Números 14
Argumento
Este capítulo nos dá o relato daquela desavença fatal entre Deus e Israel, na qual, por causa da murmuração e da incredulidade deles, ele jurou na sua ira que não entrariam no seu descanso. Aqui está:
I. O motim e a rebelião de Israel contra Deus, ao ouvir o relatório dos espiões maus, vv. 1-4.
II. O empenho infrutífero de Moisés e Arão, Calebe e Josué para aquietar o tumulto, vv. 5-10.
III. A sua ruína total, justamente ameaçada por um Deus ofendido, v. 11, 12.
IV. A humilde intercessão de Moisés por eles, vv. 13-19.
V. Um abrandamento da sentença em resposta à oração de Moisés: não serão todos exterminados, mas o decreto sai ratificado com juramento, publicado ao povo, repetido vez após vez, de que toda esta congregação pereceria no deserto, e nenhum deles entraria em Canaã, senão Calebe e Josué somente, vv. 20-35.
VI. A morte imediata dos espiões maus, vv. 36-39.
VII. A repreensão dada aos que tentaram avançar mesmo assim, vv. 40-45.
E isto está escrito para a nossa advertência, para que não “caiamos segundo o mesmo exemplo de incredulidade.”
Versículos 1 a 4
A Murmuração dos Israelitas. (a.C. 1490.)
Aqui vemos o dano que os espiões maus causaram com o seu relato injusto. Podemos supor que os doze escolhidos para investigar Canaã tinham conversado o assunto entre si antes de apresentar o relatório em público.
E Calebe e Josué, é provável, tinham feito todo o possível para trazer os demais à sua opinião, e, se ao menos tivessem concordado que Calebe, conforme a sua proposta, falasse por todos, como porta-voz deles, tudo teria ido bem.
Mas os espiões maus, ao que parece, planejaram de propósito provocar este motim, unicamente em oposição a Moisés e Arão, embora não pudessem prometer-se nenhuma vantagem com isso, a menos que esperassem ser capitães e comandantes da retirada para o Egito que agora estavam meditando.
Mas o que resultou disso? Aqui, nestes versículos, vemos aqueles a quem procuravam agradar lançados em vexação e, antes do fim do capítulo, levados à ruína. Observe:
I. Como o povo se inquietou: “Levantaram a voz e gritaram” (v. 1); dando crédito ao relatório dos espiões mais do que à palavra de Deus e imaginando desesperada a sua condição, soltaram as rédeas das suas paixões e não conseguiram guardar nenhuma compostura.
Como crianças tolas e teimosas, põem-se a gritar e, contudo, não sabem por que gritam. Teria havido tempo de sobra para gritar quando o inimigo tivesse investido contra os seus alojamentos e eles tivessem visto os filhos de Anaque à porta do seu acampamento; mas os que gritavam quando nada lhes fazia mal mereciam que lhes dessem algo por que gritar.
E, como se tudo já estivesse perdido, sentaram-se e choraram naquela noite. Repare: a incredulidade, ou desconfiança de Deus, é um pecado que é o seu próprio castigo. Os que não confiam em Deus vivem vexando-se a si mesmos. Os pranteadores do mundo são mais que os de Deus, e a tristeza do mundo produz morte.
II. Como enfrentaram os seus governantes: murmuraram contra Moisés e Arão e, neles, ultrajaram o Senhor, v. 2, 3.
A congregação dos anciãos começou o descontentamento (v. 1), mas o contágio logo se espalhou por todo o acampamento, pois os filhos de Israel murmuraram. Suspeitas e descontentamentos se espalham como fogo em palha entre a multidão irrefletida, à qual se ensina com facilidade a desprezar a autoridade e a falar mal das dignidades.
- Olham para trás com um descontentamento sem causa.
Desejam ter morrido no Egito com os primogênitos que ali foram mortos, ou no deserto com os que havia pouco morreram da praga por cobiçarem. Veja a loucura prodigiosa das paixões desenfreadas, que tornam os homens pródigos até daquilo que a natureza tem por mais caro, a própria vida.
Nunca tantos meses foram passados tão agradavelmente como estes que tinham passado desde que saíram do Egito, carregados de honras, cercados de favores e entretidos sem cessar com uma coisa ou outra que os surpreendia. E ainda assim, como se tudo isso não tivesse feito valer a pena viver, desejaram ter morrido no Egito.
E tão pouco caso faziam dos tremendos juízos de Deus executados sobre os seus vizinhos por causa do pecado deles que desejaram ter participado com eles das suas pragas, em vez de correr o risco de fazer uma incursão em Canaã. Desejam antes morrer criminosos sob a justiça de Deus do que viver conquistadores no favor dele.
Alguns leem: “Ó, se tivéssemos morrido no Egito, ou no deserto! Ó, se pudéssemos morrer!” Desejam morrer, por medo de morrer; e não têm senso bastante para raciocinar como os pobres leprosos, que, em vez de morrer ali mesmo, se aventuraram no acampamento de um inimigo: “Se nos matarem, só morreremos”, 2 Reis 7:4.
Quão vil era o ânimo destes israelitas degenerados, que, em vez de morrer (se chegar ao pior) como soldados no leito de honra, com a espada na mão, desejam morrer como ovelhas podres no deserto.
- Olham para a frente com um desespero sem fundamento, dando por certo (v. 3) que, se seguissem adiante, teriam de cair pela espada, e alegam atribuir a causa do seu medo ao grande cuidado que tinham com as suas mulheres e os seus filhos, que, concluem, serão presa dos cananeus.
E aqui há uma insinuação perversíssima e blasfema contra o próprio Deus, como se ele os tivesse trazido até ali de propósito para que caíssem pela espada, e para que as suas mulheres e os seus filhos, esses pobres inocentes, fossem presa.
Assim acusam, na prática, o Deus que é o próprio amor da pior malícia, e a Verdade eterna da mais baixa hipocrisia, sugerindo que tudo o que ele lhes dissera de bondoso e fizera em favor deles até ali visava só atraí-los a uma armadilha e encobrir um desígnio secreto, levado adiante o tempo todo, de arruiná-los.
Que ousadia impudente! Mas o que não dirá contra o céu a língua que é inflamada pelo inferno?
O diabo mantém o seu interesse no coração dos homens insinuando-lhes maus pensamentos sobre Deus, como se ele desejasse a morte dos pecadores e se deleitasse nas agruras e nos sofrimentos dos seus próprios servos, quando ele sabe que os seus pensamentos para conosco (quer os conheçamos assim, quer não) são pensamentos de bem, e não de mal, Jeremias 29:11.
III. Como chegaram por fim a esta resolução desesperada: em vez de ir adiante para Canaã, voltariam de novo ao Egito.
A proposta é feita primeiro apenas em forma de pergunta (v. 3): “Não seria melhor para nós voltarmos ao Egito?” Mas, estando a fermentação alta e os ânimos do povo dispostos a acolher qualquer coisa perversa, logo amadureceu numa resolução, sem debate (v. 4): “Façamos um capitão e voltemos ao Egito.”
E é lamentado muito depois (Neemias 9:17) que eles, “na sua rebelião, nomearam um capitão para voltar à sua escravidão”; pois sabiam que Moisés não seria o seu capitão nessa retirada. Ora:
- Foi a maior loucura do mundo desejar estar no Egito, ou pensar que, se estivessem lá, seria melhor para eles do que era.
Se não ousavam avançar para Canaã, ainda assim mais valia ficarem como estavam do que voltarem ao Egito. Que lhes faltava? De que tinham a queixar-se?
Tinham fartura, e paz, e descanso, estavam sob um bom governo, tinham boa companhia, tinham os sinais da presença de Deus com eles e o bastante para viverem tranquilos até no deserto, se ao menos tivessem coração para se contentar.
Mas para onde estavam tão ansiosos por ir, a fim de melhorar a sua situação? Para o Egito! Tinham esquecido tão depressa a dura escravidão em que estiveram ali? Voltariam a ficar sob a tirania dos seus feitores e à labuta de fazer tijolos?
E, depois de todas as pragas que o Egito sofrera por causa deles, podiam esperar ali um tratamento melhor que o de antes, e não, ao contrário, muito pior?
Em quão pouco tempo (nem um ano e meio) esqueceram todos os suspiros da sua escravidão e todos os cânticos da sua libertação! Como animais brutos, só atentam para o que é presente, e as suas memórias, com as demais faculdades da razão, são sacrificadas às suas paixões. Veja Salmos 106:7.
Encontramos a ameaça (Deuteronômio 28:68), como o que completaria a sua miséria, de que seriam trazidos de volta ao Egito; e, ainda assim, é isto o que aqui desejam. Os pecadores são inimigos de si mesmos; e os que não andam nos conselhos de Deus tomam conselho para o seu próprio dano e ruína.
- Foi coisa insensatíssima e ridícula falar em voltar para lá pelo deserto. Podiam esperar que a nuvem de Deus os guiaria ou que o seu maná os acompanharia?
E, se não, os milhares de Israel teriam inevitavelmente de se perder e perecer no deserto. Supondo que as dificuldades de conquistar Canaã fossem tão grandes como imaginavam, as de voltar ao Egito eram muito maiores. Nisto vejamos:
(1.) A loucura do descontentamento e da impaciência sob as cruzes da nossa condição exterior. Incomodamo-nos com o que é, queixamo-nos do nosso lugar e da nossa sorte, e quereríamos mudar.
Mas há neste mundo algum lugar ou condição que não tenha algo que nos incomode, se estivermos dispostos a isso? O caminho para melhorar a nossa condição é pôr o nosso espírito em melhor disposição; e, em vez de perguntar: “Não seria melhor ir ao Egito?”, pergunte: “Não seria melhor contentar-se e tirar o melhor partido do que existe?”
(2.) A loucura da apostasia dos caminhos de Deus. O Céu é o Canaã posto diante de nós, terra que mana leite e mel; por pior que seja o relatório que dão dela, não podem deixar de dizer que é de fato uma boa terra, só que é difícil chegar lá.
A piedade rigorosa e séria é tida por coisa impraticável, e isso afasta muitos que começaram bem de prosseguir.
Em vez de passar pelas agruras imaginárias de uma vida religiosa, lançam-se nas consequências certas e fatais de um rumo pecaminoso; e assim copiam a loucura de Israel, que, quando estavam a um passo de Canaã, quiseram fazer um capitão e voltar ao Egito.
Versículos 5 a 10
O Apelo de Josué e Calebe. (a.C. 1490.)
Os amigos de Israel intervêm aqui para salvá-los, se possível, de se arruinarem a si mesmos, mas em vão.
Os médicos do seu estado quiseram curá-los, mas eles não quiseram ser curados; as suas sentinelas os avisaram, mas eles não quiseram dar ouvidos ao aviso, e assim o sangue deles está sobre a sua própria cabeça.
I. Empregaram-se os melhores esforços para aquietar o tumulto e, se agora, por fim, tivessem entendido as coisas que pertenciam à sua paz, todo o dano que se seguiu teria sido evitado.
- Moisés e Arão fizeram a sua parte, v. 5. Embora fosse contra eles que murmuravam (v. 2), ainda assim relevaram corajosamente a afronta e a injúria que lhes fizeram, e se mostraram amigos fiéis daqueles que eram inimigos violentos deles.
O clamor e o barulho do povo eram tão grandes que Moisés e Arão não podiam ser ouvidos; se mandassem algum dos seus servos proclamar silêncio, a multidão irada talvez se tornasse ainda mais clamorosa; e por isso, para obter audiência à vista de toda a assembleia, caíram com o rosto em terra, exprimindo assim:
(1.) As suas humildes orações a Deus para que aquietasse o barulho deste mar, o barulho das suas ondas, isto é, o tumulto do povo.
(2.) A grande perturbação e preocupação dos seus próprios espíritos. Caíram por terra como homens atônitos e até fulminados por um raio, pasmados de ver um povo jogar fora as suas próprias misericórdias: de ver tão mal-humorados os que tinham sido tão bem ensinados.
(3.) E o grande empenho deles com o povo para que cessassem as suas murmurações; esperavam comovê-los com essa postura humilde e conseguir o intento de que não persistissem na sua rebelião; Moisés e Arão lhes rogam, como se por meio deles o próprio Deus lhes rogasse, que se reconciliem com Deus.
O que disseram ao povo Moisés relata na repetição desta história. Deuteronômio 1:29, 30: “Não tenhais medo; o Senhor vosso Deus combaterá por vós.”
Repare: os que são amigos zelosos das almas preciosas se rebaixarão a qualquer coisa pela salvação delas. Moisés e Arão, apesar dos postos de honra que ocupam, prostram-se diante do povo para lhes pedir que não se arruínem.
- Calebe e Josué fizeram a sua parte: rasgaram as suas vestes em santa indignação diante do pecado do povo e em santo temor da ira de Deus, que viam prestes a irromper contra eles.
Era maior a perturbação destes homens bons porque o tumulto fora ocasionado por aqueles espiões com quem tinham sido unidos na comissão; e por isso julgaram-se obrigados a fazer o que pudessem para aquietar a tempestade que os seus companheiros tinham levantado.
Nenhum raciocínio poderia ser mais pertinente e comovente que o deles (vv. 7-9), e falaram como que com autoridade.
(1.) Asseguraram-lhes a bondade da terra que tinham explorado, e de que valia de fato a pena arriscar-se por ela, e de que não era uma terra que devorava os seus habitantes, como os espiões maus a tinham representado.
“É uma terra sobremaneira boa” (v. 7); é muito, muito boa, é o que diz a palavra; de modo que não tinham razão para desprezar esta terra agradável. Repare: se os homens estivessem ao menos plenamente convencidos de quão desejáveis são os ganhos da religião, não recuariam diante dos serviços dela.
(2.) Não fizeram caso das dificuldades que pareciam estar no caminho da posse dela: “Não temais o povo da terra”, v. 9. “Sejam quais forem as ideias temíveis que vos deram deles, o leão não é tão feroz quanto o pintam. Eles são pão para nós”, isto é:
“Estão postos diante de nós mais para nos alimentarmos deles do que para combatermos com eles, tão facilmente, tão agradavelmente e com tanta vantagem para nós os venceremos.” Diz-se que o Faraó lhes foi dado por alimento (Salmos 74:14), e os cananeus também o serão.
Mostram que, o que quer que se sugerisse em contrário, a vantagem estava clara do lado de Israel. Pois:
[1.] Embora os cananeus habitem em cidades muradas, estão nus: “A sua defesa se retirou deles”; essa providência comum que preserva os direitos das nações os abandonou e não lhes será abrigo nem proteção.
Os outros espiões repararam na força deles, mas estes, na sua maldade, e daí inferiram que Deus os abandonara e que, por isso, a sua defesa se retirara. Nenhum povo pode estar seguro quando provocou Deus a deixá-lo.
[2.] Embora Israel habite em tendas, está fortificado: “O Senhor está conosco”; e o seu nome é uma torre forte: “não os temais”. Repare: enquanto temos conosco a presença de Deus, não precisamos temer a mais poderosa força contra nós.
(3.) Mostraram-lhes claramente que todo o perigo em que estavam vinha dos seus próprios descontentamentos, e que teriam sucesso contra todos os seus inimigos se não fizessem de Deus o seu inimigo.
A causa dependeria só deste ponto (v. 8): “Se o Senhor se agradar de nós, como certamente se agrada, e se agradará se não o provocarmos, ele nos introduzirá nesta boa terra; sem falta a possuiremos pelo seu favor e pela luz do seu semblante (Salmos 44:3), se não perdermos o seu favor e, pelas nossas próprias loucuras, não afastarmos as nossas próprias misericórdias.”
A questão se reduziu a isto (v. 9): “Somente não vos rebeleis contra o Senhor.” Repare: nada pode arruinar os pecadores senão a sua própria rebelião.
Se Deus os deixa, é porque o afastam de si; e morrem porque querem morrer. Ninguém é excluído do Canaã celestial, senão os que se excluem a si mesmos.
E agora, poderia o caso ter sido exposto com mais clareza? Poderia ter sido instado mais de perto? Mas qual foi o efeito?
II. Foi tudo em vão; ficaram surdos a esse raciocínio justo; ou melhor, ficaram exasperados por ele e se tornaram mais violentos: “Toda a congregação mandou apedrejá-los com pedras”, v. 10.
Os governantes da congregação e os grandes (conforme o bispo Patrick) ordenaram à gente comum que se lançasse sobre eles e lhes estourasse os miolos. Triste era de fato o caso deles quando os seus líderes assim os faziam errar.
Repare: é comum que aqueles cujo coração está plenamente decidido a fazer o mal se enfureçam contra os que lhes dão bom conselho. Os que odeiam ser reformados odeiam os que os querem reformar, e os têm por inimigos porque lhes dizem a verdade.
Assim, tão cedo Israel começou a maltratar os profetas e a apedrejar os que lhes eram enviados, e foi isto que encheu a medida do seu pecado, Mateus 23:37.
“Apedrejai-os com pedras!” Ora, que mal fizeram? Nenhum crime lhes pode ser lançado à conta; mas a verdade é que estas duas testemunhas atormentavam os que eram obstinados na sua falta de fé, Apocalipse 11:10.
Calebe e Josué tinham acabado de dizer: “O Senhor está conosco; não os temais” (v. 9); e, se Israel não quer aplicar estas palavras animadoras aos seus próprios temores, os que as proferiram sabem animar-se com elas contra esta multidão enfurecida que falava em apedrejá-los, como Davi numa causa semelhante, 1 Samuel 30:6.
Os que não conseguem edificar os outros com os seus conselhos e consolações devem procurar ao menos edificar-se a si mesmos. Calebe e Josué sabiam que se apresentavam em favor de Deus e da sua glória, e por isso não duvidavam de que Deus se apresentaria em favor deles e da sua segurança.
E não ficaram decepcionados, pois logo a glória do Senhor apareceu, para terror e confusão dos que queriam apedrejar os servos de Deus. Quando lançaram insinuações contra Deus (v. 3), a sua glória não apareceu para calar as blasfêmias deles; mas, quando ameaçaram Calebe e Josué, tocaram a menina dos seus olhos, e a sua glória apareceu logo.
Repare: os que se expõem fielmente por Deus estão certos de ser tomados sob a sua proteção especial e serão escondidos da fúria dos homens, seja debaixo do céu, seja no céu.
Versículos 11 a 19
A Intercessão de Moisés. (a.C. 1490.)
Aqui está:
I. A sentença justa que Deus proferiu contra Israel por causa da sua murmuração e incredulidade, a qual, embora depois abrandada, mostrou o que o seu pecado merecia e o que exigia a justiça lesada, e o que teria sido feito se Moisés não se tivesse interposto.
Quando a glória do Senhor apareceu no tabernáculo, podemos supor que Moisés a tomou por um chamado para que viesse logo e ali comparecesse, como, antes de o tabernáculo ser erguido, subiu ao monte num caso semelhante, Êxodo 32:30.
Assim, enquanto o povo procurava desonrá-lo, Deus publicamente lhe conferiu honra, como ao homem do seu conselho. Agora, aqui nos é dito o que Deus lhe disse ali.
- Mostrou-lhe o grande mal do pecado do povo, v. 11.
O que se passava entre Deus e Israel passava pelas mãos de Moisés: quando se desagradavam de Deus, diziam-no a Moisés (v. 2); quando Deus se desagradava deles, dizia-o também a Moisés, revelando o seu segredo ao seu servo, o profeta, Amós 3:7. Duas coisas de que Deus justamente se queixa a Moisés:
(1.) O pecado deles. Eles me provocam, ou (como significa a palavra) me rejeitam, me ultrajam, me desprezam, pois não querem crer em mim. Esta era a raiz amarga que dava fel e absinto. Foi a incredulidade deles que fez deste um dia de provocação no deserto, Hebreus 3:8.
Repare: a desconfiança de Deus, do seu poder e da sua promessa, é em si mesma uma provocação muito grande, e está no fundo de muitas outras provocações. A incredulidade é um grande pecado (1 João 5:10) e um pecado-raiz, Hebreus 3:12.
(2.) A continuação deles nele: “Até quando farão assim?” Repare: o Deus do céu leva a conta de quanto tempo os pecadores persistem nas suas provocações; e quanto mais persistem, mais ele se desagrada. Os agravantes do seu pecado eram:
[1.] A relação deles com Deus: “Este povo”, um povo peculiar, um povo que professa a fé. Quanto mais perto de Deus alguém está em nome e em profissão, mais ele é provocado pelos seus pecados, especialmente pela sua incredulidade.
[2.] A experiência que tinham tido do poder e da bondade de Deus, em todos os sinais que ele tinha mostrado no meio deles, pelos quais, seria de pensar, ele os tinha obrigado eficazmente a confiar nele e segui-lo. Quanto mais Deus fez por nós, maior é a provocação se desconfiamos dele.
- Mostrou-lhe a sentença que a justiça proferiu contra eles por isso, v. 12.
“Que resta agora senão que eu lhes dê um fim completo? Logo estará feito. Eu os ferirei com a peste, não deixarei vivo um só deles, mas apagarei por completo o seu nome e a sua raça, e assim os deserdarei e não serei mais perturbado por eles. Ah, aliviar-me-ei dos meus adversários. Desejam morrer; e que morram, e que deles não fique nem raiz nem ramo. Filhos tão rebeldes merecem ser deserdados.”
E, se perguntarem: “Que será, então, da aliança de Deus com Abraão?”, eis uma resposta: “Ela será preservada na família de Moisés: farei de ti uma nação maior.” Assim:
(1.) Deus quis pôr Moisés à prova, para ver se ainda conservava aquela afeição por Israel que exprimira antes em ocasião semelhante, ao preferir os interesses deles ao engrandecimento da sua própria família; e ficou provado que Moisés era ainda do mesmo espírito público e não suportava a ideia de erguer o seu próprio nome sobre a ruína do nome de Israel.
(2.) Deus quis ensinar-nos que não sairá perdendo com a ruína dos pecadores. Se Adão e Eva tivessem sido exterminados e deserdados, ele poderia ter feito outro Adão e outra Eva, e ter glorificado neles a sua misericórdia, assim como aqui poderia ter glorificado a sua misericórdia em Moisés, ainda que Israel tivesse sido arruinado.
II. A humilde intercessão que Moisés fez por eles.
O pecado deles tinha aberto uma brecha fatal no muro da sua defesa, pela qual a destruição teria entrado com certeza se Moisés não tivesse oportunamente se postado nela e a fechado.
Nisto ele foi tipo de Cristo, que intercedeu pelos seus perseguidores e orou pelos que o tratavam com desprezo, deixando-nos um exemplo de acordo com a sua própria regra, Mateus 5:44.
- A oração da sua petição é, numa só palavra: “Perdoa, peço-te, a iniquidade deste povo” (v. 19), isto é, “Não tragas sobre eles a ruína que merecem.”
Foi a oração de Cristo pelos que o crucificaram: “Pai, perdoa-lhes.” O perdão de um pecado nacional, enquanto tal, consiste em afastar o castigo nacional; e é isso o que Moisés aqui pede com tanto empenho.
- Os argumentos são muitos e fortemente instados:
(1.) Insiste mais no argumento tirado da glória de Deus, vv. 13-16. Começa por ele, e de modo um tanto abrupto, tomando ocasião daquela palavra terrível: “Eu os deserdarei.” “Senhor”, diz ele, “então os egípcios o ouvirão.”
A honra de Deus estava mais perto do seu coração que quaisquer interesses seus. Observe como ele ordena esta causa diante de Deus. Ele argumenta:
[1.] Que os olhos tanto do Egito quanto de Canaã estavam sobre eles, e grandes expectativas se levantaram a respeito deles. Não podiam deixar de ter ouvido que “tu, Senhor, estás no meio deste povo”, v. 14.
Os países vizinhos ressoavam disso, de quanto este povo era o cuidado particular do céu, como nunca foi nenhum povo debaixo do sol.
[2.] Que, se fossem exterminados, isso seria muito notado. “Os egípcios o ouvirão (v. 13), pois têm os seus espiões entre nós, e o contarão aos habitantes da terra” (v. 14); pois havia grande intercâmbio entre o Egito e Canaã, embora não pelo caminho deste deserto.
“Se este povo, que fez tão grande barulho, for todo consumido, se as suas poderosas alegações se reduzirem a nada e a sua luz se extinguir como um pavio que morre, será contado com prazer em Gate e publicado nas ruas de Asquelom; e que interpretação darão a isso os pagãos?”
“Será impossível fazê-los entender isso como ato da justiça de Deus e, como tal, redundando em honra de Deus; os homens brutais não sabem isto (Salmos 92:6); mas o atribuirão à falha do poder de Deus, e assim o converterão em ultraje contra ele, v. 16.”
“Dirão: Ele os matou no deserto porque não foi capaz de levá-los a Canaã, estando o seu braço encurtado e esgotado o seu estoque de milagres. Agora, Senhor, que um atributo não seja glorificado à custa de outro; antes que a misericórdia se regozije contra o juízo do que o poder todo-poderoso seja impugnado.”
Repare: os melhores argumentos na oração são os que se tiram da honra de Deus; pois concordam com a primeira petição da Oração do Senhor: “Santificado seja o teu nome.” “Não desonres o trono da tua glória.”
O próprio Deus o argumenta consigo mesmo (Deuteronômio 32:27): “Temi a ira do inimigo”; e devemos usá-lo como razão para nós mesmos, de modo a andar em tudo de tal maneira que não demos ocasião aos inimigos do Senhor para blasfemar, 1 Timóteo 6:1.
(2.) Argumenta com a proclamação que Deus fez do seu nome em Horebe (v. 17, 18): “Seja grande o poder do Senhor.” Aqui o poder é posto no lugar da misericórdia que perdoa; é o seu poder sobre a sua própria ira.
Se ele os destruísse, o poder de Deus seria posto em questão; se ele continuasse e completasse a salvação deles, apesar das dificuldades que surgiam não só da força dos inimigos, mas das próprias provocações deles, isso engrandeceria muito o poder divino: o que não pode fazer quem podia tornar conquistador um povo tão fraco e favorito um povo tão indigno?
Quanto maior o perigo de que outros ultrajem o poder de Deus, mais desejosos devemos ficar de vê-lo glorificado.
Para reforçar esta petição, ele remete à palavra que Deus tinha dito: “O Senhor é longânimo e de grande misericórdia.” A bondade de Deus tinha sido mencionada ali como a sua glória; Deus se gloriava nela, Êxodo 34:6, 7. Agora aqui ele ora para que, nesta ocasião, Deus a glorifique.
Repare: devemos tirar o nosso ânimo na oração da palavra de Deus, na qual ele nos fez esperar, Salmos 119:49. “Senhor, sê e faze conforme falaste; pois falaste tu, e não o cumprirás?”
Três coisas Deus tinha declarado solenemente, às quais Moisés aqui se agarra e aproveita para reforçar a sua petição:
[1.] A bondade da natureza de Deus em geral: que ele é longânimo, ou tardio em irar-se, e de grande misericórdia; não se provoca depressa, mas é terno e compassivo para com os culpados.
[2.] A sua prontidão em particular para perdoar o pecado: “Perdoando a iniquidade e a transgressão”, pecados de toda espécie.
[3.] A sua relutância em chegar aos extremos, mesmo quando castiga. Pois neste sentido se podem ler as palavras seguintes: “Que de modo algum deixará totalmente desolados, visitando a iniquidade dos pais sobre os filhos.”
Deus tinha de fato dito no segundo mandamento que visitaria assim, mas aqui promete não dar fim completo a famílias, igrejas e nações de uma só vez.
E assim é muito aplicável a esta ocasião, pois Moisés não pode rogar que Deus não castigue de modo algum este pecado (seria um incentivo grande demais à rebelião se ele não pusesse nenhuma marca do seu desagrado sobre ele), mas que não mate todo este povo como um só homem, v. 15.
Ele não pede que não sejam corrigidos, mas que não sejam deserdados. E esta proclamação do nome de Deus era tanto mais apropriada ao seu propósito porque foi feita por ocasião do perdão do pecado deles ao fazerem o bezerro de ouro. Este pecado em que tinham caído agora era bastante mau, mas não era idolatria.
(3.) Argumenta com a experiência passada: “Como perdoaste este povo desde o Egito”, v. 19. Isto parecia militar contra ele.
Por que seriam perdoados de novo os que, depois de terem sido tantas vezes perdoados, se revoltaram cada vez mais, e pareciam endurecidos e animados na sua rebelião pela brandura e paciência do seu Deus e pelos frequentes perdões que tinham obtido?
Entre os homens teria sido considerado pouco sagaz reparar numa circunstância dessas num pedido desta natureza, pois poderia operar em prejuízo do suplicante.
Mas, como em outras coisas, assim também em perdoar o pecado os pensamentos e os caminhos de Deus estão infinitamente acima dos nossos, Isaías 55:9. Moisés a tem por bom argumento: “Senhor, perdoa, como perdoaste. Não será mais um ultraje à tua justiça, nem menos louvor da tua misericórdia, perdoar agora do que foi antes.”
Por isso os filhos de Jacó não são consumidos, pois têm de lidar com um Deus que não muda, Malaquias 3:6.
Versículos 20 a 35
A Resposta de Deus a Moisés; os Israelitas Ameaçados. (a.C. 1490.)
Temos aqui a resposta de Deus à oração de Moisés, que canta tanto de misericórdia quanto de juízo. É dada em particular a Moisés (vv. 20-25) e depois se ordena que seja tornada pública ao povo, vv. 26-35.
As frequentes repetições das mesmas coisas nela mostram que estas resoluções são inalteráveis. Vejamos os pormenores.
I. Recua-se do extremo da sentença (v. 20): “Perdoei, de modo a não os exterminar todos de uma vez, nem os deserdar.”
Veja o poder da oração e o prazer que Deus tem em conferir-lhe honra. Ele tinha o desígnio de perdoar, mas Moisés terá o louvor de obtê-lo por oração: “Será feito conforme a tua palavra”; assim, como príncipe, ele tem poder com Deus e prevalece.
Veja que apoio e ânimo Deus dá às nossas intercessões por outros, para que tenhamos espírito público na oração. Aqui está uma nação inteira resgatada da ruína pela oração eficaz e fervorosa de um só justo.
Veja como Deus está pronto a perdoar o pecado e como é fácil de ser rogado: “Perdoa”, diz Moisés (v. 19); “Perdoei”, diz Deus, v. 20. Davi o achou assim rápido em mostrar misericórdia, Salmos 32:5. Ele não procede conosco segundo os nossos pecados, Salmos 103:10.
II. Resolve-se, em geral, a glorificação do nome de Deus, v. 21. Diz-se, jura-se: “Toda a terra será cheia da glória do Senhor.”
Moisés, na sua oração, tinha mostrado grande preocupação com a glória de Deus. “Deixa por minha conta”, diz Deus, “assegurar isso eficazmente e promovê-lo, por meio desta dispensação.”
Todo o mundo verá como Deus odeia o pecado até no seu próprio povo e lhe pedirá contas, e, ainda assim, como ele é gracioso e misericordioso e quão tardio em irar-se.
Assim, quando o nosso Salvador orou: “Pai, glorifica o teu nome”, foi logo respondido: “Eu o glorifiquei e o glorificarei ainda outra vez”, João 12:28.
Repare: os que buscam sinceramente a glória de Deus podem ter certeza do que buscam. Tendo Deus convertido esta oração pela glorificação de si mesmo numa promessa, podemos convertê-la em louvor, em harmonia com os anjos, Isaías 6:3: “A terra está cheia da sua glória.”
III. Aqui se agrava o pecado deste povo, que provocou Deus a proceder contra eles, v. 22, 27. Não é feito pior do que realmente era, mas é mostrado como extremamente pecaminoso. Era uma congregação má: cada um era mau, mas todos juntos, em congregação, muito maus.
- Tentaram a Deus: tentaram o seu poder, para ver se ele podia ajudá-los nos seus apertos; a sua bondade, para ver se ele queria; e a sua fidelidade, para ver se a sua promessa seria cumprida.
Tentaram a sua justiça, para ver se ele levaria a mal as suas provocações e os castigaria ou não. Afrontaram-no e, na prática, o desafiaram, como Deus faz com os ídolos (Isaías 41:23), a fazer o bem ou o mal.
- Murmuraram contra ele. Insiste-se muito nisto, v. 27. Assim como punham em questão o que ele faria, assim também entravam em desavença com ele por tudo o que fazia ou tinha feito, sem cessar se inquietando e achando defeito.
Não parece que murmurassem contra alguma das leis ou ordenanças que Deus lhes deu (embora se revelassem um jugo pesado), mas murmuraram contra a condução sob a qual estavam e contra a provisão feita para eles.
Repare: é muito mais fácil levar-nos aos serviços externos da religião e observar todas as formalidades da devoção do que viver uma vida de dependência da Providência divina e de submissão a ela no curso da nossa conduta.
Fizeram isto depois de terem visto os milagres de Deus no Egito e no deserto, v. 22. Não quiseram crer nos seus próprios olhos, que eram testemunhas em favor de Deus de que ele estava no meio deles em verdade.
Tinham repetido as provocações dez vezes, isto é, muito frequentemente: os escritores judeus consideram esta exatamente a décima vez que o corpo da congregação tinha provocado Deus.
Primeiro, no Mar Vermelho, Êxodo 14:11. Em Mara, Êxodo 15:23, 24. No deserto de Sim, Êxodo 16:2. Em Refidim, Êxodo 17:1, 2. O bezerro de ouro, Êxodo 32. Depois em Taberá. Depois em Quibrote-Hataavá, Números 11. E assim esta foi a décima.
Repare: Deus leva a conta de quantas vezes repetimos as nossas provocações e, mais cedo ou mais tarde, as porá em ordem diante de nós.
- Não tinham dado ouvidos à sua voz, embora ele os tivesse admoestado do seu pecado vez após vez.
IV. A sentença proferida contra eles por este pecado:
- Que não veriam a terra prometida (v. 23), nem entrariam nela, v. 30. Ele jurou na sua ira que não entrariam no seu descanso, Salmos 95:11.
Repare: a descrença da promessa é a perda do direito ao benefício dela. Os que desprezam a terra agradável serão deixados de fora. A promessa de Deus seria cumprida para a sua posteridade, mas não para eles.
- Que voltariam logo para o deserto, v. 25. A sua próxima mudança seria uma retirada.
Teriam de dar meia-volta e, em vez de seguir adiante para Canaã, em cujas próprias fronteiras estavam agora, teriam de recuar de novo em direção ao Mar Vermelho.
“Amanhã, voltai-vos”; isto é: “Muito em breve sereis levados de volta àquele vasto deserto uivante de que estais tão cansados. E é hora de cuidar da vossa própria segurança, pois os amalequitas estão à espreita no vale, prontos para vos atacar se avançardes.”
Deles tinham temido com desconfiança (Números 13:29), e agora com eles Deus os assustou com justiça. O temor do ímpio virá sobre ele.
- Que todos os que tinham agora chegado à idade adulta morreriam no deserto, não todos de uma vez, mas aos poucos.
Desejaram poder morrer no deserto, e Deus disse Amém ao seu desejo apaixonado, e fez do seu pecado a sua ruína, prendeu-os nas palavras da sua boca, fez que a sua própria língua caísse sobre eles, tomou-os pela palavra e determinou que os seus cadáveres cairiam no deserto, v. 28, 29, e de novo, v. 32, 35.
Veja com que desprezo se fala deles, agora que tinham tornado a si mesmos vis pelo seu pecado; os poderosos homens de valor eram só cadáveres, quando o Espírito do Senhor se tinha retirado deles. Eram todos como homens mortos.
Os pais deles tinham tal apreço por Canaã que desejaram ter os seus corpos mortos levados para lá a fim de serem sepultados, em sinal da sua dependência da promessa de Deus de que teriam aquela terra por possessão.
Mas estes, tendo desprezado aquela boa terra e descrido da promessa dela, não terão a honra de ser sepultados nela, mas terão a sua sepultura no deserto.
- Que, em cumprimento desta sentença, vagariam de um lado para outro no deserto, como viajantes que se perderam, por quarenta anos; isto é, por tanto tempo que completasse quarenta anos inteiros desde a saída deles do Egito até a entrada em Canaã, v. 33, 34. Por tanto tempo foram mantidos vagando:
(1.) Para corresponder ao número dos dias em que os espiões sondavam a terra. Contentaram-se em esperar quarenta dias pelo testemunho de homens, porque não podiam aceitar a palavra de Deus; e por isso com justiça são mantidos quarenta anos esperando o cumprimento da promessa de Deus.
(2.) Para que com isso fossem levados ao arrependimento e achassem misericórdia com Deus no outro mundo, fosse o que fosse que lhes acontecesse neste.
Agora tinham tempo para refletir e considerar os seus caminhos; e os incômodos do deserto ajudariam a humilhá-los e prová-los e mostrar-lhes o que havia no seu coração, Deuteronômio 8:2.
Por tanto tempo levaram sobre si as suas iniquidades, sentindo no castigo o peso da ira de Deus. Foram obrigados a gemer sob o fardo do seu próprio pecado, que a trouxera sobre eles e era pesado demais para eles suportarem.
(3.) Para que sentissem palpavelmente que coisa perigosa é para o povo da aliança de Deus romper com ele:
“Conhecereis a minha quebra de promessa, tanto as causas dela, que é atraída pelo vosso pecado” (pois Deus nunca deixa ninguém até que primeiro o deixem), “quanto as consequências dela, que produzirá a vossa ruína; estais totalmente perdidos quando sois lançados fora da aliança.”
(4.) Para que neste tempo fosse suscitada uma nova geração, o que não podia ser feito de uma hora para outra.
E os filhos, criados sob os sinais do desagrado de Deus contra os seus pais, e assim levando as suas prostituições (isto é, o castigo dos seus pecados, especialmente a sua idolatria a respeito do bezerro de ouro, que Deus agora lembrava contra eles), tomassem aviso e não pisassem nas pegadas da desobediência dos seus pais.
E o vaguear deles por tanto tempo no deserto tornaria Canaã, por fim, tanto mais bem-vinda para eles.
Ao que parece, por ocasião desta sentença Moisés escreveu o Salmo noventa, muito apropriado ao estado presente de Israel, e no qual são ensinados a orar para que, já que esta sentença não podia ser revertida, ela fosse santificada, e eles aprendessem a aplicar o coração à sabedoria.
V. A misericórdia que se misturou a esta severa sentença:
- Misericórdia para com Calebe e Josué, de que, embora vagassem com os demais no deserto, ainda assim eles, e só eles de todos os que tinham agora mais de vinte anos, sobreviveriam aos anos do desterro e viveriam para entrar em Canaã.
Só de Calebe se fala (v. 24), e uma marca particular de honra é posta sobre ele, tanto:
(1.) No caráter que lhe é atribuído: ele tinha outro espírito, diferente do dos demais espiões, um espírito capaz de reconsiderar, que lhe permitia uma segunda avaliação, e seguiu plenamente o Senhor, apegou-se ao seu dever e o levou até o fim, embora abandonado e ameaçado.
(2.) Quanto na recompensa que lhe foi prometida: “A ele farei entrar a seu tempo na terra em que entrou.” Repare:
[1.] Deve ser o grande cuidado e empenho de cada um de nós seguir plenamente o Senhor.
Devemos, num curso de obediência à vontade de Deus e de serviço à sua honra, segui-lo universalmente, sem dividir; retamente, sem dissimular; alegremente, sem discutir; e constantemente, sem declinar; e isto é segui-lo plenamente.
[2.] Os que quiserem seguir plenamente a Deus devem ter outro espírito, diferente do espírito do mundo e diferente do que o seu próprio espírito tem sido. Devem ter o espírito de Calebe.
[3.] Os que seguem plenamente a Deus em tempos de apostasia geral, Deus os reconhecerá e honrará com preservações singulares em tempos de calamidade geral. O Canaã celestial será a herança eterna dos que seguem plenamente o Senhor.
Quando Calebe é mencionado de novo (v. 30), Josué está com ele, cercado dos mesmos favores e coroado com as mesmas honras, por ter estado com ele nos mesmos serviços.
- Misericórdia para com os filhos, até destes rebeldes.
Teriam uma semente preservada, e Canaã assegurada a essa semente: “Os vossos pequeninos, agora com menos de vinte anos, que vós, na vossa incredulidade, dissestes que seriam presa, a eles farei entrar”, v. 31.
Tinham acusado Deus com malignidade de ter o desígnio de arruinar os seus filhos, v. 3. Mas Deus lhes fará saber que pode fazer diferença entre culpados e inocentes, e exterminá-los sem tocar nos seus filhos.
Assim a promessa feita a Abraão, embora parecesse falhar por algum tempo, foi impedida de falhar para sempre; e, embora Deus corrigisse as transgressões deles com vara, ainda assim a sua benevolência ele não tiraria de todo.
Versículos 36 a 45
A Morte dos Espiões Maus. (a.C. 1490.)
Aqui está:
I. A morte repentina dos dez espiões maus. Enquanto a sentença estava sendo proferida contra o povo, antes de ser publicada, eles morreram da praga diante do Senhor, v. 36, 37. Ora:
- Com isto Deus mostrou o seu desagrado particular contra os que pecaram e fizeram Israel pecar.
(1.) Eles mesmos pecaram, ao levantar uma calúnia sobre a terra da promessa. Repare: provocam muito a Deus os que deturpam a religião, lançam ultraje sobre ela e levantam preconceitos na mente dos homens contra ela, ou dão ocasião de fazê-lo aos que procuram ocasião.
Os que representam o serviço de Deus como mesquinho e desprezível, melancólico e desconfortável, duro e impraticável, desnecessário e sem proveito, levantam um mau relatório sobre a boa terra, pervertem os retos caminhos do Senhor e, na prática, o desmentem.
(2.) Fizeram Israel pecar. Fizeram de propósito toda a congregação murmurar contra Deus.
Repare: os cabecilhas do pecado podem esperar cair sob marcas particulares da ira de Deus, que pedirá contas com severidade pelo sangue das almas, que assim é derramado.
- Com isto Deus mostrou o que poderia ter feito com toda a congregação, e deu um prenúncio da execução da sentença agora proferida contra eles.
Aquele que assim exterminou um de cada tribo poderia ter exterminado de repente as suas tribos inteiras, e o faria aos poucos.
Repare: as mortes notáveis de pecadores notórios são prenúncios da perdição final dos homens ímpios, 2 Pedro 2:5, 6. Assim a ira de Deus é revelada, para que os pecadores ouçam e temam.
II. A preservação especial de Calebe e Josué: “Continuaram vivendo”, v. 38.
É provável que todos os doze espiões estivessem juntos, pois os olhos de todo o Israel estavam agora sobre eles.
E por isso se repara nisto como algo muito notável, e que não podia deixar de comover toda a congregação, que, quando os dez espiões maus caíram mortos da praga, uma doença maligna e contagiosa, contudo estes dois que estavam no meio deles viveram e passavam bem.
Com isto Deus confirmou o testemunho deles e pôs em confusão os que falavam de apedrejá-los.
Deu-lhes também a garantia de que continuariam preservados no deserto, quando milhares cairiam à sua direita e à sua esquerda, Salmos 91:7. A morte nunca erra o alvo, nem leva por descuido os que estavam destinados à vida, ainda que no meio dos que deviam morrer.
III. A publicação da sentença a todo o povo, v. 39.
Contou a todos qual era o decreto que tinha saído a respeito deles, e que não podia ser revertido: que todos teriam de morrer no deserto e que Canaã seria reservada para a geração seguinte.
Foi uma decepção muito grande, bem podemos pensar, para o próprio Moisés, que ansiava por estar em Canaã, assim como para todo o povo; contudo ele se conformou, mas eles choraram e prantearam muito.
A certeza que Moisés tinha de que Deus seria glorificado por esta sentença lhe dava satisfação, ao passo que a consciência da sua própria culpa e de a terem atraído sobre si lhes dava a maior vexação.
Choraram por nada (v. 1), e agora lhes é dado motivo para chorar; com tanta justiça os murmuradores são feitos pranteadores.
Se tivessem pranteado pelo pecado quando foram fielmente censurados por ele (v. 9), a sentença teria sido evitada; mas agora que prantearam só pelo juízo, a sua dor veio tarde demais e de nada lhes serviu; não acharam lugar para arrependimento, embora o buscassem cuidadosamente com lágrimas, Hebreus 12:17.
Tal pranto há no inferno, mas as lágrimas não apagarão as chamas, não, nem mesmo refrescarão a língua.
IV. As tentativas tolas e infrutíferas de alguns israelitas para entrar em Canaã, apesar da sentença:
- Agora estavam ansiosos por avançar em direção a Canaã, v. 40.
Levantaram-se cedo, reuniram todas as suas forças, juntaram-se num corpo e pediram a Moisés que os conduzisse contra o inimigo; e agora não há mais conversa entre eles de fazer um capitão para voltar ao Egito.
Confessam a sua falta: “Pecamos”; professam reforma: “Eis-nos aqui, e subiremos.” Agora desejam a terra que tinham desprezado e depositam confiança na promessa de que tinham desconfiado.
Assim, quando Deus julga, ele vencerá e, cedo ou tarde, convencerá os pecadores do mal de todas as suas obras ímpias e palavras duras, e os forçará a retirar as suas próprias palavras.
Mas, embora Deus fosse glorificado por esta retratação deles, eles não tiveram proveito com ela, porque veio tarde demais. O decreto tinha saído, a consumação estava determinada; não buscaram o Senhor enquanto ele podia ser achado, e agora ele não quis ser achado.
Ó, se os homens ao menos fossem tão empenhados pelo céu enquanto dura o seu dia de graça como serão quando ele tiver passado, se fossem tão ansiosos em se prover de azeite enquanto o noivo tarda como serão quando o noivo vier, como seria bom para eles!
- Moisés desaprova totalmente a proposta deles e proíbe a expedição que estavam meditando: “Não subais”, vv. 41-43.
(1.) Dá-lhes aviso do pecado: é transgredir o mandamento do Senhor, que expressamente lhes tinha ordenado que, quando se movessem, se movessem de volta em direção ao Mar Vermelho.
Repare: o que foi dever, na sua ocasião, quando chega a ser fora de tempo pode se converter em pecado.
É verdade que o mandamento a que ele se refere era da natureza de um castigo, mas quem não obedeceu à lei é obrigado a submeter-se à pena, pois o Senhor é o nosso Juiz assim como Legislador.
(2.) Dá-lhes este aviso do perigo: “Não prosperará; nunca o espereis.” Repare: é loucura prometer a nós mesmos sucesso naquilo que empreendemos contra a vontade de Deus.
“Os cananeus estão diante de vós para vos atacar, e o Senhor não está no meio de vós para vos proteger e combater por vós; e por isso olhai por vós mesmos, para que não sejais feridos diante dos vossos inimigos.”
Os que estão fora do caminho do seu dever estão fora da proteção de Deus e vão por sua conta e risco. É perigoso ir aonde não podemos esperar que Deus vá conosco.
Ou melhor: ele claramente prevê e prediz a derrota deles: “Caireis à espada dos amalequitas e cananeus” (que deviam ter caído à espada deles); “Porque vos desviastes do Senhor”, de seguir a direção do seu preceito e da sua promessa, “por isso o Senhor não estará convosco.”
Repare: Deus certamente deixará os que o deixam; e os que são deixados por ele ficam expostos a toda miséria.
- Arriscam-se, mesmo assim. Nunca houve povo tão perverso e tão desesperadamente resolvido a andar em tudo contra Deus.
Deus lhes mandou ir, e eles não quiseram; ele lhes proibiu, e eles quiseram. Assim é a mente carnal inimizade contra Deus: “Presumiram subir ao cimo do monte”, v. 44. Aqui:
(1.) Lutaram contra a sentença da justiça divina e quiseram avançar em desafio a ela.
(2.) Menosprezaram os sinais da presença de Deus, pois quiseram ir mesmo deixando para trás Moisés e a arca da aliança. Tinham desconfiado da força de Deus, e agora confiam presunçosamente na própria força, sem a dele.
- A expedição tem o desfecho correspondente, v. 45.
O inimigo tinha se posicionado no alto do monte, para defender aquela passagem contra os invasores e, informado pelos seus batedores da aproximação deles, saiu contra eles e os derrotou, e é provável que muitos dos israelitas tenham sido mortos.
Agora começou a ser executada a sentença de que os seus cadáveres cairiam no deserto. Repare: nunca pode acabar bem o empreendimento que começa com o pecado.
O caminho para obter paz com os nossos amigos e sucesso contra os nossos inimigos é fazer de Deus o nosso amigo e manter-nos no amor dele.
Os judeus, como estes seus antepassados, quando rejeitaram a justiça de Cristo, tentaram estabelecer a sua própria, e a tentativa teve o mesmo desfecho.