Matthew Henry

Mateus 2

Argumento

Neste capítulo, temos a história da infância de nosso Salvador, na qual vemos quão cedo ele começou a sofrer e como nele se cumpriu a palavra da justiça, antes de ele próprio começar a cumprir toda a justiça.

Aqui estão: I. A busca ansiosa dos sábios por Cristo, vv. 1-8. II. Sua devota dedicação a ele, quando descobriram onde estava, vv. 9-12. III. A fuga de Cristo para o Egito, para escapar da crueldade de Herodes, vv. 13-15. IV. O bárbaro assassinato dos meninos de Belém, vv. 16-18. V. O retorno de Cristo do Egito à terra de Israel, vv. 19-23.

Versículos 1 a 8

Os Sábios Chegam a Jerusalém.

Foi um sinal de humilhação imposto ao Senhor Jesus que, embora fosse o Desejado de todas as nações, sua vinda ao mundo fosse pouco observada e notada; seu nascimento foi obscuro e ignorado. Nisso, ele se esvaziou e se fez de nenhuma reputação.

Se o Filho de Deus devia ser trazido ao mundo, seria justo esperar que fosse recebido com toda a cerimônia possível; que coroas e cetros fossem imediatamente postos a seus pés e que os grandes e poderosos príncipes do mundo fossem seus humildes servos. Esse era o Messias que os judeus esperavam, mas nada disso vemos.

Ele veio ao mundo, e o mundo não o conheceu; mais ainda, veio para os seus, e os seus não o receberam. Pois, tendo assumido a tarefa de satisfazer o Pai pela ofensa feita à honra divina pelo pecado do homem, ele o fez negando a si mesmo as honras indubitavelmente devidas a uma Divindade encarnada e despojando-se delas.

Contudo, assim como depois, também em seu nascimento alguns raios de glória irromperam em meio às maiores manifestações de seu rebaixamento. Embora ali estivesse oculto o seu poder, ainda assim de sua mão saíam raios (Habacuque 3:4) suficientes para condenar o mundo, e os judeus em especial, por sua insensibilidade.

Os primeiros a notar Cristo depois de seu nascimento foram os pastores (Lucas 2:15 e seguintes), que viram e ouviram coisas gloriosas a seu respeito e as divulgaram, para espanto de todos os que as ouviram, v. 17, 18. Depois disso, Simeão e Ana falaram dele, pelo Espírito, a todos os dispostos a dar atenção ao que diziam, Lucas 2:38.

Seria de pensar que os homens de Judá e os habitantes de Jerusalém acolheriam esses indícios e receberiam de braços abertos o Messias há tanto esperado. Mas, pelo que parece, ele permaneceu quase dois anos em Belém, e ninguém voltou a dar-lhe atenção até a chegada desses sábios. Repare: Nada despertará aqueles que estão decididos a não prestar atenção.

Oh, a espantosa insensibilidade desses judeus! E não é menor a de muitos que se dizem cristãos! Observe:

I. Quando se fez essa investigação acerca de Cristo. Foi nos dias do rei Herodes. Esse Herodes era edomita e fora feito rei da Judeia por Augusto e Antônio, então os principais governantes do Estado romano. Era um homem feito de falsidade e crueldade; ainda assim, foi agraciado com o título de Herodes, o Grande.

Cristo nasceu no trigésimo quinto ano do seu reinado. Isso é mencionado para mostrar que o cetro já se afastara de Judá, e o legislador, de entre seus pés; portanto, chegara o tempo de vir Siló, a quem os povos se congregariam. Testemunhas disso são esses sábios, Gênesis 49:10.

II. Quem eram esses sábios e o que eram. Aqui são chamados Magoi — magos. Alguns entendem o termo em bom sentido: entre os persas, os magos eram seus filósofos e sacerdotes; tampouco admitiam como rei alguém que antes não tivesse sido inscrito entre os magos.

Outros pensam que praticavam artes ilícitas. A palavra é usada para Simão, o feiticeiro (Atos 8:9, 11), e para Elimas, o feiticeiro (Atos 13:6); nem a Escritura a usa em outro sentido. Nesse caso, quando aqueles que tanto se dedicavam ao diabo se tornaram dos primeiros adoradores do menino Jesus, isso foi uma manifestação precoce e um presságio da vitória de Cristo sobre ele.

Tão cedo se ergueram troféus de sua vitória sobre os poderes das trevas! Seja qual for a espécie de sábios que eram antes, começaram então a ser verdadeiramente sábios quando se empenharam em procurar Cristo.

De uma coisa estamos certos: 1. Eram gentios e não pertenciam à comunidade de Israel. Os judeus não davam atenção a Cristo, mas esses gentios saíram à sua procura. Repare: Muitas vezes os que estão mais perto dos meios estão mais longe do fim. Veja Mateus 8:11, 12.

O respeito prestado a Cristo por esses gentios foi um feliz presságio e uma amostra do que viria depois, quando os que estavam longe seriam aproximados por Cristo. 2. Eram homens instruídos. Ocupavam-se de artes, de artes ocultas; bons estudiosos deveriam ser bons cristãos, e completam seu aprendizado quando aprendem de Cristo.

  1. Eram homens do Oriente, conhecidos por suas adivinhações, Isaías 2:6. A Arábia é chamada terra do Oriente (Gênesis 25:6), e os árabes são chamados homens do Oriente, Juízes 6:3. Os presentes que trouxeram eram produtos daquela região; os árabes haviam prestado homenagem a Davi e Salomão como tipos de Cristo. Jetro e Jó eram daquela região. Mais do que isso não temos a dizer deles.

São frívolas as tradições da Igreja Romana segundo as quais eram três (embora um dos antigos diga que eram catorze), eram reis e estão sepultados em Colônia, razão pela qual se chamam os três reis de Colônia. Não desejamos ser sábios além do que está escrito.

III. O que os levou a fazer essa investigação. Em seu país, no Oriente, viram uma estrela extraordinária, como nunca tinham visto. Tomaram-na por sinal de que uma pessoa extraordinária nascera na terra da Judeia, sobre a qual a estrela parecia pairar, como um cometa, ou antes um meteoro, nas regiões inferiores do ar.

Aquilo diferia tanto de tudo o que era comum que concluíram significar algo incomum. Repare: Manifestações extraordinárias de Deus nas criaturas devem levar-nos a investigar seu pensamento e sua vontade nelas; Cristo predisse sinais nos céus.

O nascimento de Cristo foi anunciado aos pastores judeus por um anjo e aos filósofos gentios por uma estrela: a ambos Deus falou em sua própria linguagem e da maneira que melhor conheciam. Alguns pensam que a luz que os pastores viram brilhar ao redor deles na noite após o nascimento de Cristo foi a mesma que apareceu como estrela aos sábios que viviam tão longe.

Mas não podemos aceitar isso com facilidade, porque a mesma estrela que viram no Oriente eles viram muito tempo depois, guiando-os à casa onde Cristo estava; foi uma vela acesa de propósito para conduzi-los a Cristo.

Os idólatras adoravam as estrelas como exército dos céus, especialmente os povos orientais, de onde vem o fato de os planetas terem os nomes de seus deuses ídolos; lemos a respeito de uma estrela particular que veneravam, Amós 5:26. Assim, as estrelas, antes empregadas de forma errada, passaram a ser usadas corretamente para levar os homens a Cristo; os deuses dos gentios se tornaram seus servos.

Alguns pensam que essa estrela lhes recordou a profecia de Balaão, de que uma estrela procederia de Jacó e apontaria para um cetro que se levantaria de Israel; veja Números 24:17. Balaão veio das montanhas do Oriente e era um de seus sábios.

Outros atribuem a investigação à expectativa geral, então existente naquelas regiões orientais, de que apareceria algum grande príncipe. Tácito, em sua História (liv. 5), faz menção disso: Pluribus persuasio inerat, antiquis sacerdotum literis contineri, eo ipso tempore fore, ut valesceret oriens, profectique Judæa rerum potirentur.

Isto é: havia na mente de muitos a convicção de que certos escritos antigos dos sacerdotes continham a predição de que, por volta daquela época, um poder oriental prevaleceria, e pessoas vindas da Judeia obteriam domínio. Suetônio também fala disso na vida de Vespasiano.

Assim, esse fenômeno extraordinário foi interpretado como indicação daquele rei; e podemos supor que uma impressão divina feita na mente deles os capacitou a interpretar a estrela como um sinal dado pelo Céu acerca do nascimento de Cristo.

IV. Como prosseguiram nessa investigação. Vieram do Oriente a Jerusalém, para continuar a busca desse príncipe. Aonde mais viriam perguntar pelo rei dos judeus senão a Jerusalém, a cidade-mãe, para onde sobem as tribos, as tribos do Senhor?

Poderiam ter dito: “Se tal príncipe nasceu, em breve ouviremos falar dele em nosso país, e então haverá tempo suficiente para lhe prestar homenagem.” Mas estavam tão ansiosos para conhecê-lo melhor que empreenderam uma longa viagem de propósito para procurá-lo. Repare: Os que desejam verdadeiramente conhecer e encontrar Cristo não se importarão com esforços nem perigos ao buscá-lo.

Então conheceremos, se prosseguirmos em conhecer o Senhor.

A pergunta deles é: “Onde está aquele que nasceu rei dos judeus?” Não perguntam se tal pessoa nasceu (disso estão certos e falam com segurança, tão profundamente aquilo fora impresso em seu coração), mas onde nasceu. Repare: Os que conhecem algo de Cristo não podem deixar de desejar conhecê-lo mais.

Chamam Cristo de Rei dos Judeus, pois assim se esperava que fosse o Messias; ele é Protetor e Governante de todo o Israel espiritual e nasceu Rei.

Não duvidavam de que receberiam pronta resposta à pergunta e encontrariam toda Jerusalém adorando aos pés desse novo rei. Mas vão de porta em porta com a pergunta, e ninguém lhes pode dar informação alguma. Repare: Há no mundo, e também na igreja, mais profunda ignorância do que imaginamos. Muitos que julgamos capazes de nos conduzir a Cristo são eles próprios estranhos a ele.

Perguntam, como a esposa às filhas de Jerusalém: “Vistes aquele a quem ama a minha alma?” Mas não conseguem saber mais. Contudo, como a esposa, persistem na busca: “Onde está aquele que nasceu rei dos judeus?” Perguntam-lhes: “Por que fazem essa investigação?” Porque viram sua estrela no Oriente.

Perguntam-lhes: “Que assunto têm com ele? O que os homens do Oriente têm a ver com o Rei dos Judeus?” Têm pronta a resposta: “Viemos adorá-lo.” Concluem que, com o tempo, ele será seu rei e por isso querem desde cedo conquistar seu favor e o dos que o cercam.

Repare: Aqueles em cujo coração nasceu a estrela da manhã para lhes dar algum conhecimento de Cristo devem fazer da adoração a ele a sua ocupação. Vimos a estrela de Cristo? Esforcemo-nos por honrá-lo.

V. Como essa investigação foi recebida em Jerusalém. Por fim a notícia chegou à corte; quando Herodes a ouviu, perturbou-se, v. 3. Ele não podia desconhecer as profecias do Antigo Testamento a respeito do Messias e de seu reino, nem os tempos fixados para sua manifestação pelas semanas de Daniel.

Mas, por haver reinado tanto tempo e com tanto êxito, começou a esperar que aquelas promessas falhassem para sempre e que seu reino se estabelecesse e perpetuasse apesar delas. Que golpe deve ter sido para ele ouvir falar do nascimento desse Rei precisamente quando chegara o tempo fixado para sua manifestação!

Repare: Os corações carnais e perversos nada temem tanto quanto o cumprimento das Escrituras.

Embora Herodes, edomita, se perturbasse, seria de esperar que Jerusalém se alegrasse muito ao ouvir que seu Rei vinha. Parece, porém, que toda Jerusalém, exceto os poucos que ali esperavam a consolação de Israel, perturbou-se com Herodes e receou não sei que más consequências do nascimento desse novo rei: que os envolvesse numa guerra ou refreasse suas paixões.

De sua parte, não desejavam outro rei senão Herodes, nem mesmo o próprio Messias. Repare: Muitos preferem tolamente a escravidão do pecado à gloriosa liberdade dos filhos de Deus, só porque preveem algumas dificuldades presentes naquela necessária mudança de governo da alma.

Herodes e Jerusalém assim se perturbaram por supor erroneamente que o reino do Messias se chocaria com os poderes terrenos e interferiria neles. Entretanto, a estrela que o proclamava rei indicava claramente que seu reino era celestial e não deste mundo inferior. Repare: Os reis da terra e os povos se opõem ao reino de Cristo porque não o conhecem e estão enganados a seu respeito.

VI. Que ajuda receberam dos escribas e sacerdotes nessa investigação, vv. 4-6. Ninguém se apresentava para dizer onde estava o Rei dos Judeus, mas Herodes pergunta onde se esperava que nascesse. Consulta os principais sacerdotes, que eram mestres por ofício, e os escribas, cuja ocupação era estudar a lei.

Seus lábios devem guardar o conhecimento, mas o povo deve buscar a lei de sua boca, Malaquias 2:7. Era geralmente sabido que Cristo nasceria em Belém (João 7:42); mas Herodes queria a opinião de especialistas e por isso recorreu às pessoas indicadas.

Para ficar mais bem informado, reuniu todos os principais sacerdotes e todos os escribas e perguntou-lhes em que lugar, segundo as Escrituras do Antigo Testamento, Cristo deveria nascer. Muitas perguntas boas são feitas com má intenção; assim foi a de Herodes.

Os sacerdotes e escribas não precisam de muito tempo para responder; tampouco divergem de opinião. Todos concordam que o Messias deve nascer em Belém, cidade de Davi, aqui chamada Belém da Judeia para distingui-la de outra cidade do mesmo nome na terra de Zebulom, Josué 19:15.

Belém significa casa do pão: o lugar mais apropriado para nascer aquele que é o verdadeiro maná, o pão que desceu do céu e foi dado para a vida do mundo. A prova que apresentam vem de Miquéias 5:2, onde se prediz que, embora Belém seja pequena entre os milhares de Judá (assim está em Miquéias), um lugar pouco populoso, não será a menor entre os príncipes de Judá (assim está aqui).

Pois a honra de Belém não residia, como a de outras cidades, na multidão de habitantes, mas na grandeza dos príncipes que dela saíram. Embora sob certos aspectos Belém fosse pequena, tinha sobre todas as cidades de Israel esta primazia: o Senhor contará, ao registrar os povos, que este homem, o homem Cristo Jesus, nasceu ali, Salmos 87:6.

De ti sairá um Governante, o Rei dos Judeus. Repare: Cristo será Salvador apenas daqueles que estão dispostos a recebê-lo como seu Governante. Belém era a cidade de Davi, e Davi, a glória de Belém; portanto, ali deveria nascer o filho e sucessor de Davi.

Havia em Belém, junto ao portão, um famoso poço do qual Davi desejou beber (2 Samuel 23:15); em Cristo, não apenas temos pão de sobra, mas também podemos vir e tomar gratuitamente da água da vida.

Observe aqui como judeus e gentios comparam o que sabem a respeito de Jesus Cristo. Os gentios conhecem pela estrela o tempo de seu nascimento; os judeus conhecem pelas Escrituras o lugar; assim, podem informar uns aos outros. Repare: O conhecimento aumentaria muito se comunicássemos mutuamente o que sabemos.

Os homens enriquecem ao comerciar e trocar; da mesma forma, se temos conhecimento para comunicar a outros, estes estarão dispostos a nos comunicar o seu. Assim, muitos conversarão, irão de um lado para outro, e o conhecimento aumentará.

VII. O projeto e desígnio sanguinário de Herodes, ocasionado por essa investigação, v. 7, 8. Herodes já era velho e reinava havia trinta e cinco anos; esse rei acabava de nascer e provavelmente não empreenderia nada de importância por muitos anos. Mesmo assim, Herodes sentia ciúmes dele.

Cabeças coroadas não suportam pensar em sucessores, muito menos em rivais; por isso, nada menos que o sangue desse rei menino o satisfaria. E não se permite pensar que, se esse recém-nascido fosse de fato o Messias, ao se opor a ele ou tentar atacá-lo estaria lutando contra Deus, coisa mais vã e mais perigosa do que qualquer outra. A paixão dominou sua razão e sua consciência.

Agora, 1. Veja com quanta astúcia concebeu o projeto (v. 7, 8). Chamou os sábios em segredo para falar-lhes do assunto. Não queria confessar abertamente seus temores e ciúmes: seria vergonhoso revelá-los aos sábios e perigoso revelá-los ao povo. Os pecadores são muitas vezes atormentados por temores secretos que guardam para si.

Herodes pergunta aos sábios quando a estrela apareceu, para tomar suas medidas de acordo com isso; então os encarrega de investigar mais e lhes pede que lhe deem notícia. Tudo isso poderia parecer suspeito se não o tivesse encoberto com aparência de religião: “Para que eu também vá adorá-lo.”

Repare: A maior perversidade muitas vezes se esconde sob uma máscara de piedade. Absalão encobre seu projeto de rebelião com um voto.

  1. Veja como ele se mostrou estranhamente tolo e cego ao confiar o assunto aos sábios, sem escolher outros agentes que fossem fiéis a seus interesses. Belém ficava a apenas sete milhas de Jerusalém; com que facilidade poderia ter enviado espiões para vigiar os sábios! Eles poderiam chegar tão depressa para destruir o menino quanto os sábios para adorá-lo.

Repare: Deus pode ocultar dos inimigos da igreja os meios pelos quais facilmente poderiam destruí-la; quando pretende levar os príncipes despojados, seu modo de agir é tornar tolos os juízes.

Versículos 9 a 12

Os Sábios Adoram a Cristo.

Temos aqui a humilde dedicação dos sábios a esse recém-nascido Rei dos Judeus e as honras que lhe renderam. De Jerusalém foram a Belém, decididos a procurar até encontrar. É muito estranho, porém, que fossem sozinhos: ninguém da corte, da igreja ou da cidade os acompanhou, se não por dever de consciência, ao menos por cortesia, ou movido pela curiosidade de ver esse jovem príncipe.

Assim como a rainha do Sul, os sábios do Oriente se levantarão no juízo contra os homens daquela geração, e também desta, e os condenarão. Vieram de uma terra distante para adorar a Cristo, enquanto os judeus, seus parentes, não davam um passo sequer, nem iam à cidade vizinha para recebê-lo.

Encontrar tão desprezado em sua própria terra aquele a quem buscavam poderia desanimar esses sábios. “Viemos de tão longe honrar o Rei dos Judeus, enquanto os próprios judeus desprezam tanto a ele quanto a nós?” Contudo, persistem em sua resolução.

Repare: Devemos continuar nossa dedicação a Cristo ainda que estejamos sozinhos nisso; façam os outros o que fizerem, nós devemos servir ao Senhor. Se não quiserem ir ao céu conosco, nem por isso devemos ir ao inferno com eles. Agora:

I. Veja como encontraram Cristo pela mesma estrela que haviam visto em seu país, v. 9, 10. Observe: 1. Com quanta graça Deus os dirigiu. Pela primeira aparição da estrela, souberam onde poderiam perguntar por esse Rei; depois ela desapareceu, e eles foram deixados a empregar os meios comuns para tal investigação.

Repare: Não devemos esperar auxílios extraordinários quando dispomos de meios ordinários.

Pois bem, haviam seguido os indícios até onde podiam. Estavam a caminho de Belém; mas era uma cidade populosa: onde o encontrariam ao chegar? Ali ficaram perdidos, sem saber que fazer, mas não sem fé. Creram que Deus, que os levara até lá por sua palavra, não os deixaria ali. E não deixou: eis que a estrela vista no Oriente ia adiante deles.

Repare: Se formos o mais longe possível no caminho do dever, Deus nos dirigirá e capacitará a fazer o que por nós mesmos não podemos. Levante-se e ponha-se à obra, e o Senhor estará com você. Vigilantibus, non dormientibus, succurit lex — a lei socorre os ativos, não os ociosos. A estrela os deixara por longo tempo, mas agora retorna.

Os que seguem a Deus no escuro descobrirão que a luz está semeada, reservada, para eles. Israel foi conduzido por uma coluna de fogo à terra prometida; os sábios, por uma estrela à Descendência prometida, que é ele próprio a resplandecente Estrela da Manhã, Apocalipse 22:16.

Deus preferiria criar algo novo a deixar perdidos os que o buscam com diligência e fidelidade. Essa estrela era o sinal da presença de Deus com eles, pois ele é luz e segue adiante de seu povo como Guia. Repare: Se pela fé atentarmos para Deus em todos os nossos caminhos, poderemos ver-nos sob sua direção.

Ele guia com seu olhar (Salmos 32:8) e lhes disse: “Este é o caminho, andai nele.” Há uma estrela da manhã que nasce no coração dos que procuram Cristo, 2 Pedro 1:19.

  1. Observe com quanta alegria seguiram a direção de Deus (v. 10). Ao verem a estrela, alegraram-se com grande e extraordinária alegria. Viram então que não haviam sido enganados nem feito em vão aquela longa viagem. Quando chega o desejo, é árvore de vida.

Tinham então certeza de que Deus estava com eles, e os sinais de sua presença e favor não podem deixar de encher de alegria indizível a alma dos que sabem valorizá-los. Agora podiam rir dos judeus de Jerusalém, que provavelmente haviam rido deles por julgá-los numa busca tola.

Os guardas não conseguem dar à esposa notícia alguma de seu amado; porém, pouco depois de passar por eles, ela o encontra, Cantares de Salomão 3:3, 4. Não podemos esperar pouco demais do homem nem demais de Deus.

Que arrebatamento de alegria esses sábios sentiram ao ver a estrela! Ninguém o conhece tão bem quanto aqueles que, após uma longa e triste noite de tentação e abandono, sob o poder de um Espírito de escravidão, enfim recebem o espírito de adoção, que testemunha com o espírito deles que são filhos de Deus. Isso é luz surgindo das trevas; é vida dentre os mortos.

Agora tinham motivo para esperar ver logo o Cristo do Senhor, o Sol da justiça, pois viam a Estrela da Manhã. Repare: Devemos alegrar-nos com tudo o que nos mostrar o caminho para Cristo. A estrela foi enviada ao encontro dos sábios para conduzi-los à sala de audiência do Rei; esse mestre de cerimônias os apresentou para que fossem recebidos.

Deus cumpre então sua promessa de encontrar os que estão dispostos a se alegrar e praticar a justiça (Isaías 64:5), e eles cumprem seu preceito: “Alegre-se o coração dos que buscam o Senhor”, Salmos 105:3. Repare: Às vezes, Deus se agrada de favorecer os recém-convertidos com sinais de seu amor que muito os animam diante das dificuldades encontradas ao começar a trilhar os caminhos de Deus.

II. Veja como se apresentaram a ele ao encontrá-lo, v. 11. Podemos imaginar que esperavam encontrar esse menino real, embora desprezado pela nação, servido com honra em casa. Que decepção foi descobrir que uma cabana era seu palácio, e que sua própria mãe pobre constituía todo o seu séquito!

Este é o Salvador do mundo? Este é o Rei dos Judeus e, mais ainda, o Príncipe dos reis da terra? Sim, é ele, que, embora fosse rico, por nossa causa se tornou assim pobre. Entretanto, esses sábios tiveram a sabedoria de enxergar através desse véu e discernir, no menino desprezado, a glória do Unigênito do Pai.

Não consideraram frustrada ou malograda sua busca. Como haviam encontrado o Rei que procuravam, apresentaram-lhe primeiro a si mesmos e depois seus presentes.

  1. Apresentaram-se a ele: prostraram-se e o adoraram. Não lemos que tenham dado tamanha honra a Herodes, embora estivesse no auge de sua grandeza real; mas deram essa honra ao menino, não apenas como a um rei (pois nesse caso teriam feito o mesmo a Herodes), mas como a Deus.

Repare: Todos os que encontraram Cristo se prostram diante dele; adoram-no e submetem-se a ele. “Ele é teu Senhor; adora-o.” Será sabedoria dos homens mais sábios, e prova de que conhecem Cristo e entendem a si mesmos e seus verdadeiros interesses, serem adoradores humildes e fiéis do Senhor Jesus.

  1. Apresentaram-lhe seus presentes. Nos povos orientais, quando se prestava homenagem aos reis, ofereciam-se presentes; assim se fala da sujeição dos reis de Sabá a Cristo (Salmos 72:10): “Trarão presentes e oferecerão dádivas.” Veja Isaías 60:6.

Repare: Além de nós mesmos, devemos entregar a Jesus Cristo tudo o que temos. Se nossa entrega pessoal a ele for sincera, não hesitaremos em abrir mão, por ele e para ele, do que temos de mais querido e valioso. Tampouco nossos presentes serão aceitos se primeiro não nos apresentarmos a ele como sacrifícios vivos. Deus atentou para Abel e depois para sua oferta.

Os presentes oferecidos foram ouro, incenso e mirra: dinheiro e bens de valor. A Providência os enviou como auxílio oportuno a José e Maria em sua atual pobreza. Eram produtos do país dos sábios; com aquilo que Deus nos concede, devemos honrá-lo.

Alguns pensam que seus presentes tinham um significado: ofereceram ouro a Cristo como Rei, pagando-lhe tributo, a César o que é de César; incenso como Deus, pois honravam a Deus com a fumaça do incenso; e mirra como Homem que morreria, pois a mirra era usada para embalsamar os mortos.

III. Veja como o deixaram depois de se apresentarem a ele, v. 12. Herodes lhes ordenara que o informassem do que descobrissem, e provavelmente o teriam feito se não recebessem ordem em contrário, sem suspeitar que assim eram feitos instrumentos de seu perverso desígnio.

Os que têm intenções honestas e boas facilmente acreditam que os outros também as têm e não conseguem imaginar que o mundo é tão mau quanto realmente é. Mas o Senhor sabe livrar os piedosos da tentação.

Não vemos que os sábios tenham prometido voltar a Herodes; se o tivessem feito, seria com a ressalva costumeira: “Se Deus permitir.” Deus não permitiu e impediu tanto o mal que Herodes pretendia fazer ao menino Jesus quanto o sofrimento que seria para os sábios tornarem-se, contra a vontade, cúmplices desse mal.

Foram avisados por Deus, chrematisthentes — oraculo vel responso accepto — mediante uma indicação por oráculo. Alguns pensam que isso sugere que pediram conselho a Deus e receberam essa resposta. Repare: Os que agem com cautela e temem o pecado e as ciladas podem esperar ser conduzidos pelo caminho certo se recorrerem a Deus em busca de orientação.

Foram avisados de que não voltassem a Herodes nem a Jerusalém. Eram indignos de receber notícias sobre Cristo os que poderiam tê-lo visto com os próprios olhos e não quiseram. Partiram por outro caminho para seu país, a fim de levar as notícias a seus compatriotas.

É estranho, porém, que nunca mais ouçamos falar deles e que nem eles nem os seus tenham depois acompanhado no templo aquele que adoraram no berço. Seja como for, a direção que receberam de Deus em seu regresso seria mais uma confirmação de sua fé nesse Menino como o Senhor vindo do céu.

Versículos 13 a 15

A Fuga para o Egito.

Temos aqui a fuga de Cristo para o Egito, para escapar da crueldade de Herodes. Foi consequência da investigação dos sábios a seu respeito, pois, antes disso, a obscuridade em que vivia o protegia. Pouco respeito, comparado ao que lhe era devido, foi prestado a Cristo em sua infância; contudo, até esse pouco, em vez de honrá-lo entre seu povo, apenas o expôs.

Agora, observe: 1. A ordem dada a José a esse respeito, v. 13. José não conhecia o perigo em que o menino se encontrava nem como escapar dele; mas Deus, por um anjo, lhe revela ambos em sonho, assim como antes o instruíra da mesma maneira sobre o que fazer, Mateus 1:20. Antes de sua ligação com Cristo, José não costumava ter contato com anjos como agora.

Repare: Os que estão espiritualmente ligados a Cristo pela fé têm uma comunhão e correspondência com o Céu que antes lhes eram desconhecidas.

  1. José é informado do perigo: Herodes procurará o menino para destruí-lo. Repare: Deus conhece todos os planos e propósitos cruéis dos inimigos de sua igreja. “Conheço a tua fúria contra mim”, diz Deus a Senaqueribe, Isaías 37:28.

Quão cedo o bendito Jesus se viu envolvido em aflições! Em geral, até aqueles cujos anos de maturidade são cheios de trabalhos e perigos têm uma infância pacífica e tranquila; mas não foi assim com o bendito Jesus. Sua vida e seus sofrimentos começaram juntos.

Ele nasceu como homem de contendas, tal como Jeremias (Jeremias 15:10), que foi santificado desde o ventre, Jeremias 1:5. Tanto Cristo, a cabeça, quanto a igreja, seu corpo, concordam em dizer: “Muitas vezes me afligiram desde a minha mocidade.” A crueldade do faraó recai sobre as crianças hebreias, e um grande dragão vermelho fica pronto para devorar o menino assim que nasce, Apocalipse 12:4.

  1. José recebe a instrução sobre o que fazer para escapar do perigo: “Toma o menino e foge para o Egito.” Tão cedo Cristo deve dar exemplo da regra que ele próprio estabeleceu (Mateus 10:23): “Quando vos perseguirem numa cidade, fugi para outra.” Aquele que veio morrer por nós fugiu para preservar a própria vida quando sua hora ainda não chegara.

A autopreservação, sendo um ramo da lei da natureza, é também uma parte importante da lei de Deus. “Foge”; mas por que para o Egito? O Egito era notório pela idolatria, tirania e inimizade contra o povo de Deus. Fora casa de escravidão para Israel e particularmente cruel com as crianças israelitas; no Egito, tanto quanto em Ramá, Raquel havia chorado por seus filhos.

Contudo, esse lugar é designado como refúgio para o santo menino Jesus. Repare: Quando quer, Deus pode fazer com que os piores lugares sirvam aos melhores propósitos, pois a terra pertence ao Senhor, que a usa como lhe agrada; às vezes, a terra ajuda a mulher, Apocalipse 12:16. Deus, que fez de Moabe abrigo para os seus desterrados, faz do Egito refúgio para seu Filho. Isso pode ser considerado:

(1.) Uma prova da fé de José e Maria. Poderiam ser tentados a pensar: “Se esse menino é o Filho de Deus, como nos disseram, não tem outro meio de se proteger de um homem que é um verme senão esta retirada humilde e sem glória? Não pode convocar legiões de anjos como sua guarda, ou querubins de espadas flamejantes para guardar esta árvore da vida?”

“Não pode ferir Herodes de morte ou secar a mão estendida contra ele e assim poupar-nos o transtorno dessa mudança?” Tinham ouvido recentemente que ele seria a glória de seu povo Israel; e a terra de Israel já se tornou insuportável para ele?

Não vemos, porém, que tenham feito tais objeções. Sua fé foi provada e achada firme. Creem que ele é o Filho de Deus, embora não vejam milagre algum operado para preservá-lo e precisem empregar os meios ordinários.

José recebera grande honra ao tornar-se marido da bendita virgem, mas essa honra vinha acompanhada de dificuldades, como todas as honras deste mundo. José deve tomar o menino e levá-lo ao Egito. Então se mostrou quão bem Deus providenciara para o menino e sua mãe ao colocar José em relação tão próxima com eles.

O ouro trazido pelos sábios agora lhes serviria para custear a viagem. Deus prevê as aflições de seu povo e de antemão provê para enfrentá-las. Ele dá a entender que seu cuidado e sua direção continuarão ao dizer: “Fica lá até que eu te avise.” José, portanto, deveria esperar nova palavra de Deus e não sair dali sem novas ordens. Assim Deus mantém seu povo continuamente dependente dele.

(2.) Uma manifestação da humilhação de nosso Senhor Jesus. Assim como não havia lugar para ele na hospedaria de Belém, também não havia lugar tranquilo para ele na terra da Judeia. Foi, assim, banido da Canaã terrestre para que nós, banidos da Canaã celestial por causa do pecado, não fôssemos expulsos para sempre.

Se nós e nossos filhos pequenos algum dia passarmos por apertos, lembremo-nos dos apertos que Cristo enfrentou na infância e aceitemo-los.

(3.) Um sinal do desagrado de Deus contra os judeus, que tão pouca atenção lhe deram; com justiça ele deixa os que o desprezaram. Temos aqui também uma antecipação de seu favor aos gentios, aos quais os apóstolos levariam o evangelho quando os judeus o rejeitassem. Se o Egito acolhe Cristo quando ele é expulso da Judeia, não tardará a ouvir-se: “Bendito seja o Egito, meu povo”, Isaías 19:25.

II. A obediência de José a essa ordem, v. 14. A viagem seria inconveniente e perigosa tanto para o menino quanto para sua mãe. Estavam mal providos para ela e provavelmente seriam recebidos com frieza no Egito. Ainda assim, José não desobedeceu à visão celestial; não levantou objeções nem tardou em obedecer.

Assim que recebeu as ordens, levantou-se imediatamente e partiu de noite, ao que parece na mesma noite em que as recebera. Repare: Quem deseja assegurar sua obediência deve obedecer depressa. José partiu, como fizera seu pai Abraão, em plena dependência de Deus, sem saber para onde ia, Hebreus 11:8.

José e sua mulher, tendo pouco, tinham pouco com que se preocupar nessa mudança. A abundância dificulta uma fuga necessária. Se os ricos têm vantagem sobre os pobres enquanto possuem seus bens, os pobres têm vantagem sobre os ricos quando são chamados a deixá-los.

José tomou o menino e sua mãe. Alguns observam que o menino é mencionado primeiro, como pessoa principal, e que Maria é chamada não esposa de José, mas mãe do menino, que era sua grande dignidade. Esse não foi o primeiro José impelido de Canaã ao Egito em busca de abrigo contra a ira de seus irmãos; por causa daquele, este José deveria ser bem recebido ali.

Se dermos crédito à tradição, quando entraram no Egito e por acaso foram a um templo, todas as imagens de seus deuses foram derrubadas por um poder invisível e caíram como Dagom diante da arca, conforme a profecia: “O Senhor virá ao Egito, e os ídolos do Egito se moverão diante da sua presença”, Isaías 19:1.

Permaneceram no Egito até a morte de Herodes, período que alguns pensam ter durado sete anos, enquanto outros acham que nem tantos meses. Ali estavam longe do templo e de seu culto, em meio a idólatras; mas Deus os enviara para lá e quer misericórdia, não sacrifício. Embora longe do templo do Senhor, tinham consigo o Senhor do templo.

Uma ausência forçada das ordenanças de Deus e uma presença forçada entre pessoas perversas podem ser o destino das pessoas boas; não são seu pecado, mas não podem deixar de lhes causar tristeza.

III. O cumprimento da Escritura nisso, a saber, Oseias 11:1: “Do Egito chamei meu filho.” De todos os evangelistas, Mateus é o que mais observa o cumprimento das Escrituras nos fatos referentes a Cristo, porque seu evangelho foi publicado primeiro entre os judeus, para os quais isso lhe conferiria muita força e brilho.

Essa palavra do profeta sem dúvida se referia à libertação de Israel do Egito, ocasião em que Deus o reconheceu como seu filho, seu primogênito (Êxodo 4:22). Aqui, porém, é aplicada por analogia a Cristo, Cabeça da igreja. Repare: A Escritura tem muitos cumprimentos, tão plena e abundante é ela, e tão bem ordenada em todas as coisas. Deus cumpre a Escritura todos os dias.

A Escritura não é de interpretação particular: devemos conceder-lhe toda a sua extensão. “Quando Israel era menino, eu o amei; e, embora o amasse, permiti que permanecesse muito tempo no Egito; mas, porque o amava, no devido tempo o chamei do Egito.”

Quem lê isso deve, em pensamento, olhar não apenas para trás, mas também para a frente: o que houve tornará a haver (Eclesiastes 1:9). A própria forma da expressão o sugere, pois não diz “chamei-o”, mas “chamei meu filho do Egito”.

Repare: Não é novidade que os filhos de Deus estejam no Egito, em terra estranha, em casa de escravidão; mas serão retirados de lá. Podem ser escondidos no Egito, mas não serão deixados ali. Todos os eleitos de Deus, filhos da cólera por natureza, nascem num Egito espiritual e, na conversão, são eficazmente chamados para fora dele.

Poder-se-ia objetar contra Cristo que ele esteve no Egito. O Sol da justiça surgiria daquela terra de trevas? Mas isso mostra que não há nada de estranho nisso: Israel foi tirado do Egito para ser elevado às maiores honras, e aqui acontece o mesmo.

Versículos 16 a 18

A Matança das Crianças.

Aqui estão: I. O ressentimento de Herodes pela partida dos sábios. Esperou muito por sua volta; confiava que, embora demorassem, certamente voltariam, e então esmagaria esse rival logo que aparecesse. Mas, ao investigar, soube que haviam partido por outro caminho. Isso aumentou seu ciúme e o fez suspeitar que apoiavam esse novo Rei, o que o encheu de cólera.

Ficou ainda mais desesperado e violento por ter sido frustrado. Repare: A corrupção arraigada se avoluma diante dos obstáculos encontrados na busca do pecado.

II. Sua manobra astuta, apesar disso, para eliminar aquele que nascera Rei dos Judeus. Se não podia alcançá-lo com uma execução dirigida, não duvidava de que o atingiria com um golpe geral, que, como a espada da guerra, devoraria um e outro igualmente. Seria uma medida certeira; e assim os que querem destruir a própria iniquidade devem ter o cuidado de destruir todas as suas iniquidades.

Herodes era edomita; a inimizade contra Israel estava entranhada nele. Doegue era edomita e, por causa de Davi, matou todos os sacerdotes do Senhor. É estranho que Herodes encontrasse alguém desumano a ponto de executar uma obra tão sangrenta e bárbara; mas mãos perversas nunca carecem de instrumentos perversos.

As crianças pequenas sempre estiveram sob proteção especial não apenas das leis humanas, mas da própria natureza humana; contudo, são sacrificadas à fúria desse tirano, sob quem, como sob Nero, a inocência oferece a menor segurança. Herodes foi sanguinário durante todo o reinado; pouco antes, destruíra todo o Sinédrio, o corpo de juízes.

Mas, para o sedento de sangue, o sangue é como bebida para quem sofre de hidropisia: Quo plus sunt potæ, plus sitiuntur aquæ — quanto mais bebem, mais sede têm. Herodes tinha então cerca de setenta anos, de modo que um menino menor de dois anos dificilmente lhe causaria algum transtorno.

Tampouco era muito afeiçoado aos próprios filhos nem interessado nos cargos que poderiam ocupar: antes matara dois de seus filhos, Alexandre e Aristóbulo, e depois mataria Antípatro, apenas cinco dias antes de sua própria morte. Portanto, fez isso unicamente para satisfazer seus desejos grosseiros de orgulho e crueldade. Tudo o que cai em sua rede lhe serve.

Observe quão amplas foram suas medidas: 1. Quanto à idade: matou todos os meninos de dois anos para baixo. É provável que o bendito Jesus ainda não tivesse um ano; mas Herodes incluiu todos os menores de dois para não deixar escapar a presa. Não se importa com quantas cabeças que reconhece inocentes caiam, desde que não escape aquela que supõe culpada.

  1. Quanto ao lugar: mata todos os meninos, não só em Belém, mas em todos os seus arredores, em todas as aldeias da cidade. Isso era ser demasiadamente perverso, Eclesiastes 7:17. O ódio, a cólera desenfreada armada de poder ilegítimo, muitas vezes leva os homens aos atos de crueldade mais absurdos e irracionais.

Não foi injusto da parte de Deus permitir isso: toda vida, assim que começa, já está entregue à sua justiça. O pecado que entrou pela desobediência de um homem introduziu consigo a morte. Não devemos supor culpa alguma além dessa culpa comum; não devemos supor que essas crianças fossem mais pecadoras que todos os demais em Israel por haverem sofrido tais coisas.

Os juízos de Deus são um grande abismo. As enfermidades e mortes de crianças pequenas são provas do pecado original. Mas devemos olhar para o assassinato desses meninos sob outro aspecto: foi seu martírio. Quão cedo começou a perseguição contra Cristo e seu reino! Vocês pensam que ele veio trazer paz à terra? Não, mas espada, uma espada como esta, Mateus 10:34, 35.

Assim foi dado um testemunho passivo ao Senhor Jesus. Quando ainda estava no ventre, uma criança que saltou de alegria no ventre à sua aproximação deu testemunho dele; agora, com cerca de dois anos, ele tinha testemunhas contemporâneas da mesma idade. Derramaram seu sangue por aquele que mais tarde derramaria o próprio sangue por eles.

Eram a infantaria do nobre exército dos mártires. Se esses meninos foram batizados com sangue, embora o seu próprio, para entrar na igreja triunfante, não se poderia dizer que, pelo que receberam no céu, não foram abundantemente recompensados pelo que perderam na terra.

Da boca dessas crianças e dos que mamavam Deus aperfeiçoou seu louvor; caso contrário, não seria bom ao Todo-Poderoso afligi-los assim.

A tradição da Igreja grega (presente também no missal etíope) diz que foram mortas 14.000 crianças; mas isso é muito absurdo. Creio que, se fossem contados os nascimentos de meninos nos registros semanais, não se encontrariam tantos menores de dois anos nem numa das cidades mais populosas do mundo, quanto menos numa cidade que não chegava à quadragésima parte dela.

É um exemplo da vaidade da tradição.

É estranho que Josefo não relate essa história. Mas escreveu muito depois de São Mateus; é provável que por isso tenha evitado relatá-la, pois não queria assim dar crédito à história cristã, já que era judeu zeloso. Certamente, se o fato não fosse verdadeiro e bem atestado, ele o teria contestado.

Macróbio, escritor pagão, conta que, quando Augusto César soube que Herodes matara seu próprio filho entre as crianças menores de dois anos que ordenara matar, fez esta pilhéria: “Era melhor ser porco de Herodes que filho dele.” Os costumes do país o impediam de matar um porco, mas nada o impedia de matar o filho.

Alguns pensam que ele tinha uma criança sob os cuidados de uma ama em Belém; outros pensam que dois acontecimentos foram confundidos por engano: o assassinato dos meninos e o de seu filho Antípatro.

Mas incluir os Santos Inocentes, como os chama a Igreja de Roma, em seu calendário e observar um dia em memória deles, enquanto tantas vezes justificou e até superou Herodes com seus bárbaros massacres, é fazer como seus predecessores: construíam os sepulcros dos profetas ao mesmo tempo que eles próprios completavam a mesma medida.

Alguns observam outro desígnio da Providência no assassinato dos meninos. Todas as profecias do Antigo Testamento indicam que Belém era o lugar e aquele o tempo do nascimento do Messias. Ora, uma vez mortos todos os meninos nascidos naquela época em Belém e tendo apenas Jesus escapado, ninguém senão Jesus poderia pretender ser o Messias.

Herodes julgava ter frustrado todas as profecias do Antigo Testamento, anulado os sinais da estrela e a devoção dos sábios ao livrar o país desse novo Rei. Incendiara a colmeia e concluía ter matado a abelha-mestra; mas Deus no céu ri dele e o tem por objeto de escárnio. Por mais astutos e cruéis que sejam os planos no coração dos homens, o conselho do Senhor permanecerá.

III. O cumprimento da Escritura nisso (v. 17, 18): cumpriu-se então a profecia (Jeremias 31:15): “Ouviu-se uma voz em Ramá.” Vejam e adorem a plenitude da Escritura! Aquela predição se cumpriu no tempo de Jeremias, quando Nebuzaradã, depois de destruir Jerusalém, levou todos os seus prisioneiros a Ramá (Jeremias 40:1) e ali dispôs deles como quis, destinando-os à espada ou ao cativeiro.

Então o clamor em Ramá foi ouvido em Belém, pois as duas cidades, uma no território de Judá e outra no de Benjamim, não ficavam longe uma da outra. Agora, porém, a profecia se cumpre novamente na profunda tristeza pela morte desses meninos. A Escritura se cumpriu:

  1. No lugar dessa lamentação. Seu som foi ouvido de Belém até Ramá, pois a crueldade de Herodes se estendeu a todos os arredores de Belém, até o território de Benjamim, entre os filhos de Raquel. Alguns pensam que a região de Belém era chamada Raquel porque ali ela morreu e foi sepultada. Seu túmulo ficava perto de Belém, Gênesis 35:16, 19; compare 1 Samuel 10:2.

Raquel tinha o coração muito voltado para os filhos: ao filho de cujo parto morreu deu o nome de Benoni, filho de sua dor. Essas mães eram como Raquel, viviam perto de seu túmulo e muitas descendiam dela. Por isso, suas lamentações são belamente representadas pelo choro de Raquel.

  1. Na intensidade dessa lamentação. Era lamento, choro e grande pranto; tudo isso ainda era pouco para expressar o que sentiam diante de calamidade tão grave. Houve grande clamor no Egito quando os primogênitos foram mortos, e também aqui, quando os mais novos foram mortos, pois por eles temos naturalmente particular ternura.

Eis aqui uma representação do mundo em que vivemos. Nele ouvimos lamentos, choros e prantos, e vemos as lágrimas dos oprimidos, de uns por um motivo e de outros por outro. Nossos caminhos atravessam um vale de lágrimas. A dor delas era tão grande que não queriam ser consoladas. Endureceram-se nessa dor e encontraram satisfação em sua tristeza.

Bendito seja Deus: não há neste mundo motivo de tristeza, nem mesmo a produzida pelo próprio pecado, que justifique recusarmos consolo! Não queriam ser consoladas porque eles já não existem, isto é, já não estão na terra dos vivos nem, como antes, nos braços das mães.

Se de fato não existissem mais, talvez houvesse alguma desculpa para entristecer-se como quem não tem esperança. Mas sabemos que não estão perdidos: foram adiante. Se esquecermos que continuam a existir, perderemos o melhor fundamento do nosso consolo, 1 Tessalonicenses 4:13.

Alguns consideram que essa tristeza dos habitantes de Belém foi um juízo sobre eles por desprezarem a Cristo. Aqueles que não quiseram alegrar-se com o nascimento do Filho de Deus justamente foram levados a chorar a morte dos próprios filhos; pois apenas se maravilharam com as notícias trazidas pelos pastores, sem acolhê-las.

A citação dessa profecia poderia responder a uma objeção que alguns levantariam contra Cristo por causa desse triste acontecimento providencial: “Pode o Messias, destinado a ser a Consolação de Israel, ser apresentado em meio a todo esse lamento?” Sim, pois assim foi predito, e a Escritura precisa cumprir-se.

Além disso, olhando adiante nessa profecia, descobrimos que o choro amargo em Ramá era apenas o prelúdio da maior alegria, pois ela prossegue: “Teu trabalho será recompensado, e há esperança para o teu fim.” Quanto piores as coisas, mais perto estão de melhorar. Um menino lhes nascera, suficiente para reparar suas perdas.

Versículos 19 a 23

O Retorno de Cristo do Egito.

Temos aqui o retorno de Cristo do Egito à terra de Israel. O Egito pode servir para uma estadia ou abrigo temporário, mas não para residência permanente. Cristo foi enviado às ovelhas perdidas da casa de Israel; por isso, precisava voltar a elas. Observe:

I. O que abriu caminho para seu retorno: a morte de Herodes, ocorrida não muito depois do assassinato dos meninos; alguns pensam que não se passaram mais de três meses. Quão depressa agiu a vingança divina! Repare: Os Herodes têm de morrer.

Os tiranos orgulhosos, que na terra dos vivos aterrorizaram os poderosos e oprimiram os piedosos, terão seu dia de queda e descerão à cova. Quem é você, então, para ter medo de um homem que morrerá? (Isaías 51:12, 13). Sobretudo ao considerar que, na morte, não apenas perecem sua inveja e seu ódio (Eclesiastes 9:6) e deixam de perturbar (Jó 3:17), mas também são punidos.

De todos os pecados, a culpa por sangue inocente enche a medida mais depressa. Josefo dá um relato terrível da morte desse mesmo Herodes (Antiguidades, 17.146-199): uma enfermidade o acometeu e o queimava por dentro com tortura indescritível; tinha apetite insaciável por alimento, cólicas, gota e hidropisia.

Sua doença vinha acompanhada de um mau cheiro tão insuportável que ninguém podia aproximar-se. Tão irascível e impaciente era que se tornou tormento para si mesmo e terror para todos os que o serviam. Sua crueldade inata, assim exacerbada, o tornou mais bárbaro do que nunca.

Depois de ordenar a morte do próprio filho, prendeu muitos nobres e pessoas de distinção e determinou que fossem mortos assim que ele próprio morresse; mas essa execução foi impedida. Vejam que espécie de homens têm sido os inimigos e perseguidores de Cristo e de seus seguidores! Poucos se opuseram ao cristianismo sem primeiro se despojarem da humanidade, como Nero e Domiciano.

II. As ordens dadas do Céu sobre o retorno e a obediência de José a elas, vv. 19-21. Deus enviara José ao Egito, e ali ele permaneceu até que o mesmo que o levara para lá lhe ordenasse sair. Repare: Em todas as nossas mudanças, é bom ter clareza sobre o caminho e ver Deus indo à nossa frente; não devemos mover-nos numa direção ou noutra sem ordem.

Essas ordens lhe foram enviadas por um anjo. Repare: Se mantivermos de nossa parte a comunicação com Deus, ele a manterá da sua, onde quer que estejamos. Lugar algum pode excluir as visitas da graça de Deus. Anjos vêm a José no Egito, a Ezequiel na Babilônia e a João em Patmos.

Agora, 1. O anjo lhe anuncia a morte de Herodes e de seus cúmplices: “Morreram os que procuravam tirar a vida do menino.” Eles morreram, mas o menino vive. Às vezes, os santos perseguidos sobrevivem para pisar os túmulos de seus perseguidores. Assim o Rei da igreja resistiu à tempestade, e a igreja também resistiu a muitas outras semelhantes.

Morreram, isto é, Herodes e seu filho Antípatro, que, embora tivessem ciúmes um do outro, provavelmente concordavam em procurar destruir esse novo Rei. Se Herodes primeiro mata Antípatro e depois morre, o caminho fica livre; o Senhor se faz conhecer pelos juízos que executa quando um instrumento perverso participa da ruína de outro.

  1. O anjo lhe diz o que fazer. José deve partir e voltar à terra de Israel, o que faz sem demora. Não alega a estabilidade razoável que tinha no Egito nem os incômodos da viagem, sobretudo se, como se supõe, Herodes morreu no começo do inverno.

O povo de Deus segue suas instruções aonde quer que ele o conduza e onde quer que o faça morar. Se víssemos o mundo como nosso Egito, lugar de escravidão e exílio, e somente o céu como nossa Canaã, nosso lar e descanso, prontamente nos levantaríamos e partiríamos para lá quando chamados, como José partiu do Egito.

III. A orientação adicional que recebeu de Deus sobre o rumo a tomar e onde se estabelecer na terra de Israel, v. 22, 23. Deus poderia ter-lhe dado essas instruções com as anteriores; porém, revela sua vontade a seu povo aos poucos, para mantê-lo à sua espera, na expectativa de ouvir mais dele.

José recebeu essas ordens em sonho, provavelmente pela atuação de um anjo, como antes. Deus poderia ter comunicado sua vontade a José pelo menino Jesus; mas não vemos que, nessas mudanças, ele tenha prestado atenção ou dado notícia de qualquer acontecimento. Certamente era porque convinha que em tudo fosse feito semelhante a seus irmãos.

Sendo criança, falava e agia como criança e punha um véu sobre seu conhecimento e poder infinitos; como criança, crescia em sabedoria.

Agora, a orientação dada a essa família santa e real é: 1. Que não se estabeleça na Judeia, v. 22. José poderia pensar que Jesus, tendo nascido em Belém, deveria ser criado ali. Contudo, prudentemente teme pelo menino ao ouvir que Arquelau reina no lugar de Herodes, não sobre todo o reino como seu pai, mas apenas sobre a Judeia; as outras províncias haviam sido confiadas a outras mãos.

Vejam que sucessão de inimigos se levanta para combater Cristo e sua igreja! Se um desaparece, imediatamente surge outro para manter a antiga inimizade. Por isso José não deve levar o menino à Judeia.

Repare: Deus não lançará seus filhos à boca do perigo, a não ser quando isso servir à sua glória e à prova deles; pois a vida e a morte de seus santos são preciosas à vista do Senhor, e precioso lhe é o sangue deles.

  1. Que se estabeleça na Galileia, v. 22. Ali governava Filipe, homem brando e tranquilo. Repare: A providência de Deus costuma dispor as coisas de modo que seu povo não fique sem um retiro tranquilo da tormenta e da tempestade; quando um clima se torna quente e abrasador, outro permanece mais fresco e ameno.

A Galileia ficava bem ao norte, com Samaria entre ela e a Judeia. Para lá foram enviados, a Nazaré, cidade sobre uma colina, no centro do território de Zebulom. Ali vivia a mãe de nosso Senhor quando concebeu aquele santo ser, e provavelmente José também morava ali, Lucas 1:26, 27.

Para lá foram enviados, onde eram bem conhecidos e estavam entre seus parentes, o lugar mais apropriado para eles. Ali permaneceram; por isso nosso Salvador foi chamado Jesus de Nazaré, o que era para os judeus pedra de tropeço, pois: “Pode vir alguma coisa boa de Nazaré?”

Diz-se que nisso se cumpriu o que fora dito pelos profetas: “Ele será chamado Nazareno.” Isso pode ser entendido (1.) Como designação de um homem de honra e dignidade, embora inicialmente signifique apenas homem de Nazaré. Há uma alusão ou mistério na expressão, ao apresentar Cristo como:

[1.] O Homem, o Renovo, de quem se fala em Isaías 11:1. A palavra ali é Netzar, que significa tanto renovo quanto a cidade de Nazaré; ao receber o nome da cidade, ele é declarado aquele Renovo.

[2.] Ela o apresenta como o grande nazireu, de quem os nazireus da lei eram tipo e figura (especialmente Sansão, Juízes 13:5), assim como José, chamado nazireu entre seus irmãos (Gênesis 49:26), a quem se refere o que foi prescrito acerca dos nazireus, Números 6:2 e seguintes.

Não que Cristo fosse nazireu em sentido estrito, pois bebia vinho e tocava em corpos mortos. Mas o foi eminentemente, tanto por sua santidade singular quanto por haver sido, por solene designação e consagração, separado para a honra de Deus na obra de nossa redenção, assim como Sansão foi separado para salvar Israel. Temos todos os motivos para nos alegrar com esse nome e reconhecê-lo por ele.

Ou (2.) Como nome de descrédito e desprezo. Ser chamado nazareno era ser chamado homem desprezível, de quem nada de bom se esperava e a quem não se devia respeito. O diabo foi o primeiro a atribuir esse nome a Cristo para rebaixá-lo e predispor as pessoas contra ele; o nome ficou como apelido depreciativo para ele e seus seguidores.

Isso não foi particularmente predito por um só profeta, mas, em geral, os profetas disseram que ele seria desprezado e rejeitado pelos homens (Isaías 53:2, 3), um verme, e não homem (Salmos 22:6, 7), e estranho a seus irmãos, Salmos 69:7, 8. Que nenhum nome de escárnio por causa da religião nos pareça pesado, quando nosso Mestre foi ele próprio chamado Nazareno.


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