Números 20
Argumento
Neste capítulo começa a história do quadragésimo ano (que foi o último) da peregrinação dos israelitas pelo deserto.
Desde o início do segundo ano deles, quando foram sentenciados a cumprir a sua quarentena no deserto, ali a gastar o tedioso giro de quarenta anos, pouco se registrou a respeito deles até este último ano, que os levou às fronteiras de Canaã, e a história deste ano é quase tão extensa quanto a história do primeiro.
Este capítulo dá o relato de:
I. A morte de Miriã, v. 1.
II. A retirada de água da rocha, na qual observe:
O aperto em que Israel se viu, por falta de água, v. 2.
O seu descontentamento e a sua murmuração nesse aperto, vv. 3-5.
A compaixão e o poder de Deus empenhados em suprir-lhes água da rocha, vv. 6-9.
A fraqueza de Moisés e Arão nesta ocasião, v. 10, 11.
O desagrado de Deus contra eles, v. 12, 13.
III. A negociação com os edomitas. O pedido de Israel (vv. 14-17) e o rechaço que os edomitas lhes deram, vv. 18-21.
IV. A morte de Arão, o sumo sacerdote, no monte Hor, a investidura de Eleazar no lugar dele e o luto do povo por ele, v. 22, etc.
A Morte de Miriã; A Água de Meribá; Moisés e Arão Censurados. (a.C. 1453.)
Versículos 1 a 13
Depois de trinta e oito anos de marchas tediosas, ou antes, de tediosos descansos, no deserto, para trás, na direção do Mar Vermelho, os exércitos de Israel voltaram por fim o rosto para Canaã de novo, e tinham chegado não longe do lugar onde estavam quando, pela justa sentença da divina Justiça, foram levados a iniciar as suas peregrinações.
Até aqui tinham sido conduzidos de um lado para o outro como num dédalo ou labirinto, enquanto se fazia a execução da sentença nos rebeldes sentenciados; mas agora foram trazidos de volta ao caminho certo.
Ficaram em Cades (v. 1), não Cades-Barneia, que ficava perto das fronteiras de Canaã, mas outro Cades, nos confins de Edom, mais longe da terra da promessa, contudo no caminho para ela a partir do Mar Vermelho, para onde tinham sido levados de volta às pressas. Agora:
I. Aqui morre Miriã, a irmã de Moisés e de Arão e, ao que parece, mais velha que qualquer dos dois.
Tinha de ser assim, se era aquela irmã que foi posta para vigiar Moisés quando ele foi posto na arca de juncos, Êxodo 2:4.
Miriã morreu ali, v. 1. Era profetisa e tinha sido instrumento de muito bem para Israel, Miquéias 6:4.
Quando Moisés e Arão, com a sua vara, iam adiante deles para operar prodígios em favor deles, Miriã, com o seu tamborim, ia adiante deles louvando a Deus por essas obras maravilhosas (Êxodo 15:20), e com isso lhes prestava serviço real; contudo, ela tinha sido certa vez uma murmuradora (Números 12:1) e não podia entrar em Canaã.
II. Aqui há outra Meribá.
Um lugar com esse nome já encontramos antes, no início da marcha deles pelo deserto, o qual foi assim chamado por causa da altercação dos filhos de Israel, Êxodo 17:7. E agora temos outro lugar, no fim da marcha deles, que leva o mesmo nome pelo mesmo motivo: “Esta é a água de Meribá”, v. 13. O que ali se fez foi aqui feito de novo.
- Não havia água para a congregação, v. 2. A água da rocha de Refidim os tinha seguido enquanto houve necessidade dela; mas é provável que por algum tempo tivessem estado num país onde eram supridos de modo ordinário, e, quando a providência comum os supria, convinha que o milagre cessasse.
Mas neste lugar aconteceu que não havia água, ou não havia o bastante para a congregação.
Repare: vivemos num mundo de falta e, onde quer que estejamos, devemos esperar deparar com algum inconveniente ou outro. É grande misericórdia ter água em abundância, misericórdia cujo valor reconheceríamos se sentíssemos a falta dela.
- Diante disso murmuraram, amotinaram-se (v. 2), reuniram-se e pegaram em armas contra Moisés e Arão. Altercaram com eles (v. 3) e falaram a mesma linguagem absurda e bestial que os pais deles tinham falado antes.
(1.) Desejaram ter morrido como malfeitores pelas mãos da justiça divina, em vez de parecerem, por algum tempo, esquecidos pela misericórdia divina: “Prouvera a Deus que tivéssemos morrido quando os nossos irmãos morreram perante o Senhor!”
Em vez de darem graças a Deus, como deviam ter feito, por tê-los poupado, não só desprezam a misericórdia do seu indulto, mas têm desavença com ela, como se Deus lhes tivesse feito grande agravo ao lhes dar a vida como despojo e ao arrebatá-los como tições do fogo.
Mas não precisam desejar ter morrido com os seus irmãos; estão aqui tomando o caminho mais direto para morrer como os seus irmãos dentro de pouco tempo. “Ai daqueles que desejam o dia do Senhor”, Amós 5:18.
(2.) Ficaram irritados por terem sido tirados do Egito e conduzidos por este deserto, v. 4, 5. Tiveram desavença com Moisés por aquilo que sabiam ser obra do Senhor; apresentaram como injúria o que foi o maior favor já feito a qualquer povo.
Preferem a escravidão à liberdade, a casa da servidão à terra da promessa; e, embora a falta presente fosse só de água, ainda assim, agora que estão dispostos a achar defeito, será tido como agrura insuportável, imposta a eles, o não terem vinhas e figos.
Era um agravante do crime deles:
[1.] Que tivessem sofrido tanto tempo pelos descontentamentos e desconfianças dos seus pais. Já tinham carregado as suas prostituições quase quarenta anos no deserto (Números 14:33); contudo se aventuraram nos mesmos passos e, como se acusa Belsazar, não humilharam o coração, embora soubessem tudo isso, Daniel 5:22.
[2.] Que tivessem tido tão longa e constante experiência da bondade de Deus para com eles e da ternura e fidelidade de Moisés e Arão.
[3.] Que Miriã tivesse morrido havia pouco; tendo perdido um dos seus líderes, deviam ter sido mais respeitosos com os que restavam; mas, como se estivessem resolvidos a provocar Deus a deixá-los como ovelhas sem pastor, tornam-se violentos contra eles. Em vez de condoer-se com Moisés e Arão pela morte da irmã deles, acrescentam aflição à dor deles.
- Moisés e Arão não lhes deram resposta, mas se retiraram para a porta do tabernáculo a fim de conhecer a mente de Deus neste caso, v. 6. Ali se prostraram com o rosto em terra, como antes em ocasião semelhante, para afastar com súplicas a ira de Deus e implorar orientação dele.
Não há menção de coisa alguma que tenham dito; sabiam que Deus ouvia as murmurações do povo, e diante dele se prostram humildemente, fazendo intercessões com gemidos que não se podem exprimir. Ali ficaram esperando ordens: “Fala, Senhor, porque os teus servos ouvem.”
- Deus apareceu para decidir a questão; não no seu tribunal de justiça, para sentenciar os rebeldes conforme o merecimento deles; não, ele não voltará para destruir Efraim (Oseias 11:9), não altercará para sempre; veja Gênesis 8:21. Mas apareceu:
(1.) No seu trono de glória, para silenciar a murmuração injusta deles (v. 6): “A glória do Senhor apareceu”, para aquietar o tumulto do povo, incutindo-lhes temor reverente.
Repare: uma visão de fé da glória do Senhor seria uma contenção eficaz às nossas cobiças e paixões, e guardaria a nossa boca como que com um freio.
(2.) No seu trono de graça, para satisfazer os desejos justos deles. Era necessário que tivessem água e, por isso, embora o modo de a pedirem fosse irregular e desordenado, ainda assim Deus não tomou isso como vantagem contra eles para negá-la, mas deu logo ordens para o suprimento deles, v. 8.
Moisés devia, pela segunda vez, em nome de Deus, ordenar que saísse água de uma rocha para eles, para mostrar que Deus é tão capaz como sempre de suprir o seu povo de coisas boas, mesmo nos seus maiores apuros e no extremo esgotamento das causas segundas.
O poder todo-poderoso pode tirar água de uma rocha, já o fez e pode fazê-lo de novo, porque o seu braço não está encurtado.
Para que não se pense que havia algo peculiar na rocha anterior, alguma fonte secreta que a natureza antes escondia nela, Deus aqui lhe manda abrir outra, e não lhe indica, como então, a qual deve recorrer, mas o deixa usar a que quiser, ou a primeira que encontrar; tudo é igual para a Onipotência.
[1.] Deus lhe manda tomar a vara, aquela vara famosa com que convocou as pragas do Egito e dividiu o mar, para que, tendo-a na mão, tanto ele quanto o povo se lembrassem das grandes coisas que Deus tinha feito antes em favor deles e fossem animados a confiar nele agora.
Ao que parece, essa vara era guardada no tabernáculo (v. 9), porque era a vara de Deus, a vara da sua força, como o evangelho é chamado (Salmos 110:2), talvez em alusão a ela.
[2.] Deus lhe manda reunir a assembleia, não só os anciãos, mas o povo, para serem testemunhas do que se fez, a fim de que, com os próprios olhos, fossem convencidos e envergonhados da sua incredulidade.
Não há engano nas obras de maravilha de Deus, e por isso elas não fogem da luz, nem do exame e da investigação de muitas testemunhas.
[3.] Manda-o falar à rocha, que faria como lhe fosse mandado, para envergonhar o povo, a quem tantas vezes se tinha falado e que não queria ouvir nem obedecer. O coração deles era mais duro que esta rocha, menos terno, menos flexível, menos obediente.
[4.] Promete que a rocha daria água (v. 8), e assim foi (v. 11): “A água saiu em abundância.”
Isto é uma prova não só do poder de Deus, que podia assim tirar mel da rocha e azeite da rocha de pederneira, mas da sua misericórdia e graça, que quis fazê-lo por um povo tão provocante.
Esta era uma nova geração (a maior parte da velha cepa já se tinha extinguido), contudo eram tão maus quanto os que foram antes deles; a murmuração corria no sangue, e ainda assim o vínculo do favor divino não foi cortado, e neste exemplo dele a paciência divina brilha tão intensamente quanto o poder divino.
Ele é Deus e não homem, em poupar e perdoar; ou melhor, não só lhes deu aqui a bebida de que beberam em comum com os seus animais (v. 8, 11), mas nela os fez beber bebida espiritual, que tipificava bênçãos espirituais, porque aquela rocha era Cristo.
- Moisés e Arão agiram de modo impróprio na condução desta questão, a tal ponto que Deus, desagradado, lhes disse logo que não teriam a honra de introduzir Israel em Canaã, vv. 10-12.
(1.) Este é um trecho estranho da história, mas muito instrutivo.
[1.] É certo que Deus ficou muito ofendido, e com justiça, pois nunca se irrita sem causa.
Embora fossem seus servos e tivessem alcançado misericórdia para serem fiéis, embora fossem seus favoritos e homens que ele tinha honrado muito, ainda assim, por algo que pensaram, disseram ou fizeram nesta ocasião ele os pôs sob a desonra e a mortificação de morrer, como outros israelitas incrédulos, sem chegar a Canaã. E sem dúvida o crime merecia o castigo.
[2.] Contudo, é incerto o que houve nesta condução que tanto provocou Deus. A falta foi complexa.
Em primeiro lugar, não observaram pontualmente as suas ordens, mas em algumas coisas se desviaram da sua comissão: Deus lhes mandou falar à rocha, e eles falaram ao povo e feriram a rocha, o que desta vez não lhes foi ordenado, mas pensaram que falar não bastaria.
Quando, por desconfiança do poder da palavra, recorremos ao poder secular em matérias de pura consciência, ferimos, como Moisés aqui, a rocha à qual deveríamos apenas falar.
Em segundo lugar, tomaram para si glória demais nesta obra de maravilha: “Temos de tirar água?”, como se fosse feita por algum poder ou valor deles. Por isso se lhes imputa (v. 12) que não santificaram a Deus, isto é, não lhe deram aquela glória deste milagre que era devida ao seu nome.
Em terceiro lugar, a incredulidade foi a grande transgressão (v. 12): “Não me crestes”; ou melhor, chama-se rebelar-se contra o mandamento de Deus, Números 27:14. O mandamento era tirar água da rocha, mas eles se rebelaram contra esse mandamento, desconfiando dele e duvidando de que surtisse efeito ou não.
Falam em tom de dúvida: “Temos de tirar água?” E provavelmente de algum outro modo deixaram ver uma incerteza na sua própria mente sobre se viria água ou não para uma geração tão rebelde como esta era.
E talvez duvidassem ainda mais disso, embora Deus o tivesse prometido, porque a glória do Senhor não apareceu diante deles sobre esta rocha, como tinha aparecido sobre a rocha em Refidim, Êxodo 17:6. Não quiseram aceitar a palavra de Deus sem um sinal.
A noção do Dr. Lightfoot sobre a incredulidade deles é que duvidavam se agora, por fim, expirados os quarenta anos, entrariam em Canaã, e se não teriam de ser condenados, por causa das murmurações do povo, a outra fase de labuta, porque uma nova rocha estava agora sendo aberta para o suprimento deles, o que tomaram como indício de uma estada mais longa.
E, se foi assim, com justiça eles mesmos foram impedidos de entrar em Canaã, enquanto o povo entrou no tempo determinado.
Em quarto lugar, disseram e fizeram tudo com calor e paixão; este é o relato dado do pecado (Salmos 106:33): “Provocaram o seu espírito, de modo que ele falou irrefletidamente com os seus lábios.”
Foi na sua paixão que os chamou de rebeldes. É verdade que eram; Deus os tinha chamado assim; e Moisés, depois, em tom de justa censura (Deuteronômio 9:24), chama-os assim sem ofensa; mas agora isso vinha de um espírito provocado e foi dito irrefletidamente: parecia-se demais com “Raca” e com “Tu, tolo”.
O ter ferido a rocha duas vezes (ao que parece, sem esperar de modo algum a irrupção da água ao primeiro golpe) mostra que estava acalorado. A mesma coisa que, dita e feita com mansidão, pode ser justificável, quando dita e feita com ira pode ser altamente culpável; veja Tiago 1:20.
Em quinto lugar, o que agravava todo o resto e o tornava ainda mais provocante era que foi público, diante dos olhos dos filhos de Israel, a quem deviam ter sido exemplos de fé, esperança e mansidão.
Encontramos Moisés culpado de desconfiança pecaminosa, Números 11:22, 23. Aquilo foi privado, entre Deus e ele, e por isso foi apenas contido. Mas o dele agora foi público; desonrou a Deus diante de Israel, como se ele lhes regateasse os seus favores, e desanimou a esperança do povo em Deus, e por isso foi severamente punido, e ainda mais por causa da dignidade e da eminência dos que ofenderam.
(2.) De tudo isto podemos aprender:
[1.] Que os melhores homens têm as suas falhas, mesmo naquelas graças em que mais se destacam. O homem Moisés era muito manso, e ainda assim aqui pecou por paixão; por isso, quem pensa que está em pé cuide para que não caia.
[2.] Que Deus não julga como o homem julga a respeito dos pecados; poderíamos pensar que não havia muito de errado no que Moisés disse e fez, e contudo Deus viu causa para reagir com severidade a isso.
Ele conhece a constituição do espírito dos homens, de que temperamento são e em que temperamento se acham em ocasiões particulares, e de que pensamentos e intenções procedem as palavras e as ações; e temos certeza de que por isso o seu juízo é segundo a verdade, quando não concorda com o nosso.
[3.] Que Deus não só repara nos pecados do seu povo e se desagrada deles, mas que, quanto mais perto dele alguém está, mais ofensivos são os seus pecados, Amós 3:2.
Ao que parece, o salmista se refere a este pecado de Moisés e Arão (Salmos 99:8): “Tu foste um Deus que lhes perdoaste, ainda que tomaste vingança das suas invenções.” Assim como muitos são poupados nesta vida e castigados na outra, assim muitos são castigados nesta vida e salvos na outra.
[4.] Que, quando o nosso coração está quente dentro de nós, nos cabe cuidar de não ofender com a língua.
[5.] Contudo, é evidência da sinceridade de Moisés, e da sua imparcialidade ao escrever, que ele mesmo deixou isto registrado a respeito de si e não lançou véu sobre a sua própria fraqueza; por meio dela se vê que, no que escreveu, assim como no que fez, buscou a glória de Deus mais que a sua própria.
Por fim, o lugar é por isso chamado Meribá, v. 13. É chamado Meribá-Cades (Deuteronômio 32:51), para distingui-lo da outra Meribá. É a água da contenda, para perpetuar a lembrança do pecado do povo e de Moisés, e contudo da misericórdia de Deus, que lhes deu água e reconheceu e honrou Moisés apesar disso.
Assim ele foi santificado neles, como o Santo de Israel; assim é chamado quando a sua misericórdia se regozija contra o juízo, Oseias 11:9. Moisés e Arão não santificaram a Deus como deviam aos olhos de Israel (v. 12), mas Deus foi santificado neles, pois ele não sairá perdendo em honra por causa de homem nenhum. Se não for glorificado por nós, será glorificado sobre nós.
Versículos 14 a 21
Embaixadores Enviados a Edom. (a.C. 1452.)
Temos aqui o pedido feito por Israel aos edomitas. O caminho mais curto para Canaã, a partir do lugar onde Israel estava agora acampado, era pelo país de Edom. Agora:
I. Moisés envia embaixadores para tratar com o rei de Edom a licença de passar pelo seu país, e lhes dá instruções do que dizer, vv. 14-17.
- Devem reivindicar parentesco com os edomitas: “Assim diz teu irmão Israel.”
Ambas as nações descendiam de Abraão e Isaque, os seus antepassados comuns; Esaú e Jacó, os dois pais das respectivas nações, eram irmãos gêmeos; e por isso, por causa do parentesco, podiam razoavelmente esperar esta bondade deles. Nem precisavam os edomitas temer que o seu irmão Israel tivesse algum mau desígnio contra eles ou fosse tirar alguma vantagem contra eles.
- Devem dar um breve relato da história e da situação presente de Israel, que, dão por certo, os edomitas não desconheciam. E nisto havia um duplo apelo:
(1.) Israel tinha sido maltratado pelos egípcios e por isso devia ser compadecido e socorrido pelos seus parentes: “Os egípcios nos vexaram, a nós e aos nossos pais, mas podemos esperar que os nossos irmãos edomitas não sejam tão vexadores.”
(2.) Israel tinha sido maravilhosamente salvo pelo Senhor e por isso devia ser apoiado e favorecido (v. 16): “Clamamos ao Senhor, e ele enviou um anjo, o anjo da sua presença, o anjo da aliança, a Palavra eterna, que nos tinha tirado do Egito e nos conduzido até aqui.”
Era, portanto, do interesse dos edomitas granjear as boas graças de um povo que tinha tão grande interesse no céu e era tão favorito dele, e era por conta e risco deles que lhe fizessem qualquer injúria.
É sabedoria e dever nosso sermos bondosos com aqueles a quem Deus tem por bem reconhecer, e tomar o povo dele como o nosso povo. “Entra, tu, bendito do Senhor.”
- Devem pedir humildemente um salvo-conduto pelo país deles. Embora o próprio Deus, na coluna de nuvem e de fogo, fosse o guia de Israel, e seguindo-o pudessem ter justificado a passagem pela terra de qualquer homem contra o mundo inteiro, ainda assim Deus quis que se prestasse este respeito aos edomitas, para mostrar que a propriedade de nenhum homem deve ser invadida sob pretexto de religião.
O domínio se funda na providência, não na graça. Assim, quando Cristo ia passar por uma aldeia dos samaritanos, a quem a sua vinda provavelmente seria ofensiva, enviou mensageiros adiante da sua face para pedir licença, Lucas 9:52. Os que querem receber bondade não devem desdenhar de pedi-la.
- Devem dar garantia do bom comportamento dos israelitas nesta marcha: que se manteriam na estrada real, que não cometeriam nenhuma invasão na propriedade de ninguém, seja em terra ou em água, que nem sequer usariam um poço sem pagar por ele e que fariam toda a pressa conveniente, o mais depressa que pudessem andar a pé, v. 17, 19.
Nada mais justo e de bom vizinho poderia ser oferecido.
II. Os embaixadores voltaram com uma negativa, v. 18. Edom, isto é, o rei de Edom, como protetor do seu país, disse: “Não passarás por mim”; e, quando os embaixadores insistiram mais, repetiu a negativa (v. 20) e ameaçou que, se tentassem entrar no seu país, seria por conta e risco deles; levantou as suas tropas treinadas para se opor a eles.
Assim Edom recusou dar passagem a Israel. Isto se devia:
À suspeita que tinham dos israelitas; temiam sofrer prejuízo. E, na verdade, se este numeroso exército estivesse sob qualquer outra disciplina e comando que não os do próprio Deus justo, que não permitiria que fizessem injustiça nem que a sofressem, poderia ter havido motivo para essa suspeita; mas o que podiam temer de uma nação que tinha estatutos e juízos tão justos?
À velha inimizade que Esaú tinha contra Israel. Se não tinham razão para temer dano da parte deles, ainda assim não queriam mostrar-lhes tanta bondade. Esaú odiou Jacó por causa da bênção, e agora o ódio reviveu, quando a bênção estava pronta para ser herdada.
Deus quis com isto descobrir a má índole dos edomitas para a vergonha deles e pôr à prova a boa índole dos israelitas para a honra deles: os israelitas se afastaram dele, e não tomaram esta ocasião para ter desavença com ele.
Repare: não devemos estranhar que os pedidos mais razoáveis sejam negados por homens irrazoáveis, e que sejam afrontados por homens os que Deus favorece. “Eu, como um surdo, não ouvia.”
Depois desta indignidade que os edomitas fizeram a Israel, Deus lhes deu uma recomendação particular de não abominar um edomita (Deuteronômio 23:7), embora os edomitas tivessem mostrado tamanha abominação por eles, para nos ensinar, em casos assim, a não meditar vingança.
Os Edomitas Recusam Passagem a Israel; A Morte de Arão. (a.C. 1452.)
Versículos 22 a 29
O capítulo começou com o funeral de Miriã e termina com o funeral do seu irmão Arão. Quando a morte entra numa família, muitas vezes fere duas vezes.
Israel não tinha aproveitado a aflição anterior em que se achava, pela morte da profetisa, e por isso, pouco depois, Deus levou o seu sacerdote, para ver se levariam isso a peito. Isso aconteceu logo na etapa seguinte, quando se mudaram para o monte Hor, dando uma volta em torno do país dos edomitas, que ficou à sua esquerda.
Onde quer que vamos, a morte nos acompanha, e as sepulturas estão prontas para nós.
I. Deus manda Arão morrer, v. 24. Deus toma Moisés e Arão à parte e lhes diz: “Arão será reunido ao seu povo.” A esses dois queridos irmãos é dito que devem separar-se. Arão, o mais velho, deve morrer primeiro, mas é improvável que Moisés demore muito depois dele, de modo que é só por um tempo, um pouco de tempo, que ficam separados.
Há nessas ordens algo de desagrado. Arão não deve entrar em Canaã, porque tinha falhado no seu dever nas águas da contenda. A menção disso, sem dúvida, calou fundo no coração de Moisés, que talvez soubesse, naquela hora, ser o mais culpado dos dois.
Há nelas muito de misericórdia. Arão, embora morra pela sua transgressão, não é morto como malfeitor, por uma praga ou por fogo do céu, mas morre com brandura e com honra.
Não é cortado do seu povo, como costuma ser a expressão a respeito dos que morrem pela mão da justiça divina, mas é reunido ao seu povo, como quem morreu nos braços da graça divina.
- Há nelas muito de tipo e de significado. Arão não deve entrar em Canaã, para mostrar que o sacerdócio levítico nada podia aperfeiçoar: isso devia ser feito pela introdução de uma esperança melhor.
Aqueles sacerdotes não podiam continuar por causa do pecado e da morte, mas o sacerdócio de Cristo, sendo imaculado, é imutável, e a este, que permanece para sempre, Arão deve ceder toda a sua honra, Hebreus 7:23-25.
II. Arão se submete e morre pelo método e do modo determinados, e, pelo que se vê, com tanta alegria como se estivesse indo para a cama.
- Ele veste as suas vestes santas para despedir-se deles e sobe com o irmão e o filho ao cume do monte Hor, e provavelmente alguns dos anciãos de Israel com ele, v. 27.
Subiram à vista de toda a congregação, a qual, é provável, foi informada de com que missão subiam; por esta procissão solene Arão faz Israel saber que não tem medo nem vergonha de morrer, mas, quando o noivo vem, pode preparar a sua lâmpada e sair ao seu encontro.
O seu subir o monte para morrer significava que a morte dos santos (e Arão é chamado o santo do Senhor) é a sua ascensão; eles antes sobem do que descem à morte.
- Moisés, cujas mãos tinham primeiro revestido Arão com as suas vestes sacerdotais, agora o despe delas; pois, por reverência ao sacerdócio, não convinha que ele morresse com elas.
Repare: a morte nos despirá; nus viemos ao mundo, e nus devemos sair. Veremos pouca razão para nos orgulharmos das nossas roupas, dos nossos enfeites ou das marcas de honra, se considerarmos quão depressa a morte nos despirá da nossa glória, nos despojará de todos os nossos ofícios e honras e tirará a coroa da nossa cabeça.
- Moisés logo veste as vestes sacerdotais em Eleazar, filho de Arão, reveste-o com o manto do pai e o fortalece com o seu cinto, Isaías 22:21. Agora:
(1.) Foi grande conforto para Moisés, por cuja mão foi dada a lei do sacerdócio, ver que ela seria mantida em sucessão e que fora ordenada uma lâmpada para o ungido, que nem a própria morte extinguiria.
Foi uma feliz garantia e indício, para a igreja, do cuidado que Deus teria de que, à medida que uma geração de ministros e de cristãos (sacerdotes espirituais) passa, outra geração surja no lugar dela.
(2.) Foi grande satisfação para Arão ver o seu filho, que lhe era caro, assim promovido, e o seu ofício, que lhe era mais caro, assim preservado e garantido, e sobretudo ver nisso uma figura do sacerdócio eterno de Cristo, no qual só o seu seria perpetuado. “Agora, Senhor”, poderia dizer Arão, “deixa o teu servo partir em paz, porque os meus olhos viram a tua salvação.”
(3.) Foi grande bondade para com o povo. A investidura de Eleazar antes da morte de Arão impediria que os mal-intencionados contra a família de Arão tentassem, com a morte dele, pôr outro em disputa com o filho. O que poderiam fazer, se a questão já estava resolvida?
Isso também animaria os que entre eles temiam a Deus e seria para eles um sinal favorável de que ele não os deixaria nem permitiria que a sua fidelidade falhasse.
- Arão morreu ali. Logo depois de ser despido das suas vestes sacerdotais, deitou-se e morreu contente; porque um homem bom desejaria, se fosse da vontade de Deus, não sobreviver à sua utilidade.
Por que cobiçaríamos continuar neste mundo por mais tempo do que enquanto pudermos prestar nele algum serviço a Deus e à nossa geração?
Moisés e Eleazar, com os que os acompanhavam, enterraram Arão onde morreu, como se vê por Deuteronômio 10:6, e depois desceram do monte. E agora, quando desceram e deixaram Arão para trás, podia ser apropriado que pensassem que ele antes tinha subido para o mundo melhor e os tinha deixado para trás.
Toda a congregação chorou Arão trinta dias, v. 29. Embora a perda fosse bem compensada em Eleazar, que, estando no auge da vida, era mais apto para o serviço público do que Arão teria sido se tivesse vivido, contudo era uma dívida para com o seu sumo sacerdote falecido chorar por ele.
Enquanto vivia, murmuravam contra ele em todas as ocasiões, mas agora que estava morto choraram por ele. Assim muitos são ensinados a lamentar a perda daquelas misericórdias pelo gozo das quais não quiseram aprender a ser agradecidos.
Muitos homens bons receberam mais honra à sua memória do que jamais tiveram à sua pessoa; prova disso são os que foram perseguidos enquanto viveram, mas, depois de mortos, tiveram os seus sepulcros adornados.