Matthew Henry

Mateus 8

Argumento

Depois de apresentar, nos capítulos anteriores, uma amostra da pregação de nosso Senhor, o evangelista passa a relatar alguns dos milagres que ele realizou. Esses milagres provam que ele é um Mestre vindo de Deus e o grande Curador de um mundo enfermo. Neste capítulo temos:

I. A purificação de um leproso por Cristo, vv. 1-4. II. Sua cura de uma paralisia e de uma febre, vv. 5-18. III. A conversa de Cristo com dois homens dispostos a segui-lo, vv. 19-22. IV. Seu domínio sobre a tempestade, vv. 23-27. V. Sua expulsão de demônios, vv. 28-34.

Versículos 1 a 4

A Cura do Leproso.

O primeiro versículo se refere ao fim do sermão anterior. Os que ouviram Jesus ficaram admirados com sua doutrina. Por isso, quando desceu do monte, grandes multidões o seguiram. Embora fosse um Legislador tão rigoroso e um Censor tão fiel, ainda assim ouviam-no atentamente e relutavam em dispersar-se e afastar-se dele.

Repare: aqueles a quem Cristo se revelou só podem desejar conhecê-lo melhor. Quem sabe muito a respeito dele deve desejar saber ainda mais; então conheceremos o Senhor se prosseguirmos em conhecê-lo. É agradável ver pessoas tão interessadas em Cristo que julgam jamais poder ouvi-lo o suficiente.

Elas se interessam tanto pelas melhores coisas que se reúnem para ouvir boa pregação e seguem o Cordeiro por onde quer que vá. Cumpria-se então a profecia de Jacó acerca do Messias: a ele se congregariam os povos.

Contudo, os que se reuniam ao redor dele não permaneciam com ele. Os que o seguiam de perto e continuamente eram poucos, comparados às multidões que eram apenas seguidores de ocasião.

Nestes versículos temos o relato da purificação de um leproso por Cristo. Comparando Marcos 1:40 e Lucas 5:12, parece que esse episódio ocorreu antes do sermão do monte, embora Mateus o tenha colocado depois.

Ele quis apresentar primeiro a doutrina de Cristo e, em seguida, seus milagres; a ordem dos fatos, porém, não tem importância aqui.

É apropriado registrar essa cura entre os primeiros milagres de Cristo:

  1. Porque a lepra era considerada entre os judeus um sinal especial do desagrado de Deus. Miriã, Geazi e Uzias, por exemplo, foram atingidos pela lepra por causa de pecados específicos. Assim, para mostrar que veio afastar a cólera de Deus removendo o pecado, Cristo começou pela cura de um leproso.

  2. Porque, assim como se supunha que essa doença vinha sem mediação da mão de Deus, também se supunha que era removida sem mediação por sua mão. Por isso, não cabia aos médicos tentar curá-la: o doente ficava sob a inspeção dos sacerdotes, ministros do Senhor, que aguardavam para ver o que Deus faria.

O aparecimento da lepra numa roupa ou nas paredes de uma casa era inteiramente sobrenatural. Parece tratar-se de uma doença muito diferente daquela que hoje chamamos lepra. O rei de Israel perguntou se era Deus para que o procurassem a fim de curar um homem da lepra, 2 Reis 5:7.

Cristo demonstrou ser Deus ao curar muitos leprosos e autorizar seus discípulos a fazer o mesmo em seu nome (Mateus 10:8). Essa cura é incluída entre as provas de que ele é o Messias, Mateus 11:5. Demonstrou também ser o Salvador de seu povo dos pecados deles.

Embora toda doença seja tanto fruto quanto figura do pecado, como desordem da alma, ainda assim a lepra o era de modo especial. Causava uma contaminação e exigia uma separação das coisas santas que nenhuma outra doença causava. Por isso, nas leis a seu respeito (Levítico 13 e 14), é tratada como impureza, não como enfermidade.

Segundo os sinais, o sacerdote devia declarar a pessoa limpa ou impura. A honra de tornar limpos os leprosos, porém, estava reservada a Cristo, que o faria como o Sumo Sacerdote da nossa profissão de fé. Ele vem fazer “aquilo que a lei não podia fazer, por ser fraca pela carne”, Romanos 8:3.

A lei revelava o pecado, pois por ela vem o conhecimento dele, e declarava os pecadores impuros. Mantinha-os encerrados (Gálatas 3:23), como o sacerdote fazia com o leproso, mas não podia ir além; não conseguia aperfeiçoar os que se aproximavam dela.

Cristo, porém, remove o pecado, purifica-nos dele e assim aperfeiçoa para sempre os santificados. Temos aqui:

I. O pedido do leproso a Cristo. Se o episódio aconteceu depois do sermão do monte, como está apresentado, podemos supor que o leproso, embora afastado das cidades de Israel pela doença, ainda assim conseguiu ouvir o sermão de Cristo.

Animado pelo que ouviu, aproximou-se dele: quem ensinava com autoridade também podia curar com autoridade.

Por isso, veio adorá-lo como alguém revestido de poder divino. Seu pedido foi: “Senhor, se quiseres, podes limpar-me”. Essa purificação pode ser considerada:

  1. Como misericórdia temporal: uma misericórdia para o corpo, que o livraria de uma doença que, embora não ameaçasse a vida, a tornava amarga. Esse exemplo não só nos orienta a procurar Cristo, que tem poder sobre as doenças do corpo, para pedir a cura delas, mas também nos ensina como procurá-lo.

Devemos confiar em seu poder, crendo que ele é tão capaz de curar agora quanto era quando vivia na terra, mas submeter-nos à sua vontade: “Senhor, se quiseres, podes”.

Quanto às misericórdias temporais, não podemos ter tanta certeza de que Deus deseja concedê-las quanto temos de seu poder para isso. Seu poder para concedê-las não é limitado por considerações relativas à sua glória e ao nosso bem.

Quando não conhecemos sua vontade, podemos confiar em sua sabedoria e misericórdia e entregar-nos alegremente a elas: “Seja feita a tua vontade”. Isso torna mais fácil a espera e, quando chega o desfecho, permite recebê-lo com consolo.

  1. Como misericórdia simbólica. O pecado é a lepra da alma; impede-nos de ter comunhão com Deus. Para que sejamos restaurados a essa comunhão, precisamos ser limpos dessa lepra. Essa deve ser nossa grande preocupação.

Observe: ao procurar Cristo como o grande Médico, nosso consolo é saber que, se ele quiser, pode limpar-nos. Devemos ir a ele com ousadia humilde e cheia de fé e dizer-lhe isso. Isto é:

(1.) Devemos apoiar-nos em seu poder e estar certos de que Cristo pode limpar-nos. Não há culpa tão grande que sua justiça seja insuficiente para expiá-la, nem corrupção tão forte que sua graça não possa vencê-la.

Deus não designaria para seu hospital um médico que não fosse par negotio, plenamente qualificado para a tarefa.

(2.) Devemos confiar-nos à sua compaixão. Não podemos exigi-la como uma dívida, mas devemos pedi-la humildemente como favor: “Senhor, se quiseres. Lanço-me aos teus pés e, se eu perecer, ali perecerei”.

II. A resposta de Cristo a esse pedido, cheia de bondade, v. 3:

  1. Estendeu a mão e tocou no leproso. A lepra era uma doença fétida e repulsiva, mas Cristo o tocou, pois não desdenhava conviver com publicanos e pecadores para lhes fazer o bem. O contato com um leproso causava contaminação cerimonial.

Cristo, porém, queria mostrar que, ao conviver com pecadores, não corria o risco de ser contaminado por eles, pois o príncipe deste mundo nada tinha nele. Se tocamos em piche, ficamos maculados; Cristo, porém, permanecia separado dos pecadores mesmo vivendo entre eles.

  1. Disse: “Quero, sê limpo”. Não disse, como Eliseu a Naamã: “Vai e lava-te no Jordão”. Tampouco lhe prescreveu um tratamento médico demorado, incômodo e caro. Falou, e o curou.

(1.) Há aqui uma palavra de bondade: “Quero”. “Estou tão disposto a ajudar-te quanto tu desejas ser ajudado.” Repare: os que procuram Cristo pela fé, buscando misericórdia e graça, podem estar certos de que ele está disposto, livremente disposto, a conceder-lhes a misericórdia e a graça que nele buscam.

Cristo é um Médico que não precisa ser procurado, pois está sempre ao alcance. Não precisa ser pressionado: enquanto ainda falamos, ele ouve. Não precisa receber pagamento: cura gratuitamente, sem preço nem recompensa. Deu todas as provas possíveis de que está tão disposto quanto é capaz de salvar pecadores.

(2.) Há uma palavra de poder: “Sê limpo”. Nela se manifestam tanto o poder da autoridade quanto o poder da ação. Cristo cura por meio de uma ordem dirigida a nós: “Sê limpo”; isto é, “Sê disposto a ser limpo e usa os meios; limpa-te de toda impureza”.

Com essa ordem vem outra, a nosso respeito, uma palavra que realiza a obra: “Quero que sejas limpo”. Essa palavra é necessária para a cura e eficaz para produzi-la. A graça todo-poderosa que a pronuncia não faltará aos que na verdade a desejam.

III. A feliz mudança produzida por sua palavra: “Imediatamente ficou limpa a sua lepra”. A natureza age gradualmente, mas o Deus da natureza age de imediato. Ele fala, e acontece; ainda assim, age eficazmente: ordena, e a obra permanece firme.

Um dos primeiros milagres de Moisés foi curar a si mesmo da lepra (Êxodo 4:7), pois os sacerdotes sob a lei ofereciam sacrifícios primeiro pelos próprios pecados. Um dos primeiros milagres de Cristo, porém, foi curar outra pessoa da lepra, pois ele não tinha pecado próprio a expiar.

IV. As instruções que Cristo lhe deu em seguida. Convém que os curados por Cristo sejam, daí em diante, governados por ele.

  1. “Olha, não o digas a ninguém.” Isto é: “Não o contes a ninguém antes de te mostrares ao sacerdote e de seres declarado limpo por ele. Assim terás prova legal tanto de que antes eras leproso quanto de que agora estás completamente limpo”.

Cristo queria que seus milagres aparecessem com toda a clareza e prova, e só fossem divulgados quando isso fosse possível.

Repare: os que pregam as verdades de Cristo devem ser capazes de prová-las, defender o que pregam e convencer os que se opõem. “Não o contes a ninguém antes de te mostrares ao sacerdote, para que, se ouvir quem te curou, não te negue por rancor um atestado da cura e assim te mantenha recluso.”

Os sacerdotes do tempo de Cristo eram tais que quem precisasse tratar com eles tinha de ser prudente como a serpente.

  1. “Vai, mostra-te ao sacerdote”, conforme a lei, Levítico 14:2. Cristo teve o cuidado de fazer cumprir a lei para não causar escândalo e para mostrar que desejava a manutenção da ordem, da boa disciplina e do respeito aos que exercem funções públicas.

Pode ser útil aos que foram limpos de sua lepra espiritual recorrer aos ministros de Cristo e expor-lhes sua situação. Assim, os ministros poderão ajudá-los a examinar sua condição espiritual, aconselhá-los, consolá-los e orar em favor deles.

  1. “Apresenta a oferta que Moisés determinou”, como sinal de gratidão a Deus e compensação pelo trabalho do sacerdote. Isso serviria de testemunho para eles. Ou:

(1.) Que Moisés a determinou como testemunho. As leis cerimoniais testemunhavam a autoridade de Deus sobre seu povo, o cuidado dele para com eles e a graça que seria revelada depois.

(2.) “Apresenta a oferta como testemunho e faze o sacerdote saber quem te limpou e como. Isso testemunhará que há entre eles alguém que faz o que o sumo sacerdote não pode fazer.”

“Que o fato fique registrado como prova de meu poder e testemunho a meu favor diante deles, caso queiram acolhê-lo e aproveitá-lo; se não quiserem, será testemunho contra eles”. Assim, as palavras e obras de Cristo são testemunhos.

Versículos 5 a 13

Cristo Cura o Servo do Centurião.

Temos aqui o relato da cura, por Cristo, do servo de um centurião que sofria de paralisia. Isso aconteceu em Cafarnaum, onde Cristo morava naquele tempo, Mateus 4:13. Cristo andava por toda parte fazendo o bem e, ao voltar para casa, também fazia o bem. Todo lugar a que chegava ficava melhor por sua presença.

As pessoas com quem Cristo tratou nessa ocasião foram:

  1. Um centurião, o homem que fez o pedido. Era gentio, romano e oficial do exército, provavelmente o comandante da parte do exército romano aquartelada em Cafarnaum, onde mantinha uma guarnição.

(1.) Embora fosse soldado, profissão em que um pouco de piedade costuma ser considerado muita coisa, ainda assim era um homem piedoso, e o era de maneira notável. Repare: Deus tem seu remanescente entre toda sorte de pessoas. A profissão ou posição de ninguém no mundo servirá de desculpa para sua incredulidade e impiedade.

Ninguém poderá dizer no grande dia: “Eu teria sido religioso se não fosse soldado”, pois há soldados entre os remidos do Senhor. Às vezes, quando a graça vence quem parecia improvável, ela é mais que vencedora: esse soldado, que era bom, era muito bom.

(2.) Embora fosse soldado romano e sua própria presença entre os judeus fosse um sinal da sujeição deles ao jugo de Roma, ainda assim Cristo, o Rei dos judeus, o favoreceu. Assim, ensinou-nos a fazer o bem aos inimigos e a não nos envolver sem necessidade em inimizades entre nações.

(3.) Embora fosse gentio, ainda assim Cristo o acolheu. É verdade que não foi a nenhuma cidade dos gentios, pois a terra de Canaã era a terra de Emanuel, Isaías 8:8. Ainda assim, recebeu pedidos dos gentios. A palavra do bom e velho Simeão começava então a cumprir-se: ele seria uma luz para iluminar os gentios, assim como a glória de seu povo Israel.

Mateus sugere isso ao colocar essa cura depois da do leproso, que era judeu. Cristo tocou e curou os judeus leprosos, pois lhes pregou pessoalmente. Os gentios paralíticos, porém, ele curou à distância; não foi até eles em pessoa, mas enviou sua palavra e os curou. Ainda assim, neles foi ainda mais engrandecido.

  1. O servo do centurião, que era o doente. Também nisso se vê que Deus não faz acepção de pessoas, pois, em Cristo Jesus, assim como não há circuncisão nem incircuncisão, também não há escravo nem livre.

Ele está tão disposto a curar o servo mais pobre quanto o senhor mais rico, pois ele próprio assumiu a forma de servo para mostrar sua consideração pelos mais humildes.

No relato da cura desse servo, podemos observar uma notável interação, uma troca de manifestações de graça entre Cristo e o centurião. Veja aqui:

I. A graça do centurião em ação para com Cristo. Pode vir alguma coisa boa de um soldado romano? Algo tolerável, quanto mais algo digno de louvor? Venha e veja: encontrará muita coisa boa nesse centurião, homem notável e exemplar. Observe:

  1. O modo afetuoso como se dirigiu a Jesus Cristo, que expressa:

(1.) Respeito piedoso por nosso grande Mestre, capaz e disposto a socorrer e aliviar os pobres suplicantes. O centurião foi até ele suplicando, não como Naamã, o sírio, também centurião, foi a Eliseu, exigindo a cura, ostentando a posição social e fazendo questão de honrarias, mas de chapéu na mão, como um suplicante humilde.

Parece que viu em Cristo mais do que se percebia à primeira vista. Percebeu algo que impunha respeito, embora, para os que não olhavam além da aparência, seu rosto estivesse mais desfigurado que o de qualquer outro homem.

Os oficiais do exército, por controlarem a cidade, sem dúvida tinham grande prestígio. O centurião, porém, deixou de lado os pensamentos ligados à honra de seu posto quando se dirigiu a Cristo e se aproximou dele suplicando. Repare: até os maiores homens precisam tornar-se mendigos quando tratam com Cristo.

Reconheceu a soberania de Cristo ao chamá-lo de Senhor e submeter-lhe o caso, confiando-o à vontade e à sabedoria dele por meio de uma exposição discreta, sem apresentar nenhum pedido formal e explícito. Sabia que tratava com um Médico sábio e gracioso, a quem expor a doença equivalia ao pedido mais fervoroso.

Uma confissão humilde de nossas carências e enfermidades espirituais não deixará de receber uma resposta de paz. Derrame sua queixa, e a misericórdia será derramada.

(2.) Consideração caridosa por seu pobre servo. Lemos sobre muitos que procuraram Cristo em favor dos filhos, mas este é o único caso de alguém que foi até ele em favor de um servo: “Senhor, meu servo está em casa doente”. Repare: é dever dos senhores preocupar-se com os servos quando estes sofrem.

A paralisia impedia o servo de trabalhar e o tornava tão trabalhoso e difícil de cuidar quanto qualquer doença poderia tornar alguém. Ainda assim, o centurião não o mandou embora por estar doente, como aquele amalequita fez com seu servo (1 Samuel 30:13), nem o enviou aos amigos ou o deixou abandonado. Procurou o melhor auxílio que pôde.

O servo não poderia ter feito pelo senhor mais do que o senhor fez aqui pelo servo. Os servos do centurião cumpriam fielmente seus deveres para com ele (v. 9), e aqui vemos o que os levava a isso: ele os tratava com muita bondade, e por isso obedeciam-lhe com maior disposição.

Assim como não devemos desprezar a causa de nossos servos quando contendem conosco (Jó 31:13, 15), também não devemos desprezar sua condição quando Deus contende com eles. Fomos feitos no mesmo molde, pela mesma mão, e estamos no mesmo nível que eles diante de Deus. Não devemos colocá-los junto aos cães de nosso rebanho.

O centurião não recorreu a bruxas nem a feiticeiros em favor do servo, mas a Cristo. A paralisia é uma doença diante da qual a habilidade dos médicos costuma falhar. Procurar Cristo para uma cura acima do alcance dos meios naturais foi, portanto, uma grande demonstração de fé em seu poder.

Observe com quanto sentimento ele descreve a condição tão triste do servo. Ele sofre de paralisia, doença que costuma tornar o doente insensível à dor; este servo, porém, era gravemente atormentado. Por ser jovem, sua natureza tinha forças para lutar contra o ataque, o que o tornava doloroso. Não era paralysis simplex, mas scorbutica.

Devemos nos preocupar desse modo com a alma de nossos filhos e servos, espiritualmente enfermos de paralisia, paralisia mortal, paralisia que os deixa mudos. São insensíveis aos males espirituais e inativos no que é espiritualmente bom. Devemos levá-los aos meios de cura e saúde.

  1. Observe sua grande humildade e a baixa estima que tinha de si. Depois que Cristo mostrou estar disposto a ir curar seu servo (v. 7), o centurião se expressou com humildade ainda maior. Repare: a condescendência graciosa de Cristo torna as almas humildes ainda mais humildes.

Observe as palavras de sua humildade: “Senhor, não sou digno de que entres debaixo do meu teto” (v. 8). Elas revelam uma opinião modesta de si mesmo e uma opinião elevada de nosso Senhor Jesus. Ele não diz: “Meu servo não é digno de que entres em seu quarto, pois fica no sótão”, mas: “Eu não sou digno de que entres em minha casa”.

O centurião era um homem importante, mas reconhecia diante de Deus sua indignidade. Repare: a humildade convém muito às pessoas de posição elevada. Cristo, naquela época, não tinha uma aparência de importância no mundo; ainda assim, o centurião o considerou profeta, ou melhor, mais que profeta, e lhe prestou esse respeito.

Repare: devemos estimar e reverenciar o que vemos de Deus até naqueles que, pela condição exterior, são inferiores a nós em todos os aspectos. O centurião foi a Cristo com um pedido e, por isso, expressou-se com tanta humildade.

Repare: sempre que nos aproximamos de Cristo e, por meio dele, de Deus, convém nos humilharmos e mantermos viva a consciência da nossa própria indignidade. Como criaturas insignificantes e pecadores desprezíveis, somos indignos de fazer qualquer coisa para Deus, de receber qualquer bem dele ou de ter qualquer relação com ele.

  1. Observe sua grande fé. Quanto maior a humildade, maior a fé; quanto menos confiamos em nós mesmos, maior será nossa confiança em Jesus Cristo. Ele tinha a certeza da fé não apenas de que Cristo podia curar seu servo, mas também:

(1.) Que podia curá-lo à distância. Não era necessário nenhum contato físico, como nas operações naturais, nem aplicar algo à parte afetada. O centurião acreditava que a cura podia ser realizada sem reunir médico e paciente.

Lemos mais adiante sobre aqueles que, com grande dificuldade, levaram a Cristo um paralítico e o colocaram diante dele. Cristo elogiou sua fé como uma fé que age. O centurião não levou seu servo paralítico, e Cristo elogiou sua fé como uma fé que confia.

A verdadeira fé é aceita por Cristo mesmo quando se manifesta de maneiras diversas. Ele interpreta da melhor maneira os diferentes modos de praticar a religião que as pessoas adotam e, assim, nos ensina a fazer o mesmo.

O centurião acreditava, e isso sem dúvida é verdade, que o poder de Cristo não conhece limites; por isso, perto e longe lhe são iguais. A distância não pode impedir o conhecimento nem a ação daquele que enche todos os lugares. “Sou eu Deus de perto”, diz o Senhor, “e não Deus de longe?”, Jeremias 23:23.

(2.) Que Cristo podia curá-lo com uma palavra, sem lhe enviar um remédio, muito menos um encantamento: basta que diga a palavra, e não duvido de que meu servo será curado. Com isso, reconhece nele um poder divino, a autoridade de comandar todas as criaturas e forças da natureza, que lhe permite fazer tudo o que deseja no reino natural.

Foi assim que, no princípio, ele formou esse reino por uma palavra onipotente, quando disse: “Haja luz”. Para os homens, dizer e fazer são duas coisas distintas. Não é assim para Cristo, que é o Braço do Senhor porque é a Palavra eterna. Quando diz “Aquecei-vos e fartai-vos” (Tiago 2:16) e “sejam curados”, sua palavra aquece, farta e cura.

O centurião ilustra a fé que tinha no poder de Cristo com o domínio que, como centurião, exercia sobre seus soldados e, como senhor, sobre seus servos. Diz a um “Vai”, e ele vai, etc. Todos atendiam a seu gesto e à sua ordem; assim, por meio deles, podia executar coisas à distância.

Sua palavra era lei para eles: dictum factum. Soldados bem disciplinados sabem que as ordens dos oficiais não devem ser discutidas, mas obedecidas. Desse modo, Cristo podia falar, e a coisa era feita; tal era seu poder sobre todas as doenças do corpo.

O centurião tinha esse comando sobre os soldados embora ele próprio estivesse sob autoridade. Não era comandante supremo, mas oficial subordinado. Muito mais Cristo tinha esse poder, pois é o Senhor supremo e soberano de todos.

Os servos do centurião eram muito obedientes e iam e vinham à menor indicação da vontade do senhor. Assim: [1.] Todos nós devemos servir a Deus desse modo: ir e vir a seu chamado, conforme as orientações de sua palavra e o dispor de sua providência; correr para onde nos envia, voltar quando nos chama de volta e fazer o que designa.

“Que diz meu Senhor a seu servo?” Quando a vontade dele contraria a nossa, a dele deve prevalecer e a nossa deve ser deixada de lado.

[2.] Desse modo as doenças do corpo servem a Cristo. Atingem-nos quando ele as envia e nos deixam quando ele as chama de volta. Produzem em nós, no corpo e na alma, o efeito que ele ordena.

É motivo de consolo para todos os que pertencem a Cristo, em favor dos quais seu poder é exercido e empenhado para seu bem, saber que toda doença tem sua autorização, executa sua ordem, está sob seu controle e é levada a servir às intenções de sua graça. Quem a vê nas mãos de um Amigo tão bom não precisa temer a doença nem o que ela pode fazer.

II. Aqui vemos a graça de Cristo manifestada ao centurião, pois ele se mostrará gracioso com quem é gracioso.

  1. Cristo atende ao pedido logo às primeiras palavras. O centurião apenas lhe falou da condição do servo e ia pedir a cura quando Cristo se antecipou com estas palavras boas e consoladoras: “Irei e o curarei” (v. 7). Não disse “Irei vê-lo”, o que já o mostraria um Salvador bondoso, mas “Irei e o curarei”, o que o mostra poderoso, todo-poderoso.

Era uma promessa grandiosa, mas não maior do que ele podia cumprir, pois traz a cura debaixo das asas; sua vinda traz cura. Os que realizavam milagres por poder recebido não falavam com tanta certeza como Cristo, que os realizava por seu próprio poder, como quem tem autoridade.

Quando um ministro é chamado para visitar um amigo doente, só pode dizer: “Irei e orarei por ele”. Cristo, porém, diz: “Irei e o curarei”. É bom saber que Cristo pode fazer por nós mais do que nossos ministros.

O centurião desejava que ele curasse seu servo; Cristo disse: “Irei e o curarei”, oferecendo assim mais favor do que o centurião havia pedido ou imaginado. Repare: Cristo muitas vezes supera as expectativas dos pobres suplicantes.

Veja um exemplo da humildade de Cristo: dispôs-se a visitar um pobre soldado. Não quis descer para ver o filho enfermo de um nobre que insistiu em sua ida (João 4:47-49), mas se ofereceu para ir ver um servo enfermo. Assim, considera a condição humilde de seu povo e dá honra mais abundante à parte que não a tinha.

A humildade de Cristo ao se dispor a ir deu exemplo ao centurião e o levou a mostrar sua própria humildade ao reconhecer-se indigno de recebê-lo. Repare: as graciosas condescendências de Cristo para conosco devem tornar-nos mais humildes e diminuir nossa estima de nós mesmos diante dele.

  1. Cristo elogia a fé do centurião e aproveita a ocasião para dizer uma palavra bondosa acerca dos pobres gentios, vv. 10-12. Veja o que uma fé forte, mas que nega a si mesma, pode obter de Jesus Cristo, inclusive em assuntos de interesse geral e público.

(1.) Quanto ao próprio centurião: Cristo não apenas o aprovou e acolheu, honra que cabe a todos os verdadeiros crentes, mas também o admirou e elogiou, honra que grandes crentes recebem, como Jó: “Não há ninguém semelhante a ele na terra”.

[1.] Cristo o admirou não por sua grandeza, mas por suas graças. Ao ouvir isso, Jesus se maravilhou, não porque fosse algo novo ou surpreendente para ele. Conhecia a fé do centurião, pois ele a havia produzido. Ela, porém, era grande e excelente, rara e incomum, e Cristo falou dela como algo maravilhoso para nos ensinar o que admirar.

Não devemos admirar a pompa e os adornos do mundo, mas a beleza da santidade e os ornamentos que, aos olhos de Deus, são de grande valor. Repare: as maravilhas da graça devem nos impressionar mais do que as da natureza ou da providência; as conquistas espirituais, mais do que quaisquer feitos neste mundo.

Deveríamos dizer daqueles que são ricos em fé, e não dos que são ricos em ouro e prata, que obtiveram toda essa glória, Gênesis 31:1. Contudo, tudo o que há de admirável na fé de alguém deve redundar em glória para Cristo. Em breve ele mesmo será admirado em todos os que creem, por ter feito coisas maravilhosas neles e em favor deles.

[2.] Cristo o elogiou ao falar com os que o seguiam. Todos os crentes serão declarados seus e reconhecidos por Cristo diante dos homens no outro mundo; alguns, porém, já o são neste, quando ele se manifesta de modo notável em favor deles e com eles.

“Em verdade, não encontrei tão grande fé, nem mesmo em Israel.” Isso significa, primeiro, honra para o centurião. Embora não fosse descendente de Abraão segundo a carne, era herdeiro da fé de Abraão, e Cristo reconheceu isso nele.

Repare: Cristo procura a fé e, onde quer que exista, ele a encontra, ainda que seja como um grão de mostarda. Considerando todas as circunstâncias e os recursos disponíveis, Cristo não havia encontrado fé tão grande. Assim também se diz que a viúva pobre deu mais do que todos, Lucas 21:3.

Embora gentio, ainda assim o centurião foi elogiado desse modo. Repare: longe de ressentir-nos, devemos ser prontos a dar o devido louvor aos que não pertencem ao nosso grupo ou círculo.

Em segundo lugar, essas palavras envergonham Israel, a quem pertenciam a adoção, a glória, as alianças e todos os auxílios e motivos de ânimo para a fé. Repare: quando o Filho do Homem vem, encontra pouca fé e, por isso, encontra tão pouco fruto.

Repare: as realizações espirituais de alguns que receberam pouco auxílio para a alma agravarão o pecado e a ruína de muitos que tiveram em abundância os meios da graça, mas não os aproveitaram bem.

Cristo disse isso aos que o seguiam para, se possível, despertar neles uma santa emulação, como diz Paulo, Romanos 11:14. Eram descendentes de Abraão; por zelo dessa honra, não deviam permitir que um gentio os superasse, especialmente na graça pela qual Abraão se destacou.

(2.) Quanto aos outros. Cristo aproveita essa ocasião para comparar judeus e gentios e lhes diz duas coisas que não poderiam deixar de surpreender os que haviam aprendido que a salvação vinha dos judeus:

[1.] Que muitos gentios seriam salvos, v. 11. A fé do centurião era apenas uma amostra da conversão dos gentios e um prenúncio de sua adoção na igreja. Nosso Senhor Jesus tocou muitas vezes nesse assunto e aqui fala com segurança: “Digo-vos”, “eu que conheço todos os homens”.

Nada poderia ser mais agradável a ele ou mais desagradável aos judeus. Uma indicação desse tipo enfureceu contra ele os habitantes de Nazaré, Lucas 4:27. Aqui Cristo nos dá uma ideia, primeiro, das pessoas que serão salvas: muitas virão do Oriente e do Ocidente.

Ele havia dito (Mateus 7:14) que poucos encontram o caminho da vida; contudo, aqui virão muitos. Poucos em cada época e em cada lugar; mas, quando todos se reunirem, serão uma grande multidão. Agora vemos apenas uma ou outra pessoa trazida à graça; em breve, porém, veremos o Capitão da nossa salvação conduzir muitos filhos à glória, Hebreus 2:10.

Ele virá com dezenas de milhares de seus santos (Judas 1:14), uma multidão que ninguém pode contar (Apocalipse 7:9), nações de pessoas salvas, Apocalipse 21:24.

Virão do Oriente e do Ocidente, lugares muito distantes um do outro; ainda assim, todos se encontrarão à direita de Cristo, centro de sua unidade. Repare: Deus tem seu remanescente em todos os lugares, desde o nascer do sol até o pôr do sol, Malaquias 1:11.

Os eleitos serão reunidos dos quatro ventos, Mateus 24:31. Estão semeados pela terra, alguns espalhados por cada canto do campo. O mundo gentio se estendia do Oriente ao Ocidente, e é especialmente a ele que Cristo se refere aqui.

Embora fossem então estrangeiros à aliança da promessa, e o fossem havia muito tempo, ainda assim quem sabe quantos escolhidos ocultos Deus tinha entre eles naquela época? Assim foi nos dias de Elias em Israel (1 Reis 19:18); pouco depois, eles afluíram à igreja em grandes multidões, Isaías 60:3, 4.

Repare: quando chegarmos ao céu, assim como não encontraremos ali muitos que pensávamos estar a caminho dele, também encontraremos muitos que não esperávamos ver.

Em segundo lugar, Cristo nos dá uma ideia da própria salvação. Eles virão, virão juntos e virão juntos a Cristo, 2 Tessalonicenses 2:1. 1. Serão admitidos no reino da graça na terra, na aliança da graça feita com Abraão, Isaque e Jacó. Serão abençoados com o fiel Abraão, cuja bênção chega aos gentios, Gálatas 3:14.

É isso que faz de Zaqueu um filho de Abraão, Lucas 19:9. 2. Serão admitidos no reino da glória no céu. Virão alegremente, voando como pombas para suas janelas, e se assentarão para descansar do trabalho, como quem terminou a tarefa do dia.

Assentar-se indica permanência: enquanto estamos de pé, estamos de passagem; onde nos assentamos, pretendemos ficar. O céu é descanso duradouro e cidade permanente. Eles se assentarão como num trono (Apocalipse 3:21) e também à mesa, que é a imagem usada aqui.

Eles se assentarão para um banquete, o que indica tanto a plenitude do que lhes é comunicado quanto a liberdade e a intimidade da comunhão, Lucas 22:30. Eles se assentarão com Abraão.

Aqueles que neste mundo estiveram muito distantes uns dos outros no tempo, no lugar ou na condição exterior, todos se encontrarão no céu: antigos e modernos, judeus e gentios, ricos e pobres. O rico no inferno vê Abraão; Lázaro, porém, senta-se com ele e se reclina junto a seu peito.

Repare: o convívio santo faz parte da felicidade do céu. Aqueles sobre os quais chegou o fim dos tempos, mesmo os mais desconhecidos, participarão da glória com os célebres patriarcas.

[2.] Que muitos judeus pereceriam, v. 12. Observe:

Primeiro, uma sentença surpreendente: “Os filhos do reino serão lançados fora”. Os judeus que persistem na incredulidade, embora pelo nascimento sejam filhos do reino, ainda assim serão excluídos da igreja visível. O reino de Deus, do qual se orgulhavam de ser filhos, será tirado deles, e se tornarão um não povo, sem alcançar misericórdia, Romanos 11:20; 9:31.

No grande dia, não bastará ter sido filho do reino, fosse como judeu, fosse como cristão. As pessoas serão julgadas não pelo nome que receberam, mas pelo que foram. Se são filhos de fato, são herdeiros; muitos, porém, são filhos apenas na profissão de fé, estão na família, mas não pertencem a ela, e não receberão a herança.

Nascer de pais que professam a fé nos dá o nome de filhos do reino. Se, porém, nos contentarmos com isso e nada mais tivermos para apresentar como motivo de entrar no céu, seremos lançados fora.

Em segundo lugar, descreve-se uma punição surpreendente para os que praticam a iniquidade: “Serão lançados nas trevas exteriores”, as trevas daqueles que estão fora, dos gentios excluídos da igreja. Nelas os judeus foram lançados, e numa situação ainda pior.

Foram cegados, endurecidos e tomados de terrores, como mostra o apóstolo, Romanos 11:8-10. Um povo assim excluído da igreja e entregue aos juízos espirituais já está em trevas totais. Mas a frase aponta mais longe, para a condição dos pecadores condenados no inferno, da qual a outra é um terrível prenúncio.

Serão expulsos da presença de Deus e de todo consolo verdadeiro e lançados nas trevas. No inferno há fogo, mas não há luz. São trevas totais: trevas extremas, o grau mais elevado de escuridão, sem nenhum resquício, mistura ou esperança de luz, nem sequer o mais tênue raio ou vislumbre.

Essas trevas resultam de terem sido excluídos do céu, a terra da luz; os que ficam de fora estão na região das trevas. Ainda assim, isso não é o pior: ali haverá choro e ranger de dentes.

  1. No inferno haverá grande dor, torrentes de lágrimas derramadas em vão. A angústia do espírito que corrói eternamente as partes vitais, provocada pela consciência da cólera de Deus, é o tormento dos condenados.

  2. Haverá grande indignação: os pecadores condenados rangerão os dentes de rancor e irritação, cheios da fúria do Senhor. Verão com inveja a felicidade dos outros e recordarão com horror a possibilidade que antes tinham de ser felizes, agora extinta.

  3. Cristo cura o servo. Ele não apenas aprova que o centurião tenha recorrido a ele, mas concede o que foi pedido. Essa foi uma resposta concreta, v. 13. Observe:

(1.) O que Cristo lhe disse: foram palavras que tornaram a cura um favor tão grande para o centurião quanto para o servo, e muito maior: “Como creste, assim te seja feito”. O servo recebeu a cura da doença; o senhor recebeu a confirmação e a aprovação da fé.

Repare: Cristo muitas vezes dá respostas animadoras aos seus que oram quando intercedem em favor de outros. Ser ouvido em favor de outras pessoas é uma bondade feita a nós. Deus reverteu o cativeiro de Jó quando ele orou em favor dos amigos, Jó 42:10.

Cristo concedeu grande honra ao centurião ao lhe dar, por assim dizer, um cheque em branco: que lhe fosse feito conforme cresse. O que mais poderia receber? Contudo, o que foi dito a ele também é dito a todos nós: creiam, e receberão; apenas creiam.

Veja aqui o poder de Cristo e o poder da fé. Assim como Cristo pode fazer o que quiser, o crente que exerce a fé pode receber dele o que quiser. O azeite da graça se multiplica e só para quando faltam os vasos da fé.

(2.) O efeito dessas palavras: a oração da fé foi uma oração eficaz; sempre foi assim e sempre será. A rapidez da cura mostra que foi milagrosa, e o fato de coincidir com as palavras de Cristo mostra que o milagre foi dele. Ele falou, e tudo se fez. Essa foi uma prova de sua onipotência: seu braço alcança longe.

Um médico erudito observa que as doenças curadas por Cristo eram sobretudo as mais difíceis de tratar por meios naturais, particularmente a paralisia.

Omnis paralysis, præsertim vetusta, aut incurabilis est, aut difficilis curatu, etiam pueris: atque soleo ego dicere, morbos omnes qui Christo curandi fuerunt propositi, difficillimos sua matura curatu esse: todo tipo de paralisia, especialmente a de longa duração, ou é incurável ou só cede com extrema dificuldade à medicina, mesmo nos jovens.

“Por isso, tenho observado muitas vezes que todas as doenças apresentadas a Cristo para cura parecem ter sido das mais persistentes e sem esperança.” Mercurialis, De Morbis Puerorum, livro 2, cap. 5.

Versículos 14 a 17

A Cura da Sogra de Pedro.

Os que alegam ser minuciosos na harmonização dos evangelistas situam esse episódio, e tudo o que segue até o fim de Mateus 9, antes do Sermão do Monte, segundo a ordem em que Marcos e Lucas o apresentam. O doutor Lightfoot situa apenas esse episódio antes do sermão e o v. 18, etc., depois. Temos aqui:

I. Um relato específico da cura da sogra de Pedro, que estava doente com febre. Observe:

  1. O caso não tinha nada de extraordinário: as febres estão entre as doenças mais comuns. O registro, porém, se refere a uma parente próxima de Pedro e serve de exemplo do cuidado e da bondade especiais de Cristo para com as famílias de seus discípulos. Aqui encontramos:

(1.) Que Pedro tinha esposa e, mesmo assim, foi chamado para ser apóstolo de Cristo. Ao tratar com tanta bondade os parentes da esposa de Pedro, Cristo mostrou aprovar o casamento. Portanto, a igreja de Roma, que proíbe seus ministros de se casar, contraria aquele apóstolo do qual alega derivar sua infalibilidade.

(2.) Que Pedro tinha uma casa, embora Cristo não tivesse, v. 20. Assim, o discípulo estava mais bem instalado do que seu Senhor.

(3.) Que Pedro tinha uma casa em Cafarnaum, embora fosse natural de Betsaida. É provável que tenha se mudado para Cafarnaum quando Cristo se mudou para lá e feito da cidade sua residência principal.

Repare: vale a pena mudar de lugar para ficar perto de Cristo e ter oportunidades de comunhão com ele. Quando a arca se move, Israel deve mover-se e segui-la.

(4.) Que tinha a sogra morando com sua família, exemplo para marido e mulher tratarem os parentes um do outro com a mesma bondade que dispensam aos próprios parentes. É provável que essa boa mulher fosse idosa, mas era respeitada e recebia os cuidados que convêm aos idosos, com toda a ternura possível.

(5.) Que ela estava de cama com febre. Nem o vigor da juventude nem a fraqueza e o frio da velhice protegem contra doenças desse tipo. A paralisia era uma doença crônica; a febre, aguda. Ambas, porém, foram levadas a Cristo.

  1. A cura, v. 15:

(1.) Como ocorreu: ele tocou a mão dela, não para identificar a doença pelo pulso, como fazem os médicos, mas para curá-la.

Esse gesto indicava sua bondade e ternura: ele mesmo é tocado por nossas fraquezas. Mostra também o modo da cura espiritual, pelo exercício do poder de Cristo junto com sua palavra e pela aplicação de Cristo a nós mesmos. A Escritura pronuncia a palavra; o Espírito comunica o toque: toca o coração, toca a mão.

(2.) Como a cura ficou comprovada: a febre a deixou, ela se levantou e passou a servi-los. Isso mostra:

[1.] Que a misericórdia foi completa. Quem se recupera de uma febre pelo poder da natureza costuma permanecer fraco e debilitado, incapaz de trabalhar por bastante tempo. Para mostrar que essa cura excedia o poder da natureza, ela ficou tão bem de imediato que pôde ocupar-se das tarefas da casa.

[2.] Que a misericórdia foi santificada; as misericórdias assim santificadas são, de fato, completas. Embora tivesse sido honrada por um favor especial, ainda assim ela não se deu importância. Estava tão disposta quanto qualquer servo a atender à mesa, caso fosse necessário.

Os que Cristo honrou devem ser humildes. Tendo sido libertada, ela procurou saber o que poderia oferecer em retorno. É muito apropriado que aqueles a quem Cristo curou o sirvam como servos humildes por todos os seus dias.

II. Aqui temos um relato geral das muitas curas realizadas por Cristo. A cura da sogra de Pedro trouxe-lhe muitos pacientes. “Curou aquela pessoa; por que não a mim? Curou o amigo de alguém; por que não o meu?” Somos informados:

  1. Do que ele fez, v. 16:

(1.) Expulsou demônios; expulsou os espíritos maus com sua palavra. Com a permissão divina, Satanás pode agir muito até em doenças para as quais se identificam causas naturais, como as úlceras de Jó, sobretudo nas doenças da mente.

Na época em que Cristo esteve no mundo, porém, o diabo parece ter recebido liberdade maior que o habitual para possuir e atormentar o corpo das pessoas. Veio com grande cólera porque sabia que lhe restava pouco tempo.

Deus sabiamente dispôs as coisas assim para que Cristo tivesse oportunidades mais claras e frequentes de demonstrar seu poder sobre Satanás e o propósito e desígnio de sua vinda ao mundo: desarmá-lo e expulsá-lo, quebrar seu poder e destruir suas obras. Seu êxito foi tão glorioso quanto seu desígnio foi cheio de graça.

(2.) Curou todos os doentes, sem exceção, por mais humilde que fosse o paciente e por mais grave que fosse o caso.

  1. Como se cumpriu nisso a Escritura, v. 17. O cumprimento das profecias do Antigo Testamento era o grande objetivo que Cristo tinha em vista e a principal prova de que era o Messias.

Entre outras coisas, estava escrito a seu respeito (Isaías 53:4): “Certamente ele suportou as nossas dores e carregou as nossas tristezas”.

1 Pedro 2:24 faz referência a essa passagem e a interpreta no sentido de que ele carregou os nossos pecados. Aqui ela é citada e interpretada no sentido de que ele carregou as nossas doenças.

Nossos pecados transformam nossas doenças em dores. Cristo removeu o pecado pelo mérito de sua morte e removeu as doenças pelos milagres de sua vida.

Ou melhor, embora esses milagres tenham cessado, podemos dizer que ele carregou nossas doenças quando carregou nossos pecados em seu próprio corpo no madeiro, pois o pecado é tanto a causa quanto o aguilhão da doença. São muitas as doenças e calamidades a que o corpo está sujeito.

Há mais, nesta única linha dos evangelhos, para sustentar-nos e consolar-nos em meio a elas do que em todos os escritos dos filósofos: Jesus Cristo suportou nossas doenças e carregou nossas tristezas.

Ele as suportou antes de nós. Embora nunca tenha adoecido, ainda assim conheceu a fome, a sede, o cansaço, a aflição de espírito, a tristeza e a angústia profunda.

Suportou-as em nosso favor em sua paixão e as suporta conosco em sua compaixão, pois se comove com nossas fraquezas. Assim as afasta de nós e torna leve seu peso, se não for por nossa própria culpa.

Observe a ênfase das palavras aqui: “Ele mesmo tomou as nossas enfermidades e carregou as nossas doenças”. Era tanto capaz de intervir nessa questão quanto disposto a fazê-lo. Como nosso Médico, ocupava-se de nossas enfermidades e doenças.

Esse aspecto do sofrimento humano era objeto de seu cuidado especial, como demonstrou sua grande prontidão para curar doenças. Hoje ele não é menos poderoso nem menos terno, pois estamos certos de que ninguém se tornou pior por ir para o céu.

Versículos 18 a 22

A Resposta de Cristo a um Escriba e a Outro.

Aqui temos: I. A partida de Cristo para o outro lado do mar de Tiberíades e a ordem que deu a seus discípulos, cujos barcos o acompanhavam, para preparar as embarcações que os transportariam, v. 18. As influências desse Sol da justiça não deviam ficar confinadas a um lugar, mas espalhar-se por toda a região; ele precisava andar por toda parte fazendo o bem.

As necessidades das almas o chamavam: “Passa para cá e ajuda-nos” (Atos 16:9). Ele partiu quando viu grandes multidões ao seu redor. Embora isso mostrasse que desejavam tê-lo ali, sabia que outros também desejavam tê-lo consigo e precisavam receber sua parte dele.

Ser bem recebido e útil em um lugar não era motivo para deixar de ir a outro, mas um motivo para fazê-lo. Assim, ele poria à prova as multidões ao seu redor, para ver se o zelo as levaria a segui-lo e estar com ele quando sua pregação se transferisse para alguma distância.

Muitos ficariam satisfeitos com essa ajuda se a tivessem à porta de casa, mas não se dariam ao trabalho de segui-la até o outro lado. Desse modo, Cristo se desprendeu dos menos zelosos e os perfeitos se tornaram manifestos.

II. A conversa de Cristo com dois homens que, quando ele partiu para o outro lado, não queriam ficar para trás e desejavam segui-lo. Queriam fazê-lo não como os outros, que eram seguidores em sentido amplo, mas como discípulos próximos, coisa que a maioria evitava; pois tal discipulado parecia tão rigoroso que não conseguiam apreciá-lo nem aceitá-lo com facilidade.

Aqui, porém, se fala de dois que pareciam desejar entrar em comunhão, mas não estavam na disposição correta. O relato serve de exemplo dos impedimentos que afastam muitos de se unir a Cristo e permanecer junto dele; e de aviso para que comecemos a segui-lo sem ficar pelo caminho, lançando um fundamento sobre o qual nossa construção possa permanecer firme.

Vemos aqui Cristo lidar com dois temperamentos diferentes, um rápido e impetuoso, o outro lento e pesado. Suas instruções se adaptam a cada um deles e se destinam ao nosso proveito.

  1. Aqui está alguém precipitado demais em prometer: um escriba (v. 19), um estudioso, homem instruído, dos que estudavam e expunham a lei. Em geral, nos evangelhos, eles são apresentados como homens de mau caráter, muitas vezes associados aos fariseus como inimigos de Cristo e de sua doutrina.

“Onde está o escriba?”, 1 Coríntios 1:20. Raramente o encontramos seguindo Cristo; contudo, aqui havia um que parecia prometer tornar-se discípulo, um Saul entre os profetas. Observe agora:

(1.) Como manifestou sua prontidão: “Mestre, eu te seguirei aonde quer que fores”. Não sei como alguém poderia ter falado melhor. Sua profissão de entrega pessoal a Cristo era: [1.] Muito pronta e parecia vir ex mero motu, de sua inclinação livre de influências.

Cristo não o chamou, e nenhum discípulo o instigou; ele se ofereceu espontaneamente para tornar-se seguidor próximo de Cristo. Não era alguém recrutado à força, mas um voluntário.

[2.] Muito resoluta; ele parece ter tomado uma decisão definitiva. Não disse “Tenho vontade de te seguir”, mas “Estou decidido; farei isso”. [3.] Ilimitada e sem reservas: “Eu te seguirei aonde quer que fores; não apenas ao outro lado da região, mas até os confins do mundo, se for preciso”.

Pensaríamos poder contar com um homem assim. A resposta de Cristo, porém, mostra que sua resolução era precipitada e seus objetivos, baixos e carnais: ou não considerou nada, ou não considerou o que importava. Viu os milagres de Cristo, esperou que ele estabelecesse um reino terreno e quis apresentar-se cedo para obter uma parte nele.

Repare: muitas resoluções quanto à religião nascem de súbitos acessos de convicção e são tomadas sem a devida reflexão; acabam malogradas e não dão em nada. O que amadurece cedo apodrece cedo.

(2.) Como Cristo pôs sua prontidão à prova, para saber se era sincera ou não, v. 20. Fez-lhe saber que esse Filho do homem, a quem ele tanto desejava seguir, não tinha onde reclinar a cabeça, v. 20. Desse relato da extrema pobreza de Cristo, observamos:

[1.] Que é surpreendente, em si, que o Filho de Deus, ao vir ao mundo, tenha assumido uma condição tão humilde que lhe faltava a conveniência de um lugar fixo para repousar, algo de que até as criaturas mais humildes dispõem. Se quisesse assumir nossa natureza, pensaríamos que o faria nas melhores condições e circunstâncias. Não: assumiu-a nas piores. Veja aqui:

Primeiro, como as criaturas inferiores recebem boa provisão. “As raposas têm covis.” Embora não só deixem de ser úteis ao homem, mas lhe causem prejuízo, ainda assim Deus lhes provê covis onde se abrigam. O homem procura destruí-las, mas ali encontram proteção: os covis são seus castelos.

As aves do céu, embora não cuidem de si mesmas, ainda assim recebem cuidado e têm ninhos (Salmos 104:17): algumas os fazem no campo; outras, nas casas; outras ainda, nos átrios de Deus, Salmos 84:3.

Em segundo lugar, como o Senhor Jesus tinha pouca provisão. A provisão tão boa para os animais e as aves pode nos animar a confiar em Deus quanto ao necessário; e, se este nos faltar, o fato de nosso Mestre ter passado pelo mesmo pode nos consolar.

Repare: nosso Senhor Jesus, enquanto esteve neste mundo, submeteu-se às humilhações e aflições da pobreza extrema; por nossa causa se fez pobre, muito pobre. Não tinha estabilidade nem lugar de repouso, nem casa própria para abrigar a cabeça, nem travesseiro próprio em que apoiá-la.

Ele e seus discípulos viviam da caridade de pessoas bem-dispostas, que o serviam com seus bens, Lucas 8:3. Cristo submeteu-se a isso não apenas para humilhar-se em todos os aspectos e cumprir as Escrituras, que falavam dele como pobre e necessitado, mas também para mostrar-nos a vaidade das riquezas deste mundo e ensinar-nos a considerá-las com santo desprezo.

Desse modo, também compraria coisas melhores para nós e nos tornaria ricos, 2 Coríntios 8:9.

[2.] É surpreendente que tal declaração tenha sido feita nessa ocasião. Quando um escriba se ofereceu para seguir Cristo, poderíamos pensar que ele o animaria, dizendo: “Vem, e cuidarei de ti”. Um escriba talvez pudesse conferir-lhe mais prestígio e servi-lo mais do que doze pescadores.

Cristo, porém, viu o coração dele e respondeu ao que ali se passava. Com isso, ensina a todos nós como nos aproximar dele. Primeiro, a decisão do escriba parece ter sido repentina; Cristo quer que, ao assumirmos uma profissão religiosa, nos sentemos e calculemos o custo (Lucas 14:28), fazendo-o com inteligência e reflexão.

Devemos escolher o caminho da piedade não porque não conhecemos outro, mas porque não conhecemos um melhor. Não beneficia a religião surpreender as pessoas antes que tenham consciência do que fazem. Quem assume uma profissão religiosa num impulso a abandonará num acesso de irritação.

Portanto, que elas tomem tempo, e assim terminarão mais cedo. Quem quiser seguir Cristo deve conhecer a pior parte e esperar dormir sem conforto e passar privações.

Em segundo lugar, sua decisão parece ter nascido de um princípio mundano e avarento. Ele viu quantas curas Cristo realizava e concluiu que cobrava honorários elevados e logo acumularia uma fortuna. Por isso, queria segui-lo na esperança de enriquecer com ele.

Cristo, porém, corrige seu engano e lhe diz que estava tão longe de enriquecer que nem sequer tinha onde reclinar a cabeça; se o seguisse, não poderia esperar viver melhor do que ele. Repare: Cristo não aceitará como seguidores os que buscam vantagens mundanas ao segui-lo ou têm o desígnio de tirar da religião qualquer coisa que não seja o céu.

Temos motivos para pensar que, depois disso, o escriba foi embora triste, frustrado num negócio que acreditava ser lucrativo. Não queria seguir Cristo se não pudesse ganhar algo com ele.

  1. Aqui está outro que demorava demais a agir. A demora na execução é tão ruim, de um lado, quanto a precipitação na decisão é do outro. Depois de tomarmos tempo para refletir e nos decidirmos, nunca se diga que deixamos para amanhã o que poderíamos fazer hoje.

Esse candidato ao ministério já era um dos discípulos de Cristo (v. 21), um seguidor em sentido amplo. Clemente de Alexandria nos conta, com base numa tradição antiga, que era Filipe. Parece mais qualificado e mais disposto do que o primeiro, por não ser tão confiante nem presunçoso.

Um temperamento ousado, impetuoso e excessivamente precipitado não é o mais promissor na religião; às vezes os últimos são os primeiros e os primeiros, os últimos. Observe aqui:

(1.) A desculpa que esse discípulo apresentou para adiar o acompanhamento imediato de Cristo (v. 21): “Senhor, permite-me primeiro ir sepultar meu pai. Antes de me tornar teu seguidor próximo e constante, consente que eu cumpra essa última demonstração de respeito por meu pai. Enquanto isso, que baste ouvir-te de vez em quando, quando eu puder dispor de tempo.”

Alguns pensam que seu pai estava doente, morrendo ou já morto; outros, que era apenas idoso e, segundo o curso natural das coisas, não viveria por muito mais tempo. Ele desejava permissão para cuidar do pai durante a doença, acompanhá-lo na morte e levá-lo à sepultura; depois estaria a serviço de Cristo.

O pedido parecia razoável, mas não era correto. Faltava-lhe o zelo que deveria ter pela obra; por isso apresentou a desculpa, que parecia plausível. Repare: a pessoa sem vontade nunca fica sem desculpas. O sentido de Non vacat é Non placet: falta de tempo significa falta de disposição.

Admitamos que a desculpa nascesse do verdadeiro afeto filial e do respeito por seu pai; ainda assim, Cristo deveria ter tido a preferência. Repare: muitas pessoas são impedidas de entrar e de progredir no caminho da piedade séria por preocupação excessiva com seus familiares e parentes.

Essas coisas lícitas arruínam a todos nós: negligenciamos e adiamos nosso dever para com Deus sob o pretexto de cumprir nossas obrigações com o mundo. Aqui, portanto, precisamos redobrar a vigilância.

(2.) A rejeição dessa desculpa por Cristo (v. 22). Jesus lhe disse: “Segue-me”. Sem dúvida, essa palavra veio acompanhada de poder para ele, como para outros; ele seguiu Cristo e permaneceu unido a ele, como Rute a Noemi, enquanto o escriba dos versículos anteriores se despediu, como Orfa.

O escriba disse: “Eu te seguirei”; a este, Cristo disse: “Segue-me”. Ao compará-los, sugere-se que somos trazidos a Cristo pela força do chamado dele a nós, não de nossas promessas a ele. “Não depende de quem quer nem de quem corre, mas de Deus, que mostra misericórdia”; ele chama a quem quer, Romanos 9:16.

Repare também: embora vasos escolhidos possam apresentar desculpas e demorar muito a atender aos chamados divinos, ainda assim Cristo acabará respondendo a essas desculpas, vencendo sua resistência e trazendo-os a seus pés. Quando Cristo chama, ele prevalece e torna eficaz o chamado, 1 Samuel 3:10.

A desculpa desse discípulo é rejeitada como insuficiente: “Deixa que os mortos sepultem seus mortos”. É uma expressão proverbial: “Deixa que um morto sepulte outro; antes fiquem sem sepultura do que o serviço de Cristo seja negligenciado. Deixa que os mortos espirituais sepultem os mortos fisicamente; deixa as tarefas deste mundo para as pessoas do mundo. Não te sobrecarregues com elas.”

“Sepultar os mortos, especialmente o próprio pai, é uma boa obra, mas não é tua obra neste momento; outros, que não foram chamados e qualificados como tu para servir a Cristo, podem fazê-la tão bem quanto tu; tens outra coisa a fazer e não deves adiá-la.”

Repare: a piedade para com Deus deve ter prioridade sobre a piedade para com os pais, embora esta seja uma parte grande e necessária de nossa religião. Os nazireus, sob a lei, não deviam lamentar nem os próprios pais, pois eram santos ao Senhor (Números 6:6-8). Tampouco o sumo sacerdote devia macular-se por um morto, não, nem sequer pelo próprio pai, Levítico 21:11, 12.

Cristo exige de quem quer segui-lo que odeie pai e mãe (Lucas 14:26), isto é, que os ame menos do que a Deus. Em comparação com Cristo, devemos negligenciar e estimar menos até os parentes mais próximos quando eles entram em disputa com ele, ou com o que fazemos em favor dele ou com o que sofremos por ele.

Versículos 23 a 27

Jesus Acalma a Tempestade.

Cristo ordenara aos discípulos que navegassem para o outro lado do mar de Tiberíades (v. 18), rumo à região de Gadara, na tribo de Gade, a leste do Jordão. Iria ali libertar uma pobre criatura possuída por uma legião de demônios, embora previsse a afronta que receberia naquele lugar. Agora:

  1. Escolheu ir pela água. O caminho por terra não seria muito mais longo, mas quis atravessar o lago para ter ocasião de mostrar-se Deus do mar assim como da terra firme e demonstrar que todo o poder lhe pertence, tanto no céu quanto na terra.

É um consolo para os que descem ao mar em navios e muitas vezes enfrentam perigos lembrar que podem confiar num Salvador e orar a ele. Ele sabe o que é estar no mar e enfrentar tempestades.

Observe, porém, que, ao navegar, não tinha iate nem barco de recreio à sua disposição: usou os barcos de pesca dos discípulos. Tão modestas eram suas condições em todos os aspectos.

  1. Seus discípulos o seguiram. Os doze permaneceram perto dele, enquanto outros ficaram em terra firma, onde podiam pisar com segurança. Repare: serão reconhecidos como verdadeiros discípulos de Cristo apenas os que se dispõem a entrar no mar com ele e a segui-lo entre perigos e dificuldades.

Muitos gostariam de seguir o caminho terrestre até o céu, mas prefeririam ficar parados ou voltar atrás a arriscar-se num mar perigoso. Aqueles que desejam descansar com Cristo no futuro, porém, precisam segui-lo agora aonde quer que os conduza, seja a um barco ou a uma prisão, não apenas a um palácio. Observe aqui:

I. O perigo e a perplexidade dos discípulos nessa viagem. Ficou evidente a verdade do que Cristo acabara de dizer: seus seguidores devem contar com dificuldades, v. 20.

  1. Levantou-se uma tempestade muito forte, v. 24. Cristo poderia tê-la impedido e lhes dado uma travessia agradável, mas isso não teria servido tanto à sua glória nem fortalecido tanto a fé deles quanto o livramento que lhes concedeu. A tempestade aconteceu para o bem deles, como em João 11:4.

Seria de esperar que, tendo Cristo a bordo, recebessem um vento muito favorável. Ocorreu justamente o contrário. Ele queria mostrar que os que atravessam com ele o oceano deste mundo rumo à outra margem devem esperar tempestades pelo caminho.

A igreja é sacudida pelas tormentas (Isaías 54:11). Apenas a região superior desfruta de calma perpétua; esta região inferior é repetidamente perturbada e perturbadora.

  1. Jesus Cristo dormia durante a tempestade. Não lemos em outra ocasião que ele dormiu. Muitas vezes passou a noite em vigília e perseverou em oração a Deus até de manhã. Seu sono não era descuido, como o de Jonas durante uma tempestade, mas expressão de santa serenidade e confiança no Pai.

Dormia para mostrar que era realmente e na verdade humano, sujeito às fraquezas sem pecado da nossa natureza. Seu trabalho o deixava cansado e sonolento, e nele não havia culpa nem medo interior que perturbasse seu repouso.

Os que podem apoiar a cabeça no travesseiro de uma consciência limpa dormem tranquila e docemente durante a tempestade (Salmos 4:8), como Pedro, Atos 12:6.

Naquele momento, ele dormia para provar a fé dos discípulos e ver se confiariam nele quando parecia não lhes dar atenção. Dormiu menos pelo desejo de descansar do que pelo desígnio de ser despertado.

  1. Os pobres discípulos, embora acostumados ao mar, ficaram muito assustados. Com medo, foram até seu Mestre, v. 25. A quem mais recorreriam? Foi bom tê-lo tão perto. Despertaram-no com suas orações: “Senhor, salva-nos! Perecemos!”.

Repare: quem deseja aprender a orar precisa ir ao mar. Perigos iminentes e palpáveis levam as pessoas àquele que, sozinho, pode socorrê-las quando precisam. A oração deles está cheia de vida: “Senhor, salva-nos! Perecemos!”.

(1.) Seu pedido foi: “Senhor, salva-nos!”. Criam que ele podia salvá-los e imploraram que o fizesse. Cristo veio ao mundo para salvar, mas só serão salvos os que invocarem o nome do Senhor, Atos 2:21.

Aqueles que, pela fé, têm parte na salvação eterna realizada por Cristo podem recorrer a ele, com humilde confiança, também em busca de livramentos temporais.

Observe: chamaram-no de “Senhor” e depois oraram: “Salva-nos!”. Repare: Cristo só salvará os que estiverem dispostos a aceitá-lo como Senhor, pois ele é Príncipe e Salvador.

(2.) Seu apelo foi: “Perecemos!”. Essas palavras expressavam:

[1.] A linguagem do medo. Consideravam desesperadora a situação e davam tudo por perdido. Dentro de si, já haviam recebido uma sentença de morte, e apresentaram isso a Cristo: “Perecemos se não nos salvares; olha, portanto, para nós com compaixão”.

[2.] A linguagem do fervor. Oraram como pessoas que falavam a sério e suplicavam pela própria vida. É assim que convém a nós contendermos e lutarmos na oração. Foi para despertar essa insistência que Cristo dormiu.

II. O poder e a graça de Jesus Cristo manifestados para socorrê-los. Então o Senhor Jesus despertou como alguém revigorado, Salmos 78:65.

Cristo pode dormir enquanto sua igreja enfrenta uma tempestade, mas não dormirá além do tempo certo. Chegará o tempo, o tempo determinado de favorecer sua igreja aflita, Salmos 102:13.

  1. Repreendeu os discípulos (v. 26): “Por que tendes medo, ó vós de pouca fé?” Não altercou com eles por perturbá-lo com suas orações, mas por perturbarem a si mesmos com seus temores. Cristo primeiro os censurou e depois os livrou. Esse é seu modo de agir: prepara-nos para a misericórdia e, então, a concede. Observe:

(1.) Sua desaprovação do medo deles: “Por que temeis? Vós, meus discípulos? Que os pecadores de Sião tenham medo; que os marinheiros pagãos tremam numa tempestade; vós, porém, não deveis agir assim. Examinai os motivos do vosso medo e ponderai-os”.

(2.) Sua identificação da causa e origem desse medo: “Ó vós de pouca fé”. Muitos têm fé verdadeira, mas ela é fraca e pouco faz. Repare:

[1.] Os discípulos de Cristo tendem a inquietar-se com temores em dias de tempestade. Torturam-se com suspeitas de que as coisas vão mal e com conclusões sombrias de que ficarão ainda piores.

[2.] A força dos temores excessivos que sentimos em dias tempestuosos vem da fraqueza de nossa fé. Ela poderia servir como âncora para a alma e mover os remos da oração. Pela fé, poderíamos enxergar a margem tranquila além da tempestade e animar-nos com a esperança de chegar a salvo ao destino.

[3.] O medo dos discípulos de Cristo durante a tempestade e a incredulidade que o causa desagradam muito ao Senhor Jesus. Eles o desonram e criam perturbação para si mesmos.

  1. Repreende o vento. Fez a primeira repreensão como Deus da graça e Soberano do coração, que pode fazer em nós o que lhe agrada. Fez a segunda como Deus da natureza e Soberano do mundo, que pode fazer em nosso favor o que lhe agrada. É o mesmo poder que aquieta o ruído do mar e o tumulto do medo, Salmos 65:7. Veja:

(1.) Como isso foi fácil: bastou-lhe uma palavra. Moisés comandou as águas com uma vara; Josué, com a arca da aliança; Eliseu, com o manto do profeta; Cristo, porém, com uma palavra. Veja seu domínio absoluto sobre todas as criaturas, que demonstra tanto sua honra quanto a felicidade dos que o têm a seu lado.

(2.) Como foi eficaz! Houve, de repente, grande bonança. Em geral, depois de uma tempestade, as águas continuam agitadas por algum tempo antes de se acalmarem. Quando Cristo fala, porém, cessam não apenas a tempestade, mas todos os seus efeitos, todos os seus vestígios.

Grandes tempestades de dúvida e medo na alma, sob o poder do espírito de escravidão, às vezes terminam em uma calma extraordinária, criada e anunciada pelo Espírito de adoção.

  1. Isso provocou admiração entre os discípulos (v. 27): “Os homens se maravilharam”. Conheciam o mar havia muito tempo, mas nunca tinham visto uma tempestade transformar-se tão de imediato em calma perfeita em toda a vida. O acontecimento traz todos os sinais de um milagre: é obra do Senhor e é maravilhoso aos olhos deles. Observe:

(1.) Sua admiração por Cristo: “Que homem é este?”. Repare: Cristo não tem igual. Tudo nele é admirável; ninguém é tão sábio, poderoso ou amável quanto ele.

(2.) O motivo dessa admiração: “Até os ventos e o mar lhe obedecem”. Cristo é digno de admiração porque tem poder para ordenar até aos ventos e aos mares. Outros alegavam curar doenças; só ele se apresentou para mandar nos ventos.

Não sabemos o caminho do vento (João 3:8), muito menos podemos controlá-lo. Mas aquele que faz sair o vento de seus depósitos (Salmos 135:7), depois de soltá-lo, recolhe-o nos punhos, Provérbios 30:4.

Quem pode fazer isso pode fazer qualquer coisa. Seu poder basta para animar nossa confiança e nosso consolo nele no dia mais tempestuoso, por dentro ou por fora, Isaías 26:4.

O Senhor está sentado sobre as águas das enchentes e é mais poderoso que o ruído de muitas águas. Ao ordenar aos mares, Cristo mostrou ser o mesmo que criou o mundo. Quando repreendeu as águas na criação, elas fugiram (Salmos 104:7, 8); agora, ao repreendê-las, elas baixaram.

Versículos 28 a 34

Os Demônios Expulsos de Dois Homens.

Temos aqui o relato de Cristo expulsando os demônios de dois homens possuídos. O propósito deste capítulo é mostrar o poder divino de Cristo por meio de seu domínio sobre as doenças do corpo, às quais não conseguimos resistir; sobre os ventos e as ondas, que nos são ainda mais impossíveis de controlar; e, por fim, sobre os demônios, os mais temíveis de todos para nós.

Cristo tem todo o poder não só no céu, na terra e em todos os abismos, mas também as chaves do inferno. Principados e potestades ficaram sujeitos a ele ainda em seu estado de humilhação, como garantia do que aconteceria quando entrasse em sua glória (Efésios 1:21); ele os despojou, Colossenses 2:15.

Já se havia observado, em termos gerais (v. 16), que Cristo expulsava os espíritos com sua palavra. Aqui temos um caso particular disso, com circunstâncias mais notáveis que as dos demais. Esse milagre aconteceu na terra dos gergesenos. Alguns pensam que eles eram remanescentes dos antigos girgaseus, Deuteronômio 7:1.

Embora Cristo tivesse sido enviado principalmente às ovelhas perdidas da casa de Israel, ainda assim fez algumas incursões entre os povos das fronteiras, como aqui, para conquistar essa vitória sobre Satanás. Ela era uma amostra da conquista das legiões dele no mundo gentio.

Além da demonstração geral que esse caso nos dá do poder de Cristo sobre Satanás e de seu desígnio de desarmá-lo e desalojá-lo, revela-nos especialmente o modo de agir dos espíritos malignos em sua inimizade contra o homem.

Observe, a respeito dessa legião de demônios, o que fizeram onde estavam e no lugar para onde foram.

I. O que fizeram onde estavam: isso se vê na condição miserável desses dois homens possuídos por eles. Alguns pensam que eram marido e mulher, porque os outros evangelistas falam apenas de um.

  1. Moravam entre os sepulcros. Dali vieram quando encontraram Cristo. Como tinha o poder da morte, não como juiz, mas como executor, o diabo gostava de permanecer entre os troféus de sua vitória, os corpos dos mortos.

Foi, porém, ali, onde se julgava no auge de seu triunfo e exaltação, como depois no Gólgota, lugar de uma caveira, que Cristo o venceu e sujeitou.

A convivência entre os túmulos aumentava a melancolia e o frenesi daquelas pobres criaturas possuídas. Assim, o diabo fortalecia o domínio que exercia sobre elas por meio da perturbação de seu corpo.

Isso também as tornava mais temíveis para os outros, que em geral se assustam com qualquer coisa que se mova entre os túmulos.

  1. Eram extremamente ferozes. Não apenas era impossível contê-los, mas também faziam mal aos outros: assustavam muitos e haviam ferido alguns. Por isso, ninguém se atrevia a passar por aquele caminho.

Repare: o diabo tem ódio da humanidade e o demonstra tornando as pessoas rancorosas e maliciosas umas para com as outras.

As hostilidades mútuas, onde deveriam existir afeição e ajuda mútuas, são efeitos e provas da inimizade de Satanás contra toda a raça humana. Ele faz de um homem um lobo, um urso, um diabo para outro: Homo homini lupus.

Quando Satanás domina espiritualmente alguém por meio das concupiscências que guerreiam em seus membros, como o orgulho, a inveja, a malícia e a vingança, elas o tornam tão incapaz de viver em sociedade, tão indigno desse convívio e tão inimigo do bem-estar social quanto eram aquelas pobres criaturas possuídas.

  1. Desafiaram Jesus Cristo e negaram qualquer vínculo com ele, v. 29. Uma demonstração do poder de Deus sobre os demônios é que, apesar do dano que procuravam fazer por meio daquelas pobres criaturas e contra elas, não puderam impedi-las de encontrar Jesus Cristo, que dispôs as coisas para encontrá-las.

Foi sua mão irresistível que arrastou os espíritos impuros à sua presença, que temiam mais do que qualquer outra coisa. Suas correntes conseguiam prendê-los quando as correntes feitas pelos homens não conseguiam.

Uma vez levados perante ele, porém, protestaram contra sua jurisdição e irromperam em fúria: “Que temos nós contigo, Jesus, Filho de Deus?” Aqui temos:

(1.) Uma expressão que o diabo disse como um santo: dirigiu-se a Cristo como Jesus, o Filho de Deus. Era uma boa expressão e, naquele momento, quando essa verdade ainda estava sendo demonstrada, era também uma grande declaração. Foi algo que carne e sangue não revelaram a Pedro, Mateus 16:17.

Até os demônios sabem, creem e confessam que Cristo é o Filho de Deus e, ainda assim, continuam sendo demônios. Isso torna sua inimizade contra Cristo ainda mais perversa e, de fato, um tormento completo para eles mesmos.

Como poderia ser diferente, se se opõem a alguém que sabem ser o Filho de Deus? Repare: não é o conhecimento, mas o amor que distingue os santos dos demônios.

O primogênito do inferno é aquele que conhece Cristo e, ainda assim, o odeia e se recusa a sujeitar-se a ele e à sua lei. Podemos lembrar que, não faz muito tempo, o diabo pôs em dúvida se Cristo era ou não o Filho de Deus e quis persuadi-lo a questionar isso (Mateus 4:3). Agora, porém, reconhece-o prontamente.

Repare: embora os filhos de Deus possam ficar muito perturbados numa hora de tentação, quando Satanás questiona sua relação com Deus como Pai, ainda assim o Espírito de adoção acabará por esclarecê-la de maneira tão satisfatória para eles que a colocará acima até da contestação do diabo.

(2.) Duas expressões que ele disse como um diabo, como ele próprio:

[1.] Uma palavra de desafio: “Que temos nós contigo?” Primeiro, é verdade que os demônios nada têm a ver com Cristo como Salvador. Ele não assumiu a natureza dos anjos caídos nem estendeu a mão para socorrê-los (Hebreus 2:16). Eles não têm relação alguma com ele: não recebem nem esperam receber benefício algum dele.

Ó profundidade desse mistério do amor divino: o homem caído tem tanto a ver com Cristo, enquanto os anjos caídos nada têm a ver com ele!

Sem dúvida, serem obrigados a reconhecer a excelência de Cristo e, ainda assim, não terem parte nele já era tormento suficiente antes do tempo. Repare: posso chamar Jesus de Filho de Deus e, mesmo assim, nada ter a ver com ele.

Segundo, é igualmente verdade que os demônios não desejam ter nada a ver com Cristo como Governante. Odeiam-no, estão cheios de inimizade contra ele, opõem-se a ele e se rebelam abertamente contra sua coroa e dignidade.

Veja de quem é a linguagem daqueles que nada querem com o evangelho de Cristo, com suas leis e ordenanças; que rejeitam seu jugo, rompem suas amarras e não aceitam que ele reine sobre eles; que dizem a Jesus Todo-Poderoso: “Afasta-te de nós”. São filhos do diabo, seu pai; fazem o que ele deseja e falam como ele.

Terceiro, não é verdade que os demônios nada tenham a ver com Cristo como Juiz, pois têm, e sabem disso. Não podiam perguntar: “Que tens tu conosco?” Não podiam negar que o Filho de Deus é o Juiz dos demônios.

Para enfrentar seu julgamento, estão presos em correntes de trevas, das quais gostariam de se livrar, assim como do pensamento desse julgamento.

[2.] Uma palavra de temor e súplica: “Vieste aqui para nos atormentar, para nos expulsar destes homens e nos impedir de causar o prejuízo que desejamos?” Repare: ser expulso e amarrado para não causar dano é um tormento para o diabo, cujo único consolo e satisfação são a miséria e a destruição dos homens.

Não deveríamos, então, considerar nosso céu a prática do bem e ter por tormento tudo o que, dentro ou fora de nós, nos impede de fazê-lo? Devemos agora ser atormentados por você antes do tempo? Repare, primeiro: existe um tempo em que os demônios serão mais atormentados do que agora, e eles sabem disso.

O grande julgamento do último dia é o tempo determinado para seu tormento completo, naquele Tofete preparado desde muito para o rei, para o príncipe dos demônios e seus anjos (Isaías 30:33; Mateus 25:41). Eles estão reservados para o julgamento daquele dia, 2 Pedro 2:4.

Esses espíritos malignos, que, por permissão divina, são prisioneiros em liberdade e percorrem a terra de um lado para outro (Jó 1:7), já estão presos a uma corrente.

Até aqui chega seu poder, e não mais longe. Naquele dia serão encerrados sob custódia rigorosa. Agora têm algum alívio; então sofrerão um tormento sem alívio.

Eles tomam isso como certo. Não pedem para nunca serem atormentados, pois o desespero de obter alívio faz parte de sua miséria. Pedem apenas que isso não aconteça antes do tempo. Embora não soubessem quando chegaria o dia do julgamento, sabiam que ainda não era o momento.

Segundo, os demônios aguardam com uma expectativa certa e temerosa esse julgamento e essa indignação ardente toda vez que Cristo se aproxima e toda vez que seu poder e sua fúria são contidos. A simples visão de Cristo e sua ordem de saírem daquele homem os fizeram temer o próprio tormento. Assim, “os demônios creem e estremecem”, Tiago 2:19.

É a própria inimizade deles contra Deus e os homens que os põe no cavalete de tortura e os atormenta antes do tempo. Até os pecadores mais desesperados, cuja condenação está selada, não conseguem endurecer o coração por completo contra o súbito temor que sentem quando veem o dia se aproximar.

II. Vejamos agora o que fizeram no lugar para onde foram depois de expulsos dos homens possuídos: entraram numa manada de porcos que estava a certa distância, v. 30.

Esses gergesenos, embora vivessem do outro lado do Jordão, eram judeus. Que tinham eles a ver com porcos, que, segundo a lei, eram impuros e não deviam ser comidos nem tocados?

É provável que, por viverem nos limites da terra, houvesse entre eles muitos gentios aos quais a manada pertencia. Ou talvez criassem os porcos para vendê-los ou trocá-los com os romanos, com quem tinham então muitas relações comerciais e que apreciavam carne de porco. Observe agora:

  1. Como os demônios se apoderaram dos porcos: embora estivessem a certa distância e, poderíamos pensar, fora de perigo, ainda assim os demônios os tinham em vista para lhes causar dano.

Andam de um lado para outro à procura de quem devorar, buscando uma oportunidade; não precisam procurar por muito tempo para encontrá-la. Aqui temos:

(1.) Pediram permissão para entrar nos porcos (v. 31). Suplicaram-lhe com toda a insistência: “Se nos expulsas, permite-nos ir para a manada de porcos”. Com isso:

[1.] Revelam sua própria inclinação para causar dano e o prazer que sentem nisso. Portanto, são filhos deles e se parecem com eles aqueles cujo sono se vai se não fizerem alguém cair, Provérbios 4:16. “Deixa-nos entrar na manada de porcos: qualquer lugar é melhor que o lugar de tormento, qualquer lugar onde possamos causar dano.”

Se não lhes fosse permitido prejudicar os homens no corpo, prejudicariam seus bens. Nisso também pretendiam prejudicar-lhes a alma, fazendo de Cristo um fardo para eles. Que planos maliciosos tem aquela antiga e astuta serpente!

[2.] Reconhecem o poder de Cristo sobre eles: sem sua tolerância e sua permissão, não poderiam prejudicar nem sequer um porco. Isso consola todo o povo do Senhor. Embora o poder do diabo seja muito grande, ainda assim é limitado e não corresponde à sua malícia. O que seria de nós se correspondesse?

Acima de tudo, esse poder está sob o controle de nosso Senhor Jesus, nosso Amigo e Salvador fidelíssimo e poderoso. Satanás e seus instrumentos não podem ir além do que ele tem por bem conceder; é ali que suas ondas orgulhosas serão detidas.

(2.) Receberam permissão. Cristo lhes disse: “Ide” (v. 32), como Deus fez a Satanás quando este pediu permissão para afligir Jó.

Repare: muitas vezes, por fins sábios e santos, Deus tolera as investidas da fúria de Satanás e permite que ele cause o dano que deseja, servindo-se até disso para cumprir seus próprios propósitos.

Os demônios não são apenas cativos de Cristo, mas seus vassalos. Seu domínio sobre eles aparece tanto no prejuízo que causam quanto no impedimento de que façam mais. Desse modo, até sua cólera é levada a louvar Cristo; o restante dela, ele contém e continuará contendo. Cristo concedeu isso:

[1.] Para convencer os saduceus que havia então entre os judeus. Eles negavam a existência dos espíritos e não admitiam que tais seres existissem porque não os podiam ver.

Com esse acontecimento, Cristo quis chegar o mais perto possível de uma demonstração visível da existência, da multidão, do poder e da malícia dos espíritos malignos.

Se nem assim se convencessem, sua incredulidade não teria desculpa. Não vemos o vento, mas seria absurdo negar sua existência quando vemos árvores e casas derrubadas por ele.

[2.] Para castigar os gadarenos, que talvez, embora judeus, se permitissem comer carne de porco, contrariando a lei. De todo modo, criar porcos já beirava o mal. Cristo também queria mostrar de que bando infernal haviam sido libertos: se ele o tivesse permitido, logo os teriam sufocado, como fizeram com seus porcos.

Em obediência à ordem de Cristo, os demônios saíram dos homens. Tendo recebido permissão, assim que saíram, entraram imediatamente na manada de porcos. Veja como Satanás é um inimigo diligente e rápido: não perde tempo quando se trata de causar dano. Observe:

  1. Para onde os levaram depois de se apoderarem deles. Os demônios não receberam ordem de poupar a vida dos porcos; por isso, estes foram impelidos violentamente por um declive íngreme até o mar, onde todos morreram, cerca de dois mil, Marcos 5:13. Repare: a posse que o diabo obtém tem por fim a destruição.

Assim, ele precipita as pessoas no pecado, levando-as a fazer aquilo que decidiram não fazer e que sabem que lhes trará vergonha e dor.

Com que força o espírito maligno age nos filhos da desobediência quando, por tantas concupiscências insensatas e prejudiciais, os leva a agir em contradição direta não apenas com a religião, mas também com a razão correta e com seus interesses neste mundo!

Do mesmo modo, precipita-os na ruína, pois é Apoliom e Abadom, o grande destruidor. Quando os homens cedem às concupiscências que ele incita, afundam-se na destruição e na perdição. Esta é a vontade de Satanás: engolir e devorar.

Miserável, portanto, é a condição dos que ele leva cativos à sua vontade. São precipitados num lago pior que aquele, um lago que arde com fogo e enxofre. Observe:

  1. O efeito disso sobre os donos. Os porqueiros logo lhes levaram a notícia. Pareciam mais preocupados com a perda dos porcos do que com qualquer outra coisa, pois só foram contar o que tinha acontecido aos endemoninhados quando os porcos se perderam, v. 33.

Cristo não entrou na cidade, mas a notícia de sua presença chegou lá. Assim, quis tomar o pulso da reação deles, ver que influência o acontecimento exercia sobre eles e então agir de acordo. Agora:

(1.) A curiosidade os levou a sair para ver Jesus. Toda a cidade saiu ao seu encontro, para poder dizer que tinha visto um homem capaz de obras tão maravilhosas. Assim, muitos se apresentam para encontrar Cristo apenas para acompanhar os outros, sem verdadeiro afeto por ele nem desejo de conhecê-lo.

(2.) A cobiça os fez desejar livrar-se dele. Em vez de convidá-lo a entrar na cidade ou de lhe trazer os doentes para que os curasse, pediram que deixasse sua região. Era como se tivessem tomado emprestadas as palavras dos demônios: “Que temos nós contigo, Jesus, Filho de Deus?”

Com isso, os demônios alcançaram o que pretendiam ao afogar os porcos. Foram eles que o fizeram, mas levaram o povo a crer que Cristo o havia feito, criando assim preconceito contra ele. O diabo seduziu nossos primeiros pais, incutindo neles pensamentos duros a respeito de Deus.

Também afastou os gadarenos de Cristo, sugerindo que ele entrara em sua terra para destruir-lhes os animais e que lhes faria mais mal do que bem. Afinal, embora tivesse curado dois homens, ainda assim afogara dois mil porcos.

Assim, o diabo semeia joio no campo de Deus, faz mal à igreja cristã e depois põe a culpa no cristianismo, incitando as pessoas contra ele.

Pediram a Cristo que partisse, com receio de que, como Moisés no Egito, ele trouxesse outra praga. Repare: muitos preferem seus porcos ao Salvador e, assim, ficam sem Cristo e sem a salvação que vem por meio dele.

Desejam que Cristo se afaste de seus corações e não permitem que sua palavra encontre lugar neles, porque ele e sua palavra destruirão suas concupiscências grosseiras, aqueles porcos que se entregam a alimentar.

Com justiça, Cristo abandonará os que assim se cansam dele e lhes dirá depois: “Apartai-vos, malditos”, pois agora dizem ao Todo-Poderoso: “Afasta-te de nós”.


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