Matthew Henry

Números 7

Argumento

Tendo Deus, por assim dizer, estabelecido sua casa no meio do arraial de Israel, os príncipes de Israel vêm aqui visitá-lo com os seus presentes, como arrendatários que visitam o proprietário, em nome das respectivas tribos.

I. Trouxeram presentes:

  1. Por ocasião da dedicação do tabernáculo, para o serviço dele, vv. 1-9.

  2. Por ocasião da dedicação do altar, para o uso dele, vv. 10-88.

II. E Deus graciosamente deu sinal de que os aceitava, v. 89.

Os dois capítulos anteriores foram o registro de leis adicionais que Deus deu a Israel; este é a história dos serviços adicionais que Israel prestou a Deus.

Versículos 1 a 9

A Oferta dos Príncipes. (a.C. 1490.)

Aqui está a oferta dos príncipes para o serviço do tabernáculo. Observe:

I. Quando foi: não antes de ele estar plenamente montado, v. 1. Quando tudo estava feito, tanto no que diz respeito ao próprio tabernáculo quanto ao arraial de Israel que o rodeava, segundo as instruções dadas, então começaram os seus presentes, provavelmente por volta do oitavo dia do segundo mês.

Repare: as observâncias necessárias devem sempre ter precedência sobre as ofertas voluntárias; primeiro aquelas, e depois estas.

II. Quem foi que ofereceu: “os príncipes de Israel, cabeças da casa de seus pais”, v. 2. Repare: aqueles que estão acima dos outros em poder e dignidade devem ir adiante dos outros, e esforçar-se para ir além deles, em tudo o que é bom.

Quanto mais alguém é elevado, mais se espera dele, por causa da maior oportunidade que tem de servir a Deus e à sua geração. Para que servem a riqueza e a autoridade, senão na medida em que capacitam um homem a fazer tanto mais bem no mundo?

III. O que foi oferecido: seis carros, cada um com uma junta de bois para puxá-lo, v. 3. Sem dúvida esses carros condiziam com o resto da mobília do tabernáculo e dos seus pertences, os melhores no seu gênero, como as carruagens que os grandes príncipes usam quando saem em procissão.

Alguns pensam que Deus, por meio de Moisés, lhes deu a entender o que deviam trazer, ou talvez a própria reflexão deles lhes tenha sugerido fazer esse presente.

Embora a sabedoria de Deus tivesse ordenado todo o essencial do tabernáculo, contudo parece que essas comodidades acessórias foram deixadas para ser providas pelo próprio discernimento deles, ao qual cabia pôr em ordem o que faltava (Tito 1:5); e esses carros não foram recusados, ainda que nenhum modelo deles tivesse sido mostrado a Moisés no monte.

Repare: não se deve esperar que a instituição divina das ordenanças desça a todas aquelas circunstâncias que são determináveis, e que convém deixar alteráveis, pela prudência humana, aquela sabedoria que é proveitosa para dirigir.

Observe: tão logo o tabernáculo está plenamente montado, já se faz esta provisão para a remoção dele. Repare: mesmo quando mal acabamos de nos estabelecer no mundo, e pensamos que começamos a criar raízes, devemos estar nos preparando para mudanças e remoções, especialmente para a grande mudança.

Enquanto estamos aqui neste mundo, tudo tem de ser acomodado a um estado militante e móvel. Quando o tabernáculo estava sendo construído, os príncipes foram muito generosos nas suas ofertas, pois então trouxeram pedras preciosas, e “pedras de engaste” (Êxodo 35:27); contudo, agora trazem mais presentes.

Repare: aqueles que já fizeram o bem devem empenhar-se em abundar nisso ainda mais e mais, e não se cansar de bem fazer.

IV. Como a oferta foi destinada e que uso se fez dela: os carros e os bois foram dados aos levitas para transportar o tabernáculo, tanto para aliviar-lhes o trabalho (pois Deus não queria sobrecarregar nenhum dos seus servos) quanto para transportar as diversas partes com mais segurança e de modo adequado, mantendo-as juntas e abrigadas do tempo nos carros.

  1. Os gersonitas, que tinham a carga leve, as cortinas e os reposteiros, tinham só dois carros e duas juntas de bois (v. 7); quando os tinham carregado, deviam levar o resto, se sobrasse algum, sobre os ombros.

  2. Os meraritas, que tinham a carga pesada, e a mais difícil de manejar, as tábuas, as colunas, as bases, etc., tiveram quatro carros e quatro juntas de bois designados a eles (v. 8).

Contudo, se não tivessem mais carros próprios, seriam obrigados a levar muita coisa às costas também, pois só as bases de prata pesavam cem talentos, o que passava de quatro toneladas, e isso bastava para carregar quatro carros puxados só por uma junta de bois cada um.

Mas, sendo cada base do peso de um talento, que é mais ou menos a carga de um homem (como parece por 2 Reis 5:23), provavelmente eles levavam essas às costas, e punham as tábuas e as colunas nos carros.

Observe aqui: com quanta sabedoria e graça Deus destinou a maior força aos que tinham o maior trabalho. Cada um tinha carros segundo o seu serviço. Qualquer que seja o fardo que Deus, na sua providência, ponha sobre nós, ele, pela sua graça suficiente, proporcionará a força a esse fardo, 1 Coríntios 10:13.

  1. Os coatitas, que tinham a carga mais sagrada, não tiveram carro algum, porque deviam levar o seu encargo sobre os ombros (v. 9), com cuidado e veneração particulares.

Quando, no tempo de Davi, levaram a arca numa carroça, Deus lhes fez saber, para terror deles, pela morte de Uzá, que não o tinham buscado segundo a ordem devida. Veja 1 Crônicas 15:13.

Versículos 10 a 89

Temos aqui o relato da grande solenidade da dedicação dos altares, tanto o dos holocaustos quanto o do incenso. Eles já tinham sido santificados antes, quando foram ungidos (Levítico 8:10, 11), mas agora foram estreados, por assim dizer, pelos príncipes, com as suas ofertas voluntárias.

Começaram o uso deles com presentes ricos, grandes expressões de alegria e contentamento e um respeito extraordinário por aqueles sinais da presença de Deus entre eles. Observe aqui:

I. Que os príncipes e os grandes foram os primeiros e os mais empenhados no serviço de Deus. Quem tem direito à precedência deve ir à frente nas boas obras, e essa é a verdadeira honra.

Aqui está um exemplo para a nobreza e a fidalguia, para quem está em autoridade e é da primeira categoria na sua terra. Estes devem aproveitar a sua honra e o seu poder, os seus bens e a sua influência, para promover a religião e o serviço de Deus nos lugares onde vivem.

Com justiça se espera que quem tem mais que os outros faça mais bem que os outros com o que tem; do contrário são mordomos infiéis, e não prestarão contas com alegria.

Ou melhor: os grandes não só devem, com a sua riqueza e o seu poder, ajudar e proteger quem serve a Deus, mas devem fazer questão de consciência de ser, eles mesmos, devotos e religiosos, e de ocupar-se nos exercícios da piedade.

Isso redundará muito para a honra de Deus (Salmos 138:4, 5) e terá boa influência sobre os outros, que serão persuadidos tanto mais facilmente a atos de devoção quando os virem assim postos em boa reputação.

É certo que o maior dos homens é menor que a menor das ordenanças de Deus, e os serviços mais humildes da religião não rebaixam em nada quem faz a maior figura no mundo.

II. As ofertas que trouxeram foram muito ricas e valiosas, tão ricas que alguns pensam que não havia entre eles e os outros diferença de bens tão grande a ponto de poderem arcar sozinhos com a despesa, mas que os cabeças de cada tribo contribuíram para a oferta que o seu príncipe trouxe.

  1. Trouxeram algumas coisas para ficar em serviço permanente: doze grandes pratos de prata, cada um com cerca de sessenta onças de peso, e outras tantas grandes taças, ou bacias, de prata, de cerca de trinta e cinco onças.

Os primeiros eram para as ofertas de manjares, as segundas para as libações; os primeiros para a carne dos sacrifícios, as segundas para o sangue. O altar era a mesa de Deus (por assim dizer), e convinha que tão grande Rei fosse servido em baixela de prata.

As colheres de ouro, cheias de incenso, destinavam-se, é provável, ao serviço do altar de ouro, pois os dois altares foram ungidos ao mesmo tempo.

Repare: nas obras de piedade e de caridade, devemos ser generosos conforme a nossa capacidade. Aquele que é o melhor deve ser servido com o melhor que temos.

Os israelitas, de fato, bem podiam desfazer-se do seu ouro e da sua prata em abundância para o serviço do santuário, pois não precisavam deles para comprar alimento e abastecer o arraial, sendo alimentados cada dia com pão do céu; nem precisavam deles para comprar terras ou pagar o exército, pois em breve seriam postos de posse de Canaã.

  1. Trouxeram algumas coisas para ser usadas imediatamente, ofertas de cada espécie: holocaustos, ofertas pelo pecado e muitíssimas ofertas pacíficas (com parte das quais deviam banquetear-se com os amigos), e as ofertas de manjares que deviam acompanhá-las.

Com isso expressavam a sua aceitação agradecida de todas aquelas leis a respeito dos sacrifícios que Deus pouco antes lhes havia proferido por meio de Moisés, e a sua submissão de bom grado a elas.

E, embora fosse um tempo de alegria e regozijo, ainda assim é digno de nota que continuamente, no meio dos sacrifícios deles, encontramos uma oferta pelo pecado.

Visto que, nos nossos melhores serviços, temos consciência de que há mistura de pecado, convém que haja, até nos nossos serviços mais alegres, uma mistura de arrependimento. Em todas as nossas aproximações de Deus, devemos, pela fé, ter os olhos em Cristo, como a grande oferta pelo pecado, e fazer menção dele.

  1. Trouxeram as suas ofertas cada um num dia separado, na ordem em que tinham sido postos pouco antes, de modo que a solenidade durou doze dias. Assim Deus determinou (v. 11): “Trarão a sua oferta, cada príncipe no seu dia”, e assim fizeram.

Um sábado forçosamente caiu dentro dos doze dias, se não dois, mas parece que eles não interromperam no sábado, pois era obra santa, bastante própria para um dia santo. Deus determinou que se fizesse assim em diversos dias:

(1.) Para que a solenidade se prolongasse, e assim fosse notada universalmente por todo o Israel, e a lembrança dela se conservasse com mais eficácia.

(2.) Para que por esse meio se desse honra igual a cada tribo respectivamente. No peitoral de Arão cada uma tinha a sua pedra preciosa; assim, nesta oferta, cada uma teve o seu dia.

(3.) Assim se faria com mais decência e ordem. A obra de Deus não deve ser feita confusamente e às pressas: tomemos tempo, e teremos acabado tanto mais cedo, ou ao menos teremos feito tanto melhor.

(4.) Deus mostrava com isso o quanto se agrada, e o quanto nós devemos nos agradar, dos exercícios de piedade e devoção. A repetição deles deve ser para nós um prazer contínuo, e não devemos nos cansar de fazer o bem.

Se nos for exigido um serviço extraordinário durante doze dias seguidos, não devemos recuar diante dele, nem chamá-lo de tarefa e fardo.

(5.) Os sacerdotes e os levitas, tendo esta ocasião de oferecer os mesmos sacrifícios, e alguns de cada espécie, cada dia, por tantos dias seguidos, teriam as mãos bem exercitadas e ficariam bem versados nas leis a respeito deles.

(6.) As ofertas pacíficas deviam todas ser comidas no mesmo dia em que eram oferecidas, e dois bois, cinco carneiros, cinco bodes e cinco cordeiros bastavam para a festa de um dia.

Se houvesse mais, sobretudo se todas tivessem sido trazidas num só dia, poderia ter havido perigo de excesso. A virtude da temperança não deve ser abandonada sob pretexto da religião do banquete.

  1. Todas as ofertas deles foram exatamente iguais, sem nenhuma variação, embora seja provável que nem os príncipes nem as tribos fossem todos igualmente ricos; mas assim se dava a entender que todas as tribos de Israel tinham parte igual no altar e interesse igual nos sacrifícios que se ofereciam sobre ele.

Embora uma tribo estivesse postada no arraial em lugar mais honroso que outra, contudo elas e os seus serviços eram todos igualmente aceitáveis a Deus. Nem devemos ter “a fé de nosso Senhor Jesus Cristo” com “acepção de pessoas”, Tiago 2:1.

  1. Naassom, príncipe da tribo de Judá, ofereceu primeiro, porque Deus tinha dado àquela tribo o primeiro posto de honra no arraial. As demais tribos consentiram e ofereceram na mesma ordem em que Deus lhes havia determinado acampar.

Judá, tribo da qual veio Cristo, primeiro, e depois as demais. Assim, na dedicação das almas a Deus, cada um é apresentado “na sua própria ordem”, “Cristo, as primícias”, 1 Coríntios 15:23.

Alguns observam que Naassom é o único que não é chamado expressamente de príncipe (v. 12), e os judeus dão esta razão: ele não é chamado de príncipe para que não se ensoberbecesse por ter oferecido primeiro; e todos os outros são chamados de príncipes porque (embora alguns deles fossem da casa mais velha) se sujeitaram e ofereceram depois dele.

Ou então porque o título de príncipe de Judá pertencia mais propriamente a Cristo, pois a ele se ajuntará o povo.

  1. Embora as ofertas fossem todas iguais, o relato delas é repetido por extenso para cada tribo, com as mesmas palavras. Temos certeza de que não há repetições vãs na Escritura; que diremos, então, destas repetições?

Não bastaria dizer que cada integrante daquele nobre júri trouxe, no seu dia, a mesma oferta que o seu presidente trouxera? Não: Deus quis que ela fosse especificada para cada tribo. E por quê?

(1.) Foi para encorajar estes príncipes e as suas respectivas tribos, para que, sendo registrada por extenso a oferta de cada um, nenhum parecesse menosprezado, pois o rico e o pobre se encontram diante de Deus.

(2.) Foi para encorajar todos os atos generosos de piedade e caridade, fazendo-nos saber que o que assim se dá é emprestado ao Senhor, e ele o registra com cuidado, com o nome de cada um posto à frente da sua dádiva, porque o que assim se dá ele pagará de volta, e até um copo de água fria terá a sua recompensa.

Ele não é injusto para se esquecer quer do custo, quer do trabalho do amor, Hebreus 6:10. Encontramos Cristo reparando particularmente no que se lançava no gazofilácio, Marcos 12:41.

Ainda que o que se oferece seja só pouco, ainda que seja uma contribuição para a caridade de outros, se for conforme a nossa capacidade, será registrado, para que seja recompensado na ressurreição dos justos.

  1. O total é acrescentado ao pé do relato (vv. 84-88), para mostrar o quanto Deus se agradou da menção das suas ofertas voluntárias, e a quanto elas montaram no todo, quando cada príncipe trouxe a sua cota!

Quão grandemente seria enriquecido e embelezado o santuário de Deus se todos, nos seus lugares, fizessem a sua parte por ele, com pureza e devoção exemplares, caridade abrangente e utilidade universal!

  1. Deus mostrou que aceitava graciosamente estes presentes que lhe foram trazidos, falando familiarmente com Moisés, como um homem fala com o seu amigo, de cima do propiciatório (v. 89, Números 12:8); e, falando com ele, falava de fato com todo o Israel, mostrando-lhes este sinal para bem, Salmos 103:7.

Repare: por isto podemos saber que Deus ouve e aceita as nossas orações, se ele nos dá graça para ouvir e receber a sua palavra, pois assim se mantém e se conserva a nossa comunhão com ele.

Não sei por que não podemos supor que, em cada um dos dias em que se trouxeram estas ofertas (provavelmente enquanto os sacerdotes e os ofertantes se banqueteavam com as ofertas pacíficas), Moisés estivesse no tabernáculo, recebendo algumas daquelas leis e ordens que já encontramos neste livro e no anterior.

E aqui o excelente bispo Patrick observa que o fato de Deus falar assim com Moisés por uma voz audível e articulada, como se estivesse revestido de um corpo santo, podia ser visto como um penhor da encarnação do Filho de Deus na plenitude dos tempos, quando o Verbo se faria carne e falaria na língua dos filhos dos homens.

Pois, ainda que Deus, muitas vezes e de muitas maneiras, tenha falado aos pais, nestes últimos dias ele nos falou pelo seu Filho.

E que aquele que então falava com Moisés, como a shechinah, ou Majestade divina, de entre os querubins, era o Verbo eterno, a segunda pessoa da Trindade, foi a piedosa conjectura de muitos dos antigos.

Pois toda a comunhão de Deus com o homem é pelo seu Filho, por quem ele fez o mundo e governa a igreja, e que é o mesmo ontem, hoje e para sempre.


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