Mateus 1
Argumento
Mateus
UMA
EXPOSIÇÃO,
COM OBSERVAÇÕES PRÁTICAS,
DO EVANGELHO SEGUNDO
S. MATEUS.
Temos agora diante de nós: I. O Novo Testamento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. Assim se intitula esta segunda parte da Bíblia Sagrada. Também poderia ser traduzido por “a nova aliança”, pois a palavra significa ambas as coisas.
Mas, quando se fala dele, como aqui, enquanto ato e disposição de Cristo, a tradução mais apropriada é “testamento”: ele é o testador, e o documento entra em vigor por sua morte (Hebreus 9:16, 17). Tampouco há, como nas alianças, uma negociação prévia entre as partes.
O que é concedido, embora seja um patrimônio sujeito a condição, deve-se à vontade, à livre vontade e à boa vontade do Testador. Toda a graça contida neste livro se deve a Jesus Cristo como nosso Senhor e Salvador. Se não o aceitarmos como Senhor, não poderemos esperar benefício algum dele como Salvador.
Ele é chamado novo testamento para distingui-lo daquele que foi dado por Moisés e não estava antiquado, e para indicar que seria sempre novo, nunca envelheceria nem perderia a validade. Estes livros contêm não só a plena revelação da graça que apareceu a todos, trazendo salvação, mas também um instrumento legal pelo qual ela é transmitida e garantida a todos os crentes.
Com quanto cuidado guardamos, e com quanta atenção e satisfação lemos, a última vontade e o testamento de um amigo que nos deixou neles um bom patrimônio e, junto com ele, grandes expressões de seu amor por nós! Quanto mais precioso, então, deveria ser para nós este testamento de nosso bendito Salvador, que nos assegura todas as suas riquezas insondáveis!
É seu testamento. Embora, como costuma ocorrer, tenha sido escrito por outros (não há registro de nada que Cristo tenha escrito de próprio punho), foi ele quem o ditou. Na noite anterior à sua morte, ao instituir sua ceia, assinou-o, selou-o e publicou-o na presença de doze testemunhas.
Pois, embora estes livros tenham sido escritos alguns anos depois, para benefício da posteridade, in perpetuam rei memoriam — como memorial perpétuo —, o Novo Testamento de nosso Senhor Jesus foi estabelecido, confirmado e declarado desde a hora de sua morte, como testamento oral com o qual estes registros concordam exatamente.
As coisas que São Lucas escreveu já eram tidas como inteiramente certas e, portanto, bem conhecidas antes de ele as registrar. Quando foram escritas, porém, a tradição oral foi substituída e posta de lado, e esses escritos se tornaram o repositório do Novo Testamento.
Isso é indicado pelo título anteposto a muitas cópias gregas: Tes kaines Diathekes Hapanta — O Novo Testamento inteiro, ou tudo o que lhe pertence. Nele se declara todo o conselho de Deus a respeito de nossa salvação, Atos 20:27. Assim como a lei do Senhor é perfeita, também o evangelho de Cristo o é, e nada se deve acrescentar a ele. Temos tudo e não devemos esperar mais nada.
II. Temos diante de nós os quatro Evangelhos. Evangelho significa boa notícia ou boas-novas. A história da vinda de Cristo ao mundo para salvar os pecadores é, sem dúvida, a melhor notícia que já veio do céu à terra. Foi o anjo quem lhe deu esse nome (Lucas 2:10): Euangelizomai hymin — “Trago-vos boas-novas”; “trago-vos o evangelho”.
E o profeta a predisse, Isaías 52:7; 61:1. Ali foi predito que, nos dias do Messias, seriam pregadas boas-novas. Gospel é uma antiga palavra saxônica: é o spell, ou palavra, de Deus. E Deus é assim chamado porque é bom, Deus optimus — Deus excelentíssimo —; por isso, pode ser um bom spell, ou uma boa palavra.
Se tomarmos spell em seu sentido mais próprio, o de encanto (carmen), e este em bom sentido, como algo que comove e toca, capaz de lenire dolorem — acalmar o espírito — ou de suscitar admiração ou amor, como chamamos de encantador aquilo que é muito amável, o termo pode aplicar-se ao evangelho.
Pois nele o encantador encanta com sabedoria, ainda que diante de serpentes surdas, Salmos 58:4, 5. E não parece que algum encanto possa ser tão poderoso quanto o da beleza e do amor de nosso Redentor. O Novo Testamento inteiro é o evangelho. São Paulo o chama de seu evangelho porque foi um dos seus pregadores.
Ah, que cada um de nós o torne seu pela aceitação sincera e pela sujeição a ele! Contudo, costumamos chamar os quatro livros que contêm a história do Redentor de quatro Evangelhos, e seus escritores inspirados de evangelistas ou escritores dos Evangelhos.
Isso, porém, não é muito apropriado, pois esse título pertence a uma ordem específica de ministros que auxiliavam os apóstolos (Efésios 4:11): “Ele deu uns como apóstolos e outros como evangelistas”.
Era necessário que a doutrina de Cristo estivesse entrelaçada ao relato de seu nascimento, sua vida, seus milagres, sua morte e sua ressurreição, e nele fundamentada; assim ela aparece sob a luz mais clara e forte.
Tanto na natureza como na graça, as descobertas mais felizes são as que nascem de relatos seguros dos fatos. A história natural é a melhor filosofia; do mesmo modo, a história sagrada, tanto do Antigo como do Novo Testamento, é o veículo mais apropriado e agradável da verdade sagrada.
Esses quatro Evangelhos foram recebidos desde cedo e constantemente pela igreja primitiva, e lidos nas reuniões cristãs, como mostram os escritos de Justino Mártir e Irineu, que viveram pouco mais de cem anos depois da ascensão de Cristo. Eles declararam que a igreja não recebia nem mais nem menos que quatro.
Uma harmonia desses quatro evangelistas foi compilada por Taciano naquela época, sob o nome To dia tessaron — O Evangelho extraído dos quatro. Nos séculos terceiro e quarto, diversas seitas falsificaram evangelhos e os publicaram, um sob o nome de São Pedro, outro de São Tomé, outro de São Filipe, etc.
Mas a igreja nunca os reconheceu nem lhes deu crédito, como mostra o erudito Dr. Whitby. Ele apresenta esta boa razão para nos atermos a esses registros escritos: quaisquer que sejam as alegações em favor da tradição, ela não basta para preservar os fatos com segurança, como demonstra a experiência.
Pois, embora Cristo tenha dito e feito muitas coisas memoráveis que não foram escritas (João 20:30; 21:25), a tradição não nos preservou nenhuma delas. Tudo se perdeu, exceto o que foi escrito. Portanto, é ao registro escrito que devemos nos ater, e bendito seja Deus por termos esse registro ao qual nos ater: é a palavra segura da história.
III. Temos diante de nós o Evangelho segundo São Mateus. Seu escritor era judeu de nascimento e publicano por profissão, até que Cristo ordenou que o acompanhasse. Então deixou a coletoria de impostos para segui-lo e foi um daqueles que estiveram com ele durante todo o tempo em que o Senhor Jesus entrou e saiu entre eles, desde o batismo de João até o dia em que foi elevado, Atos 1:21, 22.
Portanto, era testemunha competente daquilo que registrou aqui. Diz-se que escreveu esta história cerca de oito anos depois da ascensão de Cristo. Muitos dos antigos afirmam que a escreveu em hebraico ou siríaco, mas essa tradição foi suficientemente refutada pelo Dr. Whitby.
Sem dúvida, ela foi escrita em grego, como as outras partes do Novo Testamento: não na língua particular dos judeus, cuja igreja e cujo Estado estavam perto do fim, mas na língua comum ao mundo, na qual o conhecimento de Cristo seria transmitido com maior eficácia às nações da terra.
É provável, contudo, que Mateus também tenha publicado uma edição em hebraico, na mesma época em que escreveu a grega: a primeira para os judeus, a segunda para os gentios, quando deixou a Judeia para pregar entre estes. Bendigamos a Deus por termos esse Evangelho numa língua que entendemos.
Este evangelista começa com o relato da ascendência e do nascimento de Cristo, dos antepassados dos quais descendeu e da maneira como entrou no mundo. Seu propósito é mostrar que ele era de fato o Messias prometido, pois fora predito que seria filho de Davi e nasceria de uma virgem; e aqui se demonstra claramente que assim foi. Temos aqui:
I. Sua genealogia desde Abraão, ao longo de quarenta e duas gerações, em três grupos de catorze, vv. 1-17. II. Um relato das circunstâncias de seu nascimento, na medida necessária para mostrar que nasceu de uma virgem, vv. 18-25. Assim, a vida de nosso bendito Salvador é escrita metodicamente, como a vida de qualquer pessoa deveria ser, para que seu exemplo seja exposto com maior clareza.
Versículos 1 a 17
A Genealogia de Cristo.
A respeito desta genealogia de nosso Salvador, observe:
I. Seu título. É o livro (ou o relato, como às vezes significa a palavra hebraica sepher, livro) da geração de Jesus Cristo, de seus antepassados segundo a carne; ou é a narrativa de seu nascimento. É Biblos Geneseos — um livro de Gênesis.
O Antigo Testamento começa com o livro da geração do mundo, e nisso está sua glória. Mas a glória do Novo Testamento o supera neste ponto: começa com o livro da geração daquele que fez o mundo. Como Deus, suas origens são desde os tempos antigos, desde a eternidade (Miquéias 5:2), e ninguém pode declarar essa geração.
Como homem, porém, ele foi enviado na plenitude dos tempos, nascido de mulher, e é essa geração que se declara aqui.
II. Seu propósito principal. Não é uma genealogia interminável ou desnecessária, nem vaidosa, como costumam ser as dos grandes homens. Stemmata, quid faciunt? — De que servem as linhagens antigas? É como uma genealogia apresentada como prova, para demonstrar um título e fundamentar uma reivindicação.
O desígnio é provar que nosso Senhor Jesus é filho de Davi e filho de Abraão e, portanto, pertence à nação e à família da qual o Messias devia surgir. Abraão e Davi foram, cada um em seu tempo, os grandes depositários da promessa referente ao Messias.
A promessa da bênção foi feita a Abraão e à sua descendência; a do domínio, a Davi e à sua descendência. Os que desejam ter parte em Cristo como filho de Abraão, em quem todas as famílias da terra serão abençoadas, devem ser súditos fiéis e leais dele como filho de Davi, por quem todas as famílias da terra serão governadas.
Foi prometido a Abraão que Cristo descenderia dele (Gênesis 12:3; 22:18), e a Davi que descenderia dele (2 Samuel 7:12; Salmos 89:3, etc.; Salmos 132:11). Portanto, a menos que se possa provar que Jesus é filho de Davi e filho de Abraão, não podemos admiti-lo como o Messias.
Isso é aqui provado pelos registros autênticos dos arquivos genealógicos. Os judeus eram muito rigorosos na preservação de suas genealogias, e havia nisso uma providência para esclarecer a descendência do Messias a partir dos pais.
Desde sua vinda, essa nação se dispersou e se misturou tanto que é duvidoso que alguém no mundo possa provar legalmente ser filho de Abraão. Certamente ninguém pode provar ser filho de Arão ou de Davi. Assim, os ofícios sacerdotal e real ou devem ser abandonados como perdidos para sempre, ou devem estar nas mãos de nosso Senhor Jesus.
Cristo é aqui chamado primeiro de filho de Davi, pois era sob esse título que os judeus costumavam falar dele e esperá-lo. Os que o reconheciam como o Cristo chamavam-no de filho de Davi, Mateus 15:22; 20:31; 21:15.
Assim, o evangelista se propõe a demonstrar que ele não é apenas um filho de Davi, mas aquele filho de Davi sobre cujos ombros repousaria o governo; não apenas um filho de Abraão, mas aquele filho de Abraão que seria pai de muitas nações.
Ao chamar Cristo de filho de Davi e filho de Abraão, mostra que Deus é fiel à sua promessa e cumprirá cada palavra que disse. Isso acontece: 1. Embora o cumprimento seja muito adiado. Quando Deus prometeu a Abraão um filho que seria a grande bênção do mundo, talvez ele esperasse que fosse seu filho imediato.
Mas verificou-se que seria um descendente distante quarenta e duas gerações e cerca de dois mil anos. Com tanta antecedência Deus pode predizer o que acontecerá; e, às vezes, só muito depois cumpre o que prometeu. Repare: a demora das misericórdias prometidas, embora exercite nossa paciência, não enfraquece a promessa de Deus.
- Embora se comece a perder a esperança de seu cumprimento. Esse filho de Davi e de Abraão, que seria a glória da casa de seu Pai, nasceu quando a descendência de Abraão era um povo desprezado, havia pouco submetido ao jugo romano, e quando a casa de Davi estava sepultada na obscuridade.
Pois Cristo devia ser raiz de uma terra seca. Repare: o tempo de Deus para cumprir suas promessas é aquele em que o cumprimento parece menos provável.
III. Sua série particular, traçada em linha direta desde Abraão, segundo as genealogias registradas no começo dos livros de Crônicas (até onde elas vão), e cuja utilidade vemos aqui. Podemos observar alguns detalhes nessa genealogia:
- Entre os antepassados de Cristo que tinham irmãos, ele geralmente descendeu de um irmão mais novo. Foi assim com o próprio Abraão, e com Jacó, Judá, Davi, Natã e Resa. Isso mostra que a preeminência de Cristo não veio, como a dos príncipes terrenos, da primogenitura de seus antepassados, mas da vontade de Deus.
Segundo o modo de agir de sua providência, Deus exalta os humildes e concede honra mais abundante à parte que dela carecia.
- Entre os filhos de Jacó, além de Judá, de quem veio Siló, mencionam-se aqui seus irmãos: “Judá e seus irmãos”. Ismael, filho de Abraão, e Esaú, filho de Isaque, não são mencionados porque foram excluídos da igreja. Todos os filhos de Jacó, porém, foram acolhidos.
Embora não fossem pais de Cristo, eram patriarcas da igreja (Atos 7:8). Por isso são mencionados na genealogia, para ânimo das doze tribos dispersas, dando a entender que elas têm parte em Cristo e se relacionam com ele tanto quanto Judá.
- Perez e Zerá, os filhos gêmeos de Judá, também são ambos nomeados, embora só Perez fosse antepassado de Cristo, pela mesma razão por que se mencionam os irmãos de Judá. Alguns julgam que isso ocorre porque o nascimento de Perez e Zerá tinha algo de alegórico.
Zerá estendeu primeiro a mão, como primogênito, mas a recolheu, e Perez ficou com o direito de primogenitura. A igreja judaica, como Zerá, foi a primeira a estender a mão para esse direito; mas, recolhendo-a por incredulidade, a igreja gentílica, como Perez, irrompeu e levou consigo o direito.
Assim, a cegueira veio em parte sobre Israel até que entre a plenitude dos gentios; então Zerá nascerá: todo Israel será salvo, Romanos 11:25, 26.
- Quatro mulheres, e apenas quatro, são nomeadas nesta genealogia. Duas eram originalmente estrangeiras à comunidade de Israel: Raabe, cananeia e também prostituta, e Rute, moabita. Pois em Jesus Cristo não há grego nem judeu; estrangeiros e forasteiros são bem-vindos, em Cristo, à cidadania dos santos.
As outras duas eram adúlteras, Tamar e Bate-Seba. Foi mais um sinal de humilhação imposto a nosso Senhor Jesus: não só descendeu de tais mulheres, como sua descendência delas é assinalada expressamente em sua genealogia, sem que se estenda um véu sobre isso.
Ele assumiu a semelhança da carne pecaminosa (Romanos 8:3) e acolhe até grandes pecadores, após seu arrependimento, na mais estreita relação consigo. Repare: não devemos censurar as pessoas pelos escândalos de seus antepassados. Elas não têm como evitá-los, e essa foi a sorte até dos melhores, inclusive do próprio Mestre.
O fato de Davi ter gerado Salomão daquela que fora esposa de Urias é mencionado (diz o Dr. Whitby) para mostrar que o crime de Davi, depois de seu arrependimento, estava longe de impedir a promessa que lhe fora feita: Deus teve por bem cumpri-la precisamente por meio dessa mulher.
Embora vários reis sejam nomeados aqui, nenhum é chamado expressamente de rei, exceto Davi (v. 6): “Davi, o rei”. Isso porque foi com ele que se fez a aliança da realeza e a ele se deu a promessa do reino do Messias, de quem, por isso, se diz que herdará o trono de seu pai Davi, Lucas 1:32.
Na linhagem dos reis de Judá, entre Jorão e Uzias (v. 8), três foram omitidos: Acazias, Joás e Amazias. Portanto, quando se diz que Jorão gerou Uzias, significa, conforme o uso da língua hebraica, que Uzias descendeu dele em linha direta.
Do mesmo modo se disse a Ezequias que os filhos que ele geraria seriam levados para a Babilônia, embora várias gerações os separassem dele. Não foi por engano ou esquecimento que esses três foram omitidos. É provável que já estivessem ausentes das tabelas genealógicas consultadas pelo evangelista, embora fossem aceitas como autênticas.
Alguns dão a seguinte razão: como o desígnio de Mateus era reduzir o número dos antepassados de Cristo a três grupos de catorze, para facilitar a memória, era necessário omitir três nesse período. Ninguém seria mais adequado que os descendentes imediatos da amaldiçoada Atalia, que introduziu a idolatria de Acabe na casa de Davi.
Por isso, essa marca foi posta sobre a família, e a iniquidade foi assim visitada até a terceira e a quarta geração. Dois desses três foram apóstatas; sobre pessoas assim Deus costuma pôr neste mundo a marca de seu desagrado. Todos os três desceram à sepultura com a cabeça ensanguentada.
- Alguns observam a mistura de bons e maus na sucessão desses reis. Por exemplo (v. 7, 8), o perverso Roboão gerou o perverso Abias; o perverso Abias gerou o bom Asa; o bom Asa gerou o bom Josafá; o bom Josafá gerou o perverso Jorão.
A graça não corre no sangue, nem o pecado dominante. A graça de Deus pertence a ele, e ele a concede ou retém como lhe agrada.
- O cativeiro da Babilônia é mencionado como um marco notável nessa linhagem, v. 11, 12. Considerando tudo, é admirável que os judeus não tenham desaparecido nesse cativeiro, como aconteceu com outras nações. Mas isso indica por que as correntes daquele povo continuaram a correr puras através daquele mar morto: deles, segundo a carne, viria Cristo.
“Não a destruais, porque nela há bênção”, a própria bênção das bênçãos, Cristo, Isaías 65:8, 9. Foi por consideração a ele que eles foram restaurados e que as desolações do santuário foram vistas com favor por amor ao Senhor, Daniel 9:17.
- Diz-se que Josias gerou Jeconias e seus irmãos (v. 11); por Jeconias entende-se aqui Jeoaquim, o primogênito de Josias. Mas quando se diz (v. 12) que Jeconias gerou Salatiel, esse Jeconias era filho daquele Jeoaquim que foi levado para a Babilônia e lá gerou Salatiel (como mostra o Dr. Whitby).
Quando se diz que Jeconias foi registrado como sem filhos (Jeremias 22:30), a explicação é esta: “Nenhum homem de sua descendência prosperará”. Diz-se aqui que Salatiel gerou Zorobabel, embora Salatiel tenha gerado Pedaías, e este tenha gerado Zorobabel (1 Crônicas 3:19).
Mas, como antes, o neto é frequentemente chamado de filho. É provável que Pedaías tenha morrido ainda em vida de seu pai e, assim, seu filho Zorobabel tenha sido chamado de filho de Salatiel.
- A linhagem é traçada não até Maria, mãe de nosso Senhor, mas até José, marido de Maria (v. 16), pois os judeus sempre contavam suas genealogias pela linha masculina. Maria, porém, pertencia à mesma tribo e família de José, de modo que, tanto pela mãe como pelo suposto pai, ele era da casa de Davi.
Ainda assim, seu direito a essa dignidade deriva de José, com quem, segundo a carne, ele não tinha relação real, para mostrar que o reino do Messias não se fundamenta na descendência natural de Davi.
- O centro em que todas essas linhagens se encontram é Jesus, chamado Cristo, v. 16. É ele quem foi desejado com tanta insistência e esperado com tanta impaciência. Nele pensavam os patriarcas quando desejavam tanto ter filhos, para que lhes coubesse a honra de entrar na linhagem sagrada.
Bendito seja Deus: não estamos hoje num estado de expectativa tão escuro e nublado como o deles, mas vemos claramente o que aqueles profetas e reis viam como por um espelho escuro. Se não for por nossa própria culpa, poderemos ter honra maior que aquela que eles tanto ambicionavam.
Pois os que fazem a vontade de Deus têm com Cristo uma relação mais honrosa que os que eram seus parentes segundo a carne, Mateus 12:50. Jesus é chamado Cristo, isto é, o Ungido, o mesmo que o nome hebraico Messias.
Ele é chamado “Messias, o Príncipe” (Daniel 9:25) e, muitas vezes, o Ungido de Deus (Salmos 2:2). Era com esse título que o esperavam: “És tu o Cristo, o ungido?” Davi, o rei, foi ungido (1 Samuel 16:13); também o foram Arão, o sacerdote (Levítico 8:12), e Eliseu, o profeta (1 Reis 19:16), e Isaías, o profeta (Isaías 61:1).
Cristo foi designado e capacitado para todos esses ofícios; por isso é chamado de Ungido, ungido com o óleo da alegria mais que seus companheiros. Desse seu nome, que é como unguento derramado, todos os seus seguidores são chamados cristãos, pois também receberam a unção.
Por último. Temos o resumo geral de toda esta genealogia no v. 17, onde ela é dividida em três grupos de catorze, assinalados por períodos notáveis. No primeiro, vemos a família de Davi surgir e despontar como a manhã. No segundo, vemos que floresce em todo o esplendor do meio-dia.
No terceiro, vemos que declina e diminui cada vez mais, até reduzir-se à família de um pobre carpinteiro; então Cristo dela resplandece, a glória de seu povo Israel.
Versículos 18 a 25
O Nascimento de Cristo.
O mistério da encarnação de Cristo deve ser adorado, não investigado indiscretamente. Se não conhecemos o caminho do Espírito na formação das pessoas comuns, nem como se formam os ossos no ventre de uma mulher grávida (Eclesiastes 11:5), muito menos sabemos como o bendito Jesus foi formado no ventre da bendita virgem.
Quando Davi admira a maneira como ele próprio foi formado em segredo e trabalhado com primor (Salmos 139:13-16), talvez fale no espírito da encarnação de Cristo. Encontramos aqui algumas circunstâncias do nascimento de Cristo que não constam de Lucas, embora o relato seja mais amplo lá. Temos aqui:
I. O noivado de Maria com José. Maria, mãe de nosso Senhor, estava prometida em casamento a José: não eram plenamente casados, mas estavam comprometidos. O propósito de se casarem fora declarado solenemente em palavras de futuro — referentes ao futuro —, e haviam prometido fazê-lo, se Deus permitisse.
Lemos sobre um homem que estava noivo de uma mulher e ainda não a tinha tomado por esposa, Deuteronômio 20:7. Cristo nasceu de uma virgem, mas de uma virgem prometida em casamento: 1. Para honrar o estado matrimonial e recomendá-lo como digno de honra entre todos, em oposição àquela doutrina de demônios que proíbe o casamento e põe a perfeição no estado de solteiro.
Quem foi mais favorecida que Maria em seu noivado? 2. Para proteger a reputação da bendita virgem, que, de outro modo, ficaria exposta. Convinha que sua concepção fosse resguardada por um casamento e, assim, justificada aos olhos do mundo.
Um dos antigos disse que era melhor que se perguntasse: “Não é este o filho de um carpinteiro?” do que: “Não é este o filho de uma prostituta?” 3. Para que a bendita virgem tivesse alguém que fosse o guia de sua juventude, o companheiro de sua solidão e de suas viagens, alguém que dividisse suas preocupações e fosse um auxílio adequado para ela.
Alguns pensam que José já era viúvo e que aqueles chamados irmãos de Cristo (Mateus 13:55) eram filhos dele com uma esposa anterior. Essa é a conjectura de muitos dos antigos. José era homem justo, e ela, mulher virtuosa.
Os crentes não devem unir-se em jugo desigual aos incrédulos. Os religiosos devem escolher casar-se com pessoas igualmente religiosas, se esperam o consolo dessa relação e a bênção de Deus sobre ela. Também podemos aprender com esse exemplo que é bom entrar no estado matrimonial com reflexão, não às pressas, e preceder as núpcias de um compromisso.
É melhor reservar tempo para pensar antes do que encontrar tempo para arrepender-se depois.
II. Sua gravidez da descendência prometida. Antes de se unirem, achou-se grávida, e a criança era, de fato, do Espírito Santo. O casamento foi adiado por tanto tempo depois do compromisso que ela aparentava estar grávida antes de chegar a hora da celebração, embora o compromisso tivesse sido firmado antes da concepção.
Provavelmente foi depois de voltar da casa de sua prima Isabel, com quem ficara três meses (Lucas 1:56), que José percebeu sua gravidez, e ela própria não a negou. Repare: aqueles em quem Cristo é formado o mostrarão; ficará evidente que se trata de uma obra de Deus, que ele reconhecerá como sua.
Podemos imaginar a perplexidade que isso, com razão, causaria à bendita virgem. Ela conhecia a origem divina da concepção, mas como poderia prová-la? Seria tratada como prostituta. Repare: depois de grandes e elevadas honras, devemos esperar algo que nos humilhe, para que elas não nos encham de orgulho.
Pode vir alguma censura, como um espinho na carne; ou melhor, como uma espada nos ossos. Nenhuma filha de Eva foi tão honrada como a virgem Maria e, no entanto, correu o risco de ser acusada de um dos piores crimes.
Não vemos, contudo, que se tenha atormentado com isso. Ciente de sua inocência, manteve a mente calma e tranquila e entregou sua causa àquele que julga com justiça. Repare: os que cuidam de conservar a boa consciência podem confiar alegremente a Deus a guarda de seu bom nome.
Eles têm razão para esperar que ele faça brilhar não só sua integridade, mas também sua honra, como o sol ao meio-dia.
III. A perplexidade de José e seu cuidado em decidir o que fazer nesse caso. Podemos imaginar quanta aflição e decepção lhe causou ver alguém a quem tanto estimava e tinha em tão alta conta cair sob a suspeita de crime tão grave. Era esta Maria?
Ele começou a pensar: “Como podemos nos enganar sobre aqueles de quem temos a melhor opinião! Como podemos nos decepcionar com aquilo de que mais esperamos!” Custa-lhe crer em algo tão mau a respeito de uma mulher que julgava tão boa. No entanto, o fato lhe parece grave demais para ser desculpado e claro demais para ser negado.
Que conflito isso provoca em seu peito entre, de um lado, o ciúme que é o furor do homem e é cruel como a sepultura e, do outro, o afeto que sente por Maria! Observe: 1. O extremo que ele procurou evitar. Não queria fazer dela um exemplo público.
Poderia tê-lo feito, pois, segundo a lei, uma virgem prometida em casamento que se prostituísse devia ser apedrejada até a morte, Deuteronômio 22:23, 24. Mas ele não quis valer-se da lei contra ela. Se fosse culpada, o fato ainda não era conhecido, e não seria por ele que se tornaria conhecido.
Como era diferente o espírito demonstrado por José daquele de Judá, que, em caso semelhante, proferiu às pressas a dura sentença: “Trazei-a para fora e seja queimada!”, Gênesis 38:24. Como é bom refletir sobre as coisas, como José fez aqui!
Se houvesse mais reflexão em nossas censuras e julgamentos, haveria neles mais misericórdia e moderação. Levar Maria à punição é chamado aqui de fazer dela um exemplo público. Isso mostra qual é o fim a ser buscado na punição: servir de aviso aos outros. É in terrorem — para que todos ao redor ouçam e temam.
Fere o escarnecedor, e o simples tomará cuidado. Pessoas de temperamento rigoroso censurariam José por sua clemência, mas ela é mencionada aqui em seu louvor. Justamente por ser homem justo, ele não quis expô-la.
Era um homem bom e religioso e, portanto, inclinado a ser misericordioso como Deus e a perdoar como alguém que havia sido perdoado. No caso de uma moça prometida em casamento, se fosse violentada no campo, a lei supunha caridosamente que ela havia gritado (Deuteronômio 22:26), e não devia ser punida.
José procuraria alguma interpretação benevolente para o ocorrido. Nisso se mostra justo: cuida do bom nome de alguém que nunca havia feito nada para manchá-lo. Repare: em muitos casos, convém sermos brandos com os suspeitos de alguma falta, esperar o melhor a respeito deles e interpretar da melhor maneira o que a princípio parece ruim, na esperança de que se revele melhor.
Summum jus, summa injuria — O rigor da lei é, às vezes, o cúmulo da injustiça. Chamamos de tribunal de equidade o tribunal da consciência que modera o rigor da lei. Aqueles em quem se encontra alguma falha talvez tenham sido surpreendidos em falta e, por isso, devem ser restaurados com espírito de mansidão. Mesmo quando justa, a ameaça deve ser moderada.
- A solução que encontrou para evitar esse extremo. Decidiu deixá-la secretamente, isto é, entregar-lhe uma carta de divórcio diante de duas testemunhas e, assim, manter o assunto entre eles. Por ser justo, ou seja, rigoroso observador da lei, não prosseguiria com o casamento e resolveu deixá-la.
Por ternura para com ela, porém, decidiu fazê-lo com a maior discrição possível. Repare: as censuras necessárias aos que cometeram faltas devem ser feitas sem alarde. As palavras dos sábios são ouvidas na quietude. O próprio Cristo não contenderá nem gritará.
O amor e a prudência cristãos esconderão uma multidão de pecados, até graves, tanto quanto isso puder ser feito sem ter comunhão com eles.
IV. José é libertado dessa perplexidade por uma mensagem expressa vinda do céu, v. 20, 21. Enquanto refletia sobre essas coisas e não sabia o que decidir, Deus bondosamente lhe mostrou o que fazer e o tranquilizou. Repare: os que desejam a direção de Deus devem refletir por si mesmos e ponderar consigo mesmos.
Deus guia os que pensam, não os irrefletidos. Quando José já não sabia o que fazer e havia levado o assunto tão longe quanto podia em seus próprios pensamentos, Deus interveio com um conselho. Repare: Deus costuma instruir seu povo quando ele se vê sem resposta e sem saber como avançar.
Os consolos de Deus mais alegram a alma em meio à multidão de seus pensamentos perplexos. A mensagem foi enviada a José por um anjo do Senhor, provavelmente o mesmo que havia anunciado a concepção a Maria: o anjo Gabriel.
A comunicação com o céu por meio de anjos, que honrara os patriarcas, mas havia muito deixara de ocorrer, começa agora a ser retomada. Quando o Primogênito está para ser trazido ao mundo, os anjos recebem a ordem de acompanhar seus passos.
Não podemos dizer até que ponto Deus hoje, de maneira invisível, se serve do ministério dos anjos para tirar seu povo das dificuldades. Temos certeza, porém, de que todos são espíritos ministradores para seu bem. Esse anjo apareceu a José em sonho enquanto ele dormia, como Deus às vezes falava aos pais.
Quando estamos mais tranquilos e serenos, temos a melhor disposição para receber as indicações da vontade divina. O Espírito se move sobre águas calmas. Sem dúvida, esse sonho trazia em si provas de que vinha de Deus e não era produto de uma fantasia vazia. Agora:
- José recebe aqui a orientação de levar adiante o casamento pretendido. O anjo o chama de “José, filho de Davi”, lembrando-lhe sua relação com Davi, para prepará-lo para a surpreendente notícia de sua relação com o Messias, que todos sabiam que descenderia de Davi.
Às vezes, quando grandes honras cabem a pessoas de poucos bens, elas hesitam em aceitá-las e se dispõem a abrir mão delas. Era, portanto, necessário lembrar a esse pobre carpinteiro sua nobre origem: “Reconhece teu valor. José, tu és aquele filho de Davi por quem será traçada a linhagem do Messias”.
Podemos dizer igualmente a todo verdadeiro crente: “Não temas, filho de Abraão, filho de Deus. Não te esqueças da dignidade de teu nascimento, de teu novo nascimento”. “Não temas receber Maria por tua mulher”: assim também se pode ler.
José suspeitava que ela tivesse engravidado por prostituição e temia recebê-la, para não trazer sobre si culpa ou descrédito. “Não”, diz Deus, “não temas; não é assim”. Talvez Maria lhe tivesse dito que sua gravidez vinha do Espírito Santo, e ele talvez tivesse ouvido o que Isabel lhe disse (Lucas 1:43), ao chamá-la de mãe de seu Senhor.
Se foi assim, José poderia temer a presunção de casar-se com alguém tão superior a ele. Mas, fossem quais fossem as causas de seus temores, todos foram silenciados por estas palavras: “Não temas receber Maria por tua mulher”. Repare: é grande misericórdia sermos libertos de nossos temores e vermos nossas dúvidas resolvidas, para podermos seguir com satisfação em nossos assuntos.
- José recebe aqui a informação sobre a santa criança de quem sua noiva estava grávida. O que nela foi concebido tem origem divina. Longe de correr o risco de participar de uma impureza ao casar-se com ela, ele participará da maior honra que poderia receber. Duas coisas lhe são ditas:
(1.) Que ela havia concebido pelo poder do Espírito Santo, não pelo poder da natureza. O Espírito Santo, que produziu o mundo, agora produziu o Salvador do mundo e lhe preparou um corpo, como lhe fora prometido quando disse: “Eis que venho”, Hebreus 10:5.
Por isso se diz que ele nasceu de mulher (Gálatas 4:4) e, ainda assim, é o segundo Adão, o Senhor do céu, 1 Coríntios 15:47. É o Filho de Deus e, no entanto, participa da substância de sua mãe a ponto de ser chamado de fruto de seu ventre, Lucas 1:42.
Era necessário que sua concepção ocorresse de outro modo que não pela geração comum. Assim, embora participasse da natureza humana, escaparia à corrupção e à contaminação dela, sem ser concebido e formado em iniquidade.
As histórias nos falam de algumas pessoas que alegaram em vão ter concebido por poder divino, como a mãe de Alexandre. Ninguém, porém, o fez de fato, exceto a mãe de nosso Senhor. Seu nome, nisso como em outras coisas, é Maravilhoso.
Não lemos que a virgem Maria tenha proclamado a honra que recebeu: guardou-a em seu coração, e por isso Deus enviou um anjo para atestá-la. Os que não buscam a própria glória receberão a honra que vem de Deus; ela está reservada aos humildes.
(2.) Que ela daria à luz o Salvador do mundo (v. 21). “Ela dará à luz um Filho”. O que ele será é indicado:
[1.] Pelo nome que se deveria dar a seu Filho: “Chamarás o seu nome Jesus”, um Salvador. Jesus é o mesmo nome que Josué, tendo-se mudado apenas a terminação para adaptá-lo ao grego. Josué é chamado Jesus (Atos 7:45; Hebreus 4:8) na Septuaginta.
Havia dois homens com esse nome no Antigo Testamento, e ambos foram tipos ilustres de Cristo: Josué, capitão de Israel quando o povo se estabeleceu pela primeira vez em Canaã, e Josué, seu sumo sacerdote quando se estabeleceu pela segunda vez, depois do cativeiro, Zacarias 6:11, 12.
Cristo é nosso Josué: tanto o Capitão de nossa salvação como o Sumo Sacerdote de nossa confissão e, em ambos os ofícios, nosso Salvador. É um Josué que vem no lugar de Moisés e faz por nós o que a lei não podia fazer por causa de sua fraqueza.
Josué antes se chamava Oseias, mas Moisés acrescentou a primeira sílaba do nome Jeová e, assim, formou Jeosué (Números 13:16). Com isso indicou que o Messias, que receberia esse nome, seria Jeová. Por isso ele pode salvar plenamente, e não há salvação em nenhum outro.
[2.] Pela razão desse nome: “Ele salvará o seu povo dos seus pecados”. Não apenas a nação dos judeus (veio para os seus, e eles não o receberam), mas todos os que lhe foram dados pela escolha do Pai e todos os que se entregaram a ele por sua própria escolha.
Ele é um rei que protege seus súditos e, como os antigos juízes de Israel, opera a salvação em favor deles. Repare: aqueles a quem Cristo salva, ele os salva de seus pecados: da culpa do pecado, pelo mérito de sua morte, e do domínio do pecado, pelo Espírito de sua graça.
Ao salvá-los do pecado, salva-os da cólera e da maldição, e de toda miséria nesta vida e na futura. Cristo veio salvar seu povo, não em seus pecados, mas de seus pecados; comprar-lhes não a liberdade para pecar, mas a liberdade dos pecados; remi-los de toda iniquidade (Tito 2:14).
Assim, ele os redime dentre os homens (Apocalipse 14:4) para si mesmo, que está separado dos pecadores. Portanto, os que abandonam seus pecados e se entregam a Cristo como povo seu têm parte no Salvador e na grande salvação que ele realizou, Romanos 11:26.
V. O cumprimento da Escritura em tudo isso. Este evangelista, que escrevia entre os judeus, observa esse cumprimento com mais frequência que os outros. Aqui as profecias do Antigo Testamento se cumpriram em nosso Senhor Jesus. Isso mostra que ele era aquele que devia vir e que não devemos esperar outro, pois todos os profetas deram testemunho dele.
A passagem cumprida no nascimento de Cristo foi a promessa de um sinal que Deus deu ao rei Acaz (Isaías 7:14): “Eis que uma virgem conceberá”. Nela o profeta anima o povo de Deus a esperar a libertação prometida da invasão de Senaqueribe e dirige seu olhar para o Messias, que viria do povo judeu e da casa de Davi.
Daí era fácil concluir que, embora o povo e a casa de Davi estivessem aflitos, nenhum dos dois poderia ser abandonado à ruína enquanto Deus lhes reservasse honra e bênção tão grandes. As libertações que Deus realizou para a igreja do Antigo Testamento foram tipos e figuras da grande salvação por Cristo. Se Deus fará o maior, não deixará de fazer o menor.
A profecia citada aqui começa, com razão, por “Eis”, palavra que exige atenção e admiração. Pois aqui temos o mistério da piedade, reconhecidamente grande: Deus foi manifestado em carne.
- O sinal dado é que o Messias nascerá de uma virgem. “Uma virgem conceberá”, e por meio dela ele se manifestará em carne. A palavra Almah significa virgem no sentido mais estrito, como Maria declara ser (Lucas 1:34): “Não conheço homem”. Se fosse de outro modo, não teria sido o sinal maravilhoso que se pretendia.
Desde o princípio se indicou que o Messias nasceria de uma virgem, ao se dizer que seria a descendência da mulher: seria descendência da mulher sem ser descendência de homem algum. Cristo nasceu de uma virgem não apenas porque seu nascimento devia ser sobrenatural e inteiramente extraordinário, mas também porque devia ser imaculado, puro e sem mancha de pecado.
Cristo nasceria não de uma imperatriz ou rainha, pois não apareceu com pompa ou esplendor exterior, mas de uma virgem. Isso nos ensina a pureza espiritual, a morrer para todos os prazeres dos sentidos e a nos manter sem mancha do mundo e da carne, para sermos apresentados a Cristo como virgens castas.
- A verdade comprovada por esse sinal é que ele é o Filho de Deus e o Mediador entre Deus e os homens, pois “chamarão o seu nome Emanuel”. Isto é, ele será Emanuel. Quando se diz “será chamado”, quer-se dizer “será”: o Senhor, justiça nossa.
Emanuel significa “Deus conosco”: nome misterioso, mas muito precioso. É Deus encarnado entre nós e, portanto, Deus com quem a reconciliação é possível, que está em paz conosco e nos acolhe em aliança e comunhão consigo.
O povo judeu tinha Deus consigo em tipos e sombras, habitando entre os querubins, mas nunca como quando o Verbo se fez carne. Essa foi a bendita Shechinah. Que passo feliz se deu assim para estabelecer paz e relacionamento entre Deus e o ser humano, quando as duas naturezas se uniram na pessoa do Mediador!
Por isso ele se tornou um árbitro incontestável, um mediador apto a pôr a mão sobre ambas as partes, pois participa da natureza das duas. Veja nisso o mais profundo mistério e a mais rica misericórdia que já existiram.
À luz da natureza, vemos Deus acima de nós; à luz da lei, vemos Deus contra nós; mas, à luz do evangelho, vemos Deus como Emanuel, Deus conosco, em nossa própria natureza e, mais ainda, em nosso favor. Nisso o Redentor mostrou seu amor.
Podemos comparar o nome de Cristo, Emanuel, com o nome dado à igreja do evangelho (Ezequiel 48:35): Jehovah Shammah — “O Senhor está ali”; o Senhor dos Exércitos está conosco.
Tampouco é impróprio dizer que a profecia de que ele seria chamado Emanuel se cumpriu, em seu desígnio e intenção, quando foi chamado Jesus. Pois, se ele não fosse Emanuel — Deus conosco —, não poderia ser Jesus — um Salvador.
Nisto consiste a salvação que ele realizou: em unir Deus e os homens. Esse era seu desígnio: trazer Deus para estar conosco, o que é nossa grande felicidade, e levar-nos a estar com Deus, o que é nosso grande dever.
VI. A obediência de José à ordem divina (v. 24). Despertado do sono pela impressão que o sonho lhe causara, ele fez conforme o anjo do Senhor lhe ordenara, embora isso contrariasse suas opiniões e intenções anteriores: recebeu sua esposa.
Fez isso prontamente, sem demora, e de bom grado, sem discutir. Não foi desobediente à visão celestial. Hoje não devemos esperar uma direção extraordinária como essa; Deus, porém, ainda tem meios de revelar sua vontade nos casos duvidosos: indicações de sua providência, debates da consciência e conselhos de amigos fiéis.
Aplicando a cada um desses meios as regras gerais da palavra escrita, devemos, portanto, buscar a direção de Deus em todos os passos da vida, especialmente nas grandes viradas, como a de José. Descobriremos que é seguro e consolador fazer o que ele nos ordena.
VII. O cumprimento da promessa divina (v. 25). Ela deu à luz seu filho primogênito. As circunstâncias são relatadas mais amplamente em Lucas 2:1, etc. Repare: o que é concebido pelo Espírito Santo nunca resulta em aborto; certamente virá à luz em seu tempo.
O que vem da vontade da carne e da vontade do homem muitas vezes fracassa. Mas, se Cristo for formado na alma, foi o próprio Deus quem começou a boa obra que completará. O que é concebido na graça sem dúvida virá à luz na glória.
Observa-se ainda aqui: 1. Embora José tenha celebrado o casamento com Maria, sua noiva, manteve distância dela enquanto estava grávida dessa santa criança: não a conheceu até ela dar à luz. Muito se tem dito a respeito da virgindade perpétua de Maria; Jerônimo irritou-se muito com Helvídio por negá-la.
É certo que ela não pode ser provada pela Escritura. O Dr. Whitby inclina-se a pensar que, ao dizer que José não a conheceu até que ela deu à luz seu primogênito, o texto indica que depois, cessada a razão para a abstinência, ele viveu com ela conforme a lei, Êxodo 21:10.
Cristo era o primogênito, e assim podia ser chamado mesmo que sua mãe não tivesse outros filhos depois dele, segundo a linguagem da Escritura. Tampouco é sem mistério que Cristo seja chamado de primogênito dela: ele é o primogênito de toda criatura, isto é, o Herdeiro de todas as coisas, e o primogênito entre muitos irmãos, para que em tudo tenha a preeminência.
José lhe deu o nome de Jesus, conforme a orientação recebida. Uma vez que Deus o designou para ser o Salvador, como indicou ao lhe dar o nome de Jesus, devemos aceitá-lo como nosso Salvador e, em concordância com essa designação, chamá-lo Jesus, nosso Salvador.