Neemias 12
Argumento
Neste capítulo ficam registrados: I. Os nomes dos chefes dos sacerdotes e dos levitas que vieram com Zorobabel, vv. 1-9. II. A sucessão dos sumos sacerdotes, vv. 10-11. III. Os nomes da geração seguinte dos outros sacerdotes principais, vv. 12-21.
IV. Os levitas eminentes do tempo de Neemias, vv. 22-26. V. A solenidade da dedicação do muro de Jerusalém, vv. 27-43. VI. A organização dos ofícios dos sacerdotes e levitas no templo, vv. 44-47.
Versículos 1 a 26
Os Sacerdotes e Levitas Que Retornaram. (a.C. 444.)
Temos aqui os nomes, e pouco mais que os nomes, de muitos sacerdotes e levitas que se destacaram em sua época entre os judeus que retornaram. Não está claro por que Neemias incluiu esse registro aqui. Talvez quisesse preservar a memória desses homens bons, para que as gerações futuras soubessem a quem deviam, sob Deus, o feliz reavivamento e restabelecimento da religião entre eles.
Assim devemos contribuir para o cumprimento da promessa de Salmos 112:6: “O justo será lembrado para sempre.” Que a memória dos justos seja bendita e perpetuada. Ainda temos uma dívida para com os ministros fiéis: lembrar nossos guias, que nos anunciaram a palavra de Deus, Hebreus 13:7.
Talvez o registro vise estimular seus descendentes, que os sucederam no ofício sacerdotal e herdaram suas honrarias e seus cargos, a imitar a coragem e a fidelidade deles. É bom saber como foram nossos antepassados e predecessores piedosos, para aprendermos como devemos ser. Temos aqui:
- Os nomes dos sacerdotes e levitas que primeiro retornaram da Babilônia, quando Jesua era sumo sacerdote. Jeremias e Esdras aparecem entre os primeiros (v. 1), mas supõe-se que não sejam o profeta Jeremias nem o escriba Esdras. A fama do primeiro pertencia a muito antes, e a do segundo veio algum tempo depois, embora ambos fossem sacerdotes.
Diz-se de um dos levitas (v. 8) que era encarregado das ações de graças: cabia-lhe assegurar que os salmos de agradecimento fossem cantados continuamente no templo, no tempo e no modo devidos. Os levitas revezavam-se em seus turnos de guarda, substituindo uns aos outros, como convém a irmãos, companheiros de trabalho e de armas.
- A sucessão dos sumos sacerdotes durante a monarquia persa, desde Jesua (ou Jesus), sumo sacerdote na época da restauração, até Jadua (ou Jadus), que ocupava o cargo quando Alexandre, o Grande, veio a Jerusalém depois de conquistar Tiro.
Alexandre prestou grande respeito a Jadus, que o encontrou com as vestes pontificais e lhe mostrou a profecia de Daniel que predissera suas conquistas.
- A geração seguinte de sacerdotes, homens importantes e ativos nos dias de Joiaquim, filhos do primeiro grupo. Repare: temos motivos para reconhecer o favor de Deus para com sua igreja e seu cuidado por ela: quando uma geração de ministros passa, outra vem.
Todos os mencionados no v. 1 e seguintes como eminentes em sua geração voltam a aparecer, embora alguns nomes variem, no v. 12 e seguintes, exceto dois. Os demais deixaram filhos também eminentes em sua geração, caso raro em que vinte bons pais deixaram vinte bons filhos, pois tantos são os mencionados aqui, para ocupar seus lugares.
- A geração seguinte de levitas, ou melhor, uma geração posterior. Os sacerdotes mencionados floresceram nos dias do sumo sacerdote Joiaquim; estes levitas, nos dias de Eliasibe, v. 22. Talvez as famílias sacerdotais antes mencionadas tenham então começado a degenerar, e sua terceira geração tenha ficado aquém das duas primeiras. Mas a obra de Deus nunca falhará por falta de instrumentos.
Surgiu então uma geração de levitas registrados como chefes de famílias (v. 22), muito úteis aos interesses da igreja. Seu serviço não era menos aceitável a Deus ou ao povo por serem apenas levitas, de uma ordem inferior entre os ministros.
Como o sumo sacerdote Eliasibe era ligado a Tobias (Neemias 13:4), os outros sacerdotes se tornaram negligentes. Os levitas, porém, mostraram-se mais zelosos: os que explicavam a lei (Neemias 8:7) e oravam (Neemias 9:4, 5) eram todos levitas, não sacerdotes. Deu-se mais importância à qualificação pessoal que à ordem a que pertenciam.
Alguns desses levitas eram cantores (v. 24), encarregados de louvar e agradecer; outros eram porteiros (v. 25), que montavam guarda nos limiares das portas. Ambos agiam segundo a ordem de Davi.
Versículos 27 a 43
A Dedicação do Muro. (a.C. 444.)
Lemos sobre a construção do muro de Jerusalém em meio a muito temor e tremor. Aqui temos o relato de sua dedicação com grande alegria e triunfo. Assim colherão os que semeiam com lágrimas.
I. Devemos perguntar qual era o significado dessa dedicação do muro. Podemos supor que incluísse também a dedicação da cidade (continens pro contento, o que contém no lugar daquilo que é contido). Por isso não foi feita antes de a cidade estar razoavelmente povoada, Neemias 11:1. Era uma solene ação de graças a Deus por sua grande misericórdia em levar a obra à conclusão.
Sentiam essa misericórdia de modo ainda mais profundo por causa das dificuldades e da oposição que haviam enfrentado.
- Com isso dedicaram a cidade de maneira especial a Deus e à sua honra, tomando posse dela para ele e em seu nome. Todas as nossas cidades e casas devem trazer inscrita a santidade ao Senhor. Essa cidade, porém, era, como nenhuma outra jamais foi, uma cidade santa, a cidade do grande Rei (Salmos 48:2; Mateus 5:35).
Assim era desde que Deus a escolhera para ali pôr seu nome. Agora que fora restaurada, os construtores e moradores a dedicaram novamente a Deus. Reconheciam ser inquilinos dele e desejavam que a cidade continuasse a pertencer-lhe, sem jamais mudar de dono. Tudo o que se faz para a segurança, a comodidade e o conforto deles deve visar à honra e glória de Deus.
- Também puseram a cidade e seus muros sob a proteção divina, reconhecendo que, se o Senhor não guardasse a cidade, os muros teriam sido construídos em vão. Quando ela pertencia aos jebuseus, estes confiavam sua proteção a seus deuses, embora fossem cegos e coxos, 2 Samuel 5:6. Com muito mais razão o povo de Deus a confia à guarda daquele que é todo-sábio e todo-poderoso.
Os fundadores supersticiosos de cidades atentavam para a posição auspiciosa dos astros (veja as obras do Sr. Gregory, p. 29, etc.). Esses fundadores piedosos, porém, atentavam somente para Deus e sua providência, nunca para a sorte.
II. Devemos observar com que solenidade ela se realizou sob a direção de Neemias. 1. Os levitas de todas as partes da região foram convocados. A cidade devia ser dedicada a Deus; por isso, seus ministros precisavam participar da dedicação, e a entrega devia passar pelas mãos deles.
Terminadas as festas solenes (Neemias 8 e 9), haviam voltado a seus lugares para cuidar de suas incumbências pastorais na região. Agora sua presença e auxílio eram novamente solicitados.
- Atendendo à convocação, todos os levitas se reuniram, vv. 28-29. Observe como procederam. (1.) Purificaram-se, v. 30. Precisamos limpar as mãos e purificar o coração quando vamos realizar alguma obra para Deus. Purificaram a si mesmos e depois o povo.
Os que desejam ser instrumentos para santificar outros precisam santificar a si mesmos e separar-se para Deus com pureza de mente e sinceridade de intenção. Em seguida, purificaram as portas e o muro. Então podemos esperar consolo, quando estivermos preparados para recebê-lo.
Para os puros, todas as coisas são puras (Tito 1:15). Para os santificados, as casas, as mesas e todos os confortos e prazeres que recebem das coisas criadas também são santificados, 1 Timóteo 4:4-5.
É provável que essa purificação tenha sido feita pela aspersão da água da purificação, ou da separação, como é chamada em Números 19:9, sobre eles mesmos, o povo, os muros e as portas. Era figura do sangue de Cristo: com a consciência purificada das obras mortas, ficamos aptos a servir ao Deus vivo (Hebreus 9:14) e a receber seu cuidado.
(2.) Os príncipes, sacerdotes e levitas percorreram o muro em dois grupos, com instrumentos musicais, para mostrar que todo ele, em toda a sua extensão, era dedicado a Deus (v. 36). É provável que cantassem salmos ao caminhar, em louvor e glória a Deus. A procissão é descrita aqui em detalhe.
Reuniram-se num lugar definido e se dividiram em dois grupos. Metade dos príncipes, com vários sacerdotes e levitas, foi pela direita, conduzida por Esdras, v. 36. A outra metade dos príncipes e sacerdotes, que também davam graças, foi pela esquerda, com Neemias na retaguarda, v. 38. Por fim, ambos os grupos se encontraram no templo e uniram suas ações de graças, v. 40.
É provável que a multidão caminhasse no chão, uns pelo lado de dentro e outros pelo lado de fora do muro. Um dos fins da cerimônia era fazê-los sentir a misericórdia pela qual agradeciam e perpetuar sua lembrança. Procissões têm seu valor para tais fins.
(3.) O povo se alegrou muito, v. 43. Os príncipes, sacerdotes e levitas manifestaram alegria e gratidão por meio de grandes sacrifícios, trombetas, instrumentos musicais e cânticos de louvor. O povo comum, por sua vez, deu fortes gritos, ouvidos de longe, a distância maior que o som mais harmonioso dos cânticos e da música.
Esses gritos vinham de alegria sincera e profunda, por isso foram registrados. Deus não despreza, mas aceita bondosamente o serviço honesto e zeloso das pessoas humildes, mesmo que lhes falte arte e refinamento. Registra-se também que as mulheres e as crianças se alegraram; seus hosanas não foram desprezados, mas lembrados em seu louvor.
Todos os que participam das misericórdias públicas devem unir-se às ações públicas de graças. A razão apresentada é que Deus lhes havia dado grande alegria. Deu-lhes tanto motivos de alegria quanto corações capazes de alegrar-se. Sua providência os tornou seguros e tranquilos; sua graça os tornou alegres e agradecidos.
Sem dúvida, a oposição frustrada dos inimigos aumentou a alegria e lhe acrescentou um tom de triunfo. Grandes misericórdias pedem as mais solenes expressões de louvor, nos átrios da casa do Senhor, em teu meio, ó Jerusalém!
Versículos 44 a 47
A Atenção do Povo ao Seu Dever. (a.C. 444.)
Temos aqui o relato dos outros bons efeitos da alegria geral que houve na dedicação do muro. Quando as solenidades de um dia de ação de graças deixam nos ministros e no povo a disposição de cumprir depois seus deveres com mais cuidado e alegria, elas são realmente agradáveis a Deus e produzem bons frutos. Foi o que aconteceu aqui.
- Os ministros passaram a cuidar de sua obra com mais zelo que antes. O respeito que o povo lhes demonstrou nessa ocasião os animou à diligência e à vigilância, v. 45. Os cantores guardavam o serviço do seu Deus, comparecendo no tempo devido para cumprir os deveres do seu ofício.
Os porteiros também guardavam o serviço da purificação, isto é, cuidavam de preservar a pureza do templo, impedindo a entrada daqueles que estavam cerimonialmente impuros. Quando a alegria do Senhor assim nos leva ao dever e amplia nossa dedicação a ele, é antecipação da alegria que, aliada à perfeição da santidade, será nossa bem-aventurança eterna.
- O povo passou a cuidar com mais zelo do sustento de seus ministros. Na dedicação do muro, entre outras razões de alegria, o povo se alegrou por causa dos sacerdotes e levitas que cumpriam seus deveres, v. 44. Encontravam grande consolo em seus ministros e se alegravam por tê-los.
Ao observar como serviam diligentemente e quanto se esforçavam em sua obra, o povo se alegrava por eles. Repare: o caminho mais seguro para os ministros se recomendarem a seu povo e conquistarem seu afeto é dedicar-se ao ministério (Romanos 12:7), ser humildes e diligentes e cuidar de suas responsabilidades.
Quando eles agiam assim, o povo não considerava excessivo esforço algum para encorajá-los. A lei lhes havia provido as porções devidas (v. 44), mas de que lhes serviria essa provisão se aquilo que a lei lhes destinava não fosse devidamente recolhido ou justamente entregue?
(1.) Cuidou-se aqui da coleta do que lhes era devido. Eles eram modestos e preferiam perder seu direito a reivindicá-lo por si mesmos. Muitos no povo eram negligentes e não traziam suas contribuições se não fossem chamados a isso.
Por isso foram designadas pessoas com a função de recolher aos depósitos, dos campos das cidades, as porções estabelecidas pela lei para os sacerdotes e levitas (v. 44), a fim de que estes não perdessem sua parte por falta de quem a reclamasse. Esse é um bom serviço tanto aos ministros quanto ao povo: os primeiros não ficam sem sustento, e os demais não deixam de cumprir seu dever.
(2.) Cuidou-se para que, depois de recolhidas, as porções fossem devidamente distribuídas, v. 47. O povo dava aos cantores e porteiros sua porção diária, além do que lhes cabia como levitas. Podemos supor que, quando Davi e Salomão lhes atribuíram essa obra (vv. 45-46), acima do que se exigia deles como levitas, também estabeleceram um fundo para encorajá-los ainda mais.
Os que trabalham mais abundantemente na palavra e no ensino sejam considerados dignos dessa dupla honra. Quanto aos outros levitas, os dízimos, chamados aqui de coisas santas, eram devidamente separados para eles; desses dízimos pagavam aos sacerdotes o dízimo que lhes cabia segundo a lei.
Diz-se que ambas as contribuições eram santificadas. Quando aquilo que se contribui, voluntariamente ou por obrigação da lei, para o sustento da religião e do ministério é entregue tendo em vista a Deus e sua honra, fica santificado e é aceito por ele. Isso fará repousar a bênção sobre a casa e sobre tudo o que nela há, Ezequiel 44:30.