Oseias 11
Argumento
Neste capítulo temos: I. A grande bondade de Deus para com seu povo Israel e as grandes coisas que fez por ele, v. 1, 3, 4. II. A conduta ingrata de Israel para com ele, apesar dos favores recebidos, vv. 2-4, 7, 12. III. Ameaças de cólera contra eles por sua ingratidão e traição, vv. 5-6. IV. A misericórdia lembrada em meio à cólera, vv. 8-9.
V. Promessas do que Deus ainda faria por eles, vv. 10-11. VI. Um caráter honroso atribuído a Judá, v. 12.
A Bondade de Deus para com Israel; A Ingratidão de Israel; O Desagrado de Deus com Israel. (a.C. 730.)
Versículos 1 a 7
Encontramos aqui:
I. Deus muito gracioso para com Israel. Era um povo pelo qual ele fizera mais do que por qualquer outro debaixo do céu e ao qual dera mais. Não direi que isso lhes é lançado em rosto — pois Deus dá sem repreender —, mas que lhes é lembrado para agravar seu pecado e animá-los ao arrependimento.
- Ele teve afeição por eles quando eram jovens (v. 1): “Quando Israel era menino, eu o amei”. Quando começaram a multiplicar-se como nação no Egito, Deus pôs seu amor sobre eles e os escolheu porque os amava, porque quis amá-los, Deuteronômio 7:7-8.
Quando eram fracos e desamparados como crianças, insensatos e rebeldes como crianças, quando eram rejeitados, crianças abandonadas, Deus os amou. Teve pena deles e lhes manifestou sua boa vontade; carregou-os como a ama carrega a criança de peito, alimentou-os e tolerou sua conduta.
Repare: os que cresceram, e até os que envelheceram, devem refletir muitas vezes sobre a bondade que Deus lhes mostrou na infância.
- Ele os libertou da casa da escravidão: “Do Egito chamei meu filho”, porque era filho, um filho amado. Quando Deus exigiu que Faraó libertasse Israel, chamou-o de seu filho, seu primogênito. Repare: aqueles a quem Deus ama, ele chama da escravidão do pecado e de Satanás para a gloriosa liberdade de seus filhos.
Diz-se que essas palavras se cumpriram em Cristo quando, após a morte de Herodes, ele e seus pais foram chamados para fora do Egito (Mateus 2:15). Assim, têm dois aspectos: falam historicamente do chamado de Israel para fora do Egito e profeticamente da vinda de Cristo de lá.
O primeiro acontecimento era figura do segundo e garantia dos muitos e grandes favores que Deus reservava para aquele povo. Entre eles estava, sobretudo, o envio de seu Filho ao mundo e seu retorno à terra de Israel, depois que o haviam expulsado sem bondade e ele poderia, com justiça, jamais ter voltado.
O chamado de Cristo para fora do Egito figurava o chamado de todos os que lhe pertencem, por meio dele, para fora da escravidão espiritual.
- Ele lhes deu boa educação, cuidou deles e se empenhou por eles, não apenas como pai ou tutor, mas, tamanha é a condescendência da graça divina, como mãe ou ama (v. 3): “Também ensinei Efraim a andar”, como se ensina uma criança com tiras de apoio.
Quando estavam no deserto, Deus os guiou pela coluna de nuvem e de fogo, mostrou-lhes o caminho por onde deviam andar e os sustentou, tomando-os pelos braços. Ensinou-os a andar no caminho de seus mandamentos mediante as instituições da lei cerimonial, que serviam de tutores e governantes àquele povo menor de idade.
Tomou-os pelos braços para guiá-los, a fim de que não se desviassem, e para sustentá-los, a fim de que não tropeçassem e caíssem. Assim também é sustentado o Israel espiritual de Deus. “Tu me sustentaste pela minha mão direita”, Salmos 73:23.
Quando algo lhes ia mal, ou estavam mesmo um pouco indispostos, ele era seu médico: “Eu os curei. Não apenas cuidei deles com ternura — um amigo pode fazer isso —, mas realizei uma cura eficaz. Só Deus pode fazer isso. Sou o Senhor que te sara (Êxodo 15:26), que remedia todos os teus males”.
Ele os trouxe para seu serviço por meios brandos e gentis (v. 4): “Atraí-os com cordas humanas, com laços de amor”. Repare: atrair pobres almas para si é obra de Deus; ninguém pode vir a ele se não for atraído por ele, João 6:44. Ele os atrai:
(1.) Com cordas humanas: cordas como as usadas por homens movidos de humanidade, ou cordas pelas quais os homens são atraídos. Tratou-os como seres humanos, de maneira justa e racional, fácil e gentil, com as cordas de Adão. Tratou-os como tratou Adão na inocência, trazendo-os de uma vez para um paraíso e para uma aliança consigo.
(2.) Com laços de amor, ou grossas cordas de amor. Essa palavra designa cordas mais fortes do que as primeiras. Ele não os impeliu à força para seu serviço, quer quisessem, quer não; não os governou com rigor nem os reteve pela violência. Seus atrativos eram todos amorosos e afetuosos, doces e gentis, para que ele os conquistasse pela bondade.
Moisés, a quem Deus fez seu guia, era o homem mais manso do mundo. Entre os homens, costumamos chamar os atos de bondade de obrigações, ou vínculos, vínculos de amor. Assim Deus atrai com a fragrância de seus bons perfumes (Cantares de Salomão 1:4), atrai com bondade amorosa, Jeremias 31:3.
Assim Deus lida conosco; devemos lidar do mesmo modo com os que estão sob nossa instrução e governo, de maneira racional e branda.
- Ele os aliviou dos fardos sob os quais haviam gemido por muito tempo: “Fui para eles como os que tiram o jugo de sobre suas mandíbulas”. É uma alusão ao cuidado do bom lavrador, que tem misericórdia de seu animal e não o cansa com trabalho árduo e constante.
Provavelmente, naquela época, o jugo sobre o pescoço dos bois era preso por algum freio ou cabresto que passava sobre as mandíbulas e amordaçava a boca do boi. No Egito, Israel estava assim privado do desfrute de seus bens e obrigado a trabalhar arduamente. Deus, porém, aliviou-o: tirou seu ombro de debaixo do fardo, Salmos 81:6.
Repare: a liberdade é uma grande misericórdia, especialmente a libertação da escravidão.
- Ele lhes forneceu alimento adequado. No Egito, tinham comida escassa; mas, quando Deus os tirou de lá, “pôs alimento diante deles”, como o lavrador alimenta seus animais depois de tirar-lhes o jugo.
Deus fez chover maná ao redor do acampamento deles, pão do céu, alimento dos anjos. Outras criaturas procuram seu alimento, mas Deus pôs alimento diante de seu próprio povo, como fazemos com nossos filhos. Ele mesmo providenciou e serviu a comida deles, antecipando-se a eles com as bênçãos da bondade.
II. Encontramos Israel muito ingrato para com Deus:
- Eram surdos e desobedientes à sua voz. Ele lhes falou por seus mensageiros, Moisés e os demais profetas; chamou-os para deixar seus pecados, para vir a si e para cumprir seu trabalho e dever. Mas, quando os mensageiros os chamavam, eles se afastavam; rebelavam-se justamente nos pontos em que eram advertidos.
Quanto mais os profetas insistiam e os pressionavam a fazer o bem, mais refratários se tornavam e mais resolutos em seus maus caminhos: desobedeciam por desobedecer. Essa insensatez está presa ao coração das crianças, que, assim que aprendem a andar, afastam-se dos que as chamam.
Gostavam dos ídolos e os adoravam: “Sacrificavam aos baalins”, primeiro a um Baal, depois a outro, e queimavam incenso às imagens esculpidas. Faziam isso embora os profetas do Senhor os chamassem repetidas vezes a não praticar essa coisa abominável que ele odiava. A idolatria era o pecado que, desde o começo e ao longo de toda a sua história, mais facilmente os assediava.
Não davam atenção a Deus nem aos favores que ele lhes concedia: “Não souberam que eu os curava”. Olhavam apenas para Moisés e Arão, instrumentos de seu alívio, e tinham desavenças com eles quando algo ia mal; não viam, por meio deles, o Deus que os empregava.
Ou então, quando Deus os corrigia e os mantinha sob disciplina severa, não compreendiam que era para seu bem, que assim Deus os curava e que isso era necessário para completar sua cura. Do contrário, teriam aceitado melhor os métodos que Deus empregava. Repare: a ignorância está na raiz da ingratidão, Oseias 2:8.
- Tinham forte inclinação à apostasia. Essa é a acusação mais sombria (v. 7): “Meu povo está inclinado a desviar-se de mim”. Cada palavra agrava o caso:
(1.) Eles se desviam. Não há como retê-los, nem firmeza neles. Parecem avançar em direção a Deus, mas logo recuam e são como um arco enganoso.
(2.) Desviam-se de mim, de Deus, o bem supremo, a fonte da vida e das águas vivas, de seu Deus, que jamais se afastou deles nem foi como um deserto para eles.
(3.) Estão inclinados a desviar-se: prontos a pecar, com uma propensão natural ao mal. Mesmo em sua melhor condição, oscilam entre Deus e o mundo, de modo que basta pouco para atraí-los ao caminho errado; abraçam prontamente qualquer tentação.
Isso também indica que estão resolutos no pecado: seu coração está inteiramente disposto a fazer o mal, a inclinação para esse lado é forte. Persistem em seus desvios, diga-se ou faça-se o que for para detê-los. Ainda assim:
(4.) “Em sua profissão, são meu povo. São chamados pelo meu nome e professam ter relação comigo. São meus: fiz muito por eles, espero muito deles, alimentei-os e criei-os como filhos; contudo, desviam-se de mim.”
Repare: em nosso arrependimento devemos lamentar não só nossos desvios, mas também a inclinação a desviar-nos; não só nossas transgressões efetivas, mas também nossa corrupção original, o pecado que habita em nós, a mente carnal.
- Eram estranhamente avessos ao arrependimento e à reforma. Há aqui duas expressões de sua obstinação:
(1.) Recusaram voltar (v. 5). Estavam tão inclinados a desviar-se que, embora não pudessem deixar de perceber por experiência a insensatez de seus desvios e que, ao abandonarem Deus, trocaram sua condição por outra pior, ainda assim continuaram obstinados: “Amei os estranhos e irei após eles”.
Receberam ordem de voltar, foram convidados e instados a voltar e receberam a promessa de que, se o fizessem, seriam acolhidos com bondade; mas recusaram.
(2.) Embora os chamassem ao Altíssimo. Os profetas e ministros de Deus os chamavam a voltar ao Deus de quem haviam se revoltado, ao Deus altíssimo, de quem haviam decaído para essa miserável degeneração.
Chamavam-nos a deixar o culto aos ídolos, tão inferiores a eles, cujo culto, por isso, os rebaixava, e a voltar ao Deus verdadeiro, tão superior a eles, cujo culto, por isso, lhes conferia honra. Chamavam-nos desta terra para as coisas elevadas e celestiais; mas chamavam em vão.
“Nenhum deles o exaltaria.” Embora ele seja o Deus altíssimo, não queriam reconhecê-lo como tal, nada faziam para honrá-lo nem lhe davam a glória devida a seu nome. Ou então, não queriam elevar a si mesmos, erguer-se do estado de apostasia e miséria em que se haviam precipitado.
Ali permaneciam contentes, sem levantar a cabeça nem elevar a alma. Repare: os ministros fiéis de Deus têm se empenhado muito, sem resultado, com filhos que se desviam. Chamaram-nos ao Altíssimo, mas ninguém se moveu; nenhum deles o exaltaria.
III. Encontramos Deus muito irado com Israel, e com razão. Vejamos os sinais do seu desagrado com que são ameaçados:
- Deus, que os tirou do Egito para tomá-los como seu povo, já que não quiseram ser fiéis a ele, os levará a uma condição pior que aquela em que os encontrou (v. 5): “Não voltará à terra do Egito, embora ela já fosse uma casa de escravidão bastante penosa; entrará, porém, num serviço mais duro, pois o assírio será seu rei e o tratará pior do que Faraó jamais o tratou”.
Não voltarão ao Egito, que fica perto, onde poderiam receber notícias frequentes de sua terra e esperar retornar a ela em pouco tempo. Serão levados à Assíria, muito mais distante, onde ficarão privados de toda comunicação com sua terra e de toda esperança de voltar. Isso é justo, porque recusaram voltar.
Repare: os que não querem voltar aos deveres que abandonaram não podem esperar voltar aos confortos que perderam.
- Deus, que lhes deu Canaã, aquela boa terra e uma morada muito segura e agradável, trará sobre eles, ali mesmo, juízos que tornarão sua habitação insegura e desconfortável (v. 6): “A espada virá sobre eles”, a espada da guerra, de um inimigo estrangeiro que prevalecerá contra eles e deles triunfará.
(1.) Esse juízo se espalhará amplamente. A espada cairá sobre suas cidades, esses ninhos de gente e depósitos de riquezas; alcançará também seus ramos: as aldeias do campo, segundo alguns; os próprios cidadãos, segundo outros; ou as trancas e portas das cidades, conforme outro sentido da palavra.
Pode ainda atingir todos os ramos de sua renda e riqueza, ou os filhos, ramos de suas famílias.
(2.) Durará muito: “Permanecerá sobre suas cidades”. Davi achou que fugir três meses diante de seus inimigos era o único dos três juízos que devia ser rejeitado; mas essa espada permanecerá sobre as cidades de Israel por muito mais de três meses. Eles persistiram em suas rebeliões contra Deus; por isso Deus manteve seus juízos sobre eles.
(3.) Porá fim a tudo: consumirá seus ramos, os devorará e devastará tudo. Isso acontecerá por causa dos seus próprios conselhos, isto é, porque insistiam em seus próprios planos, aos quais Deus, em justo juízo, os entregou. Repare: a confusão dos pecadores provém de suas maquinações. Os conselhos de Deus os teriam salvado; os seus próprios conselhos os arruinaram.
Versículos 8 a 12
A Paciência Divina. (a.C. 730.)
Nestes versículos temos:
I. A admirável relutância de Deus em destruir Israel (vv. 8-9): “Como te entregaria?” Observe aqui:
- O debate gracioso de Deus consigo mesmo acerca do caso de Israel, um debate entre justiça e misericórdia, em que a vitória se inclina claramente para o lado da misericórdia. Espantem-se com isso, ó céus, e maravilhe-se, ó terra, com a glória da bondade de Deus!
Não se trata de dizer que haja em Deus conflitos como os que há em nós, ou que ele oscile ou fique indeciso. Não: ele tem um só propósito e o conhece. São expressões à maneira humana, destinadas a mostrar a severidade que o pecado de Israel merecia e, ainda assim, como a graça divina seria glorificada ao poupá-los apesar disso.
A ligação disso com o que vem antes é surpreendente. Dizia-se de Israel (v. 7) que estava inclinado a desviar-se de Deus e que, embora chamado a ele, não o exaltaria. Disso, seria de esperar a conclusão: “Agora estou decidido a destruí-los e nunca mais lhes mostrar misericórdia”.
Não: tal é a soberania da misericórdia e tais a gratuidade e a plenitude da graça divina que a frase seguinte é: “Como te entregaria?” Veja aqui:
(1.) As propostas que a justiça faz acerca de Israel, cuja sugestão está implícita. Que Efraim seja abandonado, como um filho incorrigível é abandonado à deserdação e um doente incurável é abandonado pelo médico. Que seja entregue à ruína.
Que Israel seja entregue às mãos do inimigo, como um cordeiro ao leão para ser despedaçado. Que sejam feitos como Admá e postos como Zeboim, as duas cidades destruídas com Sodoma e Gomorra pelo fogo e enxofre que choveu do céu. Que sejam arruinados total e irreparavelmente, tão semelhantes àquelas cidades na desolação quanto foram no pecado.
Que se cumpra contra eles a maldição escrita na lei, segundo a qual toda a terra se tornará enxofre e sal, como na destruição de Sodoma e Gomorra, Admá e Zeboim, Deuteronômio 29:23. Efraim e Israel merecem ser assim abandonados; Deus não lhes fará injustiça se os tratar desse modo.
(2.) A oposição que a misericórdia faz a essas propostas: “Como farei isso?” Assim como um pai terno raciocina consigo mesmo: “Como posso rejeitar meu filho rebelde? Ele é meu filho, embora rebelde; como poderia decidir fazê-lo?”
Do mesmo modo: “Efraim foi um filho querido, uma criança agradável. Como posso fazer isso? Está maduro para a ruína; os juízos estão prontos para alcançá-lo; nada falta senão entregá-lo, mas não consigo fazê-lo. Eles foram um povo próximo de mim; ainda há alguns bons entre eles; deles são os filhos da aliança”.
“Se forem arruinados, o inimigo triunfará. Talvez ainda se arrependam e se reformem; portanto, como posso fazer isso?” Repare: o Deus do céu tarda em irar-se e reluta especialmente em abandonar à ruína completa um povo que teve uma relação especial com ele.
Veja como age a misericórdia quando se mencionam essas medidas severas: “Meu coração se volta dentro de mim”. Nós dizemos que nos falta coragem quando estamos para fazer algo contrário à nossa inclinação. Deus fala como se tivesse consciência de um estranho conflito de afetos na compaixão por Israel.
Como em Lamentações 1:20: “Minhas entranhas estão perturbadas”; “meu coração se volta dentro de mim”. E, como segue aqui: “Todos os meus arrependimentos se acendem”. Suas entranhas se enterneceram por eles, e sua alma se afligiu por causa do pecado e da miséria deles, Juízes 10:16. Compare com Jeremias 31:20: “Desde que falei contra ele, minhas entranhas estão perturbadas por ele”.
Quando Deus entregou seu Filho para ser sacrifício pelo pecado e Salvador dos pecadores, não disse: “Como o entregarei?” Não: não poupou seu próprio Filho; aprouve ao Senhor esmagá-lo. Deus não o poupou para que pudesse poupar-nos.
Mas essa é apenas a linguagem do tempo de sua paciência. Quando os homens esgotam esse tempo por seus pecados e chega o grande dia de sua cólera, não há mais dificuldade alguma; ou melhor, “Eu rirei da calamidade deles”.
- A decisão graciosa resultante desse debate. Depois de uma longa disputa, a misericórdia, no desfecho, triunfa sobre o juízo, tem a última palavra e vence (v. 9). Fica decretado que o adiamento da sentença será prolongado mais um pouco: “Não executarei agora o furor de minha ira”, embora esteja irado.
Embora não fiquem inteiramente impunes, ele atenuará a sentença e diminuirá seu rigor. Mostrará que sua ira é justa, mas não implacável; serão corrigidos, mas não consumidos.
“Não voltarei para destruir Efraim.” Os juízos já infligidos não se repetirão, nem irão tão fundo quanto eles mereceriam. Deus não voltará para destruir como soldados que, depois de saquear uma cidade, retornam pela segunda vez para levar mais, ou como quando o gafanhoto come o que a lagarta deixou.
Ao fim do versículo acrescenta-se: “Não entrarei na cidade, em Samaria ou em qualquer outra de suas cidades; não entrarei nelas como inimigo para destruí-las completamente e devastá-las, como fiz com as cidades de Admá e Zeboim”.
- O fundamento e motivo dessa decisão: “Pois eu sou Deus, e não homem”, o Santo de Israel. Para animá-los a esperar misericórdia, consideremos:
(1.) O que ele é em si mesmo. É Deus, e não homem, tanto no perdão do pecado e na preservação dos pecadores como em outras coisas. Se tivessem ofendido um homem como eles, este não suportaria a ofensa, nem poderia suportá-la. Sua paixão venceria a compaixão e ele executaria o furor de sua ira; mas “eu sou Deus, e não homem”.
Ele é Senhor de sua ira, ao passo que a ira dos homens costuma dominá-los. Se um príncipe terreno estivesse num aperto assim entre justiça e misericórdia, não saberia como conciliá-las. Mas aquele que é Deus, e não homem, sabe encontrar um meio de preservar a honra de sua justiça e, ainda assim, promover a honra de sua misericórdia.
As compaixões humanas não são nada comparadas às ternas misericórdias do nosso Deus. Ao receber pecadores que voltam, seus pensamentos e caminhos são tão mais altos que os nossos quanto o céu está acima da terra, Isaías 55:9. Repare: lembrar que Deus é Deus, e não homem, é grande ânimo para nossa esperança em sua misericórdia.
Ele é o Santo. Seria de esperar que isso fosse motivo para rejeitar um povo tão provocador. Não: Deus sabe poupar e perdoar pobres pecadores sem trazer qualquer descrédito à sua santidade; pelo contrário, faz isso para sua grande honra. Ele é fiel e justo para perdoar nossos pecados e, assim, manifesta sua justiça, pois Cristo comprou o perdão e ele o prometeu.
(2.) O que ele é para eles: o Santo no meio de vocês. Sua santidade está empenhada no bem de sua igreja. Mesmo naquela terra e época corruptas e degeneradas, alguns davam graças à lembrança de sua santidade; a todos ele ordenava ser santos como ele é, Levítico 19:2.
Enquanto tivermos o Santo em nosso meio, estaremos seguros e bem; mas ai de nós quando ele nos deixar! Repare: os que se submetem à influência da santidade de Deus podem receber seu consolo.
II. Aqui está sua admirável prontidão em fazer o bem a Israel. Ela se revela em que ele os habilitará a receber o bem que lhes destina (vv. 10-11): “Andarão após o Senhor”. Refere-se ao mesmo favor indicado em Oseias 3:5: “Voltarão e buscarão o Senhor, seu Deus”.
Fala-se das dez tribos. Isso se cumpriu em parte quando algumas pessoas delas voltaram com as duas tribos no tempo de Esdras; cumpriu-se mais plenamente no Israel espiritual de Deus, a igreja do evangelho, reunida e incorporada pelo evangelho de Cristo.
Os judeus antigos relacionavam a promessa ao tempo do Messias. O erudito doutor Pocock a considera profecia da vinda de Cristo para pregar o evangelho aos filhos dispersos de Israel, os filhos de Deus espalhados. Observe, então:
- Como seriam chamados e reunidos: “O Senhor rugirá como leão”. A palavra do Senhor, diz o texto caldeu, será como um leão que ruge. Cristo é chamado leão da tribo de Judá, e seu evangelho, no início, era a voz de alguém que clamava no deserto.
Quando Cristo clamou em alta voz, foi como o rugido de um leão, Apocalipse 10:3. A voz do evangelho foi ouvida de longe, como o rugido de um leão, e era uma voz poderosa. Veja Joel 3:16.
- A impressão que esse chamado lhes causaria, como a causada pelo rugido de um leão em todos os animais da floresta: “Quando ele rugir, os filhos tremerão”. Veja Amós 3:8: “O leão rugiu”; “o Senhor Deus falou”; quem, então, não temerá?
Quando os corações alcançados pelo evangelho tremeram, ficaram espantados e clamaram “Que faremos?”, quando o evangelho os levou a efetuar sua salvação e a adorar a Deus com temor e tremor, cumpriu-se essa promessa.
“Os filhos tremerão desde o ocidente.” Os judeus dispersos foram levados para o oriente, à Assíria e Babilônia, e os que voltaram vieram do oriente. Isso parece, portanto, referir-se ao chamado dos gentios que viviam a oeste de Canaã, pois foi principalmente para lá que o evangelho se espalhou.
Tremerão: mover-se-ão e virão com tremor, com cuidado e pressa, desde o ocidente, desde as nações daquela direção, até o monte do Senhor (Isaías 2:3), até a Jerusalém do evangelho, ao ouvirem o anúncio do evangelho.
O apóstolo fala dos poderosos sinais e maravilhas operados pela pregação do evangelho desde Jerusalém, por toda a região ao redor, até o Ilírico, Romanos 15:19. Foi então que os filhos tremeram desde o ocidente.
Como Israel segundo a carne foi disperso no Egito e na Assíria, promete-se que dali serão eficazmente convocados (v. 11): “Tremerão”; virão tremendo e com toda pressa, como uma ave em voo saindo do Egito e como uma pomba vindo da terra da Assíria.
A pomba é conhecida por seu voo rápido e constante, sobretudo quando voa para suas janelas. Com isso se compara a afluência de judeus e gentios à igreja, como em Isaías 60:8.
Onde quer que estejam os que pertencem à eleição da graça — no leste, oeste, norte ou sul —, ouvirão o som alegre e por ele serão tocados. Os do Egito e da Assíria virão juntos; os que viviam mais distantes uns dos outros se encontrarão em Cristo e serão incorporados à igreja. A união do Egito e da Assíria foi profetizada em Isaías 19:23.
- O efeito que essas impressões teriam sobre eles. Movidos pelo temor, fugirão para a arca: “Andarão após o Senhor”, seguindo o serviço do Senhor, diz o texto caldeu. Tomarão o Senhor Cristo como líder e comandante; alistar-se-ão sob ele, capitão de sua salvação, e se entregarão à direção do Espírito como guia por meio da palavra. Deixarão tudo para seguir Cristo, como convém a discípulos.
Repare: nosso santo tremor diante da palavra de Cristo nos atrairá a ele, em vez de nos afastar. Quando ele ruge como leão, os escravos tremem e fogem dele; os filhos tremem e fogem para ele.
- A acolhida que terão ao voltar (v. 11): “Eu os estabelecerei em suas casas”. Todos os que vierem ao chamado do evangelho terão lugar e nome na igreja do evangelho, nas igrejas particulares que são suas casas e às quais pertencem. Habitarão em Deus e se sentirão em casa nele, à vontade e seguros como alguém em sua própria casa.
Terão moradas, pois há muitas na casa de nosso Pai: em seu tabernáculo na terra e em seu templo no céu, em habitações eternas que podem chamar de suas casas, porque são a porção em que permanecerão no fim dos dias.
III. Aqui está uma triste queixa da traição de Efraim e Israel. Ela pode indicar que as promessas anteriores pertencem ao Israel espiritual, e não ao Israel segundo a carne. Quanto a esse Efraim, esse Israel, cercam Deus de mentiras e engano. Todo o serviço que lhe prestavam, quando fingiam rodear seu altar, era falso e hipócrita.
Quando o rodeavam com orações e louvores, cada um com um pedido a apresentar, mentiam-lhe com a boca e o lisonjeavam com a língua. Suas alegações eram tão belas e suas intenções tão vis que, se possível, teriam iludido o próprio Deus.
Suas profissões e promessas eram todas um embuste. No entanto, julgavam poder, com elas, cercar Deus, encerrá-lo entre si, por assim dizer, mantê-lo em seu meio e impedir que os deixasse.
IV. Aqui está um elogio agradável à integridade das duas tribos, à qual se mantiveram fiéis. Ela aparece para agravar a perfídia das dez tribos e explicar por que Deus reservava para Judá uma misericórdia que não reservava para Israel (Oseias 1:6-7): “Judá ainda governa com Deus e é fiel com os santos”, ou com o Santíssimo.
- Judá governa com Deus, isto é, serve a Deus. Servir a Deus não é apenas verdadeira libertação e liberdade: também é dignidade e domínio. Judá governa, isto é, os príncipes e governantes de Judá governam com Deus, usando o poder em favor dele, de sua honra e do sustento de sua causa.
Governam com Deus os que governam no temor de Deus (2 Samuel 23:3); fazê-lo é honra para eles, e de Deus virá seu louvor, como aqui vem o de Judá. Judá é Israel, príncipe com Deus.
- Ele é fiel ao Deus santo, permanece junto a seu culto e a seus santos, a Abraão, Isaque e Jacó, em cujos passos anda fielmente. Segue o caminho dos homens bons; os que o fazem governam com Deus e têm grande crédito no Céu.
Judá ainda procede assim, o que indica que viria o tempo em que também se revoltaria e degeneraria. Repare: quando vemos quantos cercam Deus de mentiras e engano, pode consolar-nos pensar que ele tem um remanescente que se apega a ele com firme propósito de coração e é fiel aos seus santos.
Para os que assim permanecem fiéis até a morte, está reservada uma coroa de vida, enquanto os hipócritas e todos os mentirosos terão sua porção do lado de fora.