Matthew Henry

Mateus 23

Argumento

No capítulo anterior, tivemos os discursos de nosso Salvador com os escribas e fariseus; aqui temos seu discurso a respeito deles, ou melhor, contra eles.

I. Ele reconhece o ofício deles (v. 2, 3). II. Adverte os discípulos a não imitarem sua hipocrisia e seu orgulho (vv. 4-12).

III. Apresenta contra eles uma acusação por diversos crimes graves e delitos: corrompem a lei, opõem-se ao evangelho e agem traiçoeiramente tanto com Deus quanto com os homens. A cada artigo antepõe um “ai” (vv. 13-33).

IV. Profere sentença contra Jerusalém e prediz a ruína da cidade e do templo, especialmente pelo pecado da perseguição (vv. 34-39).

Versículos 1 a 12

Os Escribas e Fariseus Condenados; Advertências contra o Orgulho.

Em toda a sua pregação, não encontramos Cristo tão severo com nenhum grupo quanto com estes escribas e fariseus. A verdade é que nada se opõe mais diretamente ao espírito do evangelho do que o caráter e a conduta daquela geração, formada de orgulho, mundanismo e tirania sob o manto e a alegação da religião.

Ainda assim, eram os ídolos e favoritos do povo, que pensava que, se apenas dois homens fossem para o céu, um deles seria fariseu. Cristo dirige agora seu discurso à multidão e aos discípulos (v. 1) para corrigir os enganos deles acerca dos escribas e fariseus, pintando-os com suas verdadeiras cores.

Assim, removeria o preconceito que alguns da multidão haviam concebido contra ele e sua doutrina porque ambos encontravam oposição naqueles homens de sua igreja que se chamavam guias do povo.

Repare: convém conhecer o verdadeiro caráter dos homens, para não nos deixarmos iludir por nomes, títulos e alegações de poder grandiosos e imponentes.

É preciso avisar o povo dos lobos (Atos 20:29, 30), dos cães (Filipenses 3:2) e dos obreiros fraudulentos (2 Coríntios 11:13), para que saiba diante de quem se pôr em guarda.

Não apenas a multidão mista, mas até mesmo os discípulos precisam dessas advertências, pois homens bons tendem a ter os olhos ofuscados pela pompa mundana. Neste discurso:

I. Cristo reconhece o ofício deles como expositores da lei. Os escribas e fariseus, isto é, todo o Sinédrio, que dirigia o governo da igreja, cujos membros eram todos chamados escribas e alguns eram fariseus, assentam-se na cadeira de Moisés (v. 2) como mestres públicos e intérpretes da lei.

Como a lei de Moisés era a lei civil de seu Estado, eram como juízes ou um tribunal de magistrados. Ensinar e julgar parecem equivalentes, comparando-se 2 Crônicas 17:7, 9 com 2 Crônicas 19:5, 6, 8.

Não eram juízes itinerantes que percorriam uma circunscrição, mas um tribunal permanente que decidia, segundo a lei, recursos, veredictos especiais e pedidos de revisão por erro. Ocupavam a cadeira de Moisés apenas quanto à função dele como juiz supremo, não como mediador entre Deus e Israel (Êxodo 18:26).

Ou podemos aplicar isso não ao Sinédrio, mas aos demais fariseus e escribas que expunham a lei e ensinavam o povo a aplicá-la a casos particulares. O púlpito de madeira, como o que foi feito para Esdras, escriba versado na lei de Deus (Neemias 8:4), é aqui chamado cadeira de Moisés.

Isso porque Moisés tinha, em cada cidade, os que o pregavam nesses púlpitos, conforme a expressão de Atos 15:21. Esse era o ofício deles, justo e honroso. Era necessário que houvesse pessoas de cuja boca o povo pudesse buscar a lei (Malaquias 2:7). Repare:

  1. Muitos lugares bons são ocupados por homens maus. Não é novidade que até os homens mais vis sejam exaltados à cadeira de Moisés (Salmos 12:8). Quando isso ocorre, os homens não são tão honrados pelo lugar quanto o lugar é desonrado por eles.

Os que ocupavam a cadeira de Moisés haviam degenerado de modo tão lamentável que chegara o momento de surgir o grande Profeta, semelhante a Moisés, para estabelecer outra cadeira.

  1. Ofícios e poderes bons e úteis não devem ser condenados nem abolidos apenas porque às vezes caem nas mãos de homens maus, que abusam deles. Não devemos derrubar a cadeira de Moisés porque escribas e fariseus a ocuparam. Em vez disso: “Deixai crescer ambos juntos até a colheita” (Mateus 13:30).

Daí ele conclui (v. 3): “Tudo o que vos disserem para guardar, guardai-o e fazei-o”. Na medida em que ocupam a cadeira de Moisés, isto é, leem e pregam a lei dada por Moisés, que ainda continuava em plena força, poder e eficácia, e julgam segundo essa lei, nessa medida vocês devem ouvi-los como aqueles que lhes recordam a palavra escrita.

Os escribas e fariseus dedicavam-se ao estudo da Escritura e conheciam bem sua língua, história, costumes, estilo e fraseologia. Cristo queria que o povo aproveitasse a ajuda que lhe ofereciam para entender a Escritura e agir de acordo com ela.

Enquanto seus comentários esclarecessem o texto, sem deturpá-lo, e tornassem claro o mandamento de Deus, sem anulá-lo, deveriam ser observados e obedecidos, mas com cautela e discernimento.

Repare: não devemos pensar pior das boas verdades por serem pregadas por maus ministros, nem das boas leis por serem executadas por maus magistrados.

É muito desejável que anjos nos tragam alimento; mas, se Deus o enviar por corvos, devemos aceitá-lo, desde que seja bom e saudável, e agradecer-lhe por ele. Nosso Senhor Jesus antepõe esta ressalva para impedir a objeção que alguns poderiam fazer ao discurso que se segue.

Seria como se, ao condenar os escribas e fariseus, tivesse o desígnio de desacreditar a lei de Moisés e afastar o povo dela, quando na verdade veio não para destruir, mas para cumprir.

Repare: é sábio prevenir as objeções que podem ser levantadas contra censuras justas, sobretudo quando é preciso distinguir entre os ocupantes de um ofício e o ofício, para que o ministério não seja censurado quando os ministros o forem.

II. Ele condena os homens. Havia ordenado à multidão que fizesse o que eles ensinavam; agora acrescenta uma advertência para que não faça o que eles faziam e tome cuidado com seu fermento: “Não procedais segundo as obras deles”.

Suas tradições eram suas obras, seus ídolos, as obras de sua imaginação. Ou: “Não sigam o exemplo deles”.

Doutrinas e práticas são espíritos que precisam ser examinados e, quando necessário, cuidadosamente separados e distinguidos.

Assim como não devemos aceitar doutrinas corrompidas por causa de alguma conduta louvável de quem as ensina, também não devemos imitar maus exemplos por causa das doutrinas plausíveis de quem os dá.

Os escribas e fariseus se vangloriavam tanto da bondade de suas obras quanto da ortodoxia de seu ensino e esperavam ser justificados por elas. Era essa a alegação que apresentavam (Lucas 18:11, 12). Contudo, essas mesmas coisas que tanto estimavam em si eram uma abominação aos olhos de Deus.

Nosso Salvador, aqui e nos versículos seguintes, especifica diversos aspectos das obras deles nos quais não devemos imitá-los. De modo geral, são acusados de hipocrisia, dissimulação ou duplicidade na religião. Esse crime não pode ser investigado num tribunal humano, pois só podemos julgar pela aparência externa.

Deus, porém, que sonda o coração, pode declarar alguém culpado de hipocrisia; e nada lhe desagrada mais, pois ele deseja a verdade. Quatro coisas lhes são imputadas nestes versículos:

  1. Diziam uma coisa e faziam outra.

Sua conduta não correspondia de modo algum nem à pregação nem à profissão de fé: dizem e não fazem.

Ensinam pela lei o que é bom, mas sua conduta os desmente, e parecem ter encontrado para si mesmos outro caminho para o céu, diferente daquele que mostram aos outros. Veja como isso é ilustrado e aplicado diretamente a eles em Romanos 2:17-24.

De todos os pecadores, os menos desculpáveis são os que se permitem praticar os pecados que condenam nos outros, ou pecados piores. Isso atinge especialmente os ministros perversos, que certamente terão sua porção designada com os hipócritas (Mateus 24:51).

Que hipocrisia poderia ser maior do que exigir que outros creiam e façam aquilo em que eles mesmos não creem e a que não obedecem? Derrubam na prática o que constroem na pregação. Quando estão no púlpito, pregam tão bem que é pena que saiam de lá; fora dele, vivem tão mal que é pena que entrem.

São como sinos que chamam os outros à igreja, mas ficam pendurados do lado de fora, ou como marcos de Mercúrio que apontam o caminho aos outros, mas permanecem parados. Esses serão julgados por suas próprias palavras.

Isso também se aplica a todos os que dizem e não fazem: fazem uma profissão de fé plausível, mas não vivem de acordo com ela; fazem belas promessas, mas não as cumprem; têm muito bom discurso e sabem ditar a lei a todos ao redor, mas são vazios de boas obras. Falam muito e fazem pouco: a voz é a de Jacó, mas as mãos são as de Esaú.

Vox et præterea nihil: mero som. Falam com belas palavras: “Vou, senhor”, mas não se pode confiar neles, pois há sete abominações em seu coração.

  1. Eram muito severos ao impor aos outros coisas cujo peso eles mesmos não estavam dispostos a suportar (v. 4): “Atam fardos pesados e difíceis de carregar”. Não se limitavam a insistir nos mínimos detalhes da lei, chamada de jugo (Atos 15:10), e a exigir sua observância com mais rigor e severidade do que o próprio Deus.

A máxima dos juristas, porém, é Apices juris non sunt jura: meras minúcias da lei não são a lei. Também acrescentavam às palavras de Deus suas próprias invenções e tradições e as impunham sob as mais graves penalidades.

Gostavam de exibir sua autoridade e exercer a capacidade de dominar, senhoreando-se da herança de Deus e dizendo às almas: “Curvai-vos para que passemos por cima de vós”.

Testemunham isso seus muitos acréscimos à lei do quarto mandamento, pelos quais fizeram do sábado um fardo sobre os ombros, quando ele fora destinado a ser a alegria do coração.

Assim esses pastores governavam o rebanho com força e crueldade, como antigamente (Ezequiel 34:4). Veja, porém, sua hipocrisia: “Eles mesmos nem com um de seus dedos querem movê-los”.

(1.) Não se exercitavam nas coisas que impunham aos outros. Exigiam do povo um rigor religioso ao qual eles mesmos não queriam ficar sujeitos, mas transgrediam secretamente suas próprias tradições, que impunham em público. Satisfaziam o orgulho ao legislar para outros, mas cuidavam da própria comodidade em sua conduta.

Assim se disse, em descrédito dos sacerdotes papistas, que jejuavam com vinho e doces enquanto obrigavam o povo a jejuar com pão e água, e fugiam das penitências que impunham aos leigos.

(2.) Não aliviavam o povo nessas coisas, nem punham um dedo para tornar mais leve o fardo quando viam que este o apertava. Sabiam encontrar interpretações frouxas da lei de Deus e dispensar seu cumprimento, mas não cediam um milímetro em suas próprias imposições nem perdoavam a falta no menor detalhe delas.

Não admitiam nenhum tribunal de equidade que aliviasse os rigores de sua lei comum. Quão diferente era a conduta dos apóstolos de Cristo! Concediam aos outros o uso da liberdade cristã que negavam a si mesmos em favor da paz e da edificação da igreja.

Não impunham outros fardos além das coisas necessárias, e estas eram leves (Atos 15:28). Com quanto cuidado Paulo poupa aqueles a quem escreve! (1 Coríntios 7:28; 9:12).

  1. Na religião, preocupavam-se apenas com a aparência, não com a substância (v. 5): “Todas as suas obras fazem para serem vistos pelos homens”. Devemos praticar boas obras de modo que quem as vê glorifique a Deus, mas não anunciá-las com a intenção de que outros as vejam e nos glorifiquem.

Nosso Salvador imputa isso aos fariseus em geral, como já fizera nos casos particulares da oração e da esmola. Todo o objetivo deles era receber louvor dos homens; por isso, todo o empenho era aparecer diante deles e ostentar boa aparência na carne.

Nos deveres religiosos visíveis aos homens, ninguém era tão constante e abundante quanto eles. Quanto ao que se passa entre Deus e a alma, no recolhimento do quarto e no íntimo do coração, desejavam ser dispensados.

A aparência de piedade lhes daria fama de vivos, que era tudo o que buscavam; por isso não se preocupavam com seu poder, essencial para uma vida verdadeira. Quem faz tudo para ser visto não faz nada de proveito.

Ele especifica duas coisas que faziam para serem vistos pelos homens:

(1.) Alargavam seus filactérios. Eram pequenos rolos de papel ou pergaminho nos quais se escreviam com grande esmero estas quatro passagens da lei: Êxodo 13:2-11; 13:11-16; Deuteronômio 6:4-9; 11:13-21. Costuravam-nos em couro e os usavam na testa e no braço esquerdo.

Era tradição dos anciãos, relacionada a Êxodo 13:9 e Provérbios 7:3. Ali, as expressões parecem figuradas: significam apenas que devemos guardar as coisas de Deus na mente com tanto cuidado como se estivessem atadas entre os olhos.

Os fariseus alargavam esses filactérios para parecer mais santos, rigorosos e zelosos pela lei do que os outros. É uma ambição boa desejar ser de fato mais santo do que os outros, mas é orgulho desejar apenas parecer assim.

É bom sobressair na piedade verdadeira, mas não exagerar nas demonstrações externas, pois o excesso desperta justamente a suspeita de algum desígnio (Provérbios 27:14).

É próprio da hipocrisia fazer mais alarde do que o necessário nos atos externos de culto, além do que se exige para comprovar ou aperfeiçoar os bons afetos e disposições da alma.

(2.) Alargavam as franjas das roupas. Deus ordenara aos judeus que fizessem franjas ou bordas nas vestes (Números 15:38), para distingui-los das outras nações e lembrá-los de que eram um povo peculiar.

Os fariseus, porém, não se contentavam em ter franjas iguais às dos outros, que serviriam ao propósito de Deus ao instituí-las. Precisavam fazê-las maiores do que o comum, para cumprir seu próprio desígnio de chamar a atenção, como se fossem mais religiosos do que os outros.

Aqueles que assim alargam os filactérios e as franjas das roupas, enquanto seu coração é estreito e desprovido de amor a Deus e ao próximo, podem agora enganar os outros, mas no fim enganarão a si mesmos.

  1. Tinham grande gosto pela preeminência e pela superioridade, e muito se orgulhavam disso. O orgulho era o pecado dominante e favorito dos fariseus, o pecado que mais facilmente os envolvia e contra o qual nosso Senhor Jesus aproveita toda ocasião para testemunhar.

(1.) Ele descreve o orgulho deles (vv. 6-7). Buscavam e cobiçavam:

[1.] Lugares de honra e respeito. Em todas as aparições públicas, como nos banquetes e nas sinagogas, esperavam receber, e recebiam para satisfação de seu coração, os lugares mais elevados e os assentos principais.

Tomavam precedência sobre todos os outros, e ela lhes era concedida como pessoas da maior importância e mérito. É fácil imaginar a satisfação que isso lhes dava: amavam a preeminência (3 João 1:9).

Não se condena ocupar os lugares mais elevados nem sentar-se nos assentos principais, pois alguém precisa fazê-lo, mas amá-los.

Dar valor a uma cerimônia tão pequena como sentar-se mais alto, passar primeiro, ficar junto à parede ou do lado favorecido, e orgulhar-se disso, buscá-la e ressentir-se quando não a consegue: que é isso senão fazer de si um ídolo e então prostrar-se para adorá-lo, a pior espécie de idolatria?

É ruim em qualquer lugar, mas especialmente nas sinagogas. Buscar honra para nós mesmos onde comparecemos para dar glória a Deus e humilhar-nos diante dele é, na verdade, zombar de Deus em vez de servi-lo.

Davi se deitaria de bom grado à soleira da casa de Deus; tão longe estava de cobiçar ali o assento principal (Salmos 84:10).

Há muito orgulho e hipocrisia quando as pessoas não se interessam em ir à igreja, a menos que possam vestir-se bem e causar boa impressão ali.

[2.] Títulos de honra e respeito. Gostavam de saudações nas praças, de que as pessoas lhes tirassem o chapéu e lhes mostrassem respeito ao encontrá-los nas ruas. Quanto isso os agradava e alimentava sua vaidade!

Digito monstrari et dicier, Hic est: ser apontado com o dedo e ouvir dizer “Este é ele”; ter caminho aberto entre a multidão na praça: “Afastem-se, vem aí um fariseu!”; e receber o título elevado e pomposo de “Rabi, Rabi!”. Isso lhes era comida, bebida e iguarias.

Sentiam nisso tanta satisfação quanto Nabucodonosor em seu palácio, quando disse: “Não é esta a grande Babilônia que eu construí?” As saudações não lhes teriam dado nem metade do prazer se não ocorressem nas praças, onde todos podiam ver quanto eram respeitados e como o povo os estimava.

Pouco antes do tempo de Cristo, os mestres judeus, os mestres de Israel, haviam assumido o título de Rabi, Rab ou Rabã, que significa grande ou muito, e era interpretado como Doutor ou Meu Senhor.

Davam tanta importância a isso que estabeleceram como máxima: “Quem saúda seu mestre e não o chama Rabi provoca a Majestade divina a deixar Israel”. Quanta religião depositavam no que era mera questão de boas maneiras!

É bastante louvável que quem recebe o ensino da palavra respeite quem o ensina. Mas, quando o mestre ama, exige e busca esse respeito, incha-se de orgulho por ele e se aborrece se não o recebe, isso é pecaminoso e abominável. Em vez de ensinar, precisa aprender a primeira lição na escola de Cristo: a humildade.

(2.) Ele adverte os discípulos a não se parecerem com eles nesse ponto. Aqui não devem agir conforme as obras deles: “Mas não vos deixeis chamar assim, pois não deveis ter tal espírito” (v. 8, etc.). Aqui está:

[1.] Uma proibição do orgulho. Aqui lhes é proibido:

Primeiro, exigir para si títulos de honra e domínio (vv. 8-10). A proibição é repetida duas vezes: não se deixem chamar Rabi, nem Mestre ou Guia.

Isso não quer dizer que seja errado prestar respeito civil aos que estão acima de nós no Senhor; ao contrário, é uma expressão da honra e estima que temos o dever de lhes mostrar. Mas:

  1. Os ministros de Cristo não devem ambicionar o nome de Rabi ou Mestre como distinção em relação às outras pessoas. Não condiz com a simplicidade do evangelho cobiçarem ou aceitarem a honra concedida aos que vivem em palácios de reis.

  2. Não devem assumir a autoridade e o domínio implícitos nesses nomes. Não devem agir como senhores nem dominar sobre os irmãos ou sobre a herança de Deus, como se tivessem domínio sobre a fé dos cristãos.

Todos devem receber deles aquilo que receberam do Senhor. Nas demais coisas, porém, não devem fazer de suas opiniões e vontades regra e padrão para os outros, a ser aceita em obediência cega. As razões para essa proibição são:

(1.) “Um só é o vosso Mestre, o próprio Cristo” (v. 8; novamente no v. 10). Repare:

[1.] Cristo é nosso Mestre, nosso Instrutor, nosso Guia. O sr. George Herbert, ao mencionar o nome de Cristo, costumava acrescentar: “Meu Mestre”.

[2.] Só Cristo é nosso Mestre; os ministros são apenas ajudantes na escola. Só Cristo é o Mestre, o grande Profeta, a quem devemos ouvir e por quem devemos ser regidos e até corrigidos. Sua palavra deve ser para nós oráculo e lei. “Em verdade vos digo” deve bastar-nos.

Se ele é nosso único Mestre, os ministros que se estabelecem como ditadores e alegam supremacia e infalibilidade usurpam ousadamente uma honra de Cristo que ele não dará a outro.

(2.) “Todos vós sois irmãos”. Os ministros são irmãos não apenas uns dos outros, mas também do povo; por isso não lhes convém ser senhores, quando só têm irmãos sobre quem pretender dominar.

Além disso, somos todos irmãos mais novos; caso contrário, o primogênito poderia reivindicar dignidade e poder superiores (Gênesis 49:3). Para impedir isso, o próprio Cristo é o primogênito entre muitos irmãos (Romanos 8:29). Vocês são irmãos porque são todos discípulos do mesmo Mestre.

Companheiros de escola são irmãos e, como tais, devem ajudar-se a aprender a lição. Não se pode permitir, porém, que um aluno ocupe a cadeira do mestre e dite regras à escola. Se somos todos irmãos, não devemos ser muitos mestres (Tiago 3:1).

Segundo, são proibidos de atribuir tais títulos a outros (v. 9): “A ninguém na terra chameis vosso pai”. Não constituam homem algum pai de sua religião, isto é, fundador, autor, diretor e governante dela.

Os pais de nossa carne devem ser chamados pais, e como tais devemos respeitá-los; mas só a Deus devemos reconhecer como Pai de nossos espíritos (Hebreus 12:9). Nossa religião não pode provir de homem algum nem depender dele.

Nascemos de novo para a vida espiritual e divina não de semente corruptível, mas pela palavra de Deus; não da vontade da carne nem da vontade do homem, mas de Deus. Como a vontade humana não é a origem de nossa religião, também não deve ser sua regra.

Não devemos jurare in verba magistri, jurar fidelidade aos ditames de qualquer criatura, nem mesmo da mais sábia ou da melhor, nem prender nossa fé à manga de homem algum, pois não sabemos aonde a levará.

Paulo se chama pai daqueles de cuja conversão fora instrumento (1 Coríntios 4:15; Filemom 1:10). Não alega, porém, domínio sobre eles; emprega o título para indicar afeição, não autoridade. Por isso não os chama de filhos que lhe devem algo, mas de filhos amados (1 Coríntios 4:14).

A razão apresentada é: “Um só é o vosso Pai, aquele que está no céu”. Deus é nosso Pai e é Tudo em tudo em nossa religião. É sua Fonte e seu Fundador; sua Vida e seu Senhor. Somente dele, como origem, provém nossa vida espiritual, que depende dele.

Ele é o Pai de todas as luzes (Tiago 1:17), aquele único Pai de quem procedem todas as coisas e em quem existimos (Efésios 4:6). Cristo nos ensinou a dizer: “Pai nosso, que estás no céu”. Portanto, não chamemos homem algum de Pai na terra.

Homem algum, porque o homem é um verme e o filho do homem, outro verme, ambos talhados da mesma rocha que nós; menos ainda alguém na terra, pois o homem terreno é um verme pecador. Não há homem justo na terra que faça o bem e não peque; portanto, ninguém está apto a ser chamado Pai.

[2.] Aqui há um preceito de humildade e sujeição mútua (v. 11): “O maior dentre vós será vosso servo”. Não basta chamar-se assim.

Sabemos de alguém que se intitula Servus servorum Dei, servo dos servos de Deus, mas age como Rabi, pai e mestre, e como Dominus Deus noster, nosso Senhor Deus, e sabe-se lá mais o quê. Ele deve de fato ser servo.

Entenda-se isso como promessa: “Será considerado o maior e ocupará o lugar mais alto no favor de Deus aquele que for o mais submisso e prestativo”. Ou como preceito: “Aquele que for elevado a alguma posição de dignidade, confiança e honra na igreja deve ser servo de vocês”. Algumas cópias leem esto em vez de estai.

Não pense que sua carta de nomeação honrosa seja uma dispensa de trabalho. Não: o maior não é senhor, mas ministro. Paulo, que conhecia tanto seu privilégio quanto seu dever, embora livre de todos, fez-se servo de todos (1 Coríntios 9:19).

Nosso Mestre insistia com frequência para que os discípulos fossem humildes e negassem a si mesmos, fossem brandos e condescendentes e abundassem em todas as tarefas do amor cristão, mesmo nas mais humildes e para com os mais humildes. Nisso, ele nos deu o exemplo.

[3.] Aqui há uma boa razão para tudo isso (v. 12). Considere:

Primeiro, o castigo destinado aos orgulhosos: “Quem se exaltar será humilhado”. Se Deus lhes conceder arrependimento, serão humilhados aos próprios olhos e sentirão repulsa de si mesmos por isso. Se não se arrependerem, cedo ou tarde serão humilhados diante do mundo.

Nabucodonosor, no auge do orgulho, foi reduzido a companheiro de mesa dos animais; Herodes tornou-se banquete para os vermes; e Babilônia, que se assentava como rainha, tornou-se objeto de desprezo das nações.

Deus fez dos sacerdotes orgulhosos e ambiciosos homens desprezíveis e vis (Malaquias 2:9), e do profeta mentiroso, a cauda (Isaías 9:15).

Se, porém, os orgulhosos não receberem neste mundo sinais de humilhação, virá o dia em que ressuscitarão para vergonha e desprezo eternos (Daniel 12:2). Tão abundantemente Deus retribuirá ao orgulhoso! (Salmos 31:23).

Segundo, a elevação destinada aos humildes: “Quem se humilhar será exaltado”. A humildade é o ornamento de grande valor aos olhos de Deus. Neste mundo, os humildes têm a honra de ser aceitos pelo Deus santo e respeitados por todos os homens sábios e bons.

São preparados para os serviços mais honrosos e muitas vezes chamados a eles. A honra é como uma sombra: foge dos que a perseguem e tentam agarrá-la, mas segue os que fogem dela.

No outro mundo, porém, os que se humilharam na contrição pelo pecado, na obediência a Deus e na condescendência para com os irmãos serão exaltados para herdar o trono de glória. Serão não apenas reconhecidos, mas coroados, diante de anjos e homens.

Versículos 13 a 33

Os Crimes dos Fariseus.

Nestes versículos, temos oito ais dirigidos diretamente contra os escribas e fariseus por nosso Senhor Jesus Cristo, como outros tantos estrondos de trovão ou clarões de relâmpago vindos do monte Sinai.

Três ais são apresentados como muito terríveis (Apocalipse 8:13; 9:12); aqui, porém, há oito ais, em oposição às oito bem-aventuranças (Mateus 5:3). O evangelho tem seus ais, assim como a lei, e as maldições do evangelho são as mais pesadas de todas.

Esses ais são tanto mais notáveis, não só pela autoridade, mas pela mansidão e brandura daquele que os pronunciou. Ele veio para abençoar e amava abençoar; mas, se sua cólera se acende, certamente há motivo para isso. Quem intercederá por aquele contra quem o grande Intercessor pleiteia? Um ai de Cristo é um ai sem remédio.

Este é aqui o refrão do cântico, e é um refrão pesado: “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas!” Repare:

  1. Os escribas e fariseus eram hipócritas. Nisso se resumem todas as outras características más deles; era o fermento que dava sabor a tudo o que diziam e faziam.

Um hipócrita é um ator na religião, que é o significado primário da palavra. Ele representa ou desempenha o papel de alguém que nem é nem pode ser, ou talvez que nem é nem desejaria ser.

  1. Que os hipócritas estão num estado e numa condição lamentáveis. Ai dos hipócritas! Assim disse aquele cuja declaração de que a situação deles é miserável faz com que seja assim. Enquanto vivem, sua religião é vã; quando morrem, sua ruína é grande.

Cada um desses ais contra os escribas e fariseus tem um motivo anexo, contendo um crime distinto de que são acusados, provando sua hipocrisia e justificando o juízo de Cristo contra eles; pois seus ais, suas maldições, nunca são sem causa.

I. Eram inimigos jurados do evangelho de Cristo e, consequentemente, da salvação das almas dos homens (v. 13). Fecham o reino dos céus contra os homens, isto é, faziam tudo o que podiam para impedir que as pessoas cressem em Cristo e assim entrassem em seu reino.

Cristo veio para abrir o reino dos céus, isto é, para abrir para nós um caminho novo e vivo de entrada nele, para conduzir os homens a serem súditos desse reino.

Agora, os escribas e fariseus, que se assentavam na cadeira de Moisés e alegavam possuir a chave do conhecimento, deveriam ter prestado sua ajuda nisso, expondo, em seu sentido verdadeiro e próprio, as passagens do Antigo Testamento que apontavam para o Messias e seu reino.

Os que se encarregavam de explicar Moisés e os profetas deveriam ter mostrado ao povo como estes testemunhavam de Cristo: que as semanas de Daniel estavam terminando, o cetro se afastara de Judá e, portanto, agora era o momento da manifestação do Messias.

Assim, poderiam ter facilitado essa grande obra e ajudado milhares a chegar ao céu; mas, em vez disso, fecharam o reino dos céus.

Ocupavam-se em insistir na lei cerimonial, que agora estava desaparecendo, em suprimir as profecias, que agora estavam se cumprindo, e em gerar e alimentar na mente do povo preconceitos contra Cristo e sua doutrina.

  1. Eles próprios não queriam entrar: “Creu nele algum dos governantes ou dos fariseus?” (João 7:48). Não; eram orgulhosos demais para se abaixarem até a humilde condição dele, formais demais para se reconciliarem com sua simplicidade.

Não gostavam de uma religião que insistia tanto na humildade, na abnegação, no desprezo do mundo e no culto espiritual. O arrependimento era a porta de entrada nesse reino.

Nada poderia ser mais desagradável aos fariseus, que se justificavam e se admiravam, do que arrepender-se, isto é, acusar-se, rebaixar-se e abominar-se. Por isso, eles próprios não entravam; mas isso não era tudo.

  1. Não permitiam que entrassem os que estavam entrando. É mau nós mesmos ficarmos longe de Cristo, mas é pior afastar dele os outros; contudo, esse é comumente o caminho dos hipócritas. Não gostam que alguém os supere na religião ou seja melhor que eles.

O fato de eles próprios não entrarem era um impedimento para muitos. Como tinham tamanha influência sobre o povo, multidões rejeitavam o evangelho apenas porque seus líderes o rejeitavam.

Mas, além disso, opunham-se tanto à acolhida dos pecadores por Cristo (Lucas 7:39) quanto à acolhida de Cristo pelos pecadores. Pervertiam sua doutrina, contestavam seus milagres e brigavam com seus discípulos.

Apresentavam ao povo Cristo, suas instituições e sua administração da maneira menos franca e mais desfavorável que se possa imaginar. Faziam trovejar suas excomunhões contra os que o confessavam e empregavam toda a sua habilidade e seu poder para servir à sua malícia contra ele.

Assim fechavam o reino dos céus, de modo que os que quisessem entrar nele precisavam sofrer violência (Mateus 11:12) e esforçar-se para entrar (Lucas 16:16), atravessando uma multidão de escribas e fariseus e todos os obstáculos e dificuldades que estes pudessem inventar para colocar em seu caminho.

Como é bom para nós que nossa salvação não esteja confiada às mãos de nenhum homem ou grupo de homens no mundo! Se estivesse, estaríamos perdidos. Os que excluem da igreja excluiriam do céu se pudessem.

Mas a malícia dos homens não pode tornar sem efeito a promessa de Deus aos seus escolhidos; bendito seja Deus, não pode.

II. Faziam da religião e da forma da piedade um manto e um disfarce de caçador para suas práticas e seus desejos cobiçosos (v. 14). Observe aqui:

  1. Quais eram suas práticas perversas: devoravam as casas das viúvas, ou alojando-se nelas com seus acompanhantes para receber hospedagem, que precisava ser da melhor para homens de sua posição, ou insinuando-se em seus afetos e assim se tornando administradores dos seus bens.

Podiam fazer desses bens uma presa fácil; pois quem ousaria pedir contas a homens como eles? Seu alvo era enriquecer. Sendo esse seu fim principal e supremo, todas as considerações de justiça e equidade eram deixadas de lado, e até as casas das viúvas eram sacrificadas a isso.

As viúvas são do sexo mais fraco em seu estado mais fraco, facilmente enganadas; por isso, agarravam-se a elas para fazê-las sua presa. Devoravam aquelas que, pela lei de Deus, eram especialmente obrigados a proteger, amparar e socorrer.

Há no Antigo Testamento um ai contra os que faziam das viúvas sua presa (Isaías 10:1, 2); Cristo o reforça aqui com seu ai. Deus é o juiz das viúvas; elas são objeto de seu cuidado especial, ele estabelece os limites delas (Provérbios 15:25) e abraça sua causa (Êxodo 22:22, 23).

Contudo, eram elas cujas casas os fariseus devoravam por atacado; tão ávidos estavam de encher o ventre com os tesouros da perversidade! Seu devorar indica não só cobiça, mas crueldade em sua opressão, descrita em Miquéias 3:3: comem a carne e arrancam a pele.

Sem dúvida faziam tudo isso sob a aparência de legalidade, pois agiam com tanta astúcia que passavam sem censura, e isso não diminuía em nada a veneração do povo por eles.

  1. Qual era o manto com que encobriam essa prática perversa: faziam longas orações como alegação. Muito longas, de fato, se é verdade o que alguns escritores judeus nos dizem: passavam três horas de cada vez nas formalidades da meditação e da oração, e faziam isso três vezes por dia.

Isso é mais do que uma alma íntegra, que tem o escrúpulo de manter comunhão interior com Deus nesse dever, ousa normalmente alegar fazer. Para os fariseus, porém, era bastante fácil; nunca faziam do dever uma ocupação e sempre faziam de sua aparência exterior um comércio.

Por essa astúcia obtinham sua riqueza e mantinham sua grandeza. Não é provável que essas longas orações fossem improvisadas, pois então, como observa o senhor Baxter, os fariseus teriam muito mais o dom da oração que os discípulos de Cristo.

Eram, antes, fórmulas fixas de palavras em uso entre eles, que repetiam em número contado, como os papistas passam as contas do rosário. Cristo não condena aqui as longas orações como hipócritas em si mesmas.

Não; se não houvesse nelas uma grande aparência de bem, não teriam sido usadas como alegação. O manto usado para cobrir práticas tão perversas precisava ser muito espesso.

O próprio Cristo passou toda a noite em oração a Deus, e recebemos a ordem de orar sem encerrar a oração cedo demais. Quando há muitos pecados a confessar, muitas necessidades por cujo suprimento orar e muitas misericórdias pelas quais agradecer, há ocasião para longas orações.

Mas as longas orações dos fariseus eram compostas de vãs repetições e, o que era seu fim, serviam de alegação. Por elas obtinham a reputação de homens piedosos e devotos, que amavam a oração e eram os favoritos do Céu.

Por esse meio, as pessoas eram levadas a crer que não era possível que homens como eles as enganassem; portanto, feliz a viúva que pudesse obter um fariseu como administrador de seus bens e guardião de seus filhos!

Assim, enquanto pareciam subir em direção ao céu nas asas da oração, seus olhos, como os do milhafre, estavam o tempo todo sobre sua presa na terra: alguma casa de viúva que lhes fosse conveniente.

Assim, a circuncisão era o manto da cobiça dos siquemitas (Gênesis 34:22, 23), o pagamento de um voto em Hebrom era a cobertura da rebelião de Absalão (2 Samuel 15:7), um jejum em Jezreel precisava amparar o assassinato de Nabote, e a extirpação de Baal era o escabelo da ambição de Jeú.

Os sacerdotes papistas, sob a alegação de longas orações pelos mortos, missas, cânticos fúnebres e não sei mais o quê, enriquecem devorando a casa das viúvas e dos órfãos. Repare: não é novidade que a aparência e a forma da piedade se tornem um manto para as maiores atrocidades.

Mas a piedade fingida, seja como for aceita agora, será contabilizada como iniquidade dupla no dia em que Deus julgar os segredos dos homens.

  1. A condenação proferida contra eles por isso: “Portanto, recebereis maior condenação”. Repare:

(1.) Há graus de condenação. Há alguns cujo pecado é mais indesculpável e cuja ruína, portanto, será mais intolerável.

(2.) As alegações de religião com que os hipócritas disfarçam ou desculpam agora seu pecado agravarão em breve sua condenação. Tal é o engano do pecado que a própria coisa pela qual os pecadores esperam expiar e reparar seus pecados se voltará contra eles e tornará seus pecados ainda mais excessivamente pecaminosos.

Mas é triste para o criminoso quando sua defesa prova sua ofensa, e suas alegações — profetizamos em seu nome e em seu nome fizemos longas orações — aumentam a acusação contra ele.

III. Enquanto eram tais inimigos da conversão das almas ao cristianismo, eram muito diligentes em pervertê-las para sua facção. Fechavam o reino dos céus aos que queriam voltar-se para Cristo, mas, ao mesmo tempo, percorriam mar e terra para fazer prosélitos para si (v. 15). Observe aqui:

  1. Sua diligência louvável em fazer prosélitos para a religião judaica, não só prosélitos da porta, que se obrigavam apenas à observância dos sete preceitos dos filhos de Noé, mas prosélitos de justiça, que se dedicavam inteiramente a todos os ritos da religião judaica, pois essa era a caça que perseguiam.

Por isso, por um desses, mesmo que fosse apenas um, percorriam mar e terra, empregavam muitas manobras astutas e tramavam muitos planos, cavalgavam e corriam, enviavam e escreviam e trabalhavam incansavelmente.

E qual era seu alvo? Não a glória de Deus e o bem das almas, mas obter o crédito de fazê-las prosélitos e a vantagem de fazer delas sua presa depois que o fossem. Repare:

(1.) Fazer prosélitos, se for para a verdade e a piedade séria, e se for feito com bom desígnio, é uma boa obra, bem digna do máximo cuidado e esforço. Tal é o valor das almas que nada deve ser considerado excessivo para salvar uma alma da morte.

A diligência dos fariseus nisso pode mostrar a negligência de muitos que gostariam de ser considerados como agindo por princípios melhores, mas não se dispõem a nenhum esforço ou custo para propagar o evangelho.

(2.) Para fazer um prosélito, é preciso percorrer mar e terra; todos os caminhos e meios precisam ser tentados. Primeiro um caminho, depois outro, precisa ser tentado, e tudo ainda é pouco; mas tudo fica bem recompensado se o alvo for alcançado.

(3.) Os corações carnais raramente recuam diante dos esforços necessários para levar adiante seus propósitos carnais. Quando é preciso fazer um prosélito para servir a um interesse deles próprios, percorrem mar e terra para fazê-lo, em vez de se decepcionarem.

  1. Sua impiedade maldita ao abusarem de seus prosélitos depois de feitos: “Vocês logo o fazem discípulo de um fariseu, e ele absorve todas as ideias de um fariseu; assim vocês o fazem duas vezes mais filho do inferno que vocês mesmos”. Repare:

(1.) Os hipócritas, enquanto se imaginam herdeiros do céu, são, no juízo de Cristo, filhos do inferno. A origem de sua hipocrisia está no inferno, pois o diabo é o pai das mentiras; a direção de sua hipocrisia é para o inferno, a terra a que pertencem, a herança de que são herdeiros.

São chamados filhos do inferno por sua inimizade arraigada contra o reino dos céus, que era o princípio e o espírito do farisaísmo.

(2.) Embora todos os que maliciosamente se opõem ao evangelho sejam filhos do inferno, ainda assim alguns o são duas vezes mais que outros, mais furiosos, fanáticos e malignos.

(3.) Os prosélitos pervertidos geralmente são os maiores fanáticos. Os alunos superavam seus mestres:

[1.] No gosto pela cerimônia. Os próprios fariseus viam a insensatez de suas próprias imposições e, em seu coração, sorriam diante da submissão dos que se conformavam a elas; mas seus prosélitos eram ávidos por elas.

Repare: as cabeças fracas geralmente admiram aquelas exibições e cerimônias de que os sábios, mesmo que as apoiem por fins públicos, não podem deixar de fazer pouco caso.

[2.] Na fúria contra o cristianismo. Os prosélitos absorviam prontamente os princípios que seus líderes astutos não deixavam de lhes incutir e assim se tornavam extremamente ardorosos contra a verdade.

Os inimigos mais amargos que os apóstolos encontraram em todos os lugares eram os judeus helenistas, que eram, em sua maioria, prosélitos (Atos 13:45; 14:2-19; 17:5; 18:6).

Paulo, discípulo dos fariseus, estava excessivamente enfurecido contra os cristãos (Atos 26:11), quando seu mestre, Gamaliel, parece ter sido mais moderado.

IV. A busca de seu próprio ganho e honra mundanos, mais que da glória de Deus, levou-os a inventar distinções falsas e injustificáveis, com as quais conduziam o povo a enganos perigosos, especialmente na questão dos juramentos.

Como evidência de um senso universal de religião, estes foram considerados sagrados por todas as nações (v. 16): “Guias cegos!” Repare:

  1. É triste pensar quantos estão sob a direção de pessoas que são elas próprias cegas, que se encarregam de mostrar aos outros o caminho que elas mesmas deliberadamente desconhecem.

“Seus atalaias são cegos” (Isaías 56:10); e, com muita frequência, o povo gosta que seja assim e diz aos videntes: “Não vejais”. Mas a situação é má quando os líderes do povo o fazem errar (Isaías 9:16).

  1. Embora a condição dos que têm guias cegos seja muito triste, ainda assim a dos próprios guias cegos é ainda mais lamentável. Cristo pronuncia um ai contra os guias cegos que têm de responder pelo sangue de tantas almas.

Agora, para provar sua cegueira, especifica a questão do juramento e mostra que casuístas corruptos eram:

(1.) Expõe a doutrina que ensinavam:

[1.] Permitiam jurar pelas criaturas, desde que fossem consagradas ao serviço de Deus e tivessem alguma relação especial com ele. Permitiam jurar pelo templo e pelo altar, embora fossem obra das mãos dos homens, destinados a servir à honra de Deus, não a compartilhar dela.

Um juramento é um apelo a Deus, à sua onisciência e justiça; fazer esse apelo a qualquer criatura é colocar essa criatura no lugar de Deus. Veja Deuteronômio 6:13.

[2.] Distinguiam entre um juramento pelo templo e um juramento pelo ouro do templo; um juramento pelo altar e um juramento pela oferta sobre o altar, tornando o último obrigatório, mas não o primeiro. Aqui havia uma dupla perversidade.

Primeiro, que havia alguns juramentos dos quais dispensavam as pessoas, dos quais faziam pouco caso e pelos quais consideravam que um homem não estava obrigado a afirmar a verdade ou cumprir uma promessa.

Não deveriam ter jurado pelo templo ou pelo altar; mas, quando assim juravam, ficavam presos às palavras de sua boca. Não pode proceder do Deus da verdade a doutrina que apoia a quebra da fidelidade em qualquer caso que seja. Os juramentos são ferramentas cortantes e não se deve brincar com eles.

Segundo, que preferiam o ouro ao templo e a oferta ao altar, para animar as pessoas a trazer ofertas ao altar e ouro aos tesouros do templo, com o que esperavam lucrar.

Os que tinham feito do ouro sua esperança, e cujos olhos eram cegados por presentes em segredo, eram grandes amigos do Corbã. Sendo o lucro sua piedade, por mil artifícios faziam a religião submeter-se aos seus interesses mundanos.

Os guias corruptos da igreja fazem as coisas serem pecado ou não pecado conforme isso sirva aos seus propósitos, e dão muito mais peso ao que diz respeito ao seu próprio ganho do que ao que serve à glória de Deus e ao bem das almas.

(2.) Mostra a insensatez e o absurdo dessa distinção (vv. 17-19): “Insensatos e cegos!” Foi como censura necessária, não como descrédito irado, que Cristo os chamou de insensatos.

Basta-nos mostrar, pela palavra da sabedoria, a insensatez das opiniões e práticas pecaminosas. Mas deixemos a Cristo a atribuição dessa característica a pessoas específicas; ele sabe o que há no homem e nos proibiu dizer: “Insensato!”

Para declará-los culpados de insensatez, apela a eles próprios: qual é maior, o ouro — os vasos e ornamentos de ouro, ou o ouro no tesouro — ou o templo que santifica o ouro; a oferta ou o altar que santifica a oferta?

Qualquer um reconhecerá: Propter quod aliquid est tale, id est magis tale — aquilo por causa do qual alguma coisa possui determinada qualidade deve possuir essa mesma qualidade em grau muito maior.

Os que juravam pelo ouro do templo o consideravam santo; mas o que o tornava santo, senão a santidade do templo, a cujo serviço era destinado? Portanto, o templo não pode ser menos santo que o ouro, mas deve ser mais, pois o menor é abençoado e santificado pelo maior (Hebreus 7:7).

O templo e o altar eram dedicados a Deus de modo permanente; o ouro e a oferta, apenas secundariamente. Cristo é nosso altar (Hebreus 13:10), nosso templo (João 2:21), pois ele santifica todas as nossas ofertas e as torna aceitáveis (1 Pedro 2:5).

Os que colocam suas próprias obras no lugar da justiça de Cristo na justificação são culpados do absurdo dos fariseus, que preferiam a oferta ao altar.

Todo cristão verdadeiro é um templo vivo; em virtude disso, as coisas comuns lhe são santificadas. “Para os puros todas as coisas são puras” (Tito 1:15), e o marido incrédulo é santificado pela esposa crente (1 Coríntios 7:14).

(3.) Corrige o engano (vv. 20-22), reconduzindo todos os juramentos que tinham inventado ao verdadeiro intuito de um juramento: pelo nome do Senhor. Assim, embora um juramento pelo templo, pelo altar ou pelo céu seja formalmente mau, ainda assim é obrigatório.

Quod fieri non debuit, factum valet — compromissos que não deveriam ter sido assumidos, ainda assim, uma vez assumidos, são obrigatórios. Um homem nunca tirará vantagem de sua própria falta.

[1.] Quem jura pelo altar não pense em livrar-se dessa obrigação dizendo: “O altar é apenas madeira, pedra e bronze”. Seu juramento será interpretado da maneira mais rigorosa contra ele próprio, porque era culpado, e de modo que sua obrigação seja preservada:

Ut res potius valeat quam pereat — a obrigação sendo assim fortalecida, em vez de destruída. Portanto, um juramento pelo altar será interpretado como pelo altar e por tudo o que está sobre ele, pois os acessórios acompanham o principal.

Como as coisas sobre ele eram oferecidas a Deus, jurar por ele e por elas era, de fato, chamar o próprio Deus como testemunha. Era o altar de Deus, e quem ia até ele ia até Deus (Salmos 43:4; 26:6).

[2.] Quem jura pelo templo, se entende o que faz, não pode deixar de compreender que o fundamento de tal respeito por ele não é ser uma bela casa, mas ser a casa de Deus, dedicada ao seu serviço, o lugar que ele escolheu para pôr ali seu nome.

Portanto, jura por ele e por aquele que nele habita. Ali Deus teve por bem manifestar-se de maneira especial e dar sinais de sua presença; assim, quem jura por ele jura por aquele que dissera: “Este é meu descanso, aqui habitarei”.

Os bons cristãos são templos de Deus, e o Espírito de Deus habita neles (1 Coríntios 3:16; 6:19). Deus considera o que lhes é feito como feito a ele próprio; quem entristece uma alma agraciada entristece essa alma e o Espírito que nela habita (Efésios 4:30).

[3.] Se um homem jura pelo céu, peca (Mateus 5:34); contudo, não será por isso dispensado da obrigação de seu juramento. Não; Deus lhe fará saber que o céu pelo qual jura é seu trono (Isaías 66:1), e quem jura pelo trono apela àquele que se assenta sobre ele.

Assim como Deus se ressente da afronta feita a ele na forma do juramento, assim certamente vingará a afronta maior que lhe é feita por sua violação. Cristo não apoiará a evasão de um juramento solene, por mais plausível que seja.

V. Eram muito rigorosos e precisos nas questões menores da lei, mas igualmente descuidados e relaxados nas questões mais importantes (v. 23, 24). Eram parciais na lei (Malaquias 2:9), selecionavam e escolhiam seu dever conforme seu interesse ou sua inclinação.

A obediência sincera é universal; quem, por um princípio correto, obedece a qualquer preceito de Deus terá respeito por todos eles (Salmos 119:6). Mas os hipócritas, que agem na religião para si, não para Deus, não farão nela mais do que aquilo com que possam servir a algum interesse deles próprios.

A parcialidade dos escribas e fariseus aparece aqui em dois exemplos:

  1. Observavam deveres menores, mas omitiam maiores. Eram muito exatos em pagar dízimos, até da hortelã, do anis e do cominho; sua exatidão em dizimá-los não lhes custaria muito, mas seria muito elogiada, e comprariam reputação por pouco.

O fariseu se gloriava disso: “Dou dízimos de tudo quanto possuo” (Lucas 18:12). Mas é provável que tivessem seus próprios fins a servir e encontrassem nisso sua própria vantagem, pois os sacerdotes e levitas, a quem eram pagos os dízimos, estavam ligados aos seus interesses e sabiam retribuir sua bondade.

Pagar dízimos era seu dever e o que a lei exigia; Cristo lhes diz que não deveriam deixar isso por fazer. Repare: todos devem, em seus lugares, contribuir para o sustento e a manutenção de um ministério permanente. Reter dízimos é chamado de roubar a Deus (Malaquias 3:8-10).

Os que são ensinados na palavra, mas não repartem com os que os ensinam por amarem um evangelho barato, ficam aquém do fariseu.

Mas o que Cristo aqui condena neles é omitirem as questões mais importantes da lei: o juízo, a misericórdia e a fé. Seu rigor em pagar dízimos servia, se não para expiar diante de Deus, ao menos para desculpar e atenuar diante dos homens a omissão dessas coisas.

Todas as coisas da lei de Deus são importantes, mas as mais importantes são as que mais exprimem a santidade interior do coração: os exemplos de abnegação, desprezo do mundo e entrega a Deus, nos quais reside a vida da religião.

O juízo e a misericórdia para com os homens, e a fé para com Deus, são as questões mais importantes da lei, as boas coisas que o Senhor nosso Deus exige (Miquéias 6:8): agir com justiça, amar a misericórdia e humilhar-nos pela fé para andar com Deus.

Essa é a obediência melhor que sacrifício ou dízimo; o juízo é preferido ao sacrifício (Isaías 1:11). Ser justo com os sacerdotes no dízimo deles e, ainda assim, enganar e defraudar todas as outras pessoas é apenas zombar de Deus e enganar-nos.

A misericórdia também é preferida ao sacrifício (Oseias 6:6). Alimentar os que se fizeram gordos com a oferta do Senhor e, ao mesmo tempo, fechar as entranhas de compaixão a um irmão ou uma irmã que está nu e privado do alimento diário é expor-se àquele juízo sem misericórdia.

Pagar o dízimo da hortelã ao sacerdote e negar uma migalha a Lázaro é expor-se a esse juízo, que é imposto aos que alegavam exercer juízo e não mostraram misericórdia. Nem juízo e misericórdia bastarão sem fé na revelação divina, pois Deus será honrado em suas verdades, assim como em suas leis.

  1. Evitavam pecados menores, mas cometiam maiores (v. 24): “Guias cegos!” Assim os chamara antes (v. 16) por seu ensino corrupto; aqui os chama assim por sua vida corrupta, pois seu exemplo conduzia as pessoas, assim como sua doutrina.

Nisso também eram cegos e parciais: coavam um mosquito e engoliam um camelo. Em sua doutrina, coavam mosquitos, advertindo o povo até contra a menor violação da tradição dos anciãos.

Em sua prática, coavam mosquitos, tinham náuseas diante deles, com um aparente pavor, como se tivessem grande aversão ao pecado e o temessem até no menor exemplo. Mas não tinham dificuldade com os pecados que, em comparação com aqueles, eram como um camelo para um mosquito.

Quando devoravam as casas das viúvas, de fato engoliam um camelo. Também o engoliam quando davam a Judas o preço do sangue inocente e, ainda assim, tinham escrúpulos em pôr no tesouro o dinheiro devolvido (Mateus 27:6).

Não queriam entrar no salão do juízo por medo de serem contaminados e, ainda assim, ficavam à porta e clamavam contra o santo Jesus (João 18:28). Brigavam com os discípulos por comerem com mãos não lavadas.

No entanto, para encher o Corbã, ensinavam as pessoas a quebrar o quinto mandamento. Coavam mosquitos, ou coisas menores, e, ainda assim, engoliam camelos.

Não é o escrúpulo diante de um pequeno pecado que Cristo aqui censura. Se é pecado, mesmo que seja apenas um mosquito, deve ser coado; mas censura fazer isso e depois engolir um camelo.

Ser supersticioso nas questões menores da lei e profano nas maiores é a hipocrisia aqui condenada.

VI. Eram inteiramente a favor do exterior da religião e nada a favor do interior. Desejavam e se empenhavam mais em parecer piedosos aos homens do que em demonstrar-se assim diante de Deus. Isso é ilustrado por duas comparações:

  1. São comparados a um recipiente bem lavado por fora, mas inteiramente sujo por dentro (v. 25, 26). Os fariseus colocavam a religião naquilo que, na melhor das hipóteses, era apenas uma questão de decência: lavar copos (Marcos 7:4).

Cuidavam de comer sua comida em copos e pratos limpos, mas não tinham escrúpulos em obtê-la por extorsão e usá-la com excesso.

Que insensatez seria um homem lavar apenas o lado de fora de um copo, que é para ser visto, e deixar sujo o lado de dentro, que é para ser usado!

Assim fazem os que apenas evitam pecados escandalosos, que estragariam sua reputação diante dos homens, mas se permitem a perversidade do coração, que os torna odiosos ao Deus puro e santo. A esse respeito, observe:

(1.) A prática dos fariseus: limpavam o exterior. Nas coisas que caíam sob a observação dos seus vizinhos, pareciam muito exatos e conduziam suas intrigas perversas com tanto artifício que sua perversidade não era suspeitada; as pessoas geralmente os consideravam homens muito bons.

Mas, por dentro, nos recessos dos seus corações e nos recantos reservados das suas vidas, estavam cheios de extorsão e excesso; de violência e incontinência, segundo o doutor Hammond, isto é, de injustiça e intemperança.

Enquanto queriam parecer piedosos, não eram nem sóbrios nem justos. Seu interior era pura perversidade (Salmos 5:9); somos realmente aquilo que somos por dentro.

(2.) A regra que Cristo dá, em oposição a essa prática (v. 26). É dirigida aos fariseus cegos. Consideravam-se os videntes da terra, mas Cristo os chama de cegos (João 9:39).

Repare: são cegos, no juízo de Cristo, os que, por mais perspicazes que sejam em outras coisas, desconhecem a perversidade dos seus próprios corações e não são inimigos dela; que não veem nem odeiam o pecado secreto que ali se aloja.

A ignorância de si mesmo é a ignorância mais vergonhosa e prejudicial (Apocalipse 3:17). A regra é: “Limpa primeiro o que está dentro”. Repare: o cuidado principal de cada um de nós deve ser lavar nossos corações da perversidade (Jeremias 4:14).

A ocupação principal de um cristão está dentro: ser purificado da imundície do espírito. Afetos e inclinações corruptos, as cobiças secretas que se escondem na alma, não vistas nem observadas, precisam primeiro ser mortificadas e subjugadas.

É preciso abster-se por consciência daqueles pecados de que apenas o olho de Deus é testemunha, ele que sonda o coração.

Observe o método prescrito: “Limpa primeiro o que está dentro”; não só isso, mas isso primeiro. Se houver o devido cuidado com isso, o exterior também estará limpo.

Motivos e incentivos externos podem manter o exterior limpo enquanto o interior está imundo; mas, se a graça renovadora e santificadora limpar o interior, isso influenciará o exterior, pois o princípio que governa está dentro.

Se o coração for bem guardado, tudo estará bem, pois dele procedem as fontes da vida; as erupções exteriores do pecado cessarão naturalmente. Se o coração e o espírito forem feitos novos, haverá novidade de vida.

Aqui, portanto, precisamos começar conosco: primeiro limpem o que está dentro. Fazemos então um trabalho seguro quando esse é nosso primeiro trabalho.

  1. São comparados a sepulcros caiados (v. 27, 28):

(1.) Eram belos por fora, como sepulcros que parecem formosos exteriormente. Alguns entendem que isso se refere ao costume dos judeus de caiar sepulturas apenas para identificá-las, especialmente se estivessem em lugares incomuns.

Assim as pessoas poderiam evitá-las por causa da contaminação cerimonial contraída ao tocar uma sepultura (Números 19:16). Era parte da responsabilidade dos supervisores das estradas restaurar essa caiação quando se deteriorava. Assim os sepulcros eram tornados visíveis (2 Reis 23:16, 17).

A formalidade dos hipócritas, pela qual procuram recomendar-se ao mundo, apenas torna todos os sábios e bons tanto mais cuidadosos em evitá-los, por medo de serem contaminados por eles. “Acautelai-vos dos escribas” (Lucas 20:46).

Isso alude, antes, ao costume de caiar os sepulcros de pessoas eminentes para embelezá-los. Diz-se aqui (v. 29) que adornavam os sepulcros dos justos, como é costume entre nós erguer monumentos sobre as sepulturas de grandes pessoas e espalhar flores sobre as sepulturas de amigos queridos.

A justiça dos escribas e fariseus era como os ornamentos de uma sepultura ou o enfeitar de um cadáver: apenas para exibição. O ponto mais alto de sua ambição era parecer justos diante dos homens e ser aplaudidos e admirados por eles. Mas:

(2.) Eram imundos por dentro, como sepulcros, cheios de ossos de mortos e de toda impureza. Tão vis são nossos corpos quando a alma os abandonou! Assim estavam cheios de hipocrisia e iniquidade. A hipocrisia é a pior de todas as iniquidades.

Repare: é possível que aqueles cujos corações estão cheios de pecado tenham vidas livres de censura e pareçam muito bons. Mas de que nos aproveitará ter a boa palavra dos nossos companheiros de serviço se nosso Senhor não disser: “Muito bem”?

Quando todas as outras sepulturas forem abertas, esses sepulcros caiados serão examinados; os ossos dos mortos e toda a impureza serão trazidos para fora e expostos diante de todo o exército do céu (Jeremias 8:1, 2).

Pois esse é o dia em que Deus julgará os segredos dos homens, não suas aparências. Será então pequeno consolo aos que tiverem sua porção com os hipócritas lembrar como foram para o inferno com crédito e aparência convincente, aplaudidos por todos os seus vizinhos.

VII. Alegavam muita bondade para com a memória dos profetas que tinham morrido e partido, enquanto odiavam e perseguiam os que estavam presentes com eles. Isso é colocado por último porque era a parte mais negra de seu caráter.

Deus é zeloso de sua honra em suas leis e ordenanças, e se ressente se forem profanadas e abusadas; mas muitas vezes expressou igual zelo por sua honra em seus profetas e ministros, e se ressente mais se forem injustiçados e perseguidos.

Portanto, quando nosso Senhor Jesus chega a esse ponto, fala mais plenamente do que sobre qualquer dos outros (vv. 29-37); pois quem toca seus ministros toca seu Ungido e toca a menina dos seus olhos. Observe aqui:

  1. O respeito que os escribas e fariseus alegam ter pelos profetas que tinham partido (v. 29, 30). Esse era o verniz, aquilo em que exteriormente pareciam justos:

(1.) Honravam os restos dos profetas, construíam seus túmulos e adornavam seus sepulcros. Parece que os lugares de seu sepultamento eram conhecidos; o sepulcro de Davi estava com eles (Atos 2:29).

Havia uma inscrição no sepulcro do homem de Deus (2 Reis 23:17), e Josias considerou respeito suficiente não remover seus ossos (2 Reis 23:18). Mas eles queriam fazer mais: reconstruí-los e embelezá-los. Agora, considere isso:

[1.] Como exemplo de honra prestada a profetas falecidos que, enquanto viviam, eram considerados como a escória de todas as coisas e contra quem toda sorte de mal era dita falsamente.

Repare: Deus pode arrancar até de homens maus um reconhecimento da honra da piedade e da santidade. Ele honrará os que o honram, às vezes por meio daqueles de quem se espera desprezo (2 Samuel 6:22).

A memória do justo é bendita, quando os nomes dos que os odiavam e perseguiam serão cobertos de vergonha. A honra da constância e da resolução no caminho do dever será duradoura; os que são manifestos a Deus serão manifestos na consciência dos que estão ao seu redor.

[2.] Como exemplo da hipocrisia dos escribas e fariseus, que lhes prestavam respeito. Repare: as pessoas carnais podem facilmente honrar a memória de ministros fiéis que morreram e partiram, porque estes não as censuram nem as perturbam em seus pecados.

Os profetas mortos são videntes que não veem, e podem suportá-los muito bem. Não os atormentam como fazem as testemunhas vivas, que prestam seu testemunho viva voce — com voz viva (Apocalipse 11:10).

Podem prestar respeito aos escritos dos profetas mortos, que lhes dizem o que deveriam ser; mas não às censuras dos profetas vivos, que lhes dizem o que são. Sit divus, modo non sit vivus — que haja santos, contanto que não estejam vivos aqui.

O respeito extravagante que a igreja de Roma presta à memória dos santos falecidos, especialmente dos mártires, é uma prova manifesta. Dedicam dias e lugares aos seus nomes, guardam seus restos em relicários, oram a eles e oferecem às suas imagens, enquanto se embriagam com o sangue dos santos de seu próprio tempo.

Provam que não só sucedem, mas excedem os escribas e fariseus numa religião falsa e hipócrita, que constrói os túmulos dos profetas, mas odeia a doutrina dos profetas.

(2.) Protestavam contra seu assassinato (v. 30): “Se tivéssemos vivido nos dias de nossos pais, não teríamos sido participantes com eles”.

Nunca teriam consentido em silenciar Amós e aprisionar Micaías, em pôr Hanani no tronco e Jeremias na masmorra, em apedrejar Zacarias, em zombar de todos os mensageiros do Senhor e nos abusos cometidos contra seus profetas.

Não, eles não; antes teriam perdido suas mãos direitas do que feito qualquer coisa assim. “O quê, é teu servo um cão?” No entanto, naquele momento tramavam assassinar Cristo, de quem todos os profetas testemunharam.

Pensam que, se tivessem vivido nos dias dos profetas, os teriam ouvido de bom grado e obedecido; contudo, rebelavam-se contra a luz que Cristo trouxe ao mundo. Mas é certo que um Herodes e uma Herodias para João Batista teriam sido um Acabe e uma Jezabel para Elias.

Repare: o engano do coração dos pecadores aparece muito nisto: enquanto descem a corrente dos pecados de seu próprio tempo, imaginam que teriam nadado contra a corrente dos pecados dos tempos anteriores.

Imaginam que, se tivessem tido as oportunidades de outras pessoas, as teriam aproveitado mais fielmente; se tivessem enfrentado as tentações de outras pessoas, teriam resistido a elas com mais vigor. Contudo, não aproveitam as oportunidades que têm nem resistem às tentações em que estão.

Às vezes pensamos que, se tivéssemos vivido quando Cristo estava na terra, o teríamos seguido com tanta constância; não o teríamos desprezado e rejeitado como fizeram então. Contudo, Cristo em seu Espírito, em sua palavra e em seus ministros continua sem receber tratamento melhor.

  1. Sua inimizade e oposição a Cristo e seu evangelho, apesar disso, e a ruína que por esse meio traziam sobre si mesmos e sobre aquela geração (vv. 31-33). Observe aqui:

(1.) A acusação provada: vocês são testemunhas contra vocês mesmos. Repare: os pecadores não podem esperar escapar do juízo de Cristo por falta de prova contra eles, quando é fácil encontrá-los como testemunhas contra si mesmos.

Suas próprias alegações não só serão rejeitadas, mas voltadas para sua declaração de culpa, e suas próprias línguas serão feitas cair sobre eles (Salmos 64:8).

[1.] Por sua própria confissão, matar os profetas era a grande perversidade de seus antepassados; assim, sabiam que isso era uma falta e, ainda assim, eram eles próprios culpados do mesmo ato.

Repare: os que condenam o pecado nos outros e, ainda assim, permitem o mesmo ou pior em si são os mais indesculpáveis de todos (Romanos 1:32–2:1). Sabiam que não deveriam ter sido participantes com os perseguidores e, ainda assim, eram seus seguidores.

Tais contradições de si mesmos agora resultarão em condenações de si mesmos no grande dia. Cristo dá à construção dos túmulos dos profetas uma interpretação diferente da que pretendiam, como se, ao embelezarem as sepulturas dos profetas, justificassem seus assassinos (Lucas 11:48), pois persistiam no pecado.

[2.] Por sua própria confissão, esses perseguidores notórios eram seus antepassados: vocês são filhos deles. Queriam dizer apenas que eram seus filhos por sangue e natureza; mas Cristo volta isso contra eles: eram assim por espírito e disposição.

Vocês pertencem a esses pais e praticarão os desejos pecaminosos deles. Eles são, como vocês dizem, seus pais, e vocês patrizare — seguem seus pais; é o pecado que corre no sangue entre vocês. “Como vossos pais fizeram, assim fazeis vós” (Atos 7:51).

Vinham de uma linhagem perseguidora, eram uma descendência de malfeitores (Isaías 1:4), surgidos no lugar de seus pais (Números 32:14). A malícia, a inveja e a crueldade estavam entranhadas neles, e antes tinham abraçado como princípio fazer como seus pais fizeram (Jeremias 44:17).

É observável aqui (v. 30) como fazem questão de mencionar a relação: “Foram nossos pais que mataram os profetas, e eram homens de honra e poder, cujos filhos e sucessores somos”.

Se tivessem detestado a perversidade de seus antepassados, como deveriam ter feito, não teriam tanto gosto em chamá-los de seus pais; pois não é honra ser parente de perseguidores, por maiores que sejam sua dignidade e seu domínio.

(2.) A sentença proferida contra eles. Cristo aqui prossegue:

[1.] A entregá-los ao pecado como incorrigíveis (v. 32): “Enchei vós, pois, a medida de vossos pais”. Se Efraim está unido aos ídolos e odeia ser reformado, deixem-no. Quem é imundo continue imundo.

Cristo sabia que agora planejavam sua morte e que em poucos dias a consumariam. Bem, diz ele, prossigam com sua trama, recebam sua maldição, andem no caminho do seu coração e à vista dos seus olhos, e vejam o que resultará disso.

“O que fazes, faze-o depressa.” Vocês apenas encherão a medida da culpa, que então transbordará num dilúvio de cólera. Repare:

Primeiro, há uma medida de pecado a ser preenchida antes que a ruína completa venha sobre pessoas e famílias, igrejas e nações. Deus suportará por muito tempo, mas chegará o momento em que não poderá mais tolerar (Jeremias 44:22).

Lemos da medida dos amorreus que precisava ser preenchida (Gênesis 15:16), da colheita da terra madura para a foice (Apocalipse 14:15-19) e dos pecadores que terminam de agir traiçoeiramente, chegando à plena estatura na traição (Isaías 33:1).

Segundo, os filhos enchem a medida dos pecados de seus pais depois que estes se foram, se persistirem nos mesmos pecados ou em semelhantes. A culpa nacional que traz ruína nacional é composta do pecado de muitos em várias épocas, e nas sucessões das sociedades há uma conta em andamento, pois Deus visita justamente a iniquidade dos pais sobre os filhos que seguem seus passos.

Terceiro, perseguir Cristo, seu povo e seus ministros é um pecado que enche a medida da culpa de uma nação mais depressa que qualquer outro. Foi isso que trouxe cólera sem remédio sobre os pais (2 Crônicas 36:16) e cólera ao extremo também sobre os filhos (1 Tessalonicenses 2:16).

Essa era a quarta transgressão pela qual, acrescentada às outras três, o Senhor não retiraria o castigo (Amós 1:3, 6, 9, 11, 13).

Quarto, é justo que Deus entregue às cobiças dos seus próprios corações aqueles que persistem obstinadamente em satisfazê-las. Os que querem correr de cabeça para a ruína, que as rédeas sejam deixadas sobre o seu pescoço; essa é a condição mais triste em que um homem pode estar deste lado do inferno.

[2.] Prossegue entregando-os à ruína como irrecuperáveis, a uma ruína pessoal no outro mundo (v. 33): “Serpentes, geração de víboras, como podeis escapar da condenação do inferno?”

São palavras estranhas vindas da boca de Cristo, em cujos lábios a graça foi derramada. Mas ele pode falar terror e o falará; nessas palavras explica e resume os oito ais que pronunciara contra os escribas e fariseus. Aqui está:

Primeiro, sua descrição: “Serpentes”. Cristo dá nomes ofensivos? Sim, mas isso não nos autoriza a fazer o mesmo. Ele sabia infalivelmente o que havia no homem e sabia que eram astutos como serpentes, apegados à terra, alimentando-se de pó.

Tinham um exterior atraente, mas eram malignos por dentro, tinham veneno debaixo de suas línguas, a descendência da antiga serpente. Eram uma geração de víboras.

Eles e os que os precederam, eles e os que se uniram a eles, eram uma geração de adversários venenosos, enfurecidos e rancorosos contra Cristo e seu evangelho.

Amavam ser chamados pelos homens de “Rabi, rabi”, mas Cristo os chama de serpentes e víboras; pois dá aos homens suas verdadeiras características e se agrada de lançar desprezo sobre os orgulhosos.

Segundo, sua condenação. Apresenta sua condição como muito triste e, de certo modo, desesperadora: “Como podeis escapar da condenação do inferno?” O próprio Cristo pregou o inferno e a condenação, pelo que seus ministros muitas vezes foram desacreditados pelos que não querem ouvir disso. Repare:

  1. A condenação do inferno será o fim terrível de todos os pecadores impenitentes. Essa condenação, vindo de Cristo, era mais terrível do que vinda de todos os profetas e ministros que já existiram, pois ele é o Juiz, em cujas mãos são colocadas as chaves do inferno e da morte. Sua declaração de que estavam condenados fazia com que estivessem assim.

  2. Há um caminho de escape dessa condenação; isso está implícito aqui. Alguns são libertados da cólera vindoura.

  3. De todos os pecadores, os que são do espírito dos escribas e fariseus são os menos propensos a escapar dessa condenação, pois o arrependimento e a fé são necessários para esse escape.

Como serão conduzidos a eles os que têm opinião tão elevada de si mesmos e tantos preconceitos contra Cristo e seu evangelho quanto eles tinham? Como poderiam ser curados e salvos os que não suportavam ter sua ferida examinada nem o bálsamo de Gileade aplicado a ela?

Os publicanos e as prostitutas, que tinham consciência de sua doença e recorriam ao Médico, eram mais propensos a escapar da condenação do inferno do que os que, embora estivessem na estrada principal para ele, tinham certeza de estar no caminho do céu.

Versículos 34 a 39

A Condenação dos Fariseus; a Culpa e a Condenação de Jerusalém.

Deixamos os guias cegos caídos na cova, sob a sentença de Cristo, na condenação do inferno. Vejamos o que acontecerá com os seguidores cegos, com o corpo da igreja judaica e, em particular, com Jerusalém.

I. Jesus Cristo ainda pretende experimentá-los com os meios da graça: “Envio-vos profetas, sábios e escribas”. A ligação das ideias é surpreendente. Depois de “Sois uma geração de víboras, com pouca possibilidade de escapar da condenação do inferno”, esperaríamos: “Portanto, nunca mais vos será enviado profeta algum”.

Mas não. Ele diz: “Portanto, enviar-vos-ei profetas, para ver se por fim vos deixareis persuadir; caso contrário, para vos deixar sem desculpa e justificar a Deus em vossa ruína”. Por isso a declaração é introduzida por uma palavra de admiração: eis! Observe:

  1. É Cristo quem os envia: “Eu envio”. Com isso afirma ser Deus, pois tem poder de conceder dons aos profetas e de comissioná-los. É um ato do ofício real. Envia-os como embaixadores para tratar conosco dos interesses de nossa alma.

Depois da ressurreição, cumpriu essa palavra ao dizer: “Assim vos envio” (João 20:21). Embora então parecesse de condição humilde, ainda assim recebera essa grande autoridade.

  1. Envia-os primeiro aos judeus: “Eu os envio a vós”. Começaram por Jerusalém. Por onde quer que fossem, obedeciam a esta regra: oferecer primeiro aos judeus a graça do evangelho (Atos 13:46).

  2. Os enviados são chamados profetas, sábios e escribas, nomes do Antigo Testamento para ministros do Novo. Isso mostra que os ministros enviados agora não seriam inferiores aos profetas antigos, a Salomão, o sábio, nem a Esdras, o escriba.

Os ministros extraordinários dos primeiros tempos, divinamente inspirados, eram como os profetas comissionados diretamente do céu. Os ministros comuns e estabelecidos, que existiam então, continuam na igreja e continuarão até o fim dos tempos, são como os sábios e escribas, que orientam e instruem o povo nas coisas de Deus.

Ou podemos entender os apóstolos e evangelistas como os profetas e sábios, e os pastores e mestres como os escribas instruídos acerca do reino dos céus (Mateus 13:52). O ofício de escriba era honroso até que os homens que o exerciam o desonraram.

II. Cristo prevê e anuncia o mau tratamento que seus mensageiros receberiam: “A alguns deles matareis e crucificareis”; ainda assim, Cristo os enviará. Sabe de antemão como seus servos serão maltratados, mas os envia e determina a medida de seus sofrimentos.

Não os ama menos por expô-los a isso: pretende glorificar-se por meio dos sofrimentos deles e glorificá-los depois. Compensará esses sofrimentos, embora não os impeça. Observe:

  1. A crueldade dos perseguidores: vocês os matarão e crucificarão. Não têm sede de nada menos que sangue, o sangue da vida. Seu desejo não se satisfaz com nada aquém da destruição dos servos (Êxodo 15:9).

Mataram os dois Tiagos, crucificaram Simão, filho de Cléopas, e açoitaram Pedro e João. Assim os membros participaram dos sofrimentos da Cabeça: ele foi morto e crucificado, e com eles aconteceu o mesmo. Os cristãos devem esperar resistir até ao sangue.

  1. Sua atividade incansável: vocês os perseguirão de cidade em cidade. Enquanto os apóstolos percorriam as cidades pregando o evangelho, os judeus iam atrás deles, perseguiam-nos e incitavam a perseguição contra eles (Atos 14:19; 17:13).

Os incrédulos da Judeia eram inimigos mais amargos do evangelho do que quaisquer outros incrédulos (Romanos 15:31).

  1. O pretexto religioso dessa conduta: açoitaram-nos nas sinagogas, seus lugares de culto, onde funcionavam os tribunais eclesiásticos. Assim agiam como se prestassem um serviço à igreja. Expulsavam os mensageiros e diziam: “Seja o Senhor glorificado” (Isaías 66:5; João 16:2).

III. Cristo atribui a eles o pecado de seus pais porque o imitavam: “Para que sobre vós venha todo o sangue justo derramado sobre a terra” (v. 35, 36). Deus suporta por muito tempo uma geração perseguidora, mas não para sempre. A paciência da qual se abusa converte-se na maior cólera.

Quanto mais tempo os pecadores acumulam tesouros de maldade, mais profundos e cheios se tornam os tesouros de cólera; quando se abrirem, será como o rompimento das fontes do grande abismo.

Observe: 1. A extensão dessa atribuição. Inclui todo o sangue justo derramado sobre a terra, isto é, o sangue derramado por causa da justiça. Todo ele foi guardado no tesouro de Deus; nenhuma gota se perdeu, pois é precioso (Salmos 72:14).

Cristo começa a conta pelo sangue do justo Abel. Ali começa esta æra martyrum, a era dos mártires. Abel é chamado justo porque recebeu do céu testemunho de sua justiça, quando Deus deu testemunho de suas ofertas.

Como cedo surgiu o martírio no mundo! O primeiro a morrer morreu por sua religião e, mesmo morto, ainda fala. Seu sangue não apenas clamou contra Caim, mas continua clamando contra todos os que seguem o caminho de Caim e odeiam e perseguem o irmão porque suas obras são justas.

Cristo estende a conta até o sangue de Zacarias, filho de Baraquias (v. 35). Não é o profeta Zacarias, como alguns querem, embora este fosse filho de Baraquias (Zacarias 1:1); nem é Zacarias, pai de João Batista, como dizem outros.

O mais provável é que seja Zacarias, filho de Joiada, morto no pátio da casa do Senhor (2 Crônicas 24:20, 21). Seu pai é chamado Baraquias, nome que significa quase o mesmo que Joiada. Era comum entre os judeus a mesma pessoa ter dois nomes.

“A quem vós matastes”: vós, desta nação, embora não desta geração. Esse caso é mencionado porque a exigência de contas por seu sangue é relatada especificamente (2 Crônicas 24:22), assim como a exigência pelo sangue de Abel.

Os judeus imaginavam que o cativeiro havia expiado suficientemente essa culpa. Cristo, porém, lhes mostra que ela ainda não havia sido inteiramente acertada e permanecia registrada.

Alguns pensam que há aqui também uma indicação profética. Josefo fala de outro Zacarias, filho de Baruque (Guerra Judaica 4.335), homem justo e bom, que foi morto no templo pouco antes da destruição pelos romanos.

O arcebispo Tillotson entende que Cristo alude à história do primeiro Zacarias em Crônicas e prediz a morte desse outro referido por Josefo. Embora o segundo ainda não tivesse sido morto, antes da destruição seria verdade que eles o tinham matado. Assim, todos os casos seriam reunidos, do primeiro ao último.

  1. O efeito da atribuição: “Todas estas coisas virão”. Toda a culpa por esse sangue e todo o castigo por ela virão sobre esta geração. A miséria e a ruína que se aproximam serão enormes.

Embora, considerando a maldade dos pecados da própria geração, a ruína seja menor do que ela merecia, comparada com outros juízos parecerá um acerto geral por toda a maldade de seus antepassados, especialmente por suas perseguições. Deus declarou que essa ruína tinha ligação especial com todas elas.

A destruição será tão terrível como se Deus os tivesse levado, de uma vez por todas, ao tribunal por todo o sangue justo derramado no mundo. “Virá sobre esta geração” indica que virá logo: alguns dos presentes viverão para vê-la.

Repare: quanto mais severo e próximo é o castigo do pecado, mais alto é o chamado ao arrependimento e à reforma.

IV. Cristo lamenta a maldade de Jerusalém e, com justiça, censura a cidade pelas muitas ofertas bondosas que lhe havia feito (v. 37). Veja com que preocupação fala dela: “Ó Jerusalém, Jerusalém!” A repetição é enfática e revela grande compaixão.

Um ou dois dias antes, Cristo chorara por Jerusalém; agora suspira e geme por ela. Jerusalém, visão de paz, como significa seu nome, terá agora de ser sede de guerra e confusão.

Jerusalém, que fora a alegria da terra inteira, terá agora de ser objeto de assobio, espanto e zombaria. Jerusalém, cidade compacta, será despedaçada e arruinada por suas próprias lutas internas.

O lugar que Deus escolheu para ali colocar seu nome será abandonado ao saque e aos ladrões (Lamentações 1:1; 4:1). Mas por que o Senhor fará tudo isso a Jerusalém? Por quê? “Jerusalém pecou gravemente” (Lamentações 1:8).

  1. Perseguiu os mensageiros de Deus: você, Jerusalém, mata os profetas e apedreja os que lhe são enviados. Esse pecado é atribuído especialmente a Jerusalém porque ali se reunia o Sinédrio, o grande conselho que julgava as questões da igreja. Por isso, um profeta não poderia morrer senão em Jerusalém (Lucas 13:33).

É verdade que então não tinham poder para condenar ninguém à morte. Matavam os profetas, porém, em tumultos populares, atacando-os em multidão, como fizeram a Estêvão, ou instigando as autoridades romanas a matá-los.

Em Jerusalém, onde o evangelho foi pregado primeiro, também foi perseguido primeiro (Atos 8:1). A cidade era a sede dos perseguidores: de lá saíam ordens para outras cidades e para lá eram levados os santos presos (Atos 9:2).

Você os apedreja: o apedrejamento era pena de morte praticada somente entre os judeus. Pela lei, falsos profetas e sedutores deveriam ser apedrejados (Deuteronômio 13:10). Sob pretexto dessa lei, eles matavam os verdadeiros profetas.

Repare: muitas vezes a astúcia de Satanás foi voltar contra a igreja a arma originalmente preparada para defendê-la. Rotulem os verdadeiros profetas de sedutores e os verdadeiros professantes da religião de hereges e cismáticos; assim será fácil persegui-los.

Havia muita outra maldade em Jerusalém, mas esse era o pecado que clamava mais alto e no qual Deus mais atentava ao trazer-lhes aquela ruína (2 Reis 24:4; 2 Crônicas 36:16).

Observe que Cristo fala no presente: você mata e apedreja. Tudo o que haviam feito e tudo o que ainda fariam estava presente ao seu conhecimento.

  1. Recusou e rejeitou Cristo e as ofertas do evangelho. O primeiro pecado não tinha remédio; o segundo se voltava contra o remédio. Temos aqui:

(1.) A maravilhosa graça e bondade de Jesus Cristo para com eles: “Quantas vezes quis reunir teus filhos, como a galinha reúne seus pintinhos debaixo das asas!” Assim são bondosas e condescendentes as ofertas da graça do evangelho, mesmo aos filhos de Jerusalém, por pior que ela seja: seus habitantes, sem excluir os pequeninos.

[1.] O benefício proposto era reuni-los. O propósito de Cristo é reunir as pobres almas: chamá-las de volta de seus caminhos errantes e trazê-las para junto de si, o Centro da unidade, pois a ele os povos devem ser reunidos.

Queria acolher todo o corpo da nação judaica na igreja e assim reuni-los, como os judeus diziam dos prosélitos, debaixo das asas da Majestade divina.

Isso é ilustrado por uma comparação humilde: a galinha cacareja para reunir seus pintinhos. Cristo queria reuni-los, primeiro, com a ternura da galinha, que por instinto dedica cuidado especial a seus filhotes. O amor de Cristo está na origem de sua reunião das almas (Jeremias 31:3).

Segundo, com a mesma finalidade. A galinha reúne os pintinhos debaixo das asas para protegê-los, mantê-los seguros, aquecidos e confortados. Em Cristo, as pobres almas encontram tanto refúgio quanto alívio.

Os pintinhos naturalmente correm para a galinha em busca de abrigo quando aves de rapina os ameaçam. Talvez Cristo se refira à promessa: “Ele te cobrirá com suas penas” (Salmos 91:4). Há cura debaixo das asas de Cristo (Malaquias 4:2), mais do que a galinha pode oferecer aos pintinhos.

[2.] A prontidão de Cristo em conceder esse benefício. Suas ofertas são, primeiro, feitas sem reservas: ele o teria feito. Jesus Cristo está verdadeiramente disposto a receber e salvar as pobres almas que vêm a ele. Não deseja sua ruína; alegra-se com seu arrependimento.

Segundo, são muito frequentes: “Quantas vezes!” Cristo muitas vezes subiu a Jerusalém, pregou e fez milagres ali. O propósito de tudo isso era reuni-los. Ele conta quantas vezes repetiu seu chamado. Tantas vezes quantas ouvimos o evangelho, tantas vezes quantas sentimos as insistências do Espírito, Cristo quis reunir-nos.

[3.] A recusa deliberada da graça e bondade: “Vós não quisestes”. Com que força a obstinação deles se opõe à misericórdia de Cristo! Cristo quis, e eles não quiseram. Ele estava disposto a salvá-los, mas eles não queriam ser salvos por ele.

Repare: se os pecadores não são reunidos debaixo das asas do Senhor Jesus, a causa está inteiramente em sua vontade perversa. Não gostavam das condições propostas por Cristo. Amavam seus pecados, mas confiavam na própria justiça; não queriam submeter-se à graça de Cristo nem ao seu governo, e assim o trato foi rompido.

V. Cristo anuncia a sentença de Jerusalém (v. 38, 39). Portanto: “Eis que vossa casa vos é deixada deserta”. Tanto a cidade quanto o templo, a casa de Deus e a deles, serão devastados. A frase, porém, se refere especialmente ao templo, do qual se orgulhavam e no qual confiavam, o monte santo que os fazia tão arrogantes.

Repare: os que recusam ser reunidos pelo amor e pela graça de Cristo serão consumidos e dispersos por sua cólera. Cristo quis, e eles não quiseram. Israel não quis saber de mim; por isso os entreguei a si mesmos (Salmos 81:11, 12).

  1. Sua casa será abandonada: “Ela vos é deixada”. Cristo estava saindo do templo e nunca mais entraria ali. Com essas palavras, abandonou-o à ruína.

Tinham apego excessivo ao templo e o queriam só para si. Cristo não devia ter lugar nem interesse nele. “Pois bem”, diz Cristo, “fica para vós. Tomai-o e fazei dele o melhor que puderdes. Não terei mais nada a ver com ele”. Tinham transformado o templo em casa de comércio e covil de ladrões; por isso lhes foi deixado.

Pouco depois, ouviu-se no templo uma voz: “Saiamos daqui”. Quando Cristo partiu, Icabode: a glória partiu. A cidade também lhes foi deixada, privada da presença e da graça de Deus. Ele já não era um muro de fogo ao seu redor nem a glória no meio deles.

  1. Ficará desolada: “Ela vos é deixada deserta”. É deixada eremos, um deserto.

(1.) Imediatamente, quando Cristo partiu, tornou-se, aos olhos de quem compreendia a situação, um lugar sombrio e melancólico. A partida de Cristo transforma em deserto o lugar mais bem provido e habitado, ainda que seja o templo, o principal lugar de reunião. Que consolo pode existir onde Cristo não está?

Pode haver abundância de outras satisfações; contudo, se a presença espiritual especial de Cristo se retira, aquela alma ou aquele lugar se torna um deserto, terra de trevas como as próprias trevas. Isso resulta de rejeitá-lo e afastá-lo.

(2.) Pouco depois, a casa foi destruída e arruinada, sem que restasse pedra sobre pedra. A sorte dos inimigos de Jerusalém agora será a dela: uma cidade transformada em montão, uma cidade fortificada em ruína (Isaías 25:2); uma cidade altiva abatida até o chão (Isaías 26:5).

O templo, aquela casa santa e bela, ficou desolado. Quando Deus sai, todos os inimigos entram.

Por fim, temos a despedida definitiva de Cristo daqueles homens e de seu templo: “Desde agora não me vereis até que digais: Bendito o que vem”. Isso anuncia:

  1. A partida de Cristo. Aproximava-se o momento em que deixaria o mundo para voltar ao Pai e não seria mais visto. Depois da ressurreição, só algumas testemunhas escolhidas o viram, e por pouco tempo. Logo se retirou para o mundo invisível, onde permanecerá até o tempo da restauração de todas as coisas.

Então as boas-vindas de sua primeira vinda serão repetidas em altas aclamações: “Bendito o que vem em nome do Senhor”. Cristo não será visto novamente até vir nas nuvens e todos os olhos o verem (Apocalipse 1:7).

Até aqueles que o rejeitaram e traspassaram quando tiveram oportunidade desejarão estar entre os que o adoram. Todos se ajoelharão diante dele, até os que se ajoelharam diante de Baal. Até os que praticam a iniquidade clamarão “Senhor, Senhor!” e reconhecerão, quando sua cólera se acender, que são benditos todos os que nele confiam.

Desejamos estar naquele dia entre os que dizem “Bendito o que vem”? Então estejamos entre eles agora, entre os que verdadeiramente adoram e acolhem Jesus Cristo.

  1. A cegueira e obstinação persistentes daqueles homens: “Não me vereis”, isto é, não o reconheceriam como Messias, pois de outro modo o viram na cruz. Não enxergariam a luz da verdade a seu respeito nem as coisas que pertenciam à própria paz, até dizerem: “Bendito o que vem”.

Não se convencerão até que a segunda vinda de Cristo os convença, quando será tarde demais para estabelecer ligação com ele e só restará a temível expectativa do juízo. Repare:

(1.) A cegueira voluntária muitas vezes é punida com a cegueira judicial. Se não querem ver, não verão. Com essas palavras, Cristo conclui sua pregação pública. Depois da ressurreição, que foi o sinal do profeta Jonas, não lhes seria dado outro sinal até verem o sinal do Filho do Homem (Mateus 24:30).

(2.) Quando o Senhor vier com dez mil de seus santos, convencerá a todos e obrigará até seus inimigos mais orgulhosos a reconhecer que ele é o Messias; até eles serão considerados mentirosos diante dele. Os que agora não quiseram atender ao seu chamado serão então forçados a partir sob sua maldição.

Os principais sacerdotes e escribas se desagradaram dos hosanas que as crianças clamaram a Cristo. Chegará, porém, o dia em que os perseguidores orgulhosos gostariam de estar na condição das pessoas mais humildes e pobres que agora pisam. Em breve, os que hoje censuram e ridicularizam os hosanas dos santos pensarão de outro modo. Seria melhor pensar assim desde já.

Alguns entendem que isso se refere à conversão dos judeus à fé em Cristo. Nesse caso, eles o verão, reconhecerão e dirão: “Bendito o que vem”. Parece, porém, apontar mais longe, pois a manifestação completa de Cristo e a convicção dos pecadores estão reservadas para a glória do último dia.


Ajustes de leitura

Tamanho do texto
Tipo de letra