Matthew Henry

Números 6

Argumento

Neste capítulo temos:

I. A lei acerca dos nazireus:

  1. Aquilo a que o voto de nazireu o obrigava, vv. 1-8.

  2. Uma lei reparadora, para o caso de um nazireu vir a contaminar-se pelo toque de um corpo morto, vv. 9-12.

  3. A solenidade da sua dispensa quando o seu tempo se cumpria, vv. 13-21.

II. Instruções dadas aos sacerdotes sobre como deveriam abençoar o povo, v. 22, etc.

Versículos 1 a 21

A Lei Acerca dos Nazireus. (a.C. 1490.)

Depois da lei para a descoberta e a vergonha daqueles que pelo pecado se haviam tornado vis, segue-se com propriedade esta, para a direção e o ânimo daqueles que, pela sua eminente piedade e devoção, se haviam tornado honrados e se haviam distinguido dos seus vizinhos.

É muito provável que, antes de se fazer esta lei, houvesse quem passasse pelo caráter de nazireu e fosse celebrado por esse título, como pessoas que professavam mais rigor e zelo na religião do que os outros; pois o voto de nazireu é mencionado aqui como coisa já bem conhecida, mas a obrigação dele é reduzida a uma certeza maior do que tivera até então.

José é chamado nazireu entre os seus irmãos (Gênesis 49:26), não só por estar separado deles, mas por ser eminente entre eles. Observe:

I. O caráter geral de um nazireu: é uma pessoa separada para o Senhor, v. 2. Alguns eram nazireus por toda a vida, ou por designação divina, como Sansão (Juízes 13:5) e João Batista (Lucas 1:15), ou pelo voto dos seus pais a respeito deles, como Samuel, 1 Samuel 1:11. Destes esta lei não fala.

Outros o eram por um tempo determinado, e por compromisso voluntário próprio, e a respeito destes esta lei dá regras. Uma mulher podia obrigar-se com o voto de nazireu, sob as limitações que encontramos em Números 30:3, onde o voto que se supõe que a mulher faça ao Senhor parece referir-se especialmente a este voto. Os nazireus eram:

  1. Devotados ao Senhor durante o tempo do seu nazireado e, é provável, passavam boa parte do seu tempo no estudo da lei, em atos de devoção e instruindo os outros. Com isso se punha sobre eles, e sobre toda a sua conduta, um ar de piedade.

  2. Separados das pessoas comuns e das coisas comuns. Os que são consagrados a Deus não devem conformar-se com este mundo. Eles se distinguiam não só dos outros, mas daquilo que eles mesmos eram antes e depois.

  3. Separavam-se votando um voto. Todo israelita estava obrigado pela lei divina a amar a Deus de todo o seu coração, mas os nazireus, por seu próprio ato e feito, se obrigavam a certas observâncias religiosas, como frutos e expressões desse amor, às quais os outros israelitas não estavam obrigados.

Houve alguns assim, cujos espíritos Deus despertou para serem, no seu tempo, os ornamentos da igreja, os porta-estandartes da religião e modelos de piedade. Fala-se como de grande favor à nação deles o fato de Deus ter levantado dos seus jovens para nazireus, Amós 2:11.

Os nazireus eram conhecidos nas ruas e respeitados como “mais puros do que a neve, mais brancos do que o leite”, Lamentações 4:7.

Cristo foi chamado nazareno a título de descrédito, e assim também os seus seguidores; mas ele não foi nazireu segundo esta lei: bebia vinho e tocava em corpos mortos. Contudo, nele este tipo teve o seu cumprimento, pois nele se reuniram toda a pureza e toda a perfeição; e todo verdadeiro cristão é um nazireu espiritual, separado por voto para o Senhor.

Vemos São Paulo, pela persuasão dos seus amigos, por condescendência para com os judeus, submeter-se a esta lei dos nazireus; mas ao mesmo tempo se declara que os gentios não deviam guardar nada disso, Atos 21:24, 25.

Ser nazireu era tido como grande honra para um homem, e por isso, se alguém fala disso como de um castigo, dizendo, por exemplo: “Serei nazireu em vez de fazer isto ou aquilo”, é (dizem os judeus) um homem perverso; mas aquele que faz voto ao Senhor de ser nazireu no caminho da santidade, eis que a coroa do seu Deus está sobre a sua cabeça.

II. As obrigações particulares sob as quais os nazireus estavam. Para que as fantasias dos homens supersticiosos não multiplicassem as suas restrições sem fim, o próprio Deus estabelece a lei para eles e lhes dá a regra da sua profissão.

  1. Não deviam ter nada que ver com o fruto da videira, v. 3, 4. Não deviam beber vinho nem bebida forte, nem comer uvas, não, nem mesmo o caroço nem a casca; não podiam sequer comer uma passa.

O douto Dr. Lightfoot tem uma conjectura (Hor. Heb. in Luc. 1.15) de que, assim como as contaminações cerimoniais pela lepra e por outras vias representavam o estado pecaminoso do homem caído, assim a instituição da ordem dos nazireus visava representar o estado puro e perfeito do homem na inocência.

E conjectura que a árvore do conhecimento, proibida a Adão, era a videira, e por esse motivo ela foi proibida aos nazireus, com tudo o que ela produz.

Os que davam vinho a beber aos nazireus faziam a obra do tentador (Amós 2:12), persuadindo-os àquele fruto proibido. Parece, pelo exemplo dos recabitas, que se tinha por perfeição e louvor não beber vinho, Jeremias 35:6. Não deviam beber vinho:

(1.) Para que fossem exemplos de temperança e de mortificação. Os que se separam para Deus e para a sua honra não devem satisfazer os desejos do corpo, mas mantê-lo sob domínio e reduzi-lo à sujeição.

Beber um pouco de vinho por causa do estômago é consentido, para ajudá-lo, 1 Timóteo 5:23. Mas beber muito vinho por causa do paladar, para agradá-lo, de modo algum convém aos que professam andar não segundo a carne, mas segundo o Espírito.

(2.) Para que estivessem habilitados a empregar-se no serviço de Deus. Não deviam beber, para que não se esquecessem da lei (Provérbios 31:5), para que não errassem por causa do vinho, Isaías 28:7.

Que todos os cristãos se obriguem a ser muito moderados no uso do vinho e da bebida forte; pois, se o amor a essas coisas chega uma vez a dominar um homem, ele se torna presa muito fácil de Satanás.

É digno de observação que, por não deverem beber vinho (que era o principal objetivo), não deviam comer nada que viesse da videira, para nos ensinar a evitar, com o máximo zelo e cautela, o pecado e tudo o que confina com ele e leva a ele, ou pode ser uma tentação para nós. “Abstende-vos de toda aparência do mal”, 1 Tessalonicenses 5:22.

  1. Não deviam cortar o seu cabelo, v. 5. Não deviam nem tosquiar as suas cabeças nem rapar as suas barbas; esta era aquela marca do nazireado de Sansão de que muitas vezes lemos na sua história. Ora:

(1.) Isso significava um nobre descaso pelo corpo, pelo conforto e pelo adorno dele, o que convinha aos que, separados para Deus, deviam estar inteiramente ocupados com as suas almas, para garantir a paz e a beleza delas.

Significava que eles tinham, por ora, renunciado a toda sorte de prazeres e deleites sensuais, e resolvido viver uma vida de abnegação e mortificação. Mefibosete, na tristeza, não aparou a sua barba, 2 Samuel 19:24.

(2.) Alguns observam que o cabelo comprido é mencionado como insígnia de sujeição (1 Coríntios 11:5, etc.); de modo que o cabelo comprido dos nazireus denotava a sua sujeição a Deus, e o porem-se debaixo do domínio dele.

(3.) Por isso eram reconhecidos como nazireus por todos os que os encontravam, e assim isso impunha respeito.

Fazia-os parecer grandes sem artifício; era a coroa da natureza sobre a cabeça, e um testemunho a favor deles de que tinham preservado a sua pureza. Pois, se tivessem sido maculados, o cabelo deles teria de ter sido cortado, v. 9. Veja Jeremias 7:29.

  1. Não deviam chegar perto de nenhum corpo morto, v. 6, 7. Outros podiam tocar corpos mortos, e contraíam por isso apenas uma contaminação cerimonial por algum tempo; alguns tinham de fazê-lo, senão os mortos ficariam sem sepultura; mas os nazireus não deviam fazê-lo, sob pena de perder toda a honra do seu nazireado.

Não deviam acompanhar o funeral de nenhum parente, não, nem mesmo de pai nem de mãe, não mais do que o próprio sumo sacerdote, “porque a consagração do seu Deus está sobre a sua cabeça”. Os que se separam para Deus devem aprender:

(1.) A distinguir-se, e a fazer mais do que os outros.

(2.) A guardar as suas consciências puras de obras mortas, e a não tocar coisa imunda. Quanto maior a profissão de religião que fazemos, e quanto mais eminentes parecemos, maior cuidado devemos ter para evitar todo pecado, pois temos tanto mais honra a perder por ele.

(3.) A moderar os seus afetos, mesmo para com os seus parentes próximos, de modo a não deixar que a tristeza pela perda deles irrompa sobre a sua alegria em Deus e a sua submissão à vontade dele. Veja Mateus 8:21, 22.

  1. Todos os dias da sua separação deviam ser santos ao Senhor, v. 8. Este era o sentido daquelas observâncias externas, e sem isto elas não tinham valor algum.

Os nazireus deviam ser devotados a Deus, empregados para ele, e ter as suas mentes voltadas para ele; deviam guardar-se puros de coração e de vida, e ser em tudo conformes à imagem e à vontade divinas; isto é ser santo, isto é ser nazireu de fato.

III. A provisão que se fazia para a limpeza de um nazireu, se lhe acontecesse contrair inevitavelmente uma contaminação cerimonial pelo toque de um corpo morto.

Esta lei não ordena pena alguma para a violação voluntária das leis anteriores; pois não se supunha que um homem que tinha religião bastante para fazer aquele voto pudesse ter tão pouca que o quebrasse com presunção; nem se podia supor que ele bebesse vinho, ou mandasse cortar o seu cabelo, senão por sua própria culpa.

Mas, puramente pela providência de Deus, sem culpa alguma sua, ele podia estar perto de um corpo morto, e esse é o caso proposto (v. 9): Se um homem morrer muito subitamente junto dele, o nazireu terá maculado a cabeça da sua consagração.

Repare: a morte às vezes leva os homens muito subitamente, e sem nenhum aviso prévio. Um homem podia estar bem e morto em tão pouco tempo que o nazireu mais cuidadoso não conseguisse evitar ser contaminado pelo corpo morto; tão curto é às vezes o passo, e tão depressa dado, do tempo para a eternidade. Deus nos prepare para a morte súbita! Neste caso:

  1. Ele devia ser purificado da contaminação cerimonial que contraíra, como os outros, no sétimo dia, v. 9. Ou melhor: exigia-se mais para a purificação do nazireu do que para qualquer outra pessoa que tivesse tocado um corpo morto; ele devia trazer uma oferta pelo pecado e um holocausto, e devia fazer-se expiação em favor dele, v. 10, 11.

Isto nos ensina que dos pecados de fraqueza, e das faltas em que somos apanhados de surpresa, é preciso arrepender-se seriamente, e que se deve aplicar às nossas almas a virtude do sacrifício de Cristo para o perdão deles todos os dias, 1 João 2:1, 2.

Ensina-nos também que, se os que fazem eminente profissão de religião fazem algo que manche a reputação da sua profissão, espera-se deles mais do que dos outros para a recuperação tanto da sua paz quanto do seu crédito.

  1. Ele devia começar de novo os dias da sua separação; pois todos os que tinham passado antes da sua contaminação, por mais perto que chegassem do fim do prazo que lhe fora fixado, estavam perdidos e não lhe eram contados, v. 12.

Isto os obrigava a ter muito cuidado para não se macularem pelos mortos, pois essa era a única coisa que lhes fazia perder o tempo; e nos ensina que, se o justo se desviar da sua justiça e se macular com obras mortas, toda a justiça que tiver praticado estará perdida para ele, Ezequiel 33:13.

Está tudo perdido, tudo em vão, se ele não perseverar, Gálatas 3:4. Ele deve começar de novo e fazer as suas primeiras obras.

IV. A lei para a dispensa solene de um nazireu do seu voto, quando tivesse completado o tempo que ele mesmo se fixara. Antes de expirar esse prazo, não podia ser dispensado; antes de fazer o voto, estava em seu próprio poder, mas depois do voto era tarde demais para fazer indagações.

Os judeus dizem que o tempo do voto de um nazireu não podia ser menor que trinta dias; e, se um homem dizia: “Serei nazireu só por dois dias”, ainda assim ficava obrigado por trinta.

Mas, ao que parece, o voto de Paulo foi de apenas sete dias (Atos 21:27), ou antes, ali ele cumpriu a cerimônia de encerrar aquele voto de nazireado do qual, estando longe do templo, se desobrigara alguns anos antes em Cencreia, apenas pela cerimônia de cortar o seu cabelo, Atos 18:18.

Quando se acabava o tempo da separação votada, ele devia ser liberado:

  1. Publicamente, à porta do tabernáculo (v. 13), para que todos reparassem no término do seu voto, e ninguém se sentisse ofendido se o visse agora beber vinho, ele que tão recentemente o recusara.

  2. Devia ser feito com sacrifícios, v. 14. Para que ele não pensasse que por esse eminente ato de devoção tinha feito de Deus seu devedor, designa-se que, mesmo depois de ter cumprido o voto, ele traga uma oferta a Deus; pois, quando fizemos o máximo no dever para com Deus, ainda assim devemos reconhecer-nos em atraso com ele.

Ele devia trazer uma de cada espécie das ofertas instituídas:

(1.) Um holocausto, como reconhecimento do domínio soberano de Deus, que continuava sobre ele e sobre tudo o que tinha, não obstante a dispensa deste voto particular.

(2.) Uma oferta pelo pecado. Esta, embora mencionada em segundo lugar (v. 14), parece contudo ter sido oferecida primeiro (v. 16), pois é preciso fazer expiação pelos nossos pecados antes que qualquer dos nossos sacrifícios possa ser aceito.

E é muito digno de observação que até o nazireu, que aos olhos dos homens era mais puro do que a neve e mais branco do que o leite, ainda assim não ousava comparecer diante do Deus santo sem uma oferta pelo pecado.

Embora tivesse cumprido o voto da sua separação sem contaminação, ainda assim devia trazer um sacrifício pelo pecado.

Pois há culpa que os melhores homens contraem sem notar, até nas suas melhores obras (algum bem omitido, algum mal admitido), que, se fôssemos tratados com estrita justiça, seria nossa ruína, e em razão da qual precisamos receber a expiação e alegá-la como nossa justiça diante de Deus.

(3.) Uma oferta pacífica, em ação de graças a Deus, que o capacitara a cumprir o seu voto, e em súplica a Deus por graça para preservá-lo de jamais fazer algo impróprio de quem uma vez tinha sido nazireu, lembrando que, embora agora estivesse livre das amarras do seu próprio voto, ainda permanecia sob as amarras da lei divina.

(4.) A estas se acrescentavam as ofertas de manjares e as libações, segundo o costume (v. 15, 17), pois estas acompanhavam sempre os holocaustos e as ofertas pacíficas; e, além delas, um cesto de bolos asmos, e obreias.

(5.) Parte da oferta pacífica, com um bolo e uma obreia, devia ser movida como oferta movida (v. 19, 20); e isso era uma gratificação para o sacerdote, que a recebia pelo seu trabalho, depois de ter sido primeiro apresentada a Deus.

(6.) Além de tudo isso, ele podia trazer as suas ofertas voluntárias, “conforme o que a sua mão alcançar”, v. 21. Mais do que isso ele podia trazer, mas não menos. E, para dar brilho à solenidade, era comum nessa ocasião terem os seus amigos fazendo despesas com eles, Atos 21:24.

Por último, designou-se mais uma cerimônia, que era como o cancelamento da obrigação quando a condição é cumprida, e essa era o corte do seu cabelo, que se permitira crescer durante todo o tempo em que ele fora nazireu, e a queima dele no fogo sobre o qual se cozinhavam as ofertas pacíficas, v. 18.

Isto indicava que o pleno cumprimento do seu voto era aceitável a Deus em Cristo, o grande sacrifício, e não de outra forma. Aprenda daqui a votar e pagar ao Senhor nosso Deus, pois ele não tem prazer nos tolos.

Versículos 22 a 27

Uma Forma de Benedição Designada. (a.C. 1490.)

Aqui, I. Os sacerdotes, entre outros bons ofícios que deviam prestar, são designados para abençoar solenemente o povo em nome do Senhor, v. 23. Isso era parte do trabalho deles, Deuteronômio 21:5.

Com isso Deus pôs honra sobre os sacerdotes, pois o menor é abençoado pelo melhor; e com isso deu grande consolo e satisfação aos do povo, que olhavam para o sacerdote como a boca de Deus para eles.

Embora o sacerdote, por conta própria, não pudesse fazer mais do que pedir uma bênção, ainda assim, sendo intercessor por ofício, e fazendo aquilo em nome daquele que ordena a bênção, a oração trazia consigo uma promessa, e ele a pronunciava como quem tem autoridade, com as suas mãos levantadas e o seu rosto voltado para o povo. Ora:

  1. Isso era um tipo da missão de Cristo ao mundo, que era abençoar-nos (Atos 3:26), como sumo sacerdote da nossa confissão. A última coisa que ele fez na terra foi abençoar os seus discípulos com as mãos levantadas, Lucas 24:50, 51.

O erudito bispo Pearson registra como tradição dos judeus que os sacerdotes abençoavam o povo só no fim do sacrifício da manhã, e não no do sacrifício da tarde, para mostrar (diz ele) que nos últimos dias, os dias do Messias, que são (por assim dizer) a tarde do mundo, a benedição da lei cessaria, e a bênção de Cristo entraria em vigor.

  1. Isso era um modelo para os ministros do evangelho, os mestres das assembleias, que do mesmo modo devem despedir as suas assembleias solenes com uma bênção.

Os mesmos que são a boca de Deus para o seu povo, para ensiná-los e dar-lhes ordens, são igualmente a boca dele para abençoá-los; e os que recebem a lei receberão a bênção.

Os doutores hebreus avisam os do povo para que não digam: “De que vale a bênção deste pobre sacerdote simples?” “Porque”, dizem eles, “o receber a bênção depende, não do sacerdote, mas do santo e bendito Deus.”

II. Uma forma de bênção lhes é aqui prescrita. Nas suas outras devoções não se prescrevia forma nenhuma; mas, sendo este o mandamento de Deus acerca da benedição, para que não parecesse coisa própria deles, ele lhes põe na boca as próprias palavras, vv. 24-26. Observe aqui:

  1. Que a bênção é ordenada sobre cada pessoa em particular: “O Senhor te abençoe.” Cada um deles tinha de preparar-se para receber a bênção, e então achariam nela o bastante para fazer feliz cada homem.

“Bendito serás tu”, Deuteronômio 28:3. Se tomarmos a lei para nós mesmos, podemos tomar a bênção para nós mesmos, como se os nossos nomes estivessem inseridos nela.

  1. Que o nome Jeová é repetido nela três vezes, e (como observam os críticos) cada uma com um acento diferente no original.

Os próprios judeus pensam haver algum mistério nisso, e nós sabemos qual é, pois o Novo Testamento o explicou, o qual nos orienta a esperar a bênção da graça do nosso Senhor Jesus Cristo, do amor do Pai e da comunhão do Espírito Santo, sendo cada uma dessas pessoas Jeová, e contudo elas “não são três Senhores, mas um só Senhor”, 2 Coríntios 13:14.

  1. Que o favor de Deus é tudo nesta bênção, pois ele é a fonte de todo o bem:

(1.) “O Senhor te abençoe!” O nosso abençoar a Deus é só o nosso falar bem dele; o seu abençoar-nos é fazer-nos bem; aqueles a quem ele abençoa são abençoados de fato.

(2.) “O Senhor faça resplandecer o seu rosto sobre ti”, aludindo ao resplandecer do sol sobre a terra, para iluminá-la e consolá-la, e renovar a face dela. “O Senhor te ame e te faça saber que ele te ama.”

Não podemos deixar de ser felizes se temos o amor de Deus; e não podemos deixar de estar tranquilos se sabemos que o temos.

(3.) “O Senhor levante sobre ti o seu semblante.” Isto tem o mesmo teor do anterior, e parece aludir aos sorrisos de um pai para o seu filho, ou de um homem para o seu amigo em quem tem prazer.

Se Deus nos dá as garantias do seu favor especial e da sua aceitação de nós, isso porá alegria no coração, Salmos 4:7, 8.

  1. Que os frutos desse favor, transmitidos por esta bênção, são proteção, perdão e paz:

(1.) Proteção contra o mal, v. 24. “O Senhor te guarde”, pois é ele quem guarda Israel, e nem cochila nem dorme (Salmos 121:4), e todos os crentes são guardados pelo poder de Deus.

(2.) Perdão do pecado, v. 25. “O Senhor seja gracioso”, ou misericordioso, “para contigo”.

(3.) Paz (v. 26), incluindo todo aquele bem que concorre para compor uma felicidade completa.

III. Deus promete aqui ratificar e confirmar a bênção: “Eles porão o meu nome sobre os filhos de Israel”, v. 27. Deus lhes dá licença para fazer uso do seu nome ao abençoar o povo, e para abençoá-los como povo seu, chamado pelo seu nome.

Isso incluía todas as bênçãos que podiam pronunciar sobre eles, para marcá-los como propriedade peculiar de Deus, o povo da sua escolha e do seu amor. O nome de Deus sobre eles era a sua honra, o seu consolo, a sua segurança, o seu apelo. “Somos chamados pelo teu nome; não nos desampares.”

Acrescenta-se: “e eu os abençoarei”. Repare: uma bênção divina acompanha as instituições divinas e põe nelas virtude e eficácia.

O que Cristo diz da paz vale para a bênção: “Paz a esta congregação”; se os filhos da paz e herdeiros da bênção estiverem ali, a paz, a bênção, repousará sobre eles, Lucas 10:5, 6. Pois em todo lugar onde Deus registra o seu nome ele se encontrará com o seu povo e os abençoará.


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