Matthew Henry

Números 34

Argumento

Neste capítulo Deus orienta Moisés, e ele deve orientar Israel:

I. A respeito dos limites e das divisas da terra de Canaã, vv. 1-15.

II. A respeito da divisão e distribuição dela às tribos de Israel, v. 16, etc.

Versículos 1 a 15

As Fronteiras de Canaã. (a.C. 1452.)

Temos aqui um traçado particular da linha pela qual a terra de Canaã era medida e delimitada por todos os lados. Deus orienta Moisés a estabelecê-lo aqui, não como um geógrafo no seu mapa, meramente para agradar aos curiosos, mas como um príncipe na sua concessão, para que se saiba com certeza o que é concedido e transferido por ela.

Havia uma possessão muito maior prometida a eles, que a seu tempo teriam possuído se tivessem sido obedientes, chegando até o rio Eufrates, Deuteronômio 11:24. E até tão longe se estendeu o domínio de Israel no tempo de Davi e no de Salomão, 2 Crônicas 9:26.

Mas o que aqui é descrito é somente Canaã, que era a sorte das nove tribos e meia, pois as outras duas e meia já estavam estabelecidas, v. 14, 15.

Ora, quanto aos confins de Canaã, observe:

I. Que ela era confinada dentro de certos limites: porque Deus determina os limites da nossa habitação, Atos 17:26. As divisas lhes são fixadas:

  1. Que soubessem quem deviam desapossar, e até onde se estendia a comissão que lhes foi dada (Números 33:53), de que expulsassem os habitantes.

Os que ficavam dentro destas divisas, e somente esses, deviam destruir; até aqui devia ir a sua espada sangrenta, e não além.

  1. Que soubessem o que esperar possuir eles mesmos. Deus não queria que o seu povo ampliasse o seu desejo de possessões mundanas, mas que soubessem quando têm o bastante e repousassem satisfeitos com isso.

Os próprios israelitas não deviam ser postos sozinhos no meio da terra, mas deviam deixar espaço para que os seus vizinhos vivessem ao lado deles. Deus põe limites à nossa sorte; ponhamos então limites aos nossos desejos, e tragamos a nossa mente à nossa condição.

II. Que ela ocupava, comparativamente, uma extensão muito pequena: tal como aqui é delimitada, considera-se que tenha apenas cerca de 160 milhas de comprimento e cerca de cinquenta de largura; talvez não contivesse mais do que metade do solo da Inglaterra, e contudo este é o país que foi prometido ao pai dos fiéis e foi a possessão da semente de Israel.

Este era aquele pequeno pedaço de chão no qual somente, por muitas eras, Deus era conhecido, e o seu nome era grande, Salmos 76:1.

Esta era a vinha do Senhor, o jardim fechado; mas, como acontece com jardins e vinhas, a estreiteza da extensão era abundantemente compensada pela extraordinária fertilidade do solo, do contrário não poderia ter feito subsistir uma nação tão numerosa quanto a que a habitava. Veja aqui, então:

  1. Quão pequena parte do mundo Deus tem para si mesmo.

Embora a terra seja dele, e a sua plenitude, contudo poucos têm o conhecimento dele e o servem; mas esses poucos são felizes, muito felizes, porque frutíferos para Deus.

  1. Quão pequeno quinhão do mundo Deus muitas vezes dá ao seu próprio povo.

Os que têm a sua porção no céu têm razão para se contentar com uma pequena parcela desta terra; mas, como aqui, o que falta em quantidade é suprido em qualidade; o pouco que um justo tem, tendo-o do amor de Deus e com a bênção dele, é muito melhor e mais consolador do que as riquezas de muitos ímpios, Salmos 37:16.

III. É de se observar quais eram os limites e confins dela:

  1. Canaã era em si mesma uma terra aprazível (assim é chamada em Daniel 8:9), e contudo fazia divisa com deserto e com mares, e era cercada de diversas vistas melancólicas.

Assim a vinha da igreja é rodeada por todos os lados pelo ermo deste mundo, que lhe serve de contraste, para fazê-la parecer ainda mais bela de situação.

  1. Muitas das suas divisas eram as suas defesas e fortificações naturais, para tornar mais difícil o acesso dos inimigos, e para dar a entender a Israel que o Deus da natureza era o seu protetor e com o seu favor os rodearia como com um escudo.

  2. A divisa chegava ao rio do Egito (v. 5), para que a vista daquele país, para o qual podiam olhar do seu próprio país, os lembrasse da sua servidão ali e do seu maravilhoso livramento dali.

  3. A sua divisa é aqui feita para começar no Mar Salgado (v. 3), e ali ela termina, v. 12. Este era o remanescente e duradouro monumento da destruição de Sodoma e Gomorra.

Aquele vale aprazível e frutífero em que estas cidades ficavam tornou-se um lago, que nunca era agitado por vento algum, não carregava embarcações, não era abastecido de peixe algum, não se achando nele nenhuma criatura viva de espécie alguma, e por isso chamado o Mar Morto.

Isto fazia parte da divisa deles, para que fosse um aviso constante para eles de tomarem cuidado com aqueles pecados que tinham sido a ruína de Sodoma.

Contudo a iniquidade de Sodoma foi depois achada em Israel (Ezequiel 16:49), por causa da qual Canaã foi feita, embora não um mar salgado como Sodoma, ainda assim um solo estéril, e continua assim até hoje.

  1. A sua divisa ocidental era o Grande Mar (v. 6), que agora se chama o Mediterrâneo.

Alguns consideram que este mar mesmo fazia parte da possessão deles, e que, por força desta concessão, tinham o domínio dele, e, se não o tivessem perdido pelo pecado, poderiam ter navegado como senhores dele.

Versículos 16 a 29

Deus aqui designa comissários para a divisão da terra a eles. A conquista dela é dada como certa, embora até então nunca se tivesse desferido um golpe em direção a ela.

Aqui não há nomeação dos generais e comandantes em chefe que levariam adiante a guerra; pois deviam obter a terra em posse, não pela sua própria espada ou arco, mas pelo poder e favor de Deus.

E tão confiantes deviam estar da vitória e do sucesso enquanto Deus lutava por eles que agora se deviam nomear as pessoas a quem seria confiada a divisão da terra, isto é, que presidiriam o lançamento das sortes, decidiriam as controvérsias que pudessem surgir e cuidariam de que tudo fosse feito com equidade.

  1. Os comissários principais, que compunham o quórum, foram Eleazar e Josué (v. 17), tipificando Cristo, que, como sacerdote e rei, divide a Canaã celestial ao Israel espiritual; contudo, assim como eles deviam proceder pela sorte, Cristo reconhece que a distribuição depende da vontade do Pai, Mateus 20:23. Compare Efésios 1:11.

  2. Além destes, para que não houvesse suspeita de parcialidade, foi designado um príncipe de cada tribo para inspecionar esta questão, e para cuidar de que a tribo por que ele servia não fosse lesada em nenhum aspecto.

Os assuntos públicos deviam ser administrados de modo a não só dar a todos o seu direito, mas, se possível, dar satisfação a todos de que se lhes faz justiça.

É uma felicidade para uma terra ter os príncipes do seu povo reunidos, alguns de cada tribo, para concertar os assuntos que são de interesse comum, uma constituição que é a abundante honra, o sossego e a segurança da nação que é abençoada com ela.

  1. Alguns observam que a ordem das tribos aqui difere muito daquela em que até aqui, em todas as ocasiões, elas foram nomeadas, e concorda com a vizinhança das suas sortes na divisão da terra.

Judá, Simeão e Benjamim, os três primeiros aqui nomeados, ficavam bem juntos; a herança de Dã ficava ao lado deles de um lado, a de Efraim e Manassés de outro lado; Zebulom e Issacar ficavam lado a lado mais ao norte, e, por último, Aser e Naftali no ponto mais ao norte de todos, como é fácil observar ao examinar um mapa de Canaã.

Isto (diz o bispo Patrick) é uma evidência de que Moisés era guiado por um Espírito divino nos seus escritos. Conhecidas de Deus são todas as suas obras de antemão, e o que é novo e surpreendente para nós ele previu perfeitamente, sem confusão nem incerteza.


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