Mateus 25
Argumento
Este capítulo prossegue e conclui o discurso de nosso Salvador, iniciado no capítulo anterior, sobre sua segunda vinda e o fim do mundo. Foi seu sermão de despedida para advertir os discípulos, assim como o de João 14:15, 16 foi para consolá-los. Num mundo de tantas tentações e aflições, precisavam de ambos.
A aplicação daquele discurso era: “Vigiai, portanto, e estai vós também preparados”. Dando continuidade a essas advertências solenes que nos despertam, encontramos aqui três parábolas com o mesmo alcance: estimular todos nós a nos prepararmos para a segunda vinda de Cristo com o máximo cuidado e diligência.
Ele a mencionou em todas as suas despedidas da igreja: antes de morrer (João 14:2), ao subir ao céu (Atos 1:11) e no encerramento do cânon das Escrituras (Apocalipse 22:20). Agora, cabe-nos preparar-nos para sua vinda:
I. Para que então estejamos prontos a acompanhá-lo. Isso é mostrado na parábola das dez virgens (vv. 1-13).
II. Para que então estejamos prontos a prestar-lhe contas. Isso é mostrado na parábola dos três servos (vv. 14-30).
III. Para que então estejamos prontos a receber dele nossa sentença final, e para que ela seja de vida eterna. Isso é mostrado numa descrição mais clara do processo do juízo final (vv. 31-46).
São coisas de solene consideração, pois dizem respeito à eternidade de cada um de nós.
Versículos 1 a 11
A Parábola das Dez Virgens.
Aqui:
I. O assunto geral a ser ilustrado é o reino dos céus: o estado das coisas sob o evangelho, o reino exterior de Cristo, sua administração e seu êxito. Algumas parábolas de Cristo haviam mostrado como ele é agora, em sua recepção presente, como em Mateus 13. Esta mostra como será quando o mistério de Deus estiver concluído e o reino for entregue ao Pai.
A administração do governo de Cristo em relação aos preparados e aos despreparados no grande dia pode ser ilustrada por essa comparação. Ou o reino representa os súditos do reino: os que professam o cristianismo serão então comparados a essas dez virgens e assim distinguidos.
II. O que serve de ilustração é uma cerimônia de casamento. Entre os judeus, às vezes se seguia nessa ocasião o costume de o noivo chegar tarde da noite, acompanhado de seus amigos, à casa da noiva.
Ela o esperava acompanhada de suas damas de honra, que, avisadas de sua aproximação, deviam sair com lâmpadas nas mãos para iluminar sua entrada na casa com cerimônia e formalidade, a fim de celebrar as núpcias com grande alegria.
Alguns pensam que nessas ocasiões havia geralmente dez virgens. Os judeus não realizavam reunião na sinagoga, circuncisão, Páscoa ou casamento sem a presença de pelo menos dez pessoas. Boaz, ao se casar com Rute, teve dez testemunhas (Rute 4:2). Nesta parábola:
- O Noivo é nosso Senhor Jesus Cristo. Ele é representado assim em Salmos 45:1 e muitas vezes no Novo Testamento. A figura expressa seu amor singular e incomparável pela igreja, sua noiva, e a aliança fiel e inviolável que mantém com ela.
Os crentes estão agora prometidos a Cristo (Oseias 2:19), mas a celebração solene das bodas está reservada para o grande dia, quando a noiva, a esposa do Cordeiro, tiver se preparado completamente (Apocalipse 19:7, 9).
- As virgens são os que professam a religião, membros da igreja. Aqui, porém, são representadas como companheiras da noiva (Salmos 45:14), assim como em outras passagens são seus filhos (Isaías 54:1) e seus adornos (Isaías 49:18).
Os que seguem o Cordeiro são chamados virgens (Apocalipse 14:4), o que indica sua beleza e pureza. Devem ser apresentados a Cristo como virgens castas (2 Coríntios 11:2). O Noivo é um rei; por isso essas virgens são damas de honra, virgens sem número (Cantares de Salomão 6:8), embora aqui se diga que são dez.
- A função dessas virgens é ir ao encontro do noivo, o que constitui tanto sua felicidade quanto seu dever. Aparecendo ele, vão atendê-lo; enquanto isso, esperam por ele. Veja aqui a natureza do cristianismo. Como cristãos, professamos ser:
(1.) Acompanhantes de Cristo, para honrá-lo como Noivo glorioso e ser para ele motivo de renome e louvor, sobretudo quando vier para ser glorificado em seus santos. Devemos segui-lo como servos de honra acompanham seus senhores (João 12:26). Sustentem o nome e proclamem o louvor de Jesus exaltado; essa é nossa ocupação.
(2.) Pessoas que esperam por Cristo e por sua segunda vinda. Como cristãos, professamos não só crer em sua manifestação e aguardá-la, mas amá-la e ansiar por ela, conduzindo toda a nossa vida com ela em vista. A segunda vinda de Cristo é o centro onde se encontram todas as linhas de nossa religião e para o qual toda a vida divina sempre se volta e se dirige.
- Sua principal preocupação é ter luzes nas mãos ao atender o noivo, para honrá-lo e servi-lo. Repare: os cristãos são filhos da luz. O evangelho é luz; quem o recebe não deve apenas ser iluminado por ele, mas brilhar como luz e fazê-lo resplandecer (Filipenses 2:15, 16). Isso em geral.
Quanto às dez virgens, podemos observar:
(1.) O caráter diferente delas, com sua prova e demonstração.
[1.] Cinco eram prudentes e cinco, insensatas (v. 2). “A prudência supera a insensatez tanto quanto a luz supera as trevas”, conforme diz Salomão, juiz competente (Eclesiastes 2:13). Repare: pessoas que têm a mesma profissão de fé e têm a mesma denominação entre os homens podem, ainda assim, ter caráter imensamente diferente aos olhos de Deus.
Os cristãos sinceros são as virgens prudentes; os hipócritas, as insensatas. Outra parábola os representa como construtores prudentes e insensatos. Repare: são de fato prudentes ou insensatos aqueles que o são nos assuntos da própria alma.
A verdadeira religião é verdadeira prudência; o pecado é insensatez, sobretudo a hipocrisia. Os maiores tolos são os que se julgam prudentes, e os piores pecadores, os que fingem ser justos.
Alguns observam que, ao dar o mesmo número de prudentes e insensatas, Cristo mostra um decoro caridoso, expressão do arcebispo Tillotson. É como se esperasse que os verdadeiros crentes fossem quase tão numerosos quanto os hipócritas ou, ao menos, nos ensinasse a esperar o melhor daqueles que professam a religião e a julgá-los com inclinação para o lado caridoso.
Embora, ao julgar a nós mesmos, devamos lembrar que a porta é estreita e poucos a encontram, ainda assim, ao julgar os outros devemos lembrar que o Capitão da nossa salvação conduz muitos filhos à glória.
[2.] A prova desse caráter estava justamente na tarefa de que deviam cuidar. Por ela são julgadas.
Primeiro, a insensatez das virgens insensatas foi levar as lâmpadas sem levar azeite consigo (v. 3). Tinham apenas o suficiente para mantê-las acesas naquele momento, para ostentar uma aparência, como se pretendessem encontrar o noivo. Não levavam, porém, jarro nem frasco de azeite para reabastecê-las se ele demorasse. Assim são os hipócritas:
- Não têm um princípio interior. Têm nas mãos a lâmpada de uma profissão de fé, mas não no coração a reserva de conhecimento sólido, disposições arraigadas e resoluções firmes necessária para atravessar os serviços e as provações da vida presente.
Agem movidos por estímulos externos, mas carecem de vida espiritual, como o comerciante que abre negócio sem capital ou a semente em terreno pedregoso, sem raiz.
- Não preveem nem se preparam para o que virá. Levaram lâmpadas para uma exibição imediata, mas não azeite para usar depois. Essa falta de reflexão arruína muitos que professam a fé. Toda a sua preocupação é causar boa impressão nos vizinhos com quem convivem agora, não apresentar-se aprovados a Cristo, diante de quem um dia comparecerão.
Agem como se qualquer coisa servisse, desde que sirva no momento. Fale-lhes de coisas ainda não vistas e você lhes parecerá Ló aos seus genros, alguém que está brincando. Não se preparam para o futuro como a formiga nem ajuntam para o tempo por vir (1 Timóteo 6:19).
Segundo, a prudência das virgens prudentes foi levar azeite nos recipientes junto com as lâmpadas (v. 4). Tinham um bom princípio interior que sustentaria e manteria sua profissão de fé.
O coração é o recipiente que prudentemente devemos abastecer, pois de um bom tesouro nele devem sair boas coisas. Se, porém, a raiz for podridão, a flor será pó.
A graça é o azeite que precisamos ter nesse recipiente. No tabernáculo havia uma provisão contínua de azeite para a luz (Êxodo 35:14). Nossa luz deve brilhar diante dos homens por meio de boas obras, mas isso não será possível, ou não por muito tempo, sem um princípio ativo e constante no coração: a fé em Cristo e o amor a Deus e aos nossos irmãos.
Desse princípio devemos partir em tudo o que fazemos na religião, com os olhos no que nos espera. Levar azeite nos recipientes implicava considerar que talvez o noivo demorasse. Repare: ao olhar para o futuro, é bom preparar-se para o pior e armazenar provisões para um longo cerco.
Lembrem-se, porém, de que o azeite que mantém as lâmpadas acesas vem de Jesus Cristo, a grande e boa Oliveira, e chega ao candelabro pelos tubos de ouro das ordenanças. Assim é representado na visão de Zacarias 4:2, 3, 12, explicada em João 1:16: “De sua plenitude todos nós recebemos, e graça por graça”.
(2.) A falha comum a todas durante a demora do noivo: “Todas cochilaram e dormiram” (v. 5). Observe:
[1.] O noivo demorou, isto é, não chegou tão cedo quanto esperavam. Temos tendência a pensar que aquilo que esperamos com certeza está bem próximo. Muitos nos tempos dos apóstolos imaginavam que o dia do Senhor estava às portas, mas não era assim. Para nós, Cristo parece demorar; na verdade, porém, não demora (Habacuque 2:3).
Há bons motivos para a demora do Noivo: muitos conselhos e propósitos intermediários precisam se cumprir; todos os eleitos precisam ser chamados, a paciência de Deus precisa manifestar-se e a dos santos, ser provada; a colheita da terra precisa amadurecer, assim como a do céu. Mas, embora Cristo demore além do nosso tempo, ainda assim não demorará além do tempo devido.
[2.] Durante a demora, as que o esperavam ficaram descuidadas e esqueceram a tarefa: “Todas cochilaram e dormiram”. Como se tivessem desistido de esperá-lo, pois, quando o Filho do Homem vier, não encontrará fé (Lucas 18:8).
Ao imaginar que ele viria logo por terem certeza de que viria, alguns, quando isso não correspondeu à sua expectativa, tendiam a inferir da demora que sua vinda era incerta. As prudentes cochilaram e as insensatas dormiram, como alguns distinguem; de qualquer maneira, ambas erraram. As prudentes mantiveram as lâmpadas acesas, mas não ficaram acordadas.
Repare: muitos bons cristãos, depois de longo tempo professando a fé, tornam-se negligentes na preparação para a segunda vinda de Cristo. Interrompem o cuidado, diminuem o zelo, suas graças deixam de ser vigorosas e suas obras não são consideradas perfeitas diante de Deus. E, embora nem todo o amor se perca, ainda assim abandonam o primeiro amor.
Se foi difícil para os discípulos vigiar com Cristo por uma hora, muito mais difícil será vigiar com ele durante uma era. “Eu durmo”, diz a noiva, “mas meu coração está acordado”. Observe: primeiro cochilaram e depois dormiram. Repare: um grau de descuido e negligência abre caminho a outro.
Quem se permite cochilar dificilmente evitará dormir. Por isso, tema o início da decadência espiritual. Venienti occurrite morbo: atenda aos primeiros sintomas da doença.
Os antigos em geral entendiam o cochilo e o sono das virgens como sua morte: todas morreram, prudentes e insensatas (Salmos 49:10), antes do dia do juízo.
Assim Ferus: Antequam veniat sponsus omnibus obdormiscendum est, hoc est, moriendum, antes que venha o Noivo, todos devem dormir, isto é, morrer. Calvino também pensava assim. Creio, porém, que deve antes ser entendido da forma que acabamos de expor.
(3.) A convocação surpreendente para irem ao encontro do noivo (v. 6): “À meia-noite fez-se um clamor: Eis que vem o noivo”. Repare:
[1.] Embora Cristo demore, enfim virá; ainda que pareça tardar, sua vinda é certa. Na primeira vinda, os que esperavam a consolação de Israel achavam longa a espera; contudo, ele veio na plenitude dos tempos. A segunda vinda também não está esquecida, embora há muito adiada.
Seus inimigos descobrirão, para seu prejuízo, que a tolerância não é absolvição. Seus amigos descobrirão, para seu consolo, que a visão é para um tempo determinado e que, no fim, falará e não mentirá. O ano dos redimidos está marcado e chegará.
[2.] A vinda de Cristo ocorrerá à nossa meia-noite, quando menos o esperamos e mais inclinados estamos a descansar. Ele muitas vezes vem para aliviar e consolar seu povo quando o bem pretendido parece estar à maior distância; e vem acertar contas com seus inimigos quando estes afastam de si o dia mau o máximo possível.
Foi à meia-noite que os primogênitos do Egito foram mortos e Israel, libertado (Êxodo 12:29). A morte muitas vezes chega quando menos se espera: a alma é requerida esta noite (Lucas 12:20). Cristo virá quando quiser, para mostrar sua soberania, e não nos dirá quando, para nos ensinar nosso dever.
[3.] Quando Cristo vier, deveremos sair ao seu encontro. Como cristãos, somos obrigados a acompanhar todos os movimentos do Senhor Jesus e a encontrá-lo em todas as suas saídas. Quando vier a nós na morte, devemos sair do corpo e do mundo para encontrá-lo com afetos e movimentos da alma apropriados às revelações que então esperamos que faça de si mesmo.
“Saí ao seu encontro” é um chamado àqueles que estão habitualmente preparados para que estejam prontos de fato.
[4.] O aviso da aproximação de Cristo e o chamado para encontrá-lo nos despertarão: “Fez-se um clamor”. Sua primeira vinda não atraiu atenção alguma, nem se dizia eis que Cristo está aqui, ou eis que está ali. Ele estava no mundo, e o mundo não o conheceu. Sua segunda vinda, porém, será vista por todo o mundo: “Todo olho o verá”.
Haverá um clamor do céu, pois descerá com um brado: “Levantai-vos, mortos, e vinde a juízo”. E também haverá um clamor da terra, dirigido às rochas e aos montes (Apocalipse 6:16).
(4.) A prontidão com que todas responderam a essa convocação (v. 7): “Todas se levantaram e prepararam suas lâmpadas”. Apararam os pavios, reabasteceram-nas de azeite e trataram com toda a pressa de ficar em condições de receber o noivo.
[1.] No caso das prudentes, isso mostra uma preparação efetiva para sua vinda. Repare: mesmo os mais bem preparados para a morte, quando são imediatamente detidos por ela, ainda têm trabalho a fazer para estar de fato prontos. Assim poderão ser encontrados em paz (2 Pedro 3:14), fazendo (Mateus 24:46) e não nus (2 Coríntios 5:3).
Será um dia de exame e investigação; importa pensar em como seremos encontrados. Ao perceber que o dia se aproxima, devemos tratar com toda a seriedade do trabalho de morrer: renovar nosso arrependimento pelo pecado, nosso consentimento à aliança e nossas despedidas do mundo. Nossa alma deve voltar-se para Deus com súplicas apropriadas.
[2.] No caso das insensatas, isso revela uma confiança vã e uma opinião elevada da bondade do seu estado e de sua prontidão para o outro mundo. Repare: até graças falsificadas servem a alguém para fazer uma demonstração na hora da morte, assim como serviram durante toda a vida. A esperança do hipócrita brilha quando está prestes a se extinguir, como um clarão antes da morte.
(5.) A aflição das virgens insensatas por falta de azeite (v. 8, 9). Isso representa [1.] a percepção que alguns hipócritas têm da miséria de sua condição ainda nesta vida, quando Deus lhes abre os olhos para ver sua insensatez e perceber que perecem tendo uma mentira na mão direita.
Ou, de qualquer modo, [2.] a verdadeira miséria de sua condição depois da morte e no juízo. Sua profissão de fé, bela mas falsa, de nada lhes valerá no grande dia. Veja aonde ela conduz:
Primeiro, suas lâmpadas se apagam. As lâmpadas dos hipócritas muitas vezes se apagam nesta vida: começam no espírito, terminam na carne e sua hipocrisia se manifesta numa apostasia aberta (2 Pedro 2:20).
A profissão de fé murcha e perde o crédito; as esperanças falham, e seu consolo desaparece. Quantas vezes assim se apaga a lâmpada dos perversos? (Jó 21:17). Contudo, muito hipócrita conserva até o fim sua reputação e o consolo, tal como é, de sua profissão de fé. Mas o que é isso quando Deus lhe toma a alma? (Jó 27:8).
Se sua lâmpada não se apagar antes dele, apagar-se-á com ele (Jó 18:5, 6). Ele se deitará em tristeza (Isaías 50:11). Os ganhos de uma profissão de fé hipócrita não acompanharão ninguém até o juízo (Mateus 7:22, 23).
As lâmpadas se apagam quando a esperança do hipócrita se mostra como a teia de aranha (Jó 8:11, etc.) e como a entrega do espírito (Jó 11:20), semelhante à mula de Absalão, que o deixou preso ao carvalho.
Segundo, faltava-lhes azeite para reabastecer as lâmpadas quando se apagavam. Repare: os que se contentam com menos que a verdadeira graça certamente sentirão sua falta mais cedo ou mais tarde. Uma profissão exterior de fé, bem conduzida, pode levar alguém longe, mas não até o fim. Pode iluminar-lhe o caminho neste mundo, mas a umidade do vale da sombra da morte a apagará.
Terceiro, gostariam muito de receber das prudentes parte do azeite de seus recipientes: “Dai-nos do vosso azeite”. Repare: virá o dia em que os hipócritas carnais desejarão ser encontrados na condição dos verdadeiros cristãos. Os que agora detestam o rigor da religião desejarão, na morte e no juízo, seus consolos sólidos.
Os que não se importam em viver a vida dos justos, ainda assim gostariam de morrer sua morte. Virá o dia em que os que hoje olham com desprezo para os santos humildes e contritos desejarão ter alguma ligação com eles. Considerarão seus melhores amigos e benfeitores aqueles a quem agora colocam entre os cães de seu rebanho.
“Dai-nos do vosso azeite”, isto é, “Falai bem de nós”, segundo alguns. No grande dia, porém, não serão necessárias testemunhas abonadoras: o Juiz conhece o verdadeiro caráter de cada um.
Mas não é bom que sejam levadas a dizer: “Dai-nos do vosso azeite”? Sim, porém: 1. Esse pedido lhes foi arrancado pela necessidade que então sentiam. Repare: quem agora não reconhece precisar da graça quando ela deveria santificá-lo e governá-lo reconhecerá essa necessidade depois, quando ela deveria salvá-lo.
(2.) O pedido vem tarde demais. Deus lhes teria dado azeite se tivessem pedido a tempo, mas não se pode comprar quando o mercado já fechou nem oferecer lance quando se apagou o último pedaço de vela.
Quarto, foi-lhes negada uma parte do azeite das companheiras. Ser rejeitadas por pessoas boas era um triste prenúncio da rejeição por Deus. As prudentes responderam: “Não assim”. Essa negativa peremptória não consta do original; foi suprida pelos tradutores. Essas virgens prudentes prefeririam apresentar uma razão sem recusa expressa a fazer, como muitos, uma recusa expressa sem razão.
Estavam dispostas a ajudar suas próximas em aflição, mas não devemos, não podemos, não ousamos fazê-lo, para que não falte para nós e para vocês. A caridade começa em casa. “Ide antes aos que o vendem e comprai-o para vós.” Repare:
- Quem deseja ser salvo precisa ter graça própria. Embora nos beneficiemos da comunhão dos santos, e a fé e as orações de outros possam agora nos ajudar, nossa própria santificação é indispensável para nossa própria salvação. O justo viverá por sua fé.
Cada um prestará contas de si mesmo; portanto, cada um examine sua própria obra, pois naquele dia não poderá fazer outro comparecer em seu lugar.
- Mesmo quem tem mais graça não tem sobra para distribuir. Tudo o que temos mal basta para que nós mesmos compareçamos diante de Deus. Os melhores precisam tomar emprestado de Cristo, mas não têm o que emprestar a nenhum dos seus próximos.
A igreja de Roma sonha com obras de supererogação e com a imputação da justiça dos santos. Esquece, porém, que as virgens prudentes foram sábias justamente por saber que tinham azeite suficiente apenas para si, não para as outras.
Observe, contudo: elas não censuraram as insensatas por sua negligência, não se vangloriaram de sua própria previsão nem as atormentaram com sugestões que as levassem ao desespero. Deram o melhor conselho que a situação permitia: “Ide antes aos que o vendem”.
Repare: os que agem insensatamente nos assuntos da própria alma merecem compaixão, não insultos. Pois quem tornou você diferente? Às vezes os ministros acompanham pessoas que passaram a vida inteira sem pensar em Deus nem na própria alma e agora, no leito de morte, se veem convencidas de seu pecado.
Como nunca é tarde demais para o verdadeiro arrependimento, orientam-nas a se arrepender, voltar-se para Deus e unir-se a Cristo. Mas, como o arrependimento tardio raramente é verdadeiro, fazem com elas o que as prudentes fizeram com as insensatas: procuram tirar o melhor de uma situação ruim.
Só podem dizer o que deve ser feito, caso ainda haja tempo. Se a porta não se fechará antes de o fazerem, porém, é um risco indescritível. O conselho é bom agora, se for seguido a tempo: “Ide aos que vendem e comprai para vós”. Repare: quem quer a graça deve recorrer aos meios da graça e deles participar. Veja Isaías 55:1.
(6.) A chegada do noivo e o resultado da diferença de caráter entre as prudentes e as insensatas. Veja o que aconteceu:
[1.] Enquanto saíram para comprar, o noivo chegou. Repare: para os que adiam a grande tarefa até o último momento, é mil contra um que não tenham tempo de realizá-la então. Obter a graça é um trabalho que exige tempo; não é tarefa que se conclua às pressas.
Quando uma pobre alma, enfim desperta, começa a arrepender-se e orar no leito de enfermidade, em terrível confusão, mal sabe por onde começar ou o que fazer primeiro. Logo chegam a morte e o juízo; a tarefa fica por fazer, e o pobre pecador se perde para sempre. É o resultado de precisar comprar azeite quando já deveríamos queimá-lo, e de precisar obter graça quando já deveríamos usá-la.
O noivo chegou. Repare: no grande dia, nosso Senhor Jesus virá a seu povo como Noivo, com pompa e ricas vestes, acompanhado de seus amigos. Agora jejuamos porque o Noivo nos foi tirado (Mateus 9:15); então haverá um banquete eterno.
O Noivo levará a noiva para sua casa, a fim de que esteja onde ele está (João 17:24), e se alegrará sobre sua noiva (Isaías 62:5).
[2.] As que estavam prontas entraram com ele para as bodas. Repare: primeiro, ser glorificado para sempre é entrar com Cristo nas bodas, estar em sua presença imediata e na mais íntima convivência e comunhão com ele, em estado de descanso, alegria e abundância eternos.
Segundo, aqueles, e somente aqueles, que nesta vida foram preparados para o céu entrarão nele depois, aqueles que foram formados precisamente para isso (2 Coríntios 5:5). Terceiro, se estivermos habitualmente preparados, a chegada repentina da morte e da vinda de Cristo a nós então não impedirá nossa felicidade.
[3.] A porta se fechou, como costuma acontecer quando todos os que devem ser admitidos já chegaram. Foi fechada, primeiro, para proteger os que estavam dentro. Feitos agora colunas na casa de nosso Deus, nunca mais sairão (Apocalipse 3:12).
Adão foi posto no paraíso, mas a porta ficou aberta e ele saiu de novo. Mas, quando os santos glorificados entrarem no paraíso celestial, ficarão fechados lá dentro.
Segundo, a porta foi fechada para excluir os que ficaram de fora. A condição de santos e pecadores será então estabelecida de modo irrevogável; quem for excluído ficará de fora para sempre. Agora a porta é estreita, mas aberta. Então estará fechada e trancada, com um grande abismo estabelecido.
Foi como fechar a porta da arca quando Noé entrou: ele foi preservado, enquanto todos os demais foram definitivamente abandonados.
[4.] As virgens insensatas chegaram tarde demais (v. 11): “Depois vieram também as outras virgens”. Repare: primeiro, muitos procurarão entrar no céu quando já for tarde, como o profano Esaú, que depois desejou herdar a bênção.
Deus e a religião serão glorificados por essas súplicas tardias, embora elas não salvem os pecadores. É para honra de “Senhor, Senhor”, isto é, da oração fervorosa e insistente, que aqueles que agora desprezam o clamor “Senhor, Senhor”, logo recorrerão a ele. Então ninguém a chamará de choradeira nem de fingimento.
Segundo, a confiança vã dos hipócritas os levará muito longe na expectativa de felicidade. Chegarão à porta do céu e exigirão entrada, mas ficarão de fora. Em sua imaginação tola, elevaram-se ao céu por considerarem boa a própria condição; ainda assim, serão lançados no inferno.
[5.] Foram rejeitadas, como Esaú (v. 12): “Não vos conheço”. Repare: todos precisamos buscar o Senhor enquanto pode ser encontrado, pois está vindo um tempo em que não será encontrado.
Houve um tempo em que “Senhor, Senhor, abre-nos” teria recebido boa resposta em virtude da promessa “Batei, e abrir-se-vos-á”. Agora, porém, o pedido vem tarde. A sentença é confirmada solenemente com “Em verdade vos digo”, o que equivale a nada menos que jurar em sua cólera que jamais entrarão em seu descanso. Isso mostra que ele está decidido e as deixa sem resposta.
Por fim, a parábola traz uma conclusão prática (v. 13): “Vigiai, portanto”. Já a encontramos em Mateus 24:42, e aqui é repetida como a advertência mais necessária. Repare: 1. Nosso grande dever é vigiar, cuidando dos assuntos da alma com o máximo de diligência e circunspecção. Acordem e permaneçam despertos.
- A incerteza do momento da vinda de nosso Senhor é um bom motivo para vigiar: não sabemos nem o dia nem a hora. Por isso, devemos estar prontos a cada dia e a cada hora, sem abandonar a vigilância em nenhum dia do ano nem em nenhuma hora do dia. Esteja no temor do Senhor todos os dias e durante o dia inteiro.
Versículos 14 a 30
A Parábola dos Talentos.
Temos aqui a parábola dos talentos confiados a três servos. Ela mostra que vivemos em estado de trabalho e atividade, assim como a anterior mostrou que vivemos em estado de espera. Aquela demonstrou a necessidade de preparação constante; esta, a de diligência efetiva em nosso trabalho e serviço atuais.
Naquela fomos incentivados a cuidar da própria alma; nesta, a dedicar-nos à glória de Deus e ao bem dos outros.
Nesta parábola, 1. O Senhor é Cristo, Dono e Proprietário absoluto de todas as pessoas e coisas e, de maneira especial, de sua igreja. Todas as coisas foram entregues em suas mãos.
- Os servos são os cristãos, chamados seus próprios servos: nascidos em sua casa, comprados com seu dinheiro, dedicados a seu louvor e empregados em sua obra. É provável que os ministros sejam especialmente visados aqui, pois o servem mais diretamente e são enviados por ele. Paulo muitas vezes se chama servo de Jesus Cristo. Veja 2 Timóteo 2:24.
Em termos gerais, há três coisas nesta parábola:
I. A responsabilidade confiada a esses servos. Seu senhor entregou-lhes seus bens. Depois de designá-los para trabalhar, pois Cristo não mantém servos ociosos, deixou-lhes algo com que trabalhar. Repare:
Os servos de Cristo têm e recebem tudo dele, pois por si mesmos nada valem e nada possuem que possam chamar de seu, a não ser o pecado.
Recebemos de Cristo para trabalhar para ele. Nossos privilégios trazem consigo tarefas. A manifestação do Espírito é dada a cada um para proveito.
Tudo o que recebemos para usar em favor de Cristo continua a pertencer a ele. Somos apenas arrendatários em sua terra, administradores de sua graça multiforme (1 Pedro 4:10). Observe agora:
(1.) Em que ocasião essa responsabilidade foi confiada aos servos: o senhor viajava para uma terra distante. Isso é explicado em Efésios 4:8: quando subiu ao alto, deu dons aos homens. Repare:
[1.] Quando Cristo foi para o céu, agiu como alguém que viaja para longe: partiu com a intenção de ficar ausente por muito tempo.
[2.] Ao partir, cuidou de prover sua igreja de tudo o que precisaria durante sua ausência pessoal. Por causa da partida, e tendo-a em vista, confiou à igreja verdades, leis, promessas e poderes. Esses eram a parakatatheke, o grande depositum, conforme o termo de 1 Timóteo 6:20 e 2 Timóteo 1:14, o bom depósito que nos foi confiado.
Enviou também seu Espírito para capacitar os servos a ensinar e professar essas verdades, insistir no cumprimento dessas leis e observá-las, aproveitar e aplicar essas promessas e exercer e empregar esses poderes, comuns ou extraordinários. Assim, na ascensão, Cristo deixou seus bens à igreja.
(2.) Em que proporção essa responsabilidade foi confiada.
[1.] Deu talentos. Segundo o erudito bispo Cumberland, um talento de prata equivale, na moeda da época do autor, a trezentas e cinquenta e três libras, onze xelins e dez pence e meio. Repare: os dons de Cristo são ricos e valiosos, o que seu sangue adquiriu tem valor incalculável, e nenhum deles é insignificante.
[2.] Deu mais a uns, menos a outros: a um, cinco talentos; a outro, dois; a outro, um, a cada um segundo sua capacidade particular. Quando a providência divina estabelece diferenças de capacidade mental, corporal, patrimonial, de posição e influência entre as pessoas, a graça divina distribui os dons espirituais de acordo com isso. A própria capacidade, porém, também vem dele. Observe:
Primeiro, cada um recebeu pelo menos um talento, e esse não é um capital desprezível para um servo pobre começar. Cada um de nós recebeu em confiança uma alma própria como seu talento, e ela nos dará trabalho.
Hoc nempe ab homine exigitur, ut prosit hominibus; si fieri potest, multis; si minus, paucis; si minus, proximis, si minus, sibi: nam cum se utilem cæteris efficit, commune agit negotium. Et si quis bene de se meretur, hoc ipso aliis prodest quod aliis profuturum parat:
É dever do homem tornar-se útil aos que o cercam; a muitos, se possível; caso contrário, a poucos, aos mais próximos ou, ao menos, a si mesmo.
Quem é útil aos outros pode ser considerado um bem comum. Quem merece a própria aprovação também serve aos outros, pois forma em si hábitos que acabarão por beneficiá-los. Sêneca, De Otio Sapient.
Segundo, nem todos receberam a mesma quantidade, porque não tinham capacidades nem oportunidades iguais. Deus age livremente e distribui a cada um como quer. Uns são feitos para um tipo de serviço; outros, para outro, como os membros do corpo humano.
Assim que pôs os assuntos em ordem, o senhor partiu. Nosso Senhor Jesus, depois de dar instruções aos apóstolos, subiu ao céu como quem tinha pressa de partir.
II. As diferentes maneiras de administrar e aproveitar essa responsabilidade, descritas nos vv. 16-18:
- Dois servos agiram bem.
(1.) Foram diligentes e fiéis: saíram e negociaram. Empregaram o dinheiro confiado a eles para o fim a que se destinava: compraram mercadorias e obtiveram retorno. Assim que o senhor partiu, logo se ocuparam do trabalho.
Quem tem tanto a fazer, como todos os cristãos têm, precisa começar depressa e não perder tempo. Saíram e negociaram. Repare: o verdadeiro cristão é um negociante espiritual. Os ofícios são chamados mistérios, e, sem dúvida, grande é o mistério da piedade.
É um trabalho de produção: há algo a fazer em nosso coração e para o bem dos outros. É também comércio: trocamos coisas de menor valor para nós por outras de maior valor, o comércio da sabedoria (Provérbios 3:15; Mateus 13:45).
O negociante escolhe seu ofício, esforça-se para aprendê-lo, faz dele sua ocupação, investe tudo o que tem para fazê-lo prosperar, subordina a ele todos os outros assuntos e vive de seus ganhos. Assim age o verdadeiro cristão na obra da religião. Não temos capital próprio com que negociar; atuamos como representantes, usando o capital de nosso Senhor.
Os dons da mente, razão, sagacidade e erudição, devem servir à religião. Os bens deste mundo, patrimônio, reputação, influência, poder e cargos, devem ser aproveitados para honrar a Cristo.
As ordenanças do evangelho e as oportunidades de participar delas, Bíblias, ministros, sábados e sacramentos, devem ser usados para o fim a que se destinam. Por meio deles, devemos manter a comunhão com Deus; os dons e graças do Espírito devem ser exercidos. Isso é negociar com nossos talentos.
(2.) Tiveram sucesso: dobraram o capital e, em pouco tempo, obtiveram cem por cento de retorno. O que recebeu cinco talentos logo fez outros cinco. Negociar com nossos talentos nem sempre produz resultados nos outros, mas sempre os produzirá para nós (Isaías 49:4).
Repare: a mão diligente enriquece em graças, consolos e tesouros de boas obras. A dedicação à religião traz muitos ganhos. Observe: o retorno foi proporcional ao que haviam recebido.
[1.] Daqueles a quem Deus deu cinco talentos, ele espera o aproveitamento de cinco; espera colher muito onde muito semeia. Quanto maiores os dons de alguém, mais esforço deve dedicar, como faz quem tem grande capital para administrar.
[2.] De quem recebeu apenas dois talentos, espera apenas o aproveitamento de dois. Isso pode encorajar os que atuam numa esfera menor e mais limitada de serviço. Se fizerem o bem com toda a capacidade e oportunidade que têm, serão aceitos, ainda que não realizem tanto quanto outros.
- O terceiro agiu mal (v. 18): quem recebeu um talento foi e escondeu o dinheiro de seu senhor. Embora a parábola apresente apenas um infiel entre três, num caso real semelhante encontramos a proporção inversa. Dos dez leprosos purificados, nove esconderam o talento e apenas um voltou para agradecer (Lucas 17:17, 18).
O servo infiel tinha apenas um talento. Sem dúvida há muitos que têm cinco e enterram todos: possuem grandes capacidades e oportunidades, mas não fazem bom uso delas. Cristo, porém, queria indicar-nos:
(1.) Que, se quem recebeu um só talento é chamado a prestar contas por enterrá-lo, muito mais culpados serão aqueles que enterram os muitos que receberam. Se alguém de pouca capacidade foi lançado nas trevas exteriores por não aproveitar o que tinha como poderia, quanto mais severo castigo vocês acham que merecerá quem pisa as maiores oportunidades?
(2.) Que quem tem menos a fazer para Deus muitas vezes faz menos daquilo que lhe cabe. Alguns usam como desculpa para a preguiça a falta de oportunidades de servir a Deus que outros possuem. Como não têm meios para fazer o que dizem que gostariam, deixam de fazer aquilo que certamente podem. Sentam-se e não fazem nada.
Na verdade, sua indolência se agrava pelo fato de negligenciarem até mesmo o único talento de que precisam cuidar.
O servo cavou a terra e escondeu o talento, temendo que fosse roubado. Não gastou mal nem empregou mal o dinheiro, não o desviou nem esbanjou: apenas o escondeu. O dinheiro é como adubo, dizia o lorde Bacon: num monte não serve para nada; precisa ser espalhado.
Contudo, há um mal que muitas vezes vemos debaixo do sol: tesouros acumulados (Tiago 5:3; Eclesiastes 6:1, 2) que não beneficiam ninguém. O mesmo ocorre com os dons espirituais: muitos os possuem, mas não os usam para o fim para o qual foram dados.
Quem tem recursos, mas não os emprega em obras de piedade e caridade; quem tem poder e influência, mas não os usa para promover a religião onde vive; e os ministros que têm capacidade e oportunidades de fazer o bem, mas não despertam o dom que há neles, todos são servos preguiçosos que buscam seus próprios interesses mais do que os de Cristo.
Ele escondeu o dinheiro de seu senhor. Se fosse seu, poderia fazer com ele o que quisesse. Mas quaisquer capacidades e vantagens que tenhamos não são nossas; somos apenas seus administradores e devemos prestar contas ao Senhor a quem esses bens pertencem.
Sua preguiça se agravava porque os outros servos negociavam com diligência e sucesso; o zelo deles deveria ter despertado o seu. Se outros estão ativos, ficaremos nós ociosos?
III. A prestação de contas do aproveitamento dos talentos (v. 19). 1. Ela foi adiada: só depois de muito tempo lhes foram pedidas contas. Isso não significa que o senhor negligencie seus negócios nem que Deus demore em cumprir sua promessa (2 Pedro 3:9). Não: ele está pronto para julgar (1 Pedro 4:5), mas tudo deve ocorrer a seu tempo e na devida ordem.
- Ainda assim, enfim chega o dia de prestar contas: o senhor daqueles servos acerta as contas com eles. Repare: os administradores da multiforme graça de Deus logo terão de prestar contas de sua administração.
Todos seremos chamados a responder pelo bem que obtivemos para nossa alma e pelo bem que fizemos aos outros com as oportunidades de que desfrutamos. Veja Romanos 14:10, 11. Aqui está:
(1.) A boa prestação de contas dos servos fiéis. Observe:
[1.] Os servos apresentam suas contas (v. 20, 22): “Senhor, entregaste-me cinco talentos, e a mim, dois. Eis que ganhei outros cinco talentos, e eu, outros dois”.
Primeiro, os servos fiéis de Cristo reconhecem com gratidão os favores que ele lhes concedeu: “Senhor, entregaste-me estas e aquelas coisas”. Repare:
É bom manter uma conta detalhada do que recebemos de Deus e lembrar-nos disso, para sabermos o que ele espera de nós e correspondermos aos benefícios recebidos.
Nunca devemos olhar para os resultados de nosso trabalho sem reconhecer o favor de Deus, a honra que nos concedeu ao confiar-nos seus bens e a graça que é fonte de todo o bem existente em nós ou feito por nós. Na verdade, quanto mais fazemos para Deus, mais lhe devemos por usar-nos e capacitar-nos para seu serviço.
Segundo, apresentam o que ganharam como prova de sua fidelidade. Repare: os bons administradores de Deus têm algo a mostrar por sua diligência. “Mostra-me tua fé por tuas obras.” Quem é bom, que o mostre (Tiago 3:13).
Se cuidarmos de nosso comércio espiritual, logo isso será visível em nós e nossas obras nos acompanharão (Apocalipse 14:13). Isso não quer dizer que os santos mencionarão suas próprias boas obras no grande dia. Não; Cristo fará isso por eles (Mateus 25:35).
Mostra, porém, que aqueles que empregam fielmente seus talentos terão confiança no dia de Cristo (1 João 2:28; 4:17). É digno de nota que o servo que tinha apenas dois talentos prestou contas com tanta alegria quanto o que tinha cinco.
Nosso consolo no dia das contas dependerá de nossa fidelidade, não de nossa utilidade; de nossa sinceridade, não de nosso sucesso; da retidão do coração, não do tamanho das oportunidades.
[2.] A aceitação e aprovação de suas contas pelo senhor (v. 21, 23).
Primeiro, ele os elogiou: “Muito bem, servo bom e fiel”. Repare: a diligência e a integridade dos que se mostram servos bons e fiéis de Jesus Cristo certamente resultarão em louvor, honra e glória em sua manifestação (1 Pedro 1:7). Ele logo reconhecerá e honrará os que agora o reconhecem e honram.
Suas pessoas serão aceitas: “Servo bom e fiel”. Aquele que agora conhece a integridade dos servos testemunhará dela no grande dia, e os que forem achados fiéis assim serão chamados. Talvez fossem criticados pelos homens como justos em excesso, mas Cristo lhes dará a verdadeira descrição: bons e fiéis.
Suas obras serão aceitas: “Muito bem”. Cristo chamará servos bons apenas os que fizeram bem sua tarefa. É perseverando pacientemente no bem que buscamos essa glória e honra; se as buscarmos, as encontraremos. Se fizermos o que é bom e o fizermos bem, receberemos louvor por isso.
Alguns senhores são tão severos que não elogiam seus servos, por melhor que trabalhem; consideram suficiente não repreendê-los. Cristo, porém, elogiará os seus servos que agirem bem. Recebam ou não louvor dos homens, dele o receberão.
Se nosso Senhor falar bem de nós, pouco importará o que digam os outros servos. Se ele disser “Muito bem”, seremos felizes, e pouco deverá importar-nos sermos julgados pelo juízo humano. Em contrapartida, não é aprovado quem elogia a si mesmo ou recebe elogio dos vizinhos, mas aquele a quem o Senhor elogia.
Segundo, ele os recompensa. Os servos fiéis de Cristo não receberão apenas elogios; todo o seu trabalho e esforço de amor serão recompensados. Essa recompensa é expressa de duas maneiras:
- Numa expressão adequada à parábola: “Foste fiel no pouco, sobre o muito te colocarei”. Nas cortes dos príncipes e nas famílias dos grandes, é comum elevar a cargos superiores quem foi fiel em funções menores. Repare: Cristo é um senhor que promoverá seus servos quando estes cumprirem bem suas responsabilidades.
Cristo reserva honra aos que o honram: uma coroa (2 Timóteo 4:8), um trono (Apocalipse 3:21), um reino (Mateus 25:34). Aqui são mendigos; no céu serão governantes. Os retos terão domínio: todos os servos de Cristo são príncipes.
Observe a desproporção entre o trabalho e a recompensa: são poucas as coisas em que os santos podem servir à glória de Deus, mas muitas aquelas em que serão glorificados com ele. A responsabilidade que recebemos de Deus e o trabalho que fazemos para ele neste mundo são muito pequenos diante da alegria que nos espera.
Reunamos todo o nosso serviço, todos os sofrimentos, todo o aproveitamento dos dons, todo o bem que fazemos aos outros e todo o que obtemos para nós. Tudo isso ainda são poucas coisas, quase nada, indignas de comparação e até de serem mencionadas junto com a glória que será revelada.
- Noutra expressão, que sai da imagem da parábola para a realidade que ela representa: “Entra no gozo do teu senhor”. Repare:
(1.) A condição dos bem-aventurados é de alegria. Não apenas todas as lágrimas serão enxugadas, mas todas as fontes de consolo se abrirão para eles e jorrarão as fontes da alegria. Onde se encontram a visão e o desfrute de Deus, a santidade perfeita e a companhia dos bem-aventurados, necessariamente há plenitude de alegria.
(2.) Essa alegria é a alegria de seu Senhor: a que ele próprio comprou e preparou para eles. É a alegria dos redimidos, comprada com a tristeza do Redentor. É a alegria que ele próprio possui, a qual tinha diante dos olhos quando suportou a cruz e desprezou a vergonha (Hebreus 12:2).
Ele é sua fonte e seu centro. É a alegria de nosso Senhor, pois é alegria no Senhor, nossa alegria suprema. Abraão não queria que o administrador de sua casa, embora fiel, fosse seu herdeiro (Gênesis 15:3). Cristo, porém, admite os administradores fiéis em sua própria alegria, como coerdeiros com ele.
(3.) Os santos glorificados entrarão nessa alegria e a possuirão plena e completamente, como o herdeiro que, ao atingir a maioridade, toma posse de sua herança, ou como as virgens preparadas que entraram para as bodas.
Aqui a alegria de nosso Senhor entra nos santos por meio do penhor do Espírito. Em breve eles entrarão nela e nela permanecerão para sempre, como em seu próprio elemento.
(2.) A má prestação de contas do servo preguiçoso. Observe:
[1.] Sua defesa (v. 24, 25). Embora tivesse recebido apenas um talento, foi chamado a prestar contas por ele. O pouco que recebemos não nos isenta dessa prestação. Ninguém será chamado a responder por mais do que recebeu; mas todos devemos prestar contas do que temos.
Observe, primeiro, em que deposita confiança. Apresenta-se para prestar contas com grande segurança, apoiando-se no argumento de que poderia dizer: “Eis aqui o que é teu. Se não o aumentei como os outros, posso ao menos dizer que não o diminuí”. Pensa que isso bastará para sair-se bem, se não com elogio, ao menos sem punição.
Repare: muitos se apresentam ao juízo com grande segurança, presumindo que valerá uma defesa que será rejeitada como vã e frívola. Os preguiçosos que professam a fé receiam fazer demais para Deus, mas esperam sair-se tão bem quanto aqueles que tanto se esforçam na religião. Assim o preguiçoso se julga mais sábio do que sete homens capazes de dar uma resposta (Provérbios 26:16).
Esse servo pensava que suas contas seriam aceitas porque poderia dizer: “Aí tens o que é teu. Senhor, não desperdicei meu patrimônio, não esbanjei meu tempo, não profanei meus sábados nem me opus a bons ministros e à boa pregação”.
“Senhor, nunca ridicularizei minha Bíblia, nunca usei meu engenho para zombar da religião nem abusei do poder para perseguir um homem bom. Nunca afoguei minhas capacidades nem desperdicei as boas criaturas de Deus na embriaguez e na glutonaria; e, pelo que sei, nunca prejudiquei ninguém.”
Muitos chamados cristãos fundamentam grandes esperanças do céu na capacidade de apresentar contas assim. No entanto, tudo isso não passa de “Aí tens o que é teu”, como se nada mais fosse exigido nem pudesse ser esperado.
Segundo, o que ele confessa: admite ter enterrado o talento. “Escondi teu talento na terra.” Fala como se isso não fosse uma grande falta; mais que isso, como se merecesse elogio pela prudência de colocá-lo em lugar seguro sem correr risco algum.
Repare: é comum as pessoas tratarem como insignificante aquilo que será motivo de sua condenação no grande dia. Ou, se tinha consciência da falta, isso mostra com que facilidade os servos preguiçosos serão declarados culpados no juízo. Não será necessária uma grande busca de provas, pois sua própria língua se voltará contra eles.
Terceiro, a desculpa que apresenta: “Sabia que és um homem duro, e tive medo”. Uma boa opinião sobre Deus produziria amor, e esse amor nos tornaria diligentes e fiéis. Pensamentos duros a respeito dele, porém, produzem medo, e esse medo nos torna preguiçosos e infiéis. Sua desculpa revela:
- Os sentimentos de um inimigo: “Sabia que és um homem duro”. Isso se parecia com a fala perversa da casa de Israel: “O caminho do Senhor não é justo” (Ezequiel 18:25). Assim, sua defesa se torna sua ofensa. A insensatez do homem perverte seu caminho e, então, como se isso resolvesse algo, seu coração se irrita contra o Senhor.
Isso é encobrir a transgressão, como Adão, que indiretamente atribuiu a falta ao próprio Deus: “A mulher que me deste”. Repare: corações carnais tendem a formar opiniões falsas e perversas sobre Deus e, com elas, endurecer-se em seus maus caminhos.
Observe a confiança com que fala: “Eu sabia que eras assim”. Como poderia sabê-lo? Que injustiça nós ou nossos pais encontramos nele? (Jeremias 2:5). Em que ele nos cansou com sua obra ou nos enganou no pagamento? (Miquéias 6:3). Foi para nós um deserto ou uma terra de trevas?
Deus governa o mundo há tanto tempo e pode perguntar, com mais razão que o próprio Samuel: “A quem defraudei ou oprimi?” Não sabe todo o mundo o contrário? Deus está tão longe de ser um senhor duro que a terra está cheia de sua bondade; tão longe de colher onde não semeou que semeia muito onde nada colhe.
Faz o sol brilhar e a chuva cair sobre os maus e ingratos e enche de alimento e alegria o coração dos que dizem ao Todo-Poderoso: “Aparta-te de nós”.
Essa insinuação expressa a censura comum que os perversos dirigem a Deus, como se ele fosse culpado por seu pecado e sua ruína por lhes negar a graça. É certo, porém, que ninguém que tenha aproveitado fielmente a graça comum recebida pereceu por falta de graça especial. Ninguém pode mostrar o que, dentro da razão, Deus poderia ter feito além do que fez por uma vinha infrutífera.
Deus não exige tijolos enquanto nega a palha. Não: tudo o que é exigido na aliança é prometido na aliança; se perecemos, a culpa é nossa.
- O espírito de um escravo: “Tive medo”. Essa má disposição para com Deus nascia de suas falsas ideias a respeito dele. Nada é mais indigno de Deus nem impede mais nosso dever para com ele do que o medo servil. Esse medo traz escravidão e tormento e se opõe diretamente ao amor completo que o grande mandamento exige.
Repare: pensamentos duros a respeito de Deus nos afastam de seu serviço e nos limitam nele. Os que julgam impossível agradá-lo e inútil servi-lo nada farão de proveitoso na religião.
[2.] A resposta do senhor à defesa. O argumento de nada lhe servirá; é rejeitado e, mais que isso, volta-se contra ele, deixando-o sem palavras. Temos aqui sua declaração de culpa e sua condenação.
Primeiro, sua declaração de culpa (v. 26, 27). É considerado culpado de duas coisas:
- Preguiça: “Servo mau e preguiçoso”. Repare: servos preguiçosos são servos maus, e assim seu senhor lhes pedirá contas. Quem é preguiçoso no trabalho e negligencia o bem que Deus ordenou é irmão de quem desperdiça muito ao praticar o mal que Deus proibiu (Provérbios 18:9).
Quem descuida da obra de Deus é parente próximo de quem se ocupa da obra do diabo. Satis est mali nihil fecisse boni: não fazer o bem já traz culpa muito grave. As omissões são pecados e serão julgadas; a preguiça abre caminho à perversidade. Todos se tornam corruptos, pois ninguém faz o bem (Salmos 14:3).
Quando a casa está vazia, o espírito impuro toma posse dela. Os que estão ociosos nos assuntos da alma não são apenas ociosos, mas algo pior (1 Timóteo 5:13). Quando os homens dormem, o inimigo semeia joio.
- Contradição consigo mesmo (v. 26, 27): “Sabias que ceifo onde não semeei; devias, portanto, ter entregue meu dinheiro aos cambistas”. Repare: os pensamentos duros que os pecadores têm de Deus, embora falsos e injustos, estão longe de justificar sua perversidade e preguiça; antes, agravam sua culpa. Isso pode ser entendido de três maneiras:
(1.) “Supondo que eu fosse um senhor tão duro, não deverias, por isso mesmo, ter sido mais diligente e cuidadoso em agradar-me, se não por amor, ao menos por medo? Não deverias, por essa razão, ter cuidado de teu trabalho?” Se nosso Deus é um fogo consumidor, levemos isso em conta e procuremos servi-lo.
Ou assim, (2.) “Se me julgavas um senhor duro e por isso não ousavas negociar com o dinheiro por medo de perdê-lo e ter de arcar com o prejuízo, poderias tê-lo entregue aos cambistas ou a um ourives, depositando-o no banco”.
“Então, quando eu voltasse, mesmo que não recebesse o lucro maior do comércio, como com os outros talentos, receberia ao menos o ganho menor proveniente apenas dos juros: recuperaria meu dinheiro com juros.” Parece que essa era uma prática comum na época, não desaprovada por nosso Salvador.
Repare: não conseguirmos ou não ousarmos fazer o que gostaríamos não nos desculpará quando se mostrar que deixamos de fazer o que conseguíamos e ousávamos. Se não tivemos coragem de empreender serviços mais difíceis e arriscados, isso nos justifica por recusar os mais seguros e fáceis?
É melhor fazer alguma coisa do que nada. Se não demonstramos coragem em grandes empreendimentos, ao menos devemos provar nossa boa vontade em esforços honestos. Nosso Senhor não desprezará o dia das coisas pequenas.
Ou assim, (3.) “Supondo que eu colha onde não semeei, isso nada tem a ver contigo. Em ti eu semeei: o talento era meu dinheiro, confiado a ti não apenas para guardar, mas para fazer render”.
Repare: no dia de prestar contas, os servos maus e preguiçosos ficarão sem desculpa. Argumentos frívolos serão rejeitados e toda boca será fechada; aqueles que hoje tanto insistem na própria justificação não terão uma palavra para dizer em sua defesa.
Segundo, sua condenação. O servo preguiçoso recebe a sentença:
- Ser privado de seu talento (v. 28, 29): “Tirai-lhe, portanto, o talento”. Os talentos foram inicialmente distribuídos pelo Senhor como Dono absoluto; agora ele dispõe deste como Juiz. Tira-o do servo infiel para puni-lo e o dá àquele que foi especialmente fiel, para recompensá-lo.
O sentido dessa parte da parábola aparece no motivo da sentença (v. 29): “A todo aquele que tem será dado”. Isso pode ser aplicado:
(1.) Às bênçãos desta vida, aos bens e posses materiais. São-nos confiados para serem usados para a glória de Deus e o bem dos que nos cercam. Quem os possui e usa para esses fins terá abundância: talvez dos próprios bens, certamente do consolo que proporcionam e de coisas ainda melhores.
Mas daquele que não tem, isto é, que possui os bens como se não os possuísse, sem poder desfrutá-los ou fazer o bem com eles, tudo será tirado. Avaro deest, tam quod habet, quam quod non habet: o avarento pode ser considerado privado tanto do que tem quanto do que não tem.
Salomão explica isso em Provérbios 11:24: há quem espalhe e veja aumentar o que possui, e há quem retenha mais do que é justo e acabe na pobreza. Dar aos pobres é negociar com o que temos, e o retorno será abundante; a farinha na vasilha e o azeite no jarro se multiplicarão.
Os sórdidos, mesquinhos e sem caridade, porém, verão que as riquezas assim obtidas se perdem num empreendimento malfadado (Eclesiastes 5:13, 14). Às vezes a providência transfere de maneira surpreendente os bens dos que não fazem bom uso deles para aqueles que fazem: são reunidos para quem terá compaixão dos pobres (Provérbios 28:8). Veja Provérbios 13:22; Jó 27:16, 17; Eclesiastes 2:26.
(2.) Aos meios da graça. Deus ampliará as oportunidades daqueles que se dedicam a aproveitar as que têm; colocará diante deles uma porta aberta (Apocalipse 3:8). Mas, dos que não reconhecem o dia de sua visitação, as coisas que dizem respeito à paz serão ocultadas dos olhos. Como prova, veja o que Deus fez a Siló (Jeremias 7:12).
(3.) Aos dons comuns do Espírito. Quem os possui e faz o bem com eles terá abundância. Esses dons crescem com a prática e brilham mais ao serem usados; quanto mais fazemos na religião, mais podemos fazer.
Os que, porém, não despertam o dom que possuem nem se aplicam de acordo com sua capacidade veem seus dons enferrujar, enfraquecer e apagar-se como fogo abandonado. Daquele que não tem na alma um princípio vivo da graça serão tirados até os dons comuns que possui, assim como as lâmpadas das virgens insensatas se apagaram por falta de azeite (v. 8).
Desse modo, o braço do pastor preguiçoso, que ele cruzou com indolência sobre o peito, acaba ressecado, e seu olho direito, que fechou por descuido ou de propósito, fica inteiramente escurecido, conforme a ameaça de Zacarias 11:17.
- Recebe a sentença de ser lançado nas trevas exteriores (v. 30). Aqui:
(1.) Seu caráter é o de servo inútil. Repare: os servos preguiçosos serão considerados inúteis. Nada fazem que corresponda ao propósito de sua vinda ao mundo, ao fim de seu nascimento ou batismo. Não servem de modo algum à glória de Deus, ao bem dos outros nem à salvação da própria alma.
O servo preguiçoso é um membro seco no corpo, árvore estéril na vinha, zangão ocioso na colmeia: não serve para nada. Em certo sentido, todos somos servos inúteis (Lucas 17:10); não podemos trazer proveito a Deus (Jó 22:2).
Ainda assim, exige-se que sejamos úteis aos outros e a nós mesmos. Se não formos, Cristo não nos reconhecerá como seus servos. Não basta deixar de fazer o mal: precisamos fazer o bem e produzir frutos. Embora isso não traga proveito a Deus, glorifica-o (João 15:8).
(2.) Sua condenação é ser lançado nas trevas exteriores. Aqui, como nas palavras dirigidas aos servos fiéis, nosso Salvador passa imperceptivelmente da parábola para a realidade que ela representa, e isso fornece a chave de toda ela. Em seus discursos, trevas exteriores, onde há choro e ranger de dentes, é sua maneira habitual de descrever as misérias dos condenados no inferno.
Sua condição é [1.] muito lúgubre: são trevas exteriores. As trevas são desconfortáveis e assustadoras; foram uma das pragas do Egito. No inferno há cadeias de trevas (2 Pedro 2:4). Ninguém pode trabalhar no escuro, castigo apropriado para um servo preguiçoso.
São trevas exteriores: fora da luz do céu, fora da alegria do Senhor em que entraram os servos fiéis, fora do banquete. Compare Mateus 8:12; 22:13.
[2.] Muito dolorosa: ali há choro, que expressa grande tristeza, e ranger de dentes, que expressa grande irritação e indignação. Essa será a porção do servo preguiçoso.
Versículos 31 a 46
O Processo do Juízo Final.
Temos aqui uma descrição do processo do juízo final no grande dia. Algumas passagens são parabólicas, como a separação entre as ovelhas e os bodes e os diálogos entre o juiz e as pessoas julgadas.
Mas nenhuma linha de comparação percorre todo o discurso; por isso, é mais adequado chamá-lo de esboço ou delineamento do juízo final do que de parábola. É, por assim dizer, a explicação das parábolas anteriores. Aqui temos:
I. A colocação do juiz no tribunal (v. 31): “Quando o Filho do homem vier”. Observe aqui:
Que haverá um juízo, no qual cada homem receberá sentença para um estado de felicidade ou miséria eternas, no mundo da recompensa ou retribuição, conforme o que fez neste mundo de prova e provação; isso será julgado segundo a regra do evangelho eterno.
A administração do juízo do grande dia é confiada ao Filho do homem, pois por ele Deus julgará o mundo (Atos 17:31). Todo juízo lhe é confiado e, portanto, o juízo daquele dia, que é o centro de todos.
Aqui, como em outras passagens, quando se fala do juízo final, Cristo é chamado filho do homem, porque julgará os filhos dos homens. Sendo ele próprio da mesma natureza, é tanto menos sujeito a objeções.
Ele também recebe esse nome porque sua maravilhosa condescendência em assumir nossa natureza e tornar-se filho do homem será recompensada por essa exaltação naquele dia, e uma honra será conferida à natureza humana.
- A manifestação de Cristo para julgar o mundo será esplêndida e gloriosa. Agripa e Berenice chegaram ao tribunal com grande pompa (Atos 25:23); mas aquilo, conforme a palavra original, era grande ostentação.
Cristo virá ao tribunal em glória real. O Sol da justiça brilhará então em seu esplendor do meio-dia, e o Príncipe dos reis da terra mostrará as riquezas do seu reino glorioso e as honras da sua excelente majestade.
E todo o mundo verá o que agora somente os santos creem: que ele é o resplendor da glória do seu Pai. Virá não só na glória do seu Pai, mas em sua própria glória, como mediador.
Sua primeira vinda ocorreu sob uma nuvem negra de obscuridade; a segunda será numa nuvem luminosa de glória. A garantia que Cristo deu aos discípulos da sua glória futura poderia ajudar a remover o escândalo da cruz e de sua vergonha e sofrimento próximos.
- Quando Cristo vier em sua glória para julgar o mundo, trará consigo todos os seus santos anjos. Essa pessoa gloriosa terá uma comitiva gloriosa, suas santas miríades, que serão não só seus acompanhantes, mas ministros da sua justiça; virão com ele tanto para dar majestade quanto para prestar serviço.
Precisam vir para convocar o tribunal (1 Tessalonicenses 4:16), reunir os eleitos (Mateus 24:31), atar o joio em feixes (Mateus 13:40), ser testemunhas da glória dos santos (Lucas 12:8) e da miséria dos pecadores (Apocalipse 14:10).
- Então se assentará no trono da sua glória. Agora está assentado com o Pai em seu trono; é um trono de graça, do qual podemos nos aproximar com ousadia. É um trono de governo, o trono de seu pai Davi; ele é sacerdote nesse trono.
Mas então se assentará no trono da glória, no trono do juízo. Veja Daniel 7:9, 10. O trono de Salomão, embora não houvesse semelhante em reino algum, era apenas um monturo em comparação com esse.
Cristo, nos dias de sua carne, foi levado ao tribunal como prisioneiro acusado; mas, em sua segunda vinda, se assentará como juiz na cadeira de julgamento.
II. O comparecimento de todos os filhos dos homens diante dele (v. 32): “Diante dele serão reunidas todas as nações”. Repare: o juízo do grande dia será um juízo geral.
Todos precisam ser convocados ao tribunal de Cristo: todos de cada época do mundo, do princípio ao fim do tempo; todos de cada lugar da terra, até dos cantos mais remotos do mundo, mais obscuros e distantes uns dos outros; todas as nações, todas aquelas nações de homens feitos de um só sangue para habitar toda a face da terra.
III. A distinção que então será feita entre o precioso e o vil: “Ele os separará uns dos outros”, como o joio e o trigo são separados na colheita, os peixes bons e os maus na praia, o grão e a palha na eira.
Os perversos e os piedosos vivem aqui juntos nos mesmos reinos, cidades, igrejas e famílias, e não podem ser distinguidos com certeza uns dos outros. Tais são as fraquezas dos santos, tais as hipocrisias dos pecadores, e um mesmo acontecimento vem sobre ambos.
Mas naquele dia serão separados e apartados para sempre: “Então retornareis e discernireis entre o justo e o perverso” (Malaquias 3:18). Não podem separar-se uns dos outros neste mundo (1 Coríntios 5:10), nem qualquer outra pessoa pode separá-los (Mateus 13:29).
Mas o Senhor conhece os que são seus e pode separá-los. Essa separação será tão exata que o santo mais insignificante não se perderá na multidão dos pecadores, nem o pecador de aparência mais convincente se esconderá na multidão dos santos (Salmos 1:5); cada um irá para seu próprio lugar.
Isso é comparado à separação que um pastor faz entre as ovelhas e os bodes; vem de Ezequiel 34:17: “Eis que eu julgo entre gado e gado”. Repare:
Jesus Cristo é o grande Pastor. Agora apascenta seu rebanho como um pastor e em breve distinguirá os que são seus dos que não são, como Labão separou suas ovelhas das de Jacó e pôs entre elas uma distância de três dias de jornada (Gênesis 30:35, 36).
Os piedosos são como ovelhas: inocentes, mansos, pacientes, úteis. Os perversos são como bodes, uma espécie inferior de animal, desagradável e indisciplinada.
As ovelhas e os bodes estão aqui pastando o dia inteiro no mesmo pasto, mas à noite serão abrigados em diferentes apriscos. Assim separados, ele colocará as ovelhas à sua direita e os bodes à sua esquerda (v. 33).
Cristo confere honra aos piedosos, como mostramos respeito aos que colocamos à nossa direita; mas os perversos ressuscitarão para vergonha eterna (Daniel 12:2).
Não se diz que colocará os ricos à sua direita e os pobres à sua esquerda; os instruídos e nobres à sua direita, e os sem instrução e desprezados à sua esquerda; mas os piedosos à sua direita e os perversos à sua esquerda.
Todas as outras divisões e subdivisões serão então abolidas; mas a grande distinção dos homens em santos e pecadores, santificados e não santificados, permanecerá para sempre, e por ela será determinado o estado eterno dos homens.
Os perversos se contentaram com bênçãos da mão esquerda, riquezas e honra; assim será também sua condenação.
IV. O processo do juízo a respeito de cada um deles:
- A respeito dos piedosos, à direita. Sua causa precisa ser resolvida primeiro, para que possam ser assessores de Cristo no juízo dos perversos, cuja miséria será agravada ao verem Abraão, Isaque e Jacó admitidos no reino dos céus (Lucas 13:28). Observe aqui:
(1.) A glória que lhes será conferida; a sentença pela qual serão não só absolvidos, mas elevados e recompensados (v. 34): “O Rei lhes dirá”.
Aquele que era o Pastor, o que expressa o cuidado e a ternura com que fará essa investigação, é aqui o Rei, o que expressa a autoridade com que então pronunciará a sentença. Onde está a palavra desse Rei, há poder. Nessa sentença há duas coisas:
[1.] O reconhecimento dos santos como benditos do Senhor: “Vinde, benditos de meu Pai”. Primeiro, declara-os benditos, e dizer que são benditos faz com que o sejam.
A lei os amaldiçoa por suas muitas interrupções da obediência; mas Cristo, tendo-os redimido da maldição da lei e adquirido uma bênção em favor deles, ordena uma bênção sobre eles.
Segundo, benditos de seu Pai; desacreditados e amaldiçoados pelo mundo, mas benditos de Deus. Assim como o Espírito glorifica o Filho (João 16:14), assim o Filho glorifica o Pai ao atribuir-lhe a salvação dos santos como à Causa Primeira.
Todas as nossas bênçãos nas coisas celestiais fluem para nós de Deus, como Pai de nosso Senhor Jesus Cristo (Efésios 1:3).
Terceiro, chama-os a vir. Esse “vinde” significa, na prática: “Sejam bem-vindos, dez mil vezes bem-vindos, às bênçãos de meu Pai; venham a mim, venham estar para sempre comigo. Vocês que me seguiram carregando a cruz, venham agora comigo usando a coroa.”
“Os benditos de meu Pai são os amados da minha alma, que estiveram longe de mim por tempo demais; venham agora, venham ao meu peito, venham aos meus braços, venham aos meus abraços mais afetuosos!”
Oh, de quanta alegria isso encherá o coração dos santos naquele dia! Agora nos aproximamos com ousadia do trono da graça, mas então nos aproximaremos com ousadia do trono da glória.
Essa palavra estende o cetro de ouro, com a garantia de que nossos pedidos serão atendidos em mais que a metade do reino. Agora o Espírito diz “Vem” na palavra, e a noiva diz “Vem” na oração; o resultado disso é uma doce comunhão. Mas a perfeição da felicidade será quando o Rei disser: “Vinde”.
[2.] A admissão dos santos na bem-aventurança e no reino do Pai: “Herdai o reino preparado para vós”.
Primeiro, a felicidade que possuirão é muito rica. Somos informados do que é por aquele que tinha motivo para conhecê-la, tendo-a adquirido em favor deles e possuído ele próprio:
- É um reino, considerado a posse mais valiosa na terra, e inclui a maior riqueza e honra. Os que herdam reinos usam todas as glórias da coroa, desfrutam todos os prazeres da corte e comandam os tesouros especiais das províncias; contudo, isso é apenas uma fraca semelhança das felicidades dos santos no céu.
Os que aqui são mendigos, prisioneiros, considerados a escória de todas as coisas, herdarão então um reino (Salmos 113:7; Apocalipse 2:26, 27).
- É um reino preparado. Essa felicidade só pode ser grande, pois é o fruto dos planos divinos. Repare: há grande preparação para acolher os santos no reino da glória.
O Pai o destinou a eles em seus pensamentos de amor e o proveu para eles na grandeza de sua sabedoria e poder. O Filho o adquiriu para eles e entrou como precursor para preparar um lugar (João 14:2). E o bendito Espírito, ao prepará-los para o reino, está, na prática, preparando-o para eles.
- É preparado para eles. Isso expressa:
(1.) A adequação dessa felicidade; em todos os pontos é adaptada à natureza de uma alma e à nova natureza de uma alma santificada.
(2.) Seu direito à posse e à participação nessa felicidade. É preparado de propósito para eles; não só para pessoas como vocês, mas para vocês, vocês pelo nome, vocês pessoal e particularmente, que foram escolhidos para a salvação mediante a santificação.
- É preparado desde a fundação do mundo. Essa felicidade foi destinada para os santos, e eles para ela, antes que o tempo começasse, desde toda a eternidade (Efésios 1:4). O fim, que é o último na execução, é o primeiro na intenção.
A Sabedoria infinita tinha em vista a glorificação eterna dos santos desde a primeira fundação da criação: “Todas as coisas são por vossa causa” (2 Coríntios 4:15).
Ou isso indica a preparação do lugar dessa felicidade, que será a sede e a habitação dos benditos, bem no princípio da obra da criação (Gênesis 1:1). Ali, no céu dos céus, as estrelas da manhã cantavam juntas quando os fundamentos da terra foram firmados (Jó 38:4-7).
Segundo, o título pelo qual o terão e possuirão é muito bom: virão e o herdarão. Aquilo a que chegamos por herança não é obtido por qualquer esforço nosso, mas puramente, como expressam os juristas, pelo ato de Deus.
É Deus quem faz herdeiros, herdeiros do céu. Chegamos a uma herança em virtude de nossa filiação, nossa adoção; se filhos, então herdeiros.
Um título por herança é o título mais doce e mais seguro. Alude às posses na terra de Canaã, que passavam por herança e não podiam ser alienadas por mais tempo que até o ano do jubileu. Assim, a herança celestial é irrevogável e inalienável.
Os santos neste mundo são como herdeiros menores, tutelados e governados até o tempo determinado pelo Pai (Gálatas 4:1, 2). Então serão postos na posse plena daquilo a que agora, pela graça, têm direito: venham e herdem.
(2.) O fundamento disso (v. 35, 36): “Pois tive fome, e me destes comida”. Não podemos inferir daí que quaisquer boas obras nossas mereçam a felicidade do céu por algum valor ou excelência intrínsecos; nossa bondade não se estende até Deus.
Mas é claro que Jesus Cristo julgará o mundo pela mesma regra pela qual o governa e, portanto, recompensará os que obedeceram àquela lei. Sua obediência será mencionada como prova de sua participação em Cristo e em sua aquisição, não como título.
Essa felicidade será adjudicada aos crentes obedientes, não por um quantum meruit — uma estimativa de mérito, que pressupõe proporção entre a obra e a recompensa — mas pela promessa de Deus adquirida por Jesus Cristo, cujo benefício é assegurado sob certas condições e limitações.
São a aquisição e a promessa que dão o título; a obediência é apenas a qualificação da pessoa designada.
O direito a uma propriedade concedido por escritura ou testamento sob condição torna-se absoluto quando a condição é cumprida segundo o verdadeiro intuito do doador ou testador.
Então, embora o título se fundamente puramente na escritura ou no testamento, ainda assim o cumprimento da condição precisa ser apresentado como prova. É assim que entra aqui; pois Cristo é o Autor da salvação eterna somente dos que lhe obedecem e continuam pacientemente fazendo o bem.
Agora, as boas obras aqui mencionadas são as que comumente chamamos obras de caridade para com os pobres. Isso não significa que não haverá à direita muitos que nunca tiveram condições de alimentar os famintos ou vestir os nus, mas foram eles próprios alimentados e vestidos pela caridade de outros.
Um exemplo de obediência sincera, porém, representa todos os demais e nos ensina isto em geral: a fé que opera pelo amor é tudo no cristianismo. Mostre-me sua fé por suas obras; nada contribuirá para uma boa prestação de contas no futuro, senão os frutos de justiça numa boa conduta agora.
As boas obras aqui descritas implicam três coisas que precisam ser encontradas em todos os que são salvos:
[1.] Abnegação e desprezo do mundo: considerar as coisas do mundo boas apenas na medida em que somos capacitados a fazer o bem com elas. Os que não têm com que fazer o bem precisam mostrar a mesma disposição sendo pobres contentes e alegres. São aptos para o céu os que estão mortificados para a terra.
[2.] Amor aos nossos irmãos, que é o segundo grande mandamento, o cumprimento da lei e uma excelente preparação para o mundo do amor eterno. Precisamos provar esse amor por nossa prontidão para fazer o bem e repartir; bons desejos são apenas zombarias sem boas obras (Tiago 2:15, 16; 1 João 3:17). Os que não têm o que dar precisam mostrar a mesma disposição de alguma outra maneira.
[3.] Uma consideração por Jesus Cristo com fé. O que aqui é recompensado é socorrer os pobres por causa de Cristo, por amor a ele e com os olhos nele.
Isso confere excelência à boa obra, quando nela servimos ao Senhor Cristo; podem fazê-lo os que trabalham para seu próprio sustento, assim como os que ajudam a manter outros vivos. Veja Efésios 6:5-7. Serão então aceitas as boas obras feitas no nome do Senhor Jesus (Colossenses 3:17).
Eu tive fome, isto é, meus discípulos e seguidores tiveram, ou pelas perseguições dos inimigos por fazerem o bem, ou pelas dispensações comuns da Providência; pois nessas coisas há um mesmo acontecimento para os justos e os perversos. Vocês lhes deram alimento. Repare:
Primeiro, a Providência ordena e dispõe as circunstâncias do seu povo neste mundo com tamanha variedade que, enquanto alguns estão em condições de prestar socorro, outros precisam dele.
Não é novidade que os que se banqueteiam com as delícias do céu tenham fome e sede e careçam de alimento diário; que os que estão em casa em Deus sejam estrangeiros numa terra estranha; que os que se revestiram de Cristo careçam de roupas para se aquecer; que os que têm almas saudáveis tenham corpos enfermos, e que estejam presos aqueles que Cristo libertou.
Segundo, obras de caridade e beneficência, conforme nossa capacidade, são necessárias à salvação. Será colocado mais peso sobre elas no juízo do grande dia do que comumente se imagina; precisam ser as provas do nosso amor e da nossa professada sujeição ao evangelho de Cristo (2 Coríntios 9:13). Mas os que não mostram misericórdia terão juízo sem misericórdia.
Agora, essa razão é modestamente contestada pelos justos, mas explicada pelo próprio Juiz:
- É questionada pelos justos (vv. 37-39). Não como se relutassem em herdar o reino, se envergonhassem de suas boas ações ou não tivessem a respeito delas o testemunho de sua própria consciência. Mas:
(1.) As expressões são parabólicas, destinadas a introduzir e gravar essas grandes verdades: que Cristo tem enorme consideração pelas obras de caridade e especialmente se agrada das bondades feitas ao seu povo por causa dele. Ou:
(2.) Expressam a admiração humilde de que os santos glorificados estarão cheios ao ver serviços tão pobres e sem valor como os seus tão altamente celebrados e ricamente recompensados: “Senhor, quando te vimos com fome e te alimentamos?”
Repare: as almas agraciadas tendem a fazer pouco caso de suas próprias boas ações, especialmente como indignas de comparação com a glória que será revelada.
Longe disso está o temperamento dos que disseram: “Por que jejuamos, e tu não vês?” (Isaías 58:3). Os santos no céu se admirarão do que os levou até ali e de Deus ter tamanha consideração por eles e seus serviços.
Ouvir o elogio de Cristo fez até Natanael corar: “De onde me conheces?” (João 1:47, 48). Veja Efésios 3:20. “Quando te vimos com fome? Muitas vezes vimos os pobres em aflição, mas quando te vimos?”
Repare: Cristo está mais entre nós do que pensamos. Certamente o Senhor está neste lugar, por sua palavra, suas ordenanças, seus ministros, seu Espírito e também seus pobres, e não o sabemos: “Quando estavas debaixo da figueira, eu te vi” (João 1:48).
- É explicada pelo próprio Juiz (v. 40): na medida em que vocês o fizeram a estes meus irmãos, ao menor, a um dos menores deles, fizeram a mim.
As boas obras dos santos, quando forem apresentadas no grande dia:
(1.) Serão todas lembradas; nem a menor, nem uma das menores, será esquecida, nem mesmo um copo de água fria.
(2.) Serão interpretadas da maneira mais favorável a eles, com a melhor interpretação que se possa dar. Assim como Cristo julga suas fraquezas com a maior benevolência, assim dá o maior valor aos seus serviços.
Vemos que recompensas Cristo tem para os que alimentam os famintos e vestem os nus. Mas o que acontecerá aos pobres piedosos que não tinham com que fazê-lo? Precisam ser excluídos? Não:
[1.] Cristo os reconhecerá, até os menores deles, como seus irmãos. Não se envergonhará nem considerará qualquer descrédito para si chamá-los irmãos (Hebreus 2:11).
No auge da sua glória, não renegará seus parentes pobres; Lázaro é ali posto em seu peito, como amigo, como irmão. Assim os confessará (Mateus 10:32).
[2.] Considerará a bondade feita a eles como feita a ele próprio: “A mim o fizestes”. Isso mostra respeito pelos pobres que foram socorridos, assim como pelos ricos que os socorreram.
Repare: Cristo abraça a causa do seu povo, interessa-se pelos interesses deles e considera-se recebido, amado e reconhecido neles. Se o próprio Cristo estivesse entre nós em pobreza, com que prontidão o socorreríamos? Na prisão, com que frequência o visitaríamos?
Estamos prontos a invejar a honra dos que o serviram com seus bens (Lucas 8:3). Onde quer que estejam santos pobres e ministros pobres, ali Cristo está pronto a receber nossas bondades neles, e elas serão lançadas na sua conta.
- Aqui está o processo a respeito dos perversos, os que estão à esquerda. Nele temos:
(1.) A sentença proferida contra eles (v. 41). Era uma vergonha ser posto à esquerda, mas isso não é o pior; ele lhes dirá: “Apartai-vos de mim, malditos”.
Cada palavra contém terror, como o da trombeta no monte Sinai, que se tornava cada vez mais forte, cada acento mais e mais doloroso, excluindo o consolo.
[1.] Estar tão perto de Cristo era alguma satisfação, embora sob seus olhares severos; mas isso não será permitido: “Apartai-vos de mim”. Neste mundo, muitas vezes foram chamados a vir a Cristo, a vir em busca de vida e descanso, mas fizeram ouvidos moucos aos seus chamados.
Como justo castigo, portanto, são mandados afastar-se de Cristo os que não quiseram vir a ele. “Afastem-se de mim, a Fonte de todo bem, de mim, o Salvador, e, portanto, de toda esperança de salvação; nunca mais terei nada a lhes dizer ou a fazer com vocês.”
Aqui disseram ao Todo-Poderoso: “Aparta-te de nós”; então ele escolherá seus enganos e lhes dirá: “Apartai-vos de mim”. Repare: afastar-se de Cristo é o inferno do inferno.
[2.] Se precisam afastar-se, e afastar-se de Cristo, não poderiam ser despedidos com uma bênção, ao menos com uma palavra bondosa e compassiva? Não: “Apartai-vos, malditos”.
Os que não queriam vir a Cristo para herdar uma bênção precisam afastar-se dele sob o peso de uma maldição, aquela maldição da lei sobre todo aquele que a quebra (Gálatas 3:10). Assim como amavam a maldição, assim ela virá sobre eles.
Mas observe: os justos são chamados benditos de meu Pai, pois sua bem-aventurança se deve puramente à graça de Deus e à sua bênção; os perversos, porém, são chamados apenas malditos, pois sua condenação procede deles próprios. Deus os vendeu? Não; venderam a si mesmos, colocaram-se sob a maldição (Isaías 50:1).
[3.] Se precisam afastar-se, e afastar-se com uma maldição, não podem ir para algum lugar de tranquilidade e descanso? Não lhes bastará a miséria de lamentar sua perda? Não; há um castigo dos sentidos, assim como da perda.
Precisam afastar-se para o fogo, para um tormento tão doloroso quanto o do fogo para o corpo, e muito mais. Esse fogo é a cólera do Deus eterno agarrando-se às almas e às consciências culpadas dos pecadores que se fizeram combustível para ele.
Nosso Deus é um fogo consumidor, e os pecadores caem diretamente em suas mãos (Hebreus 10:31; Romanos 2:8, 9).
[4.] Se para o fogo, não pode ser algum fogo leve ou brando? Não; é fogo preparado, um tormento ordenado desde a antiguidade (Isaías 30:33).
A condenação dos pecadores é muitas vezes apresentada como ato do poder divino; ele pode lançar no inferno. Nos vasos de cólera, faz conhecido seu poder; é uma destruição que vem da presença do Senhor e da glória do seu poder. Nela se verá o que um Deus provocado pode fazer para tornar miserável uma criatura que o provoca.
[5.] Se para o fogo, fogo preparado, oh, que dure apenas pouco tempo, que eles apenas passem pelo fogo! Não; o fogo da cólera de Deus será um fogo eterno.
Um fogo que, agarrando-se a almas imortais e devorando-as, nunca poderá apagar-se por falta de combustível; aceso e mantido ardendo pela cólera de um Deus imortal, nunca poderá apagar-se por falta de ser soprado e atiçado.
Como as correntes de misericórdia e graça estarão excluídas para sempre, nada haverá para extingui-lo. Se é negada uma gota de água para refrescar a língua, nunca serão concedidos baldes de água para apagar essa chama.
[6.] Se precisam ser condenados a tal estado de miséria sem fim, ainda assim não podem ter ali alguma boa companhia? Não; ninguém além do diabo e seus anjos, seus inimigos jurados, que ajudaram a levá-los a essa miséria e nela triunfarão sobre eles.
Serviram ao diabo enquanto viviam e, portanto, recebem justamente a sentença de estar onde ele está, assim como os que serviram a Cristo são levados para estar com ele onde ele está.
É terrível morar numa casa assombrada por demônios; o que será, então, ser seus companheiros para sempre? Observe aqui:
Primeiro, Cristo indica que há um que é o príncipe dos demônios, o líder da rebelião; os demais são seus anjos, seus mensageiros, por cuja ação sustenta seu reino. Cristo e seus anjos naquele dia triunfarão sobre o dragão e os seus (Apocalipse 12:7, 8).
Segundo, diz-se que o fogo é preparado não primariamente para os perversos, como o reino é preparado para os justos, mas foi originalmente destinado ao diabo e seus anjos.
Se os pecadores se fazem associados de Satanás satisfazendo suas cobiças, só podem culpar a si mesmos caso se tornem participantes daquela miséria que foi preparada para ele e seus associados.
Calvino observa, a esse respeito, que se diz que o tormento dos condenados foi preparado para o diabo e seus anjos para eliminar toda esperança de escapar dele. O diabo e seus anjos já foram feitos prisioneiros no abismo; podem vermes da terra pensar em escapar?
(2.) O motivo atribuído para essa sentença. Os juízos de Deus são todos justos, e ele será justificado neles. Ele próprio é Juiz; portanto, os céus declararão sua justiça.
Agora, [1.] Tudo o que lhes é imputado, em que se fundamenta a sentença, é omissão. Assim como antes o servo foi condenado não por desperdiçar seu talento, mas por enterrá-lo, assim aqui ele não diz: “Eu estava com fome e sede porque vocês tiraram de mim meu alimento e minha bebida.”
“Eu era estrangeiro porque vocês me baniram; nu porque vocês me despiram; preso porque vocês me puseram ali”.
Mas diz: “Quando eu estava nessas aflições, vocês eram tão egoístas, tão ocupados com sua própria tranquilidade e prazer, poupavam tanto seu esforço e relutavam tanto em abrir mão do seu dinheiro que não contribuíram, como poderiam ter feito, para meu alívio e socorro”.
Eram como aqueles epicureus que estavam tranquilos em Sião e não se afligiam pela aflição de José (Amós 6:4-6). Repare: as omissões são a ruína de milhares.
[2.] É a omissão de obras de caridade para com os pobres. Não recebem sentença por omitirem seus sacrifícios e holocaustos, nos quais abundavam (Salmos 50:8), mas por omitirem a questão mais importante da lei: o juízo, a misericórdia e a fé.
Os amonitas e moabitas eram excluídos do santuário porque não saíram ao encontro de Israel com pão e água (Deuteronômio 23:3, 4). Repare: a falta de caridade para com os pobres é um pecado que condena.
Se não quisermos ser levados às obras de caridade pela esperança da recompensa, sejamos influenciados pelo medo do castigo; pois terão juízo sem misericórdia os que não mostraram misericórdia.
Observe: ele não diz: “Eu estava doente, e vocês não me curaram; preso, e vocês não me libertaram”, pois talvez isso fosse mais do que podiam fazer. Mas diz: “Vocês não me visitaram, o que poderiam ter feito”.
Repare: os pecadores serão condenados no grande dia pela omissão daquele bem que estava no poder de sua mão fazer. Mas, se a condenação dos sem caridade é tão terrível, quanto mais intolerável será a condenação dos cruéis, a condenação dos perseguidores! Agora, esse motivo da sentença é:
Primeiro, contestado pelos prisioneiros (v. 44): “Senhor, quando te vimos com fome ou com sede?” Os pecadores condenados, embora não tenham alegação que os sustente, ainda assim tentarão em vão oferecer desculpas. Agora:
- A maneira de sua defesa expressa sua precipitação presente. Abreviam, como homens com pressa: quando vimos você com fome, com sede ou nu? Não querem repetir a acusação, conscientes de sua própria culpa e incapazes de suportar os terrores do juízo.
Também não lhes será permitido tempo para insistir nessas alegações frívolas; pois tudo isso, como dizemos, é apenas brincar com o tribunal.
- O conteúdo de sua alegação expressa sua falta de consideração anterior pelo que poderiam ter sabido, mas não quiseram até agora, quando era tarde demais.
Os que tinham desprezado e perseguido os cristãos pobres não queriam reconhecer que tinham desprezado e perseguido Cristo. Não; nunca pretenderam nenhuma afronta a ele nem esperavam que se fizesse disso uma questão tão grande.
Imaginavam que era apenas um grupo de pessoas pobres, fracas, tolas e desprezíveis, que faziam mais alvoroço do que o necessário a respeito da religião, a quem tratavam com esse desprezo.
Mas os que assim fazem serão levados a saber, ou no dia da sua conversão, como Paulo, ou no da sua condenação, como estes aqui, que era Jesus a quem perseguiam. Se disserem “Eis que não o sabíamos”, não o considerará aquele que pondera o coração? (Provérbios 24:11, 12).
Segundo, justificado pelo Juiz, que convencerá todos os ímpios das palavras duras ditas contra ele naqueles que são seus (Judas 1:15). Segue esta regra (v. 45): “Na medida em que não o fizestes a um destes menores, não o fizestes a mim”.
Repare: o que é feito contra os discípulos e seguidores fiéis de Cristo, até os menores deles, ele considera feito contra si mesmo. É desacreditado e perseguido neles, pois são desacreditados e perseguidos por causa dele; em todas as aflições deles, ele é afligido. Quem toca neles toca nele numa parte não menos delicada que a menina dos seus olhos.
Por fim, aqui está a execução dessas duas sentenças (v. 46). A execução é a vida da lei, e Cristo cuidará que ela se faça conforme a sentença:
- Os perversos irão para o castigo eterno. A sentença será então executada rapidamente; nenhuma prorrogação será concedida, nem será permitido tempo para pedir a suspensão do juízo. A execução dos perversos é mencionada primeiro, pois primeiro o joio é reunido e queimado. Repare:
(1.) O castigo dos perversos no estado futuro será um castigo eterno, pois esse estado é inalterável. Não se pode pensar que os pecadores mudariam sua própria natureza nem que Deus daria sua graça para mudá-los, quando, neste mundo, o dia da graça foi mal empregado, o Espírito da graça resistido e os meios da graça mal utilizados e frustrados.
(2.) Os perversos serão obrigados a ir para aquele castigo; não irão voluntariamente, não, são expulsos da luz para as trevas. Isso expressa o reconhecimento incontornável da culpa e o desespero final de alcançar misericórdia.
- Os justos irão para a vida eterna, isto é, herdarão o reino (v. 34). Repare:
(1.) O céu é vida, é toda felicidade. A vida da alma resulta de sua união com Deus pela mediação de Jesus Cristo, como a do corpo resulta de sua união com a alma pelos espíritos animais. A vida celestial consiste na visão e na fruição de Deus, numa perfeita conformidade com ele e numa comunhão sem mediação e ininterrupta com ele.
(2.) É vida eterna. Não há morte para pôr fim à própria vida, nem velhice para pôr fim ao seu conforto, nem qualquer tristeza para torná-la amarga. Assim, vida e morte, bem e mal, a bênção e a maldição são postos diante de nós, para que possamos escolher nosso caminho; assim será nosso fim.
Até os pagãos tinham alguma noção desses diferentes estados dos bons e dos maus no outro mundo. Cícero, em suas Questões Tusculanas, livro 1, apresenta Sócrates falando assim:
Duæ sunt viæ, duplicesque cursus è corpore exeuntium: nam qui se vitiis humanis contaminarunt, et libidinibus se tradiderunt, iis devium quoddam iter est, seclusum à consilio deorum; qui autem se integros castosque servarunt, quibusque fuerit minima cum corporibus contagio, suntque in corporibus humanis vitam imitati deorum, iis ad illos a quibus sunt profecti facile patet reditus.
Dois caminhos se abrem diante dos que saem do corpo. Os que se contaminaram com vícios humanos e se entregaram às suas cobiças ocupam um caminho que os conduz para longe da assembleia e do conselho dos deuses.
Mas os íntegros e castos, os que menos se contaminaram pela carne e imitaram os deuses enquanto estavam no corpo, acham fácil retornar aos seres sublimes de quem vieram.