Matthew Henry

Neemias 9

Argumento

O décimo dia do sétimo mês, entre a festa das trombetas (Neemias 8:2) e a festa dos tabernáculos (Neemias 8:14), foi designado como Dia da Expiação. Não temos motivo para pensar que não tenha sido observado com devoção, embora não seja mencionado.

Aqui, porém, temos o relato de um jejum ocasional, realizado duas semanas depois por causa da situação em que se encontravam. Como o Dia da Expiação, foi um dia de humilhação. Há tempo de chorar e tempo de rir. Temos aqui o relato: I. De como esse jejum foi observado, vv. 1-3.

II. Dos principais pontos da oração feita a Deus naquela ocasião. Nela reconheceram com gratidão as misericórdias de Deus, confessaram os pecados com arrependimento e se submeteram humildemente à mão justa de Deus nos juízos que lhes sobrevieram. Concluíram com uma resolução solene de renovar a obediência, vv. 4-38.

Versículo 1

O Arrependimento do Povo. (a.C. 444.)

Temos aqui um relato geral de um jejum público observado pelos filhos de Israel, provavelmente por ordem de Neemias, com o conselho e a anuência dos chefes das famílias. Foi um jejum instituído por homens, mas do tipo que Deus havia escolhido, pois:

  1. Foi um dia para “afligir a alma”, Isaías 58:5. Provavelmente se reuniram nos pátios do templo e ali apareceram vestidos de pano de saco, em atitude de luto, com terra sobre a cabeça, v. 1. Por essas manifestações externas de tristeza e humilhação, deram glória a Deus, envergonharam-se de si mesmos e estimularam uns aos outros ao arrependimento.

Tinham sido impedidos de chorar, Neemias 8:9, mas agora foram orientados a chorar. A alegria de nossas festas sagradas deve ceder lugar à tristeza de nossos jejuns solenes quando eles chegam. Tudo é belo em seu tempo.

  1. Foi um dia para “soltar as ligaduras da maldade”, e esse é o jejum que Deus escolheu, Isaías 58:6. Sem isso, estender pano de saco e cinzas debaixo de nós não passa de uma zombaria. Por serem descendência santa, consagrada a Deus e mais excelente que seus vizinhos, os filhos de Israel se separaram de todos os estrangeiros com quem se haviam mesclado e estabelecido laços de família, v. 2.

Alguns anos antes, Esdras os havia separado das mulheres estrangeiras, mas tinham recaído no mesmo pecado. Haviam se casado com elas ou, pelo menos, feito amizade e desenvolvido uma intimidade que se tornara uma armadilha. Agora, porém, separaram-se dos filhos estrangeiros, assim como das mulheres estrangeiras.

Os que pretendem unir-se a Deus por meio de orações e alianças precisam separar-se do pecado e dos pecadores, pois que comunhão tem a luz com as trevas?

  1. Foi um dia de comunhão com Deus. Jejuaram para ele, para ele mesmo (Zacarias 7:5), pois: (1.) Falaram com ele em oração e lhe ofereceram seus sentimentos piedosos e devotos ao confessarem o pecado e o adorarem como Senhor e seu Deus. O jejum sem oração é um corpo sem alma, um cadáver sem valor.

(2.) Ouviram-no falar por meio de sua palavra, pois leram no livro da lei. Isso é muito apropriado nos dias de jejum: no espelho da lei, podemos ver nossas deformidades e impurezas e saber o que confessar e o que corrigir. A palavra orienta e anima a oração, porque por meio dela o Espírito ajuda nossas fraquezas ao orar.

Observe como o tempo foi dividido igualmente entre essas duas atividades. Passaram três horas (pois essa é a quarta parte de um dia) lendo, explicando e aplicando as Escrituras, e três horas confessando o pecado e orando. Assim permaneceram reunidos por seis horas e dedicaram todo o tempo aos atos solenes da religião, sem dizer: “Eis, que canseira é esta!”

A alternância das atividades tornou o período menos cansativo. A palavra que liam lhes dava assuntos para a oração, e a oração tornava a palavra mais proveitosa. O bispo Patrick entende que dedicaram à devoção as doze horas inteiras do dia: das seis às nove da manhã, liam; das nove ao meio-dia, oravam; do meio-dia às três, liam novamente; e das três às seis da tarde, oravam de novo.

O trabalho de um dia de jejum é uma boa obra; por isso devemos nos empenhar em fazer dele o trabalho de um dia inteiro, um bom dia de trabalho.

Versículos 4 a 38

A Oração dos Levitas. (a.C. 444.)

Temos aqui o relato de como foi conduzida a atividade desse dia de jejum. 1. Os nomes dos ministros que dela participaram.

São mencionados duas vezes (v. 4, 5), com algumas variações nos nomes. Ou oraram um após o outro, conforme a regra dada pelo apóstolo (1 Coríntios 14:31, “Todos podeis profetizar, um por um”), ou, como alguns pensam, havia oito congregações separadas por certa distância, cada uma presidida por um levita.

  1. A atividade a que se dedicaram. (1.) Oraram a Deus, clamando a ele em alta voz (v. 4) pelo perdão dos pecados de Israel e pelo favor de Deus para com o povo. Clamaram alto, não para que Deus os ouvisse melhor, como faziam os adoradores de Baal, mas para que o povo os ouvisse e para estimular o fervor dos presentes.

(2.) Louvaram a Deus, pois o louvor também é apropriado num dia de jejum. Em todos os atos de devoção, devemos ter como alvo dar a Deus a glória devida ao seu nome. Temos aqui registrado um resumo de suas orações.

Não se sabe se foi preparado antes, como roteiro para os levitas desenvolverem os temas, ou reconstituído depois, como os pontos principais sobre os quais eles se estenderam na oração. Sem dúvida disseram muito mais do que está registrado aqui; caso contrário, a confissão e a adoração a Deus não teriam ocupado um quarto do dia, muito menos dois quartos.

Nesse discurso solene a Deus, temos:

I. Uma adoração reverente a Deus como Ser perfeito e glorioso e fonte de todos os seres, v. 5, 6. A congregação é convidada a levantar-se para mostrar sua concordância, e então o ministro se dirige a Deus: “Bendito seja o teu nome glorioso.” Deus é adorado aqui:

  1. Como o único Deus vivo e verdadeiro: “Tu, somente tu, és Jeová”, existente por si mesmo e independente; não há Deus além de ti. 2. Como o Criador de todas as coisas: “Fizeste o céu, a terra e os mares, e tudo o que neles há.” O primeiro artigo do nosso credo é, com razão, o primeiro artigo do nosso louvor.

  2. Como o grande Protetor de toda a criação: “Conservas na existência todas as criaturas às quais deste existência.” A providência de Deus se estende aos seres mais elevados, pois precisam dela, e aos mais humildes, pois ela não os despreza. O que Deus criou ele preservará; o que ele faz é feito de maneira eficaz, Eclesiastes 3:14.

  3. Como aquele a quem as criaturas louvam: “O exército do céu te adora”, v. 6; isto é, o mundo dos santos anjos. Mas o nome de Deus é exaltado acima de toda bênção e louvor; não precisa do louvor das criaturas, nem esse louvor acrescenta algo à sua glória. Até os melhores louvores prestados ao nome de Deus, mesmo os dos próprios anjos, ficam infinitamente aquém do que ele merece.

Seu nome não está acima apenas do nosso louvor, mas de todo louvor. Mesmo que se reunissem todos os louvores do céu e da terra, não se diria nem a milésima parte do que se poderia e deveria dizer da glória de Deus. Nossa bondade não se estende até ele.

II. Um reconhecimento agradecido dos favores de Deus a Israel:

  1. Muitos desses favores são enumerados diante dele em ordem, e de maneira muito pertinente, pois: (1.) Devemos aproveitar todas as oportunidades para mencionar a bondade amorosa do Senhor e agradecer em toda oração.

(2.) Ao confessarmos nossos pecados, é bom levar em conta as misericórdias de Deus como agravantes de nossos pecados, para que nos humilhemos e nos envergonhemos ainda mais e demos a nós mesmos o nome vergonhoso de ingratos.

(3.) Quando buscamos misericórdia e alívio em tempos de aflição, olhar para nossas experiências e as de nossos pais dá ânimo à nossa fé e esperança: “Senhor, fizeste-nos bem no passado; será que tudo isso será desfeito? Não continuas sendo o mesmo Deus?”

  1. Observemos brevemente os exemplos particulares da bondade de Deus para com Israel relatados aqui. (1.) O chamado de Abraão, v. 7. O favor de Deus para com ele o distinguiu dos demais: “Tu o escolheste.” Sua graça foi poderosa para tirá-lo de Ur dos Caldeus. Ao dar-lhe o nome de Abraão, Deus o honrou como alguém que lhe pertencia e lhe garantiu que seria pai de muitas nações.

“Olhai para Abraão, vosso pai” (Isaías 51:2) e vejam como a graça concedida gratuitamente é glorificada nele.

(2.) A aliança que Deus fez com Abraão para dar a terra de Canaã a ele e à sua descendência, como figura de uma pátria melhor, v. 8. Essa aliança era segura, pois Deus encontrou o coração de Abraão fiel diante de si e o encontrou assim porque o havia feito assim (a fé não vem de nós; é dom de Deus).

Por isso, cumpriu suas palavras: com os íntegros ele se mostrará íntegro, e onde encontra um coração fiel, mostrar-se-á um Deus fiel. (3.) A libertação de Israel do Egito, vv. 9-11. Era oportuno recordá-la quando intercediam para que se completasse sua libertação da Babilônia.

Naquela ocasião, foram libertos por compaixão de sua aflição, em resposta ao seu clamor e em oposição ao orgulho e à insolência de seus perseguidores. Naquilo em que agiram com arrogância, Deus se mostrou acima deles (Êxodo 18:11) e, assim, fez para si um nome, pois disse: “Obterei honra sobre Faraó.” Até hoje o nome de Deus é glorificado por aquela obra maravilhosa.

Ela foi realizada de forma milagrosa: sinais e maravilhas foram manifestados para efetuá-la. A libertação de Israel significou a destruição dos seus inimigos; estes foram lançados nas profundezas, sem possibilidade de voltar, como uma pedra nas águas poderosas.

(4.) A condução do povo pelo deserto mediante a coluna de nuvem e de fogo. Ela lhes mostrava que caminho seguir, quando partir e quando e onde descansar; dirigia todas as etapas da viagem e cada um de seus passos, v. 12. Também era um sinal visível da presença de Deus com eles, para guiá-los e protegê-los.

Eles mencionam isso novamente (v. 19) e observam que, embora seus pecados tivessem provocado Deus a afastar-se deles e a deixá-los vaguear e morrer pelos caminhos desviados do deserto, em sua grande misericórdia ele continuou a conduzi-los e não retirou a coluna de nuvem e de fogo, v. 19. Quando as misericórdias continuam, embora tenham sido perdidas por nossa culpa, devemos agradecer em dobro.

(5.) A provisão abundante que lhes foi dada no deserto, para que não morressem de fome: “Deste-lhes pão do céu e água da rocha” (v. 15). Para animar-lhes o coração, receberam também a promessa de que entrariam na terra de Canaã e a possuiriam.

Tinham alimento e bebida, sustento adequado ao longo do caminho e a boa terra ao fim da viagem. Que mais poderiam desejar? Isso também é repetido (v. 20, 21) como um favor mantido apesar de suas provocações: “Por quarenta anos os sustentaste.” Nunca um povo foi alimentado por tanto tempo e tratado com tanta ternura.

Foram providos de maneira maravilhosa e, em todo aquele tempo, suas roupas não se gastaram e seus pés não incharam, embora o caminho fosse acidentado e cansativo, pois eram carregados como sobre asas de águias.

(6.) A entrega da lei no monte Sinai. Esse foi o maior favor que Deus lhes fez e a maior honra que lhes concedeu. Aquele que deu a lei se manifestou com grande glória, v. 13. Deus não apenas enviou alguém, mas desceu pessoalmente e falou com eles, Deuteronômio 4:33.

A lei dada era muito boa. Nenhuma nação debaixo do sol tinha juízos tão justos, leis tão verdadeiras e estatutos tão bons, Deuteronômio 4:8. Os preceitos morais e judiciais eram verdadeiros e justos, fundamentados na equidade natural e nas razões eternas do bem e do mal. Até as instituições cerimoniais eram boas, sinais da bondade de Deus para com eles e figuras da graça do evangelho.

A lei do quarto mandamento é destacada como um grande favor: “Fizeste-lhes conhecer o teu santo sábado.” Era sinal do favor particular de Deus, que os distinguia das nações que se haviam afastado dele e perdido por completo essa antiga parte da religião revelada. Também era um meio de manter a comunhão deles com Deus.

Juntamente com a lei e o sábado, ele lhes deu seu bom Espírito para instruí-los, v. 20. Além da lei dada no monte Sinai, os cinco livros de Moisés, que ele escreveu movido pelo Espírito Santo, lhes serviam de instrução constante. Isso se aplica em especial ao livro de Deuteronômio, no qual o Espírito de Deus os instruiu plenamente por meio de Moisés.

Bezalel foi cheio do Espírito de Deus (Êxodo 31:3), assim como Josué (Números 27:18), e Calebe tinha outro espírito.

(7.) Deus lhes deu posse de Canaã, a boa terra, de reinos e nações, v. 22. Tornaram-se numerosos o suficiente para povoá-la (v. 23) e vitoriosos o suficiente para dominá-la (v. 24). Os habitantes foram entregues em suas mãos para que fizessem com eles o que quisessem e, se desejassem, pusessem os pés sobre o pescoço de seus reis. Assim alcançaram uma vida estável e feliz, v. 25.

Olhe para suas cidades e verá que são fortes e bem fortificadas. Olhe para suas casas e verá que são belas e bem mobiliadas, cheias de toda espécie de bens valiosos. Examine a região e dirá que nunca viu uma terra tão fértil, tão bem provida de vinhas e olivais.

Tudo isso já estava preparado quando chegaram; por isso, deleitaram-se nos dons da grande bondade de Deus. Não poderiam desejar mais conforto ou felicidade do que tinham, ou poderiam ter tido, em Canaã, se a culpa não fosse deles próprios.

(8.) A grande disposição de Deus para perdoar-lhes os pecados e realizar seu livramento quando, por suas provocações, haviam atraído sobre si os juízos divinos. No deserto, descobriram que ele era um Deus pronto a perdoar (v. 17), um Deus de perdões (como diz a nota à margem).

Ele havia proclamado seu nome como Deus que perdoa iniquidade, transgressão e pecado; tem poder para perdoar, deseja fazê-lo e se gloria em perdoar.

Embora o abandonassem, ele não os abandonou, como com justiça poderia ter feito, mas continuou a cuidar deles e a favorecê-los. Mais tarde, estabelecidos em Canaã, venderam-se pelo pecado às mãos de seus inimigos. Quando se submeteram e fizeram um pedido humilde, Deus lhes deu salvadores (v. 27), os juízes, por meio dos quais realizou muitos grandes livramentos quando estavam à beira da ruína.

Ele não fez isso por mérito deles, pois não mereciam senão o mal, mas segundo suas misericórdias, suas muitas misericórdias.

(9.) As advertências e os avisos justos que lhes deu por meio de seus servos, os profetas. Quando os livrava das aflições, testemunhava contra seus pecados (v. 28, 29), para que não interpretassem seus livramentos como conivência com sua maldade.

O desígnio de todos os testemunhos que os profetas deram contra eles era fazê-los voltar à lei de Deus, submeter o pescoço ao seu jugo e andar conforme sua regra.

O objetivo do nosso ministério é levar as pessoas a Deus, conduzindo-as à lei dele, e não trazê-las a nós, submetendo-as a alguma lei nossa. Temos isso novamente (v. 30): “Testemunhaste contra eles pelo teu Espírito, por meio dos teus profetas.” O testemunho dos profetas era o testemunho do Espírito neles, e era o Espírito de Cristo que estava neles, 1 Pedro 1:10, 11.

Falaram movidos pelo Espírito Santo, e suas palavras devem ser recebidas como tais. Deus lhes deu seu Espírito para instruí-los (v. 20), mas, como não acolheram essa instrução, testemunhou contra eles por meio do seu Espírito.

Se não permitirmos que a palavra de Deus nos ensine e governe, ela nos acusará e julgará. Deus envia profetas por compaixão de seu povo (2 Crônicas 36:15), para não enviar juízos.

(10.) A extensão de sua paciência e a moderação de suas repreensões. Por muitos anos ele os tolerou (v. 30), relutando em puni-los e esperando para ver se se arrependeriam. E, quando os puniu, não os destruiu por completo nem os abandonou, v. 31. Se os tivesse abandonado, teriam sido totalmente destruídos; mas não despertou toda a sua cólera, pois seu desígnio era reformá-los, não destruí-los.

Assim eles multiplicam e exaltam os exemplos da bondade de Deus para com Israel. Devemos fazer o mesmo, para que a bondade de Deus, devidamente considerada, nos conduza ao arrependimento e vença nossa maldade. Quanto mais gratos formos pelas misericórdias de Deus, mais nos humilharemos pelos nossos pecados.

III. Aqui há uma confissão arrependida dos pecados deles e de seus pais. A menção desses pecados se entrelaça com a recordação dos favores de Deus, para que a bondade divina, apesar de suas provocações, apareça com maior brilho e seus pecados, apesar de tantos favores, se mostrem mais graves.

Muitas passagens desse reconhecimento dos pecados e das misericórdias vêm de Ezequiel 20:5-26, como se percebe ao comparar aqueles versículos com estes. A palavra de Deus é útil para orientar-nos na oração: pelo que ele nos diz, aprendemos o que dizer a ele.

  1. Começam pelos pecados de Israel no deserto: eles, nossos próprios pais (assim talvez fosse melhor ler), agiram com arrogância e endureceram o pescoço, v. 16. Considerando quem eram e quão recentemente tinham saído da escravidão, não tinham motivo algum para se orgulhar. O orgulho está na raiz da obstinação e da desobediência humana.

Acham indigno de si curvar o pescoço sob o jugo de Deus e consideram um sinal de posição elevada opor a própria vontade à vontade do próprio Deus. (1.) Houve duas coisas a que não deram a devida atenção; caso contrário, não teriam agido como agiram. Ouviram a palavra de Deus, mas não deram ouvidos aos seus mandamentos. Viram as obras de Deus, mas não se lembraram de suas maravilhas.

Se tivessem considerado devidamente essas obras como milagres, teriam obedecido movidos pela fé e pelo santo temor. Se as tivessem considerado como misericórdias, teriam obedecido movidos pela gratidão e pelo santo amor. Mas, quando as pessoas não aproveitam corretamente nem as ordenanças nem os atos da providência de Deus, o que se pode esperar delas?

(2.) Dois grandes pecados cometidos no deserto são especificados aqui: pensaram em voltar [1.] à escravidão egípcia. Por causa do alho e das cebolas, preferiam essa escravidão à gloriosa liberdade do Israel de Deus, embora esta viesse acompanhada de algumas dificuldades e inconveniências.

Em sua rebelião, designaram um chefe para voltar ao cativeiro, desconfiando do poder de Deus e desprezando sua santa promessa, v. 17.

[2.] À idolatria egípcia. Fizeram um bezerro de metal fundido e foram tão insensatos que disseram: “Este é o teu Deus.”

  1. Depois lamentam as provocações de seus pais quando já estavam de posse de Canaã. Embora se deleitassem na grande bondade de Deus, isso não bastou para mantê-los próximos dele; pelo contrário, foram desobedientes (v. 26) e provocaram-no gravemente, pois:

(1.) Maltrataram os profetas de Deus e os abateram porque testemunhavam contra eles para fazê-los voltar a Deus (v. 26). Assim retribuíram a maior bondade com a maior injúria.

(2.) Abusaram dos favores divinos: depois de terem descanso, voltaram a praticar o mal, v. 28. Nem suas aflições nem os livramentos dessas aflições os transformaram. Nem o temor nem o amor os mantiveram fiéis ao dever.

  1. Por fim, chegam mais perto de sua própria época e lamentam os pecados que haviam trazido sobre eles os juízos sob os quais gemiam havia tanto tempo e dos quais só haviam sido libertos em parte: “Agimos perversamente” (v. 33). Nossos reis, nossos príncipes, nossos sacerdotes e nossos pais foram todos culpados, e nós com eles, v. 34.

Atribuem seus sofrimentos a duas faltas suas e de seus pais: (1.) O desprezo pela boa lei que Deus lhes dera: “Pecaram contra os teus juízos”, as determinações da sabedoria divina e as exigências da soberania divina.

Disseram-lhes quanto ganhariam se vivessem segundo esses juízos, pois “se um homem os fizer, viverá neles” (v. 29), mas não quiseram cumpri-los. Na prática, disseram que não queriam viver. Abandonaram suas próprias misericórdias.

Esse resumo da aliança, fazer isso e viver, vem de Ezequiel 20:13 e é citado em Gálatas 3:12 para provar que a lei não procede da fé. Naquele tempo não era como agora: crer e viver; mesmo assim, ofereceram um ombro que recuava, como diz a nota à margem.

Alegavam colocar os ombros sob o peso da lei de Deus e empenhá-los na obra, mas seus ombros acabavam recuando. Logo se afastavam, não permaneciam na tarefa nem perseveravam nela. Quando chegava a hora de começar o trabalho, como costumamos dizer, recuavam e se recusavam a ouvir.

Tinham um coração inclinado a se desviar e, embora Deus os chamasse por meio dos profetas para voltar, não lhe davam ouvidos, v. 30. Ele estendeu as mãos, mas ninguém lhe deu atenção.

(2.) O desprezo pela boa terra que Deus lhes dera (v. 35): “Nossos reis não te serviram em seu reino, não usaram o poder para sustentar a religião. Nosso povo não te serviu ao desfrutar os dons de tua grande bondade e daquela terra vasta e fértil que lhes concedeste e puseste diante deles, expulsando seus habitantes e dando-lhes vitória completa sobre eles.”

Os que não quiseram servir a Deus na própria terra foram obrigados a servir aos seus inimigos numa terra estrangeira, conforme a ameaça de Deuteronômio 28:47, 48. É triste que uma boa terra tenha maus habitantes, mas assim foi em Sodoma. A fertilidade e a abundância muitas vezes tornam as pessoas orgulhosas e sensuais.

IV. Aqui eles apresentam humildemente os juízos de Deus sob os quais estiveram e ainda estavam:

  1. Recordam os juízos anteriores como agravantes de seus pecados, pois não haviam dado atenção ao aviso. Nos dias dos juízes, seus inimigos os afligiram (v. 27). Quando voltaram a praticar o mal, Deus tornou a deixá-los nas mãos dos inimigos, que não poderiam sequer tocá-los se ele não os tivesse entregado. Depois que Deus os deixou, seus inimigos conquistaram o domínio sobre eles e o mantiveram.

  2. Apresentam ao Senhor sua situação calamitosa naquele momento (v. 36, 37): “Hoje somos servos.” Israelitas nascidos livres estavam escravizados. Por muito tempo possuíram a terra por um título mais honroso que até a grande sargenteria, posse feudal em troca de serviço pessoal ao rei: receberam-na por concessão direta da coroa do céu, como povo peculiar acima de todos os povos da terra.

Agora a possuíam por um título tão baixo quanto o da vilanagem, regime servil de posse da terra: vinha dos reis da Pérsia, dependia deles e estava sujeita a eles, pois eram seus vassalos. Que triste mudança! Veja, porém, o que o pecado faz. Estavam sujeitos ao serviço pessoal: “Eles dominam sobre os nossos corpos.”

Tudo o que tinham era precário, pois ocupavam a terra enquanto seus senhores permitissem. O imposto sobre a terra era tão alto que equivalia a um arrendamento extorsivo. Assim, na prática, todas as rendas, receitas e lucros da terra iam para o rei, e eles mal conseguiam tirar dela o sustento básico para si e suas famílias.

Reconheciam honestamente que isso ocorria por causa de seus pecados. A pobreza e a escravidão são frutos do pecado; é o pecado que nos traz todas as aflições.

V. Aqui se dirigem a Deus em meio a essas calamidades. 1. Pedem que sua aflição não pareça pequena, v. 32. É a única petição de toda a oração. A aflição era geral: atingira seus reis, príncipes, sacerdotes, profetas, pais e todo o povo. Todos haviam participado do pecado (v. 34) e agora todos participavam do juízo.

Ela também durava havia muito tempo: desde os dias dos reis da Assíria, que levaram as dez tribos para o cativeiro, até aquele dia. “Senhor, não deixes que tudo isso pareça pequeno, indigno de atenção ou sem necessidade de alívio.” Não prescrevem a Deus o que deve fazer por eles, mas deixam a decisão em suas mãos. Pedem apenas que se digne a tomar conhecimento da aflição.

Lembram-se de que, quando ele viu como era grande a aflição de seu povo no Egito, desceu para libertá-lo, Êxodo 3:7, 8. Nesse pedido, contemplam Deus como alguém a ser temido, pois ele é o grande, poderoso e temível Deus, e como alguém em quem se pode confiar, pois é o nosso Deus em aliança, que guarda a aliança e a misericórdia.

  1. Ao mesmo tempo, reconhecem que sua aflição era, na verdade, menor do que mereciam, v. 33. Reconhecem a justiça de Deus em todos os seus sofrimentos e que ele não lhes fez injustiça alguma: “Agimos perversamente ao violar tuas leis; por isso, agiste com justiça ao trazer sobre nós todas essas desgraças.”

Repare: quando estamos sob as repreensões da Providência divina, por mais severas e prolongadas que sejam, convém justificar a Deus e julgar a nós mesmos, pois ele será considerado justo quando julgar, Salmos 51:4.

VI. Aqui estão o resultado e a conclusão de toda essa questão. Depois dessa longa exposição de sua situação, chegam enfim à decisão de voltar a Deus e ao seu dever e de se comprometer a nunca abandoná-lo, mas a permanecer sempre no dever.

“Por causa de tudo isso, fazemos uma aliança firme com Deus. Em vista das muitas vezes em que nos afastamos dele, agora nos ligaremos a ele mais firmemente do que nunca. Como sofremos tanto por causa do pecado, agora nos decidiremos firmemente contra ele, para não voltar a retirar o ombro.” Observe:

  1. Essa aliança foi feita com séria reflexão. Resulta de uma sequência de pensamentos adequados e, assim, é um serviço racional. 2. Com grande solenidade. Foi escrita in perpetuam rei memoriam, para que permanecesse como memória para todas as gerações. Foi selada e registrada, para servir de testemunha contra eles se agissem com falsidade.

  2. Com anuência de todos: “Nós a fazemos; todos concordamos em fazê-la e a assumimos unanimemente, para fortalecer as mãos uns dos outros.” 4. Com firme resolução: “É uma aliança segura, sem reservar para nós a possibilidade de revogá-la. É por ela que viveremos e morreremos, sem nunca voltar atrás.”

Um certo número de príncipes, sacerdotes e levitas foi escolhido para representar a congregação, assinando e selando a aliança por todos os demais e em nome deles. Cumpriu-se então a promessa de que os judeus, ao voltarem do cativeiro, se uniriam ao Senhor numa aliança perpétua (Jeremias 50:5) e a de Isaías 44:5, segundo a qual assinariam com a própria mão para pertencer ao Senhor.

Quem tem intenção sincera não se assusta com garantias, e quem conhece o engano do próprio coração não as considera desnecessárias.


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