Matthew Henry

Números 29

Argumento

Este capítulo estabelece as ofertas que deviam ser feitas pelo fogo ao Senhor nas três grandes solenidades do sétimo mês:

I. Na festa das trombetas, no primeiro dia desse mês, vv. 1-6.

II. No dia da expiação, no décimo dia, vv. 7-11.

III. Na festa dos tabernáculos, no décimo quinto dia e nos sete dias seguintes, vv. 12-38.

E depois a conclusão destas ordenanças, v. 39, 40.

Versículos 1 a 11

Solenidades do Sétimo Mês. (a.C. 1452.)

Havia mais solenidades sagradas no sétimo mês do que em qualquer outro mês do ano, não só porque ele tinha sido o primeiro mês até a libertação de Israel do Egito (o qual, caindo no mês de Abibe, fez com que este passasse dali em diante a ser o começo dos meses em todos os cômputos eclesiásticos).

Mas porque ainda continuava sendo o primeiro mês nas contagens civis dos jubileus e dos anos de remissão, e também porque era o tempo de descanso entre a colheita e a semeadura, quando tinham mais lazer para frequentar o santuário.

O que dá a entender que, embora Deus dispense os sacrifícios em consideração às obras de necessidade e de misericórdia, ainda assim, quanto mais lazer tivermos das ocasiões prementes desta vida, mais tempo devemos gastar no serviço imediato de Deus.

  1. Temos aqui o estabelecimento dos sacrifícios que deviam ser oferecidos no primeiro dia do mês, o dia do soar das trombetas, que era uma preparação para as duas grandes solenidades de santo luto no dia da expiação e de santa alegria na festa dos tabernáculos.

A intenção das instituições divinas é bem atendida quando um serviço religioso ajuda a nos habilitar para outro, e todos para o céu.

O soar das trombetas foi estabelecido, Levítico 23:24. Aqui o povo é orientado sobre quais sacrifícios oferecer naquele dia, dos quais não se fez então menção alguma.

Repare: os que querem conhecer a mente de Deus na Escritura devem comparar uma parte da Escritura com outra e pôr juntas as partes que têm referência à mesma coisa, pois as últimas descobertas da luz divina explicam o que era obscuro e suprem o que era deficiente nas primeiras, para que o homem de Deus seja perfeito.

Os sacrifícios então a oferecer são ordenados aqui em particular (vv. 2-6), e se tem o cuidado de que estes não substituam a oblação diária e a da lua nova.

Com isto se dá a entender que não devemos procurar ocasiões para abrandar o nosso zelo no serviço de Deus, nem nos alegrar com uma desculpa para omitir um bom dever, e sim antes nos alegrar com uma oportunidade de acumular e de fazer mais que o comum na religião.

Se fazemos o culto familiar, não devemos pensar que isto nos desculpará das nossas devoções secretas; nem que nos dias em que vamos à igreja não precisamos adorar a Deus sozinhos e com as nossas famílias; mas devemos sempre abundar na obra do Senhor.

  1. No dia da expiação. Além de todos os serviços daquele dia, dos quais tivemos a instituição em Levítico 16, e que, ao que se poderia pensar, exigiam trabalho e custo suficientes, aqui se ordena que sejam oferecidos holocaustos, vv. 8-10.

Pois na nossa fé e no nosso arrependimento, aquelas duas grandes graças do evangelho que eram significadas pelos atos daquele dia, devemos ter em vista a glória e a honra de Deus, a qual era a pura intenção dos holocaustos; também devia haver um cabrito das cabras como oferta pelo pecado, além da grande oferta pelo pecado da expiação (v. 11).

O que dá a entender que há tantos defeitos e falhas, mesmo nos exercícios e nas expressões do nosso arrependimento, que precisamos ter parte num sacrifício que expie a culpa até mesmo dessa parte das nossas coisas santas.

Embora não devamos nos arrepender de ter nos arrependido, ainda assim devemos nos arrepender de não termos nos arrependido melhor.

Também dava a entender a imperfeição dos sacrifícios legais e a sua insuficiência para tirar o pecado: que no próprio dia em que se oferecia a oferta pelo pecado da expiação, ainda assim devia haver outra oferta pelo pecado. Mas o que a lei não podia fazer, por ser fraca, isso Cristo fez.

Versículos 12 a 40

Logo depois do dia da expiação, aquele dia em que os homens deviam afligir as suas almas, seguiu-se a festa dos tabernáculos, na qual deviam se regozijar perante o Senhor; pois os que semeiam com lágrimas logo segarão com alegria.

Às leis anteriores sobre esta festa, das quais tivemos em Levítico 23:34, etc., são acrescentadas aqui orientações sobre as ofertas pelo fogo, que deviam oferecer ao Senhor durante os sete dias daquela festa, Levítico 23:36. Observe aqui:

  1. Os seus dias de regozijo deviam ser dias de sacrifícios. Uma disposição alegre não nos causa prejuízo nenhum, nem é sinal de algo ruim, quando está tão longe de nos inabilitar para os deveres do serviço imediato de Deus que nos anima e alarga o coração neles.

  2. Em todos os dias da sua habitação em cabanas deviam oferecer sacrifícios. Enquanto estamos aqui num estado de tabernáculo, é do nosso interesse tanto quanto dever manter constantemente a comunhão com Deus; nem a instabilidade da nossa condição exterior nos desculpará na nossa negligência dos deveres do culto a Deus.

  3. Os sacrifícios de cada um dos sete dias, embora em nada diferentes senão no número dos novilhos, são estabelecidos separadamente e em particular, o que contudo não é vã repetição; pois Deus quis assim ensiná-los a serem muito exatos nessas observâncias e a manter fixo o olho da fé na instituição em cada trabalho do dia.

Dá também a entender que a repetição dos mesmos serviços, se realizada com coração reto e com um fogo continuado de afeição piedosa e devota, não é canseira para Deus, e por isso não devemos torcer o nariz para ela, nem dizer: Eis que canseira é isto para nós!

  1. O número dos novilhos (que eram a parte mais custosa do sacrifício) diminuía todos os dias. No primeiro dia da festa deviam oferecer treze, no segundo dia só doze, no terceiro dia onze, etc.

De modo que no sétimo ofereciam sete; e no último dia, embora fosse o grande dia da festa e celebrado com santa convocação, ainda assim deviam oferecer só um novilho; e, ao passo que em todos os outros dias ofereciam dois carneiros e catorze cordeiros, neste ofereciam só um carneiro e sete cordeiros. Tal era a vontade do Legislador, e isso é razão suficiente para a lei.

Alguns sugerem que Deus levou aqui em conta a fraqueza da carne, que é propensa a ver com má vontade o custo e a despesa da religião; por isso é ordenado que diminua cada vez mais, para que não se queixem como se Deus os tivesse feito servir com uma oferta, Isaías 43:23.

Ou com isto se lhes dá a entender que a dispensação legal envelheceria e por fim desapareceria, e que a multidão dos seus sacrifícios terminaria em um grande sacrifício, infinitamente mais digno do que todos eles.

Foi no último dia da festa, depois de todos esses sacrifícios terem sido ordenados, que nosso Senhor Jesus se pôs em pé e clamou aos que ainda tinham sede de justiça (cônscios da insuficiência desses sacrifícios para justificá-los) que viessem a ele e bebessem, João 7:37.

  1. As ofertas de manjares e as ofertas de libação acompanhavam todos os sacrifícios, segundo o número deles, conforme o modo. Por mais carne que haja, não é festa sem pão e bebida, por isso estas nunca devem ser omitidas no altar de Deus, que era a sua mesa.

Não devemos pensar que fazer muito na religião será aceito se não o fizermos bem e do modo que Deus estabeleceu.

  1. Todos os dias devia ser apresentada uma oferta pelo pecado, como observamos nas outras festas. Os nossos holocaustos de louvor não podem ser aceitos por Deus a menos que tenhamos parte no grande sacrifício de propiciação que Cristo ofereceu quando por nós se fez oferta pelo pecado.

  2. Mesmo quando todos esses sacrifícios eram oferecidos, ainda assim o holocausto contínuo não devia ser omitido nem de manhã nem à tarde, mas cada dia este devia ser oferecido primeiro pela manhã e por último à tarde. Nenhum serviço extraordinário deve tomar o lugar das nossas devoções regulares.

  3. Embora fosse exigido que todos esses sacrifícios fossem apresentados pelo corpo da congregação, à custa comum, ainda assim, além destes, pessoas particulares deviam glorificar a Deus com os seus votos e as suas ofertas voluntárias, v. 39.

Quando Deus ordenou que isto eles deviam fazer, deixou espaço para a generosidade da sua devoção, muito mais podiam fazer, sem inventar outros cultos, mas abundando nestes, como em 2 Crônicas 30:23, 24.

Tinham sido dadas amplas orientações em Levítico a respeito das ofertas de todo tipo que deviam ser trazidas por pessoas particulares segundo as providências de Deus a respeito delas e as graças de Deus nelas.

Embora todo israelita tivesse parte nestes sacrifícios comuns, ainda assim não deve pensar que estes servirão em lugar dos seus votos e das suas ofertas voluntárias.

Assim o orar dos nossos ministros conosco e em nosso favor não nos desculpará de orarmos por nós mesmos.


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