Matthew Henry

Oseias 12

Argumento

Neste capítulo temos: I. Uma grave acusação contra tanto Israel quanto Judá por seus pecados, que deram motivo à contenda de Deus com eles, v. 1, 2. Em particular, o pecado da fraude e da injustiça, do qual Efraim é acusado (v. 7) e no qual se justifica, v. 8. E o pecado da idolatria (v. 11), pelo qual Deus é provocado a contender com eles, v. 14.

II. As circunstâncias que agravam os pecados de que são acusados, tiradas da honra que Deus concedeu a seu pai Jacó (vv. 3-5), da elevação deles à condição de povo a partir de origens baixas e humildes (v. 12, 13) e dos auxílios para sua alma que Deus lhes providenciou por meio dos profetas que lhes enviou, v. 10.

III. Um chamado aos não convertidos para voltarem a Deus, v. 6. IV. Uma indicação da misericórdia que Deus lhes reservava, v. 9.

Versículos 1 a 6

Os Crimes de Israel e Judá; Apelos a Israel. (a.C. 723.)

Nestes versículos:

I. Efraim é declarado culpado de insensatez por apoiar-se no Egito e na Assíria quando passava por aflição (v. 1): “Efraim se alimenta de vento”. Alimenta-se de vãs esperanças de ajuda humana quando está em desacordo com Deus. Ao sofrer decepções, continua no mesmo empenho e, com avidez, anseia pelo vento oriental e o persegue.

Não consegue agarrá-lo e, ainda que pudesse, esse vento não o alimentaria; ou melhor, seria nocivo. Dizemos do vento oriental: “Não faz bem nem a homem nem a animal”. Foi dito em Oseias 8:7 que ele semeia o vento; assim como semeia, colhe — colhe o redemoinho — e, assim como colhe, se alimenta: alimenta-se do vento, do vento oriental.

Repare: os que põem sua confiança nas criaturas fazem de si mesmos tolos. Esforçam-se muito para aplicar um embuste à sua própria alma e preparar aflições para si: “Diariamente multiplica as mentiras”. Isto é, multiplica suas correspondências e pactos com seus vizinhos, que acabarão por enganá-lo; ou melhor, acabarão por devastá-lo.

As mesmas nações em que busca refúgio lhe causarão ruína. Os que se apoiam em mentiras sempre desejarão aumentá-las, a fim de firmar nelas suas esperanças, como se muitas mentiras entrelaçadas formassem uma verdade, ou muitas canas quebradas e apoios podres formassem um apoio firme.

É grande ilusão, que lhes trará grande devastação. Quanto mais os que atentam para vaidades mentirosas as multiplicam, mais decepções preparam para si e mais se afastam de suas próprias misericórdias.

Foi o que fizeram os homens de Efraim ao pensar que manteriam a Assíria do seu lado por meio de um pacto solene, assinado, selado e jurado: “Fazem aliança com os assírios”. Descobrirão, porém, que não podem prendê-los a ela; o poderoso príncipe só será escravo de sua palavra enquanto lhe aprouver.

Pensaram também em conquistar os egípcios como aliados com um rico presente dos produtos de sua terra. Não queriam apenas comprar-lhes o favor, mas mostrar que sua amizade merecia ser buscada: “Leva-se azeite ao Egito”. Mas os egípcios receberam o suborno, abandonaram a causa e não trouxeram benefício algum a Efraim.

Oleum perdidit et operam — Perderam-se tanto o azeite quanto o trabalho. Isso era alimentar-se de vento, aumentar as mentiras e a devastação.

II. Deus também contende com Judá e com Jacó, nome que abrange tanto Efraim quanto Judá (v. 2): “O Senhor também tem uma contenda com Judá”. Embora algum tempo antes houvesse governado com Deus e sido fiel aos santos, ainda assim, agora Judá começa a degenerar.

Ou, embora houvessem acertado em continuar fiéis à casa de Davi e à casa de Arão, e assim às alianças da realeza e do sacerdócio, de modo que pela primeira governavam com Deus e pela segunda eram fiéis aos santos, ainda assim Deus tinha outros motivos para contender com eles e os castigaria.

Repare: estar certo em algumas coisas, mesmo nas principais, não isenta ninguém da correção pelas coisas em que está errado; por isso, também não deve isentá-lo da censura. Cristo aprovou e elogiou alguns dentre os das sete igrejas da Ásia; ainda assim, acrescenta: Contudo, tenho algo contra você.

Assim também aqui: embora os descendentes de Jacó sejam um povo próximo de Deus, ainda assim Deus os castigará de acordo com os maus caminhos em que forem encontrados e as más ações de que forem culpados. Deus vê o pecado até em seu próprio povo e lhe pedirá contas por ele.

III. Tanto Efraim quanto Judá são lembrados de seu pai Jacó, cuja descendência eram e cujo nome levavam, e isso era sua honra. Também são lembrados das coisas extraordinárias que ele fez e que Deus fez em favor dele. Assim deveriam envergonhar-se mais de ter degenerado de um antepassado tão ilustre e manchado o brilho de um nome tão grande.

Ao mesmo tempo, isso deveria movê-los e animá-los a voltar a Deus, o Deus de seu pai Jacó, na esperança de encontrar favor junto dele por causa de Jacó. Deus chamara esse povo de Jacó (v. 2) ao ameaçá-lo de castigo; mas como os entregarei? Como será esquecido esse nome querido?

  1. Recordam-se aqui ao povo de Jacó três acontecimentos gloriosos da vida de Jacó. São apresentados apenas por breves alusões, pois se presume que conheciam a história:

(1.) Sua luta com Esaú no ventre: “Ali agarrou o calcanhar do irmão” (v. 3). Temos o relato em Gênesis 25:26. Foi uma demonstração precoce de coragem e um esforço pela melhor primazia, uma santa ambição pelo direito de primogenitura na aliança. Esaú foi justamente tachado de profano por desprezar esse direito.

Sua descendência degenerada, porém, mesclou-se com as nações e fez pactos com elas. Assim profanou a coroa e lançou ao pó a honra pela qual Jacó lutara tão gloriosamente. Naquele momento ele recebeu o domínio: “O mais velho servirá ao mais novo”. Deus o reconheceu então como amado: “Amei Jacó, mas odiei Esaú”.

Por seus pecados, contudo, os descendentes de Jacó perderam tanto o amor de Deus quanto o domínio sobre seus vizinhos.

(2.) Sua luta com o anjo. “Lembrem-se de como seu pai Jacó teve poder diante de Deus por sua própria força, a força que Deus lhe concedeu; Deus não contendeu com ele por meio de seu grande poder, mas lhe deu forças” (Jó 23:6).

O anjo com quem lutou é chamado Deus e, por isso, supõe-se que fosse o Filho de Deus, o anjo da aliança. “Deus era ao mesmo tempo o adversário e o auxiliar de Jacó; como auxiliar, demonstrou força maior que como adversário, lutando, por assim dizer, contra ele com a mão esquerda e a favor dele com a direita, empregando nesta mais vigor.” Assim explica o dr. Pocock.

A providência de Deus lutou contra Jacó quando ele encontrou um perigo após outro no caminho de volta para casa. A graça de Deus, porém, o capacitou a seguir alegremente seu caminho. Quando sua fé, agindo sobre a promessa divina a seu favor, prevaleceu sobre seus temores, que surgiam das providências divinas contrárias a ele, então, por sua força, teve poder diante de Deus.

A referência, porém, é sobretudo à oração de Jacó por livramento de Esaú e por uma bênção: teve poder sobre o anjo e prevaleceu, pois chorou e suplicou. Havia nele uma combinação da maior coragem e da maior ternura: Jacó lutava como um campeão e, ainda assim, chorava como uma criança.

Repare: orações e lágrimas são as armas com que os santos alcançaram suas vitórias mais gloriosas. Assim Jacó se tornou Israel, um príncipe com Deus. Seus descendentes receberam o nome Israel, mas não eram dignos dele: ao abandonar seu dever para com Deus, perderam, por sua culpa, sua comunhão com Deus e sua participação nele.

(3.) Seu encontro com Deus em Betel: “Deus o encontrou em Betel, e ali falou conosco”. Deus o encontrou ali pela primeira vez quando Jacó ia para Padã-Arã (Gênesis 28:10) e pela segunda após sua volta, Gênesis 35:9, etc. É provável que a referência alcance os dois encontros.

Em ambos Deus falou a Jacó e renovou sua aliança com ele. O profeta bem podia dizer: “Ali falou conosco”, conosco, que somos descendentes de Jacó, pois nas duas vezes em que Deus lhe falou em Betel tratou também de sua descendência. Em Gênesis 28:14: “Tua descendência será como o pó da terra”; e em Gênesis 35:12: “Esta terra darei à tua descendência”.

Deus fez assim aliança com Jacó e com sua descendência depois dele. Agora, com justiça são repreendidos por isso: no mesmo lugar que seu pai chamara Betel, casa de Deus, em lembrança da comunhão que ali tivera com ele, levantaram um dos bezerros e o adoraram. Transformaram Betel em Bete-Áven, casa da iniquidade.

Ali Deus lhes havia falado com promessas extraordinariamente grandes e preciosas, que desprezaram e de cujos benefícios abriram mão.

  1. Dessas histórias a respeito de Jacó extraem-se duas conclusões para instruir seus descendentes:

(1.) Uma lição de conhecimento. Pelo que ocorreu entre Deus e Jacó, aprendemos que Jeová, o Senhor Deus dos Exércitos, é o Deus de Israel. Ele foi o Deus de Jacó; esse é seu memorial através de todas as gerações da descendência de Jacó (v. 5). Tanto maior a vergonha para os que esqueceram o memorial da própria igreja, abandonaram o Deus dos pais e trocaram o Senhor dos Exércitos pelos baalins!

Repare: somente são considerados povo de Deus os que preservam seu memorial, aquele que ele próprio instituiu, pelo qual se dá a conhecer e quer que nos lembremos dele. Aqui estão dois memoriais seus, que o distinguem de todos os outros e pelos quais devemos reconhecê-lo e adorá-lo:

[1.] O primeiro indica sua existência por si mesmo. Ele é Jeová, nome de sentido muito semelhante a “EU SOU”, aquele que era, que é e que virá, infinito, eterno e imutável. Jeová é seu memorial, seu nome particular.

[2.] O segundo indica seu domínio sobre tudo. Ele é o Deus dos Exércitos, que tem à sua disposição e sob seu comando todas as hostes do céu e da terra e as emprega como lhe agrada. Jacó viu Maanaim, os dois exércitos de Deus, na época em que lutou com o anjo (Gênesis 32:1, 2). Aprendeu então a chamar Deus de Deus dos Exércitos e transmitiu-nos esse nome como memorial dele.

Os nomes, títulos e atributos de Deus são memoriais dele; não precisamos de imagens para isso. E o que foi revelação de Deus para uma pessoa torna-se seu memorial para muitas, através de todas as gerações.

(2.) Uma lição de exortação (v. 6): “É assim, que Jacó, teu pai, teve tal comunhão com o Senhor Deus dos Exércitos, e este ainda é seu memorial?” Então:

[1.] Que os que se afastaram de Deus se convertam a ele: “Portanto, volta para o teu Deus”. O Deus de Jacó é o Deus de Israel, é o seu Deus. Você se rebelou contra ele injustamente e sem bondade; portanto, volte a ele mediante arrependimento e fé. Volte para ele como seu Deus, para amá-lo, obedecer-lhe e depender dele.

[2.] Que os convertidos a ele andem com ele em toda conduta santa e piedade: “Guarda a misericórdia e o juízo”: misericórdia ao aliviar e socorrer os pobres e aflitos; juízo ao dar a cada um o que lhe é devido. “Sê bondoso com todos e não prejudiques ninguém. Guarda a piedade e o juízo”, segundo outra leitura.

“Vive de modo justo e piedoso neste mundo presente; sê devoto e honesto. Não pratiques essas virtudes apenas de vez em quando, mas cuida de praticá-las de maneira cuidadosa, constante e conscienciosa.”

[3.] Que os que andam com Deus sejam animados a viver na dependência dele: “Espera continuamente no teu Deus, com a expectativa confiante de receber dele todos os socorros e todas as provisões de que precisas”. Os que vivem conformados com Deus podem viver confiando nele e encontrando nele consolo, se a culpa não for deles próprios.

Que nossos olhos estejam sempre voltados para o Senhor; conservemos santa segurança e serenidade de espírito sob a proteção do poder divino e a influência de seu favor. Aguardemos sem ansiedade um desfecho incerto e, pela fé, mantenhamos o ânimo calmo e equilibrado. Isso é esperar em Deus como nosso Deus em aliança, e devemos fazê-lo continuamente.

Versículos 7 a 14

Censura pelo Pecado; Ameaça de Juízo; Memoriais da Misericórdia Divina. (a.C. 723.)

Nestes versículos, aparecem misturadas:

I. Censuras pelo pecado. Quando Deus vem contender com um povo, a fim de demonstrar sua própria justiça, também demonstrará a injustiça desse povo. Efraim foi chamado a voltar ao seu Deus e guardar o juízo (v. 6). Agora, para mostrar quanto precisava desse chamado, é acusado de afastar-se de seu Deus pela idolatria e de violar as leis da justiça e do juízo.

  1. Aqui ele é acusado de injustiça contra os preceitos da segunda tábua da lei (v. 7, 8). Observe aqui:

(1.) O pecado de que é acusado: “É um comerciante”. Na margem, a palavra aparece como nome próprio: “É Canaã”, ou um cananeu, indigno de receber o nome de Jacó e Israel e merecedor de ser expulso com maldição desta boa terra, como os cananeus. Veja Amós 9:7.

Mas Canaã às vezes significa comerciante, e esse é provavelmente o sentido aqui, pois Efraim é acusado de enganar no comércio.

Embora Deus tivesse dado a seu povo uma terra que manava leite e mel, ainda assim não os proibiu de enriquecer mediante o comércio. Nesse ofício, como na agricultura, sucederam aos cananeus: sugavam a abundância dos mares e os tesouros escondidos na areia, Deuteronômio 33:19.

Se houvessem sido comerciantes honestos, isso não lhes traria descrédito algum, mas honra e bênção. Efraim, porém, é comerciante como eram os cananeus: só honesto sob cuidadosa vigilância e disposto a embustear, se pudesse, todos com quem negociasse. Ele engana e, desse modo, oprime.

Repare: há opressão pela fraude assim como pela força. Não são apenas príncipes, senhores e patrões que oprimem seus súditos, arrendatários e servos. Comerciantes e negociantes muitas vezes oprimem aqueles com quem tratam, iludindo-os por sua ignorância, aproveitando sua necessidade para impor-lhes negócios duros ou cobrando-lhes dívidas com rigor e severidade.

Efraim embusteava: [1.] Com muita arte e astúcia: “Tem na mão balanças de engano”. Usa balanças e entrega os produtos por peso e medida, como se fosse muito exato. Mas são balanças de engano, pesos falsos e medidas falsas. Sob a aparência de agir corretamente, pratica a maior das injustiças.

Repare: Deus observa comerciantes e negociantes ao pesarem mercadorias e pagarem dinheiro, para ver se agem com honestidade ou engano. Vê quais balanças têm nas mãos e como as seguram. Seus clientes podem não perceber a destreza com que transformam as balanças em balanças de engano, mas Deus vê e sabe.

A inteligência humana transforma os ofícios em mistérios; é lamentável que o pecado os transforme em mistérios da iniquidade.

[2.] Com grande prazer e orgulho: “Ama oprimir”. Oprimir já é bastante mau; amar fazê-lo é muito pior. Sua consciência não o detém nem o censura, como deveria. Se o fizesse, mesmo ao cometer o pecado, não sentiria prazer nele.

Suas corrupções, porém, são tão fortes e triunfaram de tal modo sobre suas convicções que ele ama não só o ganho da opressão, mas a própria opressão. Peca pelo gosto de pecar e tem prazer em ser mais esperto e levar vantagem sobre quem nada suspeita.

(2.) Como se justifica nesse pecado (v. 8). Os perversos sempre encontram algo a dizer em sua defesa agora, quando lhes falam de suas faltas, alguma desculpa frívola para escapar ao convencimento produzido pela palavra. Efraim está formalmente acusado de ser embusteiro habitual; veja agora sua alegação diante da acusação.

Ele não nega a acusação nem alega “Não sou culpado”, mas tampouco confessa arrependido ou pede perdão: insiste em justificar-se. Ainda que tivesse usado balanças de engano, argumentaria:

[1.] Que havia adquirido muitos bens. Que o profeta dissesse o que quisesse a respeito de seu engano, do pecado envolvido e da maldição de Deus que o acompanhava, Efraim não se convencia de que nisso houvesse prejuízo ou perigo, pois tinha certeza de que enriquecera assim: “Contudo, tornei-me rico; encontrei bens para mim. Interpretem isso como quiserem: aproveitei bem a oportunidade.”

Repare: corações carnais muitas vezes passam a considerar bons os próprios caminhos maus porque neles alcançam prosperidade e êxito mundanos. Mas é grande engano. Cada palavra de Efraim aqui proclama sua loucura:

Primeiro, é loucura chamar as riquezas deste mundo de bens substanciais, pois são coisas que não existem, Provérbios 23:5.

Segundo, é loucura pensar que as obtivemos por conta própria e dizer, segundo outra leitura: “Eu me fiz rico; tudo o que tenho se deve somente à minha engenhosidade e diligência. Encontrei meus bens; minha força e o poder de minha mão me deram esta riqueza.”

Terceiro, é loucura pensar que o que temos é para nós: “Encontrei bens para mim”, como se nos pertencessem para uso e benefício exclusivamente nossos, quando os recebemos em confiança, apenas como administradores.

Quarto, é loucura pensar que as riquezas são motivo de glória e exclamar: “Tornei-me rico”. Elas não são honras da alma, não pertencem exclusivamente aos melhores homens nem temos garantia de conservá-las. Portanto, o rico não deve gloriar-se em suas riquezas, Tiago 1:9, 10.

Quinto, é loucura pensar que enriquecer pelo pecado nos torna inocentes, nos tornará seguros ou pode nos deixar tranquilos nesse caminho. A prosperidade dos insensatos os engana e destrói. Veja Isaías 47:10; Provérbios 1:32.

[2.] Que havia preservado boa reputação. É comum os pecadores, ao serem justamente censurados por seus ministros, recorrerem a seus vizinhos. Como estes nada sabem de mau a seu respeito, não querem dizer nada, ou acham boas as atitudes que os profetas condenam, os pecadores enfrentam seus censores.

Efraim diz: “Em todos os meus trabalhos, não encontrarão em mim iniquidade que seja pecado”. Repare: corações carnais tendem a formar boa opinião de si mesmos com base na reputação favorável que têm entre os vizinhos. Efraim se sentia muito seguro:

Primeiro, todos os seus vizinhos sabiam que era diligente em seus negócios. Observavam todos os seus trabalhos e o elogiavam por eles: os homens o louvarão quando fizer o bem a si mesmo.

Segundo, nenhum vizinho sabia que agia com engano nos negócios. Agia com tanta sagacidade que ninguém podia afirmar que não fosse íntegro. Pois, ou:

  1. Ocultava a fraude, para que ninguém a descobrisse: “Qualquer que seja a iniquidade, ninguém a encontrará”, como se somente a iniquidade pública e escandalosa desagradasse a Deus e trouxesse perdição à alma. Que vantagem haverá em os homens não acharem iniquidade em nós, se Deus acha muita e levará a juízo todas as obras secretas, até as fraudes escondidas?

Ou, 2. Desculpava a fraude, para que ninguém a condenasse: “Não encontrarão em mim iniquidade que seja pecado; nada muito grave, somente faltas escusáveis e pecados leves que nem merecem menção”. Como eles próprios não lhes dão importância, pensam que Deus também os ignorará.

É iniquidade em voga, prática comum, que todos adotam; é agradável e lucrativa. Por isso acreditam que não seja “iniquidade que seja pecado” e que ninguém pensará pior deles. Mas Deus não vê como o homem vê nem julga como o homem julga.

  1. Aqui Efraim é acusado de idolatria, contrária aos preceitos da primeira tábua da lei. É a iniquidade especialmente chamada vaidade: fabricar e adorar imagens, que são vaidades (v. 11): “Certamente são vaidade”; não trazem proveito, mas enganam. O profeta menciona dois lugares conhecidos pela idolatria:

(1.) Gileade, do outro lado do Jordão, já marcado por esse pecado (Oseias 6:8): “Há iniquidade em Gileade?” É algo de causar espanto; é algo a ser lamentado com tristeza. Como pode haver iniquidade em Gileade, idolatria ali? Gileade era uma região fértil e agradável, proverbialmente agradável (Jeremias 22:6). Retribuiria tão mal ao Senhor?

Era região de fronteira, muito exposta às agressões dos inimigos, e por isso precisava especialmente da proteção divina. Como, então, poderia afastar-se dessa proteção por sua iniquidade? Há iniquidade em Gileade? Sim, e ainda:

(2.) Também em Gilgal. Ali sacrificam novilhos (Oseias 9:15), e os altares que levantaram a deuses estranhos em oposição ao altar designado por Deus são tão numerosos quanto os montes de esterco nos sulcos do campo a ser semeado, Oseias 8:11.

“A iniquidade está apenas em Gileade?”, segundo alguns. Só nessas regiões distantes, junto a outras nações, o povo é tão supersticioso? Não: em Gilgal é igualmente mau. Em Gileade Deus protegera Jacó, pai deles, de quem vinha falando, da fúria de Labão, e é ali que vocês cometerão iniquidade?

II. Aqui há ameaças de cólera pelo pecado. Alguns entendem nesse sentido o v. 9: “Farei que habites em tendas como nos dias do tempo determinado”; isto é, Deus os faria voltar à condição dos israelitas que moraram em tendas e vaguearam durante quarenta anos, o tempo determinado no deserto.

Efraim esqueceu que Deus o tirou do Egito e o elevou ao que era. Orgulhou-se da riqueza e adotou caminhos pecaminosos para aumentá-la. Por isso Deus ameaça devolvê-lo à condição de quem vive em tendas: pobre, humilde, desolado e sem estabilidade.

Repare: quando os homens transformam suas tendas em casas mediante o pecado, é justo que Deus, por seus juízos, transforme as casas novamente em tendas.

De todo modo, o v. 14 certamente contém uma ameaça: “Efraim o provocou à ira muito amargamente”. Veja como os homens se enganam na opinião que têm de si mesmos e como um dia perderão essa ilusão. Efraim pensava que nele não havia iniquidade digna do nome de pecado (v. 8).

Deus, porém, lhe disse que havia, sim, algo que era pecado e que assim se revelaria se não se arrependesse e se reformasse. Pois:

  1. Seu pecado ofendia gravemente a seu Deus. “Efraim o provocou à ira muito amargamente” com suas iniquidades, que eram muito desagradáveis a Deus e, para Efraim também, se tornariam amargura no fim. Pecava voluntariamente contra seu conhecimento e suas convicções, a ponto de qualquer um poder ver e dizer que não tinha outro desígnio senão provocar Deus no mais alto grau.

  2. Seu pecado certamente o destruiria; não poderia ser diferente, pois provocava Deus contra ele e acendia o fogo de sua cólera. Por isso:

(1.) Deus lhe tirará a vida, já perdida por sua culpa: “Deixará seu sangue sobre ele”. Isto é, não o terá por inocente, mas lhe trará a morte, salário do pecado. Seu sangue cairá sobre sua própria cabeça (2 Samuel 1:16), pois sua própria iniquidade testemunhou contra ele, e só ele carregará a culpa. Repare: quando os pecadores perecem, seu sangue permanece sobre eles.

(2.) Deus lhe tirará a honra, também perdida por sua culpa: “Seu Senhor devolverá sobre ele seu descrédito”. Deus é seu Senhor. Pela idolatria e outros pecados, Efraim desacreditou o Senhor, desonrou a ele, a seu nome e a sua família e deu a outros motivo para desacreditá-lo. Agora Deus fará o descrédito voltar sobre Efraim.

Assim se cumprirá a palavra de que os que desprezam Deus serão pouco estimados. Repare: pecados vergonhosos receberão castigos vergonhosos. Se Efraim desprezar seu Deus, será reduzido a tal ponto que todos os seus vizinhos o olharão com desprezo.

III. Aqui há memoriais das antigas misericórdias de Deus, mencionados para declará-los culpados da vil ingratidão de sua rebelião contra ele. Envergonhem-se ao recordar:

  1. Que Deus os elevou de uma condição humilde. Quando Efraim enriqueceu e se orgulhou disso, esqueceu aquilo que Deus os obrigara a reconhecer anualmente para que não se esquecessem (Deuteronômio 26:5): “Um sírio prestes a perecer foi meu pai”. Mas Deus os lembra disso aqui (v. 12).

Que se recordem não apenas das honras de seu pai Jacó, do poderoso príncipe que foi diante de Deus (v. 3), honra da qual não participavam enquanto se rebelavam contra ele, mas também do pobre servo de Labão que Jacó foi. Isso bastaria para humilhar os que se ensoberbeciam com os bens que haviam acumulado.

Jacó fugiu para a Síria por causa de um irmão malicioso e ali serviu a um tio avarento por uma esposa; por uma esposa guardou ovelhas, pois não tinha bens com que dotá-la. Jacó era pobre, humilde e fugitivo; portanto, seus descendentes não deveriam orgulhar-se.

Era homem simples, morava em tendas e guardava ovelhas; portanto, balanças de engano não lhes convinham. Serviu por uma esposa que não era cananeia, como eram as mulheres de Esaú; portanto, era vergonha para eles degenerar em cananeus e misturar-se com as nações.

Deus o preservou maravilhosamente na fuga e durante o serviço, de modo que Jacó se multiplicou em grande escala. Dessa raiz em terra seca surgiu uma nação ilustre, que levava seu nome. Isso engrandece a bondade de Deus para com ele e seus descendentes e deixa-os sob a mancha da vil ingratidão para com seu fundador e benfeitor.

  1. Que Deus os resgatou da miséria e os elevou à sua condição, não apenas da pobreza, mas também da escravidão (v. 13). Isso os obrigava ainda mais fortemente a servi-lo e tornava ainda maior a culpa de servir a outros deuses:

(1.) Deus tirou Israel do Egito de propósito para que o servissem. Ao resgatá-los da escravidão, adquiriu um direito especial a eles e a seu serviço.

(2.) Preservou-os como as ovelhas são guardadas pelo zelo do pastor. Preservou-os da fúria do faraó junto ao mar, ao próprio mar Vermelho; protegeu-os de todos os perigos do deserto e proveu para eles.

(3.) Fez tudo isso por meio de um profeta, Moisés. Embora seja chamado rei em Jesurum (Deuteronômio 33:5), ainda assim fez o que fez em favor de Israel como profeta, segundo a direção de Deus e pelo poder de sua palavra. O sinal de sua autoridade não era cetro real, mas a vara de Deus; com ela convocou tanto as pragas do Egito quanto as bênçãos de Israel.

Como profeta, Moisés foi uma figura de Cristo (Atos 3:22). É por meio de Cristo como profeta que, pelo poder de sua verdade, somos tirados do Egito do pecado e de Satanás. Isso mostra quão indigno e ingrato era esse povo:

[1.] Rejeitou o Deus que o tirara do Egito, fato mencionado especificamente no preâmbulo dos mandamentos como motivo para guardar o primeiro: não ter outros deuses diante dele.

[2.] Desprezou e perseguiu os profetas de Deus. Deveria amá-los e estimá-los e esforçar-se para corresponder ao propósito de Deus ao enviá-los, por causa daquele profeta por quem Deus os tirara do Egito e preservara no deserto.

Repare: o benefício que recebemos da palavra de Deus agrava muito nosso pecado e nossa loucura quando a desprezamos.

  1. Que Deus cuidou da educação deles à medida que cresciam. O v. 10 mostra essa bondade: assim como por meio de um profeta Deus os libertou, continuou falando-lhes por meio de profetas. O homem, formado da terra, dela se alimenta. Do mesmo modo, a nação formada pela profecia era alimentada e instruída pela profecia.

Desde Moisés e através dos diversos tempos daquela igreja, até todos os profetas, vemos que a revelação divina sempre os instruiu:

(1.) Profetas foram levantados dentre eles (Amós 2:11), numa sucessão que, de Moisés a Malaquias, quase nunca os deixou inteiramente sem um Espírito de profecia em maior ou menor medida.

(2.) Esses profetas eram videntes: tinham visões e sonhos nos quais Deus lhes revelava sem mediação seu pensamento, com plena certeza de que era seu pensamento, Números 12:6.

(3.) As visões se multiplicavam: Deus falava não apenas uma vez, sim, e ainda, duas vezes, mas muitas. Se uma visão era desprezada, ele enviava outra. Os profetas tinham visões variadas e recebiam repetições frequentes da mesma visão.

(4.) Deus lhes falava por meio dos profetas. Estes expunham ao povo com clareza e fidelidade o que recebiam do Senhor. No monte Sinai, o povo suplicou que Deus lhe falasse por meio de homens como eles, e ele o fez.

(5.) Ao falar-lhes pelos profetas, Deus usava semelhanças para tornar as mensagens inteligíveis, mais comoventes e mais fáceis de lembrar. As visões que recebiam muitas vezes eram semelhanças, e seus discursos eram enriquecidos com comparações muito apropriadas. Assim como por meio dos profetas, Deus também usou semelhanças por meio de seu Filho, que abria a boca em parábolas.

Repare: Deus guarda registro dos sermões que ouvimos, quer façamos isso ou não. Os que desfrutaram por muito tempo dos meios da graça em pureza, abundância e poder, ouvindo com frequência, fidelidade e familiaridade o pensamento de Deus, terão de responder por muita coisa no futuro se persistirem na iniquidade.

IV. Aqui há indicações de misericórdia futura, lembrada mesmo em meio ao pecado e à cólera, segundo a interpretação de alguns para o v. 9: “Eu, que sou o Senhor teu Deus desde a terra do Egito, que então e ali te tomei por meu povo e desde então me mostrei teu Deus numa série constante de providências misericordiosas, ainda tenho bondade para contigo, por pior que sejas.”

“Farei que habites em tendas”, não como no deserto, mas “como nos dias da festa solene”: a festa dos Tabernáculos, celebrada com grande alegria, Levítico 23:40.

  1. Pela graça de Deus, reconhecerão que, embora sejam ricos e tenham encontrado bens, ainda assim vivem apenas numa condição semelhante à das tendas e não têm cidade permanente em sua riqueza terrena.

  2. Ainda terão motivo para alegrar-se em Deus e ocasião de fazê-lo nas ordenanças públicas. A festa dos Tabernáculos foi a primeira festa solene celebrada pelos judeus após seu retorno da Babilônia, Esdras 3:4.

  3. Essa promessa, como outras, alcançaria seu pleno cumprimento na graça do evangelho. Ela provê aos crentes tendas em seu caminho para o céu e lhes dá motivos para alegria: alegria santa, alegria em Deus, como a que havia na festa dos Tabernáculos, Zacarias 14:18, 19.


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