Números 19
Argumento
Este capítulo trata somente do preparo e do uso das cinzas que deviam impregnar a água da purificação.
O povo tinha reclamado do rigor da lei, que proibia que chegassem muito perto do tabernáculo, Números 17:13. Em resposta a essa queixa, aqui são orientados a se purificar, de modo que pudessem se aproximar até onde tivessem ocasião, sem temor. Aqui está:
I. O método de preparar essas cinzas, queimando uma novilha vermelha, com muita cerimônia, vv. 1-10.
II. O modo de usá-las:
Destinavam-se a purificar as pessoas da contaminação contraída por um corpo morto, vv. 11-16.
Deviam ser postas (uma pequena quantidade delas) em água corrente, com a qual a pessoa a ser limpa devia ser purificada, vv. 17-22.
E que essa purificação cerimonial era tipo e figura da limpeza das consciências dos crentes das contaminações do pecado aparece no discurso do apóstolo, Hebreus 9:13, 14, onde ele compara a eficácia do sangue de Cristo com a virtude santificadora que havia nas “cinzas de uma novilha aspergindo os impuros”.
Versículos 1 a 10
As Cinzas da Purificação. (a.C. 1471.)
Temos aqui a determinação divina sobre a queima solene de uma novilha vermelha até virar cinzas, e sobre a conservação das cinzas, para que delas se fizesse, não uma água embelezadora, mas purificadora, pois até aí chegava a lei: não se propunha a adornar, como faz o evangelho, mas somente a limpar.
Esta queima da novilha, embora não fosse propriamente um sacrifício de expiação, por não ser feita no altar, era contudo típica da morte e dos sofrimentos de Cristo, pelos quais ele quis não só satisfazer a justiça de Deus, mas purificar e pacificar as nossas consciências, para termos paz com Deus e também paz no nosso próprio peito.
Para preparar isso, Cristo morreu, não só como os touros e os bodes no altar, mas como a novilha fora do acampamento.
I. Houve muito cuidado na escolha da novilha que seria queimada, muito mais do que na escolha de qualquer outra oferta, v. 2.
Devia ser não só sem defeito, tipificando a pureza imaculada e a perfeição sem pecado do Senhor Jesus, mas devia ser uma novilha vermelha, por causa da raridade da cor, para que fosse mais notável: os judeus dizem: “Se apenas dois pelos fossem pretos ou brancos, era ilícito.”
Cristo, como homem, era o Filho de Adão, terra vermelha, e o encontramos vermelho na sua veste, vermelho do seu próprio sangue e vermelho do sangue dos seus inimigos.
E devia ser uma sobre a qual nunca veio jugo, o que não se exigia nos outros sacrifícios, mas com isso se tipificava a oferta voluntária do Senhor Jesus, quando disse: “Eis que venho”; ele não foi atado nem preso por outras cordas senão as do seu próprio amor.
Esta novilha devia ser fornecida por conta da congregação, porque todos deviam ter nela um interesse comum; e assim todos os crentes têm em Cristo.
II. Devia haver muita cerimônia na queima dela. O cuidado de fazê-lo foi confiado a Eleazar, não ao próprio Arão, porque não convinha que ele fizesse coisa alguma que o tornasse cerimonialmente impuro, não, nem mesmo até a tarde (v. 8).
Contudo, por ser um assunto de grande importância, sobretudo pelo seu significado, devia ser realizado por aquele que vinha logo depois de Arão em dignidade. Os principais sacerdotes daquele tempo tiveram a participação principal na morte de Cristo. Agora:
- A novilha devia ser morta fora do acampamento, como coisa impura, o que indica a insuficiência dos métodos prescritos pela lei cerimonial para tirar o pecado.
Tão longe estavam de limpar eficazmente que eles próprios eram impuros, como se a contaminação que era lançada sobre eles continuasse a aderir a eles. Contudo, para corresponder a este tipo, nosso Senhor Jesus, feito pecado e maldição por nós, sofreu fora da porta, Hebreus 13:12.
- Eleazar devia aspergir o sangue diretamente diante da porta do tabernáculo, olhando fixamente para ela, v. 4.
Isso fazia dela, de certo modo, uma expiação; pois a aspersão do sangue perante o Senhor era a solenidade principal em todos os sacrifícios de propiciação; por isso, embora isto não fosse feito no altar, contudo, sendo feito em direção ao santuário, era insinuado que a virtude e a validade disso dependiam do santuário e derivavam dele.
Isso significava a satisfação que foi feita a Deus pela morte de Cristo, nosso grande sumo sacerdote, que pelo Espírito eterno (e o Espírito é chamado “dedo de Deus”, como observa Ainsworth, Lucas 11:20) ofereceu a si mesmo sem mancha a Deus; diretamente diante do santuário, quando disse: “Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito.”
Isso também significa como era necessário, para a purificação dos nossos corações, que se fizesse satisfação à justiça divina. Essa aspersão do sangue deu virtude às cinzas.
- A novilha devia ser queimada por inteiro, v. 5. Isso tipificava os sofrimentos extremos de nosso Senhor Jesus, tanto na alma quanto no corpo, como um sacrifício feito pelo fogo.
O sacerdote devia lançar no fogo, enquanto ela queimava, madeira de cedro, hissopo e escarlata, que eram usados na limpeza dos leprosos (Levítico 14:6, 7), para que as cinzas desses se mesclassem com as cinzas da novilha, porque eram destinadas à purificação.
- As cinzas da novilha (separadas o melhor possível das cinzas da lenha em que fora queimada) deviam ser cuidadosamente recolhidas pela mão de uma pessoa limpa e (como dizem os judeus) piladas e peneiradas, e assim guardadas para uso da congregação, conforme houvesse ocasião (v. 9), não só para aquela geração, mas para a posteridade.
Pois as cinzas desta única novilha bastavam para temperar tantas vasilhas de água quantas o povo de Israel precisasse por muitas eras.
Os judeus dizem que esta única serviu até o cativeiro, quase 1000 anos, e que nunca houve outra novilha queimada até o tempo de Esdras, depois do retorno deles.
A essa tradição deles, fundada (suponho) apenas no silêncio dos seus antigos registros, não vejo razão para darmos crédito, já que nos tempos posteriores da sua igreja, dos quais tinham registros mais completos, eles encontram oito queimadas entre o tempo de Esdras e a destruição do segundo templo, que foi de cerca de 500 anos.
Diz-se aqui que estas cinzas são guardadas como purificação do pecado porque, embora se destinassem a purificar somente da impureza cerimonial, eram contudo um tipo daquela purificação do pecado que nosso Senhor Jesus fez por sua morte.
Cinzas misturadas com água servem para esfregar, mas estas tinham a sua virtude puramente da instituição divina, e o seu cumprimento e perfeição em Cristo, que é o fim desta lei, para justiça. Agora observe:
(1.) Que a água da purificação era feita assim pelas cinzas de uma novilha, cujo sangue foi aspergido diante do santuário; assim, o que limpa as nossas consciências é a virtude permanente da morte de Cristo; é o sangue dele que “limpa de todo pecado”, 1 João 1:7.
(2.) Que as cinzas bastavam para todo o povo. Não era preciso que uma novilha nova fosse morta para cada pessoa ou família que tivesse ocasião de ser purificada, mas esta bastava para todos, até para os estrangeiros que peregrinavam entre eles (v. 10).
Assim há virtude suficiente no sangue de Cristo para todos os que se arrependem e creem no evangelho, para todo israelita, e não só pelos pecados deles, mas “pelos pecados de todo o mundo”, 1 João 2:2.
(3.) Que estas cinzas podiam ser conservadas sem desperdício por muitas eras. Nenhuma substância material é tão incorruptível quanto as cinzas, o que (diz o bispo Patrick) as tornava um emblema muito adequado da eficácia eterna do sacrifício de Cristo.
Ele é capaz de salvar e, para isso, capaz de limpar por completo, tanto no que diz respeito às pessoas quanto aos tempos.
(4.) Estas cinzas eram guardadas como um estoque ou tesouro, para a purificação constante de Israel das suas contaminações; assim o sangue de Cristo está guardado para nós na palavra e nos sacramentos, como uma fonte inesgotável de mérito, à qual pela fé podemos recorrer diariamente para purgar as nossas consciências; veja Zacarias 13:1.
- Todos os que foram empregados neste serviço se tornaram cerimonialmente impuros por ele; até o próprio Eleazar, embora apenas aspergisse o sangue, v. 7. Aquele que queimou a novilha era impuro (v. 8), e o que recolheu as cinzas (v. 10).
Assim todos os que tiveram parte em pôr Cristo à morte contraíram culpa por isso: o seu traidor, os seus acusadores, o seu juiz, o seu carrasco, todos fizeram o que fizeram com mãos ímpias, embora fosse pelo “determinado conselho e presciência de Deus” (Atos 2:23).
Contudo alguns deles foram, e todos poderiam ter sido, limpos pela virtude desse mesmo sangue, sob cuja culpa eles mesmos se haviam colocado.
Alguns veem nisto a imperfeição dos serviços legais e a sua insuficiência para tirar o pecado, visto que os que preparavam para a purificação de outros eram eles próprios contaminados pelo preparo.
Os judeus dizem: “Este é um mistério que nem o próprio Salomão entendeu: que a mesma coisa contaminasse os que estavam limpos e purificasse os que estavam impuros.”
Mas (diz o bispo Patrick) isso não é estranho para os que consideram que todos os sacrifícios oferecidos pelo pecado eram por isso tidos por impuros, porque os pecados dos homens eram postos sobre eles, como todos os nossos pecados foram postos sobre Cristo, que por isso se diz ter sido “feito pecado por nós”, 2 Coríntios 5:21.
Versículos 11 a 22
Aqui são dadas instruções sobre o uso e a aplicação das cinzas que foram preparadas para a purificação.
Eram guardadas para serem gastas; e por isso, embora agora um só lugar bastasse para guardá-las, enquanto todo Israel ficava acampado tão junto, contudo é provável que depois, quando chegassem a Canaã, algumas dessas cinzas fossem guardadas em cada cidade, pois haveria uso diário para elas. Observe:
I. Em que casos era necessária uma purificação com estas cinzas. Nenhum outro é mencionado aqui além da impureza cerimonial contraída pelo toque de um corpo morto, ou do osso ou da sepultura de um homem morto, ou por estar na tenda ou casa onde jazia um corpo morto, v. 11, 14-16.
Isto eu considero ter sido um dos maiores fardos da lei cerimonial, e um dos mais inexplicáveis.
Quem tocava a carcaça de um animal impuro, ou qualquer homem vivo sob a maior impureza cerimonial, era tornado impuro por isso só até a tarde, e precisava somente de água comum para se purificar.
Mas quem se aproximava do corpo morto de homem, mulher ou criança devia suportar por sete dias o descrédito decorrente de sua impureza, devia ser purificado duas vezes com a água de separação, que não podia obter sem transtorno e despesa, e até ser purificado não devia chegar perto do santuário sob pena de morte.
- Isto era estranho, considerando:
(1.) Que, sempre que alguém morria (e vivemos em perigo de morte muitas vezes), diversas pessoas contraíam inevitavelmente esta contaminação.
O corpo precisava ser despido, lavado, enfaixado, levado para fora e sepultado, e isso não se podia fazer sem muitas mãos, e contudo todos ficavam maculados, o que significa que no nosso estado corrompido e caído não há ninguém que viva e não peque.
Não podemos evitar ser contaminados pelo mundo maculador pelo qual passamos, e ofendemos diariamente; contudo a impossibilidade de sermos sem pecado não torna o pecado menos contaminante.
(2.) Que cuidar dos mortos, para vê-los sepultados com decoro, não só é necessário, mas um serviço muito bom e um ato de bondade, tanto para a honra dos mortos quanto para o conforto dos vivos, e contudo se contraía impureza por isso, o que dá a entender que as contaminações do pecado se misturam com os nossos melhores serviços e se apegam a eles.
Não há homem justo sobre a terra que faça o bem e não peque; somos propensos, de um modo ou de outro, a errar até quando fazemos o bem.
(3.) Que esta contaminação era contraída pelo que se fazia em particular nas suas próprias casas, o que dá a entender (como observa o bispo Patrick) que Deus vê o que se faz em segredo, e nada pode ser escondido da Majestade divina.
(4.) Esta contaminação podia ser contraída, e no entanto o homem podia nunca o saber, como pelo toque de uma sepultura que não aparecia, da qual o nosso Salvador diz que os que andam sobre ela não o percebem (Lucas 11:44).
Isso dá a entender a mácula da consciência pelos pecados de ignorância, e o motivo que temos para clamar: “Quem pode entender os seus erros?” e para orar: “Limpa-nos das faltas secretas, faltas de que nós mesmos não nos vemos culpados.”
- Mas por que a lei tornou um cadáver uma coisa tão maculadora?
(1.) Porque a morte é o salário do pecado, entrou no mundo por ele e reina pelo poder dele. A morte, para a humanidade, é outra coisa do que é para as demais criaturas: é uma maldição, é a execução da lei, e por isso a mácula da morte significa a mácula do pecado.
(2.) Porque a lei não podia vencer a morte, nem aboli-la e alterar a natureza dela, como faz o evangelho ao trazer à luz a vida e a imortalidade, e assim introduzir uma esperança melhor.
Desde que o nosso Redentor morreu e foi sepultado, a morte já não é destruidora para o Israel de Deus, e por isso os corpos mortos já não maculam.
Mas enquanto a igreja estava debaixo da lei, para mostrar que ela não aperfeiçoava os que a ela se chegavam, a contaminação contraída por corpos mortos não podia deixar de formar na mente deles noções melancólicas e desconfortáveis a respeito da morte, ao passo que os crentes agora, por Cristo, podem triunfar sobre ela.
Ó sepultura! Onde está a tua vitória? Onde está a tua contaminação?
II. Como as cinzas deviam ser usadas e aplicadas nesses casos:
- Uma pequena quantidade das cinzas devia ser posta num copo de água de fonte e misturada com a água, que com isso se tornava, como aqui é chamada, água de separação, porque devia ser aspergida sobre os que estavam separados ou afastados do santuário pela sua impureza.
Assim como as cinzas da novilha significavam o mérito de Cristo, assim a água corrente significava o poder e a graça do bendito Espírito, que é comparado a rios de água viva; e é pela operação dele que a justiça de Cristo nos é aplicada para a nossa limpeza.
Daí se diz que somos lavados, isto é, santificados e justificados, não só “em nome do Senhor Jesus”, mas “pelo Espírito do nosso Deus”, 1 Coríntios 6:11; 1 Pedro 1:2.
Os que prometem a si mesmos benefício da justiça de Cristo, enquanto não se submetem à graça e à influência do Espírito, só enganam a si mesmos, pois não podemos separar o que Deus juntou, nem ser purificados pelas cinzas senão na água corrente.
- Esta água devia ser aplicada com um molho de hissopo mergulhado nela, com o qual a pessoa ou coisa a ser limpa devia ser aspergida (v. 18), em alusão ao que Davi ora: “Purga-me com hissopo.”
A fé é o molho de hissopo com o qual a consciência é aspergida e o coração purificado.
Muitos podiam ser aspergidos de uma vez, e a água com que as cinzas foram mescladas podia servir para muitas aspersões, até que se gastasse toda; e bastava muito pouco caindo sobre um homem para purificá-lo, se feito com essa intenção.
Em alusão a esta aplicação da água de separação por aspersão, diz-se que o sangue de Cristo é “o sangue da aspersão” (Hebreus 12:24), e que com ele somos aspergidos “de má consciência” (Hebreus 10:22), isto é, somos livres da inquietação que nasce do sentimento da nossa culpa. E está predito que Cristo, pelo seu batismo, “aspergirá muitas nações”, Isaías 52:15.
- A pessoa impura devia ser aspergida com esta água no terceiro dia depois da sua contaminação, e no sétimo dia, vv. 12-19.
Os dias eram contados (podemos supor) desde a última vez em que tocara ou se aproximara do corpo morto; pois ele não começaria os dias da sua limpeza enquanto ainda estivesse sob a necessidade de repetir a contaminação.
Mas, quando o corpo morto era sepultado, de modo que não havia ocasião ulterior de mexer nele, então começava a contar os seus dias.
Então, e só então, podemos aplicar com conforto o mérito de Cristo às nossas almas, quando abandonamos o pecado e cessamos toda comunhão com as obras infrutuosas da morte e das trevas.
A repetição da aspersão nos ensina a renovar muitas vezes os atos de arrependimento e de fé; lavemo-nos como Naamã, sete vezes; precisamos fazer muitas vezes o que é tão necessário que seja bem feito.
- Ainda que a contaminação contraída fosse apenas cerimonial, contudo a negligência da purificação prescrita se transformaria em culpa moral: aquele que for impuro e não se purificar, essa alma será cortada, v. 20.
Repare: é coisa perigosa desprezar as instituições divinas, ainda que pareçam mínimas. Um ferimento leve, se negligenciado, pode se mostrar fatal; um pecado que chamamos de pequeno, se não houver arrependimento dele, será a nossa ruína, ao passo que grandes pecadores que se arrependem encontrarão misericórdia.
A nossa impureza nos separa de Deus, mas é o fato de sermos impuros e não nos purificarmos que nos separará dele para sempre: o que é fatal não é tanto o ferimento quanto o desprezo do remédio.
- Até aquele que aspergia a água de separação, ou a tocava, ou tocava a pessoa impura, devia ficar impuro até a tarde, isto é, não devia chegar perto do santuário naquele dia, v. 21, 22.
Assim Deus quis mostrar-lhes a imperfeição daqueles serviços e a sua insuficiência para purificar a consciência, para que aguardassem o Messias.
Na plenitude dos tempos, ele se ofereceria a si mesmo sem mancha a Deus, pelo Espírito eterno, e assim purgaria as nossas consciências das obras mortas (isto é, do pecado, que macula como um corpo morto e por isso é chamado corpo de morte), para que tenhamos liberdade de acesso ao santuário, a fim de servir o Deus vivo com sacrifícios vivos.