Miquéias 5
Argumento
Neste capítulo temos: I. Uma predição das tribulações e aflições da nação judaica, v. 1. II. Uma promessa do Messias e de seu reino, para sustentar o povo de Deus no dia dessas tribulações:
- Seu nascimento, v. 2, 3. 2. Sua exaltação, v. 4. 3. Sua proteção ao seu povo e sua vitória sobre os inimigos dele e do povo, v. 5, 6. 4. O grande mundo por meio disso, v. 7. 5. A destruição dos inimigos da igreja, tanto os de fora, que a atacam, quanto os de dentro, que a deixam exposta, vv. 8-15.
O Rebaixamento e a Aflição de Sião; Predição do Nascimento do Messias; A Glória do Messias. (a.C. 720.)
Versículos 1 a 6
Aqui, como antes, temos:
I. O rebaixamento e a aflição de Sião, v. 1. Durante muitos anos antes do cativeiro, a nação judaica definhou e caiu em desonra: “Agora reúne-te em tropas, ó filha de tropas!”
Ou é uma convocação aos inimigos de Sião, que tinham tropas a seu serviço, para virem fazer contra ela o pior que pudessem (Deus lhes permitirá fazê-lo); ou é um desafio aos amigos de Sião, que também dispunham de tropas, para virem fazer por ela o melhor que pudessem.
Que se reúnam em tropas, ainda assim será inútil. Pois, diz o profeta em nome dos habitantes de Jerusalém, “Ele nos sitiou”: o rei da Assíria o fez, o rei da Babilônia o fez, e não sabemos como nos defender.
Assim, os inimigos alcançarão seu objetivo e prevalecerão a ponto de ferir com uma vara no rosto o juiz de Israel, o rei, o magistrado principal e os demais juízes inferiores, em desprezo por eles e por sua dignidade. Depois de fazê-los prisioneiros, tratarão esses homens de maneira tão vergonhosa quanto qualquer dos cativos comuns.
Havia queixas contra os juízes de Israel (Miquéias 3:11), porque eram corruptos e aceitavam subornos. Essa desonra lhes sobreveio justamente por abusarem do poder. Contudo, era uma grande calamidade para Israel ver seus juízes tratados de modo tão ignominioso.
Alguns entendem que a razão pela qual as tropas, isto é, o exército romano, sitiariam Jerusalém seria os judeus ferirem no rosto o juiz de Israel. Seria por causa das indignidades que infligiriam ao Messias, o Juiz de Israel, a quem feriram no rosto, dizendo: “Profetiza: quem te feriu?”
Mas a primeira interpretação parece mais provável: trata-se do cerco de Jerusalém pelos caldeus, e não pelos romanos. A profecia se cumpriu nas indignidades infligidas ao rei Zedequias e aos príncipes da casa de Davi.
II. A exaltação do Rei de Sião. Depois de mostrar a que ponto a casa de Davi seria rebaixada e com que desprezo o escudo daquela família poderosa seria lançado fora, como se não tivesse sido ungido com óleo, o profeta acrescenta uma ilustre predição do Messias e de seu reino.
Ele o faz para animar a fé do povo de Deus, que agora poderia ser tentado a pensar que a aliança divina com Davi e sua casa fora revogada, conforme a queixa do salmista em Salmos 89:38, 39. No Messias, essa aliança seria firmada, e as honras daquela casa seriam reavivadas, elevadas e perpetuadas. Vejamos agora:
- Como o Messias é descrito aqui. Ele é o que governará em Israel, cujas saídas são desde os tempos antigos, desde a eternidade, desde os dias da eternidade, como diz a palavra. Temos aqui:
(1.) Sua existência desde a eternidade, como Deus. Suas saídas, ou emanações, como a saída dos raios do sol, eram, ou têm sido, desde os tempos antigos, desde a eternidade.
Segundo o dr. Pocock, esta é uma descrição tão marcante da geração eterna de Cristo, ou de sua saída como Filho de Deus, gerado por seu Pai antes de todos os mundos, que a profecia só pode dizer respeito a ele e jamais poderia cumprir-se em outro.
Ela certamente fala de uma saída que já era passada quando o profeta falou, e só pode ser lida como a lemos: suas saídas têm sido. A reunião dessas duas palavras, cada uma usada para designar a eternidade, mostra claramente que aqui devem ser tomadas no sentido mais estrito, o mesmo de Salmos 90:2: “De eternidade a eternidade tu és Deus”.
Não podem ser aplicadas a ninguém senão àquele que pôde dizer: “Antes que Abraão existisse, eu sou”, João 8:58. O dr. Pocock observa que saída é usada em Deuteronômio 8:3 para a palavra que procede da boca e, portanto, é muito apropriada para significar a geração eterna daquele que é chamado a Palavra de Deus, que no princípio estava com Deus, João 1:1, 2.
(2.) Seu ofício como Mediador. Ele seria governante em Israel, rei de sua igreja; reinaria para sempre sobre a casa de Jacó, Lucas 1:32, 33. Os judeus objetam que nosso Senhor Jesus não poderia ser o Messias, pois esteve tão longe de governar em Israel que Israel governou sobre ele, matou-o e não quis que ele reinasse sobre eles.
Mas ele mesmo respondeu a isso quando disse: “Meu reino não é deste mundo”, João 18:36. É sobre um Israel espiritual que ele reina: os filhos da promessa, todos os seguidores de Abraão, que creu, e de Jacó, que orava. Ele reina no coração deles por seu Espírito e sua graça, e no convívio deles por sua palavra e suas ordenanças.
E não era governante em Israel aquele a quem os ventos e os mares obedeciam, a quem legiões de demônios eram obrigadas a se submeter, que ordenava às doenças que deixassem os enfermos e chamava os mortos para fora dos túmulos?
Ninguém senão aquele cujas saídas eram desde os tempos antigos, desde a eternidade, era apto a governar em Israel, ser cabeça da igreja e cabeça sobre todas as coisas em favor da igreja.
- O que se prediz aqui a respeito dele:
(1.) Que Belém seria o lugar de seu nascimento, v. 2. Foi nessa Escritura que os escribas se basearam quando disseram a Herodes, com a maior certeza, onde Cristo nasceria (Mateus 2:6). Por isso era universalmente conhecido entre os judeus que Cristo viria da cidade de Belém, onde Davi esteve, João 7:42.
Belém significa casa do pão, o lugar mais apropriado para o nascimento daquele que é o pão da vida. Por ser a cidade de Davi, uma providência especial determinou que ali nascesse aquele que seria o Filho de Davi, seu herdeiro e sucessor para sempre.
Chama-se Belém-Efrata, dois nomes da mesma cidade, como mostra Gênesis 35:19. Era pequena entre os milhares de Judá, sem importância pelo número de habitantes ou pela posição que ocupava. Nada nela a tornava digna dessa honra. Mas Deus, nisso como em outros casos, escolheu exaltar os humildes, Lucas 1:52.
Cristo daria honra ao lugar de seu nascimento, sem receber honra dele: embora você seja pequena, ainda assim isto a tornará grande. Como escreve São Mateus: “Tu não és a menor entre os príncipes de Judá”; por esse motivo, na verdade, você é mais honrada do que qualquer deles. A relação com Cristo engrandecerá aqueles que são pequenos no mundo.
(2.) Que, na plenitude dos tempos, ele nasceria de uma mulher (v. 3): “Portanto, ele os entregará”. Entregará seu povo Israel à aflição e à tribulação e adiará sua salvação, há tanto tempo prometida e esperada, até o tempo, o tempo determinado, em que aquela que está em trabalho de parto tiver dado à luz.
Ou, como se deveria ler, até que aquela que dará à luz tenha dado à luz: até que a bendita virgem, destinada a ser a mãe do Messias, o tenha dado à luz em Belém, o lugar designado. O dr. Pocock entende que este é o sentido mais genuíno das palavras.
Embora as saídas do Messias fossem desde a eternidade, ainda assim a redenção em Jerusalém, a consolação de Israel, teria de ser aguardada (Lucas 2:25-38) até que desse à luz aquela que daria à luz.
Assim é chamada a virgem Maria, do mesmo modo que o próprio Cristo é chamado “aquele que há de vir”. Nesse meio-tempo, ele os entregaria. As salvações divinas precisam ser aguardadas até o tempo fixado para serem produzidas.
(3.) Que o remanescente de seus irmãos então voltará aos filhos de Israel. O remanescente da nação judaica voltará ao espírito dos verdadeiros e genuínos filhos de Israel, povo em aliança com Deus. O coração dos filhos se voltará aos pais, Malaquias 4:6.
Alguns entendem que isso se refere a todos os crentes, gentios e judeus. Todos eles serão incorporados à comunidade de Israel. Assim como todos são irmãos uns dos outros, ele também não se envergonha de chamá-los irmãos, Hebreus 2:11.
(4.) Que ele será um príncipe glorioso, e seus súditos serão felizes sob seu governo (v. 4): “Ele se manterá de pé e apascentará”. Isto é, tanto ensinará quanto governará, e continuará a fazê-lo, como um bom pastor, com sabedoria, cuidado e amor.
Assim foi predito: “Ele apascentará seu rebanho como um pastor”. Proverá pastos verdes para o rebanho e pastores subordinados para conduzi-lo até eles. É o bom pastor que vai adiante das ovelhas e preside entre elas.
Fará isso não como um homem comum, mas na força do Senhor, revestido de poder divino para cumprir sua obra e vencer as dificuldades do caminho, sem fracassar nem desanimar. Fará isso na majestade do nome do Senhor, seu Deus, de modo a evidenciar claramente que o nome de Deus estava nele (Êxodo 23:21), a majestade de seu nome, pois ensinava como quem tem autoridade, e não como os escribas.
Os profetas iniciavam suas mensagens com “Assim diz o Senhor”. Cristo, porém, falou não como servo, mas como Filho: “Em verdade, em verdade vos digo”. Era assim que apascentava na majestade do nome do Senhor, seu Deus.
Foi-lhe dado todo o poder no céu e na terra, poder sobre toda a humanidade. Em virtude dele, ainda governa na majestade do nome do Senhor, seu Deus, nome acima de todo nome. O governo de Cristo será:
[1.] Muito feliz para seus súditos, pois eles permanecerão: estarão seguros e tranquilos, e assim continuarão para sempre. Porque ele vive, eles também viverão. Repousarão nos pastos verdes aos quais os conduzirá e habitarão para sempre no tabernáculo de Deus, Salmos 61:4. Sua igreja permanecerá, e ele estará nela e com ela sempre, até o fim do mundo.
[2.] Muito glorioso para ele próprio: “Agora ele será grande até os confins da terra”. Agora que se mantém de pé e apascenta seu rebanho, será grande. Pois Cristo considera que sua grandeza consiste em fazer o bem. Será grande até os confins da terra, porque as regiões mais distantes da terra lhe serão dadas por possessão, e os confins do mundo verão sua salvação.
(5) Que ele garantirá a paz e o bem-estar de sua igreja e de seu povo contra todas as investidas dos inimigos dele e deles (v. 5, 6): este homem, como rei e governante, será a paz quando os assírios entrarem em nossa terra. Em sentido figurado, isso se refere ao livramento de Ezequias e de seu reino do poder de Senaqueribe, que os invadiu.
Mas, sob essa figura, há uma promessa da segurança da igreja do evangelho e de todos os crentes diante dos desígnios e das investidas dos poderes das trevas: Satanás e todos os seus instrumentos, o dragão e seus anjos, que procuram devorar a igreja dos primogênitos e todos os que lhe pertencem. Observe:
[1.] O risco e o perigo em que se supõe que estejam os súditos de Cristo. O assírio, inimigo poderoso, entra na terra deles (v. 5, 6), pisa dentro de suas fronteiras e, ou melhor, prevalece a ponto de pisar em seus palácios. Foi um tempo de pisoteamento e perplexidade quando Senaqueribe desceu sobre Judá, tomou todas as cidades fortificadas e sitiou Jerusalém, Isaías 36:1; 37:3.
Isso representava as portas do inferno lutando contra o reino de Cristo, cercando o acampamento dos santos e a cidade santa, e ameaçando arrasar tudo à sua frente.
Quando os terrores da lei se alinham contra uma alma convencida de seu pecado, quando as tentações de Satanás atacam o povo de Deus e as tribulações do mundo ameaçam roubar-lhe todo o consolo, então o assírio entra na terra deles e pisa em seus palácios. Por fora, combates; por dentro, temores.
[2.] A proteção e defesa que seus súditos certamente terão. Primeiro, o próprio Cristo será a paz deles. Quando o assírio invade uma terra com tal força, poderá haver outra paz além de uma submissão dócil e de uma devastação sem resistência?
Sim: mesmo então, o Rei da igreja preservará a paz dela e será um esconderijo, Isaías 32:1, 2. Cristo é nossa paz como sacerdote, fazendo expiação pelo pecado e reconciliando-nos com Deus. Também é nossa paz como rei, vencendo nossos inimigos e ordenando que se aquietem os temores e as paixões que nos perturbam. Ele cria o fruto dos lábios: a paz.
Mesmo quando o assírio entra na terra, quando estamos na maior aflição e perigo e recebemos em nós mesmos uma sentença de morte, ainda assim este homem pode ser a paz. Em mim, diz Cristo, vocês terão paz quando no mundo tiverem tribulação. Nesse tempo, nossa alma pode habitar tranquila nele.
Segundo, ele encontrará instrumentos apropriados para proteger e libertar seus súditos e derrotar os inimigos deles: “Então levantaremos contra ele sete pastores e oito homens principais”. Isto é, um número suficiente de pessoas capazes de se opor ao inimigo, enfrentá-lo e proteger em paz a igreja de Deus.
Serão homens com o cuidado e a ternura de pastores e com a coragem e a autoridade de homens principais, ou príncipes entre os homens. Sete e oito são números definidos usados para expressar um número indefinido.
Repare: quando Deus tem uma obra a fazer, não lhe faltarão instrumentos adequados. Quando lhe agrada, pode realizá-la por meio de poucos. Não precisa levantar milhares: sete ou oito homens principais podem bastar, se Deus estiver com eles. Magistrados e ministros são pastores e homens principais, levantados em defesa da justa causa da religião contra os poderes do pecado e de Satanás no mundo.
Terceiro, a oposição feita à igreja será vencida, e os opositores serão derrubados. Isso é representado pela devastação da Assíria e da Caldeia, as duas nações que foram os inimigos mais temíveis do Israel de Deus. Sua destruição significava fazer dos inimigos de Cristo o estrado de seus pés:
“Eles devastarão à espada a terra da Assíria e a terra de Nimrode em suas entradas”. Invadirão a terra e passarão à espada todos os que encontrarem armados. Repare: os que ameaçam arruinar a igreja de Deus apressam a própria ruína, e a destruição deles é a salvação da igreja: “Assim ele nos livrará do assírio”.
Quando Satanás caiu do céu como um relâmpago diante da pregação do evangelho, e os inimigos de Cristo, que não queriam que ele reinasse sobre eles, foram abatidos diante dele, então isso se cumpriu.
Versículos 7 a 15
O Crescimento da Igreja; Predições Animadoras. (a.C. 720.)
Coisas gloriosas são ditas aqui sobre o remanescente de Jacó, aquele remanescente formado a partir daquela que coxeava (Miquéias 4:7). Ao que parece, é o remanescente que o Senhor, nosso Deus, chamará (Joel 2:32), sobre quem o Espírito será derramado, o remanescente que será salvo, Romanos 9:27.
Repare: o povo de Deus é apenas um remanescente, um número pequeno em comparação com os muitos que são deixados para perecer, um pequeno rebanho. Contudo, é o remanescente de Jacó, povo em aliança com Deus e favorecido por ele. A respeito desse remanescente, promete-se aqui:
I. Que será como o orvalho no meio das nações, v. 7. A igreja de Deus está espalhada por todo o mundo. Encontra-se no meio de muitos povos, como o ouro no minério e o trigo no amontoado.
Israel segundo a carne habitava sozinho e não era contado entre as nações. O Israel espiritual, porém, está disperso no meio de muitos povos, como o sal da terra ou como a semente lançada no solo, um grão aqui, outro ali, Oseias 2:23. Esse remanescente será como orvalho da parte do Senhor:
Terá linhagem celestial, como o orvalho da parte do Senhor, que é o Pai da chuva e gerou as gotas do orvalho, Jó 38:28. Nasce do alto e não é da terra, nem se inclina para as coisas da terra.
Será numeroso como as gotas de orvalho numa manhã de verão. Salmos 110:3: “Tu tens o orvalho da tua juventude”.
Será puro e límpido, sem lama nem corrupção, mas como gotas de cristal, como a água da vida.
Será produzido em silêncio e sem ruído, como o orvalho que cai sem que se perceba, não sabemos como. Assim é o caminho do Espírito.
Viverá em contínua dependência de Deus e continuará recebendo dele o que necessita, como o orvalho, que não espera pelo homem nem aguarda os filhos dos homens. Não confiará em auxílio ou poder humano, mas na graça divina, pois não é, e reconhece que não é, mais do que aquilo que a livre graça de Deus o torna a cada dia.
Será uma grande bênção para as pessoas entre as quais viver, assim como o orvalho e as chuvas são para a relva, fazendo-a crescer sem a ajuda do homem ou dos filhos dos homens. Sua doutrina, seu exemplo e suas orações o tornarão como orvalho, para abrandar e umedecer os outros e fazê-los frutificar.
Sua fala destilará como o orvalho (Deuteronômio 32:2), e todos ao seu redor o esperarão como à chuva, Jó 29:23. O povo entre o qual viver será como a relva, que floresce somente pela bênção de Deus, e não pela habilidade e pelo cuidado do homem.
O remanescente beneficiará os que estiverem ao seu redor, atraindo sobre eles as bênçãos de Deus, como Jacó fez com a casa de Labão, e arrefecendo e atenuando a cólera divina, que de outro modo os consumiria, assim como o orvalho impede que o sol queime a relva.
Esta é a interpretação do dr. Pocock. Seu comportamento será manso e gentil, como o de seu Mestre, que desce como a chuva sobre a relva recém-cortada, Salmos 72:6.
II. Que será como um leão entre os animais da floresta, que os pisa e despedaça, v. 8. Assim como será silencioso e gentil, e comunicará todo o bem aos que recebem a verdade com amor, também será ousado como um leão ao testemunhar contra a corrupção dos tempos e lugares em que vive. Será forte como um leão, na força de Deus, para resistir aos seus inimigos espirituais e vencê-los.
As armas de sua guerra são poderosas, por meio de Deus, para derrubar fortalezas, 2 Coríntios 10:4, 5. Terá uma coragem à qual nenhum de seus adversários poderá resistir (Lucas 21:15), assim como, quando o leão despedaça, ninguém pode livrar a presa.
Quando a incredulidade é silenciada e toda a iniquidade é obrigada a calar a boca, quando os pecadores são convencidos e convertidos pelo poder do evangelho, na doutrina dos seus ministros e na conduta dos que o professam, então o remanescente de Jacó é como um leão.
Isso é explicado no v. 9: “Tua mão se levantará sobre teus adversários”. A igreja terá, por fim, a vantagem sobre todos os que se opõem a ela. Seus inimigos serão eliminados: deixarão de ser inimigos, sua inimizade será eliminada.
As flechas de Cristo, que convencem do pecado, serão agudas no coração deles, de modo que cairão diante dele. Eles se renderão a ele como súditos (Salmos 45:5) e serão felizmente conquistados e subjugados, Salmos 110:2.
III. Que serão afastados de toda confiança carnal em que se apoiavam. Pela providência de Deus, desfrutarão de segurança tal que não precisarão mais dessas coisas. Pela graça de Deus, passarão a perceber a insensatez delas e delas se afastarão.
Era pecado dos israelitas proverem-se exageradamente de cavalos e carros de guerra e serem adivinhos e idólatras; veja Isaías 2:6-8. Aqui, porém, promete-se que não lhes darão mais atenção. A tranquilidade do reino de Cristo está em vista na promessa que explica esta, Zacarias 9:10: “Eliminarei o carro de Efraim e o cavalo de Jerusalém”.
Repare: é uma grande misericórdia sermos privados daquilo em que depositamos confiança em rivalidade com Deus, daquilo que fizemos nosso braço e atrás do qual nos prostituímos, afastando-nos dele. Observemos os pormenores:
Eles tinham confiado em carros e cavalos e os multiplicado (Salmos 20:7). Agora, porém, Deus eliminará seus cavalos e destruirá seus carros (v. 10), assim como Davi cortou os tendões dos cavalos dos carros, 2 Samuel 8:4. Não os terão, para que não sejam tentados a confiar neles.
Dependiam de suas fortalezas e cidades fortificadas para obter segurança. Mas Deus cuidará para que sejam demolidas (v. 11): “Eliminarei as cidades da tua terra; derrubarei tuas fortalezas”. Terão cidades para habitar, mas não para servirem de guarnições, pois Deus será seu único lugar de defesa, sua torre alta e seu libertador.
Muitos deles dependiam bastante da orientação e do conselho de seus feiticeiros, adivinhos e prognosticadores. Deus os eliminará, não apenas por serem coisas fracas, incapazes de socorrê-los, mas também por serem coisas perversas, capazes de arruiná-los (v. 12):
“Eliminarei as feitiçarias de tua mão, para que não mais te agarres a elas nem te apoies nelas; e não terás mais adivinhos, pois estarás convencido de que todas as suas alegações são um embuste.” A justiça da nação os eliminará segundo a lei, Levítico 20:27. A pregação do evangelho afastou os homens do uso de artes mágicas, Atos 19:19.
- Muitos deles tinham dito à obra de suas mãos: Vocês são nossos deuses.
Agora, porém, a idolatria será abolida e abandonada (v. 13): “Eliminarei tuas imagens esculpidas e tuas imagens erguidas, tanto as móveis quanto as fixas. Serão destruídas pelo poder da lei de Moisés e abandonadas pelo poder do evangelho de Cristo, de modo que não adorarás mais a obra de tuas mãos, mas te envergonharás de ter sido tão iludido”.
“Entre outros monumentos da idolatria, arrancarei os teus bosques do meio de ti”, v. 14. Eles eram plantados e preservados em honra dos ídolos e usados na adoração deles. O povo havia recebido ordem de queimá-los (Deuteronômio 12:2, 3). Se não o fizer, Deus o fará, de modo que não os terá em que confiar.
Assim Deus destruirá as cidades deles, isto é, as cidades dedicadas aos ídolos, a uma divindade de esterco ou outra qualquer, na qual confiavam para obter proteção.
IV. Que aqueles que persistirem em resistir ao evangelho de Cristo e continuarem em pacto com suas idolatrias e feitiçarias cairão sob a cólera de Deus e serão consumidos por ela (v. 15): “Executarei vingança com ira e furor sobre os pagãos”, isto é, sobre o paganismo, “como nunca ouviram”. As idolatrias serão removidas, e os idólatras, envergonhados.
“Executarei vingança sobre os pagãos que não ouviram”, como alguns leem, ou que não quiseram ouvir nem receber a doutrina de Cristo. Deus dará ao seu Filho ou o coração ou o pescoço dos seus inimigos, e fará deles ou seus amigos ou o estrado dos seus pés.