Números 33
Argumento
Neste capítulo temos:
I. Um relato particular dos deslocamentos e acampamentos dos filhos de Israel, desde a sua fuga do Egito até a sua entrada em Canaã, quarenta e dois ao todo, com alguns acontecimentos notáveis que ocorreram em alguns desses lugares, vv. 1-49.
II. Uma ordem rigorosa que lhes foi dada de expulsar todos os habitantes da terra de Canaã, que estavam agora para conquistar e de que tomar posse, vv. 50-56.
De modo que a primeira parte do capítulo olha para trás, para a marcha deles pelo deserto, e a última olha para a frente, para o seu estabelecimento em Canaã.
Versículos 1 a 49
Acampamentos dos Israelitas. (a.C. 1452.)
Esta é uma revisão e breve recapitulação das viagens dos filhos de Israel pelo deserto. Era uma história memorável e bem digna de ser assim abreviada, e a abreviação assim preservada, para a honra de Deus, que os levou, e para o ânimo das gerações que se seguiram. Observe aqui:
I. Como o relato foi mantido: Moisés escreveu as suas saídas, v. 2. Quando começaram esta marcha tediosa, Deus lhe ordenou que mantivesse um registro de viagem ou diário, e que nele inserisse todas as ocorrências notáveis do seu caminho, para que fosse uma satisfação para ele mesmo na revisão e uma instrução para outros quando fosse publicado.
Pode ser de bom uso para os cristãos particulares, mas especialmente para os que ocupam postos públicos, preservar por escrito um relato das providências de Deus a respeito deles, a série constante de misericórdias que experimentaram, especialmente aquelas viradas e alterações que tornaram alguns dias da sua vida mais notáveis.
As nossas memórias são enganosas e precisam desta ajuda, para que nos lembremos de todo o caminho pelo qual o Senhor nosso Deus nos tem levado neste deserto, Deuteronômio 8:2.
II. O que era o próprio relato. Começava com a partida deles do Egito, continuava com a marcha pelo deserto e terminava nas planícies de Moabe, onde eles agora estavam acampados.
- Algumas coisas são observadas aqui a respeito da sua partida do Egito, da qual são lembrados em todas as ocasiões, como obra de maravilha que nunca deve ser esquecida.
(1.) Que saíram com os seus exércitos (v. 1), em fileiras ordenadas, como um exército com bandeiras.
(2.) Sob a mão de Moisés e de Arão, seus guias, supervisores e governantes, sob Deus.
(3.) Com mão alta, porque a mão de Deus era alta, ela que operou em favor deles, e à vista de todos os egípcios, v. 3.
Não se esgueiraram clandestinamente (Isaías 52:12), mas em desafio aos seus inimigos, para os quais Deus os tinha feito uma pedra tão pesada que nem podiam, nem queriam, nem ousavam opor-se a eles.
(4.) Saíram enquanto os egípcios estavam sepultando, ou pelo menos se preparando para sepultar, os seus primogênitos, v. 4.
Tinham vontade boa o bastante, ou melhor, má o bastante, para terem continuado a deter os israelitas, seus prisioneiros, mas Deus lhes achou outra obra para fazer. Queriam que o primogênito de Deus fosse sepultado vivo, mas Deus os pôs a sepultar os seus próprios primogênitos.
(5.) A todas as pragas do Egito acrescenta-se aqui que sobre os deuses deles também o Senhor executou juízos.
Os ídolos deles que adoravam, é provável, foram quebrados, como Dagom depois diante da arca, de modo que não puderam consultá-los a respeito deste grande assunto. A isto talvez se refira Isaías 19:1: “Os ídolos do Egito serão abalados à sua presença.”
- Quanto às suas viagens rumo a Canaã. Observe:
(1.) Eles estavam incessantemente em deslocamento. Quando tinham acampado por pouco tempo num lugar, partiam dele para outro. Tal é o nosso estado neste mundo; não temos aqui cidade permanente.
(2.) A maior parte do seu caminho passava por um deserto, inabitado, sem trilhas, desprovido até das coisas necessárias à vida humana.
O que engrandece a sabedoria e o poder de Deus, por cuja maravilhosa condução e generosidade os milhares de Israel não só subsistiram por quarenta anos naquele lugar desolado, mas saíram pelo menos tão numerosos e vigorosos como quando entraram.
No começo acamparam à beira do deserto (v. 6), mas depois no coração dele; por dificuldades menores Deus prepara o seu povo para as maiores. Nós os achamos no deserto de Etã (v. 8), no de Sim (v. 11), no de Sinai, v. 15. Os nossos deslocamentos neste mundo não passam de um deserto para outro.
(3.) Eram levados para lá e para cá, para a frente e para trás, como num dédalo ou labirinto, e contudo estiveram o tempo todo sob a direção da coluna de nuvem e de fogo.
Ele os levou ao redor (Deuteronômio 32:10), e contudo os levou pelo caminho certo, Salmos 107:7. O caminho que Deus toma para trazer o seu povo a si mesmo é sempre o melhor caminho, embora nem sempre nos pareça o mais próximo.
(4.) Alguns acontecimentos são mencionados neste registro de viagem, como a sua falta de água em Refidim (v. 14), a morte de Arão (v. 38, 39), a afronta de Arade (v. 40); e o próprio nome de Quibrote-Hataavá, as sepulturas das concupiscências (v. 16), tem uma história que depende dele.
Assim devemos ter em mente as providências de Deus a nosso respeito e a respeito das nossas famílias, a nosso respeito e da nossa terra, e os muitos exemplos daquele cuidado divino que nos levou, e nos alimentou, e nos guardou, todos os nossos dias até aqui.
Sitim, o lugar onde o povo pecou no caso de Peor (Números 25:1), é aqui chamado Abel-Sitim. Abel significa luto (como em Gênesis 50:11), e provavelmente este lugar foi assim chamado do luto do bom povo de Israel por causa daquele pecado e da cólera de Deus contra eles por causa dele.
Foi um luto tão grande que deu nome ao lugar.
Versículos 50 a 56
Os Cananeus Condenados. (a.C. 1452.)
Enquanto os filhos de Israel estavam no deserto, a sua total separação de todos os outros povos os mantinha fora do caminho da tentação à idolatria.
E talvez esta fosse uma das coisas tencionadas por seu longo confinamento no deserto: que assim os ídolos do Egito fossem esquecidos, e o povo arejado (por assim dizer) e purificado daquela infecção, e a geração que entrou em Canaã fosse tal que nunca conheceu aquelas profundezas de Satanás.
Mas agora que iam passar o Jordão, entravam de novo naquela tentação, e por isso:
- Eles são aqui rigorosamente encarregados de destruir por completo todos os restos de idolatria.
Não devem apenas expulsar os habitantes da terra, para que possuam o país deles, mas devem desfigurar todas as suas pinturas e imagens idólatras e derrubar todos os seus lugares altos, v. 52.
Não devem preservar nenhuma delas, não, nem mesmo como monumentos de antiguidade para satisfazer os curiosos, nem como ornamentos das suas casas, nem como brinquedos para os seus filhos brincarem.
Mas devem destruir tudo, tanto em sinal da sua aversão e detestação da idolatria quanto para evitar que sejam tentados a adorar aquelas imagens, e os falsos deuses representados por elas, ou a adorar o Deus de Israel por tais imagens ou representações.
- Foi-lhes assegurado que, se assim fizessem, Deus aos poucos lhes daria plena posse da terra da promessa, v. 53, 54.
Se se mantivessem puros dos ídolos de Canaã, Deus os enriqueceria com a riqueza de Canaã. Não aprendam o caminho deles, e então não temam o poder deles.
- Foram ameaçados de que, se poupassem ou os ídolos ou os idólatras, seriam surrados com a sua própria vara e o seu pecado seria certamente o seu castigo.
(1.) Estariam criando cobras nos seus próprios seios, v. 55.
O remanescente dos cananeus, se eles fizessem qualquer pacto com eles, ainda que fosse apenas uma cessação de armas, seriam aguilhões nos seus olhos e espinhos nos seus lados, isto é, seriam em todas as ocasiões vexatórios para eles, insultando-os, roubando-os e, até o limite do seu poder, causando dano no meio deles.
Devemos esperar transtorno e aflição daquilo, seja o que for, que toleramos de modo pecaminoso; aquilo que estamos dispostos a admitir que nos tente descobriremos que nos vexará.
(2.) O justo Deus faria girar sobre os israelitas aquela roda que devia ter esmagado os cananeus: “Farei a vós como pensei fazer a eles”, v. 56.
Era tencionado que os cananeus fossem desapossados; mas, se os israelitas se associassem a eles e aprendessem o seu caminho, seriam eles desapossados, pois o desagrado de Deus seria justamente maior contra eles do que contra os próprios cananeus.
Ouçamos isto, e temamos. Se não expulsarmos o pecado, o pecado nos expulsará; se não formos a morte das nossas concupiscências, as nossas concupiscências serão a morte das nossas almas.