Números 10
Argumento
Neste capítulo temos:
I. Ordens dadas a respeito da confecção e do uso de trombetas de prata, o que parece ter sido o último de todos os mandamentos que Deus deu no monte Sinai, e um dos menores, contudo não sem a sua significação, vv. 1-10.
II. A história da mudança do arraial de Israel do monte Sinai, e da sua marcha ordenada para o deserto de Parã, vv. 11-28.
III. O tratado de Moisés com Hobabe, seu cunhado, vv. 29-32.
IV. A oração de Moisés na mudança e no repouso da arca, v. 33, etc.
Versículos 1 a 10
O Deslocamento do Arraial. (a.C. 1490.)
Temos aqui as instruções sobre os avisos públicos que deviam ser dados ao povo, em diversas ocasiões, ao som de trombeta.
Numa coisa desta natureza, seria de pensar que Moisés não precisava ser instruído por Deus: a sua própria razão podia ensinar-lhe a conveniência das trombetas; mas a constituição de Israel devia ser divina em tudo, e por isso até nesta matéria, por pequena que pareça.
Aqui Moisés é orientado:
- Sobre a confecção delas. Devem ser feitas de prata; não fundidas, mas de obra batida (como alguns leem), material e forma, sem dúvida, muito adequados ao fim.
Foi-lhe ordenado agora fazer só duas, porque havia só dois sacerdotes para usá-las. Mas no tempo de Salomão lemos de 120 sacerdotes soando as trombetas, 2 Crônicas 5:12. Supõe-se que a forma destas trombetas era muito parecida com a das nossas hoje.
- Quem devia fazer uso delas; não uma pessoa qualquer de posição inferior, mas os próprios sacerdotes, os filhos de Arão, v. 8. Por grandes que fossem, não deviam achar desdouro em ser trombeteiros na casa de Deus; o mais humilde ofício ali era honroso.
Isto significava que os ministros do Senhor devem levantar a voz como trombeta, para mostrar às pessoas os seus pecados (Isaías 58:1), para chamá-las a Cristo, Isaías 27:13.
- Em que ocasiões as trombetas deviam soar:
(1.) Para a convocação das assembleias, v. 2. Assim se manda que soprem a trombeta em Sião para convocar uma assembleia solene, para santificar um jejum, Joel 2:15.
Deve-se dar aviso público do tempo e do lugar das assembleias religiosas; pois o convite ao benefício das ordenanças é geral: quem quiser, venha. A sabedoria clama nos lugares mais concorridos.
Mas, para que a trombeta não desse som incerto, mandou-se que, se só os príncipes e anciãos tivessem de se reunir, soprassem apenas uma das trombetas; menos devia bastar para convocá-los, eles que deviam ser exemplos de presteza em tudo o que é bom: mas, se o corpo do povo tivesse de ser convocado, deviam soar as duas trombetas, para serem ouvidas a maior distância.
Em alusão a isto, diz-se que são bem-aventurados os que ouvem “o som alegre” (Salmos 89:15), isto é, os que são convidados e chamados a comparecer diante de Deus nas ordenanças públicas, Salmos 122:1. E a assembleia geral do grande dia será convocada pelo som da trombeta do arcanjo, Mateus 24:31.
(2.) Para a jornada dos arraiais, a fim de avisar quando cada esquadrão devia mover-se; pois voz de homem nenhum poderia alcançar para dar a voz de comando: entre nós, soldados bem disciplinados podem ser exercitados ao toque de tambores.
Quando as trombetas eram sopradas para este fim, deviam soar um alarme (v. 5), um som cortado, trêmulo, interrompido, próprio para excitar e encorajar o ânimo do povo nas suas marchas contra os inimigos; ao passo que um som contínuo e uniforme era mais próprio para convocar a assembleia (v. 7).
Contudo, quando o povo era convocado para suplicar que os juízos de Deus fossem afastados, encontramos um alarme soado, Joel 2:1.
Ao primeiro soar, marchava o esquadrão de Judá; ao segundo, o de Rúben; ao terceiro, o de Efraim; ao quarto, o de Dã, v. 5, 6.
E alguns pensam que isto tinha por fim santificar as suas marchas, pois assim eram proclamadas pelos sacerdotes, que eram a boca de Deus para o povo, não só as ordens divinas que lhes eram dadas para se moverem, mas também a bênção divina sobre eles em todos os seus movimentos.
Quem tem ouvidos, ouça que Deus está com eles em verdade. O rei Abias se orgulhava muito disto, ele e o seu exército (2 Crônicas 13:12): “Deus mesmo está conosco por capitão, e os seus sacerdotes com trombetas que soam”.
(3.) Para animar e encorajar os seus exércitos quando saíam para a batalha (v. 9):
“Se fordes à guerra, soprai com as trombetas, significando com isso o vosso apelo ao céu para a decisão da controvérsia, e a vossa oração a Deus para que vos dê a vitória; e Deus reconhecerá esta instituição sua, e sereis lembrados perante o Senhor vosso Deus.”
Deus reparará neste som de trombeta e ficará empenhado em lutar as batalhas deles; e que todo o povo repare nele e se encoraje a lutar as dele, como Davi, quando ouviu um som de marcha sobre as copas das amoreiras.
Não que Deus precisasse ser despertado por som de trombeta, como tampouco Cristo precisava ser despertado pelos seus discípulos na tempestade, Mateus 8:25.
Mas, onde tenciona conceder misericórdia, é da sua vontade que a solicitemos; os ministros devem incitar os bons soldados de Jesus Cristo a lutar corajosamente contra o pecado, o mundo e o diabo, assegurando-lhes que Cristo é o capitão da sua salvação e pisará Satanás debaixo dos pés deles.
(4.) Para a solenização das suas festas sagradas, v. 10. Uma das suas festas era chamada “memorial do soprar de trombetas”, Levítico 23:23, etc.
E, ao que parece, deviam assim dar realce à solenidade de todas as suas festas (Salmos 81:3) e dos seus sacrifícios (2 Crônicas 29:27), para dar a entender com que alegria e prazer cumpriam o seu dever para com Deus, e para elevar o ânimo dos que assistiam aos serviços a um santo triunfo no Deus que adoravam.
E então os seus atos eram por memorial diante de Deus; pois ele tem prazer nos nossos exercícios religiosos quando nós temos prazer neles. O trabalho santo deve ser feito com santa alegria.
Versículos 11 a 28
A Mudança do Arraial. (a.C. 1490.)
Aqui está:
I. Um relato geral da mudança do arraial de Israel do monte Sinai, diante do qual monte ele havia estado assentado por cerca de um ano, tempo e lugar em que se fez muita coisa memorável.
Desta mudança, ao que parece, Deus lhes deu aviso algum tempo antes (Deuteronômio 1:6, 7): “Tempo bastante habitastes neste monte; voltai-vos e ponde-vos em jornada para a terra da promessa.”
O apóstolo nos diz que o monte Sinai “gera para a servidão” (Gálatas 4:24), e significa a lei ali dada, que é de fato útil como aio para nos conduzir a Cristo; contudo, não devemos descansar nela, mas avançar rumo às alegrias e liberdades dos filhos de Deus, pois a nossa felicidade nos é conferida não pela lei, mas pela promessa. Observe:
O sinal dado (v. 11): “A nuvem foi levantada”, e podemos supor que ela ficou parada por algum tempo, até que estivessem prontos para marchar; e dava muito trabalho desmontar todas aquelas tendas e empacotar todos os bens que tinham ali; mas, estando cada família ocupada com o que era seu, e todas ao mesmo tempo, muitas mãos faziam depressa o serviço.
A marcha começou: “Puseram-se em jornada segundo o mandamento do Senhor”, e exatamente como a nuvem os guiava, v. 13.
Alguns pensam que se faz menção tão frequente, neste capítulo e no anterior, do mandamento do Senhor, guiando-os e governando-os em todas as suas viagens, para de antemão refutar a calúnia e a afronta lançadas depois sobre Israel: que tinham demorado tanto no deserto porque ali se haviam perdido e não conseguiam achar a saída.
Não: o caso não era esse; em cada etapa, em cada passo, estavam sob direção divina; e, se eles não sabiam onde estavam, contudo quem os guiava sabia.
Repare: os que se entregaram à direção da palavra e do Espírito de Deus seguem um rumo firme, mesmo quando parecem desorientados. Enquanto têm certeza de que não podem perder o seu Deus e guia, não precisam temer perder o caminho.
- O lugar em que repousaram, depois de três dias de marcha: saíram do deserto de Sinai e repousaram no deserto de Parã.
Repare: todas as nossas mudanças neste mundo não passam de um deserto para outro.
As alterações que julgamos que serão para melhor nem sempre se mostram tais; enquanto levarmos conosco, para onde quer que formos, as enfermidades comuns da natureza humana, devemos esperar, para onde quer que formos, encontrar as suas calamidades comuns; jamais teremos repouso, jamais estaremos em casa, até chegarmos ao céu, e ali tudo estará bem.
II. Um esboço pormenorizado da ordem da sua marcha, segundo o modelo recente:
O esquadrão de Judá marchava primeiro, vv. 14-16. O estandarte da vanguarda, agora depositado naquela tribo, era um prenúncio do cetro que, no tempo de Davi, lhe seria confiado, e olhava mais além, para o capitão da nossa salvação, de quem também foi predito que a ele se congregariam os povos.
Depois vinham aquelas duas famílias de levitas que tinham por encargo carregar o tabernáculo. Assim que a nuvem era levantada, o tabernáculo era desmontado e empacotado para a mudança, v. 17. E aqui vinham os seis carros carregados com a parte mais volumosa do tabernáculo.
Esta frequente mudança do tabernáculo em todas as suas jornadas significava a mobilidade daquela dispensação cerimonial. Aquilo que era tantas vezes mudado de lugar acabaria por desaparecer, Hebreus 8:13.
O esquadrão de Rúben marchava em seguida, ocupando lugar depois de Judá, segundo o mandamento do Senhor, vv. 18-20.
Depois seguiam os coatitas com o seu encargo, a mobília sagrada do tabernáculo, no meio do arraial, o lugar mais seguro e mais honroso, v. 21.
E eles (isto é, diz a margem, os gersonitas e os meraritas) “levantaram o tabernáculo para quando eles chegassem”; e talvez se exprima assim em termos gerais porque, se houve necessidade, não só aqueles levitas, mas também os outros israelitas do primeiro esquadrão deram uma mão ao tabernáculo para apressar o seu levantamento, mesmo antes de armarem as suas próprias tendas.
O esquadrão de Efraim seguia logo depois da arca (vv. 22-24), a que alguns pensam que o salmista alude quando ora (Salmos 80:2): “Diante de Efraim, Benjamim e Manassés”, as três tribos que compunham este esquadrão, “desperta a tua força” (e a arca é chamada “a sua força”, Salmos 78:61), “e vem salvar-nos”.
O esquadrão de Dã seguia por último, vv. 25-27. É chamado a retaguarda, ou hoste recolhedora, de todos os arraiais, porque recolhia todos os que ficavam para trás; não as mulheres e as crianças (destas podemos supor que cuidavam os chefes das suas famílias, nas respectivas tribos), mas todos os impuros, a multidão mista e todos os fracos e débeis que ficavam para trás na marcha.
Repare: aquele que conduz José como a um rebanho tem terna consideração pelos que vão mais atrás (Ezequiel 34:16), que não conseguem acompanhar o passo dos demais, e de todos os que lhe são dados ele não perderá nenhum, João 17:11.
Versículos 29 a 36
O Pedido de Moisés a Hobabe. (a.C. 1490.)
Aqui está:
I. Um relato do que se passou entre Moisés e Hobabe, agora neste avanço que o arraial de Israel fez rumo a Canaã.
Alguns pensam que Hobabe era o mesmo que Jetro, sogro de Moisés, e que a história de Êxodo 18 devia entrar aqui.
Parece mais provável que Hobabe fosse filho de Jetro, também chamado Reuel, ou Raguel (Êxodo 2:18), e que, quando o pai, já idoso, foi para a sua terra (Êxodo 18:27), deixou com Moisés o seu filho Hobabe, como Barzilai deixou Quimã com Davi; e a mesma palavra significa tanto sogro quanto cunhado.
Ora, este Hobabe ficou contente com Israel enquanto eles acamparam no monte Sinai, perto do seu próprio país; mas, agora que estavam se mudando, ele queria voltar ao seu próprio país, à sua parentela e à casa de seu pai. Aqui está:
- O convite bondoso que Moisés lhe faz para seguir adiante com eles a Canaã, v. 29.
Ele o atrai com a promessa de que certamente seriam bondosos com ele, e apresenta a palavra de Deus como garantia: “O Senhor falou o bem acerca de Israel”. Como se tivesse dito: “Vem, lança a tua sorte entre nós, e passarás como nós passarmos; e temos a promessa de Deus de que passaremos bem.”
Repare: os que se dirigem à Canaã celeste devem convidar e encorajar todos os seus amigos a ir junto com eles, pois não teremos nem um pouco menos dos tesouros da aliança e das alegrias do céu por outros virem partilhar conosco.
E que argumento pode ser mais poderoso para nos levar a tomar o povo de Deus como nosso povo do que este: que Deus falou o bem acerca deles? É bom ter comunhão com os que têm comunhão com Deus (1 João 1:3), e ir com aqueles com quem Deus está, Zacarias 8:23.
- A inclinação de Hobabe, e a sua resolução do momento, de voltar ao seu próprio país, v. 30.
Teríamos pensado que aquele que tinha visto tanto da especial presença de Deus com Israel, e tais surpreendentes sinais do seu favor para com eles, não teria precisado de muito convite para embarcar com eles.
Mas a sua recusa deve ser atribuída à afeição que tinha pelo ar e pelo solo natais, que não foi vencida, como deveria ter sido, pela confiança na promessa de Deus e pelo apreço às bênçãos da aliança.
Era de fato filho dos lombos de Abraão (pois os midianitas descendiam de Abraão por Quetura), mas não herdeiro da fé de Abraão (Hebreus 11:8), do contrário não teria dado a Moisés esta resposta.
Repare: as coisas deste mundo, que se veem, afastam com força da busca das coisas do outro mundo, que não se veem. A virtude magnética desta terra prevalece, para a maioria das pessoas, sobre os atrativos do próprio céu.
- A grande insistência que Moisés usou com ele para que mudasse a sua resolução, v. 31, 32. Ele insiste:
(1.) Que pudesse servi-los: “Vamos acampar no deserto” (país bem conhecido de Hobabe), “e tu podes ser para nós em lugar de olhos, não para nos mostrar onde devemos acampar, nem por que caminho devemos marchar” (o que a nuvem devia dirigir).
“mas para nos mostrar as conveniências e as inconveniências do lugar por onde marchamos e em que acampamos, para que façamos o melhor uso que pudermos das conveniências, e a melhor defesa que pudermos contra as inconveniências.”
Repare: combina muito bem com a nossa confiança na providência de Deus valer-nos da ajuda dos nossos amigos naquilo em que podem nos servir. Até os que eram conduzidos por milagre não devem menosprezar os meios ordinários de direção.
Alguns pensam que Moisés sugere isto a Hobabe não porque esperasse muito proveito das informações dele, mas para agradá-lo com a ideia de ser de algum modo útil a um corpo tão grande, e assim atraí-lo a ir com eles, inspirando-lhe a ambição de alcançar essa honra.
Calvino dá um sentido inteiramente outro a este lugar, muito de acordo com o original, o qual, contudo, não vejo que ninguém, desde então, tenha reparado nele.
“Não nos deixes, rogo-te, mas vem conosco, para partilhares conosco a terra prometida, pois por isso conheceste o nosso acampamento no deserto e foste para nós em lugar de olhos; e não podemos compensar-te por partilhares conosco as nossas dificuldades e por nos prestares tantos bons ofícios, a não ser que vás conosco a Canaã.”
“Certamente foi por esta razão que partiste conosco, para que fosses adiante conosco.”
Repare: os que começaram bem devem usar isso como razão para perseverarem, porque, do contrário, perdem o benefício e a recompensa de tudo o que fizeram e sofreram.
(2.) Que seriam bondosos com ele: “A bondade que o Senhor nos fizer, essa mesma faremos a ti”, v. 32. Repare:
[1.] Só podemos dar o que recebemos. Não podemos prestar aos nossos amigos mais serviço e bondade do que Deus tem por bem pôr ao alcance da nossa mão. Isto é tudo o que ousamos prometer: fazer o bem conforme Deus nos capacitar.
[2.] Os que partilham com o Israel de Deus nos seus labores e dificuldades partilharão com eles nas suas consolações e honras. Os que estão dispostos a tomar a sua sorte com eles no deserto terão a sua sorte com eles em Canaã; se sofrermos com eles, reinaremos com eles, 2 Timóteo 2:12; Lucas 22:28, 29.
Não encontramos nenhuma resposta que Hobabe tenha dado aqui a Moisés e, por isso, esperamos que o seu silêncio tenha significado consentimento, e que ele não os tenha deixado, mas que, ao perceber que podia ser útil, tenha preferido isso a satisfazer a sua própria inclinação; neste caso nos deixou um bom exemplo.
E encontramos (Juízes 1:16; 1 Samuel 15:6) que a sua família nada perdeu com isso.
II. Um relato da comunhão entre Deus e Israel nesta mudança.
Deixaram o monte do Senhor (v. 33), aquele monte Sinai onde tinham visto a glória dele e ouvido a sua voz, e tinham sido levados à aliança com ele (não deviam esperar que as aparições de Deus que ali tinham tido a bênção de receber fossem constantes).
Partiram daquele monte celebrado, do qual nunca mais lemos na Escritura, a não ser com referência a essas histórias passadas. Agora, adeus, Sinai; Sião é o monte do qual Deus disse: “Este é o meu repouso para sempre” (Salmos 132:14), e é o que devemos dizer dele.
Mas, ao deixarem o monte do Senhor, levaram consigo a arca da aliança do Senhor, pela qual a sua comunhão regular com Deus devia ser mantida. Pois:
- Por ela Deus dirigia as suas veredas. A arca da aliança ia adiante deles, alguns pensam que em posição, ao menos nesta mudança; outros pensam que apenas em influência; embora fosse carregada no meio do arraial, a nuvem que pairava sobre ela dirigia todos os seus movimentos.
Diz-se que a arca (isto é, o Deus da arca) buscava para eles um lugar de repouso; não que a infinita sabedoria e o conhecimento de Deus precisem fazer buscas, mas cada lugar para onde eram dirigidos era tão conveniente para eles como se o homem mais sábio que tinham entre si tivesse sido encarregado de ir adiante deles e demarcar o seu arraial da melhor maneira.
Assim se diz que Canaã é uma terra que Deus espiou, Ezequiel 20:6.
- Por ela reconheciam a Deus em todos os seus caminhos, olhando para ela como sinal da presença de Deus; quando ela se movia, ou repousava, tinham os olhos voltados para Deus.
Moisés, como boca da congregação, levantou uma oração, tanto no que diz respeito à mudança quanto ao repouso da arca; assim o seu sair e o seu entrar eram santificados pela oração, e é um exemplo para nós começar e terminar cada jornada do dia, e cada trabalho do dia, com oração.
(1.) Aqui está a sua oração quando a arca partia: “Levanta-te, Senhor, e sejam dispersos os teus inimigos”, v. 35.
Estavam agora num país desolado, mas marchavam rumo ao país de um inimigo, e a sua dependência era de Deus para o sucesso e a vitória nas suas guerras, assim como para a direção e o suprimento no deserto. Davi usou esta oração muito tempo depois (Salmos 68:1), pois também ele lutou as batalhas do Senhor. Repare:
[1.] Há no mundo os que são inimigos de Deus e o odeiam: inimigos secretos e declarados; inimigos das suas verdades, das suas leis, das suas ordenanças, do seu povo.
[2.] A dispersão e a derrota dos inimigos de Deus é coisa a ser ardentemente desejada, e esperada com fé, por todo o povo do Senhor. Esta oração é uma profecia. Os que persistem em rebelião contra Deus se apressam rumo à sua própria ruína.
[3.] Para dispersar e derrotar os inimigos de Deus, não é preciso senão que Deus se levante. Quando “Deus se levantou para o juízo”, a obra logo estava feita, Salmos 76:8, 9. “Levanta-te, Senhor, como o sol se levanta para dispersar as sombras da noite.” A ressurreição de Cristo dentre os mortos dispersou os seus inimigos, Salmos 68:18.
(2.) A sua oração quando a arca repousava, v. 36:
[1.] Que Deus fizesse o seu povo repousar. Assim alguns o leem: “Faze voltar, Senhor, os muitos milhares de Israel; faze-os voltar ao seu repouso, de novo, depois desta fadiga.” Assim se diz (Isaías 63:14): “O Espírito do Senhor o fez repousar.” Assim ele ora para que Deus dê a Israel sucesso e vitória no exterior, e paz e tranquilidade em casa.
[2.] Que o próprio Deus tomasse o seu repouso entre eles. Assim o lemos: “Volta aos milhares de Israel”, os dez mil milhares, como a palavra diz. Repare:
Primeiro, a igreja de Deus é um grande corpo; há muitos milhares que pertencem ao Israel de Deus.
Segundo, devemos, nas nossas orações, interessar-nos por este corpo.
Terceiro, o bem-estar e a felicidade do Israel de Deus consistem na presença contínua de Deus entre eles.
A segurança deles não consiste no seu número, embora sejam milhares, muitos milhares, mas no favor de Deus, e no seu gracioso retorno a eles e residência com eles. Estes milhares são zeros; ele é o algarismo: e por isso, “Feliz és tu, ó Israel! Quem é semelhante a ti, ó povo!”