Matthew Henry

Mateus 4

Argumento

João Batista disse a respeito de Cristo: “É necessário que ele cresça, mas que eu diminua”; e assim aconteceu. Depois de batizar Cristo e dar testemunho dele, pouco mais ouvimos sobre o ministério de João. Ele fizera aquilo para que viera e, desde então, fala-se tanto de Jesus quanto antes se falava de João. À medida que o Sol nascente avança, a estrela da manhã desaparece.

A respeito de Jesus Cristo, temos neste capítulo: I. A tentação que enfrentou, o triplo ataque que o tentador lhe fez e a resposta com que repeliu cada ataque, vv. 1-11. II. O trabalho de ensino que empreendeu, os lugares onde pregou (vv. 12-16) e o assunto sobre o qual pregou, v. 17.

III. O chamado de seus discípulos, Pedro e André, Tiago e João, vv. 18-22. IV. A cura de doenças (v. 23, 24) e a grande afluência do povo a ele, tanto para ser ensinado quanto para ser curado.

Versículos 1 a 11

A Tentação de Cristo.

Temos aqui a história de um célebre duelo, travado corpo a corpo entre Miguel e o dragão, a descendência da mulher e a descendência da serpente; ou melhor, a própria serpente. Nele, a descendência da mulher sofre ao ser tentada e tem o calcanhar ferido, mas a serpente é inteiramente frustrada em suas tentações e tem a cabeça esmagada.

Nosso Senhor Jesus sai Vencedor e, assim, assegura a todos os seus seguidores fiéis não só consolo, mas também a vitória final. A respeito da tentação de Cristo, observe:

I. O momento em que aconteceu: “Então”; há ênfase nessa palavra. Logo depois que os céus se abriram para ele, o Espírito desceu sobre ele e foi declarado Filho de Deus e Salvador do mundo, a notícia seguinte que recebemos é que ele foi tentado; pois então estava mais apto a enfrentar a tentação.

Repare: 1. Grandes privilégios e sinais especiais do favor divino não nos protegem da tentação. Ou melhor: 2. Depois de recebermos grandes honras, devemos esperar algo que nos humilhe, como Paulo recebeu um mensageiro de Satanás para esbofeteá-lo depois de ter estado no terceiro céu.

  1. Deus costuma preparar seu povo para a tentação antes de chamá-lo a enfrentá-la. Dá forças conforme o dia e, antes de uma prova severa, concede consolo acima do comum. 4. A certeza de nossa filiação é o melhor preparo para a tentação.

Se o Espírito bom testemunha que fomos adotados, isso nos dará resposta a todas as sugestões do espírito mau, destinadas ou a nos corromper ou a nos inquietar.

Então, quando acabava de participar de uma ordenança solene, quando foi batizado, ele foi tentado. Repare: depois de sermos admitidos à comunhão com Deus, devemos esperar ataques de Satanás. A alma enriquecida precisa redobrar a guarda.

“Quando tiveres comido e estiveres farto, então toma cuidado.” Então, quando começou a se mostrar publicamente a Israel, ele foi tentado como nunca o fora enquanto vivia em particular. Repare: o Diabo tem especial rancor contra pessoas úteis, que não apenas são boas, mas se dedicam a fazer o bem, sobretudo quando começam seu trabalho.

O conselho do filho de Siraque (Eclesiástico 2:1) é: “Meu filho, se vieres servir ao Senhor, prepara-te para a tentação”. Que os jovens ministros saibam o que esperar e se armem de acordo.

II. O lugar em que aconteceu: o deserto, provavelmente o grande deserto do Sinai, onde Moisés e Elias jejuaram quarenta dias. Nenhuma parte do deserto da Judeia estava tão entregue aos animais selvagens como se diz que aquele lugar estava, Marcos 1:13.

Depois de ser batizado, Cristo não foi a Jerusalém divulgar as glórias que lhe haviam sido conferidas; retirou-se para o deserto. Após a comunhão com Deus, é bom ficar algum tempo em recolhimento, para não perder, na multidão e na correria dos negócios do mundo, o que recebemos.

Cristo se retirou para o deserto: 1. Para obter uma vantagem para si. O recolhimento oferece ocasião para meditar e ter comunhão com Deus. Até os chamados à vida mais ativa precisam de horas de contemplação e, primeiro, de tempo a sós com Deus.

Não estão preparados para falar publicamente aos outros das coisas de Deus os que antes não tiveram comunhão com essas coisas em segredo, por si mesmos. Quando Cristo aparecer como Mestre vindo de Deus, não se dirá: “Acaba de voltar de viagem; esteve no exterior e viu o mundo”.

Dir-se-á: “Acaba de sair do deserto; esteve a sós em comunhão com Deus e com o próprio coração”. 2. Para dar vantagem ao tentador, que teria acesso mais fácil a ele do que em meio a outras pessoas.

Repare: embora a solidão seja amiga de um bom coração, ainda assim Satanás sabe aproveitá-la contra nós. Ai daquele que está só. Os que, sob a alegação de santidade e devoção, se retiram para cavernas e desertos descobrem que ali não ficam fora do alcance de seus inimigos espirituais e perdem o benefício da comunhão com os santos.

Cristo se retirou: (1.) Para tornar sua vitória mais ilustre. Deu ao inimigo o sol e o vento a seu favor e, mesmo assim, frustrou-o. Podia dar vantagem ao Diabo, pois o príncipe deste mundo nada tinha nele; em nós, porém, tem. Por isso devemos orar para não sermos levados à tentação e ficar longe do perigo.

(2.) Para ter a oportunidade de fazer o máximo por si mesmo e ser exaltado em sua própria força. Pois assim estava escrito: “Pisei sozinho o lagar, e dos povos ninguém estava comigo”. Cristo entrou na arena sem ajudante.

III. Os preparativos para a tentação, que foram dois:

  1. Ele foi conduzido ao combate. Não se lançou nele por vontade própria, mas foi levado pelo Espírito para ser tentado pelo Diabo. O Espírito que desceu sobre ele como pomba o tornou manso e, ainda assim, corajoso.

Repare: nosso cuidado deve ser não entrar em tentação. Mas, se Deus, por sua providência, nos colocar em circunstâncias de tentação para nos provar, não devemos estranhar; devemos redobrar a guarda. Sejamos fortes no Senhor, resistamos firmes na fé, e tudo acabará bem.

Se confiarmos presunçosamente em nossa própria força e provocarmos o Diabo a nos tentar, provocaremos Deus a nos deixar entregues a nós mesmos. Onde quer que Deus nos conduza, porém, podemos esperar que vá conosco e nos faça sair mais que vencedores.

Cristo foi conduzido para ser tentado pelo Diabo, e somente por ele. Outros são tentados ao ser desviados e atraídos pela própria concupiscência (Tiago 1:14); o Diabo se apodera desse ponto de apoio e ara com essa novilha.

Nosso Senhor Jesus, porém, não tinha natureza corrompida e, por isso, foi conduzido com segurança, sem medo nem tremor, como um campeão que entra em campo para ser tentado exclusivamente pelo Diabo.

A tentação de Cristo é: (1.) Um exemplo de sua condescendência e humilhação. As tentações são dardos inflamados, espinhos na carne, bofetadas, peneiramentos, lutas e combates. Tudo isso indica agruras e sofrimento; por isso Cristo se submeteu a elas, pois quis humilhar-se e tornar-se em tudo semelhante aos irmãos. Assim ofereceu as costas aos que o feriam.

(2.) Uma ocasião para a derrota de Satanás. Não há vitória sem combate. Cristo foi tentado para vencer o tentador. Satanás tentou o primeiro Adão e triunfou sobre ele; mas não triunfará para sempre. O segundo Adão o vencerá e levará cativo o cativeiro.

(3.) Motivo de consolo para todos os santos. Na tentação de Cristo fica evidente que nosso inimigo é astuto, rancoroso e muito ousado em suas tentações; também fica evidente que não é invencível. Embora seja um homem forte e armado, ainda assim o Capitão de nossa salvação é mais forte que ele.

Há consolo em pensar que Cristo sofreu ao ser tentado. Isso mostra que as tentações, se não cedermos a elas, não são pecados, mas apenas aflições, que podem ser suportadas. Temos um Sumo Sacerdote que sabe por experiência o que é ser tentado e, por isso, se compadece com mais ternura de nossas fraquezas na hora da tentação, Hebreus 2:18; 4:15.

É muito maior consolo, porém, pensar que Cristo venceu ao ser tentado e venceu em nosso favor. Não apenas o inimigo com quem lutamos já foi vencido, frustrado e desarmado, mas temos parte na vitória de Cristo sobre ele e, por meio dele, somos mais que vencedores.

  1. Ele foi submetido a uma dieta para o combate, como os lutadores, que são moderados em tudo (1 Coríntios 9:25). Cristo, porém, foi além de todos os outros: jejuou quarenta dias e quarenta noites, seguindo o tipo e o exemplo de Moisés, o grande legislador, e de Elias, o grande reformador do Antigo Testamento.

João Batista veio como Elias no que era moral, mas não no que era milagroso (João 10:41); essa honra foi reservada a Cristo. Ele não precisava jejuar para mortificar desejos, pois não tinha desejos corrompidos a subjugar. Jejuou, contudo: (1.) Para humilhar-se nisso e parecer alguém abandonado, que ninguém procura.

(2.) Para dar a Satanás tanto ocasião como vantagem contra si, tornando ainda mais ilustre sua vitória. (3.) Para santificar e recomendar o jejum a nós quando Deus, por sua providência, nos chamar a ele; quando formos reduzidos à necessidade e privados do alimento diário; ou quando for preciso dominar o corpo ou estimular a oração, excelentes preparos para a tentação.

Se pessoas boas forem abatidas e lhes faltarem amigos e socorro, poderão consolar-se lembrando que seu próprio Mestre passou por uma prova semelhante. Alguém pode não ter pão e, ainda assim, ser favorecido pelo céu e estar sob a direção do Espírito.

A relação que os papistas estabelecem entre seu jejum quaresmal e este jejum de quarenta dias de Cristo é um ato de tolice e superstição contra o qual a lei de nossa terra dá testemunho: Estatuto 5 de Isabel, capítulo 5, seções 39 e 40.

Durante os quarenta dias de jejum, ele não sentiu fome; a comunhão com o céu lhe servia de alimento e bebida. Depois, porém, sentiu fome, para mostrar que era realmente e na verdade Homem. Assumiu nossas fraquezas naturais para poder fazer expiação em nosso favor. O homem caiu por comer, e é dessa maneira que pecamos muitas vezes; por isso Cristo sentiu fome.

IV. As próprias tentações. Em todas elas, Satanás pretendia levá-lo a pecar contra Deus e, assim, torná-lo para sempre incapaz de ser Sacrifício pelos pecados alheios. Quaisquer que fossem as aparências, seu propósito era levá-lo: 1. A desesperar da bondade do Pai. 2. A presumir do poder do Pai. 3. A alienar a honra do Pai, entregando-a a Satanás.

Nas duas primeiras, aquilo a que ele tentava Cristo parecia inocente; nisso estava a astúcia do tentador. Na última, a oferta parecia desejável. As duas primeiras foram tentações engenhosas, que exigiam grande sabedoria para ser discernidas; a última foi forte, exigindo grande firmeza para ser resistida. Em todas, porém, Satanás foi frustrado.

  1. Tentou levá-lo a desesperar da bondade do Pai e a desconfiar do cuidado do Pai para com ele.

(1.) Veja como a tentação foi conduzida (v. 3): o tentador aproximou-se dele. Repare: o Diabo é o tentador e, por isso, é Satanás, um adversário. Nossos piores inimigos são os que nos atraem ao pecado; são agentes de Satanás, fazem sua obra e levam adiante seus desígnios.

Ele é chamado com ênfase de “o tentador” porque o foi para nossos primeiros pais, continua a sê-lo e põe todos os outros tentadores a trabalhar. Aproximou-se de Cristo numa forma visível, não terrível e assustadora, como depois, em sua agonia no jardim.

Não: se alguma vez o Diabo se transformou em anjo de luz, foi então, alegando ser um espírito benéfico, um anjo da guarda.

Observe a astúcia do tentador em ligar essa primeira tentação ao que tinha ocorrido antes, para torná-la mais forte. [1.] Cristo começou a sentir fome, e por isso a proposta de transformar pedras em pão para seu sustento necessário parecia muito apropriada.

Repare: uma das artimanhas de Satanás é tirar partido de nossa condição externa para assentar nela a bateria de suas tentações. É um adversário tão vigilante quanto rancoroso; quanto mais engenhoso for em obter vantagem contra nós, mais diligentes deveremos ser em não lhe dar nenhuma.

Quando Cristo começou a sentir fome, e isso num deserto onde nada havia para comer, o Diabo o atacou. Repare: a necessidade e a pobreza são grandes tentações ao descontentamento, à incredulidade e ao uso de meios ilícitos para obter alívio, sob a alegação de que a necessidade não conhece lei.

Desculpa-se isso dizendo que a fome atravessa até paredes de pedra. Não é, porém, uma desculpa, pois a lei de Deus deveria ser para nós mais forte que paredes de pedra. Agur ora contra a pobreza, não porque ela seja aflição e descrédito, mas porque é tentação: “Para que, empobrecendo, eu não furte”.

Os que se encontram em dificuldades precisam, portanto, redobrar a guarda. É melhor morrer de fome do que viver e prosperar pelo pecado. [2.] Cristo acabava de ser declarado Filho de Deus, e aqui o Diabo o tenta a duvidar disso: “Se és o Filho de Deus”.

Se o Diabo não soubesse que o Filho de Deus viria ao mundo, não teria dito isso. Se não suspeitasse que Cristo era esse Filho, não teria dirigido a pergunta a ele; tampouco ousaria fazê-lo se Cristo não tivesse agora encoberto sua glória e se o Diabo não tivesse assumido uma insolência descarada.

Primeiro: “Agora tens motivo para questionar se és ou não o Filho de Deus. É possível que o Filho de Deus, Herdeiro de todas as coisas, seja reduzido a tamanha necessidade? Se Deus fosse teu Pai, não te deixaria morrer de fome, pois todos os animais da floresta lhe pertencem, Salmos 50:10, 12.”

“É verdade que houve uma voz do céu: ‘Este é meu Filho amado'; mas certamente era uma ilusão, e foste iludido por ela. Ou Deus não é teu Pai, ou é um Pai muito pouco bondoso.” Repare: 1. O grande alvo de Satanás ao tentar as pessoas boas é destruir sua relação com Deus como Pai.

Assim ele pretende cortar a dependência delas em relação a Deus, seu dever para com ele e sua comunhão com ele. O Espírito bom, como Consolador dos irmãos, testemunha que são filhos de Deus. O espírito mau, como acusador dos irmãos, faz tudo para abalar esse testemunho.

  1. Aflições, carências e fardos exteriores são as grandes razões que Satanás usa para fazer o povo de Deus duvidar de sua filiação, como se as aflições fossem incompatíveis com o amor paterno de Deus, quando na verdade procedem dele.

Sabem responder a essa tentação os que podem dizer com o santo Jó: ainda que ele me abata, ainda que me faça morrer de fome, ainda assim confiarei nele e o amarei como Amigo, mesmo quando parecer vir contra mim como Inimigo.

  1. O Diabo procura abalar nossa fé na palavra de Deus e levar-nos a duvidar de sua verdade. Foi assim que começou com nossos primeiros pais: sim, e ainda: Deus disse isso e aquilo? Certamente não disse. Aqui age do mesmo modo: “Deus disse que tu és seu Filho amado? Certamente não disse; ou, se disse, não é verdade”.

Damos lugar ao Diabo quando questionamos a verdade de qualquer palavra que Deus tenha dito, pois sua ocupação, como pai da mentira, é opor-se às declarações verdadeiras de Deus.

  1. O Diabo leva seus desígnios adiante, em grande medida, enchendo as pessoas de pensamentos duros a respeito de Deus, como se ele fosse pouco bondoso ou infiel e tivesse abandonado ou esquecido aqueles que confiaram tudo a ele.

Tentou fazer nossos primeiros pais pensarem que Deus lhes proibira a árvore do conhecimento porque lhes negava invejosamente seu benefício. Assim também insinuou ao Salvador que seu Pai o rejeitara e deixara entregue à própria sorte.

Veja, porém, como essa sugestão era insensata e fácil de responder. Se Cristo parecia ser mero homem por sentir fome agora, por que não o reconheceram como mais que homem, como Filho de Deus, quando jejuou quarenta dias sem sentir fome?

Segundo: “Agora tens oportunidade de mostrar que és o Filho de Deus. Se és o Filho de Deus, prova-o: ordena que estas pedras” (provavelmente havia um monte delas diante de Cristo) “se tornem pão”, v. 3.

“João Batista disse há poucos dias que Deus pode suscitar filhos a Abraão das pedras. Sem dúvida, portanto, o poder divino pode transformar pedras em pão para esses filhos. Se, portanto, tens esse poder, usa-o agora em tempo de necessidade em teu próprio favor.”

Ele não diz: “Ora a teu Pai para que as transforme em pão”, mas: “Ordena que isso aconteça. Teu Pai te abandonou; age por conta própria e não dependas dele”. O Diabo não quer nada que humilhe, mas tudo o que represente presunção. Alcança seu objetivo se ao menos puder afastar as pessoas da dependência de Deus e convencê-las de sua autossuficiência.

(2.) Veja como essa tentação foi resistida e vencida:

[1.] Cristo se recusou a atendê-la. Não ordenou que as pedras se tornassem pão. Não foi por falta de poder; pouco depois, seu poder transformaria pedras em pão. Ele simplesmente não quis. Por que não? À primeira vista, a ação parece bastante justificável. Na verdade, quanto mais plausível a tentação e maior sua aparência de bem, mais perigosa ela é.

O assunto permitiria discussão, mas Cristo logo percebeu a serpente oculta na relva e não quis fazer nada que, primeiro, parecesse questionar a verdade da voz ouvida do céu ou submetesse a nova prova o que já estava estabelecido; segundo, parecesse desconfiar do cuidado do Pai ou limitá-lo a um único modo de provê-lo.

Terceiro, não quis fazer nada que parecesse agir por conta própria, como se fosse seu próprio provedor; nem, quarto, nada que parecesse agradar a Satanás atendendo à sua sugestão.

Alguns diriam: “Para fazer justiça ao Diabo, foi um bom conselho”. Mas, para os que esperam em Deus, consultá-lo é mais do que Satanás merece. Seria como consultar o deus de Ecrom quando há Deus em Israel.

[2.] Cristo estava pronto a responder-lhe (v. 4): respondeu dizendo: “Está escrito”. É notável que ele tenha respondido e frustrado todas as tentações de Satanás com “Está escrito”. Ele mesmo é a Palavra eterna e poderia ter exposto a vontade de Deus sem recorrer aos escritos de Moisés.

Mas honrou a Escritura e, para nos dar exemplo, recorreu ao que estava escrito na lei. Disse isso a Satanás, pressupondo que ele sabia muito bem o que estava escrito. É possível que os filhos do Diabo conheçam muito bem o que está escrito no livro de Deus: os demônios creem e tremem.

Esse é o método que devemos seguir sempre que formos tentados a pecar: resistir à tentação e repeli-la com “Está escrito”. A palavra de Deus é a espada do Espírito, a única arma ofensiva em toda a armadura cristã (Efésios 6:17). Podemos dizer dela o que Davi disse da espada de Golias: “Não há outra semelhante” em nossos conflitos espirituais.

Essa resposta, como todas as outras, vem do livro de Deuteronômio, cujo nome significa segunda lei e no qual há muito pouco de cerimonial. Os sacrifícios e purificações levíticos não podiam afastar Satanás, embora fossem instituídos por Deus; muito menos podem fazê-lo a água benta e o sinal da cruz, que são invenções humanas.

Os preceitos morais e as promessas evangélicas, porém, misturados com a fé, são poderosos por meio de Deus para vencer Satanás. A passagem citada vem de Deuteronômio 8:3. Ali o motivo dado para Deus alimentar os israelitas com maná é ensinar-lhes que “o homem não viverá só de pão”. Cristo aplica isso à sua própria situação.

Israel era filho de Deus, a quem ele chamou do Egito (Oseias 11:1); Cristo também o era (Mateus 2:15). Israel estava então no deserto; Cristo também estava, talvez no mesmo deserto.

Primeiro: o Diabo queria que ele duvidasse de sua filiação por estar em necessidade. “Não”, responde Cristo: Israel era filho de Deus, um filho de quem Deus cuidou com muita ternura e cujos costumes suportou (Atos 13:18); ainda assim, levou-os à necessidade.

Lê-se em seguida (Deuteronômio 8:5): “Como um homem castiga seu filho, assim o Senhor teu Deus te castiga”. Cristo, sendo Filho, aprende desse modo a obediência.

Segundo: o Diabo queria que ele desconfiasse do amor e do cuidado do Pai. “Não”, responde Cristo, “isso seria agir como Israel, que, em sua necessidade, perguntou: ‘Está o Senhor entre nós?' e ‘Pode ele preparar uma mesa no deserto? Pode dar pão?'”

Terceiro: o Diabo queria que ele começasse a procurar alimento imediatamente ao sentir fome. Deus, porém, por fins sábios e santos, permitiu que Israel sentisse fome antes de alimentá-lo, para humilhá-lo e prová-lo. Deus quer que seus filhos, quando estiverem em necessidade, não apenas confiem nele, mas também esperem por ele.

Quarto: o Diabo queria que Cristo providenciasse pão para si. “Não”, responde ele, “que necessidade há disso? Há muito ficou estabelecido, e foi provado sem contestação, que o homem pode viver sem pão, assim como Israel viveu quarenta anos de maná no deserto”.

É verdade que Deus, em sua providência, costuma sustentar as pessoas com o pão tirado da terra (Jó 28:5). Se quiser, porém, pode usar outros meios para mantê-las vivas. Qualquer palavra que saia da boca de Deus, qualquer coisa que ele ordene e designe para esse fim, será sustento tão bom quanto o pão e as manterá igualmente.

Podemos ter pão e, ainda assim, não ser alimentados, se Deus negar sua bênção (Ageu 1:6, 9; Miquéias 6:14). Embora o pão seja o bastão da vida, é a bênção de Deus que é o bastão do pão. Da mesma forma, podemos não ter pão e, ainda assim, ser alimentados de outra maneira.

Deus sustentou Moisés e Elias sem pão, e também o próprio Cristo, havia pouco, durante quarenta dias. Sustentou Israel com o pão do céu, alimento dos anjos; Elias, com pão trazido milagrosamente pelos corvos e, noutra ocasião, com a farinha da viúva multiplicada por milagre.

Portanto, Cristo não precisava transformar pedras em pão: podia confiar que Deus o manteria vivo de outro modo agora que sentia fome, assim como fizera nos quarenta dias anteriores. Repare: assim como, em grande abundância, não devemos pensar que podemos viver sem Deus, também, em nossa maior necessidade, devemos aprender a viver da provisão de Deus.

Quando a figueira não floresce, o campo não produz alimento e todos os meios comuns de socorro e sustento nos faltam, mesmo então devemos nos alegrar no Senhor. Não devemos achar que podemos ordenar aquilo que quisermos, contrariando sua ordem.

Devemos pedir humildemente o que ele julga apropriado nos dar e agradecer pelo pão da porção que ele nos concede, mesmo que a porção seja pequena. Aprendamos aqui com Cristo a depender do sustento de Deus, não do nosso próprio, e a não recorrer a meios irregulares para suprir nossas necessidades, por mais urgentes que sejam (Salmos 37:3).

Jeová-Jiré: de uma forma ou de outra, o Senhor proverá. É melhor viver com pouco, dos frutos da bondade de Deus, do que viver com fartura, dos produtos de nosso próprio pecado.

  1. Ele o tentou a presumir do poder e da proteção do Pai. Veja que adversário incansável e inquieto é o Diabo! Se fracassa num ataque, tenta outro.

Nesse segundo ataque, podemos observar:

(1.) Qual foi a tentação e como foi conduzida. Em termos gerais, ao ver Cristo tão confiante no cuidado do Pai quanto ao alimento, Satanás procura levá-lo a presumir desse cuidado quanto à segurança.

Repare: corremos o risco de errar o caminho tanto à direita como à esquerda. Devemos, portanto, tomar cuidado para que, ao evitar um extremo, não corramos a outro por artimanha de Satanás; para que, ao vencer a prodigalidade, não caiamos na avareza.

Nenhum extremo é mais perigoso que o desespero e a presunção, especialmente nas questões da alma. Alguns que adquiriram a convicção de que Cristo pode e quer salvá-los dos pecados são então tentados a presumir que ele os salvará em seus pecados.

Da mesma forma, quando as pessoas começam a mostrar zelo religioso, Satanás as impele ao fanatismo e ao ardor sem moderação. Nessa tentação, podemos observar:

[1.] Como ele preparou o terreno. Levou Cristo a Jerusalém, não à força, contra sua vontade, mas persuadindo-o a ir e acompanhando-o. Não se sabe se Cristo foi por terra e subiu as escadas até o alto do templo ou se foi pelo ar.

O fato é que foi posto sobre um pináculo, ou uma torre: sobre o santuário, segundo alguns; sobre as ameias, segundo outros; sobre a asa do templo, como diz a palavra. Observe agora, primeiro, quanto Cristo se sujeitou ao permitir ser levado dessa maneira, a fim de deixar Satanás fazer o pior e ainda assim vencê-lo.

A paciência de Cristo aqui, como mais tarde em seus sofrimentos e em sua morte, é mais admirável que o poder de Satanás ou de seus agentes, pois nem ele nem eles poderiam ter poder algum contra Cristo se não lhes fosse dado do alto.

Que consolo saber que Cristo, tendo permitido que esse poder de Satanás fosse exercido contra si, não o permite do mesmo modo contra nós, mas o restringe, pois conhece nossa constituição! Segundo, quanta astúcia o Diabo mostrou ao escolher o lugar de suas tentações.

Pretendia instigar Cristo a ostentar seu próprio poder e a presumir vaidosamente da providência divina. Por isso o colocou num lugar público de Jerusalém, cidade populosa e alegria de toda a terra; no templo, uma das maravilhas do mundo, continuamente contemplado com admiração por alguém.

Ali ele poderia chamar a atenção, ser visto por todos e provar ser o Filho de Deus: não na obscuridade de um deserto, como na tentação anterior, mas diante das multidões, no palco mais destacado da ação.

Observe: 1. Que Jerusalém é aqui chamada cidade santa, pois assim era em nome e profissão, e nela havia uma descendência santa que constituía sua substância. Repare: não existe cidade na terra tão santa que nos isente e proteja do Diabo e de suas tentações.

O primeiro Adão foi tentado no jardim santo; o segundo, na cidade santa. Não deixemos, portanto, a vigilância em lugar algum. Ou melhor: a cidade santa é o lugar onde Satanás, com grande vantagem e sucesso, tenta as pessoas ao orgulho e à presunção.

Bendito seja Deus, porém, porque na Jerusalém do alto, aquela cidade santa, nada impuro entrará. Ali estaremos para sempre livres da tentação.

  1. Que ele colocou Cristo sobre um pináculo do templo, que, segundo a descrição de Josefo (Antiguidades, 15.412), era tão alto que olhar para baixo deixava qualquer pessoa tonta. Repare: os pináculos do templo são lugares de tentação.

Quero dizer: (1.) Os lugares elevados o são; são escorregadios. A ascensão no mundo faz da pessoa um alvo fácil para os dardos inflamados de Satanás. Deus derruba para depois levantar; o Diabo levanta para depois derrubar. Por isso, quem deseja evitar a queda deve tomar cuidado ao subir.

(2.) As posições elevadas na igreja são especialmente perigosas. Os que se destacam por seus dons, ocupam cargos importantes e conquistaram grande reputação precisam permanecer humildes. Satanás certamente os terá como alvo, para inflá-los de orgulho e fazê-los cair na condenação do Diabo. Quem está no alto precisa manter-se firme.

[2.] Como propôs a tentação: “Se és o Filho de Deus, mostra-te agora ao mundo e prova que o és; lança-te daqui abaixo. Então”, primeiro, “serás admirado como alguém sob a proteção especial do céu. Ao verem que uma queda de tamanho precipício não te causa dano, dirão” (como os bárbaros disseram a respeito de Paulo) “que és um deus”.

A tradição diz que Simão Mago tentou provar que era um deus precisamente desse modo, mas sua pretensão foi desmentida: ele caiu e ficou terrivelmente ferido. “Ou melhor”, segundo, “serás recebido como alguém que vem com missão especial do céu.”

“Toda Jerusalém verá e reconhecerá não só que és mais que um homem, mas também que és o Mensageiro, o Anjo da aliança que viria de repente ao templo (Malaquias 3:1) e dali desceria às ruas da cidade santa. Assim, a obra de convencer os judeus será abreviada e logo estará concluída.”

Observe: o Diabo disse: “Lança-te daqui abaixo”. Ele próprio não podia lançar Cristo, embora bastasse pouco para fazê-lo do alto da torre. Repare: o poder de Satanás é limitado; até aqui chegará, e não passará daqui.

Mesmo que o Diabo o tivesse lançado abaixo, não teria alcançado seu objetivo: a queda seria sofrimento de Cristo, não pecado seu. Repare: todo dano real que nos é feito resulta de nossa própria ação. O Diabo só pode persuadir, não obrigar; só pode dizer “Lança-te abaixo”, não pode nos lançar.

Cada pessoa é tentada quando atraída pela própria concupiscência: não é forçada, mas seduzida. Portanto, não nos prejudiquemos; então, bendito seja Deus, ninguém mais poderá nos prejudicar, Provérbios 9:12.

[3.] Como apoiou a proposta com uma passagem da Escritura: “Porque está escrito: Ele dará ordens a seus anjos a teu respeito”. Mas Saul também está entre os profetas? Satanás conhece tão bem a Escritura que pode citá-la com tamanha prontidão? Ao que parece, sim.

Repare: alguém pode ter a cabeça cheia de ideias da Escritura e a boca cheia de suas expressões, enquanto o coração está cheio de inimizade dominante contra Deus e contra tudo o que é bom. O conhecimento que os demônios têm da Escritura aumenta tanto o dano que causam como seu tormento.

O Diabo jamais falou com mais angústia para si mesmo do que quando disse a Cristo: “Sei quem tu és”. Ele queria persuadir Cristo a atirar-se abaixo, esperando que se tornasse seu próprio assassino e que assim acabassem ele e sua missão, que Satanás observava com ciúmes.

Para animá-lo, disse-lhe que não havia perigo, pois os anjos bons o protegeriam, conforme a promessa (Salmos 91:11): “Ele dará ordens a seus anjos a teu respeito”. Nessa citação:

Primeiro, havia algo correto. É verdade que existe essa promessa do ministério dos anjos para proteger os santos. O Diabo sabe disso por experiência: vê suas tentativas contra eles fracassarem e se irrita e enfurece, como aconteceu diante da cerca que protegia Jó, da qual falou com tanta clareza, Jó 1:10.

Também tinha razão ao aplicar a promessa a Cristo, pois todas as promessas de proteção aos santos pertencem, em primeiro lugar e de modo eminente, a ele; aos santos, pertencem nele e por meio dele.

A promessa de que nenhum osso deles será quebrado (Salmos 34:20) cumpriu-se em Cristo, João 19:36. Os anjos guardam os santos por amor a Cristo, Apocalipse 7:5, 11.

Segundo, havia muito erro. Talvez o Diabo tivesse rancor especial dessa promessa e a pervertesse porque ela muitas vezes atrapalhava seus planos e frustrava seus desígnios de causar dano aos santos. Veja aqui: 1. Como a citou incorretamente, o que já era ruim.

A promessa diz: “Eles te guardarão”. Mas como? “Em todos os teus caminhos”; não fora deles. Se sairmos de nosso caminho, do caminho do dever, perderemos o direito à promessa e nos colocaremos fora da proteção de Deus. Essas palavras contrariavam o tentador, e por isso ele as omitiu deliberadamente.

Se Cristo tivesse se lançado abaixo, teria saído de seu caminho, pois não recebera ordem para expor-se assim. É bom consultarmos as próprias Escrituras em todas as ocasiões, sem aceitar afirmações de segunda mão, para não sermos iludidos por quem mutila e dilacera a palavra de Deus.

Devemos agir como os nobres bereanos, que examinavam as Escrituras diariamente. 2. Como aplicou a promessa incorretamente, o que era pior. A Escritura é maltratada quando usada para apoiar o pecado. Quando as pessoas a distorcem desse modo para sua própria tentação, fazem-no para sua própria destruição, 2 Pedro 3:16.

A promessa é firme e continua válida; o Diabo, porém, fez mau uso dela ao empregá-la como ânimo para presumir do cuidado divino. Repare: não é novidade transformar a graça de Deus em devassidão nem usar a revelação de sua boa vontade para com pecadores como ânimo para pecar.

Mas continuaremos no pecado para que a graça aumente? Vamos nos lançar abaixo para que os anjos nos sustentem? De modo nenhum.

(2.) Como Cristo venceu essa tentação: resistiu a ela e a venceu, como à primeira, com “Está escrito”. O abuso que o Diabo fez da Escritura não impediu Cristo de usá-la. Logo ele citou Deuteronômio 6:16: “Não tentarás o Senhor teu Deus”.

O sentido não é “Portanto, não deves tentar-me”, mas “Portanto, não devo tentar meu Pai”. No lugar de onde foi tirada, a ordem está no plural, “Não tentareis”; aqui, no singular, “Não tentarás”.

Repare: tendemos a aproveitar a palavra de Deus quando ouvimos e recebemos as promessas gerais como dirigidas a cada um de nós em particular. Satanás disse “Está escrito”; Cristo disse “Está escrito”. Isso não significa que uma passagem contradiga a outra.

Deus é um só, sua palavra é uma só e sua vontade é uma só. Mas aquela é uma promessa, esta é um preceito; por isso a promessa deve ser explicada e aplicada pelo preceito. A Escritura é sua melhor intérprete.

Os que profetizam e expõem a Escritura devem fazê-lo segundo a proporção da fé (Romanos 12:6), em harmonia com a piedade prática.

Se Cristo se lançasse abaixo, tentaria Deus: [1.] Por exigir confirmação ulterior daquilo que já estava tão bem confirmado. Cristo estava plenamente convencido de que Deus era seu Pai, cuidava dele e dera aos anjos ordens a seu respeito.

Submeter isso a uma nova experiência seria tentar a Deus, como fizeram os fariseus com Cristo: depois de tantos sinais na terra, exigiram um sinal do céu. Isso é limitar o Santo de Israel.

[2.] Por exigir proteção especial ao fazer algo para o qual não recebera ordem. Deus prometeu não nos abandonar; mas, se por isso esperamos que nos acompanhe ao sair do caminho do dever, estamos presumindo dele.

Prometeu suprir nossas necessidades; mas, se por isso esperamos que satisfaça nossos caprichos e fantasias, estamos presumindo dele. Prometeu guardar-nos; mas, se por isso nos lançamos deliberadamente ao perigo e esperamos alcançar o fim desejado sem usar os meios designados, isso é presunção, é tentar Deus.

Agrava o pecado o fato de ele ser o Senhor nosso Deus. É abusar do privilégio que temos ao tê-lo por Deus. Por isso ele nos animou a confiar nele; somos, porém, muito ingratos se o tentamos por causa disso. Agir assim contraria nosso dever para com ele como nosso Deus: é afrontar aquele a quem deveríamos honrar.

Repare: nunca devemos prometer a nós mesmos mais do que Deus nos prometeu.

  1. Ele o tentou à idolatria mais sombria e horrível, oferecendo-lhe os reinos do mundo e sua glória. Aqui podemos observar:

(1.) Como o Diabo desferiu esse golpe contra nosso Salvador, v. 8, 9. A pior tentação foi reservada para o fim. Repare: às vezes o último encontro do santo é com os filhos de Anaque, e o golpe de despedida é o mais doloroso.

Por isso, qualquer que tenha sido a tentação que nos atacou, devemos continuar preparados para uma pior; precisamos estar armados contra todos os ataques, com a armadura da justiça à direita e à esquerda. Nessa tentação, podemos observar:

[1.] O que ele mostrou a Cristo: todos os reinos do mundo. Para fazê-lo, levou-o a uma montanha muito alta. Na esperança de vencer, mudou de posição, como Balaque fez com Balaão. O pináculo do templo não era alto o bastante; o príncipe do poder do ar quis levá-lo mais acima, para dentro de seus domínios.

Alguns julgam que essa montanha ficava do outro lado do Jordão, porque é lá que encontramos Cristo logo após a tentação, João 1:28, 29. Talvez fosse o monte Pisga, de onde Moisés, em comunhão com Deus, viu todos os reinos de Canaã.

O bendito Jesus foi levado para lá a fim de ter uma vista ampla, como se o Diabo pudesse mostrar mais do mundo àquele que o criou e governa do que ele já conhecia. Dali ele poderia avistar alguns dos reinos em torno da Judeia, embora não sua glória.

Sem dúvida, porém, havia nisso um truque e uma ilusão de Satanás. É provável que aquilo que lhe mostrou fosse apenas uma paisagem, uma representação aérea numa nuvem, como o grande enganador poderia facilmente formar e compor.

Nela teria apresentado, com cores apropriadas e vivas, as glórias e a aparência esplêndida dos príncipes: suas vestes e coroas, séquitos, comitivas e guardas; a pompa dos tronos, cortes e palácios imponentes; os edifícios suntuosos das cidades; os jardins e campos em torno das residências campestres.

Mostrou ainda os variados sinais de riqueza, prazer e alegria, da maneira mais apta a impressionar a imaginação e despertar admiração e afeição. Essa era a exibição. Levá-lo ao alto da montanha serviu apenas para dar forma à cena e disfarçar a ilusão.

O bendito Jesus, contudo, não se deixou iludir: enxergou o embuste. Apenas tolerou que Satanás agisse a seu modo, para que sua vitória fosse ainda mais ilustre. Daí observemos, quanto às tentações de Satanás:

Primeiro, elas entram muitas vezes pelos olhos, cegos para o que deveriam ver e ofuscados pelas vaidades das quais deveriam afastar-se. O primeiro pecado começou pelos olhos, Gênesis 3:6. Precisamos, portanto, fazer uma aliança com nossos olhos e orar para que Deus os desvie da contemplação da vaidade.

Segundo, as tentações geralmente surgem do mundo e das coisas que nele há. A concupiscência da carne, a dos olhos e a soberba da vida são os temas de que o Diabo tira a maior parte de suas razões.

Terceiro, o Diabo impõe um grande embuste às pobres almas por meio de suas tentações. Ele engana e, assim, destrói. Ilude as pessoas com sombras e cores vivas. Mostra o mundo e sua glória, mas esconde dos olhos delas o pecado, a tristeza e a morte que mancham todo esse esplendor.

Esconde os cuidados e as calamidades que acompanham as grandes posses e os espinhos com que as próprias coroas são forradas. Quarto, a glória do mundo é a tentação mais encantadora para os irrefletidos e desprevenidos, e aquela pela qual as pessoas mais se deixam iludir. Os filhos de Labão invejam toda esta glória de Jacó; a soberba da vida é a armadilha mais perigosa.

(2.) O que lhe disse (v. 9): “Todas estas coisas te darei, se te prostrares e me adorares”. Veja:

Primeiro, como era vã a promessa: “Todas estas coisas te darei”. Ele parece dar por certo que, nas tentações anteriores, já alcançara em parte seu objetivo e provara que Cristo não era o Filho de Deus, pois Cristo não lhe fornecera as provas exigidas. Assim, agora o considera um simples homem.

“Vamos”, diz ele, “parece que Deus, de quem julgas ser filho, te abandona e te faz morrer de fome; é sinal de que não é teu Pai. Mas, se te deixares guiar por mim, cuidarei de ti melhor do que ele. Reconhece-me como teu pai, pede minha bênção, e te darei tudo isto”.

Repare: Satanás transforma as pessoas em presas fáceis quando consegue convencê-las de que Deus as abandonou. O engano dessa promessa está em “Tudo isto te darei”. Mas o que era tudo aquilo? Apenas um mapa, um retrato, um mero fantasma, sem nada de real ou sólido; isso ele daria a Cristo. Que bela recompensa!

Assim são as ofertas de Satanás. Repare: multidões perdem de vista o que existe por fixarem os olhos no que não existe. Todas as iscas do Diabo são falsificações, aparências e sombras com que ele engana as pessoas; ou, melhor dizendo, com que elas se enganam.

As nações da terra já haviam sido prometidas ao Messias havia muito tempo. Se ele é o Filho de Deus, pertencem-lhe. Satanás alega agora ser um anjo bom, talvez um dos designados para governar os reinos, e ter recebido a missão de entregá-los a Cristo conforme a promessa.

Repare: devemos tomar cuidado para não receber da mão do Diabo nem mesmo o que Deus prometeu. Fazemos isso quando tentamos apressar o cumprimento da promessa, procurando alcançá-la por meios pecaminosos.

Segundo, como era vil a condição: “Se te prostrares e me adorares”. Toda a adoração que os pagãos prestavam a seus deuses se dirigia ao Diabo (Deuteronômio 32:17); por isso ele é chamado deus deste mundo, 2 Coríntios 4:4; 1 Coríntios 10:20.

Ele muito desejava atrair Cristo para seus interesses e persuadi-lo, agora que começava a atuar como Mestre, a pregar a idolatria gentílica e reintroduzi-la entre os judeus. Então as nações da terra logo se reuniriam em torno dele. Que tentação poderia ser mais repugnante, mais sombria?

Repare: até os melhores santos podem ser tentados aos piores pecados, sobretudo quando dominados pela melancolia: ateísmo, blasfêmia, homicídio, suicídio e tudo o mais. Isso é aflição para eles; mas, enquanto não anuírem a tais pensamentos nem os aprovarem, não é pecado seu. Cristo foi tentado a adorar Satanás.

(2.) Veja como Cristo aparou o golpe, frustrou o ataque e saiu vencedor. Rejeitou a proposta:

[1.] Com horror e repulsa: “Vai-te daqui, Satanás”. As duas primeiras tentações tinham alguma aparência plausível, que permitia considerá-las; esta, porém, era tão grosseira que não admitia conversa. Sua abominação se mostra à primeira vista, e por isso é rejeitada imediatamente.

Se o melhor amigo que temos no mundo nos sugerir algo assim, “Vai, serve outros deuses”, não devemos ouvi-lo com paciência, Deuteronômio 13:6, 8. Algumas tentações trazem a perversidade escrita na testa; são evidentes desde o começo. Não devemos discutir com elas, mas rejeitá-las: “Vai-te daqui, Satanás. Afasta isso de mim; não suporto nem pensar nisso!”

Quando Satanás tentou Cristo a causar dano a si mesmo, lançando-se abaixo, embora Cristo não cedesse, ainda assim o ouviu. Agora que a tentação afronta a Deus diretamente, não pode tolerá-la: “Vai-te daqui, Satanás”.

Repare: é justa a indignação que surge diante de qualquer proposta que prejudique a honra de Deus e atente contra sua coroa. Ou melhor: devemos abominar tudo aquilo que é abominável e que sabemos que o Senhor odeia; longe de nós participar disso. Repare: convém ser firme ao resistir à tentação e tapar os ouvidos aos encantos de Satanás.

[2.] Com uma razão tirada da Escritura. Repare: para fortalecer nossa resolução contra o pecado, é bom perceber quanta razão a sustenta. A razão é muito adequada e precisa, tirada de Deuteronômio 6:13; 10:20: “Adorarás o Senhor teu Deus, e só a ele servirás”.

Cristo não discute se Satanás era ou não um anjo de luz, como alegava ser. Mesmo que fosse, ainda assim não deveria ser adorado, porque essa honra pertence somente a Deus. Repare: convém responder às tentações da maneira mais completa e breve possível, sem deixar espaço para objeções.

Nosso Salvador recorre à lei fundamental desse assunto, da qual ninguém está isento e que obriga a todos. Repare: a adoração religiosa pertence somente a Deus e não deve ser dada a criatura alguma.

É uma flor da coroa que não pode ser transferida, uma parte da glória de Deus que ele não dará a outro. Deus não teria dado essa glória nem a seu próprio Filho, obrigando todos a honrá-lo como honram o Pai, se o Filho não fosse Deus, igual a ele e um com ele.

Cristo cita essa lei sobre a adoração religiosa e a aplica a si mesmo: primeiro, para mostrar que, em seu estado de humilhação, ele próprio estava sujeito à lei. Embora, como Deus, recebesse adoração, ainda assim, como Homem, adorava a Deus, tanto em público como em particular.

Não nos impõe nada a que primeiro não tenha consentido em se sujeitar. Assim convinha que cumprisse toda a justiça. Segundo, para mostrar que a lei da adoração religiosa obriga para sempre. Embora tenha revogado e alterado muitas instituições de culto, ainda assim veio ratificar, confirmar e reforçar para nós esta lei fundamental da natureza: só Deus deve ser adorado.

V. Temos aqui o fim e o desfecho desse combate, v. 11. Embora os filhos de Deus possam passar por muitas e grandes tentações, ainda assim Deus não permitirá que sejam tentados além das forças que ou já têm ou ele lhes dará, 1 Coríntios 10:13. A tristeza causada por diversas tentações dura apenas por algum tempo.

O desfecho foi glorioso e muito honroso para Cristo, pois:

  1. O Diabo foi frustrado e abandonou o campo: “Então o Diabo o deixou”, obrigado a fazê-lo pelo poder que acompanhava a ordem “Vai-te daqui, Satanás”. Bateu em retirada de maneira vergonhosa e sem glória, saindo desonrado. Quanto mais ousados foram seus ataques, mais humilhante foi a derrota.

Magnis tamen excidit ausis — A tentativa em que fracassou, contudo, foi ousada. Então, depois de fazer o pior que podia, de tentar Cristo com todos os reinos do mundo e sua glória e ver que essa isca não o influenciava, deixou-o.

Não conseguira vencê-lo com a tentação pela qual derrubara tantos milhares de filhos dos homens. Por isso desistiu dele, reconhecendo-o como mais que homem. Já que nem isso o abalou, perdeu a esperança de abalá-lo e começou a concluir que era o Filho de Deus e que seria inútil continuar tentando-o.

Repare: se resistirmos ao Diabo, ele fugirá de nós; cederá se mantivermos nossa posição. Foi como quando Noemi viu a firme decisão de Rute e deixou de falar-lhe. Ao deixar nosso Salvador, o Diabo admitiu que havia sido derrotado. Sua cabeça foi esmagada pela própria tentativa de ferir o calcanhar de Cristo.

Abandonou-o porque nada tinha nele, nada a que pudesse se agarrar. Viu que era inútil e desistiu. Repare: embora o Diabo seja inimigo de todos os santos, é um inimigo vencido. O Capitão de nossa salvação o derrotou e desarmou; só precisamos dar prosseguimento à vitória.

  1. Os santos anjos vieram e serviram nosso Redentor vitorioso: “Eis que vieram anjos e o serviram”. Apareceram visivelmente, como o Diabo havia aparecido durante a tentação.

Enquanto o Diabo atacava nosso Salvador, os anjos permaneceram à distância, e sua assistência e seu serviço diretos ficaram suspensos. Ficou, assim, evidente que Cristo venceu Satanás por sua própria força, o que tornou sua vitória ainda mais ilustre.

Mais tarde, quando Miguel usasse seus anjos na luta contra o dragão e seus anjos, ficaria claro que não era por precisar deles ou por não poder agir sem eles, mas porque quis honrá-los empregando-os. Um único anjo poderia trazer-lhe alimento, mas muitos vieram servi-lo, mostrando respeito e prontidão para cumprir suas ordens.

Repare nisso! Merece atenção: (1.) Que, assim como existe um mundo de espíritos maus e maliciosos que lutam contra Cristo, sua igreja e cada crente, também existe um mundo de espíritos santos e benditos empenhados e empregados em favor deles. Em nossa guerra contra os demônios, podemos achar muito consolo na comunhão com os anjos.

(2.) Que as vitórias de Cristo são triunfos dos anjos. Eles vieram congratular-se com Cristo pelo sucesso, alegrar-se com ele e dar-lhe a glória devida a seu nome. Foi isso que se cantou em alta voz no céu quando o grande dragão foi expulso (Apocalipse 12:9, 10): “Agora chegaram a salvação e a força”.

(3.) Que os anjos serviram ao Senhor Jesus não só alimento, mas tudo o mais de que precisava depois de tamanha exaustão. Veja como os exemplos da condescendência e da humilhação de Cristo foram equilibrados pelos sinais de sua glória.

Assim como, quando foi crucificado em fraqueza, viveu pelo poder de Deus, também, quando foi tentado em fraqueza, com fome e cansado, ordenou pelo poder divino que os anjos o servissem. Desse modo, o Filho do Homem comeu alimento dos anjos e, como Elias, foi alimentado por um anjo no deserto, 1 Reis 19:4, 7.

Repare: embora Deus permita que seu povo passe por carências e dificuldades, ainda assim cuidará eficazmente de seu sustento. Antes enviará anjos para alimentá-lo do que o deixará perecer. “Confia no Senhor, e certamente serás alimentado”, Salmos 37:3.

Cristo recebeu esse socorro depois da tentação: [1.] Para ser animado a prosseguir em sua missão, vendo os poderes do céu a seu lado depois de ver os poderes do inferno contra si.

[2.] Para nos animar a confiar nele. Assim como sabia por experiência o que era sofrer ao ser tentado e como isso era difícil, também sabia o que era receber socorro ao ser tentado e como isso era consolador.

Podemos, portanto, esperar não só que se compadeça de seu povo tentado, mas também que lhe traga auxílio no momento oportuno. Ele é como nosso grande Melquisedeque, que encontrou Abraão quando este voltou da batalha; e assim os anjos aqui serviram a Cristo.

Versículos 12 a 16

O Início do Ministério de Cristo.

Temos aqui um relato da pregação de Cristo nas sinagogas da Galileia, pois ele veio ao mundo para ser Pregador. A grande salvação que realizou, ele mesmo começou a anunciar (Hebreus 2:3), para mostrar quanto seu coração estava voltado para ela e quanto o nosso deveria estar.

Supõe-se que diversas passagens dos outros evangelhos, especialmente do de São João, se situem, na sequência da vida de Cristo, entre sua tentação e sua pregação na Galileia. Sua primeira aparição depois da tentação ocorreu quando João Batista apontou para ele e disse: “Eis o Cordeiro de Deus”, João 1:29.

Depois disso, subiu a Jerusalém para a Páscoa (João 2), conversou com Nicodemos (João 3) e com a mulher samaritana (João 4), e então voltou à Galileia, onde pregou. Mateus, porém, por ter morado na Galileia, começa o relato do ministério público de Cristo com a pregação dele ali, da qual temos aqui uma descrição. Observe:

I. O momento: quando Jesus soube que João havia sido preso, foi para a Galileia, v. 12. Repare: o clamor dos sofrimentos dos santos chega aos ouvidos do Senhor Jesus. Se João é preso, Jesus o ouve, toma conhecimento disso e ajusta seu caminho de acordo. Ele se lembra das amarras e aflições que aguardam o seu povo. Observe:

  1. Cristo não foi para aquela região até saber da prisão de João, pois era preciso dar a João tempo para preparar o caminho do Senhor antes que o próprio Senhor aparecesse. A Providência sabiamente dispôs que João fosse eclipsado antes que Cristo brilhasse; de outro modo, a mente das pessoas teria ficado dividida entre os dois.

Um diria “Sou de João”, e outro, “Sou de Jesus”. João devia ser o precursor de Cristo, não seu rival.

A lua e as estrelas desaparecem quando o sol nasce. João havia realizado sua obra pelo batismo de arrependimento e então foi posto de lado. As testemunhas foram abatidas quando terminaram seu testemunho, não antes, Apocalipse 11:7.

  1. Ele foi para aquela região assim que soube da prisão de João, não só para cuidar da própria segurança, sabendo que os fariseus na Judeia eram tão inimigos seus quanto Herodes era de João, mas também para suprir a falta de João Batista e edificar sobre o bom fundamento que ele havia lançado.

Repare: Deus não ficará sem testemunha nem deixará sua igreja sem guias. Quando retira um instrumento útil, pode levantar outro, pois ainda tem o restante do Espírito e o fará se houver obra a realizar. “Moisés, meu servo, morreu”; João foi preso. Agora, portanto, Josué, levante-se; Jesus, levante-se.

II. O lugar onde pregou: a Galileia, região afastada do país, a mais distante de Jerusalém e por isso vista ali com desprezo, como grosseira e rústica. Os habitantes daquela região eram tidos por homens fortes, próprios para soldados, mas não refinados nem aptos para estudiosos. Cristo foi para lá e ali ergueu o estandarte do seu evangelho. Nisso, como em outras coisas, humilhou-se. Observe:

  1. A cidade específica que escolheu para residir: não Nazaré, onde havia sido criado. Não, ele deixou Nazaré; isso é mencionado expressamente no v. 13. E com bom motivo a deixou, pois os homens daquela cidade o expulsaram do meio deles, Lucas 4:29.

Ele lhes fez a primeira oferta dos seus serviços, e uma oferta muito generosa; mas rejeitaram a ele e sua doutrina e se encheram de indignação contra ambos.

Por isso, deixou Nazaré e sacudiu o pó dos pés como testemunho contra os que ali não queriam que ele os ensinasse. Nazaré foi o primeiro lugar a rejeitar Cristo e, por isso, foi rejeitada por ele. Repare: é justo que Deus retire o evangelho e os meios da graça daqueles que os menosprezam e os afastam. Cristo não permanecerá muito tempo onde não é bem-vindo.

Infeliz Nazaré! Se você houvesse conhecido, neste seu dia, as coisas que pertencem à sua paz, como teria sido bom para você! Mas agora elas estão ocultas aos seus olhos.

Ele, porém, veio morar em Cafarnaum, cidade da Galileia distante muitos quilômetros de Nazaré, grande e bastante frequentada. Diz-se aqui que ficava à beira-mar, não do grande mar, mas do mar de Tiberíades, lago interior também chamado lago de Genesaré. Cafarnaum se situava perto da foz do Jordão nesse mar, na tribo de Naftali, mas junto à fronteira de Zebulom. Cristo veio para lá e ali morou.

Alguns pensam que José, seu pai, tinha uma morada ali; outros, que ele tomou uma casa ou ao menos alojamento; e outros consideram mais que provável que tenha morado na casa de Simão Pedro. De todo modo, não permaneceu ali continuamente, pois andava por toda parte fazendo o bem. Mas Cafarnaum foi por algum tempo seu lugar de referência.

O pouco descanso que teve foi ali; ali tinha um lugar, embora não fosse seu, onde reclinar a cabeça.

E, ao que parece, em Cafarnaum foi bem-vindo e recebeu acolhida melhor do que em Nazaré. Repare: se alguns rejeitam Cristo, ainda assim outros o receberão e lhe darão boas-vindas. Cafarnaum se alegra com aquilo que Nazaré deixou. Se os próprios compatriotas de Cristo não forem reunidos, ainda assim ele será glorioso.

E você, Cafarnaum, tem agora sua oportunidade; foi elevada até o céu. Seja sábia em benefício próprio e reconheça o tempo da sua visitação.

  1. A profecia cumprida é esta, vv. 14-16. É citada de Isaías 9:1, 2, mas com algumas variações.

Naquela passagem, o profeta anuncia que uma escuridão de aflição maior recairia sobre os que desprezavam Emanuel do que recaiu sobre as regiões mencionadas, seja no primeiro cativeiro sob Ben-Hadade, que foi relativamente leve (1 Reis 15:20), seja no segundo, sob o assírio, muito mais pesado, 2 Reis 15:29.

O castigo da nação judaica por rejeitar o evangelho seria mais severo que ambos (veja Isaías 8:21, 22). Pois aquelas regiões submetidas ao cativeiro tiveram algum alívio durante a servidão e viram novamente uma grande luz, Isaías 9:2. Esse é o sentido de Isaías; mas a Escritura tem muitos cumprimentos.

O evangelista toma aqui apenas a última parte, que fala da volta da luz da liberdade e da prosperidade às regiões que haviam estado nas trevas do cativeiro, e a aplica ao surgimento do evangelho entre elas.

Os lugares são mencionados no v. 15. Diz-se com razão que a terra de Zebulom ficava à beira-mar, pois Zebulom era porto de navios e se alegrava em suas saídas, Gênesis 49:13; Deuteronômio 33:18.

De Naftali se havia dito que proferiria palavras belas (Gênesis 49:21) e ficaria satisfeito com favor (Deuteronômio 33:23), pois foi a partir dele que começou o evangelho: palavras de fato belas, que trazem à alma o favor satisfatório de Deus.

Também é mencionada a região além do Jordão, pois às vezes encontramos Cristo pregando ali; e a Galileia dos gentios, a alta Galileia, à qual os gentios vinham para comerciar e onde se mesclavam aos judeus. Isso indica uma bondade reservada aos pobres gentios.

Quando Cristo veio a Cafarnaum, o evangelho chegou a todos esses lugares ao redor: tão amplas eram as influências lançadas pelo Sol da justiça.

Agora, a respeito dos habitantes desses lugares, observe:

(1.) A condição em que estavam antes da chegada do evangelho entre eles (v. 16): estavam em trevas. Repare: os que estão sem Cristo estão no escuro; ou melhor, são as próprias trevas, como as trevas que cobriam a face do abismo. Ou melhor, estavam na região e sombra da morte, expressão que indica não só densas trevas, como o túmulo é uma terra de trevas, mas também grande perigo.

Um homem gravemente doente e sem perspectiva de recuperação está no vale da sombra da morte, embora ainda não tenha morrido. Assim, aquelas pobres pessoas estavam à beira da condenação, embora ainda não condenadas: mortas perante a lei. E, o pior de tudo, estavam sentadas nessa condição.

Sentar-se é assumir uma posição duradoura; onde nos sentamos, pretendemos ficar. Estavam no escuro e provavelmente continuariam assim, sem esperança de achar a saída.

Também é uma posição de conformidade: estavam no escuro e amavam as trevas; preferiam-nas à luz. Escolhiam permanecer na ignorância. Era triste sua condição. Ainda hoje essa é a condição de muitas nações grandes e poderosas, nas quais devemos pensar e pelas quais devemos orar com compaixão. Mas ainda mais triste é a condição dos que se sentam nas trevas em meio à luz do evangelho.

Quem está no escuro porque é noite pode ter certeza de que logo nascerá o sol; mas quem está no escuro porque é cego não terá os olhos abertos tão depressa. Temos a luz, mas de que ela nos servirá se não formos luz no Senhor?

(2.) O privilégio de que desfrutaram quando Cristo e seu evangelho chegaram entre eles: foi um alívio tão grande quanto qualquer alívio que a luz já tenha trazido a um viajante surpreendido pela noite. Repare: quando o evangelho vem, a luz vem; quando chega a um lugar ou a uma alma, faz nascer ali o dia, João 3:19; Lucas 1:78, 79. A luz revela e orienta; assim também o evangelho.

É uma grande luz, o que indica a clareza e a evidência das revelações do evangelho. Não é como a luz de uma vela, mas como a luz do sol quando sai em sua força. É grande em comparação com a luz da lei, cujas sombras agora haviam passado. É grande porque revela coisas grandiosas e de imensa importância; durará muito e se espalhará longe.

É também uma luz crescente, como indica a expressão “nasceu”. Para eles, era apenas o alvorecer; o dia despontava e depois brilharia cada vez mais. O reino do evangelho, como um grão de mostarda ou a luz da manhã, teve começo pequeno, crescimento gradual e perfeição grandiosa.

Observe: a luz nasceu para eles. Não foram procurá-la; as bênçãos dessa bondade os precederam. Veio sobre eles antes que percebessem, no tempo determinado, segundo o dispor daquele que ordena à manhã e faz a aurora conhecer o seu lugar, para que alcance as extremidades da terra, Jó 38:12, 13.

III. O texto sobre o qual pregou (v. 17): “Desde então”, isto é, desde sua chegada à Galileia, à terra de Zebulom e Naftali, começou a pregar. Já havia pregado antes na Judeia e feito e batizado muitos discípulos (João 4:1); mas sua pregação não era tão pública e constante como agora começava a ser.

O trabalho do ministério é tão grande e solene que convém entrar nele por etapas e avanços graduais.

O assunto em que Cristo insistia em sua pregação, e que era de fato o resumo e a essência de toda ela, era exatamente o mesmo que João havia pregado (Mateus 3:2): “Arrependei-vos, porque o reino dos céus está próximo”. Pois, em sua essência, o evangelho é o mesmo sob diferentes dispensações; os mandamentos são os mesmos, e as razões que os reforçam também.

Um anjo do céu não ousa pregar outro evangelho (Gálatas 1:8) e pregará este, pois é o evangelho eterno.

Temam a Deus e, pelo arrependimento, honrem-no, Apocalipse 14:6, 7. Cristo mostrou grande respeito pelo ministério de João ao pregar o mesmo que João havia pregado antes dele. Com isso, mostrou que João era seu mensageiro e embaixador, pois, quando o próprio Cristo trouxe a mensagem, era a mesma que enviara por meio de João. Assim Deus confirmou a palavra do seu mensageiro, Isaías 44:26.

O Filho veio na mesma missão dos servos (Mateus 21:37): buscar frutos, frutos dignos de arrependimento. Cristo estivera no seio do Pai e poderia ter pregado ideias sublimes sobre coisas divinas e celestiais, capazes de alarmar e maravilhar o mundo erudito. Mas escolhe este texto antigo e simples: “Arrependei-vos, porque o reino dos céus está próximo”.

[1.] Foi sobre isso que pregou primeiro; começou por aí. Os ministros não devem ambicionar apresentar opiniões novas, elaborar esquemas novos nem inventar expressões novas. Devem contentar-se com coisas claras e práticas, com a palavra que está perto de nós, em nossa boca e em nosso coração. Não precisamos subir ao céu nem descer ao abismo à procura de assunto ou linguagem para nossa pregação.

Assim como João preparou o caminho de Cristo, Cristo preparou o próprio caminho e abriu espaço, com a doutrina do arrependimento, para as revelações ulteriores que tinha o desígnio de fazer. Se alguém quiser cumprir essa parte da sua vontade, conhecerá mais da sua doutrina, João 7:17.

[2.] Isso é pregado com frequência. Por onde ia, esse era seu assunto. Nem ele nem seus seguidores jamais o consideraram um tema desgastado, como fariam os que têm comichão nos ouvidos e gostam mais de novidades e variedade do que daquilo que na verdade edifica. Repare: o que já foi pregado e ouvido ainda pode ser pregado e ouvido de novo com muito proveito.

Mas, nesse caso, deve ser pregado e ouvido melhor, com novos afetos. O que Paulo havia dito antes, disse de novo, chorando, Filipenses 3:1, 18.

[3.] Pregou isso como evangelho: arrependam-se, revejam seus caminhos e voltem a si. Repare: a doutrina do arrependimento é verdadeira doutrina do evangelho. Não só o austero Batista, tido como homem melancólico e sombrio, mas também o doce e gracioso Jesus, de cujos lábios escorria mel, pregou o arrependimento. Pois é um privilégio indizível que ainda haja oportunidade para o arrependimento.

[4.] O motivo continua o mesmo: “O reino dos céus está próximo”. Não se considerava que o reino tivesse vindo plenamente até o derramamento do Espírito após a ascensão de Cristo. João havia pregado, mais de um ano antes, que o reino dos céus estava próximo; mas agora isso era muito mais forte: a salvação está mais perto, Romanos 13:11.

Devemos ser ainda mais estimulados ao dever à medida que vemos o dia se aproximar, Hebreus 10:25.

Versículos 18 a 22

Cristo Chama Pedro, André, Tiago e João.

Quando Cristo começou a pregar, começou a reunir discípulos que, por ora, seriam ouvintes de sua doutrina e, mais tarde, seus pregadores; que, por ora, seriam testemunhas de seus milagres e, mais tarde, dariam testemunho deles. Nestes versículos, temos o relato dos primeiros discípulos que ele chamou à comunhão consigo.

Esse chamado foi um exemplo, 1. De chamado eficaz a Cristo. Em toda a sua pregação, ele dirigiu um chamado geral a toda aquela região. Aqui, porém, fez um chamado especial e particular àqueles que o Pai lhe havia dado.

Vejamos e admiremos o poder da graça de Cristo, reconheçamos que sua palavra é o cetro do seu poder e esperemos nele pelas influências poderosas, indispensáveis para que o chamado do evangelho seja eficaz: influências que fazem distinção entre as pessoas.

Toda a região foi chamada, mas estes foram chamados para fora dela, resgatados dentre os demais. Cristo se manifestou a eles de um modo como não se manifestou ao mundo.

  1. Foi um exemplo de ordenação e designação para a obra do ministério. Quando Cristo, como Mestre, estabeleceu sua grande escola, uma de suas primeiras obras foi nomear assistentes, ou mestres subordinados, para se ocuparem do ensino. Começou então a dar dons aos homens e a colocar o tesouro em vasos de barro. Foi uma das primeiras demonstrações de seu cuidado pela igreja.

Podemos observar aqui:

I. Onde foram chamados: à beira do mar da Galileia, por onde Jesus andava, pois Cafarnaum ficava perto daquele mar. Sobre esse mar de Tiberíades, os judeus dizem que, de todos os sete mares que Deus criou, não escolheu nenhum senão o de Genesaré. Isso se aplica muito bem à escolha que Cristo fez dele, honrando-o, como tantas vezes fez, com sua presença e seus milagres.

Ali, à margem do mar, Cristo caminhava para meditar, como Isaque no campo; foi para lá a fim de chamar seus discípulos. Não foi à corte de Herodes, pois poucos poderosos ou nobres são chamados, nem a Jerusalém, entre os principais sacerdotes e os anciãos, mas ao mar da Galileia. Certamente Cristo não vê como o homem vê.

Não que o mesmo poder que chamou eficazmente Pedro e André não pudesse ter atuado em Anás e Caifás, pois para Deus nada é impossível. Mas, tanto em suas relações e em sua companhia como nas demais coisas, ele quis humilhar-se e mostrar que Deus escolheu os pobres deste mundo.

A Galileia era uma parte afastada da nação; seus habitantes eram menos cultos e refinados. Até sua língua soava carregada e rude aos ouvidos dos mais exigentes; a maneira de falar os denunciava. Aqueles que foram escolhidos à beira do mar da Galileia não tinham as vantagens nem a formação sequer dos galileus mais instruídos.

Ainda assim, foi para lá que Cristo se dirigiu a fim de chamar os apóstolos que seriam os principais ministros de seu reino, pois ele escolhe as coisas loucas deste mundo para confundir as sábias.

II. Quem eram eles. Nestes versículos, temos o relato do chamado de dois pares de irmãos: Pedro e André, Tiago e João. Os dois primeiros e, provavelmente, também os dois últimos já conheciam Cristo antes (João 1:40, 41), mas só agora foram chamados a acompanhá-lo de perto e continuamente. Repare: Cristo conduz as pobres almas à comunhão consigo por etapas.

Eles haviam sido discípulos de João e, por isso, estavam mais dispostos a seguir Cristo. Repare: os que se submeteram à disciplina do arrependimento serão bem-vindos às alegrias da fé. Podemos observar a respeito deles:

  1. Eram irmãos. Repare: é uma bênção quando aqueles que são parentes segundo a carne, como diz o apóstolo em Romanos 9:3, são reunidos numa aliança espiritual com Jesus Cristo. É honra e consolo para uma casa quando os membros da mesma família pertencem também à família de Deus.

  2. Eram pescadores. Por serem pescadores, (1.) Eram homens pobres. Se tivessem propriedades ou algum capital considerável no comércio, não teriam feito da pesca seu ofício, embora pudessem tê-la como passatempo. Repare: Cristo não despreza os pobres, e nós também não devemos desprezá-los.

O evangelho é anunciado aos pobres, e a Fonte de toda honra por vezes concede honra mais abundante à parte que mais carecia dela.

(2.) Eram homens sem instrução, não educados nos livros nem nas letras como Moisés, versado em todo o conhecimento dos egípcios. Repare: às vezes Cristo escolhe revestir com os dons da graça aqueles que têm menos a exibir quanto aos dons da natureza.

Isso, porém, não justifica que homens ignorantes e sem qualificação se intrometam com ousadia na obra do ministério. Não se devem esperar hoje dons extraordinários de conhecimento e expressão. É preciso adquirir as capacidades necessárias pelos meios comuns; sem uma medida suficiente delas, ninguém deve ser admitido a esse serviço.

(3.) Eram homens ocupados, criados no trabalho. Repare: a diligência numa profissão honesta agrada a Cristo e não impede uma vida santa. Moisés foi chamado enquanto cuidava das ovelhas, e Davi, enquanto seguia as ovelhas mães, para tarefas de destaque. Os ociosos ficam mais expostos às tentações de Satanás do que aos chamados de Deus.

(4.) Eram homens acostumados a dificuldades e perigos. O ofício de pescador, mais que qualquer outro, é trabalhoso e arriscado. Os pescadores muitas vezes ficam molhados e com frio; precisam vigiar, esperar e trabalhar arduamente, e com frequência correm perigos nas águas.

Repare: os que aprenderam a suportar dificuldades e a enfrentar perigos estão mais preparados para a comunhão com Jesus Cristo e para ser seus discípulos. Bons soldados de Cristo precisam suportar as adversidades.

III. O que faziam. Pedro e André usavam as redes naquele momento: estavam pescando. Tiago e João consertavam as redes, o que mostrava sua diligência e boa administração. Não pediram dinheiro ao pai para comprar redes novas, mas se deram ao trabalho de reparar as antigas. É louvável fazer o que temos render e durar tanto quanto possível.

Tiago e João estavam com seu pai, Zebedeu, prontos para ajudá-lo e tornar seu trabalho mais leve. Repare: é sinal feliz e promissor ver filhos que cuidam dos pais e lhes obedecem. Observe: 1. Todos estavam ocupados, todos muito atarefados, e nenhum ocioso. Repare: quando Cristo vier, será bom sermos encontrados trabalhando.

“Estou em Cristo?” é uma pergunta que precisamos muito fazer a nós mesmos; e, logo depois dela: “Estou cumprindo minha vocação?”. 2. Estavam ocupados em tarefas diferentes: dois pescavam, e dois consertavam as redes.

Repare: os ministros devem estar sempre ocupados, seja ensinando, seja estudando. Sempre podem encontrar algo a fazer, a menos que a culpa seja deles mesmos; e consertar as redes, na hora devida, é um trabalho tão necessário quanto pescar.

IV. Qual foi o chamado (v. 19): “Segui-me, e eu vos farei pescadores de homens”. Antes, eles haviam seguido Cristo como discípulos comuns (João 1:37), e dessa maneira podiam segui-lo sem deixar seu ofício. Por isso, foram agora chamados a acompanhá-lo de modo mais próximo e constante e tiveram de abandonar o ofício.

Repare: até os que já foram chamados a seguir Cristo precisam ser chamados a prosseguir e a segui-lo mais de perto, especialmente quando são destinados à obra do ministério. Observe:

  1. Para que Cristo os destinava: “Eu vos farei pescadores de homens”. Isso faz alusão ao ofício que tinham antes. Que não se orgulhassem da nova honra destinada a eles, pois continuavam sendo apenas pescadores; e que não temessem a nova tarefa que lhes era confiada, pois estavam acostumados a pescar e ainda seriam pescadores.

Cristo costumava falar das coisas espirituais e celestiais por meio de comparações e expressões tiradas dos objetos comuns que se apresentavam aos seus olhos. Davi foi chamado de cuidar das ovelhas para pastorear o Israel de Deus; mesmo quando se tornou rei, continuou sendo pastor.

Repare: (1.) Os ministros são pescadores de homens, não para destruí-los, mas para salvá-los, levando-os a outro elemento. Não devem pescar por ira, riqueza, honra ou cargos, para atrair pessoas a si mesmos, mas por almas, para conduzi-las a Cristo. “Velam por vossas almas” (Hebreus 13:17) e não buscam o que é de vocês, mas vocês mesmos, 2 Coríntios 12:14, 16.

(2.) É Jesus Cristo quem os torna pescadores de homens: “Eu vos farei pescadores de homens”. Ele qualifica os homens para essa obra, chama-os a ela, dá-lhes autoridade para exercê-la, encarrega-os de pescar almas e lhes concede sabedoria para conquistá-las. Os ministros assim formados por Jesus Cristo provavelmente terão consolo em seu trabalho.

  1. O que precisavam fazer para isso: “Segui-me”. Deviam dedicar-se a acompanhá-lo com diligência e empenhar-se em imitá-lo com humildade; deviam segui-lo como seu Líder. Repare: (1.) Aqueles a quem Cristo emprega em algum serviço a seu favor primeiro precisam ser preparados e qualificados para ele.

(2.) Os que querem pregar Cristo primeiro precisam aprender Cristo e aprender dele. Como esperar levar outros ao conhecimento de Cristo se nós mesmos não o conhecemos bem? (3.) Os que querem conhecer Cristo precisam acompanhá-lo com diligência e constância.

Os apóstolos foram preparados para sua obra por acompanharem Cristo durante todo o tempo em que ele entrou e saiu no meio deles, Atos 1:21. Não há aprendizado comparável ao que se adquire seguindo Cristo. Josué, ao servir Moisés, foi preparado para sucedê-lo.

(4.) Os que devem pescar homens precisam seguir Cristo nessa tarefa e realizá-la como ele a realizou: com diligência, fidelidade e ternura. Cristo é o grande modelo dos pregadores, que devem trabalhar juntamente com ele.

V. Qual foi o resultado desse chamado. Pedro e André deixaram imediatamente as redes (v. 20); Tiago e João deixaram imediatamente o barco e o pai (v. 22); e todos o seguiram. Repare: os que desejam seguir Cristo corretamente precisam deixar tudo para segui-lo.

Todo cristão precisa desligar seu coração de tudo e estar disposto a abrir mão de tudo. Precisa odiar pai e mãe (Lucas 14:26), isto é, amá-los menos que a Cristo, e estar pronto a renunciar ao vínculo com eles antes de renunciar ao vínculo com Jesus Cristo.

Mas os que se dedicam à obra do ministério precisam, de modo especial, desvencilhar-se dos assuntos desta vida para se entregarem por inteiro à obra que exige a pessoa toda. Agora:

  1. Este exemplo do poder do Senhor Jesus nos dá bom ânimo para depender da suficiência de sua graça. Como sua palavra é forte e eficaz! Ele fala, e a coisa acontece. O mesmo poder que acompanhou sua ordem “Lázaro, vem para fora” acompanha a ordem “Segui-me”: poder para tornar o povo disposto, Salmos 110:3.

  2. Este exemplo da disposição dos discípulos em atender nos dá um bom modelo de obediência à ordem de Cristo. Repare: é característica boa de todos os servos fiéis de Cristo virem quando são chamados e seguirem seu Mestre para onde quer que ele os conduza.

Não alegaram seus afazeres presentes, seus compromissos familiares, as dificuldades do serviço para o qual foram chamados nem sua própria incapacidade. Ao serem chamados, obedeceram e, como Abraão, partiram sem saber para onde iam, mas sabendo muito bem a quem seguiam.

Tiago e João deixaram o pai. Não se diz o que aconteceu com ele; sua mãe, Salomé, acompanhou Cristo constantemente. Sem dúvida, o pai, Zebedeu, era crente, mas o chamado para seguir Cristo recaiu sobre os jovens. A juventude é a época de aprender e de trabalhar. Os sacerdotes ministravam no auge da vida.

Versículos 23 a 25

Cristo Prega na Galileia; Milagres de Cristo na Galileia.

Veja aqui:

I. Que pregador diligente Cristo foi: percorreu toda a Galileia, ensinando nas sinagogas e pregando o evangelho do reino. Observe:

  1. O que Cristo pregava: o evangelho do reino. O reino dos céus, isto é, da graça e da glória, é, enfaticamente, o reino, o reino que agora estava por vir. Esse reino sobreviverá a todos os reinos da terra, assim como os supera.

O evangelho é a carta de direitos desse reino e contém o juramento de coroação do Rei, pelo qual ele graciosamente se comprometeu a perdoar, proteger e salvar os súditos desse reino.

Contém também o juramento de lealdade deles, pelo qual se comprometem a observar os seus estatutos e buscar a sua honra. Esse é o evangelho do reino; o próprio Cristo foi seu Pregador, para que nossa fé nele fosse confirmada.

  1. Onde ele pregava: nas sinagogas. Não apenas ali, mas principalmente ali, porque eram lugares de reunião, onde a sabedoria devia erguer sua voz (Provérbios 1:21). Eram lugares de reunião para o culto religioso e, ali, esperava-se que a mente do povo estivesse preparada para receber o evangelho.

Ali se liam as Escrituras do Antigo Testamento, cuja exposição facilmente introduziria o evangelho do reino.

  1. Quanto esforço dedicava à pregação: percorreu toda a Galileia, ensinando. Poderia ter proclamado uma convocação para que todos viessem a ele; mas, para mostrar sua humildade e a condescendência da sua graça, ele vai até eles. Pois espera para conceder graça e vem buscar e salvar. Josefo diz que havia mais de duzentas cidades e vilas na Galileia, e Cristo visitou todas ou a maioria delas.

Ele andou por toda parte fazendo o bem. Nunca houve pregador itinerante tão incansável como Cristo: foi de cidade em cidade rogar a pobres pecadores que se reconciliassem com Deus. Esse é um exemplo para os ministros: dedicarem-se a fazer o bem e pregarem a palavra com prontidão e constância, a tempo e fora de tempo.

II. Que médico poderoso Cristo foi: percorria a região não só ensinando, mas também curando, e fazia ambas as coisas com a sua palavra, para engrandecê-la acima de todo o seu nome. Enviou a sua palavra e os curou. Observe agora:

  1. Que doenças curou: todas, sem exceção. Curou toda espécie de enfermidade e toda espécie de doença. Há doenças chamadas de descrédito dos médicos, pois resistem a todos os tratamentos que eles podem prescrever. Mas até essas foram a glória deste Médico, pois ele curou todas, por mais antigas que fossem. Sua palavra era a verdadeira panpharmacon, o remédio para tudo.

Três palavras gerais são usadas aqui para indicar isso. Ele curou toda enfermidade, noson, como cegueira, coxeadura, febre e hidropisia; toda doença ou debilidade, malakian, como fluxos e definhamentos; e todos os tormentos, basanous, como gota, pedra, convulsões e males dolorosos semelhantes.

Não importava se a doença era aguda ou crônica, torturante ou debilitante: nenhuma era grave demais nem difícil demais para Cristo curar com uma palavra.

Três doenças específicas são mencionadas: a paralisia, que é a maior fraqueza do corpo; a lunatice, que é o maior mal da mente; e a possessão pelo Diabo, que é a maior miséria e calamidade de ambos. Ainda assim, Cristo curou todas; pois ele é o Médico soberano tanto da alma quanto do corpo e tem domínio sobre todas as doenças.

  1. Que pacientes teve. Um médico de acesso tão fácil, êxito tão certo e cura imediata, sem a dolorosa espera e incerteza, nem remédios dolorosos piores que a doença; um médico que curava gratuitamente e não cobrava honorários não podia deixar de ter muitos pacientes.

Veja como acudiam a ele de todas as partes: grandes multidões vinham não só da Galileia e da região vizinha, mas até de Jerusalém e da Judeia, que ficavam bem longe.

Pois sua fama se espalhou por toda a Síria, não só entre todo o povo judeu, mas também entre as nações vizinhas. A notícia que agora se espalhava a seu respeito por toda parte as prepararia para receber o seu evangelho quando mais tarde lhes fosse levado. O alcance da sua fama é apontado como a razão de multidões tão grandes se dirigirem a ele.

Repare: aquilo que ouvimos de outros a respeito de Cristo deve nos convidar a ir até ele.

A rainha de Sabá foi levada pela fama de Salomão a visitá-lo. A voz da fama diz: “Venha e veja”. Cristo tanto ensinava quanto curava. Os que vinham buscar cura recebiam instrução sobre as coisas que pertenciam à sua paz. É bom que qualquer coisa leve as pessoas a Cristo; e os que vão a ele encontrarão nele mais do que esperavam.

Esses sírios, como Naamã, o sírio, vinham para ser curados de suas doenças, e muitos deles se converteram, 2 Reis 5:15, 17. Buscavam saúde para o corpo e obtinham a salvação da alma; como Saul, que procurava as jumentas e encontrou o reino. Contudo, pelo que ocorreu depois, ficou claro que muitos dos que se alegraram com Cristo como Curador o esqueceram como Mestre.

Agora, a respeito das curas que Cristo realizou, observemos de uma vez por todas o milagre, a misericórdia e o mistério delas.

(1.) O milagre delas. Foram realizadas de uma maneira que mostrava claramente serem produtos diretos de um poder divino e sobrenatural; eram o selo de Deus à sua missão. A natureza não podia fazer essas coisas; era o Deus da natureza quem as fazia. As curas foram numerosas e envolveram doenças que a arte médica não podia curar, pessoas desconhecidas, de todas as idades e condições.

Foram realizadas abertamente, diante de muitas testemunhas, em grupos mistos de pessoas que teriam negado os fatos se tivessem alguma aparência de motivo para fazê-lo. Nenhuma cura falhou nem foi contestada mais tarde. Foram realizadas rapidamente, não aos poucos, como as curas por causas naturais. Foram curas completas, efetuadas por uma palavra.

Tudo isso prova que ele era um Mestre vindo de Deus, pois, de outro modo, ninguém poderia ter feito as obras que ele fez, João 3:2. Ele recorre a essas obras como credenciais, Mateus 11:4, 5; João 5:36. Esperava-se que o Messias fizesse milagres (João 7:31), e milagres dessa natureza (Isaías 35:5, 6).

Temos, assim, essa prova incontestável de que ele é o Messias: jamais houve homem que fizesse tais coisas.

Por isso, sua atividade de curar e a de pregar geralmente andavam juntas, pois a primeira confirmava a segunda. Assim, aqui ele começou a fazer e a ensinar, Atos 1:1.

(2.) A misericórdia delas. Os milagres que Moisés realizou para comprovar sua missão foram, em sua maioria, pragas e juízos, para indicar o terror daquela dispensação, embora viesse de Deus. Os milagres que Cristo realizou, porém, foram, em sua maioria, curas; e todos eles, com exceção da maldição da figueira estéril, foram bênçãos e favores.

Pois a dispensação do evangelho se fundamenta e se edifica no amor, na graça e na doçura; sua condução tende não a nos aterrorizar, mas a nos atrair à obediência. Por meio de suas curas, Cristo pretendia conquistar as pessoas e fazer com que ele e sua doutrina fossem acolhidos em sua mente, atraindo-as assim com laços de amor, Oseias 11:4.

O milagre das curas provava que sua doutrina era uma palavra fiel e convencia o juízo dos homens; a misericórdia delas mostrava que a doutrina era digna de toda aceitação e tocava seus afetos. Ele lhes mostrou, da parte do Pai, não só grandes obras, mas boas obras (João 10:32). Essa bondade destinava-se a levar as pessoas ao arrependimento (Romanos 2:4).

Também mostrava que a bondade, a beneficência e a prática do bem para com todos, até o limite do nosso poder e das nossas oportunidades, são ramos essenciais da santa religião que Cristo veio estabelecer no mundo.

(3.) O mistério delas. Ao curar doenças do corpo, Cristo pretendia mostrar que sua grande missão no mundo era curar os males espirituais. Ele é o Sol da justiça, que nasce trazendo essa cura em suas asas. Como aquele que converte pecadores, ele é o Médico das almas e nos ensinou a chamá-lo assim, Mateus 9:12, 13.

O pecado é a enfermidade, a doença e o tormento da alma; Cristo veio tirar o pecado e, assim, curar esses males.

As histórias das curas que Cristo realizou não só podem ser aplicadas espiritualmente como alusão e ilustração. Creio que, em grande medida, também se destinam a nos revelar coisas espirituais e a pôr diante de nós o modo e o método com que Cristo trata as almas em sua conversão e santificação. Foram registradas as curas mais significativas e instrutivas nesse sentido.

Por isso, devemos explicá-las e aproveitá-las assim, para honra e louvor daquele glorioso Redentor que perdoa todas as nossas iniquidades e, desse modo, cura todas as nossas doenças.


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