Matthew Henry

Números 9

Argumento

Este capítulo é:

I. A respeito da grande ordenança da páscoa:

  1. Ordens dadas para a observância dela, ao voltar o ano, vv. 1-5.

  2. Ressalvas acrescentadas quanto aos que estivessem cerimonialmente impuros, ou de outro modo impedidos, no tempo em que a páscoa devia ser celebrada, vv. 6-14.

II. A respeito do grande favor da coluna de nuvem, que era guia de Israel através do deserto, v. 15, etc.

Versículos 1 a 14

A Lei da Páscoa. (a.C. 1490.)

Aqui temos:

I. Uma ordem dada para a celebração solene da páscoa, um ano depois do dia em que saíram do Egito, no dia catorze do primeiro mês do segundo ano, alguns dias antes de serem contados, pois isso foi feito no começo do segundo mês. Observe:

  1. Deus deu ordens particulares para a celebração desta páscoa; do contrário (ao que parece) eles não a teriam celebrado, pois, na primeira instituição desta ordenança, ficou determinado que ela seria celebrada quando entrassem na terra da promessa, Êxodo 12:25.

Depois desta, não houve outra páscoa até chegarem a Canaã, Josué 5:10. Isto foi um indício precoce da abolição, por fim, das instituições cerimoniais: tão pouco tempo depois de terem sido estabelecidas, permitiu-se que algumas delas ficassem adormecidas por tantos anos.

A ordenança da ceia do Senhor (que veio em lugar da páscoa) não foi assim interrompida nem posta de lado nos primeiros dias da igreja cristã, embora aqueles fossem dias de maior dificuldade e angústia do que Israel conheceu no deserto; ou melhor, nos tempos de perseguição, a ceia do Senhor era celebrada com mais frequência do que depois.

Os israelitas no deserto não podiam esquecer o seu livramento do Egito: a sua condição presente era para eles um lembrete constante dele. Todo o perigo estava em quando chegassem a Canaã; ali, por isso, precisavam ser lembrados da rocha de onde tinham sido cortados.

Contudo, porque a primeira páscoa foi celebrada às pressas, e foi antes a própria substância do que o sinal, foi vontade de Deus que, na volta do ano, quando estivessem mais serenos e mais familiarizados com a lei divina, eles a observassem de novo, para que os seus filhos entendessem mais distintamente a solenidade e se lembrassem melhor dela no futuro.

Calvino supõe que eles eram obrigados a celebrá-la agora, e registra como exemplo do descuido deles que precisassem ser lembrados de uma instituição que tinham recebido tão recentemente.

  1. Moisés transmitiu fielmente ao povo as ordens que lhe foram dadas, v. 4. Assim Paulo expôs às igrejas o que recebeu do Senhor a respeito da páscoa do evangelho, 1 Coríntios 11:23. Repare: os magistrados têm de ser admoestadores, e os ministros têm de despertar a mente dos homens, por meio de lembrança, para o que é bom.

  2. O povo observou as ordens que lhe foram dadas, v. 5. Embora tivessem celebrado havia pouco a festa da dedicação (Números 7), não quiseram valer-se disso como escusa para não celebrar esta festa. Repare: as práticas extraordinárias não devem suplantar, nem empurrar para fora, os nossos serviços regulares.

Eles celebraram a páscoa até mesmo no deserto: embora a nossa condição seja solitária e instável, ainda assim temos de manter o nosso comparecimento diante de Deus nas santas ordenanças, conforme tivermos oportunidade, pois nelas podemos encontrar a melhor comunhão e o melhor repouso. Assim é provido o Israel de Deus num deserto.

II. Instruções dadas a respeito dos que estivessem cerimonialmente impuros quando tivessem de comer a páscoa. A lei da páscoa exigia que todo israelita comesse dela. Algumas leis posteriores tinham proibido que os que houvessem contraído qualquer impureza cerimonial comessem das coisas santas.

Aqueles cuja mente e consciência estão contaminadas pelo pecado são de todo inaptos para a comunhão com Deus e não podem participar, com nenhum consolo verdadeiro, da páscoa do evangelho, até serem purificados pelo verdadeiro arrependimento e pela fé.

E triste é o dilema em que se encontram: se não vêm às santas ordenanças, são culpados de desprezá-las; se vêm na sua impureza, são culpados de profaná-las. Por isso, precisam lavar-se, e então rodear o altar de Deus. Ora:

  1. Aqui está o caso que ocorreu em Israel quando esta páscoa estava para ser celebrada: “certos homens” estavam “contaminados pelo corpo morto de um homem” (v. 6), e ficavam sob essa contaminação sete dias (Números 19:11), e nesse tempo não podiam comer das coisas santas, Levítico 7:20.

Isto não era iniquidade deles, mas infelicidade: algumas pessoas tinham de tocar em cadáveres, para sepultá-los e tirá-los da vista, e por isso podiam, com melhor cabimento, levar a sua queixa a Moisés.

  1. O apelo feito a Moisés pela parte interessada, v. 7. Repare: é sabedoria do povo, em casos difíceis relativos ao pecado e ao dever, consultar os ministros que Deus pôs sobre eles e buscar a lei da boca deles, Malaquias 2:7.

Temos de usar esses meios para dar seguimento às nossas orações a Deus para que nos guie por um caminho plano. Observe com que pesar e preocupação estes homens se queixavam de que eram impedidos de fazer oferta ao Senhor.

Eles não se queixavam da lei como injusta, mas lamentavam a sua infelicidade de cair sob a restrição dela naquele momento, e desejavam que se achasse algum expediente para o seu alívio. Repare: é coisa bendita ver as pessoas com fome e sede das ordenanças de Deus, e ouvi-las queixar-se daquilo que as impede de desfrutá-las.

Deveria ser para nós motivo de pesar quando, por alguma ocasião, somos retidos de trazer a nossa oferta nas solenidades de um sábado ou de um sacramento, como foi para Davi quando foi banido do altar, Salmos 42:1, 2.

  1. A deliberação de Moisés ao resolver este caso. Aqui parecia haver lei contra lei; e, embora seja regra que a lei posterior deve explicar a anterior, ele se compadeceu destes israelitas assim privados do privilégio da páscoa, e por isso tomou tempo para consultar os oráculos e saber qual era a mente de Deus neste caso: “Ouvirei o que o Senhor ordenará acerca de vós”, v. 8.

Os ministros devem tomar exemplo disto ao resolver casos de consciência:

(1.) Não devem decidir precipitadamente, mas tomar tempo para considerar, para que cada circunstância seja devidamente pesada, o caso seja visto na sua verdadeira luz, e as coisas espirituais sejam comparadas com as espirituais.

(2.) Devem pedir conselho à boca de Deus, e não decidir segundo a inclinação da sua própria fantasia ou afeição, mas com imparcialidade, segundo a mente de Deus, no melhor do seu conhecimento. Não temos um oráculo assim para consultar, como Moisés tinha, mas temos de recorrer à lei e ao testemunho, e falar segundo essa regra.

E, se em casos difíceis tomarmos tempo para expor o assunto em particular diante de Deus, em oração humilde e cheia de fé, temos razão para esperar que o Espírito, que é prometido para nos guiar a toda a verdade, nos capacitará a dirigir outros no caminho bom e reto.

  1. As instruções que Deus deu neste caso, e em outros casos semelhantes, explicativas da lei da páscoa. O acidente desagradável produziu boas leis:

(1.) Os que por acaso estivessem cerimonialmente impuros no tempo em que a páscoa devia ser comida tinham permissão de comê-la um mês depois, no mesmo dia, quando estivessem limpos; e assim também os que por acaso estivessem em viagem longe, v. 10, 11. Veja aqui:

[1.] Que, quando temos de comparecer diante de Deus em ordenanças solenes, é muito necessário tanto que estejamos limpos quanto que estejamos serenos.

[2.] Que pode escusar o adiamento de um dever por algum tempo aquilo que, contudo, não nos justificará na total negligência e omissão dele.

Aquele que está em discórdia com o seu irmão pode deixar a sua dádiva diante do altar enquanto vai reconciliar-se com o seu irmão; mas, quando tiver feito a sua parte nisso, quer se consiga, quer não, tem de voltar e apresentar a sua dádiva, Mateus 5:23, 24.

Esta páscoa secundária devia ser celebrada no mesmo dia do mês que a primeira, porque a ordenança era um memorial do livramento deles naquele dia do mês.

Uma vez encontramos a congregação inteira celebrando a páscoa neste dia catorze do segundo mês, no tempo de Ezequias (2 Crônicas 30:15), o que talvez possa ajudar a explicar a admissão de alguns que não estavam limpos a comê-la.

Se a páscoa geral tivesse sido celebrada no primeiro mês, os impuros poderiam ter sido adiados para o segundo; mas, sendo celebrada no segundo mês, não tinham autorização para comê-la no terceiro, e por isso, em vez de não a comerem de todo, foram admitidos, embora “não purificados segundo a purificação do santuário”, 2 Crônicas 30:19, 20.

(2.) Sempre que a páscoa fosse celebrada no segundo mês, todos os ritos e cerimônias dela tinham de ser estritamente observados, v. 12. Não deviam pensar que, por ter sido concedida uma exceção quanto à data, alguma parte da solenidade podia ser diminuída; quando não podemos fazer como gostaríamos, temos de fazer o máximo que pudermos no serviço de Deus.

(3.) Esta concessão em caso de necessidade de modo nenhum ampararia nem favoreceria alguém na negligência de celebrar a páscoa no tempo marcado, quando não estivesse sob essa necessidade, v. 13.

Quando uma pessoa não está sob nenhuma incapacidade de comer a páscoa no tempo marcado, se a negligencia então, presumindo a liberdade concedida por esta lei, ela afronta a Deus, abusa impiamente da bondade dele, e certamente “levará o seu pecado”, e será “extirpada do seu povo”.

Repare: assim como os que, contra a vontade, são forçados a ausentar-se das ordenanças de Deus podem esperar com consolo os favores da graça de Deus na sua aflição, assim também os que se ausentam por escolha podem justamente esperar os sinais da ira de Deus pelo seu pecado. “Não vos enganeis: Deus não é escarnecido.”

(4.) Aqui está uma cláusula acrescentada em favor dos estrangeiros, v. 14. Embora fosse requisito que o estrangeiro que quisesse unir-se a eles para comer a páscoa fosse circuncidado como prosélito da religião deles (Êxodo 12:48, 49), ainda assim esta bondosa admissão dos que não eram israelitas nativos a comer a páscoa era um sinal do favor destinado aos pobres gentios por Cristo.

Assim como então havia uma só lei, assim nos dias do Messias haveria um só evangelho, “para o estrangeiro e para aquele que nasceu na terra”; pois, em toda nação, aquele que teme a Deus e pratica a justiça é aceito por ele, e isto era verdade antes que Pedro o percebesse, Atos 10:34, 35.

Versículos 15 a 23

A Coluna de Nuvem e de Fogo. (a.C. 1490.)

Temos aqui a história da nuvem, não a sua história natural (quem conhece o equilíbrio das nuvens?), mas a história divina de uma nuvem designada para ser o sinal visível e o símbolo da presença de Deus com Israel.

I. Quando o tabernáculo ficou pronto, esta nuvem, que antes pairava no alto sobre o acampamento deles, pousou sobre o tabernáculo e o cobriu, para mostrar que Deus manifesta a sua presença com o seu povo nas suas ordenanças e por meio delas; ali ele se dá a conhecer, e é para elas que devemos olhar se quisermos ver “a formosura do Senhor”, Salmos 27:4; Ezequiel 37:26, 27.

Assim Deus glorificou as suas próprias instituições, e deu sinal de que aceitava o amor e a obediência do seu povo.

II. O que aparecia como nuvem de dia aparecia como fogo durante toda a noite. Se tivesse sido só nuvem, não teria sido visível de noite; e, se tivesse sido só fogo, mal teria sido discernível de dia; mas Deus quis dar-lhes demonstrações perceptíveis aos sentidos da constância da sua presença com eles, e do seu cuidado por eles, e de que os guardava noite e dia, Isaías 27:3; Salmos 121:6.

E assim somos ensinados a pôr Deus sempre diante de nós, e a vê-lo perto de nós tanto de noite quanto de dia.

Algo da natureza daquela revelação divina pela qual se governava a igreja do Antigo Testamento podia também ser significado por esses sinais visíveis da presença de Deus: a nuvem denotando a escuridão, e o fogo o terror, daquela dispensação, em comparação com as manifestações mais claras e mais consoladoras que Deus fez da sua glória na face de Jesus Cristo.

III. Esta coluna de nuvem e de fogo dirigia e determinava todos os movimentos, marchas e acampamentos de Israel no deserto:

  1. Enquanto a nuvem repousava sobre o tabernáculo, por todo esse tempo continuavam no mesmo lugar, e nunca se moviam; embora sem dúvida estivessem muito desejosos de ir avançando na viagem rumo a Canaã, onde ansiavam estar e esperavam estar em breve, ainda assim, enquanto a nuvem repousava, fosse um mês ou um ano, por todo esse tempo eles repousavam, v. 22.

Repare: quem crê não se apressa. Não se perde tempo nenhum enquanto esperamos o tempo de Deus. É um ato de submissão à vontade de Deus tão aceitável ficar quieto, contente, quando a nossa sorte o exige, quanto trabalhar para ele quando somos chamados a isso.

  1. Quando a nuvem se levantava, eles partiam, por mais confortavelmente acampados que estivessem, v. 17.

Quer ela se movesse de dia, quer de noite, eles não tardavam em acompanhar os seus movimentos (v. 21), e provavelmente havia alguns designados para ficar de sentinela dia e noite à vista dela, para avisar a tempo o acampamento de que ela começava a se mover; e a isso se chamava “guardar o encargo do Senhor”.

O povo, mantido assim numa incerteza constante, e sem tempo fixado para parar ou partir, era obrigado a manter-se em prontidão constante para marchar a um aviso muito curto.

E pela mesma razão somos mantidos na incerteza quanto ao tempo de nos despojarmos da casa terrestre deste tabernáculo, para que estejamos sempre prontos a partir ao mandado do Senhor.

  1. Por quanto tempo e até onde a nuvem se movia, por tanto tempo e até ali eles marchavam; e exatamente onde ela se detinha, armavam as suas tendas ao redor dela, e a tenda de Deus debaixo dela, v. 17.

Repare: é desconsolador ficar quando Deus partiu, mas é muito seguro e agradável ir quando vemos Deus ir adiante de nós, e repousar onde ele nos designa repousar.

Isto é repetido vez após vez nestes versículos, porque era um milagre constante, e muitas vezes repetido, e que nunca falhou em todas as suas jornadas, e porque é matéria em que devemos reparar de modo particular, como muito significativa e instrutiva.

Isso é mencionado muito tempo depois por Davi (Salmos 105:39) e pelo povo de Deus depois do cativeiro, Neemias 9:19. E a orientação desta nuvem é referida como significando a orientação do bendito Espírito. Isaías 63:14: “O Espírito do Senhor o fez repousar”, e “assim conduziste o teu povo”. Isto nos ensina:

(1.) O cuidado particular que Deus tem do seu povo. Nada podia ser mais expressivo e significativo da ternura de Deus para com Israel do que foi a orientação desta nuvem; ela os “conduziu pelo caminho direito” (Salmos 107:7), avançava no ritmo deles: Deus, por meio dela, como que os cobriu com as suas penas.

Não devemos agora esperar sinais tão palpáveis da presença e da orientação divinas quanto foi este.

Mas a promessa é certa, para todo o Israel espiritual de Deus, de que ele os guiará com o seu conselho (Salmos 73:24), “mesmo até a morte” (Salmos 48:14); de que todos os filhos de Deus serão “conduzidos pelo Espírito de Deus” (Romanos 8:14); de que ele dirigirá as veredas dos que o reconhecem em todos os seus caminhos, Provérbios 3:6.

Há uma providência particular que se ocupa de todos os negócios deles, para dirigi-los e governá-los para o melhor. “Os passos do homem bom são ordenados pelo Senhor”, Salmos 37:23.

(2.) A consideração particular que devemos ter para com Deus em todos os nossos caminhos. Nas nossas afeições e ações devemos seguir a direção da sua palavra e do seu Espírito; todos os movimentos da nossa alma devem ser guiados pela vontade divina; ao mandado do Senhor os nossos corações devem sempre mover-se e repousar.

Em todos os nossos negócios devemos seguir a Providência, reconciliando-nos com todas as suas disposições e ajustando nosso estado de espírito à condição em que estivermos, qualquer que ela seja.

O povo de Israel, tendo a nuvem por guia, estava aliviado do incômodo de reunir conselhos de guerra para considerar quando e para onde deveriam marchar, o que poderia ter ocasionado contendas e debates entre eles.

Nem precisavam enviar espias adiante para informá-los da situação da terra, nem sapadores para abrir o caminho, nem oficiais para demarcar o acampamento: a coluna de nuvem fazia tudo isso por eles.

E os que pela fé entregam as suas obras ao Senhor, embora estejam obrigados ao uso prudente dos meios, ainda assim podem, da mesma maneira, estar tranquilos na expectativa do desfecho.

“Pai, seja feita a tua vontade; dispõe de mim e dos meus como te aprouver; eis-me aqui, desejoso de ser achado esperando continuamente no meu Deus, para viajar e repousar ao mandado do Senhor. O que tu quiseres, e onde tu quiseres, somente que eu seja teu, e sempre no caminho do meu dever.”


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