Matthew Henry

Números 12

Argumento

No capítulo anterior vimos os aborrecimentos que o povo causou a Moisés; neste, vemos sua paciência posta à prova pelos próprios parentes.

I. Miriã e Arão, o seu próprio irmão e a sua própria irmã, o afrontaram, vv. 1-3.

II. Deus os chamou a prestar contas por isso, vv. 4-9.

III. Miriã foi ferida de lepra por isso, v. 10.

IV. Arão se submete, e Moisés intercede com mansidão por Miriã, vv. 11-13.

V. Ela é curada, mas coberta de vergonha por sete dias, vv. 14-16.

O registro mostra que até as melhores pessoas e famílias têm suas insensatezes e suas aflições.

Versículos 1 a 2

Murmuração de Miriã e Arão. (a.C. 1490.)

Aqui está:

I. A paixão indecorosa de Arão e Miriã: falaram contra Moisés, v. 1. Se Moisés, que recebeu tanta honra da parte de Deus, recebeu ainda assim tantos desprezos e afrontas da parte dos homens, algum de nós achará tais provações ou estranhas ou duras, e ficará ou irritado ou desanimado por elas?

Ainda assim, quem teria imaginado que se criaria perturbação para Moisés:

  1. Da parte dos que eram eles próprios sérios e bons; ou melhor, eminentes na religião, Miriã, profetisa, Arão, o sumo sacerdote, ambos comissionados juntamente com Moisés para o livramento de Israel? Miquéias 6:4, “Enviei diante de ti Moisés, Arão e Miriã.”

  2. Da parte dos que eram seus parentes mais próximos, o seu próprio irmão e a sua própria irmã, que brilhavam tanto com raios tomados de empréstimo dele?

Assim se queixa a esposa (Cantares de Salomão 1:6): “Os filhos de minha mãe estavam irados comigo”; e as desavenças entre parentes são de modo especial penosas. “Irmão ofendido é mais difícil de conquistar do que uma cidade forte.”

Contudo isto ajuda a confirmar a vocação de Moisés, e mostra que a sua elevação se deveu unicamente ao favor divino, e não a algum pacto ou conluio com os seus parentes, que eles próprios viam com má vontade a elevação dele. Tampouco muitos dos parentes do nosso Salvador creram nele, João 7:5.

Ao que parece, Miriã começou a desavença, e Arão, por não ter sido empregado nem consultado na escolha dos setenta anciãos, estava por ora um tanto desgostoso, e por isso foi mais depressa levado a tomar o partido da irmã.

Doeria ver a mão de Arão em tantas transgressões, mas isto mostra que a lei fez sacerdotes homens que tinham fraqueza.

Satanás conseguiu o intento primeiro com Eva, e por meio dela com Adão; veja quanta necessidade temos de tomar cuidado para não sermos arrastados a desavenças por nossos parentes, porque não sabemos quão grande matéria um pequeno fogo pode acender.

Arão deveria ter lembrado como Moisés se mostrou seu amigo quando Deus estava irado com ele por fazer o bezerro de ouro (Deuteronômio 9:20), e não lhe ter dado mal em troca de bem.

Por duas coisas eles tiveram desavença com Moisés:

(1.) Pelo casamento dele: alguns pensam num casamento recente com uma cusita ou árabe; outros, por causa de Zípora, a quem nesta ocasião chamaram, com desdém, de mulher etíope, e que, insinuavam, tinha influência grande demais sobre Moisés na escolha desses setenta anciãos.

Talvez houvesse algum desentendimento particular entre Zípora e Miriã, que ocasionou palavras acaloradas, e uma crítica ranzinza trouxe outra, até que Moisés e Arão vieram a ficar envolvidos.

(2.) Pelo governo dele; não a má administração dele, mas o monopólio dele (v. 2): “Porventura tem o Senhor falado somente por Moisés? Deve ele só ter a escolha das pessoas sobre quem virá o espírito de profecia? Não tem falado também por nós? Não poderíamos nós ter tido mão nesse assunto, e promovido os nossos amigos, assim como Moisés promoveu os seus?”

Não podiam negar que Deus tinha falado por Moisés, mas era claro que às vezes tinha falado também por eles; e o que tinham em vista era igualar-se a ele, embora Deus o tivesse distinguido de tantos modos.

Repare: lutar para ser o maior é um pecado que facilmente assedia até os próprios discípulos, e é extremamente pecaminoso. Até os que estão bem promovidos raramente se dão por satisfeitos se outros forem mais bem promovidos. Os que se destacam costumam ser invejados.

II. A admirável paciência de Moisés sob esta provocação. O Senhor ouviu (v. 2), mas o próprio Moisés não deu atenção àquilo, pois (v. 3) era muito manso.

Tinha muita razão para se ressentir da afronta; foi maldosa e inoportuna, quando o povo estava disposto ao motim, e havia pouco lhe dera muita vexação com as suas murmurações, que correriam o risco de irromper de novo quando assim chefiadas e apoiadas por Arão e Miriã; mas ele, como surdo, não ouvia.

Quando a honra de Deus estava em jogo, como no caso do bezerro de ouro, ninguém mais zeloso que Moisés; mas, quando a sua própria honra era tocada, ninguém mais manso: tão ousado quanto um leão na causa de Deus, mas tão brando quanto um cordeiro na sua própria causa.

O povo de Deus são os mansos da terra (Sofonias 2:3), mas alguns são mais notáveis que outros por esta graça, como Moisés, que assim foi preparado para a obra a que foi chamado, a qual exigia toda a mansidão que ele tinha e às vezes mais.

E às vezes a falta de bondade dos nossos amigos é uma prova maior da nossa mansidão do que a malícia dos nossos inimigos. O próprio Cristo registra a sua própria mansidão (Mateus 11:29, “Sou manso e humilde de coração”), e o exemplar de mansidão que Cristo deixou era sem mancha, mas o de Moisés não era.

Versículos 4 a 9

Moisés não se ressentiu da injúria que lhe fizeram, nem se queixou dela a Deus, nem fez qualquer apelo a ele; mas Deus se ressentiu.

Ele ouve tudo o que dizemos em nossa paixão, e é testemunha pronta dos nossos discursos precipitados, o que é motivo para refrearmos com firmeza a língua, a fim de não falarmos mal dos outros, e para que tapemos pacientemente os ouvidos e não reparemos nisso, se outros falam mal de nós.

Não ouvia, porque tu ouvirás, Salmos 38:13-15. Quanto mais calados estamos na nossa causa, mais Deus se empenha em advogá-la. O inocente acusado precisa dizer pouco se sabe que o próprio juiz será o seu advogado.

I. A causa é chamada, e as partes são convocadas imediatamente a comparecer à porta do tabernáculo, v. 4, 5. Moisés tinha mostrado muitas vezes zelo pela honra de Deus, e agora Deus se mostrou zeloso pela reputação dele; pois aos que honram a Deus ele honrará, e nunca ficará em dívida com quem quer que se apresente em favor dele.

Antigamente os juízes se sentavam à porta da cidade para julgar causas, e assim, nesta ocasião, a shechinah na nuvem de glória estava à porta do tabernáculo, e Arão e Miriã, como delinquentes, foram chamados à barra.

II. Arão e Miriã foram levados a saber que, por maiores que fossem, não deviam alegar ser iguais a Moisés, nem se estabelecer como rivais dele, vv. 6-8. Eram eles profetas do Senhor? De Moisés se podia dizer com verdade: Ele, mais.

  1. Era verdade que Deus concedia muita honra aos profetas. Por mais que os homens zombassem deles e os maltratassem, eram os favoritos e íntimos do céu. Deus se dava a conhecer a eles, ou por sonhos, quando dormiam, ou por visões, quando estavam acordados, e por meio deles se dava a conhecer a outros.

E são felizes, são grandes, verdadeiramente grandes, verdadeiramente felizes, aqueles a quem Deus se dá a conhecer. Agora ele o faz não por sonhos e visões, como antigamente, mas pelo Espírito de sabedoria e revelação, que dá a conhecer às criancinhas aquelas coisas que profetas e reis desejaram ver e não puderam.

Daí se diz que, nos últimos dias, os dias do Messias, os filhos e as filhas profetizam (Joel 2:28), porque terão um conhecimento melhor dos mistérios do reino da graça do que até os próprios profetas tiveram; veja Hebreus 1:1, 2.

  1. Contudo, a honra concedida a Moisés era muito maior (v. 7): “Meu servo Moisés não é assim”; ele os supera a todos. Para recompensar Moisés por ter suportado com mansidão e paciência as afrontas que Miriã e Arão lhe fizeram, Deus não só o inocentou, mas o elogiou; e aproveitou a ocasião para dar-lhe um encômio que permanece registrado para a sua honra imortal.

E assim os que são vituperados e perseguidos por causa da justiça terão grande galardão no céu; Cristo os confessará diante do seu Pai e dos santos anjos.

(1.) Moisés era um homem de grande integridade e fidelidade posta à prova. “É fiel em toda a minha casa.” Isto é posto em primeiro lugar no seu caráter, porque a graça excede os dons, o amor excede o conhecimento, e a sinceridade no serviço de Deus dá maior honra a um homem e o recomenda ao favor divino mais que a erudição, as especulações abstrusas e a capacidade de falar em línguas.

Esta é a parte do caráter de Moisés que o apóstolo cita quando queria mostrar que Cristo era maior que Moisés, demonstrando que o era neste principal ponto da sua grandeza; pois Moisés foi fiel apenas como servo, mas Cristo como filho, Hebreus 3:2, 5, 6.

Deus encarregou Moisés de expor o seu pensamento em todas as coisas a Israel; Israel o encarregou de tratar em favor deles com Deus; e ele foi fiel a ambos. Disse e fez tudo na condução daquele grande negócio como convinha a um homem honesto e bom, que não visava a nada mais que a honra de Deus e o bem-estar de Israel.

(2.) Moisés foi por isso honrado com revelações mais claras do pensamento de Deus, e com uma comunhão mais íntima com Deus, do que qualquer outro profeta que fosse. Ele:

[1.] Ouvirá mais de Deus que qualquer outro profeta, com mais clareza e distinção: com ele falarei boca a boca, ou face a face (Êxodo 33:11), como um homem fala ao seu amigo, com quem conversa livremente e com familiaridade, e sem qualquer confusão ou consternação, como as de que às vezes outros profetas eram presa, como Ezequiel e o próprio João, quando Deus lhes falava.

Por meio de outros profetas Deus enviava ao seu povo repreensões e predições de bem ou de mal, expostas de maneira bastante apropriada em palavras obscuras, figuras, tipos e parábolas; mas por meio de Moisés deu ao seu povo leis e a instituição de ordenanças santas, que de modo algum podiam ser expostas em palavras obscuras, mas tinham de ser expressas da maneira mais simples e inteligível.

[2.] Verá mais de Deus que qualquer outro profeta: “A semelhança do Senhor ele contemplará”, como a viu em Horebe, quando Deus proclamou o seu nome diante dele. Contudo, ele viu apenas a semelhança do Senhor; os anjos e os santos glorificados sempre contemplam a face do nosso Pai.

Moisés teve o espírito de profecia de um modo peculiar a ele, e que o pôs muito acima de todos os outros profetas; contudo, aquele que é o menor no reino dos céus é maior que ele, e muito mais o nosso Senhor Jesus o excede infinitamente, Hebreus 3:1, etc.

Que Miriã e Arão considerem agora quem era aquele a quem insultaram: “Não temestes falar contra o meu servo Moisés?” Contra o meu servo, contra Moisés? Assim está no original. Como ousais ultrajar qualquer servo meu, e principalmente um servo como Moisés, que é amigo, confidente e mordomo da casa?

Como se atreveram a falar para o desgosto e a desonra daquele de quem Deus tinha tanto a dizer em elogio? Não deviam esperar que Deus se ressentisse disso e o tomasse como uma afronta feita a ele mesmo?

Repare: temos motivo para temer dizer ou fazer qualquer coisa contra os servos de Deus; é por nossa conta e risco se o fazemos, porque Deus advogará a causa deles, e considerará que o que os toca toca a menina do seu olho.

É coisa perigosa ofender os pequeninos de Cristo, Mateus 18:6. São de fato presunçosos os que não temem falar mal das dignidades, 2 Pedro 2:10.

III. Deus, depois de lhes mostrar assim a culpa e a loucura, mostra-lhes em seguida o seu desagrado (v. 9): “A ira do Senhor se acendeu contra eles”, da qual talvez se tenham dado alguns sinais palpáveis na mudança de cor da nuvem, ou em alguns clarões de relâmpago saídos dela.

Mas na verdade era indício suficiente do seu desagrado o fato de ele ter partido, e não ter querido nem sequer ouvir a desculpa deles, pois não precisava, entendendo de longe os pensamentos deles; e assim quis mostrar que estava desagradado.

Repare: a retirada da presença de Deus de junto de nós é o sinal mais certo e mais triste do desagrado de Deus contra nós. Ai de nós se ele partir; e ele nunca parte até que nós, por nosso pecado e loucura, o expulsemos de junto de nós.

Versículos 10 a 16

Miriã Ferida de Lepra. (a.C. 1490.)

Aqui está:

I. O juízo de Deus sobre Miriã (v. 10): a nuvem se retirou de sobre aquela parte do tabernáculo, em sinal do desagrado de Deus, e imediatamente Miriã se tornou leprosa; quando Deus vai, o mal vem; não espere nada de bom quando Deus se retira.

A lepra era uma doença muitas vezes infligida pela mão de Deus, sem mediação, como castigo de algum pecado particular, como em Geazi por mentir, em Uzias por invadir o ofício de sacerdote, e aqui em Miriã por ralhar e fazer intrigas entre parentes.

A praga da lepra, é provável, apareceu no rosto dela, de modo que ficava aparente a todos os que a viam que estava atingida por ela, e pelo pior dela: estava leprosa como a neve; não só tão branca, mas tão mole, perdendo a carne firme a sua consistência, como faz o que apodrece.

A sua língua imunda (diz o bispo Hall) é justamente punida com um rosto imundo, e a sua loucura em alegar ser rival de Moisés se torna manifesta a todos os homens, pois cada um vê que o rosto dele é glorioso e o dela, leproso. Ao passo que Moisés precisa de um véu para esconder a sua glória, Miriã precisa de um para esconder a sua vergonha.

Repare: as enfermidades que de qualquer modo nos desfiguram devem ser interpretadas como uma repreensão ao nosso orgulho, e aproveitadas para a cura dele, e sob tais providências humilhantes devemos ser muito humildes. É sinal de que o coração é de fato duro se a carne for mortificada e, contudo, as concupiscências da carne permanecerem imortificadas.

Ao que parece, esta praga sobre Miriã foi destinada a servir de exposição da lei acerca da lepra (Levítico 13), pois ela é referida na repetição dessa lei, Deuteronômio 24:8, 9.

Miriã foi atingida de lepra, mas não Arão, porque ela foi a primeira na transgressão, e Deus quis estabelecer diferença entre os que desencaminham e os que são desencaminhados.

O ofício de Arão, embora não o salvasse do desagrado de Deus, contudo ajudou a resguardá-lo deste sinal do seu desagrado, o qual não só o teria afastado por ora de oficiar, quando (não havendo sacerdotes senão ele e os seus dois filhos) dificilmente podia ser dispensado, mas teria tornado desprezíveis a ele e ao seu ofício, e teria sido uma mancha duradoura sobre a sua família.

Arão, como sacerdote, devia ser o juiz da lepra, e o fato de desempenhar essa parte do seu ofício nesta ocasião, quando olhou para Miriã, e eis que estava leprosa, foi para ele mortificação suficiente. Foi atingido pelo lado dela, e não podia declará-la leprosa sem enrubescer e tremer, sabendo-se igualmente exposto a isso.

Podemos aproveitar este juízo sobre Miriã como advertência para tomarmos cuidado de não fazer nenhuma afronta ao nosso Senhor Jesus. Se ela foi assim castigada por falar contra Moisés, que será dos que pecam contra Cristo?

II. A submissão de Arão diante disso (v. 11, 12); ele se humilha diante de Moisés, confessa a sua falta e pede perdão.

Aquele que havia pouco se juntara à irmã para falar contra Moisés é forçado aqui, por si mesmo e pela irmã, a dirigir-lhe uma súplica penitente, e a engrandecê-lo no mais alto grau (como se ele tivesse o poder de Deus para perdoar e curar), a ele a quem tão pouco antes tinha difamado.

Repare: os que pisoteiam os santos e servos de Deus um dia ficarão contentes de lhes fazer a corte; o mais tardar, no outro mundo, como as virgens loucas às prudentes por um pouco de azeite, e o rico a Lázaro por um pouco de água; e talvez neste mundo, como o amigo de Jó a ele por causa das suas orações, e aqui Arão a Moisés. Apocalipse 3:9. Na sua submissão:

  1. Ele confessa o seu próprio pecado e o da irmã, v. 11. Fala com respeito a Moisés, de quem tinha falado com menosprezo, chama-o de seu senhor, e agora faz recair a desonra sobre si mesmo, fala como quem se envergonha do que tinha dito: pecamos, agimos loucamente.

Pecam, e agem loucamente, os que vituperam e falam mal de qualquer um, especialmente de gente boa ou de quem tem autoridade. O arrependimento é o desdizer do que dissemos de errado, e é melhor que fique desdito do que sejamos arruinados por isso.

  1. Pede perdão a Moisés: não ponhas este pecado sobre nós. Arão devia trazer a sua oferta ao altar, mas, sabendo que o seu irmão tinha algo contra ele, ele, mais que qualquer outro, tinha interesse em reconciliar-se com o irmão, para estar em condições de oferecer a sua oferta.

Alguns pensam que esta submissão rápida, que Deus viu que ele estava pronto a fazer, foi o que impediu que ele fosse atingido de lepra como a irmã.

  1. Recomenda a condição deplorável da irmã à consideração compassiva de Moisés (v. 12): “Não seja ela como um morto”, isto é, que ela não continue assim separada da comunhão, contaminando tudo em que toca, e até apodrecendo acima do chão como um morto. Descreve com eloquência a miséria do caso dela, para mover a piedade dele.

III. A intercessão feita em favor de Miriã (v. 13): ele clamou ao Senhor em alta voz, porque a nuvem, o símbolo da sua presença, fora removida e estava a certa distância, e para exprimir o seu fervor neste pedido: cura-a agora, ó Senhor, eu te rogo.

Com isto deu a ver que perdoava de fato de coração a injúria que ela lhe tinha feito, que não a acusara a Deus, nem pedira justiça contra ela; tanto assim que, quando Deus, em ternura para com a sua honra, castigou a insolência dela, ele foi o primeiro a pedir que o juízo fosse revogado.

Por este exemplo nos é ensinado orar em favor dos que nos maltratam com desprezo; e a não nos comprazer com o castigo mais justo infligido ou por Deus ou pelos homens aos que nos foram injuriosos.

A mão ressecada de Jeroboão foi restaurada por solicitação e pedido especial do profeta contra quem tinha sido estendida, 1 Reis 13:6. Assim Miriã foi aqui curada pela oração de Moisés, a quem ultrajara, e Abimeleque pela oração de Abraão, Gênesis 20:17.

Moisés poderia ter ficado de fora, e ter dito: “Bem feito para ela, que governe melhor a língua da próxima vez”; mas, não contente em poder dizer que não tinha orado para que o juízo fosse infligido, ora com fervor pela remoção dele. Este modelo de Moisés, e o do nosso Salvador, “Pai, perdoa-lhes”, devemos nos esforçar por imitar.

IV. A acomodação deste assunto de modo que a misericórdia e a justiça pudessem se encontrar:

  1. A misericórdia tem vez até o ponto em que Miriã será curada; Moisés a perdoa, e Deus o fará. Veja 2 Coríntios 2:10.

  2. Mas a justiça tem vez até o ponto em que Miriã será humilhada (v. 14): “Seja ela excluída do acampamento sete dias”, para que ela mesma se torne mais consciente da sua falta e penitente por ela, e para que o seu castigo seja mais público, e todo Israel repare nele e tome advertência dele para não se amotinar.

Se Miriã, a profetisa, é posta sob tais marcas de humilhação por uma palavra precipitada dita contra Moisés, o que podemos esperar pelas nossas murmurações? Se isto é feito na árvore verde, o que será feito na seca?

Veja como as pessoas se aviltam e se diminuem pelo pecado, mancham a sua glória e lançam a sua honra no pó. Quando Miriã louvou a Deus, encontramo-la à frente da congregação e como um dos mais brilhantes ornamentos da congregação, Êxodo 15:20. Agora que teve desavença com Deus, encontramo-la expulsa como o lixo e a escória da congregação.

É dada uma razão para que ela fosse posta fora do acampamento por sete dias, porque assim ela devia aceitar o castigo da sua iniquidade.

Se o pai dela, o seu pai terreno, tivesse apenas cuspido no seu rosto e assim mostrado o seu desagrado, ela não ficaria tão perturbada e preocupada com isso, e tão pesarosa de tê-lo merecido, a ponto de se fechar algum tempo no quarto, sem vir à presença dele nem mostrar o rosto na família, envergonhada da sua própria loucura e infelicidade?

Se uma reverência como esta é devida aos pais da nossa carne, quando nos corrigem, muito mais devemos nos humilhar sob a poderosa mão do Pai dos espíritos, Hebreus 12:9.

Repare: quando estamos sob os sinais do desagrado de Deus por causa do pecado, convém-nos tomar vergonha para nós, e deitar-nos nessa vergonha, reconhecendo que a nós pertence a confusão de rosto.

Se por nossa própria culpa e loucura nos expomos à desonra e ao desprezo dos homens, às justas censuras da igreja ou às repreensões da divina Providência, devemos confessar que o nosso Pai com justiça cospe no nosso rosto, e ter vergonha.

V. O impedimento que isto trouxe ao avanço do povo: “O povo não partiu até que Miriã foi trazida de volta”, v. 15. Deus não removeu a nuvem, e por isso eles não removeram o seu acampamento. Isto foi intencionado:

  1. Como uma repreensão ao povo, que estava consciente de ter pecado à semelhança da transgressão de Miriã, falando contra Moisés: por isso, participarão do castigo dela até o ponto de que ele retardará a sua marcha rumo a Canaã. Muitas coisas se opõem a nós, mas nada nos impede no caminho para o céu como o pecado.

  2. Como sinal de respeito por Miriã. Se o acampamento tivesse sido removido durante os dias da sua suspensão, o seu transtorno e a sua vergonha teriam sido maiores; por isso, em compaixão por ela, ficarão parados até que a sua excomunhão seja retirada, e ela readmitida, provavelmente com as cerimônias habituais de purificação dos leprosos.

Repare: os que estão sob censura e repreensão por causa do pecado devem ser tratados com muita ternura, e não ser sobrecarregados, não, nem mesmo com a vergonha que mereceram, nem tidos por inimigos (2 Tessalonicenses 3:15), mas perdoados e consolados, 2 Coríntios 2:7.

Os pecadores devem ser expulsos com pesar, e os penitentes recebidos com alegria. Quando Miriã foi absolvida e readmitida, o povo avançou para o deserto de Parã, que confinava com a fronteira sul de Canaã, e para lá teria sido a sua próxima etapa se não tivessem posto um obstáculo no seu próprio caminho.


Ajustes de leitura

Tamanho do texto
Tipo de letra