Matthew Henry

Mateus 24

Argumento

A pregação de Cristo era, em sua maior parte, prática. Neste capítulo, porém, temos um discurso profético, uma previsão do que estava por vir. Ainda assim, tratava-se de uma profecia com finalidade prática: não pretendia satisfazer a curiosidade dos discípulos, mas orientar sua consciência e conduta. Por isso, termina com uma aplicação prática.

A igreja sempre recebeu profecias específicas, além das promessas gerais, para orientar e encorajar os fiéis. É digno de nota, contudo, que Cristo tenha pregado esse sermão profético no fim de seu ministério, assim como o Apocalipse é o último livro do Novo Testamento e os livros proféticos aparecem no fim do Antigo.

Isso nos indica que devemos primeiro estar bem firmados nas verdades e nos deveres claros e tê-los assimilado antes de nos aprofundarmos no que é obscuro e difícil. Muitos se confundem por começar a leitura da Bíblia pelo lado errado.

Neste capítulo temos:

I. A ocasião desse discurso (vv. 1-3).

II. O próprio discurso, no qual encontramos:

  1. A profecia de diversos acontecimentos, referentes sobretudo à destruição de Jerusalém e à ruína completa da igreja e da nação judaicas, que não se aproximavam rapidamente e se consumaram cerca de quarenta anos depois.

Ela inclui os acontecimentos que precederam aquela destruição, os que a acompanharam e suas consequências. Também aponta para mais longe, para a vinda de Cristo no fim dos tempos e a consumação de todas as coisas, das quais aquela destruição era tipo e figura (vv. 4-31).

  1. A aplicação prática dessa profecia, para despertar e estimular os discípulos a se prepararem para acontecimentos tão grandiosos e terríveis (vv. 32-51).

Versículos 1 a 3

Predições Terríveis.

Aqui está:

I. A saída de Cristo do templo e o fim de seu trabalho público ali. Ao fim do capítulo anterior, dissera: “Vossa casa vos é deixada deserta”; aqui cumpriu essas palavras: saiu e se afastou do templo. A forma de dizer merece atenção: não apenas saiu do templo, mas se afastou dele, despedindo-se definitivamente. Nunca mais voltaria, e logo em seguida predisse sua ruína.

Repare: fica verdadeiramente deserta a casa que Cristo abandona. “Ai deles quando eu me apartar” (Oseias 9:12; Jeremias 6:8). Era hora de lamentarem seu Icabode: “A glória se foi”; sua defesa se fora. Três dias depois, o véu do templo se rasgou. Quando Cristo o deixou, tudo se tornou comum e impuro. Mas ele não se afastou antes que o expulsassem; não os rejeitou antes que o rejeitassem.

II. Sua conversa particular com os discípulos. Deixou o templo, mas não os doze, que eram a semente da igreja do evangelho, enriquecida pela rejeição dos judeus. Quando deixou o templo, os discípulos também o deixaram e se aproximaram dele.

Repare: é bom estar onde Cristo está e deixar o que ele deixa. Quando terminou a pregação pública, vieram a ele para receber instrução em particular, pois o segredo do Senhor é para os que o temem. Ele falara à multidão em parábolas sobre a destruição da igreja judaica; aqui, como de costume, explica o assunto aos discípulos. Observe:

  1. Os discípulos se aproximaram para lhe mostrar os edifícios do templo. Era uma construção majestosa e bela, uma das maravilhas do mundo. Não se poupou despesa nem se deixou de experimentar arte alguma para torná-la suntuosa.

Embora ficasse aquém do templo de Salomão e tivesse tido um começo modesto, seu esplendor posterior crescera muito. Era ricamente adornado de dádivas e ofertas, continuamente acrescidas. Mostraram essas coisas a Cristo e queriam que lhes prestasse atenção, seja:

(1.) Porque eles próprios estavam encantados e esperavam que ele também estivesse. Viviam sobretudo na Galileia, longe do templo, e raramente o viam. Por isso sua admiração era maior, e julgavam que Cristo admiraria, tanto quanto eles, toda aquela glória (Gênesis 31:1).

Depois da pregação, queriam que ele se distraísse olhando ao redor e se aliviasse da tristeza que, ao que viam, talvez o dominasse quase por completo. Repare: até pessoas boas tendem a se encantar demais com a pompa e o brilho externos e a lhes dar valor excessivo, mesmo nas coisas de Deus. Deveríamos, porém, ser insensíveis a isso, como Cristo, e olhar para tudo com desprezo.

O templo era realmente glorioso, mas [1.] sua glória estava manchada e maculada pelo pecado dos sacerdotes e do povo. A doutrina perversa dos fariseus, que punha o ouro acima do templo que o santificava, bastava para desfigurar a beleza de todos os seus ornamentos.

[2.] Sua glória era ofuscada e superada pela presença de Cristo, que era a glória daquela última casa (Ageu 2:9). Em comparação com essa glória superior, os edifícios não tinham glória alguma.

Ou, (2.) Porque lamentavam que aquela casa fosse deixada deserta. Mostraram-lhe os edifícios como se pudessem convencê-lo a revogar a sentença: “Senhor, não permitas que esta casa santa e bela, onde nossos pais te louvaram, se torne uma desolação”.

Esqueceram quantas ações da providência em relação ao templo de Salomão haviam mostrado quão pouco Deus prezava a glória exterior que eles tanto admiravam quando o povo era perverso (2 Crônicas 7:21). O pecado derrubaria aquela casa, por mais elevada que fosse.

Pouco antes, Cristo olhara para as almas preciosas e chorara por elas (Lucas 19:41). Os discípulos olhavam para os edifícios imponentes e estavam prestes a chorar por eles. Nisso, como em outras coisas, os pensamentos dele não eram como os nossos.

Era fraqueza e pequenez de espírito os discípulos gostarem tanto de edifícios belos; era coisa de criança. Animo magno nihil magnum: para uma mente grandiosa, nada é grandioso. Sêneca.

  1. Em resposta, Cristo predisse a ruína e destruição completas que sobreviriam àquele lugar (v. 2). Repare: prever com fé o fim da glória do mundo nos ajudará a deixar de admirá-la e supervalorizá-la. Em breve, o corpo mais belo será alimento de vermes, e o edifício mais belo, um monte de ruínas.

Por que então fixar os olhos no que logo deixará de existir? Por que admirar tanto aquilo que, em pouco tempo, certamente contemplaremos com desprezo? “Não vedes todas estas coisas?” Os discípulos queriam que Cristo as olhasse e as amasse tanto quanto eles. Ele queria que as olhassem e lhes dessem tão pouco valor quanto ele lhes dava.

Há uma maneira de contemplar essas coisas que pode nos fazer bem: olhar para além delas e discernir o fim que terão.

Em vez de revogar o decreto, Cristo o confirmou: “Em verdade vos digo: não ficará aqui pedra sobre pedra”.

(1.) Falou da ruína como algo certo: “Eu vos digo. Eu, que sei o que digo e sei cumprir o que digo. Crede em minha palavra, pois assim será. Eu, o Amém, a Testemunha verdadeira, vos digo”. Todo julgamento foi confiado ao Filho; por isso tanto as ameaças quanto as promessas são nele o sim e o amém (Hebreus 6:17, 18).

(2.) Falou dela como ruína completa. O templo não seria apenas despojado, saqueado e desfigurado, mas inteiramente demolido e devastado: “Não ficará pedra sobre pedra”. Na construção do segundo templo, destacou-se a colocação de uma pedra sobre outra (Ageu 2:15); em sua ruína, destaca-se que nenhuma pedra ficaria sobre outra.

A história nos diz que isso se cumpriu na ruína do templo. Embora Tito, ao conquistar a cidade, tivesse feito o possível para preservá-lo, não conseguiu impedir que os soldados enfurecidos o destruíssem por completo. A destruição chegou a tal ponto que Turno Rufo arou o terreno onde o templo ficara.

Assim se cumpriu a Escritura: “Sião, por vossa causa, será lavrada como um campo” (Miquéias 3:12). Mais tarde, no tempo de Juliano, o Apóstata, ele incentivou os judeus a reconstruírem o templo em oposição à religião cristã. O que restara das ruínas foi então derrubado para nivelar o terreno para um novo alicerce.

A tentativa, porém, foi frustrada por uma erupção milagrosa de fogo do solo, que destruiu os alicerces lançados e afugentou os construtores. Essa predição da ruína definitiva e irreparável do templo também anuncia o fim do sacerdócio levítico e da lei cerimonial.

  1. Os discípulos não discutiram a verdade nem a justiça dessa sentença e tampouco duvidaram de seu cumprimento. Perguntaram, porém, mais especificamente quando ela se realizaria e quais seriam os sinais de sua aproximação (v. 3). Observe:

(1.) Onde fizeram a pergunta: em particular, enquanto ele estava sentado no monte das Oliveiras. Provavelmente voltava a Betânia e se sentou à beira do caminho para descansar. O monte das Oliveiras ficava diretamente em frente ao templo; dali, Cristo podia contemplá-lo por inteiro, a certa distância.

Ali se sentou como um juiz em seu tribunal, tendo diante de si o templo e a cidade como réus, e assim pronunciou a sentença. Lemos que a glória do Senhor se afastou do templo e foi para o monte (Ezequiel 11:23). Da mesma forma, Cristo, a grande Shechinah, se afasta aqui para esse monte.

(2.) Qual foi a pergunta: “Quando serão essas coisas, e qual será o sinal de tua vinda e do fim do mundo?” Há aqui três questões.

[1.] Alguns pensam que todas se referem a um único acontecimento: a destruição do templo e o fim da igreja e da nação judaicas. O próprio Cristo falara desse evento como sua vinda (Mateus 16:28), e ele seria a consumação da era, pois assim também se pode ler, o fim daquela dispensação.

Ou talvez os discípulos pensassem que a destruição do templo necessariamente seria o fim do mundo. Se aquela casa fosse devastada, o mundo não poderia continuar. Os rabinos costumavam dizer que a casa do santuário era uma das sete coisas por cuja causa o mundo fora criado. Por isso pensavam que, se assim fosse, o mundo não sobreviveria ao templo.

[2.] Outros pensam que a pergunta “Quando serão essas coisas?” se refere à destruição de Jerusalém, enquanto as outras duas dizem respeito ao fim do mundo. Ou a vinda de Cristo pode se referir ao estabelecimento de seu reino evangélico, e o fim do mundo, ao dia do juízo.

Estou mais inclinado a pensar que a pergunta deles não ia além do acontecimento que Cristo acabara de predizer. Outras passagens, porém, mostram que tinham ideias muito confusas sobre os acontecimentos futuros. Talvez, portanto, seja impossível dar à pergunta uma interpretação segura.

Cristo, em sua resposta, não corrigiu expressamente os enganos dos discípulos, algo que dependeria do derramamento do Espírito. Olhou, contudo, para além da pergunta deles e instruiu sua igreja não só sobre os grandes acontecimentos daquela era, especialmente a destruição de Jerusalém, mas também sobre sua segunda vinda no fim dos tempos.

Ele passa imperceptivelmente a falar dela, e é evidente que é esse o assunto do capítulo seguinte, que dá continuidade a este sermão.

Versículos 4 a 31

Predições Terríveis.

Os discípulos haviam perguntado sobre o tempo: “Quando acontecerão essas coisas?” Cristo não lhes diz depois de quantos dias ou anos sua predição se cumpriria, pois não nos cabe conhecer os tempos (Atos 1:7).

Mas também haviam perguntado: “Qual será o sinal?” A essa pergunta ele responde plenamente, pois nos importa compreender os sinais dos tempos (Mateus 16:3).

A profecia diz respeito, em primeiro lugar, a acontecimentos próximos: a destruição de Jerusalém, o fim da igreja e do Estado judaicos, o chamado dos gentios e o estabelecimento do reino de Cristo no mundo.

As profecias do Antigo Testamento tratam diretamente dos assuntos dos judeus e das mudanças de seu Estado, mas, sob a figura desses acontecimentos, apontam mais longe para a igreja do evangelho e o reino do Messias.

Assim são explicadas no Novo Testamento, e contêm expressões próprias desse reino que não se aplicam de outro modo.

Da mesma forma, esta profecia, sob a figura da destruição de Jerusalém, alcança o juízo geral. Como costuma ocorrer nas profecias, algumas passagens se aplicam mais ao tipo, outras ao antítipo; perto do fim, ela aponta mais especificamente para este último.

É digno de nota que as palavras de Cristo aos discípulos visam mais a torná-los cautelosos do que a satisfazer sua curiosidade; mais a prepará-los para os acontecimentos do que a lhes dar uma ideia distinta deles. É esse bom entendimento do tempo que todos devemos desejar, para daí concluir o que Israel deve fazer.

Por isso, esta profecia tem utilidade permanente para a igreja, até o fim dos tempos: o que foi é o que será (Eclesiastes 1:5, 6, 7, 9).

A sequência, as conexões e os presságios dos acontecimentos continuam em grande parte como eram então. Assim, a profecia deste capítulo, embora aponte para aquele acontecimento, permite fazer prognósticos morais e interpretações dos sinais dos tempos que o coração sábio saberá aproveitar.

I. Cristo prediz o aparecimento de enganadores. Começa com um aviso: “Tomai cuidado para que ninguém vos engane”. Os discípulos esperavam saber quando essas coisas aconteceriam, conhecer aquele segredo.

O aviso, porém, refreia sua curiosidade: “Que importa isso a vocês? Cuidem de seu dever, sigam-me e não se deixem desviar de mim”.

Os que mais investigam as coisas secretas que não lhes pertencem são os mais fáceis de iludir pelos sedutores (2 Tessalonicenses 2:3). Ao ouvirem que os judeus, seus inimigos mais obstinados, seriam destruídos, os discípulos poderiam cair em falsa segurança.

Cristo, porém, diz: “Não, vocês estão mais expostos a outros perigos”. Os sedutores são inimigos mais perigosos para a igreja do que os perseguidores.

Três vezes neste discurso ele menciona o aparecimento de falsos profetas. Isso era:

  1. Um presságio da ruína de Jerusalém.

Como justo castigo, aqueles que mataram os verdadeiros profetas foram deixados para cair nas armadilhas de falsos profetas; e os que crucificaram o verdadeiro Messias foram deixados para ser enganados e arruinados por falsos cristos e pretensos messias.

O aparecimento deles dividiu o povo em partidos e facções, tornando sua ruína mais fácil e rápida. O pecado dos muitos que foram desviados por eles contribuiu para completar a medida.

  1. Era uma prova para os discípulos de Cristo e, portanto, adequada a seu estado de provação, para que os aprovados se tornassem manifestos.

Quanto a esses enganadores, observe:

(1.) Os pretextos com que se apresentariam. Satanás causa mais dano quando aparece como anjo de luz: a aparência do maior bem muitas vezes encobre o maior mal.

[1.] Apareceriam falsos profetas (vv. 11-24). Os enganadores alegariam inspiração divina, uma missão direta e espírito de profecia, quando tudo era mentira. Antes já haviam existido homens assim (Jeremias 23:16; Ezequiel 13:6), conforme fora predito (Deuteronômio 13:3).

Alguns pensam que os sedutores aqui indicados eram mestres estabelecidos na igreja, que haviam ganhado reputação nessa função, mas depois traíram a verdade que ensinavam e se voltaram para o erro.

O perigo vindo deles é maior porque despertam menos suspeita. Um só traidor dissimulado dentro da fortaleza pode causar mais dano do que mil inimigos declarados do lado de fora.

[2.] Apareceriam falsos cristos, vindo em nome de Cristo (v. 5), tomando para si o nome próprio dele e dizendo: “Eu sou Cristo”; seriam pseudocristos (v. 24). Naquele tempo havia expectativa geral da vinda do Messias; falavam dele como aquele que haveria de vir. Quando, porém, ele veio, a nação em conjunto o rejeitou.

Aproveitando-se disso, homens ambiciosos de fazer nome para si se apresentaram como o Cristo. Josefo fala de vários desses impostores entre aquele tempo e a destruição de Jerusalém: um certo Teudas, derrotado por Cúspio Fado; outro por Félix; e outro por Festo. Dositeu dizia ser o Cristo predito por Moisés. Orígenes, Contra Celso. Veja Atos 5:36, 37.

Simão, o Mago, alegou ser o grande poder de Deus (Atos 8:10). Em tempos posteriores também houve esses pretendentes. Um deles, cerca de cem anos depois de Cristo, chamou a si mesmo Bar-cochobas, Filho de uma Estrela, mas revelou-se Bar-cosba, Filho de uma Mentira.

Há cerca de cinquenta anos, Sabbati-Levi se apresentou como messias no Império Turco e recebeu grande acolhida dos judeus; pouco depois, porém, sua insensatez ficou manifesta. Veja a História, de sir Paul Rycaut.

A religião papista, na prática, apresenta um falso Cristo. O papa vem em nome de Cristo, como seu vigário, mas invade e usurpa todos os seus ofícios. Assim se torna seu rival e, como tal, seu inimigo, um enganador e um anticristo.

[3.] Esses falsos cristos e falsos profetas teriam agentes e emissários ativos em toda parte para atrair as pessoas a si (v. 23). Quando as perturbações públicas forem grandes e ameaçadoras, e as pessoas se agarrarem a qualquer coisa que pareça oferecer livramento, Satanás aproveitará para iludi-las.

Dirão que há um Cristo aqui ou ali. Não lhes deem atenção. O verdadeiro Cristo não contendia nem clamava; também não se dizia dele: “Eis, aqui!” ou “Eis, ali!” (Lucas 17:21). Portanto, se alguém disser isso a respeito dele, considerem-no uma tentação.

Os eremitas, que situam a religião na vida monástica, dizem: “Ele está no deserto”. Os sacerdotes, que fizeram da hóstia consagrada o Cristo, dizem: “Ele está en tois tameiois, nos armários, nas câmaras secretas: eis que está neste santuário, naquela imagem”.

Assim, alguns reservam a presença espiritual de Cristo a um partido ou a uma corrente de pensamento, como se tivessem o monopólio de Cristo e do cristianismo e como se o reino de Cristo tivesse de permanecer ou cair, viver ou morrer, com eles. “Eis que ele está nesta igreja, naquele concílio.”

Cristo, porém, é tudo em todos. Não está restrito a este ou àquele lugar, mas encontra seu povo com uma bênção em todo lugar onde faz recordar seu nome.

(2.) As provas que apresentariam para sustentar esses pretextos: mostrariam grandes sinais e maravilhas (v. 24). Não seriam milagres verdadeiros, pois estes são selo divino e confirmam a doutrina de Cristo.

Se alguém oferecer sinais e maravilhas para nos afastar dela, devemos recorrer à regra antiga (Deuteronômio 13:1-3).

Ainda que o sinal ou a maravilha aconteça, não sigam quem queira levá-los a servir outros deuses ou crer em outros cristos, pois o Senhor, Deus de vocês, os está provando. Aquelas, porém, eram maravilhas mentirosas (2 Tessalonicenses 2:9), operadas, com a permissão de Deus, por Satanás, o príncipe do poder do ar.

Não se diz que fariam milagres, mas que mostrariam grandes sinais. Não passam de aparência: iludem a credulidade dos homens com relatos falsos, enganam-lhes os sentidos com truques de prestidigitação ou empregam artes de adivinhação, como os magos do Egito com seus encantamentos.

(3.) O êxito que teriam nessas tentativas:

[1.] Enganariam a muitos (v. 5 e, novamente, v. 11). Repare: o diabo e seus instrumentos podem conseguir muito ao enganar as pobres almas.

Poucos encontram a porta estreita, mas muitos são arrastados para o caminho largo. Muitos serão iludidos pelos sinais e maravilhas; muitos serão atraídos pela esperança de livramento de suas opressões.

Repare: nem milagres nem multidões são sinais certos da verdadeira igreja, pois o mundo inteiro se admira da besta (Apocalipse 13:3).

[2.] Enganariam, se possível, até os próprios eleitos (v. 24). Isso indica, primeiro, a força do engano. Muitos serão levados por ele, tão forte será a corrente, até pessoas que se pensava estarem firmes.

Conhecimento, dons, instrução, posição elevada e longa profissão de fé não os protegerão; apesar de tudo isso, muitos serão enganados. Somente a graça onipotente de Deus, conforme seu propósito eterno, servirá de proteção.

Segundo, indica a segurança dos eleitos em meio a esse perigo, pressuposta na ressalva “se possível”, que claramente implica não ser possível. Eles são guardados pelo poder de Deus, para que permaneça o propósito de Deus segundo a eleição.

É possível que caiam os que foram iluminados (Hebreus 6:4, 5, 6), mas não os que foram eleitos. Se os escolhidos de Deus fossem enganados, a escolha divina seria frustrada, o que é inconcebível; pois os que ele predestinou, também chamou, justificou e glorificou (Romanos 8:30).

Foram dados a Cristo; e, de todos os que lhe foram dados, ele não perderá nenhum (João 10:28). Grócio entende isso como a grande dificuldade de afastar os primeiros cristãos de sua religião e cita a expressão usada proverbialmente por Galeno.

Ao falar de algo muito difícil e moralmente impossível, ele diz: “Seria mais fácil afastar um cristão de Cristo”.

(4.) Os avisos repetidos que nosso Salvador dá aos discípulos para que fiquem de guarda contra eles. Ele os avisou para que vigiassem (v. 25): “Eis que lhes disse de antemão”. Quem é avisado do lugar onde sofrerá um ataque pode proteger-se, como fez o rei de Israel (2 Reis 6:9, 10).

Repare: os avisos de Cristo visam a manter-nos vigilantes. Embora os eleitos sejam preservados do engano, serão preservados mediante os meios determinados e a devida atenção aos avisos da Palavra. Somos guardados pela fé, a fé na palavra que Cristo nos disse de antemão.

[1.] Não devemos crer nos que dizem que o Cristo está aqui ou ali (v. 23). Cremos que o verdadeiro Cristo está à direita de Deus e que sua presença espiritual se encontra onde dois ou três se reúnem em seu nome.

Portanto, não creiam nos que querem afastá-los de Cristo no céu, dizendo que ele está em algum lugar da terra, nem nos que querem afastá-los da igreja universal na terra, dizendo que ele está aqui ou ali. Não creiam nisso.

Repare: não há inimigo maior da verdadeira fé do que a credulidade vã. O ingênuo acredita em toda palavra e corre atrás de todo grito. Memneso apistein: cuidem para não acreditar.

[2.] Não devemos seguir os que dizem: “Ele está no deserto” ou “Está nas câmaras secretas” (v. 26). Não devemos dar ouvidos a todo charlatão e pretendente, nem seguir qualquer um que levante o dedo para nos apontar um novo Cristo e um novo evangelho.

“Não saiam, pois, se o fizerem, correm o risco de ser capturados por eles. Mantenham-se, portanto, fora do perigo; não sejam levados por todo vento. A curiosidade vã de muitos em sair os conduziu a uma apostasia fatal. Sua força numa hora dessas é permanecer quietos, com o coração firmado pela graça.”

II. Cristo prediz guerras e grandes perturbações entre as nações (v. 6, 7). Quando ele nasceu, havia paz universal no império, e o templo de Jano estava fechado.

Não pensem, porém, que Cristo veio trazer ou manter essa espécie de paz (Lucas 12:51). Não: sua cidade e sua muralha serão construídas mesmo em tempos difíceis, e até as guerras promoverão sua obra.

Desde que os judeus rejeitaram Cristo e ele lhes deixou a casa deserta, a espada jamais se afastou dela. A espada do Senhor nunca descansou, pois ele a havia encarregado de agir contra uma nação hipócrita e contra o povo sobre o qual recai sua cólera; por meio dela, trouxe-lhes a ruína.

Temos aqui, 1. A predição do acontecimento daquele tempo: logo ouviriam falar de guerras e rumores de guerras. Quando há guerras, ouve-se falar delas, pois “toda batalha do guerreiro se dá com ruído confuso” (Isaías 9:5). Veja como isso é terrível (Jeremias 4:19): “Ouviste, ó minha alma, o alarme da guerra!”

Até os tranquilos na terra e os menos curiosos sobre as novidades não podem deixar de ouvir os rumores de guerra. Vejam o resultado de recusar o evangelho!

Aqueles que não querem ouvir os mensageiros da paz terão de ouvir os mensageiros da guerra. Deus tem uma espada pronta para vingar a causa de sua aliança, sua nova aliança.

Nação se levantará contra nação: uma parte ou província da nação judaica contra outra, uma cidade contra outra (2 Crônicas 15:5, 6). Na mesma província ou cidade, um partido ou facção se levantará contra outro, até que se devorem mutuamente e se despedacem uns contra os outros (Isaías 9:19-21).

  1. A prescrição do dever daquele tempo: “Vede que não fiqueis perturbados”. É possível ouvir notícias tão tristes e não se perturbar? Contudo, quando o coração está firme e confia em Deus, é conservado em paz e não teme nem as más notícias de guerras e seus rumores, nem o grito de “Às armas! Às armas!”

“Não vos perturbeis”: Me throeithe, isto é, não se deixem lançar em confusão ou agitação, nem em dores como as de uma mulher grávida tomada pelo susto; cuidem para não se perturbar.

Repare: é preciso cuidado e vigilância constantes para impedir que a inquietação entre no coração quando há guerras lá fora. Contraria a vontade de Cristo que seu povo tenha o coração perturbado, mesmo em tempos difíceis.

Não devemos nos perturbar por duas razões:

(1.) Porque somos advertidos a esperar essas coisas. Os judeus devem ser castigados, e a ruína deve cair sobre eles. Por meio disso, a justiça de Deus e a honra do Redentor devem ser afirmadas; todas essas coisas, portanto, devem acontecer. A palavra saiu da boca de Deus e será cumprida no tempo devido.

Repare: considerar a imutabilidade dos desígnios divinos, que governam todos os acontecimentos, deve serenar nosso espírito, aconteça o que acontecer. Deus apenas realiza aquilo que está determinado para nós; nossa inquietação desmedida equivale a contestar tal determinação.

Aceitemos, portanto, o que acontecerá, pois essas coisas devem suceder, não só necessitate decreti, como produto do desígnio divino, mas também necessitate medii, como meio para alcançar um fim ulterior.

A casa antiga precisa ser demolida, embora isso não se faça sem ruído, poeira e perigo, antes que a nova estrutura possa ser erguida.

As coisas abaladas, e gravemente abaladas, precisam ser removidas para que permaneçam as inabaláveis (Hebreus 12:27).

(2.) Porque ainda devemos esperar coisas piores: “O fim ainda não chegou”. Não é ainda o fim dos tempos. Enquanto o tempo durar, devemos esperar dificuldades, e o fim de uma aflição será apenas o começo de outra.

Ou então: “Ainda não é o fim dessas tribulações. Mais de um juízo terá de ser empregado para derrubar o poder judaico. Outras taças de cólera precisam ser derramadas. Passou apenas uma desgraça; outras virão. Mais flechas da aljava de Deus ainda serão lançadas contra eles.”

“Portanto, não se perturbem nem cedam ao medo ou à inquietação. Não sucumbam ao peso presente; antes, reúnam toda a força e o ânimo que possuem para enfrentar o que ainda os aguarda. Não se perturbem ao ouvir falar de guerras e rumores de guerras; o que acontecerá quando vierem a fome e a peste?”

Se até compreender o relato já nos causa aflição (Isaías 28:19), como será sentir o golpe ao atingir ossos e carne? Se correr com homens a pé nos cansa, como competiremos com cavalos? E, se um pequeno riacho no caminho nos assusta, que faremos diante das cheias do Jordão? (Jeremias 12:5).

III. Ele prediz outros juízos enviados mais diretamente por Deus: fomes, pestes e terremotos. A fome costuma resultar da guerra, e a peste, da fome.

Esses eram os três juízos entre os quais Davi deveria escolher um. Ficou em grande aperto, pois não sabia qual era o pior. Que terrível devastação causarão quando caírem todos juntos sobre um povo!

Além da guerra, que já basta, haverá:

  1. Fome, representada pelo cavalo preto sob o terceiro selo (Apocalipse 6:5, 6). Lemos sobre uma fome na Judeia não muito depois do tempo de Cristo, que trouxe grande empobrecimento (Atos 11:28). A fome mais severa, porém, foi a que assolou Jerusalém durante o cerco. Veja Lamentações 4:9, 10.

  2. Pestes, representadas pelo cavalo pálido, com a morte montada nele e a sepultura em seus calcanhares, sob o quarto selo (Apocalipse 6:7, 8). Elas destroem sem distinção e, em pouco tempo, amontoam cadáveres.

  3. Terremotos em diversos lugares, ou de um lugar a outro, perseguindo os que fogem deles, como se fugia do terremoto nos dias de Uzias (Zacarias 14:5). Os terremotos causaram grandes devastações, tanto recentemente como no passado: mataram muitos e aterrorizaram ainda mais.

É digno de nota que, nas visões do Apocalipse, os terremotos anunciam bem, não mal, para a igreja (Apocalipse 6:12; compare com Apocalipse 6:15; 11:12, 13, 19; 16:17-19).

Quando Deus abala terrivelmente a terra (Isaías 2:21), é para sacudir dela os ímpios (Jó 38:13) e introduzir o Desejado de todas as nações (Ageu 2:6, 7).

Aqui, porém, são apresentados como juízos terríveis e, ainda assim, apenas o começo das dores, odinon, dores de parto rápidas e violentas, mas também prolongadas. Repare: quando Deus julga, prevalece; quando começa com cólera, leva a obra até o fim (1 Samuel 3:12).

Ao considerarmos a eternidade de sofrimento que aguarda os que obstinadamente rejeitam Cristo e seu evangelho, podemos dizer dos maiores juízos temporais: “Eles são apenas o começo das dores. Por pior que estejam as coisas para essas pessoas, outras piores ainda virão”.

IV. Cristo prediz a perseguição de seu povo e de seus ministros e, em consequência, uma apostasia geral e o declínio da religião (v. 9, 10, 12). Observe:

  1. A própria cruz é predita (v. 9). Repare: entre todos os acontecimentos futuros, nossos sofrimentos nos dizem tanto respeito quanto qualquer outro, embora em geral tenhamos tão pouca vontade de conhecê-los.

Quando a fome e as pestes se espalharem, atribuirão esses males aos cristãos e usarão isso como pretexto para persegui-los: Christianos ad leones, “Aos leões com os cristãos”.

Cristo já havia dito aos discípulos, quando os enviou pela primeira vez, quantas agruras sofreriam. Até então, porém, haviam experimentado pouco disso.

Por isso, ele lhes recorda que, quanto menos haviam sofrido, mais lhes restava para completar (Colossenses 1:24).

(1.) Serão afligidos por correntes e prisões, escárnios cruéis e açoites, como o bendito Paulo (2 Coríntios 11:23-25). Não morrerão de uma vez, mas serão mortos o dia inteiro, muitas vezes à beira da morte, mortos de modo a sentir que morrem, feitos espetáculo ao mundo (1 Coríntios 4:9, 11).

(2.) Serão mortos. Tão cruéis são os inimigos da igreja que nada menos do que o sangue dos santos os satisfará; têm sede dele, sugam-no e o derramam como água.

(3.) Serão odiados por todas as nações por causa do nome de Cristo, como ele já lhes dissera (Mateus 10:22). O mundo em geral estava impregnado de inimizade e malícia contra os cristãos. Embora hostis aos pagãos, os judeus nunca foram perseguidos por eles como os cristãos foram.

Os cristãos eram odiados pelos judeus dispersos entre as nações e eram alvo comum da malícia do mundo. Que pensar deste mundo, no qual os melhores homens receberam o pior tratamento? É a causa do martírio que faz o mártir e o consola: eram odiados por causa de Cristo.

A profissão e a pregação do nome dele enfureciam tanto as nações contra os cristãos! O diabo percebeu que assim seu reino sofria um golpe fatal e que seu tempo provavelmente seria curto; por isso desceu com grande cólera.

  1. O escândalo da cruz (vv. 10-12). Satanás promove assim seus interesses pela força das armas, embora Cristo, por fim, extraia glória dos sofrimentos de seu povo e de seus ministros. São preditos aqui três efeitos ruins da perseguição.

(1.) A apostasia de alguns. Quando professar o cristianismo começar a custar caro, muitos se escandalizarão. Primeiro se voltarão contra a própria profissão de fé e depois a abandonarão. Começarão a procurar motivos de queixa contra sua religião, a se desapegar dela, a se cansar dela e, por fim, a renegá-la.

Repare: [1.] Não é novidade, embora seja estranho, que pessoas que conheceram o caminho da justiça se afastem dele. Paulo muitas vezes lamenta os desertores que começaram bem, mas foram impedidos por alguma coisa.

Estavam conosco, mas saíram do nosso meio porque nunca foram realmente dos nossos (1 João 2:19). Isso nos é dito de antemão.

[2.] Tempos de sofrimento são tempos de abalo. Caem na tempestade aqueles que permaneceram de pé quando o tempo estava bom, como os ouvintes representados pelo solo pedregoso (Mateus 13:21). Muitos seguem Cristo à luz do sol, mas, num dia nublado e escuro, cuidam de si e o deixam cuidar de si mesmo.

Gostam de sua religião enquanto ela custa pouco e podem conservá-la sem arranhar a pele. Se, porém, professá-la lhes custar alguma coisa, abandonam-na imediatamente.

(2.) A maldade de outros. Quando a perseguição se torna comum, a inveja, a inimizade e a malícia se difundem de modo espantoso entre os homens, como por contágio. A caridade, a ternura e a moderação passam a ser vistas como singularidades, fazendo a pessoa parecer uma ave pintada.

Então trairão uns aos outros: “Os que abandonaram traiçoeiramente sua religião odiarão e trairão os que permanecem fiéis a ela, embora antes lhes fingissem amizade”. Os apóstatas em geral se tornaram os perseguidores mais amargos e violentos. Repare: tempos de perseguição são tempos de revelação.

Lobos em pele de ovelha tiram então o disfarce e aparecem como lobos. Trairão e odiarão uns aos outros. Os tempos serão necessariamente perigosos quando a traição e o ódio, duas das piores coisas, por serem diretamente contrárias a duas das melhores, a verdade e o amor, passarem a predominar.

Isso parece referir-se ao tratamento bárbaro que as facções rivais entre os judeus dispensaram umas às outras. Como justo castigo, aqueles que devoravam o povo de Deus como se comessem pão foram abandonados para morder e devorar uns aos outros até se consumirem.

Ou pode referir-se ao dano causado aos discípulos de Cristo pelos que lhes eram mais próximos (Mateus 10:21): “O irmão entregará o irmão à morte”.

(3.) O declínio e esfriamento geral da maioria (v. 12). Em tempos de sedução, quando surgem falsos profetas, e em tempos de perseguição, quando os santos são odiados, esperem estas duas coisas:

[1.] O aumento da iniquidade. Embora o mundo sempre esteja mergulhado na maldade, há tempos em que se pode dizer que a iniquidade aumenta especialmente. Isso ocorre quando se torna mais disseminada do que de costume, como no mundo antigo, em que toda carne havia corrompido seu caminho.

Ocorre também quando se torna mais excessiva do que de costume, ao erguer-se a violência como vara da maldade (Ezequiel 7:11), a ponto de parecer que o inferno se soltou nas blasfêmias contra Deus e na inimizade contra os santos.

[2.] O esfriamento do amor, consequência do anterior: “Por se multiplicar a iniquidade, o amor de muitos esfriará”. Entenda-se isso, em geral, como a verdadeira e séria piedade, resumida no amor.

É muito comum que os que professam a religião esfriem nessa profissão quando os ímpios estão ardorosos em sua maldade, como a igreja de Éfeso deixou seu primeiro amor em tempos ruins (Apocalipse 2:2-4).

Ou se pode entender mais especificamente como o amor fraternal. Quando aumenta a iniquidade que seduz e persegue, essa graça costuma esfriar. Os cristãos passam a evitar uns aos outros e a desconfiar uns dos outros; os afetos se afastam, surgem distâncias e partidos, e o amor desaparece.

O diabo é o acusador dos irmãos, não só diante de seus inimigos, o que faz aumentar a iniquidade perseguidora, mas também de uns diante dos outros, o que esfria o amor de muitos.

Isso oferece uma perspectiva triste dos tempos: um declínio tão grande do amor. Primeiro, porém, é o amor de muitos, não de todos. Mesmo nos piores tempos, Deus conserva um remanescente que mantém a integridade e o zelo, como nos dias de Elias, quando este julgava ter ficado sozinho.

Segundo, esse amor esfriou, mas não morreu: diminui, porém não é inteiramente abandonado. Há vida na raiz, que se mostrará quando o inverno passar. A nova natureza pode esfriar, mas não envelhecer, pois, nesse caso, decairia e desapareceria.

  1. O consolo oferecido diante desse escândalo da cruz, para sustentar o povo do Senhor (v. 13): quem perseverar até o fim será salvo. (1.) Aos que desejam o bem da causa de Cristo em geral, consola saber que, embora muitos se escandalizem, alguns perseverarão até o fim.

Ao vermos tantos recuarem, tememos que a causa de Cristo caia por falta de defensores e que seu nome seja abandonado e esquecido por falta de quem o professe. Mas mesmo nesse tempo existe um remanescente segundo a eleição da graça (Romanos 11:5).

Isso se diz do mesmo tempo ao qual esta profecia se refere: um remanescente que não recua para a perdição, mas crê e persevera para a salvação da alma.

Perseveram até o fim da vida, até o fim de seu atual estado de provação ou até o fim desses tempos de sofrimento e prova, até o último confronto, mesmo que sejam chamados a resistir até ao sangue.

(2.) Aos que assim perseveram até o fim e sofrem por sua constância, consola saber que serão salvos. A perseverança, pela graça gratuita, conquista a coroa e a usará. Serão salvos: talvez sejam livrados de suas tribulações e sobrevivam a elas com alegria neste mundo; mas aqui se tem em vista a salvação eterna.

Os que perseveram até o fim de seus dias recebem então o fim de sua fé e esperança, a salvação da alma (1 Pedro 1:9; Romanos 2:7; Apocalipse 3:20). A coroa da glória compensará tudo. Considerá-la com fé nos capacitará a preferir morrer na fogueira com os perseguidos a viver num palácio com os perseguidores.

V. Ele prediz a pregação do evangelho em todo o mundo (v. 14). Este evangelho será pregado, e então virá o fim. Observe aqui: 1. Ele é chamado evangelho do reino porque revela o reino da graça, que conduz ao reino da glória, estabelece o reino de Cristo neste mundo e assegura o nosso no outro.

  1. Mais cedo ou mais tarde, este evangelho será pregado em todo o mundo, a toda criatura, e todas as nações serão feitas discípulas por meio dele. Nele, Cristo deve ser salvação até os confins da terra. Para esse fim, o dom de línguas constituiu as primícias do Espírito.

  2. O evangelho é pregado como testemunho a todas as nações: uma declaração fiel do pensamento e da vontade de Deus quanto ao dever que exige do ser humano e à recompensa que este pode esperar dele.

É um registro (1 João 5:11), um testemunho a favor dos que creem, de que serão salvos, e contra os que persistem na incredulidade, de que serão condenados. Veja Marcos 16:16. Mas por que isso aparece aqui?

(1.) Indica-se que, antes da destruição de Jerusalém, o evangelho seria, se não ouvido, pelo menos conhecido por ouvir dizer em todo o mundo então conhecido.

A igreja do Antigo Testamento não seria dissolvida por completo antes que a do Novo estivesse razoavelmente estabelecida, tivesse adquirido firme presença e começado a se destacar. Melhor uma igreja corrompida e degenerada do que nenhuma igreja.

Em menos de quarenta anos após a morte de Cristo, o som do evangelho havia alcançado os confins da terra (Romanos 10:18). Paulo o pregou plenamente desde Jerusalém e pelos arredores até o Ilírico; os outros apóstolos também não ficaram ociosos.

A perseguição aos santos em Jerusalém ajudou a dispersá-los. Assim, foram por toda parte pregando a Palavra (Atos 8:1-4). Quando as notícias do Redentor chegarem a todas as partes do mundo, virá o fim do Estado judaico.

Desse modo, ao matar Cristo, os judeus provocaram justamente o que pretendiam impedir: todos creram nele, e os romanos vieram e lhes tiraram o lugar e a nação (João 11:48). Paulo fala do evangelho como chegado a todo o mundo e pregado a toda criatura (Colossenses 1:6-23).

(2.) Indica-se também que, mesmo em tempos de tentação, dificuldade e perseguição, o evangelho do reino será pregado e difundido. Abrirá caminho através da maior oposição. Embora os inimigos da igreja se tornem muito ardorosos e muitos de seus amigos esfriem, o evangelho ainda será pregado.

Mesmo quando muitos caírem pela espada e pelo fogo, e muitos agirem perversamente e forem corrompidos por lisonjas, o povo que conhece seu Deus será fortalecido para a maior de todas as realizações: instruir a muitos. Veja Daniel 11:32, 33 e um exemplo em Filipenses 1:12-14.

(3.) O propósito principal aqui parece ser mostrar que o fim do mundo só virá quando o evangelho tiver realizado sua obra nele. O evangelho continuará sendo pregado, e essa obra prosseguirá depois da morte de vocês. Todas as nações, cedo ou tarde, terão desfrutado do evangelho ou o terão recusado.

Então virá o fim: o reino será entregue a Deus Pai, o mistério de Deus será concluído, o corpo místico estará completo, e as nações terão sido convertidas e salvas ou convencidas de sua culpa e silenciadas pelo evangelho.

Virá então o fim sobre o qual ele dissera antes (v. 6, 7): ainda não, não antes de se cumprirem esses desígnios intermediários.

O mundo permanecerá enquanto houver algum escolhido de Deus ainda não chamado. Quando todos estiverem reunidos, será imediatamente entregue ao fogo.

VI. Cristo prediz mais especificamente a ruína que viria sobre o povo judeu, sua cidade, seu templo e sua nação (v. 15 e seguintes). Aqui responde mais diretamente às perguntas dos discípulos sobre a desolação do templo.

Suas palavras lhes serviriam tanto de orientação quanto de consolo diante daquele grande acontecimento. Ele descreve as diversas etapas daquela calamidade, comuns nas guerras.

  1. Os romanos colocariam a abominação da desolação no lugar santo (v. 15). (1.) Alguns entendem que se trata de uma imagem ou estátua erguida no templo por algum governador romano. Isso ofendeu profundamente os judeus, incitou-os à revolta e, assim, trouxe sobre eles a desolação.

A imagem de Júpiter Olímpico que Antíoco mandou colocar sobre o altar de Deus é chamada Bdelygma eremoseos, “a abominação da desolação”, a mesma expressão aqui usada pelo historiador (1 Macabeus 1:54).

Desde o cativeiro na Babilônia, nada era nem poderia ser mais repugnante aos judeus do que uma imagem no lugar santo. Isso se viu na forte oposição que fizeram quando Calígula quis colocar sua estátua ali. A consequência teria sido fatal se Petrônio não tivesse impedido o ato e chegado a um acordo sobre a questão.

Herodes, contudo, colocou uma águia acima do portão do templo; e, segundo alguns, a estátua de Tito foi erguida no templo.

(2.) Outros preferem interpretá-la pela passagem paralela (Lucas 21:20): “Quando virdes Jerusalém cercada de exércitos”. Jerusalém era a cidade santa, e Canaã, a terra santa. Os judeus consideravam o monte Moriá, nas proximidades de Jerusalém, um solo especialmente santo por sua proximidade do templo.

O exército romano acampou na região que cercava Jerusalém: essa era a abominação que causava a desolação. A terra do inimigo é chamada terra que você aborrece (Isaías 7:16). Assim, o exército inimigo pode bem ser chamado abominação para um povo fraco, mas obstinado.

Diz-se que isso foi anunciado pelo profeta Daniel, que falou do Messias e de seu reino com mais clareza do que qualquer outro profeta do Antigo Testamento. Ele fala de uma abominação desoladora a ser estabelecida por Antíoco (Daniel 11:31; 12:11).

A passagem à qual nosso Salvador se refere, porém, está na mensagem que o anjo levou a Daniel (Daniel 9:27) sobre o que aconteceria no fim das setenta semanas, muito depois daquele primeiro acontecimento: por causa da propagação das abominações ou, como diz a nota à margem, com os exércitos abomináveis, ele trará a desolação. Esta última leitura corresponde de perto à profecia daqui.

Exércitos idólatras podem bem ser chamados abomináveis. Alguns entendem ainda que os tumultos, levantes, facções abomináveis e rebeliões na cidade e no templo podem ser incluídos, ao menos em parte, na abominação desoladora.

Cristo os remete à profecia de Daniel para que vejam que a ruína da cidade e do templo já fora anunciada no Antigo Testamento. Isso confirmaria sua predição e removeria a hostilidade que ela suscitava.

Dali também poderiam deduzir o tempo da ruína, pouco depois da eliminação do Messias, o príncipe; o pecado que a provocaria, a rejeição dele; e a certeza do acontecimento: trata-se de uma desolação determinada.

Assim como confirmou a lei por seus preceitos, Cristo confirmou as profecias do Antigo Testamento por suas predições. É proveitoso comparar as palavras de Cristo com os textos do Antigo Testamento.

Ao fazer referência a uma profecia, geralmente obscura e difícil, Cristo acrescenta esta observação: “Quem lê, entenda”; quem lê a profecia de Daniel deve entender que ela se cumprirá em breve na devastação de Jerusalém.

Repare: os que leem as Escrituras devem esforçar-se para entendê-las; caso contrário, sua leitura pouco aproveita. Não podemos usar o que não entendemos. Veja João 5:39; Atos 8:30. O anjo que entregou a profecia a Daniel o incentivou a conhecer e entender (Daniel 9:25).

Não devemos perder a esperança de entender mesmo as profecias obscuras. A grande profecia do Novo Testamento se chama revelação, não segredo. As coisas reveladas nos pertencem e, portanto, devem ser investigadas com humildade e diligência.

Ou “entenda” pode significar não só compreender as passagens da Escritura sobre esses acontecimentos, mas, por meio delas, compreender os tempos (1 Crônicas 12:32).

Segundo outra leitura, significa “observe e repare”. Que o leitor tenha certeza: apesar das esperanças vãs com que o povo iludido se alimenta, os exércitos abomináveis trarão a desolação.

  1. Os meios de preservação aos quais as pessoas sensatas deveriam recorrer (v. 16, 20): “Então, os que estiverem na Judeia fujam”. Concluam que não há outro meio de salvar-se senão a fuga. Podemos considerar isso:

(1.) Uma predição da própria ruína. Ela seria irresistível. Até os mais corajosos não poderiam fazer-lhe frente nem resistir-lhe; teriam de recorrer ao último recurso: sair do caminho do perigo.

Isso lembra aquilo em que Jeremias tanto insistiu, mas em vão, quando Jerusalém foi sitiada pelos caldeus: resistir de nada serviria; o mais sábio seria render-se e negociar a capitulação. Da mesma forma, para mostrar a inutilidade de resistir até o fim, Cristo manda cada um escapar pelo melhor caminho.

(2.) Uma orientação aos seguidores de Cristo. Eles não deviam dizer: “Façamos uma aliança” com os que lutavam contra os romanos para preservar sua cidade e nação apenas com o fim de gastar as riquezas de ambas na satisfação de suas paixões.

É a esses conflitos dos judeus com o poder romano, anos antes de sua derrota final, que o apóstolo se refere em Tiago 4:1-3.

Deviam, antes, aceitar o decreto já pronunciado e abandonar rapidamente a cidade e o país, como se sai de uma casa prestes a cair ou de um navio a afundar; como Ló saiu de Sodoma e Israel, das tendas de Datã e Abirão. Cristo lhes mostra:

[1.] Para onde deveriam fugir: da Judeia para os montes. Não os montes próximos a Jerusalém, mas os dos recantos distantes do país. Ali encontrariam algum abrigo, mais por estarem ocultos do que pela força do lugar. Diz-se que Israel foi disperso pelos montes (2 Crônicas 18:16); veja também Hebreus 11:38.

Estariam mais seguros nas covas dos leões e nos montes dos leopardos do que entre os judeus revoltosos ou os romanos enfurecidos. Repare: em tempos de perigo iminente, buscar nossa preservação por todos os meios bons e honestos é não só permitido, mas nosso dever.

Se Deus abre uma porta de escape, devemos sair por ela; do contrário, não confiamos nele, mas o colocamos à prova. Pode chegar a hora em que mesmo os que vivem na Judeia, onde Deus é conhecido e seu nome é grande, terão de fugir para os montes.

Contanto que saiamos apenas do caminho do perigo, sem abandonar o caminho do dever, podemos confiar que Deus proverá abrigo aos seus desterrados (Isaías 16:4, 5).

Em tempos de calamidade pública, quando está claro que não podemos ser úteis em casa e podemos estar seguros fora dela, a Providência nos chama a fugir. Quem foge pode voltar a lutar.

[2.] Com que pressa deveriam fugir (v. 17, 18). A vida correria perigo iminente; o açoite mataria de repente. Por isso, ao ouvir o alarme, quem estivesse no terraço não deveria descer para dentro de casa a fim de cuidar de seus bens, mas tomar o caminho mais curto para escapar.

Da mesma forma, o que estivesse no campo agiria com mais sabedoria se corresse imediatamente, sem voltar para buscar a roupa ou os bens de casa, por duas razões.

Primeiro, o tempo gasto para arrumar suas coisas atrasaria a fuga. Repare: quando a morte está à porta, demorar é perigoso; Ló recebeu a ordem: “Não olhes para trás”.

Os que estão convencidos da miséria do estado de pecado, da ruína que os aguarda nele e, portanto, da necessidade de fugir para Cristo devem cuidar para não perecer eternamente por adiar a fuga, apesar de toda essa convicção.

Segundo, levar a roupa e os demais bens móveis e objetos de valor apenas os sobrecarregaria e dificultaria a fuga. Os sírios, ao fugir, abandonaram as vestes (2 Reis 7:15).

Numa hora dessas, devemos ser gratos se a vida nos for dada como despojo, mesmo que nada mais possamos salvar (Jeremias 45:4, 5). A vida vale mais do que o alimento (Mateus 6:25).

Os que levaram menos coisas fugiram com mais segurança. Cantabit vacuus coram latrone viator: o viajante sem dinheiro nada tem a perder para os ladrões.

Foi aos próprios discípulos, que tinham morada e tesouro no céu e vestes duráveis que o inimigo não lhes podia roubar, que Cristo recomendou esse desprendimento da casa e da roupa.

Omnia mea mecum porto, “Levo comigo todos os meus bens”, disse o filósofo Bias quando fugiu de mãos vazias. Quem tem a graça no coração leva consigo tudo o que possui mesmo depois de ser despojado de todo o resto.

Os que ouviram Cristo dizer essas palavras não viveram até aquele dia sombrio, com a única exceção de João entre os doze. Não precisaram esconder-se nos montes: Cristo os escondeu no céu. Deixaram, porém, essa orientação a seus sucessores na profissão de fé, que a seguiram e se beneficiaram dela.

Quando os cristãos de Jerusalém e da Judeia viram a ruína aproximar-se, todos se retiraram para uma cidade chamada Pela, além do Jordão, onde ficaram seguros. Assim, entre os muitos milhares que morreram na destruição de Jerusalém não havia sequer um cristão. Veja Eusébio, História Eclesiástica, livro 3, capítulo 5.

Assim o prudente prevê o mal e se esconde (Provérbios 22:3; Hebreus 11:7). Esse aviso não foi mantido em segredo. O Evangelho de Mateus foi publicado muito antes da destruição, de modo que outros também poderiam ter-se beneficiado dele.

O fato de perecerem por não crer nesse aviso prefigurava sua perdição eterna por não crer nos avisos de Cristo acerca da cólera futura.

[3.] Para quem aquele tempo seria especialmente difícil (v. 19): “Ai das que estiverem grávidas e das que amamentarem”. Ao mesmo acontecimento se refere a palavra de Cristo ao morrer (Lucas 23:29): dirão que são bem-aventurados os ventres que nunca deram à luz e os seios que nunca amamentaram.

Felizes os que não têm filhos para vê-los assassinados; infelizes sobretudo as mulheres que então estiverem grávidas ou amamentando, pois sua situação será a mais dolorosa.

Primeiro, a fome lhes será particularmente penosa ao verem a língua do bebê grudada ao céu da boca pela sede, enquanto a calamidade as tornará mais cruéis do que os monstros marinhos (Lamentações 4:3, 4).

Segundo, a espada lhes será especialmente terrível nas mãos de homens de furor pior que o das feras. Terrível é o parto quando o conquistador enfurecido abre o ventre das grávidas (2 Reis 15:16; Oseias 13:16; Amós 1:13), ou quando as crianças nascem para serem entregues a seus assassinos (Oseias 9:13).

Terceiro, a fuga lhes será também extremamente penosa. A grávida não consegue apressar-se nem ir longe. O bebê que mama não pode ser deixado para trás; e, se o fosse, poderia a mãe esquecê-lo e não ter compaixão dele?

Se ela o levar, atrasará a fuga e exporá a própria vida. O bebê correrá o risco de sofrer o destino de Mefibosete, que ficou aleijado em consequência de uma queda durante a fuga de sua ama (2 Samuel 4:4).

[4.] Pelo que deveriam orar naquele tempo: que a fuga não acontecesse no inverno nem no dia de sábado (v. 20). Observe, em geral, que convém aos discípulos de Cristo orar muito em tempos de calamidade pública.

A oração é remédio para toda ferida, sempre oportuna e particularmente apropriada quando somos afligidos por todos os lados.

Não há alternativa à fuga: o decreto já foi pronunciado. Deus não será persuadido a retirar sua cólera, nem mesmo se Noé, Daniel e Jó se apresentassem diante dele. Basta: não se fale mais disso; procurem lidar da melhor maneira possível com a situação presente.

Quando não puderem orar com fé para que não sejam forçados a fugir, orem para que as circunstâncias da fuga sejam ordenadas com bondade. Embora o cálice não passe de vocês, a forma extrema do juízo pode ser evitada.

Repare: Deus dispõe as circunstâncias dos acontecimentos, e elas às vezes fazem grande diferença para um lado ou para o outro. Por isso, nelas nossos olhos devem estar sempre voltados para ele. Ao mandar que peçam esse favor, Cristo indica seu propósito de concedê-lo.

Em meio a uma calamidade geral, não devemos ignorar uma bondade relativa às circunstâncias: percebamos e reconheçamos em que a situação poderia ter sido pior. Cristo ainda manda seus discípulos orar por si e pelos amigos para que, se forem forçados a fugir, isso ocorra no momento mais conveniente.

Repare: quando a dificuldade se anuncia ainda distante, é bom acumular de antemão uma reserva de orações. Deviam pedir, primeiro, que sua fuga, se fosse da vontade de Deus, não ocorresse no inverno, quando os dias são curtos, o tempo é frio e os caminhos são lamacentos. Viajar nessas condições é muito desconfortável, sobretudo para famílias inteiras.

Paulo insiste para que Timóteo se apresse a ir até ele antes do inverno (2 Timóteo 4:21). Repare: embora a comodidade do corpo não deva ser nossa preocupação principal, deve receber a devida consideração.

Devemos aceitar o que Deus enviar e quando enviar, mas podemos orar para evitar desconfortos físicos, pois o Senhor também se importa com o corpo.

Segundo, deviam pedir que a fuga não ocorresse no dia de sábado. Não no sábado judaico, porque viajar nesse dia escandalizaria os judeus, que se haviam irritado com os discípulos por colherem espigas nele; nem no sábado cristão, porque ser forçados a viajar nesse dia seria motivo de tristeza para os próprios discípulos.

Isso indica o propósito de Cristo de que, depois da pregação do evangelho em todo o mundo, sua igreja observasse um dia semanal de descanso.

Não lemos que ele tenha manifestado cuidado semelhante com qualquer ordenança puramente cerimonial da igreja judaica, pois todas desapareceriam. Com o sábado, porém, mostrou preocupação muitas vezes.

Indica também que o sábado normalmente deve ser observado como dia de descanso de viagens e trabalhos comuns. Mas, segundo a própria explicação de Cristo para o quarto mandamento, obras necessárias são lícitas nesse dia, como fugir do inimigo para salvar a vida.

Se a fuga fosse ilícita, ele teria dito: “Aconteça o que acontecer com vocês, não fujam no sábado; permaneçam onde estão, ainda que isso lhes custe a vida”. Afinal, não devemos cometer nem o menor pecado para escapar da maior tribulação.

Isso indica ainda quanto é penoso e desconfortável a uma pessoa piedosa ser afastada, mesmo por uma tarefa necessária, do culto solene a Deus no sábado. Devemos orar por sábados tranquilos, sem perturbação, nos quais só tenhamos de cumprir os deveres próprios desse dia e possamos dedicar-nos ao Senhor sem distração.

Se tivessem de fugir, seria desejável que ainda desfrutassem do benefício e do consolo de mais um sábado para ajudar a suportar o que lhes custaria a fuga. Fugir no inverno é desconfortável para o corpo; fugir no sábado, para a alma, sobretudo ao recordar os sábados anteriores (Salmos 42:4).

  1. A grandeza das tribulações que logo se seguiriam (v. 21): “Então haverá grande tribulação”. Quando a medida da iniquidade estiver completa e os servos de Deus tiverem sido selados e postos em segurança, então virão as tribulações. Nada se pode fazer contra Sodoma até Ló entrar em Zoar; depois disso, espere-se logo fogo e enxofre.

Haverá grande tribulação, de fato. Dentro da cidade, a peste e a fome se espalharão, assim como algo pior do que ambas: as facções e divisões, pelas quais a espada de cada homem se voltará contra o próximo. Foi então e ali que as mulheres compassivas esfolaram os próprios filhos.

Fora da cidade, o exército romano estará pronto a devorá-los, tomado de fúria particular contra eles, não só como judeus, mas como judeus rebeldes. A guerra era o único dos três juízos severos que Davi recusara, mas foi por ela que os judeus foram arruinados; além disso, sofreram fome e peste extremas.

A História das Guerras dos Judeus, de Josefo, contém relatos mais trágicos do que talvez qualquer outra obra histórica.

(1.) Foi uma desolação sem paralelo, como não houve desde o princípio do mundo nem haverá outra. Muitas cidades e reinos foram desolados, mas jamais com desolação semelhante.

Não pensem os pecadores atrevidos que Deus já fez o pior que podia. Ele pode aquecer a fornalha sete vezes mais e depois outras sete vezes, e o fará quando vir abominações cada vez maiores.

Quando destruíram Jerusalém, os romanos já haviam perdido a honra e a virtude de seus antepassados, que tornavam até suas vitórias menos penosas para os vencidos. A teimosia e a obstinação dos próprios judeus também contribuíram muito para aumentar a tribulação.

Não surpreende que a ruína de Jerusalém tenha sido sem paralelo, pois também o foi seu pecado: crucificar Cristo. Quanto mais próximo de Deus um povo estiver em profissão de fé e privilégios, maiores e mais pesados serão seus juízos caso abuse desses privilégios e traia essa profissão (Amós 3:2).

(2.) Foi uma desolação que, se se prolongasse, se tornaria insuportável, de modo que nenhuma carne seria salva (v. 22).

A morte cavalgaria triunfante, assumindo tantas formas sombrias e acompanhada por tantos males, que ninguém escaparia: cedo ou tarde, todos seriam exterminados. Quem escapasse de uma espada cairia por outra (Isaías 24:17, 18).

Somados os mortos que Josefo calcula nos diversos lugares, o total ultrapassa dois milhões. Nenhuma carne seria salva. Cristo não diz “nenhuma alma seria salva”, pois a destruição da carne pode servir à salvação do espírito no dia do Senhor Jesus.

Mas as vidas terrenas seriam sacrificadas com tamanha profusão que, se isso continuasse, parecia que tudo seria exterminado.

No meio de todo esse terror, porém, há uma palavra de consolo: por causa dos eleitos, aqueles dias serão abreviados. Não serão mais curtos do que Deus determinou, pois o que foi determinado será derramado sobre o lugar desolado (Daniel 9:27).

Serão mais curtos do que poderiam ter sido se Deus os tratasse conforme seus pecados; mais curtos do que o inimigo pretendia, pois este exterminaria todos se Deus, que o empregava para cumprir seu propósito, não impusesse limites à sua cólera; e mais curtos do que alguém julgando pelas probabilidades humanas imaginaria.

Repare: [1.] Em tempos de calamidade geral, Deus manifesta seu favor ao remanescente eleito. São suas joias, que ele então reunirá, seu tesouro particular, que protegerá quando o resto for deixado ao saqueador.

[2.] Abreviar as calamidades é uma bondade que Deus muitas vezes concede por causa dos eleitos. Em vez de reclamar da duração de nossas aflições, consideremos nossas faltas: veremos que temos motivo para agradecer por não durarem para sempre.

Quando as coisas vão mal, convém dizer: “Bendito seja Deus porque não estão piores; bendito seja Deus porque isto não é o inferno, sofrimento interminável e sem remédio”. Foi uma igreja aflita que disse: “É pelas misericórdias do Senhor que não somos consumidos”.

Isso acontece por causa dos eleitos: para que seu espírito não desfaleça diante dele caso ele contenda para sempre, e para que não sejam tentados a estender, se não o coração, ao menos a mão à iniquidade.

Volta agora o aviso já explicado: é preciso cuidar para não ser enredado pelos falsos cristos e falsos profetas (v. 23 e seguintes). Eles prometeriam livramento, como os profetas mentirosos do tempo de Jeremias (Jeremias 14:13; 23:16, 17; 27:16; 28:2), mas enganariam o povo.

Tempos de grande dificuldade são tempos de grande tentação; por isso, precisamos redobrar a vigilância. Se disserem “Aqui está o Cristo” ou “Ali está outro que nos livrará dos romanos”, não lhes deem atenção. São apenas palavras: não se deve esperar tal livramento nem tal libertador.

VII. Cristo prediz a rápida difusão do evangelho pelo mundo na época desses grandes acontecimentos (v. 27, 28): “Assim como o relâmpago vem do oriente, assim será a vinda do Filho do Homem”.

Isso aparece aqui como antídoto ao veneno dos sedutores que diziam “Eis que o Cristo está aqui” ou “Está ali”; compare com Lucas 17:23, 24. Não lhes deem ouvidos, pois a vinda do Filho do Homem será como o relâmpago.

  1. Parece referir-se primeiramente à sua vinda para estabelecer o reino espiritual no mundo. Onde o evangelho chegou com sua luz e seu poder, ali chegou o Filho do Homem, de modo completamente diferente dos sedutores e falsos cristos que se insinuavam no deserto ou nas câmaras secretas (2 Timóteo 3:6).

Cristo não vem com espírito de temor, mas de poder, de amor e de equilíbrio. O evangelho se destacaria por duas características:

(1.) Sua rápida difusão: voaria como o relâmpago. Assim o evangelho seria pregado e propagado. O evangelho é luz (João 3:19). Não se parece com o relâmpago no sentido de ser um clarão súbito que logo passa, pois é luz do sol, luz do dia; mas se parece com ele nestes aspectos:

[1.] É luz do céu, como o relâmpago. É Deus, não o ser humano, quem envia os relâmpagos e os convoca para que saiam e digam: “Aqui estamos” (Jó 38:35). É Deus quem os dirige (Jó 37:3).

Para o ser humano, o relâmpago é um dos milagres da natureza, acima de seu poder de produzi-lo, e um dos mistérios da natureza, acima de sua capacidade de explicá-lo. Ele, porém, vem do alto; os relâmpagos de Deus iluminaram o mundo (Salmos 97:4).

[2.] É visível e evidente como o relâmpago. Os sedutores praticavam suas profundezas de Satanás no deserto e nas câmaras secretas, fugindo da luz. Os hereges eram chamados lucifugæ, os que fogem da luz.

A verdade, porém, não busca esconderijos, embora às vezes possa ser forçada a entrar neles, como a mulher no deserto, ainda que vestida do sol (Apocalipse 12:1, 6).

Cristo pregou seu evangelho abertamente (João 18:20), e seus apóstolos, dos telhados (Mateus 10:27), não em algum canto oculto (Atos 26:26). Veja Salmos 98:2.

[3.] Foi repentino e surpreendente para o mundo como o relâmpago. Os judeus, é verdade, tinham profecias a esse respeito. Para os gentios, porém, foi inteiramente inesperado e chegou com energia inexplicável antes que se dessem conta. Era luz saindo das trevas (Mateus 4:16; 2 Coríntios 4:6).

Lemos que exércitos foram derrotados por relâmpagos (2 Samuel 22:15; Salmos 144:6). Os poderes das trevas foram dispersos e vencidos pelo relâmpago do evangelho.

[4.] Espalhou-se por toda parte, de modo rápido e irresistível, como o relâmpago que sai, digamos, do oriente, de onde se diz que Cristo sobe (Apocalipse 7:2; Isaías 41:2), e ilumina até o ocidente.

A propagação do cristianismo a tantos países distantes, de línguas diferentes, por instrumentos tão improváveis, privados de toda vantagem terrena e enfrentando tanta oposição, tudo isso em tão pouco tempo, foi um dos maiores milagres já realizados para confirmar o evangelho.

Ali estava Cristo sobre o cavalo branco, que representa a rapidez e também a força, saindo para conquistar e continuar conquistando (Apocalipse 6:2). A luz do evangelho nasceu com o sol e o acompanhou, de modo que seus raios alcançaram os confins da terra (Romanos 10:18; compare com Salmos 19:3, 4).

Embora combatida, essa luz jamais poderia ser confinada a um deserto ou lugar secreto como os sedutores. Conforme a regra de Gamaliel, demonstrou assim ser de Deus: não podia ser derrubada (Atos 5:38, 39).

Cristo fala da luz que alcança o ocidente porque o evangelho se difundiu com mais força pelos países a oeste de Jerusalém, como observa o sr. Herbert em seu A Igreja Militante. Com que rapidez o relâmpago do evangelho alcançou esta ilha da Grã-Bretanha!

Tertuliano, que escreveu no século II, observa: Britannorum inaccessa Romanis loca, Christo tamen subdita — as fortalezas da Bretanha, inacessíveis aos romanos, foram contudo ocupadas por Jesus Cristo. Isso foi obra do Senhor.

(2.) Outra característica notável do evangelho foi seu extraordinário êxito nos lugares aos quais chegou. Reuniu multidões, não por coerção externa, mas como por um instinto e uma inclinação naturais semelhantes aos que levam as aves de rapina à sua presa: “Onde quer que esteja o cadáver, ali se ajuntarão as águias” (v. 28). Onde Cristo é pregado, as almas se reunirão a ele.

Cristo ser levantado da terra, isto é, a pregação de Cristo crucificado, algo que, à primeira vista, afastaria todas as pessoas dele, na verdade atrairá todos a ele (João 12:32). Assim se cumprirá a profecia de Jacó: “A ele será o ajuntamento do povo” (Gênesis 49:10). Veja Isaías 60:8.

As águias estarão onde houver cadáver, pois este lhes serve de alimento e banquete: “Onde estão os mortos, ali está ela” (Jó 39:30). Diz-se que as águias têm sagacidade incomum e olfato aguçado para encontrar a presa, à qual voam rapidamente (Jó 9:26).

Assim, aqueles cujo espírito Deus despertar serão atraídos de modo eficaz a Jesus Cristo para alimentar-se dele. Para onde iria a águia senão à presa? Para onde iria a alma senão a Jesus Cristo, que tem as palavras de vida eterna?

As águias distinguem o que lhes convém do que não convém. Da mesma forma, os que exercitaram os sentidos espirituais reconhecerão a voz do bom Pastor e a distinguirão da voz do ladrão e salteador. Os santos estarão onde está o verdadeiro Cristo, não os falsos cristos.

Isso se aplica aos desejos por Cristo e pela comunhão com ele que brotam em toda alma agraciada. Onde ele está presente em suas ordenanças, ali seus servos escolherão estar. Um princípio vivo da graça é como instinto natural em todos os santos, atraindo-os a Cristo para viver dele.

  1. Alguns entendem esses versículos como referência à vinda do Filho do Homem para destruir Jerusalém (Malaquias 3:1, 2, 5). Houve naquele acontecimento uma manifestação tão extraordinária do poder e da justiça divinos que ele é chamado de vinda de Cristo. Duas coisas são indicadas a esse respeito:

(1.) Para a maioria, seria tão inesperado quanto o clarão do relâmpago. Este, de fato, anuncia o trovão que o segue, mas surpreende por si mesmo.

Os sedutores diziam: “Eis que o Cristo está aqui para nos livrar” ou “Ali está outro”, fruto de sua própria imaginação. Antes que percebam, porém, a cólera do Cordeiro, o verdadeiro Cristo, os alcançará, e não escaparão.

(2.) Era tão certo esperar essa vinda quanto esperar que a águia voe até os cadáveres. Embora afastassem de seus pensamentos o dia mau, a desolação viria tão certamente quanto as aves de rapina vão até um cadáver exposto em campo aberto.

[1.] Os judeus se haviam tornado tão corrompidos e degenerados, tão vis e viciosos, que eram como um cadáver exposto ao justo juízo de Deus. Eram também tão facciosos, revoltosos e provocadores para os romanos, de todas as maneiras, que se expuseram à ira deles e se tornaram uma presa convidativa.

[2.] Os romanos eram como uma águia, e a insígnia de seus exércitos era uma águia. Diz-se que o exército dos caldeus voa como a águia que se apressa a devorar (Habacuque 1:8).

A ruína da Babilônia do Novo Testamento é representada por um chamado às aves de rapina para que venham banquetear-se com os mortos (Apocalipse 19:17, 18). Águias jovens comem os olhos de malfeitores notórios (Provérbios 30:17). Os judeus ficaram pendurados em correntes (Jeremias 7:33; 16:4).

[3.] Os judeus não poderão proteger-se dos romanos mais do que um cadáver pode proteger-se das águias. [4.] A destruição encontrará os judeus onde quer que estejam, como a águia fareja a presa.

Repare: quando um povo, por seus pecados, faz de si mesmo um cadáver podre e repugnante, só se pode esperar que Deus envie águias para devorá-lo e destruí-lo.

  1. Isso se aplica muito bem ao dia do juízo, à vinda de nosso Senhor Jesus Cristo naquele dia e à nossa reunião com ele (2 Tessalonicenses 2:1). Veja agora:

(1.) Como ele virá: como o relâmpago. Aproximava-se o momento de Cristo deixar o mundo e voltar ao Pai. Por isso, os que o procuram não devem ir ao deserto ou ao lugar secreto nem dar ouvidos a quem levante o dedo para convidá-los a ver Cristo.

Devem, antes, olhar para cima, pois ele deve permanecer nos céus, e é de lá que aguardamos o Salvador (Filipenses 3:20). Ele virá nas nuvens, como o relâmpago, e todos os olhos o verão, assim como se diz que todas as criaturas vivas naturalmente voltam o rosto para um relâmpago (Apocalipse 1:7).

Cristo aparecerá a todo o mundo, de uma extremidade do céu à outra; nada ficará oculto da luz e do calor daquele dia.

Versículos 4 a 31

Predições Terríveis.

(2.) Como os santos serão reunidos a ele: assim como as águias se reúnem em torno do cadáver por instinto natural, com a maior rapidez e disposição imagináveis. Quando forem levados à glória, os santos serão carregados como sobre asas de águia (Êxodo 19:4), como sobre asas de anjos. Subirão com asas como águias e, como elas, renovarão sua juventude.

VIII. Ele prediz sua segunda vinda no fim dos tempos (vv. 29-31): “O sol escurecerá”, etc.

  1. Alguns pensam que isso se refere apenas à destruição de Jerusalém e da nação judaica. O escurecimento do sol, da lua e das estrelas indicaria o eclipse da glória daquele Estado, suas convulsões e a confusão geral que acompanhou a desolação.

Grandes morticínios e devastações são descritos assim no Antigo Testamento (Isaías 13:10; 34:4; Ezequiel 32:7; Joel 2:31). Ou o sol, a lua e as estrelas podem representar o templo, Jerusalém e as cidades de Judá, que seriam todos arruinados.

O sinal do Filho do Homem (v. 30) significaria uma manifestação notável do poder e da justiça do Senhor Jesus nesse acontecimento: ele vingaria seu próprio sangue naqueles que invocaram sobre si e seus filhos a culpa por ele. A reunião de seus eleitos (v. 31) significaria livrar um remanescente desse pecado e dessa ruína.

  1. Parece, antes, referir-se à segunda vinda de Cristo. A destruição dos inimigos específicos da igreja prefigurava a vitória completa sobre todos eles. Por isso, aquilo que se realizará de fato no grande dia pode ser aplicado metaforicamente àquelas destruições. Ainda assim, devemos atentar para o sentido principal das palavras.

Uma vez que todos concordamos em esperar a segunda vinda de Cristo, por que dar a estes versículos interpretações tão forçadas como fazem alguns? Falam dela tão claramente e em tanta harmonia com outras passagens da Escritura, especialmente quando Cristo responde aqui a uma pergunta sobre sua vinda no fim do mundo, assunto sobre o qual nunca hesitou em falar aos discípulos.

A única objeção é que se diz que isso acontecerá imediatamente depois da tribulação daqueles dias. A esse respeito: (1.) No estilo profético, é comum falar de acontecimentos grandiosos e certos como se estivessem próximos e às portas, para expressar sua grandeza e certeza. Enoque falou da segunda vinda de Cristo como se já pudesse avistá-la: “Eis que vem o Senhor” (Judas 1:14).

(2.) Mil anos são aos olhos de Deus como um dia (2 Pedro 3:8). Essa verdade é apresentada ali em relação a esse mesmo assunto; nesse sentido, pode-se dizer que acontecerá imediatamente depois.

A tribulação daqueles dias inclui não só a destruição de Jerusalém, mas todas as outras tribulações pelas quais a igreja terá de passar: tanto sua parte nas calamidades das nações quanto as aflições que lhe são próprias. Enquanto as nações forem dilaceradas por guerras e a igreja, por cismas, enganos e perseguições, não poderemos dizer que a tribulação daqueles dias terminou.

Toda a condição da igreja na terra é de combate; precisamos contar com isso. Quando, porém, sua tribulação terminar, sua guerra tiver acabado e se completar o que falta dos sofrimentos de Cristo, esperemos então o fim.

Quanto à segunda vinda de Cristo, prediz-se aqui:

[1.] Que haverá uma mudança grande e espantosa na criação, em especial nos corpos celestes (v. 29). “O sol escurecerá, e a lua não dará sua luz”. A lua brilha com luz emprestada; por isso, se o sol, de quem a recebe, se tornar escuro, ela necessariamente perderá a luz e ficará, por assim dizer, falida.

“As estrelas cairão”: perderão a luz, desaparecerão e será como se tivessem caído. “Os poderes dos céus serão abalados”. Isso indica:

Primeiro, que haverá uma grande mudança para que todas as coisas sejam feitas novas. Então virá a restauração de todas as coisas. Os céus não serão jogados fora como um trapo, mas mudados como uma roupa para serem usados de forma melhor (Salmos 102:26). Passarão com grande estrondo para que haja novos céus (2 Pedro 3:10-13).

Segundo, será uma mudança visível, da qual todo o mundo terá de tomar conhecimento, como não poderia deixar de acontecer com o escurecimento do sol e da lua. Será espantosa, pois os corpos celestes não estão tão sujeitos a alterações como as criaturas deste mundo inferior.

Os dias dos céus e a permanência do sol e da lua servem para expressar o que é duradouro e imutável (Salmos 89:29; 89:36, 37). Contudo, eles serão abalados dessa maneira.

Terceiro, será uma mudança universal. Se o sol se tornar escuro e os poderes dos céus forem abalados, a terra não poderá deixar de se tornar uma masmorra, e seus alicerces tremerão. Uivem, pinheiros, se os cedros são abalados. Quando caírem as estrelas do céu, não será de admirar que os montes eternos se derretam e as colinas perpétuas se curvem.

A natureza inteira sofrerá um choque e uma convulsão geral. Isso, porém, não impedirá que céus e terra se alegrem diante do Senhor quando ele vier julgar o mundo (Salmos 96:11, 13). Como que se gloriarão na tribulação.

Quarto, o escurecimento do sol, da lua e das estrelas, criados para governar o dia e a noite, o primeiro domínio atribuído a qualquer criatura (Gênesis 1:16-18), significa a derrubada de todo domínio, autoridade e poder, mesmo dos que parecem mais antigos e úteis. Assim, o reino será entregue a Deus Pai, para que ele seja Tudo em todos (1 Coríntios 15:24, 28).

O sol escureceu na morte de Cristo, pois então, em certo sentido, ocorreu o juízo deste mundo (João 12:31), como indicação do que acontecerá no juízo geral.

Quinto, a gloriosa manifestação de nosso Senhor Jesus, que então se mostrará como o Resplendor da glória do Pai e a Imagem exata de sua pessoa, ofuscará o sol e a lua, como uma vela é ofuscada pelos raios do sol do meio-dia. Eles já não terão glória por causa da glória superior (2 Coríntios 3:10). Então o sol se envergonhará e a lua ficará confundida quando Deus aparecer (Isaías 24:23).

Sexto, o sol e a lua escurecerão porque já não serão necessários. Aos pecadores que escolheram sua porção nesta vida, todo conforto será negado para sempre: não terão uma gota de água nem um raio de luz. Agora Deus faz seu sol nascer sobre a terra, mas então: Interdico tibi sole et luna, proíbo a você a luz do sol e da lua. As trevas serão a porção deles.

Aos santos que guardaram seu tesouro no alto será dada uma luz de alegria e consolo que substituirá a do sol e da lua e a tornará inútil. Para que servem recipientes de luz quando chegamos à Fonte e ao Pai da luz? Veja Isaías 60:19; Apocalipse 22:5.

[2.] Que então aparecerá o sinal do Filho do Homem no céu (v. 30): o próprio Filho do Homem, como diz o texto em seguida: “Verão o Filho do Homem vindo nas nuvens”. Em sua primeira vinda, foi estabelecido como sinal contra o qual se falaria (Lucas 2:34); na segunda, será um sinal admirado. Ezequiel era um filho do homem estabelecido como sinal (Ezequiel 12:6).

Alguns entendem que se trata de uma previsão dos arautos e precursores de sua vinda, que anunciarão sua aproximação: uma luz brilhando diante dele, o fogo devorador (Salmos 50:3; 1 Reis 19:11, 12) e os raios que saem de sua mão, onde seu poder estivera oculto por muito tempo (Habacuque 3:4).

É uma conjectura sem fundamento de alguns antigos que esse sinal do Filho do Homem será o sinal da cruz exibido como bandeira. Certamente será um sinal tão claro e convincente que deixará a incredulidade sem resposta e encherá de vergonha o rosto dos que perguntavam: “Onde está a promessa de sua vinda?”

[3.] Que então todas as tribos da terra se lamentarão (v. 30). Veja Apocalipse 1:7. Todas as famílias da terra prantearão por causa dele; alguns de todas as tribos e famílias se lamentarão. A maioria tremerá à sua aproximação, enquanto o remanescente escolhido, um de cada família e dois de cada tribo, levantará a cabeça com alegria, sabendo que sua redenção se aproxima, assim como seu Redentor.

Repare: cedo ou tarde, todos os pecadores prantearão. Os arrependidos olham para Cristo e se entristecem de maneira piedosa; os que semeiam com essas lágrimas logo colherão com alegria. Os impenitentes olharão para aquele a quem traspassaram e, embora riam agora, se lamentarão e chorarão de maneira diabólica, em horror e desespero sem fim.

[4.] Que então verão o Filho do Homem vindo nas nuvens do céu, com poder e grande glória. Repare: primeiro, o julgamento do grande dia será confiado ao Filho do Homem, tanto em decorrência de sua grande obra como Mediador por nós quanto em recompensa por ela (João 5:22, 27).

Segundo, naquele dia o Filho do Homem virá nas nuvens do céu. Boa parte do intercâmbio perceptível entre o céu e a terra se dá por meio das nuvens: elas ficam entre ambos, como medium participationis, meio de participação, atraídas pelo céu da terra e derramadas pelo céu sobre a terra.

Cristo subiu ao céu numa nuvem e voltará da mesma maneira (Atos 1:9, 11). “Eis que ele vem com as nuvens” (Apocalipse 1:7). Uma nuvem será o carro do Juiz (Salmos 104:3), sua veste (Apocalipse 10:1), seu pavilhão (Salmos 18:11) e seu trono (Apocalipse 14:14).

Quando o mundo foi destruído pela água, o juízo veio nas nuvens do céu, pois as janelas dos céus se abriram. Assim também será quando o mundo for destruído pelo fogo. Cristo ia diante de Israel numa nuvem que tinha um lado claro e outro escuro. A nuvem na qual ele virá no grande dia também trará consolo e terror.

Terceiro, virá com poder e grande glória. Sua primeira vinda foi em fraqueza e grande humildade (2 Coríntios 13:4); a segunda será em poder e glória, à altura da dignidade de sua pessoa e dos propósitos de sua vinda.

Quarto, em sua vinda será visto com os olhos do corpo. Por isso o Filho do Homem será o Juiz: para que possa ser visto e para que os pecadores, ao vê-lo, sejam ainda mais confundidos. Como Balaão, eles o verão, mas não de perto (Números 24:17); o verão, mas não como alguém que lhes pertença.

O tormento daquele pecador condenado aumentou porque viu Abraão de longe. “É este aquele a quem desprezamos, rejeitamos e contra quem nos rebelamos? Aquele que tornamos a crucificar para nós mesmos? Aquele que poderia ter sido nosso Salvador, mas é nosso Juiz e será nosso inimigo para sempre?” O Desejado de todas as nações será então o objeto do temor deles.

[5.] Que enviará seus anjos com grande som de trombeta (v. 31). Repare: primeiro, os anjos acompanharão Cristo em sua segunda vinda. São chamados seus anjos, o que prova que ele é Deus e Senhor dos anjos; terão o dever de servi-lo.

Segundo, esses acompanhantes serão empregados por ele como oficiais do tribunal no julgamento daquele dia. Agora são espíritos ministradores enviados por ele (Hebreus 1:14) e também o serão então.

Terceiro, o serviço deles será anunciado com grande som de trombeta, para despertar e alertar o mundo adormecido. Essa trombeta é mencionada em 1 Coríntios 15:52 e 1 Tessalonicenses 4:16. Quando a lei foi dada no monte Sinai, o som da trombeta foi extraordinariamente terrível (Êxodo 19:13, 16); no grande dia será muito mais.

Segundo a lei, deviam tocar trombetas para convocar assembleias (Números 10:2), louvar a Deus (Salmos 81:3), oferecer sacrifícios (Números 10:10) e proclamar o ano do jubileu (Levítico 25:9).

Será, portanto, muito apropriado o som de trombeta no último dia: a assembleia geral será convocada, os louvores a Deus serão celebrados gloriosamente, os pecadores cairão como sacrifícios à justiça divina e os santos entrarão em seu jubileu eterno.

[6.] Que reunirão os eleitos dele desde os quatro ventos. Repare: na segunda vinda de Jesus Cristo, haverá uma reunião geral de todos os santos. Primeiro, somente os eleitos serão reunidos, o remanescente escolhido, poucos em comparação com os muitos que são apenas chamados. O fundamento da felicidade eterna dos santos é serem os eleitos de Deus.

Os dons de amor que se estendem pela eternidade seguem o pensamento de amor que vem desde a eternidade; o Senhor conhece os que são seus.

Segundo, os anjos serão empregados para reuni-los, como servos de Cristo e amigos dos santos. Temos a ordem que lhes foi dada: “Reuni a mim os meus santos” (Salmos 50:5). Mais que isso, lhes será dito: Habetis fratres, estes são seus irmãos, pois os eleitos serão então iguais aos anjos (Lucas 20:36).

Terceiro, serão reunidos de uma extremidade do céu à outra. Os eleitos de Deus estão dispersos (João 11:52); há alguns em todos os lugares, em todas as nações (Apocalipse 7:9). Quando, porém, chegar o grande dia da reunião, nenhum deles faltará. A distância física não impedirá ninguém de entrar no céu, se a distância de afeição não o impedir.

Undique ad coelos tantundem est viæ: de todo lugar, o caminho até o céu tem o mesmo comprimento. Veja Mateus 8:11; Isaías 43:6; 49:12.

Parábola da Figueira; Predições Terríveis; O Dever de Vigiar; O Mordomo Bom e o Mau.

Versículos 32 a 51

Temos aqui a aplicação prática da predição anterior. Em geral, devemos esperar os acontecimentos preditos e nos preparar para eles.

I. Devemos esperá-los. “Aprendei agora uma parábola da figueira” (vv. 32-33). “Aprendam que uso fazer do que ouviram: observem e compreendam os sinais dos tempos, comparando-os com as predições da palavra para prever o que está às portas e se preparar de acordo.”

A parábola da figueira diz apenas que seus brotos e flores anunciam o verão; assim como a cegonha no céu, as árvores do campo conhecem seu tempo determinado. O início da ação das causas secundárias nos assegura que ela avançará até se completar.

Assim, quando Deus começa a cumprir as profecias, também as leva a termo. Há uma sequência definida nas obras da providência, como nas obras da natureza. Os sinais dos tempos são comparados aos indícios oferecidos pelo aspecto do céu (Mateus 16:3) e, aqui, pelo aspecto da terra.

Quando a terra se renova, prevemos a chegada do verão, embora não imediatamente, mas depois de algum tempo. Após o ramo ficar tenro, esperamos os ventos de março e as chuvas de abril antes do verão. Ainda assim, temos certeza de que virá.

“Da mesma forma, quando o dia do evangelho amanhecer, contem com isto: por meio da variedade de acontecimentos que lhes anunciei, chegará o dia perfeito. As coisas reveladas devem ocorrer em breve” (Apocalipse 1:1). “Devem acontecer em sua própria ordem, segundo a ordem estabelecida para elas. Sabei que está perto.”

Ele não diz aqui o que está perto; mas é aquilo em que os discípulos pensam, sobre o que perguntam e pelo que anseiam: o reino de Deus está perto, como se diz na passagem paralela (Lucas 21:31).

Repare: quando as árvores de justiça começam a brotar e florescer, quando o povo de Deus promete fidelidade, isso anuncia tempos bons. Deus começa sua obra nesse povo: primeiro lhe prepara o coração e depois prossegue, pois sua obra é perfeita e ele a renovará durante os anos de seu povo. Quanto aos acontecimentos aqui preditos, que devemos esperar:

  1. Cristo nos assegura de que certamente ocorrerão (v. 35): “O céu e a terra passarão”. De fato, permanecem até hoje segundo a ordem de Deus, mas não permanecerão para sempre (Salmos 102:25, 26; 2 Pedro 3:10). “Minhas palavras não passarão.” Repare: a palavra de Cristo é mais certa e duradoura do que o céu e a terra.

Ele falou; acaso não o fará? Podemos apoiar-nos com mais segurança na palavra de Cristo do que nas colunas do céu ou nos sólidos alicerces da terra. Quando estes forem abalados, vacilarem e deixarem de existir, a palavra de Cristo permanecerá em plena força, poder e eficácia. Veja 1 Pedro 1:24, 25.

É mais fácil passarem o céu e a terra do que a palavra de Cristo, como se expressa em Lucas 16:17. Compare Isaías 54:10. O cumprimento dessas profecias poderia parecer tardio, e os acontecimentos intermediários, contrários a elas. Mas não pense que, por isso, a palavra de Cristo caiu por terra; ela nunca passará.

Embora não se cumpra no tempo ou da maneira que determinamos, certamente se cumprirá no tempo de Deus, que é o melhor, e à maneira de Deus, que é a melhor. Cada palavra de Cristo é puríssima e, por isso, digna de toda confiança.

  1. Ele nos instrui quanto ao tempo desses acontecimentos (v. 34, 36). O erudito Grócio observa bem a clara distinção entre tauta (v. 34) e ekeine (v. 36), isto é, “estas coisas” e “aquele dia e hora”. Essa distinção ajuda a esclarecer a profecia.

(1.) Quanto a estas coisas — as guerras, seduções e perseguições preditas aqui, especialmente a ruína da nação judaica —, “Esta geração não passará até que todas estas coisas se cumpram” (v. 34). “Há pessoas vivas agora que verão Jerusalém destruída e a igreja judaica chegar ao fim.”

Como isso poderia parecer estranho, ele reforça a afirmação com uma asseveração solene: “Em verdade vos digo”. Podem confiar em sua palavra: estas coisas estão às portas. Cristo fala muitas vezes da proximidade daquela desolação, para afetar ainda mais o povo e estimulá-lo a se preparar.

Repare: talvez ainda nos aguardem, em nossos próprios dias, provações e dificuldades maiores do que imaginamos. Os mais velhos não sabem que filhos de Anaque podem estar reservados para seus últimos confrontos.

(2.) Quanto àquele dia e hora que porão fim ao tempo, ninguém os conhece (v. 36). Cuidado, portanto, para não confundir as duas coisas, como fizeram os que inferiram, das palavras de Cristo e das cartas dos apóstolos, que o dia de Cristo estava próximo (2 Tessalonicenses 2:2).

Não estava: esta geração e muitas outras passarão antes da chegada daquele dia e hora. Repare: [1.] Há dia e hora fixados para o juízo futuro. Chama-se o dia do Senhor porque está estabelecido de modo irrevogável. Nenhum juízo divino é adiado sine die, sem a designação de um dia determinado.

[2.] Aquele dia e hora são um grande segredo.

Prudens futuri temporis exitum
Caliginosa nocte premit Deus.

Mas o Céu sabiamente esconde do olhar humano
Os decretos obscuros do destino futuro
E semeia suas sementes nas profundezas das noites.

Horácio.

Ninguém o conhece: nem os mais sábios por sua perspicácia, nem os melhores por revelação divina. Todos sabemos que haverá esse dia, mas ninguém sabe quando será, nem mesmo os anjos.

Embora tenham grande capacidade de conhecimento e oportunidades favoráveis para saber, pois habitam junto à fonte da luz, e embora trabalhem na solenidade daquele dia, não lhes foi dito quando acontecerá: somente meu Pai sabe.

Essa é uma das coisas secretas que pertencem ao Senhor nosso Deus. A incerteza da hora da vinda de Cristo é, para os vigilantes, cheiro de vida para vida, tornando-os mais vigilantes. Para os descuidados, é cheiro de morte para morte, tornando-os ainda mais descuidados.

II. Devemos esperar esses acontecimentos com o propósito de nos preparar para eles. Aqui há uma advertência contra a falsa segurança e a sensualidade, que tornariam aquele dia verdadeiramente sombrio para nós (vv. 37-41). Estes versículos nos dão uma imagem do dia do juízo capaz de nos sobressaltar e despertar, para que não durmamos como os outros.

Será um dia surpreendente e um dia de separação.

  1. Será surpreendente, como o dilúvio foi para o mundo antigo (vv. 37-39). O que Cristo descreve aqui é a condição do mundo na vinda do Filho do Homem. Além da primeira vinda, para salvar, há outras vindas para julgar. Ele diz: “Para juízo vim” (João 9:39). Também para julgar virá, pois todo juízo lhe foi confiado, tanto o da palavra quanto o da espada. Isso se aplica:

(1.) Aos juízos temporais, em especial ao que então se aproximava da nação e do povo judeus. Embora tivessem recebido ampla advertência e muitos prodígios o anunciassem, o juízo os encontrou tranquilos, dizendo: “Paz e segurança” (1 Tessalonicenses 5:3).

Tito Vespasiano sitiou Jerusalém quando estavam reunidos para a Páscoa, em meio à alegria. Como os moradores de Laís, viviam sem cuidado quando a ruína os alcançou (Juízes 18:7, 27).

A destruição da Babilônia, tanto a do Antigo Testamento quanto a do Novo, chega quando ela diz: “Serei senhora para sempre” (Isaías 47:7-9; Apocalipse 18:7). Por isso, as pragas vêm num instante, em um só dia. Repare: a incredulidade dos homens não tornará sem efeito as ameaças de Deus.

(2.) Ao juízo eterno, nome dado ao juízo do grande dia (Hebreus 6:2). Embora seja anunciado desde Enoque, quando vier será inesperado para a maioria. Os últimos dias, os mais próximos dele, produzirão escarnecedores que dirão: “Onde está a promessa de sua vinda?” (2 Pedro 3:3, 4; Lucas 18:8).

Assim acontecerá quando o mundo atual for destruído pelo fogo, pois o mesmo ocorreu quando o mundo antigo pereceu inundado pela água (2 Pedro 3:6, 7). Cristo mostra aqui qual era a disposição e a condição do mundo antigo quando veio o dilúvio.

[1.] Eram sensuais e mundanos: comiam, bebiam, casavam-se e davam-se em casamento. Não se diz que matavam, roubavam, se prostituíam e blasfemavam — embora esses fossem de fato os crimes terríveis de alguns dos piores, e a terra estivesse cheia de violência.

Mas todos, exceto Noé, estavam mergulhados até os ouvidos no mundo e indiferentes à palavra de Deus. Isso os arruinou. Repare: a negligência generalizada da religião é sinal mais perigoso para um povo do que casos isolados de irreligião atrevida.

Comer e beber são necessários para conservar a vida humana; casar-se e dar-se em casamento, para conservar a humanidade. Mas Licitis perimus omnes: essas coisas lícitas nos arruínam quando conduzidas ilicitamente.

Primeiro, agiam de modo desmedido: entregavam-se sem limites à busca dos prazeres dos sentidos e dos ganhos do mundo. Essas coisas os absorviam inteiramente. Esan trogontes: comiam. Viviam nelas como em seu elemento, como se existissem apenas para comer e beber (Isaías 56:12).

Segundo, agiam de modo desmedido ao se dedicar por completo ao mundo e à carne quando a destruição estava às portas, apesar de terem recebido ampla advertência. Comiam e bebiam quando deveriam arrepender-se e orar. Quando Deus, pelo ministério de Noé, chamava ao pranto e ao lamento, eles se entregavam à alegria e ao regozijo.

Isso lhes foi, como depois a Israel, pecado imperdoável (Isaías 22:12, 14), especialmente por desafiarem as advertências que deveriam tê-los despertado. “Comamos e bebamos, pois amanhã morreremos. Se a vida tem de ser curta, que seja alegre.”

Tiago fala disso como prática geral dos judeus ricos antes da destruição de Jerusalém. Quando deveriam chorar pelas misérias que lhes sobreviriam, viviam em prazeres e nutriam o coração como no dia da matança (Tiago 5:1, 5).

[2.] Viviam seguros e despreocupados: nada perceberam até vir o dilúvio (v. 39). Nada perceberam! Certamente tinham como saber. Deus não lhes deu ampla advertência por meio de Noé? Não os chamou ao arrependimento enquanto sua longanimidade esperava? (1 Pedro 3:19, 20).

Mas não perceberam, isto é, não creram. Poderiam saber, mas não quiseram. Repare: se não unirmos à fé o que sabemos sobre as coisas pertencentes à nossa paz eterna, nem o aproveitarmos, é como se nada soubéssemos.

A falta de entendimento aparece junto com o comer, beber e casar-se. Primeiro, eram sensuais porque se sentiam seguros. Repare: as pessoas se lançam com tanto ardor à busca dos prazeres deste mundo e se enredam neles porque não conhecem, não creem nem consideram a eternidade à beira da qual estão.

Se soubéssemos de fato que todas essas coisas logo serão desfeitas e que nós certamente sobreviveremos a elas, não prenderíamos tanto nelas os olhos e o coração.

Segundo, sentiam-se seguros porque eram sensuais. Não perceberam que o dilúvio vinha porque comiam e bebiam, tão ocupados com as coisas visíveis e presentes que não tinham tempo nem disposição para pensar nas ainda invisíveis, sobre as quais haviam sido advertidos.

Repare: assim como a falsa segurança sustenta os homens em sua sensualidade brutal, a sensualidade os embala no sono de sua segurança carnal. Nada perceberam até vir o dilúvio.

  1. O dilúvio veio, embora se recusassem a prevê-lo. Repare: aqueles que não quiserem conhecer pela fé serão obrigados a conhecer pela experiência a ira de Deus revelada do céu contra sua impiedade e injustiça. Adiar em pensamento o dia mau não o afasta de fato.

  2. Não o reconheceram até ser tarde demais para evitá-lo, como poderiam ter feito se o tivessem reconhecido a tempo. Isso o tornou ainda mais penoso. Os juízos são mais terríveis e espantosos para os que se sentem seguros e zombaram deles.

A aplicação do exemplo do mundo antigo aparece nestas palavras: “Assim será também a vinda do Filho do Homem”. Isto é: (1.) Ele encontrará as pessoas nessa condição, comendo e bebendo, sem esperá-lo. Repare: a falsa segurança e a sensualidade provavelmente serão doenças generalizadas dos últimos dias.

Todos cochilam e dormem, e o noivo chega à meia-noite. Todos abandonam a vigilância e estão à vontade. (2.) Ele virá sobre eles com o mesmo poder e propósito. Como o dilúvio levou os pecadores do mundo antigo sem que pudessem resistir ou recuperar-se, assim também a ira do Cordeiro levará os pecadores seguros que zombaram de Cristo e de sua vinda.

Quando chegar o grande dia de sua ira, será como a chegada do dilúvio: uma destruição da qual não se pode fugir.

  1. Será um dia de separação (vv. 40-41): “Então dois estarão no campo”. Isso admite duas aplicações:

(1.) Podemos aplicá-lo ao êxito do evangelho, especialmente no início de sua pregação. Ele dividiu o mundo: alguns creram nas coisas anunciadas e foram levados a Cristo; outros não creram e foram deixados para perecer em sua incredulidade.

Pessoas da mesma época, lugar, capacidade, ocupação e condição no mundo, moendo no mesmo moinho; membros da mesma família, até os unidos pelo vínculo do casamento: um foi chamado eficazmente, enquanto o outro foi deixado no fel da amargura.

Essa é a divisão, o fogo separador que Cristo veio lançar (Lucas 12:49, 51). A graça gratuita nos move ainda mais à gratidão porque distingue: a nós, não ao mundo (João 14:22); sim, a nós, não aos que estão no mesmo campo, no mesmo moinho ou na mesma casa.

Quando a ruína veio sobre Jerusalém, a providência divina fez uma distinção conforme a que a graça divina fizera antes. Por cuidado especial do Céu, todos os cristãos entre eles foram poupados de morrer naquela calamidade.

Se dois trabalhavam juntos no campo e um era cristão, este era levado a um lugar de refúgio e recebia a vida como despojo, enquanto o outro era deixado à espada inimiga.

Mesmo que apenas duas mulheres moessem no moinho, se uma pertencesse a Cristo — ainda que fosse mulher, pobre e serva —, era levada a lugar seguro, e a outra, abandonada. Assim os mansos da terra se escondem no dia da ira do Senhor (Sofonias 2:3), seja no céu, seja debaixo dele.

Repare: preservações que distinguem pessoas em tempos de destruição geral são sinais especiais do favor de Deus e devem ser reconhecidas como tais. Se ficamos seguros enquanto milhares caem à nossa direita e à esquerda e não somos consumidos quando outros à nossa volta o são, somos como tições arrancados do fogo.

Temos, portanto, motivo para dizer: “É pelas misericórdias do Senhor”. E essa é uma grande misericórdia.

(2.) Podemos aplicá-lo à segunda vinda de Jesus Cristo e à separação que ocorrerá naquele dia. Ele havia dito (v. 31) que os eleitos seriam reunidos. Aqui ensina que, para isso, serão distinguidos até das pessoas mais próximas neste mundo: os escolhidos e eleitos serão levados à glória, e os outros, deixados para perecer eternamente.

Entre os que dormem no pó da terra, dois podem estar na mesma sepultura, com as cinzas misturadas; ainda assim ressuscitarão, um para ser levado à vida eterna, outro para ser deixado à vergonha e ao desprezo eternos (Daniel 12:2).

Aqui a palavra se aplica aos que estiverem vivos. Cristo virá inesperadamente e encontrará as pessoas ocupadas nas tarefas habituais, no campo e no moinho. Conforme sejam vasos de misericórdia preparados para a glória ou vasos de ira preparados para a ruína, assim lhes acontecerá.

Um será levado para encontrar o Senhor e seus anjos nos ares e estar para sempre com eles; o outro será deixado ao diabo e seus anjos, que recolherão os restantes quando Cristo tiver reunido os seus. Agravará a condenação dos pecadores ver outros serem levados do meio deles à glória enquanto eles ficam para trás.

Para o povo do Senhor, porém, isso traz abundante consolo:

[1.] São humildes e desprezados no mundo, como o servo no campo ou a serva no moinho (Êxodo 11:5)? Ainda assim, não serão esquecidos nem ignorados naquele dia. Os pobres aos olhos do mundo, se ricos em fé, são herdeiros do reino.

[2.] Estão dispersos em lugares distantes e improváveis, onde ninguém esperaria encontrar herdeiros da glória, no campo ou no moinho? Os anjos os encontrarão ali — escondidos como Saul entre as bagagens, quando chegar a hora de serem entronizados — e os buscarão.

Com razão se dirá que foram transformados: será uma mudança enorme passar do arado e do moinho para o céu.

[3.] São fracos e incapazes de mover-se por si mesmos rumo ao céu? Serão tomados ou agarrados como Ló foi retirado de Sodoma por uma força benevolente (Gênesis 19:16). Cristo jamais soltará aqueles de quem uma vez se apoderou.

[4.] Estão misturados com outros, unidos a eles nos mesmos lares, no mesmo convívio e nas mesmas ocupações? Que isso não desanime nenhum cristão verdadeiro. Deus sabe separar o precioso do vil, o ouro da escória na mesma massa, o trigo da palha na mesma eira.

III. Temos aqui uma exortação geral a vigiar e estar prontos para a chegada daquele dia, reforçada por diversas considerações importantes (v. 42, etc.). Observe:

  1. O dever exigido, vigiar e estar preparado (v. 42, 44):

(1.) “Vigiai, pois” (v. 42). Repare: vigiar, estar desperto e manter-se assim para cuidar de seus deveres é o grande dever e interesse de todos os discípulos de Cristo. Como a condição ou o caminho de pecado é comparado ao sono, sem consciência nem atividade (1 Tessalonicenses 5:6), assim a condição ou o caminho da graça é comparado à vigilância.

Devemos vigiar à espera da vinda de nosso Senhor: para cada um de nós, na morte, após a qual vem o juízo, o grande dia para nós, o fim de nosso tempo; e, para toda a humanidade, na sua vinda ao fim dos tempos para julgar o mundo.

Vigiar implica não apenas crer que o Senhor virá, mas desejar sua vinda, pensar nela com frequência e esperá-la sempre como certa e próxima, embora sua hora seja desconhecida.

Vigiar à espera da vinda de Cristo é conservar a disposição de coração favorecida pela graça na qual desejaríamos que nosso Senhor nos encontrasse quando vier. É estar atento aos primeiros sinais de sua aproximação para imediatamente prestar atenção a seus movimentos e nos dispor ao dever de encontrá-lo.

A vigilância pressupõe a noite, hora de dormir. Enquanto estamos neste mundo, é noite para nós, e devemos nos esforçar para permanecer acordados.

(2.) “Estai vós também preparados.” De nada adianta ficar acordados se não nos aprontarmos. Não basta esperar essas coisas; devemos também ser diligentes (2 Pedro 3:11, 14).

Teremos nosso Senhor a quem servir e devemos manter nossas lâmpadas acesas e preparadas. Teremos uma causa a ser julgada e devemos ter pronta a defesa, redigida e assinada por nosso Advogado. Teremos contas a acertar e devemos tê-las apuradas e equilibradas.

Há ainda uma herança que esperamos receber naquele momento; nós mesmos devemos estar preparados, aptos a participar dela (Colossenses 1:12).

  1. Há duas razões para nos levar a essa vigilância e preparação diligente para aquele dia:

(1.) O momento da vinda de nosso Senhor é muito incerto. Essa razão acompanha imediatamente a dupla exortação (v. 42, 44) e é ilustrada por uma comparação (v. 43). Consideremos:

[1.] Não sabemos a que hora ele virá (v. 42). Não sabemos o dia da nossa morte (Gênesis 27:2). Podemos saber que nos resta pouco tempo de vida — “O tempo da minha partida está próximo” (2 Timóteo 4:6) —, mas não podemos saber que viveremos muito, pois nossa alma está continuamente em nossas mãos.

Tampouco sabemos quão pouco tempo nos resta, pois pode ser menos do que esperamos. Muito menos conhecemos a data fixada para o juízo geral. Em ambos os casos, a incerteza nos mantém na expectativa diária do que pode acontecer em qualquer dia.

Não devemos nos gabar de que teremos mais um ano (Tiago 4:13), nem sequer de que viveremos até amanhã, como se o dia seguinte nos pertencesse (Provérbios 27:1; Lucas 12:20).

[2.] Ele pode vir numa hora em que não pensamos (v. 44). Embora o momento seja incerto, sua vinda não é: não sabemos quando virá, mas temos certeza de que virá. Suas palavras de despedida foram: “Certamente venho depressa”. Ao dizer “Certamente venho”, obriga-nos a esperá-lo; ao dizer “Venho depressa”, obriga-nos a esperá-lo a todo momento.

Assim, mantém-nos em estado de expectativa. “Numa hora em que não pensais” significa uma hora em que os despreparados não pensam (v. 50), talvez até a hora que os mais atentos julgavam menos provável. O noivo chegou quando as prudentes cochilavam.

Em nossa condição presente, convém que vivamos sob a influência de uma expectativa constante e geral, em vez de esperar indícios e presságios específicos, pelos quais às vezes somos tentados a ansiar em vão.

[3.] Os filhos deste mundo são sábios à sua maneira: ao saber da aproximação de um perigo, permanecem acordados e em guarda. Cristo o mostra por um exemplo particular (v. 43).

Se o dono de uma casa soubesse que um ladrão viria em determinada noite e determinada vigília — pois dividiam a noite em quatro vigílias de três horas — para atacar sua casa, ele ficaria acordado mesmo que fosse a vigília da meia-noite, quando o sono é mais forte.

Escutaria todos os ruídos em cada canto e estaria pronto para recebê-lo de modo enérgico. Não sabemos exatamente quando nosso Senhor virá. Sabemos, porém, que virá em breve e sem outro aviso além daquele dado em sua palavra; por isso precisamos vigiar sempre. Repare:

Primeiro, cada um de nós tem uma casa para guardar. Ela está exposta ao perigo e abriga tudo o que possuímos de valor: é nossa própria alma, que devemos guardar com toda diligência.

Segundo, o dia do Senhor chega de surpresa, como ladrão à noite. Cristo decide vir quando menos o esperam, para transformar os triunfos de seus inimigos em vergonha ainda maior e os temores de seus amigos em alegria ainda maior.

Terceiro, se Cristo nos encontrar dormindo e despreparados quando vier, nossa casa será arrombada e perderemos tudo o que temos de valor. Isso não ocorrerá pela injustiça de um ladrão, mas por um processo justo e legal. A morte e o juízo se apoderarão de tudo o que temos, para dano irreparável e completa ruína nossa.

Portanto, estejam preparados, estejam também preparados, sempre tão prontos quanto estaria o dono da casa na hora em que esperava o ladrão. Devemos vestir a armadura de Deus para não apenas resistir naquele dia mau, mas, como mais que vencedores, repartir os despojos.

(2.) A vinda de nosso Senhor trará um desfecho muito feliz e consolador aos que forem encontrados preparados, mas terrível e sombrio aos que não estiverem (v. 45, etc.). Isso é representado pelas diferentes condições dos servos bons e maus quando seu senhor vem pedir-lhes contas.

Nossa condição por toda a eternidade dependerá de sermos encontrados preparados ou despreparados naquele dia, pois Cristo vem retribuir a cada um segundo suas obras.

A parábola que encerra o capítulo se aplica a todos os cristãos, servos de Deus por profissão e dever. Parece, porém, dirigida especialmente aos ministros, pois o servo mencionado é um administrador. Observe o que Cristo diz:

[1.] Sobre o servo bom. Mostra qual é sua posição — governante da casa —, o que deve ser nela — fiel e sábio —, e o que receberá se o for — bênção eterna. Aqui há boas instruções e estímulos para os ministros de Cristo.

Primeiro, seu lugar e seu ofício. É aquele a quem o Senhor encarregou de governar sua casa e dar-lhe alimento no tempo devido. Repare:

  1. A igreja de Cristo é sua casa ou família, relacionada com ele como Pai e Senhor. É a casa de Deus, uma família que recebe de Cristo seu nome (Efésios 3:15).

  2. Os ministros do evangelho são nomeados dirigentes dessa casa. Não como príncipes — Cristo se precaveu contra isso —, mas como administradores ou outros oficiais subordinados. Não como senhores, mas como guias; não para prescrever novos caminhos, mas para mostrar e conduzir nos caminhos que Cristo estabeleceu.

Esse é o sentido de hegoumenoi, traduzido por “os que governam sobre vós” (Hebreus 13:17). São supervisores não para criar trabalho novo, mas para orientar e animar os outros no trabalho que Cristo ordenou. Esse é o sentido de episkopoi, bispos.

Governam pela autoridade de Cristo: o poder que têm vem dele, e ninguém pode tirá-lo deles nem reduzi-lo. O Senhor é quem faz de alguém dirigente; é Cristo quem constitui os ministros. Governam sob Cristo, em subordinação a ele, e para Cristo, para promover seu reino.

  1. A tarefa dos ministros do evangelho é dar à casa de Cristo alimento no tempo devido. São administradores e, por isso, recebem as chaves. (1.) Sua tarefa é dar, não tomar para si (Ezequiel 34:8). Devem dar à família o que o Senhor comprou e distribuir o que Cristo adquiriu.

Também aos ministros se diz que é mais bem-aventurado dar do que receber (Atos 20:35). (2.) Devem dar alimento, não impor leis, tarefa de Cristo, mas expor à igreja doutrinas que, bem assimiladas, nutrem a alma.

Não devem oferecer o veneno das falsas doutrinas nem as pedras das doutrinas duras e inúteis, mas alimento sólido e saudável.

(3.) O alimento deve ser dado no tempo devido, en kairo: enquanto ainda há tempo, pois, quando vier a eternidade, será tarde demais; devemos trabalhar enquanto é dia. Ou em tempo oportuno, sempre que aparecer uma ocasião; ou no tempo estabelecido, repetidamente, conforme exigir o dever de cada dia.

Segundo, como desempenha bem esse ofício. O servo bom, se for promovido a ele, será um bom administrador, pois:

  1. É fiel. Os administradores devem sê-lo (1 Coríntios 4:2). Quem recebe confiança deve ser digno dela; quanto maior a confiança, mais se espera de quem a recebe. Algo grandioso e bom é confiado aos ministros (2 Timóteo 1:14), e eles devem ser fiéis como Moisés foi (Hebreus 3:2).

Cristo considera ministros aqueles, e somente aqueles, que são fiéis (1 Timóteo 1:12). Um ministro fiel de Jesus Cristo busca sinceramente a honra de seu Senhor, não a própria; expõe todo o conselho de Deus, não suas fantasias e ideias; segue e conserva as instituições de Cristo; cuida dos mais humildes, censura os maiores e não faz acepção de pessoas.

  1. É sábio para compreender seu dever e a ocasião apropriada para cumpri-lo. Ao guiar o rebanho, são necessárias não apenas a integridade do coração, mas também a habilidade das mãos. A honestidade pode bastar para um servo bom, mas a sabedoria é necessária ao bom administrador, pois ajuda a orientar.

  2. Está trabalhando e fazendo o que seu ofício exige. O ministério é uma boa obra, e seus ocupantes sempre têm o que fazer. Não devem entregar-se à comodidade, deixar o trabalho por fazer nem passá-lo descuidadamente a outros.

Devem trabalhar com propósito: dar alimento à família, cuidar de sua própria tarefa sem se intrometer no que não lhes cabe; fazer o que o Senhor estabeleceu, conforme requerem o ofício e as necessidades da família. Devem agir, não apenas falar.

O sr. Perkins usava o lema Minister verbi es: você é ministro da palavra. Não apenas Age, trabalhe, mas Hoc age, faça precisamente este trabalho.

  1. É encontrado trabalhando quando seu Senhor chega. Isso implica: (1.) Constância no trabalho. A qualquer hora em que o Senhor vier, o encontra ocupado com a tarefa do dia. Os ministros não devem deixar lacunas em seu tempo, para que o Senhor não chegue numa delas.

Assim como, para um Deus bondoso, o fim de uma misericórdia é o início de outra, para um homem bom, um ministro bom, o fim de um dever é o início do seguinte.

Quando pediram a Calvino que reduzisse seus trabalhos ministeriais, respondeu com certa indignação: “Como? Querem que meu Senhor me encontre ocioso?”

(2.) Perseverança no trabalho até a vinda do Senhor. Permaneça firme até então (Apocalipse 2:25). Continue nessas coisas (1 Timóteo 4:16; 6:14). Persevere até o fim.

Terceiro, a recompensa destinada a ele, em três aspectos:

  1. Será notado. Isso está implícito na pergunta: quem é, pois, esse servo fiel e sábio? Essa pergunta pressupõe que poucos correspondem a esse caráter; um intérprete assim, um administrador fiel e sábio, é um em mil.

Aqueles que hoje se distinguem pela humildade, diligência e sinceridade no trabalho serão, no grande dia, honrados e distinguidos por Cristo mediante a glória que lhes concederá.

  1. Será bem-aventurado: “Bem-aventurado aquele servo”. Ao declará-lo bem-aventurado, Cristo faz com que o seja. Todos os mortos que morrem no Senhor são bem-aventurados (Apocalipse 14:13). Mas há uma bem-aventurança especial reservada aos que se mostram administradores fiéis e são encontrados trabalhando.

Logo depois da honra dos que morrem no campo de batalha, sofrendo por Cristo como mártires, vem a dos que morrem no campo de serviço, arando, semeando e colhendo para Cristo.

  1. Será promovido (v. 47): “Ele o porá sobre todos os seus bens”. A imagem é do costume dos grandes homens, que costumam promover administradores competentes de sua casa à gestão de suas propriedades. Foi assim que José recebeu uma promoção na casa de Potifar (Gênesis 39:4, 6).

Mas a maior honra que o senhor mais bondoso já concedeu a seus servos mais provados neste mundo não é nada diante do peso de glória que o Senhor Jesus dará aos seus servos fiéis e vigilantes no mundo por vir.

O que aqui se diz por comparação é dito mais claramente em João 12:26: “A esse meu Pai honrará”. E os servos de Deus, quando assim promovidos, serão perfeitos em sabedoria e santidade para suportar esse peso de glória. Não haverá, portanto, perigo algum quando eles reinarem.

[2.] Sobre o servo mau. Temos aqui:

Primeiro, sua descrição (vv. 48-49), que o apresenta com suas verdadeiras cores. A mais vil das criaturas é o homem perverso; o mais vil dos homens, o cristão perverso; e o mais vil deles, o ministro perverso. Corruptio optimi est pessima: o melhor, quando corrompido, torna-se o pior.

A perversidade nos profetas de Jerusalém é de fato coisa horrível (Jeremias 23:14). Aqui estão:

  1. A causa de sua perversidade: na prática, não crê na segunda vinda de Cristo. Ele disse em seu coração: “Meu Senhor demora a vir”. Por isso começa a pensar que ele nunca virá, mas abandonou completamente sua igreja. Observe:

(1.) Cristo conhece o que dizem no coração aqueles que clamam “Senhor, Senhor” com os lábios, como este servo.

(2.) Os perversos abusam muito da demora da vinda de Cristo, embora ela seja manifestação graciosa de sua paciência; por causa dela, endurecem o coração em seus maus caminhos.

Quando se considera a vinda de Cristo duvidosa ou imensamente distante, o coração dos homens fica inteiramente disposto a fazer o mal (Eclesiastes 8:11). Veja Ezequiel 12:27.

Os que andam pelo que veem tendem a dizer do Jesus invisível o que o povo disse de Moisés quando ele demorou no monte por incumbência deles: “Não sabemos o que lhe aconteceu”. Por isso: “Venham, façam-nos deuses”: fazer do mundo um deus, do ventre outro, qualquer coisa menos aquele que deveria ser Deus.

  1. Os aspectos de sua perversidade são pecados da maior gravidade: é escravo de suas paixões e seus apetites:

(1.) É acusado aqui de perseguir os outros: começa a ferir os conservos. Repare: [1.] Até os administradores da casa devem considerar os demais servos como seus conservos; portanto, não lhes é permitido dominá-los.

Se o anjo se chamou conservo de João (Apocalipse 19:10), não surpreende que João tenha aprendido a chamar-se irmão dos cristãos das igrejas da Ásia (Apocalipse 1:9).

[2.] Não é novidade ver servos maus ferirem seus conservos, tanto os cristãos comuns quanto os ministros fiéis. Ele os fere porque o censuram ou porque não se curvam para reverenciá-lo: recusam-se a dizer e fazer, contra a consciência, o que ele diz e faz.

Fere-os com a língua, como feriram o profeta (Jeremias 18:18). Se obtiver poder ou conseguir pôr a seu serviço os que o têm, como os dez chifres da cabeça da besta, vai além das palavras. O sacerdote Pasur feriu Jeremias e o pôs no tronco (Jeremias 20:2).

Os rebeldes muitas vezes se aprofundaram mais do que todos na prática da matança (Oseias 5:2). Ao ferir seus conservos, o administrador o faz sob pretexto da autoridade do Senhor e em seu nome. Diz: “Seja o Senhor glorificado” (Isaías 66:5), mas descobrirá que não poderia insultar mais gravemente o seu Senhor.

(2.) Profanação e imoralidade: começa a comer e beber com os bêbados. [1.] Associa-se aos piores pecadores, tem comunhão e intimidade com eles; anda no conselho deles, para no caminho deles, senta-se no assento deles e canta suas canções.

Os bêbados são uma companhia alegre e divertida, e ele a prefere; assim os fortalece na perversidade. [2.] Age como eles: come, bebe e se embriaga, como diz Lucas. Isso abre caminho para toda espécie de pecado.

A embriaguez conduz à perversidade. Quem é escravo dela jamais domina a si mesmo em qualquer outro aspecto. Os perseguidores do povo de Deus geralmente foram os homens mais viciosos e imorais. Consciências perseguidoras, sejam quais forem suas alegações, costumam ser as mais dissolutas e depravadas.

Com que não se embriagariam aqueles que se embriagam com o sangue dos santos? Eis a descrição de um ministro perverso, que ainda assim pode ter dons comuns de erudição e eloquência superiores aos dos outros.

Como já se disse de alguns, ele pode pregar tão bem no púlpito que é pena que saia de lá e viver tão mal fora dele que é pena que entre.

Segundo, sua condenação pronunciada (vv. 50-51). A veste e o caráter dos ministros perversos não apenas deixarão de protegê-los da condenação, mas a agravarão muito. Não podem alegar isenção da jurisdição de Cristo, por mais que, na igreja de Roma, aleguem isenção da do magistrado civil. Não há privilégio do clero diante do tribunal de Cristo. Observe:

  1. A surpresa que acompanhará a condenação (v. 50): O senhor daquele servo virá. Repare: (1.) Adiar os pensamentos sobre a vinda de Cristo não adiará a vinda dele. Seja qual for a fantasia com que o servo se iluda, seu Senhor virá.

A incredulidade humana não tornará sem efeito essa grande promessa ou ameaça, chame-a como quiser.

(2.) A vinda de Cristo será uma surpresa terrível para os pecadores seguros e descuidados, especialmente para os ministros perversos: “Virá em dia em que não o espera”. Repare: os que desprezaram as advertências da palavra e silenciaram as da própria consciência sobre o juízo futuro não podem esperar outras.

Essas advertências serão consideradas aviso legal suficiente, tenham sido atendidas ou não. Ninguém poderá acusar Cristo de injustiça se ele vier subitamente, sem outro aviso. Ele já nos advertiu.

  1. A severidade da condenação (v. 51). Ela não é mais severa do que justa, mas traz a ruína completa, resumida em duas palavras terríveis: morte e condenação:

(1.) Morte. Seu senhor o cortará ao meio, dikotomesei auton: ele o cortará da terra dos vivos, da congregação dos justos; separá-lo-á para o mal, que é a definição de maldição (Deuteronômio 29:21). Derrubá-lo-á como árvore que ocupa inutilmente o solo.

Talvez haja aqui alusão à sentença frequente na lei: “Aquela alma será eliminada de seu povo”, expressão de extirpação completa.

A morte corta o homem bom como um rebento escolhido, retirado para ser enxertado em tronco melhor. Mas corta o homem mau como ramo seco destinado ao fogo: separa-o deste mundo no qual havia posto tanto o coração e com o qual, por assim dizer, era um só.

Ou, como lemos, o cortará ao meio, isto é, separará corpo e alma. Enviará o corpo ao túmulo, para ser presa dos vermes, e a alma ao inferno, para ser presa dos demônios. Assim o pecador será cortado em duas partes.

Na morte, a alma e o corpo do piedoso se separam serenamente: a primeira sobe alegremente a Deus, e o segundo fica no pó. A alma e o corpo do perverso, porém, são arrancados um do outro, pois para ele a morte é o rei dos terrores (Jó 18:14).

O servo mau dividiu-se entre Deus e o mundo, entre Cristo e Belial, entre sua profissão de fé e seus desejos pecaminosos. Com justiça, portanto, será dividido assim.


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