Matthew Henry

Números 8

Argumento

Este capítulo trata das lâmpadas, ou luzes, do santuário.

I. As lâmpadas acesas no candelabro, das quais os sacerdotes tinham o encargo de cuidar, vv. 1-4.

II. As lâmpadas vivas (se assim posso chamá-los), os levitas, que, como ministros, eram luzes que ardiam e brilhavam.

Da ordenação dos sacerdotes já tivemos o relato em Levítico 8. Aqui temos o relato da ordenação dos levitas, o clero inferior:

  1. Como foram purificados, vv. 5-8.

  2. Como o povo abriu mão deles, v. 9, 10.

  3. Como foram apresentados a Deus em lugar dos primogênitos, vv. 11-18.

  4. Como foram entregues a Arão e a seus filhos, para serem ministros deles, v. 19.

  5. Como todas essas ordens foram devidamente executadas, vv. 20-22.

E, por último, a idade fixada para o ministério deles, v. 23, etc.

Versículos 1 a 4

As Luzes do Santuário. (a.C. 1490.)

Muito antes disto tinham sido dadas as instruções para a feitura do candelabro de ouro (Êxodo 25:31), e ele foi feito segundo o modelo mostrado a Moisés no monte, Êxodo 37:17. Mas foi agora que se ordenou pela primeira vez que as lâmpadas fossem acesas, quando as outras coisas começaram a ser usadas. Observe:

  1. Quem devia acender as lâmpadas: o próprio Arão; ele “acendeu as lâmpadas”, v. 3. Como representante do povo diante de Deus, ele fazia assim o ofício de servo na casa de Deus, acendendo a candeia do seu Senhor.

Como representante de Deus diante do povo, dava-lhes assim os sinais da vontade e do favor de Deus, expressos deste modo (Salmos 18:28): “Tu acenderás a minha candeia”; e assim o próprio Arão tinha sido instruído havia pouco a abençoar o povo: o Senhor faça resplandecer o seu rosto sobre ti, Números 6:25.

“O mandamento é uma lâmpada”, Provérbios 6:23. A Escritura é uma luz que brilha em lugar escuro, 2 Pedro 1:19. E lugar escuro, de fato, seria até a igreja sem ela, como o tabernáculo (que não tinha janela nenhuma) sem as lâmpadas. Ora, o trabalho dos ministros é acender essas lâmpadas, expondo e aplicando a palavra de Deus.

O sacerdote acendia a lâmpada do meio com o fogo do altar, e as demais lâmpadas ele acendia umas das outras, o que (diz o Sr. Ainsworth) significa que a fonte de toda luz e conhecimento está em Cristo, que tem os sete espíritos de Deus, figurados pelas sete lâmpadas de fogo (Apocalipse 4:5), mas que, na exposição da Escritura, uma passagem tem de tomar luz emprestada de outra.

Ele supõe também que, sendo sete um número de perfeição, pelos sete braços do candelabro se mostra a plena perfeição das Escrituras, que são capazes de nos tornar sábios para a salvação.

  1. Com que fim as lâmpadas eram acesas: para que dessem luz “defronte do candelabro”, isto é, para aquela parte do tabernáculo onde ficava a mesa, com os pães da proposição sobre ela, defronte do candelabro.

Não eram acesas como círios dentro de uma urna, para arderem para si mesmas, mas para dar luz ao outro lado do tabernáculo, pois é para isso que se acendem as candeias, Mateus 5:15. Repare: as luzes do mundo, as luzes da igreja, têm de brilhar como luzes. Por isso temos luz: para que demos luz.

Versículos 5 a 26

A Consagração dos Levitas. (a.C. 1490.)

Lemos antes sobre a separação dos levitas do meio dos filhos de Israel quando foram contados, e sobre a contagem deles à parte (Números 3:6, 15), para que fossem empregados no serviço do tabernáculo. Agora temos aqui as instruções dadas para a sua ordenação solene (v. 6), e a execução dela, v. 20.

Todo o Israel precisava saber que eles não tomaram esta honra para si, mas foram chamados por Deus para ela; nem bastava que fossem distinguidos dos seus vizinhos, mas tinham de ser solenemente devotados a Deus.

Repare: todos os que são empregados para Deus têm de ser dedicados a ele, conforme o grau do emprego. Os cristãos têm de ser batizados, os ministros têm de ser ordenados; primeiro temos de nos dar ao Senhor, e depois os nossos serviços. Observe de que modo isto foi feito:

I. Os levitas tinham de ser purificados, e o foram. Os ritos e cerimônias da sua purificação deviam ser realizados:

  1. Por eles mesmos. Tinham de lavar as suas roupas, e não só banhar-se, mas rapar toda a sua carne, como o leproso devia fazer quando era purificado, Levítico 14:8.

Tinham de fazer passar a navalha por toda a sua carne, para se livrarem daquela contaminação que não saía com a lavagem. Jacó, a quem Deus amou, era homem liso; era Esaú que era peludo.

O grande trabalho que deviam ter consigo mesmos para se tornarem limpos ensina a todos os cristãos, e aos ministros em particular, a se purificarem, pelo arrependimento e pela mortificação, de toda imundícia da carne e do espírito, para que aperfeiçoem a santidade. Têm de ser limpos os que levam os vasos do Senhor.

  1. Por Moisés. Ele tinha de aspergir sobre eles a água da purificação, que era preparada por instrução divina. Isto significava a aplicação do sangue de Cristo às nossas almas pela fé, para nos purificar de uma consciência má, a fim de que sejamos aptos para servir ao Deus vivo. É dever nosso purificar-nos, e promessa de Deus que ele nos purificará.

II. Os levitas, assim preparados, tinham de ser trazidos perante o Senhor numa assembleia solene de todo o Israel, e os filhos de Israel tinham de pôr as mãos sobre eles (v. 10), transferindo assim a Deus e ao seu santuário o direito que, como integrantes do povo, todos tinham sobre os levitas e o seu serviço.

Eles os apresentaram a Deus como sacrifícios vivos, santos e agradáveis, para prestarem um serviço racional; e por isso, como faziam os ofertantes em todos os outros casos, impuseram as mãos sobre eles, desejando que o serviço deles fosse aceito em lugar da assistência de toda a congregação, particularmente dos primogênitos, nos quais reconhecem que Deus poderia ter insistido.

Isto não serve para provar que o povo tenha poder de ordenar ministros; porque esta imposição de mãos pelos filhos de Israel sobre os levitas não os fazia ministros do santuário, mas só significava que o povo abria mão daquela tribo, retirando-a da sua milícia e das corporações civis, para que fossem feitos ministros por Arão, que devia oferecê-los perante o Senhor.

Toda a congregação dos filhos de Israel não podia impor as mãos sobre eles, mas é provável que os chefes e os anciãos o fizessem, como corpo representativo do povo. Alguns pensam que foram os primogênitos que o fizeram, porque era em lugar deles que os levitas eram consagrados a Deus.

Tudo aquilo com que Deus nos pede que sirvamos à sua própria glória, temos de cedê-lo de bom grado, impor as mãos sobre ele, não para retê-lo, mas para entregá-lo, e deixá-lo ir para aquele que tem direito a ele.

III. Deviam ser oferecidos sacrifícios por eles, primeiro uma oferta pelo pecado (v. 12), e depois um holocausto, para fazer expiação pelos levitas, que, como as partes interessadas, deviam impor as mãos sobre a cabeça dos sacrifícios. Veja aqui:

  1. Que todos nós somos totalmente indignos e inaptos para ser admitidos e empregados no serviço de Deus, até que se faça expiação pelo pecado, e por ela se faça a nossa paz com Deus. Aquela nuvem interposta tem de ser dissipada antes que possa haver qualquer comunhão consoladora estabelecida entre Deus e as nossas almas.

  2. Que é por sacrifício, por Cristo, o grande sacrifício, que somos reconciliados com Deus e tornados aptos para lhe ser oferecidos. É por ele que os cristãos são santificados para a obra do seu cristianismo, e os ministros para a obra do seu ministério.

A ideia do erudito bispo Patrick sobre o sacrifício oferecido pelos levitas é que os próprios levitas eram considerados um sacrifício expiatório, pois foram dados para fazer expiação pelos filhos de Israel (v. 19).

E, contudo, não sendo devotados à morte, assim como não o eram os primogênitos, estes dois sacrifícios foram postos em lugar deles; por isso deviam impor as mãos sobre eles, para que o pecado que os filhos de Israel impuseram sobre eles (v. 10) fosse transferido para esses animais.

IV. Os próprios levitas foram oferecidos “perante o Senhor como oferta dos filhos de Israel”, v. 11. Arão os entregou a Deus, como tendo sido entregues primeiro por eles mesmos e pelos filhos de Israel.

A palavra original significa oferta movida, não que eles fossem de fato movidos, mas eram apresentados a Deus como o Deus do céu e o Senhor de toda a terra, assim como o eram as ofertas movidas.

E, ao chamá-los ofertas movidas, dava-se a entender a eles que tinham de se elevar continuamente a Deus no seu serviço, erguer os olhos, erguer os corações, e tinham de se mover de um lado para outro com prontidão nos afazeres da sua profissão. Não foram ordenados para ficar ociosos, mas para ser ativos e operosos.

V. Deus declara aqui que os aceita: “Os levitas serão meus”, v. 14. Deus os tomou em lugar dos primogênitos (vv. 16-18), de que já se falou antes, Números 3:41.

Repare: aquilo que é oferecido a Deus com sinceridade será graciosamente reconhecido e aceito por ele. E os seus ministros que dele alcançaram misericórdia para serem fiéis têm postos sobre si sinais particulares de favor e de honra: “serão meus”, e então (v. 15) “entrarão para fazer o serviço do tabernáculo”.

Deus os toma para si, para que o sirvam. Todos os que esperam participar dos privilégios do tabernáculo têm de se resolver a fazer o serviço do tabernáculo.

Assim como, de um lado, nenhuma das criaturas de Deus é serva necessária dele (ele não precisa do serviço de nenhuma delas), assim também, de outro lado, nenhuma é tomada meramente como serva honorária, para não fazer nada. Todos os que Deus reconhece, ele os emprega; os próprios anjos têm os seus serviços.

VI. Eles são então dados como dádiva a Arão e a seus filhos (v. 19), contudo de tal modo que o benefício revertia para os filhos de Israel.

  1. Os levitas tinham de atuar sob os sacerdotes, como servidores deles e ajudantes deles no serviço do santuário. Arão os oferece a Deus (v. 11), e então Deus os devolve a Arão, v. 19.

Repare: tudo o que entregamos a Deus ele nos devolverá, indizivelmente para nossa vantagem. Os nossos corações, os nossos filhos, os nossos bens nunca são mais nossos, mais verdadeiramente, mais consoladoramente nossos, do que quando os oferecemos a Deus.

  1. Tinham de atuar pelo povo. Foram tomados para “fazer o serviço dos filhos de Israel”, isto é, não só para fazer o serviço que eles deviam fazer, mas para servir aos interesses deles, e fazer aquilo que de fato redundaria em honra, segurança e prosperidade de toda a nação.

Repare: aqueles que desempenham fielmente o serviço de Deus prestam um dos melhores serviços que se podem prestar ao público; os ministros de Deus, enquanto se mantêm dentro da esfera do seu ofício e cumprem com consciência o dever dele, têm de ser vistos como alguns dos servos mais úteis da sua pátria.

Os filhos de Israel podem passar tão mal sem a tribo de Levi quanto sem qualquer das suas tribos. Mas que serviço é esse que eles prestam aos filhos de Israel? Segue-se: é “fazer expiação por eles, para que não haja praga entre eles”.

Era obra dos sacerdotes fazer expiação por sacrifício, mas os levitas faziam expiação pela assistência, e preservavam a paz com o céu que era feita pelo sacrifício.

Se o serviço dos sacerdotes no tabernáculo tivesse sido deixado a todos os primogênitos de Israel indistintamente, teria sido ou negligenciado ou feito sem perícia e sem reverência, por ser feito por aqueles que não estavam tão estreitamente presos a ele, nem tão diligentemente treinados para ele, nem tão constantemente habituados a ele, como estavam os levitas.

E isto traria uma praga entre os filhos de Israel, querendo dizer, talvez, a morte dos próprios primogênitos, que foi a última e a maior das pragas do Egito.

Para evitar isto, e para preservar a expiação, os levitas foram designados para fazer este serviço, os quais seriam criados nele sob os pais desde a infância e, por isso, seriam bem versados nele.

E assim os filhos de Israel, isto é, os primogênitos, não precisariam chegar-se ao santuário; ou, quando algum israelita tivesse ocasião, os levitas estariam prontos para instruí-lo e introduzi-lo, e assim evitar qualquer falha ou engano fatal.

Repare: é uma bondade muito grande para com a igreja que sejam designados ministros para ir adiante do povo nas coisas de Deus, como guias, supervisores e governantes no culto religioso, e para fazer disso a sua ocupação. Quando Cristo subiu ao alto, deu estes dons, Efésios 4:8, 11, 12.

VII. O tempo do seu ministério é fixado:

  1. Deviam entrar no serviço aos vinte e cinco anos, v. 24. Não eram encarregados de carregar o tabernáculo e os seus utensílios até terem trinta anos, Números 4:3. Mas eram admitidos para ser úteis de outras maneiras aos vinte e cinco anos, idade muito boa para os ministros começarem a sua obra pública.

A obra exigia então aquela força de corpo, e a obra agora exige aquela maturidade de juízo e firmeza de conduta, a que os homens raramente chegam antes de mais ou menos essa idade; e os novatos correm o perigo de se ensoberbecer.

  1. Deviam ter carta de isenção aos cinquenta anos; então deviam voltar da guerra, como diz a expressão (v. 25), não expulsos com desonra, mas antes promovidos ao descanso que a sua idade pedia, para serem carregados com as honras do seu ofício, como até então o tinham sido com os fardos dele.

“Ministrarão com os seus irmãos no tabernáculo”, para dirigir os levitas mais novos e iniciá-los; e “guardarão o encargo”, como sentinelas nos acessos do tabernáculo, para cuidar que nenhum estranho se intrometesse, nem pessoa alguma na sua impureza; mas não serão postos em nenhum serviço que lhes seja fatigante.

Se a graça de Deus provê que os homens tenham capacidade conforme a sua obra, a prudência do homem deve cuidar que os homens tenham obra só conforme a sua capacidade. Os idosos são os mais aptos para os cargos de confiança e para guardar o encargo; os mais novos são os mais aptos para a obra e para fazer o serviço.

Os que exerceram bem o ofício de servo adquirem para si um bom grau, 1 Timóteo 3:13. Contudo, na verdade, os dons não estão presos às idades (Jó 32:9), mas “todas estas coisas opera aquele único e mesmo Espírito”. Assim ficou assentado o assunto dos levitas.


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