Números 3
Argumento
Este capítulo e o seguinte tratam da tribo de Levi, que devia ser passada em revista e posta em ordem à parte, e não em comum com as outras tribos, o que indica a honra particular conferida a eles e o dever e o serviço particulares exigidos deles. Os levitas são considerados neste capítulo:
I. Como servidores e assistentes dos sacerdotes no serviço do templo. E assim temos um relato:
Dos próprios sacerdotes (vv. 1-4) e do trabalho deles, v. 10.
Da doação dos levitas a eles (vv. 5-9), para a qual são passados em revista (vv. 14-16) e se faz a soma deles, v. 39. Cada família particular deles é passada em revista, tem o seu lugar designado e o seu encargo: os gersonitas (vv. 17-26), os coatitas (vv. 27-32), os meraritas, vv. 33-39.
II. Como equivalentes dos primogênitos, vv. 11-13:
Os primogênitos são recenseados, e os levitas são tomados em lugar deles, até onde chegava o número dos levitas, vv. 40-45.
Os primogênitos que havia além do número dos levitas foram resgatados, v. 46, etc.
Versículos 1 a 13
A Separação dos Levitas. (a.C. 1490.)
Aqui, I. A família de Arão é confirmada no ofício sacerdotal, v. 10. Eles já tinham sido chamados a ele antes, e consagrados; aqui são designados para se dedicarem ao seu ofício sacerdotal. O apóstolo usa esta expressão (Romanos 12:7): dediquemo-nos ao nosso ministério.
O ofício do ministério exige atenção constante e grande diligência; tão frequentes são as tarefas que retornam, e contudo tão passageiras as suas ocasiões favoráveis, que é preciso dedicar-se a ele.
Aqui se repete o que foi dito antes (Números 1:51): “O estranho que se chegar será morto”, o que proíbe a invasão do ofício do sacerdote por qualquer outra pessoa, seja quem for. Ninguém deve chegar-se para ministrar senão Arão e os seus filhos somente; todos os outros são estranhos.
Isso também impõe aos sacerdotes, como porteiros da casa de Deus, o encargo de impedir a aproximação de quem a lei proibia. Deviam afastar todos os intrusos, cuja aproximação profanaria as coisas santas, advertindo-os de que, se se aproximassem, o fariam por sua conta e risco: morreriam pela mão de Deus, como Uzá morreu.
Os judeus dizem que depois foi pendurada sobre a porta do templo uma espada de ouro (talvez aludindo àquela espada flamejante à entrada do jardim do Éden), na qual estava gravado: “O estranho que se chegar será morto”.
II. Um relato particular é dado desta família de Arão; o que já encontramos antes a respeito deles se repete aqui:
A consagração dos filhos de Arão, v. 3. Todos eles foram ungidos para ministrar diante do Senhor, embora depois se tenha visto, e Deus o sabia, que dois deles eram sábios e dois eram insensatos.
A queda dos dois mais velhos (v. 4): ofereceram fogo estranho e morreram por fazer isso, diante do Senhor. Isso é mencionado aqui, no preâmbulo da lei a respeito do sacerdócio, como advertência a todos os sacerdotes que viessem depois.
Que eles saibam, por este exemplo, que Deus é um Deus zeloso e não se deixa zombar; o santo óleo da unção era honra para os obedientes, mas não abrigo para os desobedientes.
Diz-se aqui: “Não tiveram filhos”, ordenando-o assim a Providência, para maior castigo deles, que nenhum dos seus descendentes restasse para ser sacerdote e assim sustentar o nome daqueles que tinham profanado o nome de Deus.
- A permanência dos dois mais novos: “Eleazar e Itamar ministraram à vista de Arão”. Isso indica:
(1.) O cuidado que tinham na sua ministração para não cometer nenhum desacerto. Mantinham-se debaixo dos olhos do pai e recebiam instrução dele em tudo o que faziam, porque, provavelmente, Nadabe e Abiú tinham saído da vista do pai quando ofereceram fogo estranho.
Repare: é bom que os jovens ajam sob a direção e a inspeção dos que são idosos e experientes.
(2.) O conforto que Arão tinha nisso. Agradava-lhe ver os filhos mais novos se portarem com prudência e gravidade, quando os dois mais velhos tinham se desviado. Repare: é grande satisfação para os pais ver os filhos “andarem na verdade”, 3 João 4.
III. É feita a doação dos levitas para serem assistentes dos sacerdotes no seu trabalho: “Dá os levitas a Arão”, v. 9. Arão devia ter maior propriedade sobre a tribo de Levi, e maior poder sobre ela, do que qualquer outro dos príncipes tinha sobre as suas respectivas tribos.
Havia muito trabalho pertencente ao ofício dos sacerdotes, e havia agora só três pares de mãos para fazê-lo todo, os de Arão e os dos seus dois filhos. Porque não parece que algum deles tivesse filhos nesse tempo, ao menos nenhum em idade de ministrar; por isso Deus designa os levitas para assisti-los.
Repare: àqueles para quem Deus acha trabalho, ele achará ajuda. Aqui está:
- O serviço para o qual os levitas foram destinados. Deviam ministrar aos sacerdotes na ministração deles ao Senhor (v. 6) e guardar o encargo de Arão (v. 7), como os diáconos para com os bispos na constituição evangélica, servindo às mesas, enquanto os bispos se dedicavam ao seu ministério.
Os levitas matavam os sacrifícios, e então os sacerdotes só precisavam aspergir o sangue e queimar a gordura; os levitas preparavam o incenso, e os sacerdotes o queimavam. Deviam guardar não só o encargo de Arão, mas o encargo de toda a congregação.
Repare: é grande a confiança depositada nos ministros, não só para a glória de Cristo, mas para o bem da sua igreja. Por isso não só devem guardar o encargo do grande sumo sacerdote, mas também devem ser fiéis às almas dos homens, em favor de quem uma dispensação lhes foi confiada.
- O título pelo qual os levitas foram exigidos: foram tomados em lugar dos primogênitos.
A preservação dos primogênitos de Israel, quando todos os primogênitos dos egípcios (com os quais muitos deles estavam misturados) foram destruídos, foi considerada, por aquele que nunca faz exigência nenhuma irrazoável, causa suficiente para apropriar-se dali em diante de todos os primogênitos (v. 13): “Todos os primogênitos são meus”.
Isso era suficiente para fazê-los dele, ainda que ele não tivesse dado razão nenhuma, porque ele é a única fonte e o Senhor de todos os seres e poderes.
Mas, porque toda obediência deve brotar do amor, e os atos de dever devem ser atos de gratidão, antes de serem reclamados para serviços particulares eles foram coroados com favores particulares.
Repare: quando aquele que nos fez nos salva, ficamos com isso sob mais obrigações de servi-lo e de viver para ele. O direito de Deus sobre nós pela redenção corrobora o direito que ele tem sobre nós pela criação.
Ora, porque os primogênitos de uma família costumam ser os favoritos, e alguns achariam uma desonra ter os filhos mais velhos como servos dos sacerdotes, servindo diante da porta do tabernáculo, Deus tomou a tribo de Levi inteira para si, em lugar dos primogênitos, v. 12.
Repare: as instituições de Deus não impõem dureza aos homens em nenhum dos seus interesses justos nem das suas afeições razoáveis.
Presumia-se que os israelitas prefeririam abrir mão dos levitas a abrir mão dos primogênitos, e por isso Deus, na sua graça, ordenou a troca; contudo, por nós, ele não poupou o seu próprio Filho.
Versículos 14 a 39
Tendo os levitas sido dados a Arão para o servirem, aqui eles lhe são entregues após serem contados, para que ele saiba quantos tem e os empregue de acordo. Observe:
I. Por que regra eles foram recenseados: “todo varão de um mês de idade para cima”, v. 15.
As demais tribos foram recenseadas só dos vinte anos para cima, e delas apenas os que estavam aptos para sair à guerra; mas no número dos levitas deviam incluir tanto as crianças quanto os enfermos. Estando isentos da guerra, não se fazia questão de que tivessem idade e força para as guerras.
Embora depois se veja que pouco mais de um terço dos levitas podia servir no tabernáculo (cerca de 8.000 de 22.000, Números 4:47, 48), ainda assim Deus quis contar todos como servidores da sua casa, para que ninguém se julgue repudiado e rejeitado por Deus por não poder prestar-lhe o serviço que vê outros prestarem.
Os levitas de um mês de idade não podiam honrar a Deus e servir ao tabernáculo como os que já tinham crescido; contudo, da boca dos pequeninos e dos que mamam o louvor dos levitas foi aperfeiçoado.
Que as criancinhas não sejam impedidas de ser arroladas entre os discípulos de Cristo, pois a tribo de Levi também as incluía; dos tais é o reino dos céus, aquele reino de sacerdotes. O resgate dos primogênitos era contado a partir de um mês de idade (Números 18:15, 16); por isso, a partir dessa idade os levitas foram recenseados.
Foram recenseados segundo a casa de seus pais, não de suas mães; pois, se a filha de um levita se casava com alguém de outra tribo, o filho dela não era levita. Mas lemos de um sacerdote espiritual para o nosso Deus que herdou “a fé não fingida” que habitou em sua mãe e em sua avó, 2 Timóteo 1:5.
II. Como eles foram distribuídos em três classes, segundo o número dos filhos de Levi, Gérson, Coate e Merari, e estas subdivididas em diversas famílias, vv. 17-20.
- Acerca de cada uma dessas três classes temos um relato:
(1.) Do seu número. Os gersonitas eram 7.500. Os coatitas eram 8.600. Os meraritas eram 6.200. As demais tribos não tiveram as suas famílias subordinadas recenseadas à parte, como as de Levi; essa honra Deus conferiu à sua própria tribo.
(2.) Do seu posto ao redor do tabernáculo, ao qual deviam dedicar-se. Os gersonitas armavam as tendas atrás do tabernáculo, a oeste, v. 23. Os coatitas, à direita, ao sul, v. 29. Os meraritas, à esquerda, ao norte, v. 35. E, para completar o quadrado, Moisés e Arão, com os sacerdotes, acampavam na frente, a leste, v. 38.
Assim o tabernáculo estava cercado das suas guardas; e assim “o anjo do Senhor acampa ao redor dos que o temem”, esses templos vivos, Salmos 34:7. Cada um conhecia o seu lugar, e nele devia permanecer com Deus.
(3.) Do seu chefe, ou cabeça. Assim como cada classe tinha o seu próprio lugar, assim cada uma tinha o seu próprio príncipe. O comandante dos gersonitas era Eliasafe (v. 24); o dos coatitas, Elisafã (v. 30), de quem lemos (Levítico 10:4) que foi um dos que carregaram o corpo no funeral de Nadabe e Abiú; o dos meraritas, Zuriel, v. 35.
(4.) Do seu encargo, quando o arraial se movia. Cada classe conhecia o seu próprio ofício; era necessário que conhecesse, pois aquilo que é trabalho de todos muitas vezes vem a ser trabalho de ninguém.
Os gersonitas ficaram encarregados da guarda e do transporte de todas as cortinas, e reposteiros, e cobertas do tabernáculo e do átrio (v. 25, 26); os coatitas, de toda a mobília do tabernáculo: a arca, o altar, a mesa, etc. (v. 31, 32); os meraritas, da carga pesada, tábuas, barras, colunas, etc., v. 36, 37.
- Aqui podemos observar:
(1.) Que os coatitas, embora fossem a segunda casa, ainda assim foram preferidos à família mais velha dos gersonitas. Além de Arão e os sacerdotes serem dessa família, eles eram mais numerosos, e o seu posto e o seu encargo, mais honrosos, o que provavelmente foi ordenado para conferir honra a Moisés, que era dessa família.
(2.) Contudo, a posteridade de Moisés não foi em nada dignificada nem privilegiada, mas ficou no mesmo nível dos outros levitas, para que se mostrasse que ele não buscava a elevação da sua própria família, nem vincular a ela honra alguma, quer na igreja, quer no Estado.
Aquele que tinha, ele mesmo, honra bastante não cobiçava que o seu nome brilhasse por aquela luz emprestada, mas antes que os levitas tomassem honra emprestada do nome dele.
Que ninguém pense com desprezo dos levitas, embora inferiores aos sacerdotes, pois o próprio Moisés julgou que o cargo de levita já era bastante para os seus filhos. Provavelmente foi porque a família de Moisés era apenas de levitas que, no título deste capítulo, que trata dessa tribo (v. 1), Arão é posto antes de Moisés.
III. A soma total dos números desta tribo. São contados ao todo 22.000, v. 39.
A soma das famílias particulares chega a 300 a mais; se isso tivesse sido acrescentado à soma total, os levitas, em vez de serem 273 menos que os primogênitos, como eram (v. 43), teriam sido vinte e sete a mais, e assim a balança teria pendido para o outro lado.
Mas supõe-se que aqueles 300 que foram cortados da conta quando a troca devia ser feita eram os primogênitos dos próprios levitas, nascidos depois da sua saída do Egito, que não podiam entrar na troca, porque já estavam santificados a Deus.
Mas o que é especialmente digno de observação aqui é que a tribo de Levi era de longe a menor de todas as tribos. Repare: a parte de Deus no mundo é, com demasiada frequência, a menor parte. Os seus escolhidos são, comparativamente, um pequeno rebanho.
Versículos 40 a 51
Aqui está a troca que se fez dos levitas pelos primogênitos:
- Os primogênitos foram recenseados de um mês de idade para cima, v. 42, 43. Certamente não foram levados em conta os que, embora primogênitos, já se tinham tornado eles mesmos cabeças de família, mas apenas os que eram menores de idade.
E o douto bispo Patrick é decididamente de opinião que não foram recenseados senão apenas os que tinham nascido depois da saída do Egito, quando os primogênitos foram santificados, Êxodo 13:2.
Se havia 22.000 primogênitos do sexo masculino, podemos supor outras tantas do sexo feminino; e, tendo todos esses nascido no primeiro ano depois que saíram do Egito, devemos inferir daí que, no último ano da servidão deles, mesmo quando ela estava no seu maior extremo, houve abundância de casamentos entre os israelitas.
Eles não se deixaram desanimar pela angústia presente, mas se casaram com fé, esperando que Deus em breve os visitasse com misericórdia e que os seus filhos, embora nascidos na escravidão, vivessem em liberdade e honra.
E foi para eles um sinal de bem, uma prova de que eram benditos do Senhor, o fato de não só terem sido conservados vivos, mas também grandemente aumentados, num deserto estéril.
- O número dos primogênitos e o dos levitas, por uma providência especial, ficaram bem próximos um do outro; assim, quando ele dividiu as nações, “fixou os limites do povo segundo o número dos filhos de Israel”, Deuteronômio 32:8.
Conhecidas de Deus são de antemão todas as suas obras, e há entre elas uma proporção exata, e assim se verá quando vierem a ser comparadas.
Diz-se que o gado dos levitas é tomado em lugar das primeiras crias do gado dos filhos de Israel, isto é, os levitas, com todas as suas posses, foram entregues a Deus em lugar dos primogênitos e de tudo o que era deles; pois, quando nos damos a Deus, tudo o que temos acompanha essa entrega como os acessórios acompanham o bem principal.
- O pequeno número de primogênitos que excedia o número dos levitas (273 ao todo) devia ser resgatado, a cinco siclos por cabeça, e o dinheiro do resgate dado a Arão; pois não conviria que fossem acrescentados aos levitas.
É provável que, na troca, tenham começado pelos mais velhos dos primogênitos e seguido até os mais novos, de modo que os resgatados com dinheiro eram os duzentos e setenta e três mais novos. Isso parece mais provável do que a escolha por sorteio ou o pagamento com dinheiro do tesouro público.
A igreja é chamada a igreja dos primogênitos, a qual é resgatada, não como estes foram, com prata e ouro, mas, estando entregue pelo pecado à justiça de Deus, é remida com o precioso sangue do Filho de Deus.