Matthew Henry

Números 17

Argumento

No capítulo anterior já se tinha feito o bastante para abafar todas as pretensões das famílias da tribo de Levi que quisessem se pôr em disputa com Arão e para deixar claro que Arão era o cabeça da tribo; mas, ao que parece, resolvida essa questão, os príncipes das demais tribos começaram a murmurar.

Se o cabeça de uma tribo tinha de ser sacerdote, por que não o cabeça de alguma outra tribo que não a de Levi?

Aquele que sonda o coração sabia que esse pensamento estava no peito de alguns deles e, antes que ele irrompesse em qualquer ato declarado, graciosamente o antecipou, para evitar derramamento de sangue; e isso se faz por milagre neste capítulo, não um milagre de ira, como antes, mas de graça.

I. A questão é posta à prova com a apresentação de doze varas, uma para cada príncipe, diante do Senhor, vv. 1-7.

II. Feita a prova, a questão é decidida pelo florescimento miraculoso da vara de Arão, v. 8, 9.

III. A decisão da controvérsia é registrada pela conservação da vara, v. 10, 11.

IV. O povo se conforma com ela, ainda que com alguma relutância, v. 12, 13.

Versículos 1 a 7

O Florescimento da Vara de Arão. (a.C. 1490.)

Aqui temos:

I. Ordens dadas para que se traga uma vara para cada tribo (o que era particularmente significativo, pois a palavra aqui usada para vara às vezes significa tribo, como em particular Números 34:13), a fim de que Deus, por um milagre feito de propósito, desse a conhecer a quem tinha conferido a honra do sacerdócio.

  1. Ao que parece, então, o sacerdócio era um cargo de honra que valia a pena buscar e pelo qual valia a pena lutar, até pelos príncipes das tribos.

É uma honra para o maior dos homens ser empregado no serviço de Deus. Contudo, talvez esses o disputassem mais por causa do proveito e do poder que acompanhavam o ofício do que por causa do que nele havia de divino e sagrado.

  1. Parece igualmente que, depois de tudo o que se fizera para resolver essa questão, havia quem estivesse pronto, em qualquer ocasião, a contestá-la. Não se conformariam com a designação divina, mas fariam partido contra ela.

Contendem com Deus pelo domínio; e a questão é qual vontade prevalecerá. Deus governará, mas Israel não será governado; e essa é a desavença.

  1. É um exemplo da graça de Deus que, tendo operado diversos milagres para punir o pecado, tenha querido operar mais um, de propósito, para evitá-lo. Deus providenciou eficazmente que os obstinados fiquem inescusáveis, e toda boca seja calada.

Israel era muito propenso a murmurar tanto contra Deus quanto contra os seus governantes. “Agora”, disse Deus, “farei cessar de mim as murmurações dos filhos de Israel”, v. 5. “Se alguma coisa os convencer, ficarão convencidos; e, se isto não os convencer, nada convencerá.”

Isto seria para eles, como Cristo disse que o sinal do profeta Jonas (isto é, a sua própria ressurreição) seria para os homens daquela geração, a mais alta prova da sua missão que lhes seria dada. As instruções são:

(1.) Que se trouxessem doze varas ou bastões. É provável que não fossem, naquele momento, varas recém-cortadas de uma árvore, pois então o milagre não teria sido tão grande; mas que fossem os bastões que os príncipes usavam habitualmente como insígnias da sua autoridade (dos quais lemos em Números 21:18), bastões velhos e secos, sem seiva, e é provável que fossem todos de amendoeira.

Parece que eram apenas doze no total, contando a de Arão, pois, quando Levi entra na conta, Efraim e Manassés fazem apenas uma, sob o nome de José.

(2.) Que o nome de cada príncipe fosse escrito na sua vara, para que cada homem reconhecesse a sua própria e para evitar contestações. Escrever costuma ser uma boa salvaguarda contra a contenda, pois ao que está escrito se pode recorrer.

(3.) Que fossem guardadas no tabernáculo, por uma noite, diante do testemunho, isto é, diante da arca, que, com o seu propiciatório, era um símbolo, sinal ou testemunho da presença de Deus com eles.

(4.) Deviam esperar, por lhes ter sido dito de antemão, que a vara da tribo, ou do príncipe, que Deus escolhesse para o sacerdócio brotaria e floresceria, v. 5.

Era necessário que lhes fosse dito isso, para que se visse que não era casual, mas conforme o conselho e a vontade de Deus.

II. O preparo das varas de acordo com isso.

Os príncipes as trouxeram, alguns deles talvez esperando tolamente que a escolha recairia sobre eles, e todos achando que era honra suficiente ser rivais de Arão e figurar como candidatos, mesmo ao sacerdócio (v. 7); e Moisés as guardou diante do Senhor.

Ele não objetou que a questão já estava suficientemente resolvida, e que já se tinha feito o bastante para convencer os que não estivessem invencivelmente endurecidos nos seus preconceitos.

Não se propôs decidir a controvérsia ele mesmo, embora isso pudesse ter sido feito com facilidade; nem sugeriu que seria inútil oferecer satisfação a um povo voluntariamente cego. Mas, uma vez que Deus assim o quer, fez a sua parte, e depositou o caso diante do Senhor, a quem o apelo foi feito de comum acordo, e o deixou com ele.

Versículos 8 a 13

Aqui está:

I. A determinação final da controvérsia acerca do sacerdócio por um milagre, v. 8, 9.

As varas ou bastões foram tirados do lugar santíssimo onde tinham sido guardados e apresentados publicamente diante do povo; e, enquanto todas as demais varas continuaram como estavam, somente a vara de Arão, de um pau seco, tornou-se um ramo vivo, brotou, floresceu e deu amêndoas.

Em alguns lugares havia brotos, em outros flores, em outros fruto, ao mesmo tempo. Isto foi miraculoso e afastou toda suspeita de fraude, como se, durante a noite, Moisés tivesse tirado a vara de Arão e posto em lugar dela um ramo vivo de amendoeira; pois nenhum ramo comum teria brotos, flores e frutos, tudo de uma só vez. Ora:

  1. Isto foi uma indicação clara ao povo de que Arão fora escolhido para o sacerdócio, e não qualquer outro dos príncipes das tribos. Assim ele foi distinguido deles e manifestado como estando sob a bênção especial do céu, que às vezes dá crescimento onde não há plantio nem rega pela mão do homem.

O bispo Hall observa aqui que a frutificação é a melhor evidência de um chamado divino, e que as plantas do plantio de Deus, e os ramos cortados delas, florescerão. Veja Salmos 92:12-14. As árvores do Senhor, ainda que pareçam árvores secas, estão cheias de seiva.

  1. Foi um sinal muito apropriado para representar o próprio sacerdócio, que com isto foi confirmado a Arão:

(1.) Que fosse frutífero e útil à igreja de Deus. Produziu não só flores, mas amêndoas; pois o sacerdócio foi destinado, não só para uma honra a Arão, mas para uma bênção a Israel. Assim Cristo ordenou os seus apóstolos e ministros para que fossem e dessem fruto, e o seu fruto permanecesse, João 15:16.

(2.) Que houvesse uma sucessão de sacerdotes. Havia aqui não só amêndoas para o presente, mas brotos e flores que prometiam mais para daqui em diante. Assim Cristo providenciou na sua igreja que uma semente o sirva de geração em geração.

(3.) Que, contudo, este sacerdócio não fosse perpétuo, mas, com o correr do tempo, como os ramos e as flores de uma árvore, falhasse e murchasse. O florescer da amendoeira é mencionado como um dos sinais da velhice, Eclesiastes 12:5.

Este caráter foi cedo posto sobre o sacerdócio mosaico, que logo se tornou “velho e pronto a desaparecer”, Hebreus 8:13.

  1. Foi um tipo e figura de Cristo e do seu sacerdócio: pois ele é o homem, o ramo, que deve ser “sacerdote sobre o seu trono”, como se segue (Zacarias 6:12); e devia crescer diante de Deus, como esta vara diante da arca, como “uma planta tenra, e uma raiz saída de terra seca”, Isaías 53:2.

II. O registro desta decisão, pela conservação da vara diante do testemunho, in perpetuam rei memoriam — para que fosse tida em perpétua lembrança, v. 10, 11.

É provável que os brotos, as flores e o fruto tenham continuado frescos; o mesmo poder divino que os produziu numa noite os conservou por eras, pelo menos enquanto foi necessário para um sinal contra os rebeldes. Assim foi um milagre permanente, e a sua continuação foi uma prova inegável da sua verdade.

Até a folha das árvores de Deus não murchará, Salmos 1:3. Esta vara foi conservada, como foram os incensários, para tirar as murmurações deles, para que não morressem. Repare:

  1. O desígnio de Deus em todas as suas providências, tanto misericórdias quanto juízos, e nos memoriais delas, é tirar o pecado e evitá-lo. Estas coisas são feitas, estas coisas são escritas, para que não pequemos, 1 João 2:1. Cristo foi manifestado para tirar o pecado.

  2. O que Deus faz para tirar o pecado é feito em verdadeira bondade para conosco, para que não morramos. Todas as poções amargas que ele dá, e todos os métodos severos que usa conosco, são para a cura de uma doença que de outro modo seria certamente fatal.

O bispo Hall observa aqui que as tábuas da lei, o pote do maná e a vara de Arão foram conservados juntos na arca ou junto dela (o apóstolo repara nos três juntos, Hebreus 9:4), para mostrar às eras futuras como a igreja antiga era ensinada, e alimentada, e governada; e daí infere quão preciosos são para Deus, e devem ser para nós, a doutrina, os sacramentos e o governo da igreja.

A vara de Moisés foi usada em muitos milagres, contudo não vemos que esta tenha sido conservada, pois guardá-la serviria apenas para satisfazer a curiosidade dos homens.

Mas a vara de Arão, que trazia consigo o seu milagre, foi cuidadosamente conservada, porque seria de uso permanente para convencer a consciência dos homens, calar todas as disputas sobre o sacerdócio e confirmar a fé do Israel de Deus nas suas instituições.

Tal é a diferença entre os sacramentos que Cristo instituiu para a edificação e as relíquias que os homens inventaram para a superstição.

III. O clamor do povo diante disto (v. 12, 13): “Eis que morremos, perecemos, todos nós perecemos. Seremos consumidos com o morrer?” Isto pode ser considerado como a linguagem ou:

  1. De um povo insatisfeito, em desavença com os juízos de Deus, que eles tinham trazido sobre si por meio do seu próprio orgulho e obstinação.

Parecem falar desesperadamente, como se Deus fosse um Senhor duro, que buscasse vantagem contra eles e aproveitasse todas as ocasiões para provocar desavenças com eles.

De modo que, se pisassem por menos que fosse fora do caminho, se passassem por menos que fosse além dos seus limites, tinham de morrer, tinham de perecer, tinham todos de perecer, insinuando vilmente que Deus jamais se satisfaria com o sangue e a ruína deles, até acabar com todos eles e serem consumidos com o morrer.

Assim se parecem com um touro selvagem preso numa rede, cheio do furor do Senhor (Isaías 51:20), irritando-se por Deus ser forte demais para eles e por serem forçados a se submeter, o que faziam só porque não podiam evitar.

Repare: é uma coisa muito perversa irritar-se contra Deus quando estamos em aflição, e assim, na nossa angústia, transgredir ainda mais. Se morrermos, se perecermos, isso se deve a nós mesmos, e a culpa recairá sobre as nossas próprias cabeças.

  1. Ou de um povo arrependido. Muitos intérpretes o tomam como expressão da submissão deles:

“Agora vemos que é vontade de Deus que guardemos a nossa distância, e que é por nossa conta e risco que nos aproximamos mais do que o determinado. Submetemo-nos à vontade divina nesta designação; não disputaremos mais, para que não pereçamos todos:” e eles pedem a Moisés que interceda em favor deles, para que não sejam todos consumidos com o morrer.

Assim o ponto foi ganho, e neste assunto Deus tirou de todo as murmurações deles, e daí em diante eles se conformaram.

Repare: quando Deus julga, vencerá, e, de um modo ou de outro, obrigará os opositores mais obstinados a confessar a sua loucura, mais cedo ou mais tarde, e que naquilo em que se portaram com soberba ele estava acima deles. Vicisti Galilæe — “Ó galileu, venceste!”


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