Matthew Henry

Neemias 6

Argumento

Silenciados os clamores dos pobres oprimidos, cabe-nos agora investigar como avança a construção do muro. Neste capítulo, vemos a obra prosseguir com vigor e terminar com alegria, apesar das incansáveis tentativas das portas do inferno de impedi-la.

Já lemos como os inimigos dos judeus fracassaram em seu desígnio de interrompê-la pela força, Neemias 4. Aqui vemos como foram frustrados seus esforços para afastar Neemias da obra.

I. Quando o convidaram para um encontro com o desígnio de lhe fazer mal, ele não saiu de onde estava, vv. 1-4. II. Quando tentaram fazê-lo crer que sua obra era apresentada como sedição e traição, não deu atenção à insinuação, vv. 5-9.

III. Quando contrataram falsos profetas para aconselhá-lo a se refugiar no templo em nome da própria segurança, ele continuou firme, vv. 10-14. IV. Apesar da correspondência secreta mantida entre eles e alguns judeus falsos e traiçoeiros, a obra foi concluída em pouco tempo, vv. 15-19.

Assim eram as lutas entre a igreja e seus inimigos. Mas a causa de Deus é grande, e ela prosperará e vencerá.

Versículos 1 a 9

A Trama de Sambalate, etc. (a.C. 445.)

Temos aqui o relato de duas tramas contra Neemias: com quanta astúcia seus inimigos as prepararam e com que felicidade foram frustradas pela boa providência de Deus e pela prudência dele.

I. Uma trama para atraí-lo a uma armadilha. Os inimigos souberam como a obra estava adiantada: todas as brechas do muro haviam sido fechadas. Por isso, consideravam-na praticamente concluída, embora as folhas das portas ainda estivessem fora das dobradiças (v. 1). Tinham, portanto, de eliminar Neemias agora ou nunca, por meio de um golpe ousado.

Souberam que ele era bem protegido e que não poderiam atacá-lo ali mesmo. Por isso, tentariam atraí-lo para junto deles com todos os artifícios da lisonja. Observe: 1. Com que sutileza infernal o convidaram a encontrar-se com eles. Não escolheram uma cidade, para não levantar a suspeita de que pretendiam prendê-lo, mas uma aldeia no território de Benjamim.

“Vamos nos reunir para tratar dos interesses comuns de nossas províncias.” Ou queriam que ele pensasse que desejavam sua amizade e gostariam de conhecê-lo melhor, a fim de estabelecer bom entendimento e boas relações entre eles. Mas planejavam causar-lhe dano.

É provável que ele tivesse recebido alguma informação secreta de que tinham o desígnio de prendê-lo ou matá-lo. Ou os conhecia tão bem que, sem faltar à caridade, concluiu que queriam tirar-lhe a vida; por isso, não acreditou neles quando lhe falaram com gentileza.

  1. Veja com que sabedoria celestial ele recusou a proposta. Seu Deus o instruiu a dar-lhes, por meio de seus próprios mensageiros, esta resposta prudente: “Estou fazendo uma grande obra, tenho muito que fazer e não quero que a obra pare enquanto a deixo para descer até vocês”, v. 3.

Sua preocupação era que a obra não parasse; sabia que pararia se ele a deixasse, ainda que por pouco tempo. E por que deveria ela parar enquanto ele descia até eles? Não menciona suas suspeitas nem os censura pelo desígnio traiçoeiro, mas lhes dá um bom motivo, e um dos motivos verdadeiros, para não ir. A cortesia sempre deve ceder lugar ao trabalho.

Que aqueles a quem companheiros fúteis convidam para reuniões alegres e ociosas respondam assim à tentação: “Temos trabalho a fazer e não devemos negligenciá-lo.” Quatro vezes insistiram com o mesmo pedido, e outras tantas ele lhes deu a mesma resposta. Podemos supor que isso muito os irritou.

Na verdade, o que pretendiam era fazer a obra parar. Ver aquele que a conduzia tão dedicado a ela os faria perder a esperança de frustrar o empreendimento. “Respondi-lhes da mesma maneira”, diz ele, v. 4. Repare: nunca devemos nos deixar vencer, nem pela maior insistência, para fazer algo pecaminoso ou imprudente.

Quando enfrentamos a mesma tentação, devemos continuar a resistir-lhe com a mesma razão e a mesma firmeza.

II. Uma trama para assustá-lo e afastá-lo da obra. Se conseguissem fazê-lo desistir, a obra naturalmente pararia. Era isso que Sambalate tentava fazer, mas em vão. 1. Ele procura levar Neemias a crer que sua iniciativa de construir os muros de Jerusalém era geralmente apresentada como facciosa e sediciosa, e que assim seria recebida na corte, vv. 5-7.

Os melhores homens, até em suas ações mais inocentes e excelentes, já sofreram tal acusação. Isso lhe é escrito numa carta aberta, como se fosse algo conhecido e comentado por todos: circulava entre as nações a notícia, que Gasmu confirmaria como verdadeira, de que Neemias pretendia fazer-se rei e livrar-se do jugo persa.

Repare: é comum os maliciosos apresentarem falsamente como opinião de muitos aquilo que é opinião apenas deles próprios. Sambalate finge informar Neemias disso como amigo, para que ele corra à corte e se defenda, ou interrompa a obra por medo de que suas ações sejam assim interpretadas.

Pelo menos, com base nesse boato, insiste para que Neemias se encontre com ele: “Vamos conversar sobre como acabar com essa notícia.” Espera, por esse meio, ou eliminar Neemias, ou ao menos afastá-lo de sua tarefa. Suas palavras eram mais suaves que o azeite, mas havia guerra em seu coração; como Judas, esperava beijar e matar.

Mas certamente é inútil armar uma rede à vista de qualquer ave. Neemias logo percebeu que queriam enfraquecer as mãos dos trabalhadores (v. 9). Por isso, negou não apenas que tais coisas fossem verdadeiras, mas também que estivessem sendo comentadas. Era conhecido demais para que recaísse sobre ele semelhante suspeita.

  1. Assim escapou da armadilha e permaneceu firme; nem ventos nem nuvens o assustaram a ponto de deixar de semear e colher. Mesmo que o boato estivesse circulando, nunca devemos omitir um dever conhecido apenas por medo de que seja mal interpretado. Enquanto mantemos a boa consciência, confiemos a Deus a nossa boa reputação.

Mas, na verdade, o boato não circulava. Embora o povo de Deus suporte bastante descrédito, sua reputação não é tão baixa quanto alguns querem fazer crer.

Em meio à sua queixa pela malícia daqueles que tentavam assustá-lo e enfraquecer-lhe as mãos, Neemias eleva o coração ao Céu nesta breve oração: “Agora, pois, ó Deus, fortalece as minhas mãos.” É grande amparo e alívio para as pessoas de bem terem, em todos os seus apertos e dificuldades, um Deus bondoso a quem recorrer.

Dele podem receber, pela fé e pela oração, a graça que silencia seus temores e fortalece suas mãos, quando os inimigos procuram infundir-lhes medo e enfraquecer-lhes as mãos.

Ao entrarmos em qualquer tarefa ou conflito específico em nossa obra e luta cristãs, esta é uma boa oração: “Tenho tal dever a cumprir, tal tentação a enfrentar; agora, pois, ó Deus, fortalece as minhas mãos.”

Alguns leem essas palavras não como oração, mas como santa resolução (pois “ó Deus” foi acrescentado na tradução que usamos): “Agora, pois, fortalecerei as minhas mãos.” Repare: a oposição tornará mais aguçada a coragem cristã. Toda tentação de nos afastar do dever deve estimular-nos ainda mais a cumpri-lo.

Versículos 10 a 14

A Trama de Semaías Frustrada. (a.C. 445.)

Os inimigos dos judeus não deixam pedra por virar nem método por tentar para afastar Neemias da construção do muro em torno de Jerusalém. Já haviam tentado atraí-lo para junto deles no campo, mas em vão. Agora tentam levá-lo a refugiar-se no templo em nome da própria segurança: que esteja em qualquer lugar, desde que longe da obra.

Ao perceber que era um homem cauteloso, procuram alcançar seu objetivo tornando-o covarde. Observe:

I. Com quanta vileza os inimigos conduziram essa tentação:

  1. Seu desígnio era levar Neemias a fazer uma tolice, para então rir dele e insultá-lo por isso, diminuindo assim seu prestígio e sua influência (v. 13): para que ele ficasse com medo e, desse modo, tivessem motivo para um relato maldoso e pudessem cobri-lo de descrédito.

Era mesmo fazer a obra do diabo, que tenta os homens para depois acusá-los e os arrasta ao pecado para gloriar-se na vergonha deles.

O maior dano que nossos inimigos podem nos causar é assustar-nos a ponto de abandonarmos o dever e nos levar a fazer o que é pecaminoso.

  1. Os instrumentos que usaram foram um falso profeta e uma falsa profetisa, contratados para persuadir Neemias a deixar a obra e retirar-se para sua própria segurança. O falso profeta era Semaías.

Diz-se que ele estava encerrado em sua casa, talvez alegando ter-se retirado para meditar e consultar a vontade de Deus, ou para dar a Neemias um sinal de que também deveria recolher-se.

Ao que parece, Neemias o estimava, pois foi à sua casa para consultá-lo, v. 10. Havia outros profetas e uma profetisa, Noadias (v. 14), que serviam aos interesses dos inimigos dos judeus, eram sustentados por eles e traíam seu próprio país.

Não se sabe se alegavam ser inspirados. Não diziam: “Assim diz o Senhor”, como faziam os falsos profetas antigos.

Mesmo que não o dissessem, queriam ser considerados superiores em conhecimento divino e prudência humana, dotados de discernimento e capacidade de prever os acontecimentos fora do comum. Por isso, eram consultados em casos difíceis, como antes se consultavam os profetas.

Os inimigos os remuneraram para que fossem seus conselheiros. Temos aqui motivo para lamentar: (1.) A perversidade de homens tão maus quanto esses profetas. É terrível que alguém seja tão pérfido a ponto de trair a causa de Deus e de seu país, até mesmo alegando ter comunhão com Deus e se importar com seu país.

(2.) A condição infeliz de homens bons como Neemias, que correm o risco de ser iludidos por semelhantes embusteiros. Nenhuma tentação chega com mais força a eles do que aquela que se apresenta sob a aparência da religião, da revelação e da devoção, trazida pelas mãos de profetas.

  1. A alegação era plausível. Esses profetas sugeriram a Neemias que os inimigos viriam abatê-lo; à noite o abateriam. Ele tinha bons motivos para acreditar nisso: eles o fariam, se pudessem e ousassem. Fingiam estar muito preocupados com sua segurança. Todo o povo estaria arruinado se lhe acontecesse algum prejuízo.

Por isso, aconselharam-no com muita seriedade a esconder-se no templo até que o perigo passasse. Era um lugar forte e sagrado, onde estaria sob a proteção especial do Céu, Salmos 27:5.

Se Neemias tivesse seguido esse conselho, o povo imediatamente teria parado de trabalhar e deposto as armas, e cada um teria procurado proteger a si mesmo. Então os inimigos poderiam facilmente, sem oposição, demolir as obras, derrubar de novo o muro e alcançar seu objetivo.

Embora a autopreservação seja um princípio fundamental da lei da natureza, o conselho que a invoca nem sempre é o melhor e o mais sábio.

II. Veja como Neemias venceu corajosamente essa tentação e saiu vitorioso:

  1. Ele decidiu de imediato não ceder, v. 11. Veja aqui: (1.) Seus argumentos: “Um homem como eu deveria fugir? Abandonarei a obra de Deus ou desanimarei os trabalhadores que empreguei e animei? Darei crédito demais a um boato e me preocuparei demais com minha própria vida? Eu, que sou o governador, observado por tantos amigos e inimigos?”

“Outro poderia fugir, mas eu, não. Quem, estando na posição em que estou, num cargo de honra, poder e confiança, entraria no templo e se esconderia ali quando há trabalho a fazer, ainda que fosse para salvar a própria vida?”

Repare: quando somos tentados a pecar, devemos lembrar quem somos e o que somos, para não fazermos nada indigno de nós e da fé que professamos. “Não convém aos reis, ó Lemuel!”, Provérbios 31:4.

(2.) O resultado de seus argumentos. Sua decisão está tomada: “Não entrarei. Prefiro morrer no meu trabalho a viver numa retirada vergonhosa da obra.” Repare: a santa coragem e a grandeza de espírito nos levarão, custe o que custar, a jamais abandonar uma boa obra nem praticar uma má ação.

  1. Ele logo percebeu de onde vinha o conselho (v. 12): “Percebi que Deus não o havia enviado e que ele dava esse conselho não por orientação divina, comum ou extraordinária, mas com um desígnio contra mim.” A perversidade de tais miseráveis mercenários, mais cedo ou mais tarde, virá à luz.

Neemias menciona duas coisas que temia naquele conselho: (1.) Ofender a Deus: que ficasse com medo, agisse assim e pecasse. Repare: o pecado é aquilo que mais devemos temer; temer somente o pecado é uma boa proteção contra ele. (2.) Envergonhar a si mesmo: que pudessem cobri-lo de descrédito. Repare: depois da maldade do pecado, devemos temer o escândalo que ele causa.

  1. Ele pede humildemente a Deus que lhes peça contas de seus desígnios vis contra ele (v. 14): pede a seu Deus que se lembre de Tobias e dos outros segundo as suas obras. Quando mencionou seus próprios bons serviços, não prescreveu a Deus, por cobiça ou ambição, a recompensa que deveria receber, mas orou com modéstia: “Lembra-te de mim, meu Deus” (Neemias 5:19).

Da mesma forma, aqui não invoca por vingança nenhum julgamento específico contra os inimigos, mas entrega o caso a Deus. “Tu conheces seus corações e és o vingador da falsidade e da injustiça; considera esta causa, julga entre mim e eles e escolhe a maneira e o momento que te agradarem para pedir-lhes contas.”

Repare: sejam quais forem as injúrias que nos façam, não devemos vingar-nos, mas entregar nossa causa àquele que julga com justiça.

Versículos 15 a 19

A Conclusão do Muro. (a.C. 445.)

Neemias termina aqui a construção do muro de Jerusalém, mas seus inimigos ainda lhe causam problemas.

I. Tobias e os outros adversários dos judeus tiveram a humilhação de ver o muro construído, apesar de todas as tentativas de impedir a obra. O muro começou a ser construído e foi concluído em cinquenta e dois dias; ainda assim, temos motivos para crer que descansavam nos sábados, v. 15.

Muitos trabalhavam, e havia espaço para todos. Faziam sua parte com alegria e se dedicavam à tarefa porque a amavam. É provável que as ameaças dos inimigos, feitas para enfraquecê-los, os tenham estimulado a trabalhar com mais vigor, para terminar antes que os inimigos chegassem. Assim, do devorador saiu alimento.

Veja quanto trabalho se pode realizar em pouco tempo quando o iniciamos com empenho e nele perseveramos. Ao saberem que o muro estava concluído antes mesmo da época em que julgavam que a obra estava bem iniciada, os inimigos ficaram abatidos e perderam a confiança em si mesmos, justamente quando tinham certeza de que conseguiriam detê-la, v. 16.

  1. Ficaram envergonhados por terem tido tanta confiança de que fariam a obra parar; a frustração os deixou cabisbaixos. 2. Invejaram a prosperidade e o sucesso dos judeus, e se entristeceram ao ver os muros de Jerusalém construídos, enquanto talvez os reis da Pérsia não lhes permitissem fortificar assim as cidades de Samaria.

Quando Caim invejou o irmão, seu semblante se abateu, Gênesis 4:5. 3. Perderam a esperança de algum dia causar aos judeus o dano que tinham o desígnio de lhes causar, derrubá-los e fazer deles uma presa. E tinham bons motivos para isso, pois perceberam, pelo êxito extraordinário, que a obra havia sido realizada por Deus.

Até esses pagãos tinham discernimento suficiente para: [1.] Ver uma providência especial de Deus atuando nos assuntos da igreja quando ela prosperava de modo notável. Entre as nações disseram: “O Senhor fez grandes coisas por eles”; isso era obra dele, Salmos 126:2. Deus luta por Israel e trabalha com eles.

[2.] Crer que a obra de Deus seria perfeita. Quando perceberam que era obra de Deus, não esperavam outra coisa senão que ela prosseguisse e prosperasse. [3.] Concluir que, se era de Deus, não adiantava pensar em opor-se a ela: certamente prevaleceria e venceria.

II. Apesar disso, Neemias teve o desgosto de ver alguns de seu próprio povo corresponder-se traiçoeiramente com Tobias e servir aos interesses dele. Sem dúvida, isso lhe causou grande tristeza e desânimo.

  1. Até entre os nobres de Judá havia quem tivesse tão pouco senso de honra e do bem de seu país que se correspondia por cartas com Tobias, v. 17. Escreviam-lhe com toda a liberdade e familiaridade de amigos e acolhiam as cartas que ele lhes mandava.

Podiam nobres fazer algo tão baixo? Nobres de Judá, algo tão perverso? Ao que parece, homens importantes nem sempre são sábios nem sempre são honestos.

  1. Muitos em Judá estavam unidos a ele por uma aliança estreita, embora secreta, para promover os interesses do país de Tobias, mesmo que isso certamente arruinasse o seu próprio país. Haviam-lhe jurado fidelidade, não como príncipe, mas como amigo e aliado, porque tanto ele quanto seu filho tinham se casado com filhas de Israel, v. 18.

Veja o dano de casar-se com estrangeiros: para cada pagão convertido por esse casamento, dez judeus eram desviados. Assim que se tornaram parentes de Tobias, logo lhe juraram fidelidade. Um amor pecaminoso leva a uma aliança pecaminosa.

  1. Tiveram a ousadia de tentar atrair o próprio Neemias para uma amizade com Tobias: “Contavam diante de mim suas boas ações, apresentando-o como um homem inteligente e digno de minha amizade, um homem honesto em quem eu podia confiar.” Somos, de fato, instruídos a não falar mal de ninguém, mas nunca a falar bem de homens maus.

“Os que abandonam a lei louvam os ímpios”, Provérbios 28:4. 4. Foram tão desleais que revelaram a Tobias os planos de Neemias. Repetiam-lhe as palavras de Neemias, sem dúvida distorcendo-as e dando-lhes interpretações falsas. Isso fornecia a Tobias matéria para escrever cartas destinadas a assustá-lo, afastá-lo da obra e desanimá-lo nela.

Assim, todos os pensamentos deles a seu respeito visavam o mal, mas Deus pensava nele para o bem.


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