promessa. Elas também são colocadas em sua boca, não para mover Deus ou obrigá-lo a mostrar-lhes misericórdia, mas para movê-los e obrigá-los a cumprir novamente seus deveres. Repare: Nossas orações por perdão e aceitação diante de Deus devem sempre vir acompanhadas de propósitos e votos sinceros de nova obediência.
Devem prometer e votar duas coisas: (1.) Gratidão. “Perdoa nossos pecados e aceita-nos; então ofereceremos os novilhos de nossos lábios.” O fruto de nossos lábios, como diz a Septuaginta, numa palavra que usavam para holocaustos e que, assim, concorda com o hebraico.
O apóstolo cita essa expressão (Hebreus 13:15) e entende o fruto de nossos lábios como sacrifício de louvor a Deus, dando graças a seu nome. Repare: O louvor e a gratidão são nosso sacrifício espiritual e, se vierem de um coração íntegro, agradarão ao Senhor mais que um boi ou novilho, Salmos 69:30, 32.
A consciência de nosso perdão e aceitação por Deus ampliará nosso coração em louvor e gratidão. Os que são recebidos favoravelmente podem e devem oferecer os novilhos de seus lábios: pobres retribuições por tão rico acolhimento, mas, se sinceras, mais aceitáveis que os novilhos da estrebaria.
(2.) Reforma da vida. São ensinados a prometer não apenas reconhecimento verbal, mas verdadeira reforma. E aqui aprendemos: [1.] Em nossa volta a Deus, devemos fazer aliança contra o pecado. Não podemos esperar que Deus o remova pelo perdão se não o afastarmos pelo abandono.
[2.] Devemos ser específicos em nossas alianças e resoluções contra o pecado, como devemos ser na confissão, pois o engano se esconde nas generalidades. [3.] Devemos fazer aliança especialmente e expressamente contra os pecados a que mais nos sujeitamos, que mais facilmente nos envolvem e pelos quais mais vezes fomos vencidos.
Devemos guardar-nos de nossa própria iniquidade e, portanto, fortalecer-nos contra ela desse modo, Salmos 18:23. O pecado contra o qual eles aqui fazem aliança, reconhecendo com isso que foram culpados dele, é dar a outro a glória devida somente a Deus. Prometem que nunca mais o farão:
Primeiro, depositando nas criaturas a confiança que só em Deus deve ser depositada. Não confiarão em alianças com o exterior: “A Assíria não nos salvará.” “Não cortejaremos a ajuda dos assírios quando estivermos em aflição, como fizemos (Oseias 5:13; 7:11; 8:9); não faremos acordo para obtê-la, nem confiaremos nela ou dependeremos dela.
Tendo um Deus a quem recorrer, um Deus todo-suficiente em quem confiar, desprezamos ficar devendo ajuda aos assírios.” Tampouco confiarão nos preparativos de guerra em sua própria terra, especialmente naqueles que lhes era proibido multiplicar: “Não montaremos em cavalos”, isto é, não buscaremos o favor do Egito, pois de lá traziam seus cavalos, Deuteronômio 17:16; Isaías 30:16; 31:1, 3.
“Quando nossos inimigos nos invadirem, dependeremos de nosso Deus para socorrer nossa infantaria e não nos preocuparemos em remontar nossa cavalaria.” Ou: “Não partiremos a galope, às pressas, de uma criatura para outra em busca de socorro; seguiremos o caminho mais próximo e o único seguro, dirigindo-nos a Deus”, Isaías 20:5.
Repare: O verdadeiro arrependimento nos afasta da confiança no braço da carne e nos leva a depender somente de Deus para todo o bem de que precisamos. Segundo, tampouco o farão prestando às criaturas a homenagem devida somente a Deus. “Não diremos mais às obras de nossas mãos: Vocês são nossos deuses.”
Devem prometer nunca mais adorar ídolos, e por uma boa razão: é a coisa mais absurda e irracional do mundo orar como a um deus àquilo que é obra de nossas mãos. Devemos prometer que não poremos o coração nos ganhos deste mundo nem nos orgulharemos de nossas práticas exteriores na religião, pois isso, na prática, é dizer à obra de nossas mãos: “Vocês são nossos deuses.”
- Palavras de apelo lhes são postas na boca: “Pois em ti o órfão encontra misericórdia.” Devemos buscar ânimo para orar não em algum mérito que Deus encontre em nós, mas unicamente na misericórdia que esperamos encontrar nele.
Isso contém uma grande verdade: Deus cuida especialmente dos órfãos, Salmos 68:4, 5. Assim fez em sua lei, Êxodo 22:22. Assim faz em sua providência, Salmos 27:10. É prerrogativa de Deus ajudar os desamparados. Nele há misericórdia para eles, pois são objetos apropriados de misericórdia.
Nele a encontram; ali está reservada para eles e ali devem procurá-la. Busquem, e encontrarão. Isso aparece aqui como um bom apelo por misericórdia e graça, que anima a fé. (1.) Apelam para a aflição de sua condição: “Somos órfãos, desprovidos de ajuda.”
Os que realmente reconhecem seu próprio desamparo e estão dispostos a admiti-lo podem esperar encontrar ajuda em Deus. Esse é um bom passo rumo ao conforto. “Se ainda não temos coragem de chamar Deus de Pai, reconhecemos que somos órfãos sem ele e, por isso, nos lançamos a seus pés para que nos olhe com compaixão.”
(2.) Apelam para a habitual bondade de Deus para com os que se encontram nessa condição: “Contigo o órfão não apenas pode encontrar, mas encontra e encontrará misericórdia.” É um grande incentivo à nossa fé e esperança, quando voltamos a Deus, saber que é sua glória ser pai dos órfãos e ajudar os desamparados.
Versículos 4 a 7
Garantia de Misericórdia; Arrependimento de Efraim. (a.C. 720.)
Temos aqui uma resposta de paz às orações de Israel que volta. Buscam a face de Deus e não a buscarão em vão. Deus certamente acolherá com misericórdia os que voltam a ele pelo caminho do dever. Se falarmos a Deus com boas orações, ele nos falará com boas promessas, como respondeu ao anjo com palavras boas e consoladoras, Zacarias 1:13.
Se levarmos as palavras anteriores ao nos aproximarmos de Deus, poderemos levar de volta estas palavras seguintes para que nossa fé delas se alimente. E veja como elas correspondem àquelas.
I. Eles temem e pedem que seja afastado o desagrado de Deus, e por isso voltam a ele? Deus lhes assegura que, depois de se submeterem, sua ira se afastou deles. Isso é posto como fundamento de todos os outros favores aqui prometidos: “Farei isto e aquilo, porque minha ira se afastou.” Assim se abre a porta para que todo bem flua até eles, Isaías 12:1.
Repare: Embora Deus se ire com justiça e intensidade contra os pecadores, não é implacável em sua ira. Ela pode ser afastada e será afastada dos que se afastarem de sua iniquidade. Deus se reconciliará com os que se reconciliarem com ele e com toda a sua vontade.
II. Pedem a remoção da iniquidade? Ele lhes assegura que curará suas apostasias, como prometeu, Jeremias 3:22. Repare: Embora as apostasias em relação a Deus sejam doenças e feridas perigosas da alma, não são incuráveis. Deus prometeu bondosamente que, se os pecadores apóstatas recorrerem a ele como seu médico e aceitarem seus métodos, curará suas apostasias.
Ele curará a culpa de suas apostasias mediante a misericórdia que perdoa e sua inclinação a apostatar mediante a graça que renova. Sua iniquidade não será sua ruína.
III. Pedem que Deus os receba favoravelmente? Em resposta, eis a promessa: “Eu os amarei livremente.” Deus os havia odiado enquanto persistiam no pecado (Oseias 9:15); mas agora, ao voltarem e se arrependerem, ele os ama. Não apenas deixa de irar-se com eles: agrada-se deles e planeja o seu bem.
Ama-os livremente, com amor absoluto e completo, segundo alguns, de modo que não resta nada de seu desagrado anterior; com amor liberal e generoso, segundo outros. Terá as mãos abertas no amor por eles e não considerará excessivo nada que lhes possa conceder ou fazer em seu favor.
Ou ama-os com disposição alegre e voluntária, sem relutância nem resistência. Não dirá no dia de seu arrependimento: “Como te receberei novamente?”, como disse no dia de sua apostasia: “Como te entregarei?” Ou ama-os com amor imerecido que os precede.
A quem Deus ama, ama livremente, não porque mereça, mas por sua própria boa vontade. Ele ama porque quer amar, Deuteronômio 7:7, 8.
IV. Pedem que Deus lhes dê o bem e os torne bons? Em resposta, eis a promessa: “Serei como o orvalho para Israel”, v. 5. Observe:
- Qual favor Deus lhes concederá. É a bênção de seu pai Jacó: “Deus te dê do orvalho do céu”, Gênesis 27:28. Ou melhor: aquilo de que precisam, Deus não apenas lhes dará; ele próprio será para eles tudo de que precisam: “Serei como o orvalho para Israel.”
Isso garante bênçãos espirituais nas coisas celestiais e se segue à cura de suas apostasias, pois a misericórdia que perdoa sempre vem acompanhada da graça que renova. Repare: Para os verdadeiros israelitas, o próprio Deus será como o orvalho. Ele os instruirá; sua doutrina cairá sobre eles como orvalho, Deuteronômio 32:2.
Eles o conhecerão cada vez mais, pois ele virá a eles como a chuva, Oseias 6:3. Ele os refrescará com seus confortos, de modo que suas almas serão como um jardim regado, Isaías 58:11. Para os verdadeiros penitentes, será como o orvalho que caía sobre Israel no deserto, o orvalho que continha maná, Êxodo 16:14; Números 11:9.
As graças do Espírito são o maná escondido, oculto no orvalho. Deus lhes dará pão do céu, como o deu abundantemente a Israel no orvalho, João 1:16.
- Qual fruto desse favor se produzirá neles. A graça assim concedida gratuitamente não será vã. As almas, os israelitas para quem Deus é como o orvalho e sobre quem sua graça destila:
(1.) Crescerão. Os maus, tornados bons pela graça de Deus, serão tornados melhores pela mesma graça; pois a graça, onde é verdadeira, cresce. [1.] Crescerão para cima, florescendo mais: “Crescerá como o lírio”, ou, como leem alguns, florescerá como a rosa.
O lírio, como todas as plantas de bulbo, cresce muito depressa. Sua raiz parece perdida na terra durante todo o inverno, mas, quando é refrescada pelo orvalho da primavera, brota em pouco tempo. Assim a graça de Deus às vezes faz os novos convertidos avançarem muito rapidamente.
O lírio, quando atinge sua altura, é uma bela flor (Mateus 6:29); da mesma forma, a graça é a formosura da alma, Ezequiel 16:14. É a beleza da santidade produzida pelo orvalho da manhã, Salmos 110:3.
[2.] Crescerão para baixo e serão mais firmes. O lírio, de fato, cresce depressa e é belo, mas logo murcha e é facilmente arrancado. Por isso se promete aqui a Israel que, com a flor do lírio, terá a raiz do cedro: “Estenderá suas raízes como o Líbano”, como as árvores do Líbano, que, tendo criado raízes profundas, não podem ser arrancadas, Amós 9:15.
Repare: O crescimento espiritual consiste sobretudo no crescimento da raiz, que não se vê. Quanto mais dependemos de Cristo e dele extraímos seiva e vigor, mais agimos na religião a partir de um princípio e nos tornamos firmes e resolutos nela; mais estendemos nossas raízes.
[3.] Crescerão para todos os lados (v. 6): “Seus ramos se estenderão” em todas as direções. E (v. 7) ele crescerá como a videira, cujos ramos se estendem mais longe que os de qualquer árvore. José seria um ramo frutífero, Gênesis 49:22.
Quando muitos de fora são acrescentados à igreja e uma geração promissora surge, os ramos de Israel se estendem. Quando os crentes, individualmente, abundam em boas obras e crescem no conhecimento de Deus e em todo bom dom, também se pode dizer que seus ramos se estendem. O homem interior se renova dia após dia.
(2.) Serão formosos e agradáveis tanto a Deus quanto aos homens. A graça é amável e torna verdadeiramente amáveis os que a possuem. Aqui são comparados a árvores agradáveis: [1.] À vista: “Sua beleza será como a da oliveira”, sempre verde. “O Senhor chamou teu nome de oliveira verdejante”, Jeremias 11:16.
As ordenanças são a beleza da igreja, e nelas ela está e estará sempre verdejante. A santidade é a beleza da alma. Quando os que creem com o coração professam com a boca e confirmam e adornam essa profissão com uma conduta coerente, sua beleza é como a da oliveira, Salmos 52:8.
É uma promessa às árvores de justiça que sua folha não murchará. [2.] Ao olfato: Seu cheiro será como o do Líbano (v. 6), e seu aroma, como o vinho do Líbano, v. 7. Esse foi o elogio de seu pai Jacó: “O cheiro de meu filho é como o cheiro de um campo que o Senhor abençoou”, Gênesis 27:27.
A igreja é comparada a um jardim de especiarias (Cantares de Salomão 4:12, 14), cujo aroma impregna todas as suas vestes. Os verdadeiros crentes são agradáveis a Deus e aprovados pelos homens. Deus sente um aroma suave em seus sacrifícios espirituais (Gênesis 8:21), e eles são acolhidos pela multidão dos irmãos.
A graça é o perfume da alma, o perfume do nome, que o faz semelhante a um óleo precioso, Eclesiastes 7:1. “Sua lembrança será como o vinho do Líbano”, segundo a nota marginal. Não apenas seus confortos revigorantes de agora, mas também as honras que subsistirão depois deles terão o delicado aroma do vinho do Líbano.
As igrejas florescentes têm sua fé anunciada pelo mundo inteiro (Romanos 1:8) e deixam um nome para ser lembrado (Salmos 45:17). A memória dos santos florescentes é bendita e continuará a sê-lo, como a daqueles que pela fé alcançaram bom testemunho.
(3.) Serão frutíferos e úteis. A igreja é aqui comparada à videira e à oliveira, que produzem frutos úteis, para honra de Deus e dos homens. Até a própria sombra da igreja será agradável (v. 7): Os que habitam à sua sombra voltarão; à sombra de Deus, segundo alguns; à sombra do Messias, segundo o caldeu.
Os crentes habitam à sombra de Deus (Salmos 91:1), onde estão e podem estar seguros e tranquilos. É mais provável, porém, que seja à sombra de Israel, à sombra da igreja. Repare: As promessas de Deus pertencem àqueles, e somente àqueles, que habitam à sombra da igreja, que observam as ordenanças de Deus e se apegam a seu povo.
Não pertencem aos que correm para essa sombra apenas para se abrigar de um raio de sol abrasador, mas aos que habitam nela, Salmos 27:4. Podemos aplicar isso aos crentes individualmente: quando alguém é efetivamente trazido de volta para Deus, todos os que habitam à sua sombra — filhos, servos, súditos, amigos — são alcançados. Hoje a salvação veio a esta casa.
Os que habitam à sombra da igreja voltarão; seu ânimo abatido voltará, e serão revigorados e confortados. “Ele restaura minha alma”, Salmos 23:3. Reviverão como o trigo que, depois de semeado, primeiro morre, depois revive e produz muito fruto, João 12:24.
Promete-se que o povo de Deus será bênção para o mundo, como o trigo e o vinho. Servir à nossa geração é uma misericórdia muito grande e valiosa. Ela vem acompanhada de conforto e honra.
Versículos 8 a 9
Garantias de Misericórdia. (a.C. 720.)
Ouçamos agora a conclusão de toda a questão.
I. Quanto a Efraim: fala-se dele e dirige-se a palavra a ele, v. 8. Temos aqui:
- Seu arrependimento e sua reforma: “Efraim dirá: Que tenho eu ainda a ver com os ídolos?” Segundo alguns, Deus aqui argumenta com ele sobre por que deve renunciar à idolatria: “Ó Efraim, que tenho eu a ver com os ídolos? Que concórdia ou acordo pode haver entre mim e os ídolos? Que comunhão há entre a luz e as trevas, entre Cristo e Belial?”, 2 Coríntios 6:14, 15.
“Portanto, você deve romper seu pacto com eles se quiser fazer aliança comigo.” Segundo nossa leitura, Deus promete levar Efraim a essa resolução e nela mantê-lo: “Efraim dirá”; Deus lhe porá no coração dizê-lo: “Que tenho eu ainda a ver com os ídolos?” Ele prometeu (v. 3) não mais dizer às obras de suas mãos: “Vocês são os meus deuses.”
Mas as promessas de Deus para nós oferecem muito mais segurança e força para mortificar o pecado do que nossas promessas a Deus. Por isso o próprio Deus aqui se faz fiador de seu servo para o bem e colocará isso em seu coração e em sua boca. Todo bem que dissermos ou fizermos, seja quando for, é ele quem o opera em nós.
Efraim havia se comprometido solenemente a não chamar seus ídolos de seus deuses; mas Deus aqui se compromete ainda mais por ele: Efraim resolverá não ter mais nada a ver com eles. Vai aboli-los, abandoná-los, e isso com a maior aversão. Pois é necessário que nos voltemos do pecado não apenas em nossa vida, mas também, no coração, contra o pecado.
Veja aqui: (1.) O poder da graça divina. Efraim estava unido a seus ídolos (Oseias 4:17) e tão apegado a eles que se pensaria que nunca poderia romper com eles. Contudo, Deus operará nele tal mudança que os detestará tanto quanto antes os amava.
(2.) Veja o benefício das aflições santificadas. Efraim sofrera por sua idolatria, que trouxera sobre ele um juízo após outro. Por fim, este é o fruto disso: a remoção de seu pecado, Isaías 27:9. (3.) Veja a natureza do arrependimento: é uma resolução firme e decidida de não ter mais nada a ver com o pecado.
Esta é a linguagem do penitente: “Tenho vergonha de algum dia ter tido algo a ver com o pecado; mas já tive bastante dele. Odeio-o e, pela graça de Deus, nunca mais terei nada a ver com ele, nem sequer com as ocasiões de pecar.” Você dirá a seu ídolo: “Vai-te daqui” (Isaías 30:22); dirá ao tentador: “Vai para trás de mim, Satanás.”
- A atenção bondosa que Deus tem por isso: “Eu o ouvi e o observei.” “Eu o ouvi e olharei para ele”; assim leem alguns. Repare: O Deus do céu toma conhecimento das reflexões penitentes e resoluções dos pecadores que retornam. Ele espera e deseja o arrependimento dos pecadores, porque não tem prazer em sua ruína.
Ele olha para os homens (Jó 33:27), atenta e escuta, Jeremias 8:6. E, se existe alguma disposição ao arrependimento, ele se agrada dela. Quando Efraim se lamenta diante de Deus, é um filho querido, uma criança agradável, Jeremias 31:20. Deus encontra os penitentes com misericórdia, como o pai do pródigo encontrou o filho que voltava.
Deus observou Efraim para ver se ele produziria frutos dignos da profissão de arrependimento que fizera e se continuaria com essa boa disposição. Observou-o para fazer-lhe o bem e confortá-lo conforme as necessidades de sua situação.
- A misericórdia que Deus lhe destina, para seu conforto e sua perseverança em suas resoluções: Deus continuará sendo tudo em todos para ele. Antes, Israel foi comparado a uma árvore; agora Deus se compara a uma. Para seu povo, ele será: (1.) Como os ramos de uma árvore: “Sou como um pinheiro verde e assim serei para você.”
Naquelas regiões, os pinheiros eram muito grandes e densos, oferecendo abrigo contra o sol e a chuva. Deus será para todos os verdadeiros convertidos tanto deleite quanto defesa; sob sua proteção e influência, habitarão seguros e em repouso. Ele será sol e escudo ou sombra e escudo, conforme exigir a situação deles.
Eles se sentarão sob sua sombra com prazer, Cantares de Salomão 2:3. Ele será assim em qualquer tempo, Isaías 4:6. (2.) Como a raiz de uma árvore: “De mim se encontra o teu fruto.” Isso pode ser entendido tanto do fruto produzido para nós, pois a ele devemos todos os nossos confortos, quanto do fruto produzido por nós: dele recebemos graça e força para cumprir o dever.
Por quaisquer frutos de justiça que produzirmos, todo o louvor é devido a Deus, pois ele opera em nós tanto o querer quanto o fazer o que é bom.
II. Quanto a todo aquele que ouve e lê as palavras da profecia deste livro (v. 9): “Quem é sábio? Entenderá estas coisas.” Talvez o profeta costumasse encerrar assim os sermões que pregava e agora encerra com essas palavras o livro inteiro, no qual registrou alguns fragmentos dos muitos sermões que havia pregado.
Observe: 1. O caráter dos que tiram proveito das verdades que ele expôs: “Quem é sábio e prudente? Entenderá estas coisas, saberá delas.” Os que se dedicam a entender e conhecer essas coisas mostram, por isso, que são verdadeiramente sábios e prudentes e se tornarão ainda mais sábios e prudentes.
Se alguém não as entende nem conhece, é porque é tolo e insensato. Os que são sábios no cumprimento do dever, prudentes na prática da religião, são os mais aptos a conhecer e compreender tanto as verdades quanto as providências de Deus, que são mistério para outros, João 7:17. O segredo do Senhor está com os que o temem, Salmos 25:14.
“Quem é sábio?” Isso sugere um desejo de que os leitores e ouvintes entendam essas coisas — “Ah, se fossem sábios!” — e uma queixa de que poucos o são: “Quem creu em nossa mensagem?”
- A excelência das coisas acerca das quais aqui somos instruídos: “Os caminhos do Senhor são retos”; por isso é nossa sabedoria e nosso dever conhecê-los e compreendê-los. O caminho dos preceitos de Deus, no qual ele exige que andemos, é reto: está de acordo com as normas da razão e da equidade eternas e conduz diretamente à nossa felicidade eterna.
Os caminhos da providência de Deus, nos quais ele age para conosco, são todos retos; não se pode achar defeito em coisa alguma que Deus faz, pois tudo é bem feito. Seus juízos sobre os impenitentes e seus favores aos penitentes são todos retos. Por mais que sejam deturpados ou mal interpretados, Deus por fim será justificado e glorificado em todos eles. Seus caminhos são equitativos.
- O diferente uso que os homens fazem deles. (1.) Para os bons, os caminhos retos de Deus são e serão aroma de vida para vida: “Os justos andarão neles.” Eles se conformarão à vontade de Deus tanto em seus preceitos quanto em suas providências e terão o conforto de fazê-lo.
Compreenderão bem o pensamento de Deus em sua palavra e em suas obras, estarão bem reconciliados com ambas e se ajustarão à intenção de Deus em ambas. Os justos andarão por esses caminhos rumo ao seu grande fim e não deixarão de alcançá-lo.
(2.) Para os maus, os caminhos retos de Deus serão aroma de morte para morte: “Os transgressores cairão”, não apenas em seus próprios caminhos errados, mas até nos caminhos retos do Senhor. Cristo, pedra fundamental para alguns, é para outros pedra de tropeço e rocha de escândalo. Aquilo que foi destinado à vida se torna morte para eles pelo abuso que fazem disso.
As providências de Deus, por não serem devidamente aproveitadas por eles, os endurecem no pecado e contribuem para sua ruína. A revelação que Deus faz de si mesmo, tanto nos juízos de sua boca quanto nos juízos de sua mão, tem para nós o efeito correspondente à maneira como a recebemos.
Recipitur ad modum recipientis — o que é recebido exerce sua influência conforme as qualidades de quem o recebe. O mesmo sol amolece a cera e endurece o barro.
Mas, entre todos os transgressores, os que certamente sofrem as quedas fatais mais perigosas são os que caem nos caminhos de Deus, os que se despedaçam na rocha dos séculos e extraem veneno do bálsamo de Gileade. Que os pecadores em Sião temam isso.