Matthew Henry

Números 18

Argumento

Estando Arão agora plenamente estabelecido no sacerdócio, com abundante satisfação dele próprio e do povo (o bem que Deus tirou da oposição má feita a ele), neste capítulo Deus lhe dá instruções completas a respeito do seu ofício, ou melhor, repete as que antes lhe tinha dado. Ele lhe diz:

I. Qual deve ser o seu trabalho, e o cuidado e o encargo que lhe são confiados, e que auxílio dos levitas ele teria nesse trabalho, vv. 1-7.

II. Qual seria o salário dele e dos levitas por este trabalho:

  1. Os proventos ou emolumentos peculiares aos sacerdotes, vv. 8-19.

  2. O sustento fixo dos levitas, vv. 20-24.

III. A porção que deve ser paga aos sacerdotes do sustento dos levitas, vv. 25-32.

Assim cada um sabia o que tinha de fazer e do que tinha de viver.

Versículos 1 a 7

O Serviço dos Sacerdotes e dos Levitas. (a.C. 1490.)

A coerência deste capítulo com o anterior é muito perceptível.

I. O povo, no fim daquele capítulo, tinha se queixado da dificuldade e do perigo que havia em se aproximar de Deus, o que os pôs sob algumas terríveis apreensões de que o tabernáculo no meio deles, que esperavam que fosse a sua alegria e glória, seria antes o seu terror e ruína.

Agora, em resposta a esta queixa, Deus dá aqui a entender, por meio de Arão, que os sacerdotes se aproximariam em favor deles, como seus representantes; de modo que, embora o povo fosse obrigado a guardar distância, contudo isso de modo algum redundaria em desonra ou prejuízo para eles, mas a comunhão consoladora deles com Deus seria mantida pela interposição dos sacerdotes.

II. Muita honra Deus acabara de pôr sobre Arão; a vara dele tinha brotado e florescido, quando as varas dos demais príncipes ficaram secas e destituídas tanto de fruto quanto de ornamento.

Agora, para que Arão não se ensoberbeça com a abundância dos favores que lhe foram feitos e dos milagres operados para o amparo dele na sua alta posição, Deus vem a ele para lembrá-lo do fardo que foi posto sobre ele e do dever que se exige dele como sacerdote.

Ele veria motivo para não se orgulhar da sua elevação, mas para receber as honras do seu ofício com reverência e santo tremor, quando considerasse quão grande era o encargo que lhe fora confiado e quão difícil seria para ele dar um bom relato dele. Não sejas altivo, mas teme.

  1. Deus lhe fala do perigo que acompanhava a sua dignidade, v. 1:

(1.) Que tanto os sacerdotes quanto os levitas (“tu, e os teus filhos, e a casa de teu pai”) levariam a iniquidade do santuário; isto é, se o santuário fosse profanado pela intrusão de estranhos, ou de pessoas em sua impureza, a culpa recairia sobre os levitas e sacerdotes, que deveriam tê-los mantido afastados.

Embora o pecador que forçasse a entrada com presunção morresse na sua iniquidade, contudo o sangue dele seria requerido das mãos dos vigias.

Ou pode ser entendido de modo mais geral: “Se algum dos deveres ou ofícios do santuário for negligenciado, se algum serviço não for feito no seu tempo ou não conforme a lei, se alguma coisa for perdida ou colocada fora do lugar na mudança do santuário, vós sereis responsáveis por isso e respondereis por isso a vosso risco.”

(2.) Que os próprios sacerdotes levariam a iniquidade do sacerdócio; isto é, se ou negligenciassem alguma parte do seu trabalho ou permitissem que outras pessoas invadissem o seu ofício e lhes tirassem o trabalho das mãos, levariam a culpa disso.

Repare: quanto maior é a incumbência de trabalho e de poder que nos é confiada, maior é o nosso perigo de contrair culpa, falseando e traindo essa incumbência.

Esta é uma boa razão para não invejarmos as honras dos outros nem cobiçarmos nós mesmos os altos postos, porque grande dignidade nos expõe a grande iniquidade.

Aqueles a quem é confiado o encargo do santuário terão muito a responder. Quem cobiçaria o cuidado das almas, se considera o relato que se deve dar desse cuidado?

  1. Ele lhe fala do dever que acompanhava a sua dignidade:

(1.) Que ele e os seus filhos deviam ministrar “diante do tabernáculo do testemunho” (v. 2); isto é (como o bispo Patrick o explica), diante do lugar santíssimo, onde estava a arca, do lado de fora do véu daquele tabernáculo, mas dentro da porta do tabernáculo da congregação.

Deviam assistir ao altar de ouro, à mesa e ao candelabro, dos quais nenhum levita podia se aproximar. “Vós servireis”, v. 7. Não “Vós governareis” (nunca se tencionou que dominassem sobre a herança de Deus), mas “Vós servireis a Deus e à congregação.”

Repare: o sacerdócio é um serviço. Se alguém deseja o ofício de bispo, deseja uma boa obra. Os ministros devem lembrar que são ministros, isto é, servos, dos quais se exige que sejam humildes, diligentes e fiéis.

(2.) Que os levitas deviam auxiliá-lo, a ele e a seus filhos, e ministrar a eles em todo o serviço do tabernáculo (vv. 2-4), embora não devessem de modo algum chegar perto dos utensílios do santuário, nem se intrometer, no altar, nos grandes serviços de queimar a banha e aspergir o sangue.

A família de Arão era muito pequena e, à medida que crescia, o resto das famílias de Israel também crescia, de modo que as mãos dos sacerdotes nem eram agora, nem era provável que fossem, suficientes para todo o serviço do tabernáculo; por isso (diz Deus) “os levitas serão unidos a ti”, v. 2, e de novo no v. 4, onde parece haver uma alusão ao nome de Levi, que significa unido.

Muitos dos levitas tinham se posto ultimamente contra Arão, mas daqui por diante Deus promete que eles seriam unidos a ele de coração, em interesse e afeição, e não o contestariam mais. Foi um bom sinal para Arão que Deus o reconhecesse, quando inclinou o coração dos envolvidos a reconhecê-lo também.

Diz-se que os levitas são dados como um dom aos sacerdotes, v. 6. Repare: devemos valorizar como um grande dom da generosidade divina ter unidos a nós aqueles que nos serão úteis e prestimosos no serviço de Deus.

(3.) Que tanto os sacerdotes quanto os levitas deviam vigiar com cuidado contra a profanação das coisas sagradas. Os levitas deviam guardar o encargo do tabernáculo, para que nenhum estranho (isto é, ninguém a quem por qualquer motivo fosse proibido vir) chegasse perto (v. 4), e isso sob pena de morte, v. 7.

E os sacerdotes deviam guardar o encargo do santuário (v. 5), instruir o povo e adverti-los a respeito da devida distância que deviam guardar, e não permitir que rompessem os limites postos a eles, como a companhia de Corá tinha feito, para que não houvesse mais ira sobre os filhos de Israel.

Repare: impedir o pecado é impedir a ira; e o dano que o pecado causou deve ser um aviso para nós, para o futuro, de vigiar contra ele tanto em nós mesmos quanto nos outros.

Versículos 8 a 19

O serviço do sacerdote é chamado de guerra; e quem vai à guerra às suas próprias custas? Assim como eram bem empregados, assim eram bem providos e bem pagos. Ninguém servirá a Deus de graça.

Todos os crentes são sacerdotes espirituais, e Deus prometeu cuidar deles: habitarão na terra, e em verdade serão alimentados, e nenhum bem lhes faltará. A piedade tem a promessa da vida presente.

E, desta farta provisão aqui feita para os sacerdotes, o apóstolo infere que é dever das igrejas cristãs sustentar os seus ministros; os que serviam no altar viviam do altar. Assim os que pregam o evangelho devem viver do evangelho, e viver com conforto, 1 Coríntios 9:13, 14. Sustento escandaloso faz ministros escandalosos. Agora observe:

  1. Que muito da provisão que lhes foi feita provinha dos sacrifícios que eles mesmos eram empregados para oferecer. Ficavam com as peles de quase todos os sacrifícios, que podiam vender, e tinham uma parte considerável das ofertas de manjares, das ofertas pelo pecado, etc. Os que tinham o encargo das ofertas tinham o benefício, v. 8.

Repare: o trabalho de Deus é o seu próprio salário, e o seu serviço traz consigo a sua recompensa. Mesmo em guardar os mandamentos de Deus há grande galardão. Os prazeres presentes da religião fazem parte da sua paga.

  1. Que eles tinham não só uma boa mesa posta para eles, mas também dinheiro no bolso para o resgate dos primogênitos e daquelas primeiras crias do gado que não podiam ser oferecidas em sacrifício.

Assim o sustento deles era tal que os deixava totalmente desembaraçados dos assuntos desta vida; não tinham terreno para ocupar, nem terra para lavrar, nem vinhas para cultivar, nem gado para pastorear, nem patrimônio visível de que cuidar, e mesmo assim tinham uma renda mais farta do que a de quaisquer outras famílias.

Assim Deus ordenou que eles fossem mais inteiramente entregues ao seu ministério, e não fossem desviados dele nem perturbados nele por qualquer cuidado ou ocupação mundana (o ministério exige um homem inteiro); e que fossem exemplos de viver pela fé, não só na providência de Deus, mas na sua ordenança.

Viviam do que recebiam a cada dia, para que aprendessem a não andar ansiosos pelo dia de amanhã; ao dia bastaria a sua provisão; e não tinham patrimônios para deixar aos filhos, para que pudessem, pela fé, deixá-los ao cuidado daquele Deus que os tinha alimentado a vida toda.

  1. Da provisão feita para as suas mesas, diz-se que uma parte era santíssima (v. 9, 10), e devia ser comida pelos próprios sacerdotes, e somente no átrio do tabernáculo; mas outros proventos eram menos santos, dos quais as suas famílias podiam comer, nas suas próprias casas, desde que estivessem puras, vv. 11-13. Veja Levítico 22:10, etc.

  2. Manda-se que o melhor do azeite, e o melhor do vinho e do trigo, sejam oferecidos como primícias ao Senhor, as quais os sacerdotes deviam receber, v. 12.

Repare: devemos sempre servir e honrar a Deus com o melhor que temos, pois ele é o melhor e é quem melhor o merece; ele é o primeiro e por isso deve ter os primeiros frutos maduros.

Os que pensam poupar despesas contentando a Deus com o refugo apenas enganam a si mesmos, pois de Deus não se zomba.

  1. Tudo isto é dado aos sacerdotes por causa da unção, v. 8. Não era por causa dos seus méritos pessoais acima dos outros israelitas que lhes eram pagos esses tributos, fique isso sabido por eles; mas unicamente por causa do ofício para o qual foram ungidos.

Assim todos os confortos dados ao povo do Senhor lhes são dados por causa da unção que receberam. Diz-se que lhes é dado “por uma ordenança para sempre” (v. 8), e é “uma aliança de sal para sempre”, v. 19.

Enquanto o sacerdócio continuasse, este continuaria a ser o sustento dele, para que esta lâmpada não se apagasse por falta de azeite que a mantivesse acesa.

Assim se provê que um ministério do evangelho continue até que Cristo venha, por uma ordenança para sempre. Eis que estou convosco (isto é, o sustento e o amparo deles) sempre, até o fim do mundo. Graças ao Redentor, é a palavra que ele ordenou a mil gerações.

Versículos 20 a 32

Provisão para os Sacerdotes e para os Levitas. (a.C. 1490.)

Aqui está um relato mais amplo da provisão feita tanto para os levitas quanto para os sacerdotes, proveniente da terra.

I. Não deviam ter herança na terra; depois só lhes foram permitidas cidades para morar, mas nenhum terreno para ocupar: “Tu não terás parte alguma entre eles”, v. 20. Isto é repetido de novo no v. 23, e de novo no v. 24: “Entre os filhos de Israel não terão herança”, ou por compra ou por descendência.

Deus queria que fossem providos com conforto, mas não queria as famílias deles ricas demais, para que não se julgassem acima daquele trabalho que o salário deles pressupunha e os obrigava a aplicar-se continuamente.

Assim como Israel era um povo peculiar, que não devia ser contado entre as nações, assim Levi era uma tribo peculiar, que não devia ser assentada como as demais tribos, mas em todos os aspectos distinta delas.

É dada uma boa razão pela qual não deviam ter herança na terra, pois, diz Deus, “Eu sou a tua parte e a tua herança.”

Repare: os que têm Deus por herança e por porção para sempre devem olhar com santo desprezo e indiferença para as heranças deste mundo, e não cobiçar a sua porção nele.

“O Senhor é a minha porção; portanto esperarei nele, e não dependerei de nada do que tenho nesta terra”, Lamentações 3:24.

Os levitas não terão herança e, contudo, viverão com muito conforto e fartura, para nos ensinar que a Providência tem vários modos de amparar aqueles que vivem na dependência dela; as aves não ceifam, e contudo são alimentadas; os lírios não fiam, e contudo são vestidos; os levitas não têm herança em Israel, e contudo vivem melhor que qualquer outra tribo.

A repetição daquela cautela, de que nenhum israelita devia aproximar-se do tabernáculo, entra de modo apropriado, embora um tanto abruptamente, no v. 22. Parece posta em oposição àquela ordem a respeito dos sacerdotes e levitas, de que não deviam ter herança em Israel, para mostrar como Deus distribui os seus favores de modos variados.

Os levitas têm a honra de assistir ao tabernáculo, que é negada aos israelitas; mas então os israelitas têm a honra de heranças em Canaã, que é negada aos levitas; assim cada um é impedido de invejar ou desprezar o outro, e ambos têm motivo para se alegrar com a sua sorte.

Os israelitas não deviam chegar perto do tabernáculo, mas então os levitas não deviam ter herança na terra; se os ministros esperam que as pessoas se mantenham na sua esfera e não se intrometam em ofícios sagrados, mantenham-se eles na sua e não se enredem em assuntos seculares.

II. Mas ambos deviam ter dízimos da terra. Além das primícias que eram reservadas aos sacerdotes, as quais, dizem os judeus, deviam ser a quinquagésima parte, ou pelo menos a sexagésima, também o dízimo era reservado:

  1. Os levitas tinham os dízimos do aumento do povo (v. 21): “Eu dei (de quem é o todo) todos os décimos em Israel, de todas as produções da terra, aos filhos de Levi, para serem repartidos entre eles em justas proporções, pelo seu serviço que eles servem.”

Os levitas eram a menor tribo das doze e, contudo, além de todas as outras vantagens, tinham a décima parte dos rendimentos anuais, sem o trabalho e a despesa de arar e semear; tal era o cuidado que Deus tinha dos que eram dedicados ao seu serviço.

Não só para que fossem bem sustentados, mas para que fossem honrados com um reconhecimento nacional dos bons serviços que prestavam ao público, e reconhecidos como agentes e recebedores de Deus; pois aquilo que era uma oferta alçada, ou uma oferta erguida para o céu ao Senhor, ele o entregava aos levitas.

  1. Os sacerdotes tinham fixados em seu favor os décimos dos dízimos dos levitas. A ordem para isto Moisés é instruído a dar aos levitas, que Deus queria que a pagassem com alegria, em vez de os sacerdotes a exigirem com autoridade: “Fala aos levitas para que seja oferecido por eles”, em vez de cobrado deles. Agora observe:

(1.) Os levitas deviam dar a Deus o que lhe era devido dos seus dízimos, assim como os israelitas do seu aumento. Eram arrendatários de Deus, e deles se esperava o pagamento da renda; o seu ofício não os isentava.

Assim hoje os ministros devem ser caridosos com o que recebem; e quanto mais gratuitamente receberam, mais gratuitamente devem dar, e ser exemplos de liberalidade.

“Vós oferecereis uma oferta alçada ao Senhor”, v. 26. Os que são empregados para auxiliar as devoções dos outros devem certificar-se de pagar as suas próprias, como oferta alçada ao Senhor. Orações e louvores erguidos a Deus, ou melhor, o coração erguido neles, são agora as nossas ofertas alçadas.

“Isto”, diz Deus, “vos será contado como se fosse o grão da eira”; isto é, embora não fosse o fruto do terreno deles, nem do seu próprio trabalho, como eram os dízimos dos outros israelitas, contudo, sendo daquilo que possuíam, seria aceito, para a santificação de todo o resto.

(2.) Isto devia ser dado a Arão, o sacerdote (v. 28), e a seus sucessores, os sumos sacerdotes, para ser repartido e disposto nas proporções que julgassem convenientes entre os sacerdotes inferiores.

Da maior parte dos rendimentos do ofício de sacerdote, estabelecidos na parte anterior do capítulo e provenientes dos sacrifícios, tinham o benefício os sacerdotes que assistiam constantemente ao altar; mas, visto que havia muitos sacerdotes empregados pelo país para ensinar e governar, é provável que os dízimos recebidos pelos levitas fossem encaminhados pelo sumo sacerdote ao sustento deles.

É conjectura provável do erudito bispo Patrick que o décimo deste último décimo era reservado ao próprio sumo sacerdote, para amparar o seu porte e dignidade; pois, de outro modo, não lemos de nenhuma provisão peculiar feita para ele.

(3.) Quando os levitas assim tinham pago o décimo da sua renda, como oferta alçada ao Senhor, eles mesmos tinham o desfrute confortável das outras nove partes (v. 30):

“Quando tiverdes assim alçado dele o melhor (pois continuamente a parte de Deus deve ser a melhor), então comereis o resto, não como coisa santa, mas com a mesma liberdade com que os outros israelitas comem a sua parte, em todo lugar, vós e os vossos lares”, v. 31.

Veja aqui qual é o caminho para ter o conforto de todas as nossas posses mundanas, de modo a não levar pecado por causa delas, como se segue no v. 32:

[1.] Devemos certificar-nos de que o que temos seja obtido com honestidade e no serviço de Deus. “É o vosso galardão pelo vosso serviço”; o melhor alimento é o que primeiro foi ganho; mas, “se alguém não quer trabalhar, também não comerá”, 2 Tessalonicenses 3:10.

E aquilo que é o galardão do serviço fiel feito no tabernáculo da congregação parece ser mencionado como tendo nele um conforto e uma satisfação particulares.

[2.] Devemos certificar-nos de que Deus tem o que lhe é devido dela. Então temos o conforto da nossa substância quando com ela honramos ao Senhor. Então “não levareis pecado por causa dela, quando dela tiverdes alçado o melhor”.

Isto dá a entender que nunca devemos nos alimentar sem temor, para que a nossa mesa não se torne um laço e não levemos pecado por causa dela; e que por isso nos importa dar esmolas das coisas que temos, para que tudo seja puro e confortável para nós.


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