Neemias 4
Argumento
Deixamos todos trabalhando na construção do muro em torno de Jerusalém. Mas uma obra tão boa não costuma avançar sem oposição. Aqui se conta que oposição lhe fizeram e que medidas Neemias tomou para levar a obra adiante apesar dela.
I. Os inimigos lançaram descrédito sobre o empreendimento e o ridicularizaram. O povo respondeu às zombarias com orações; sem lhes dar atenção, prosseguiu no trabalho, vv. 1-6. II. Os inimigos conceberam um desígnio sangrento para impedi-los pela força das armas, v. 7, 8, 10-12.
Para se proteger, Neemias orou (v. 9), pôs guardas (v. 13) e os animou a lutar (v. 14). Assim o desígnio foi frustrado (v. 15), e a obra prosseguiu com todas as precauções necessárias contra um ataque inesperado, vv. 16-23. Em tudo isso Neemias mostrou ser homem de grande sabedoria e coragem, além de grande piedade.
Versículos 1 a 6
A Oposição de Sambalate, etc. (a.C. 445.)
Aqui estão: I. As observações rancorosas e escarnecedoras que Sambalate e Tobias fizeram contra os judeus por tentarem construir o muro em torno de Jerusalém. A notícia logo se espalhou pela região e chegou a Samaria, aquele ninho de inimigos dos judeus e de sua prosperidade. Aqui se conta como receberam a notícia:
- No coração. Ficaram muito irados com o empreendimento e sentiram grande indignação, v. 1. Já os incomodara que Neemias tivesse vindo buscar o bem dos filhos de Israel (Neemias 2:10); mas, quando souberam dessa grande iniciativa em favor deles, perderam toda a paciência.
Até então se haviam satisfeito com a ideia de que, enquanto Jerusalém não tivesse muros, poderiam engoli-la e dominá-la quando quisessem. Se, porém, fosse murada, não só estaria protegida contra eles, como aos poucos se tornaria temível para eles. A força e a segurança da igreja causam pesar e incômodo aos seus inimigos.
- Nas palavras. Desprezaram a obra e fizeram dela motivo de zombaria. Nisso mostraram claramente sua malícia, mas daí veio algo bom: por considerá-la um empreendimento insensato que desabaria sob o próprio peso, não procuraram impedi-la até que fosse tarde demais. Vejamos com que orgulho e malícia a ridicularizaram em público.
(1.) Sambalate fala com desprezo dos trabalhadores: “Esses fracos judeus” (v. 2), “que farão para conseguir material? Farão reviver as pedras do entulho? E por que tanta pressa? Pensam que murar uma cidade é trabalho de um dia e que no seguinte já poderão celebrar a festa da dedicação com sacrifícios? Pobres tolos! Vejam como se tornam ridículos!”
(2.) Tobias fala com igual desprezo da própria obra. Também tem sua piada e precisa mostrar sua esperteza, v. 3. Escarnecedores profanos atiçam uns aos outros.
“Que obra miserável”, diz ele, “é provável que façam! Eles mesmos terão vergonha dela: se uma raposa subir, não por sua astúcia, mas pelo seu peso, derrubará o muro de pedras.” Muitas obras boas foram assim tratadas com desprezo pelos escarnecedores orgulhosos e arrogantes.
II. A humilde e devota súplica de Neemias a Deus quando soube dessas palavras. Contaram-lhe o que os inimigos diziam.
É provável que eles próprios lhe tenham enviado uma mensagem nesse sentido para desanimá-lo, na esperança de fazê-lo abandonar a tentativa por causa das zombarias. Mas Neemias não respondeu a esses tolos segundo a sua tolice nem lhes lançou em rosto a fraqueza. Voltou os olhos a Deus em oração.
- Pede a Deus que preste atenção às indignidades cometidas contra eles (v. 4), e nisso devemos imitá-lo: “Ouve, ó nosso Deus, pois somos desprezados.” Repare: (1.) O povo de Deus muitas vezes foi desprezado e coberto de desdém.
(2.) Deus ouve e ouvirá todos os insultos feitos ao seu povo. Isso o consola e lhe dá boa razão para se fazer de surdo, Salmos 38:13, 15. “Tu és o nosso Deus, a quem apelamos; nossa causa só precisa de uma audiência justa.”
- Pede a Deus que vingue sua causa e faça o descrédito voltar-se contra os próprios inimigos (v. 4, 5). Isso foi dito mais em espírito de profecia que de oração e não deve ser imitado por nós, a quem Cristo ensinou a orar pelos que nos maltratam e perseguem. O próprio Cristo orou pelos que o desacreditavam: “Pai, perdoa-lhes.” Neemias, porém, ora: “Não encubras a sua iniquidade.”
Repare: (1.) Os que desprezam o povo de Deus apenas preparam para si mesmos vergonha eterna. (2.) É um pecado do qual raramente os pecadores se recuperam. Sem dúvida, Neemias tinha motivos para pensar que o coração daqueles pecadores estava endurecido sem remédio, de modo que jamais se arrependeriam. Caso contrário, não teria orado para que seu pecado nunca fosse apagado.
A razão que ele apresenta não é: “Eles nos maltrataram”, mas: “Eles te provocaram”, e isso diante dos construtores, aos quais provavelmente enviaram uma mensagem rancorosa. Repare: devemos nos indignar com a malícia dos perseguidores, não porque nos fere, mas porque ofende a Deus. Nisso podemos fundamentar a esperança de que Deus se levantará contra ela, Salmos 74:18, 22.
III. O vigor dos construtores apesar desse descrédito, v. 6. Trabalharam tão depressa que em pouco tempo levantaram o muro até metade de sua altura, pois o povo tinha disposição para trabalhar. Tinham o coração na obra e queriam vê-la avançar.
Repare: 1. Uma boa obra progride bem quando as pessoas se dispõem a fazê-la. 2. O descrédito lançado pelos inimigos deve nos estimular ao dever, em vez de nos afastar dele.
Versículos 7 a 15
Temos aqui:
I. A conspiração que os inimigos dos judeus formaram contra eles, para interromper a construção abatendo os construtores. Os conspiradores não eram apenas Sambalate e Tobias, mas também outros povos vizinhos que eles haviam atraído para a trama. Iludiram-se com a ideia de que a obra logo pararia por si mesma.
Mas, ao saberem que ela prosseguia e prosperava, ficaram irados com os judeus por levarem o trabalho adiante tão depressa e consigo mesmos por terem demorado tanto a se opor a ele (v. 7): “Ficaram muito encolerizados”. Maldita seja a sua ira, porque era feroz, e a sua cólera, porque era cruel. Nada os satisfaria senão lutar contra Jerusalém, v. 8.
Mas que desavença tinham com os judeus? Estes lhes haviam feito algum mal? Ou tinham o desígnio de fazer-lhes algum mal? Não; viviam em paz ao lado deles. Era pura inveja e malícia: odiavam a piedade dos judeus e, por isso, incomodavam-se com sua prosperidade e buscavam sua ruína.
Observe: 1. Como estavam unidos: todos conspiraram juntos, embora tivessem interesses diferentes entre si, mas eram um só na oposição à obra de Deus. 2. Como agiram às escondidas. Disseram: “Eles não saberão nem verão até estarem à nossa mercê.” Assim tramaram astutamente e cavaram fundo para esconder isso do Senhor. Esperavam que o segredo de sua ação lhes trouxesse segurança e êxito.
- Como eram cruéis: viriam e os abateriam. Se nada menos que o assassinato dos trabalhadores bastasse para deter a obra, não hesitariam em fazê-lo. Ou melhor, tinham sede de sangue e se alegravam com qualquer alegação que lhes permitisse saciá-la. 4. Qual era o desígnio e quanta confiança tinham no sucesso: queriam fazer cessar a obra (v. 11) e estavam certos de que conseguiriam.
Impedir uma boa obra é o que os maus procuram fazer e esperam conseguir. Mas uma boa obra é obra de Deus e prosperará.
II. Os desânimos que afligiam os próprios construtores. No momento em que os adversários diziam: “Façamos cessar a obra”, Judá dizia: “Deixemos mesmo a obra parar, pois não somos capazes de levá-la adiante”, v. 10.
Descrevem os trabalhadores como cansados e as dificuldades ainda restantes, até mesmo na primeira parte da obra, a remoção do entulho, como insuperáveis. Por isso julgam aconselhável desistir por enquanto.
Pode Judá, aquela tribo guerreira e valente, agir com tamanha covardia? Muitas vezes os líderes ativos têm tanto trabalho para lidar com os temores dos amigos quanto com o terror dos inimigos.
III. A notícia dos desígnios dos inimigos levada a Neemias, v. 12. Havia judeus que moravam perto deles, na região. Embora não tivessem zelo suficiente para ir a Jerusalém ajudar os irmãos a construir o muro, sua localização lhes dava a oportunidade de descobrir os movimentos do inimigo. Tinham, porém, honestidade e apreço pela causa suficientes para transmitir a informação.
Ou melhor, para que sua notícia merecesse mais crédito, foram pessoalmente transmiti-la. Repetiram-na dez vezes, com seriedade e preocupação, e muitas testemunhas confirmaram o relato. A informação é expressa de forma abrupta e dá trabalho aos críticos para lhe extrair o sentido.
Talvez isso se destine a mostrar que eles a transmitiram sem fôlego e confusos, e que a expressão de seus rostos completava o que faltava às palavras. Creio que se pode ler sem acrescentar nada: “Aonde quer que vocês se voltem, eles estão contra nós, de modo que precisam ficar atentos de todos os lados.”
Repare: Deus tem muitos meios de trazer à luz os artifícios e desígnios dos seus inimigos e dos inimigos da igreja e, assim, reduzi-los a nada. Até os judeus frios e fracos que se contentam em morar perto deles serão usados como espiões. Se preciso for, uma ave do céu levará sua voz.
IV. As medidas piedosas e prudentes que Neemias tomou em seguida para frustrar o desígnio e proteger a obra e os trabalhadores:
- Diz-se que ele olhou (v. 14). (1.) Olhou para cima, buscou o apoio de Deus e colocou a si mesmo e sua causa sob a proteção divina (v. 9): “Oramos ao nosso Deus.” Esse era o modo de agir desse homem bom e deve ser o nosso.
Expunha diante de Deus todas as preocupações, tristezas e temores e assim encontrava tranquilidade. Foi a primeira coisa que fez: antes de usar qualquer meio, orou a Deus, pois devemos sempre começar com ele.
(2.) Olhou ao redor. Depois de orar, pôs uma guarda contra eles. As instruções que Cristo nos deu para a guerra espiritual concordam com esse exemplo, Mateus 26:41: “Vigiai e orai.”
Se pensamos em nos proteger somente pela oração, sem vigilância, somos indolentes e tentamos a Deus. Se pensamos fazê-lo pela vigilância, sem oração, somos orgulhosos e fazemos pouco caso de Deus. De qualquer modo, perdemos sua proteção.
- Observe: (1.) Como dispôs os guardas, v. 13. Nos lugares mais baixos colocou-os atrás do muro, para que pudessem atacar o inimigo por cima dele, como de uma fortificação.
Nos lugares mais altos, onde o muro já alcançara sua altura total, colocou-os sobre ele para que lançassem pedras ou dardos sobre a cabeça dos atacantes. Agrupou-os por famílias, a fim de que o parentesco os levasse a ajudar uns aos outros.
(2.) Como animou e encorajou o povo, v. 14. Percebeu que até os nobres e governantes, assim como o restante do povo, estavam muito alarmados com a notícia e prontos a concluir que todos estavam perdidos. Isso lhes enfraquecia as mãos tanto para o trabalho quanto para a guerra; por isso, procurou acalmar seus temores.
“Venham”, disse ele, “não tenham medo deles, mas ajam com coragem, considerando: [1.] Sob o comando de quem vocês lutam. Não poderiam ter melhor capitão: lembrem-se do Senhor, que é grande e temível.”
“Vocês consideram seus inimigos grandes e temíveis; mas o que são eles diante de Deus, sobretudo quando se opõem a ele? Ele é maior que eles e pode dominá-los, e lhes causará terror quando vier acertar contas com eles.”
Os que veem pela fé que o Deus da igreja é grande e temível verão que os inimigos dela são pequenos e desprezíveis. O temor de Deus que governa a vida é o melhor antídoto contra o temor dos homens, que arma ciladas. Quem teme um homem mortal esquece o Senhor, seu Criador, Isaías 51:12-13.
[2.] “Por quem vocês lutam. Não poderiam ter causa melhor: lutam por seus irmãos (Salmos 122:8), seus filhos e suas filhas. Tudo o que é caro a vocês neste mundo está em jogo; portanto, ajam com coragem.”
V. O feliz fracasso que isso trouxe aos inimigos, v. 15. Ao descobrirem que seu desígnio fora revelado e que os judeus estavam de guarda, concluíram que qualquer tentativa seria inútil, pois Deus havia reduzido seu conselho a nada. Sabiam que só poderiam atingir seu objetivo por meio da surpresa; uma vez descoberta, a trama estava frustrada.
Então cada judeu voltou ao trabalho com ainda mais ânimo, pois viam claramente que Deus aprovava a obra e estava com eles enquanto a faziam. Repare: o cuidado de Deus com nossa segurança deve nos estimular e animar a cumprir o dever com vigor. Assim que um perigo passar, voltemos ao trabalho e confiemos em Deus outra vez.
Versículos 16 a 23
As Precauções de Neemias. (a.C. 445.)
Quando os construtores tiveram motivos suficientes para considerar frustrado o desígnio dos inimigos e voltar ao trabalho, nem por isso se sentiram tão seguros a ponto de depor as armas. Sabiam como seus adversários eram inquietos e incansáveis em suas tentativas e que, se um desígnio falhasse, tramariam outro.
Assim devemos vigiar sempre contra nossos inimigos espirituais e não esperar que nossa guerra termine antes que nossa obra termine.
Vejamos que medidas Neemias tomou para que o povo permanecesse pronto caso houvesse um ataque:
- Enquanto uma metade trabalhava, a outra permanecia armada, segurando lanças, escudos e arcos, não só para sua própria defesa, mas também para a dos trabalhadores. Estes deixariam imediatamente o trabalho e pegariam suas armas ao primeiro sinal de alarme, v. 16.
É provável que trocassem de função em horários definidos, o que aliviaria o cansaço de ambos os grupos e, em especial, o dos carregadores, cujas forças haviam diminuído (v. 10). Enquanto seguravam as armas, descansavam do peso, mas não ficavam ociosos.
Assim, dividindo o tempo entre as colheres de pedreiro e as lanças, diz-se que trabalhavam com uma mão e seguravam a arma com a outra (v. 17). Isso não pode ser entendido literalmente, pois o trabalho exigiria as duas mãos; indica, porém, que se ocupavam igualmente das duas tarefas.
Assim devemos desenvolver nossa salvação com as armas da nossa guerra nas mãos, pois em todo dever devemos esperar a oposição dos inimigos espirituais, contra os quais precisamos continuar combatendo o bom combate da fé.
Cada construtor tinha uma espada ao lado (v. 18), que podia carregar sem atrapalhar o trabalho. A palavra de Deus é a espada do Espírito, que devemos ter sempre à mão, sem precisar procurá-la, tanto em nossos trabalhos quanto em nossos conflitos como cristãos.
Tomaram providências para perceber cedo a aproximação do inimigo e avisar a todos, caso ele tentasse surpreendê-los. Neemias mantinha sempre consigo um tocador de trombeta para dar o alarme ao primeiro sinal de perigo. A obra era grande e os construtores estavam espalhados, pois trabalhavam ao mesmo tempo em todas as partes do muro.
Neemias percorria continuamente a obra para supervisioná-la e animar os trabalhadores. Assim logo ficaria sabendo de qualquer ataque e, ao som da trombeta, avisaria rapidamente a todos. Eles deveriam correr imediatamente até ele, com plena certeza de que seu Deus lutaria por eles, vv. 18-20.
Quando agiam como trabalhadores, precisavam estar espalhados por todos os lugares em que houvesse serviço. Como soldados, porém, precisavam cerrar fileiras e formar um só corpo. Assim os trabalhadores no edifício de Cristo devem estar prontos a se unir contra um inimigo comum.
Ordenou-se que os moradores das aldeias passassem a noite em Jerusalém com seus servos. Assim estariam mais perto do trabalho pela manhã e prontos a ajudar caso houvesse um ataque à noite, v. 22. A força de uma cidade está mais nas mãos dos seus habitantes que em seus muros. Proteja-os, conte com a bênção de Deus sobre eles e estará seguro.
O próprio Neemias e todos os seus homens dedicavam-se inteiramente à tarefa. As lanças eram mantidas erguidas, à vista do inimigo para amedrontá-lo, não apenas do nascer ao pôr do sol, mas de um crepúsculo ao outro, todos os dias, v. 21.
Assim devemos estar sempre em guarda contra nossos inimigos espirituais, não só enquanto é dia, como aqui, mas também quando é noite, pois eles são os dominadores das trevas deste mundo.
Ou melhor, Neemias estava tão concentrado na obra e mantinha seus servos tão aplicados a ela que, enquanto durou o período mais intenso, nem ele nem seus auxiliares se recolhiam à cama. Todas as noites se deitavam e dormiam vestidos (v. 23), exceto quando trocavam de roupa de vez em quando, por limpeza ou em caso de impureza cerimonial.
Era sinal de que tinham o coração na obra não encontrarem tempo para vestir-se e despir-se, resolvidos a estar sempre prontos para o serviço. Uma boa obra tem condições de avançar com sucesso quando os que nela trabalham fazem dela sua ocupação desse modo.